Terça-feira, 22 de Fevereiro de 2005
Europa, Europa!Em Espanha passou-se qualquer coisa de extraordinário. A análise e o juízo políticos do referendo de anteontem recaiu, não tanto no "Sim" ou no "Não", mas antes na arbitrária fasquia dos 40 % de abstenção. Era aí, nessa barreira, nessa medida - não sei com que legitimação - que se decidia a vitória do PP ou do PSOE. E este último acabou por vencer com alguma dose de imprevisibilidade. Estranha forma de vida. Mas tudo isto é a prova provada de que, nos referendos, se vota muito mais no imediato, na conjuntura, nas clivagens paroquiais do que naquilo que é referencialmente posto à votação.
Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2005
BérubéSabiam que existe um óptimo blogue sobre inteligência artificial que se chama Bérubé?
Balança?Ainda não sei como foram recebidos os resultados eleitorais na blogosfera. Tenho que fazer uma viagem. Mas acho que a falta de euforia dos vencedores equilibra o vacuísmo* dos vencidos.
(...mas nada de tirar importância ao jogo do Benfica logo à noite. Esta coisa das eleições enche os noticiários e parece querer tapar o mais importante. Já se sabe: Sport TV às 20.30h. Apareçam cá em casa)
* filosofia que preconiza a existência do vazio para além do mundo.
"Estou-me nas tintas!"Só estala o verniz num espaço onde antes foi cultivado, forçado e estriado o próprio verniz. E "Deus" ajuda sempre. É esse o registo patético que não ensombra, é evidente, a frontalidade. Falo de Portas, do mano mais novo.
(Por outro lado, foi nesse momento - "e estou-me nas tintas para..." - que senti que o Paulo Portas se tinha sentido realmente livre pela primeira vez desde 1998. Não devo andar muito enganado)
(E... Nobre Guedes foi eleito por Coimbra? Tenho que ir ler melhor os jornais)
Não há uma esquerda vencedoraHá, quando muito, aquilo que pode ser designado por duas esquerdas feéricas que clamam e reivindicam infinitas vitórias.
E, do outro lado, há Sócrates.
A euforia do mesmo saco não pertence, e ainda bem, ao território de que agora se espera um governo.
(Entretanto, lembremo-nos de que Portugal tem 730 000 funcionários públicos, 2 591 000 pensionistas da Segurança Social, 477 000 reformados e pensionistas da Caixa Geral de Aposentações, 307 000 beneficiários do subsídio de desemprego, 351 000 beneficiários do RMI.
Número total: 4.456.000 em 10 milhões de habitantes. Com a família mais próxima este número torna-se, ele sim, numa assustadora maioria absoluta)
(Entretanto, lembremo-nos de que as prestações sociais do estado português aumentaram de 14 para 17 por cento do PIB entre 2000 e 2003 - 6,1 milhões de euros. Esse crescimento correspondeu a 90 por cento do aumento das cobranças fiscais no mesmo período - 6,8 milhões de eutros)
O que sobra às cinzas (Act.)O importante na maioria absoluta do PS é não ficar preso à retórica do BE/PCP. Sócrates terá que fazer contas e seguir em frente. Sem esquecer que há pares, é certo, mas levando apenas à prática o que se propôs de facto levar à prática. Sem se ir embora, sem dar continuação ao fantasma das fugas e repondo a noção material do cumprimento dos ciclos politicos. Hoje em Portugal, terá que haver alguma obstinação e até alguma indiferença ao ruído para se fazer o que é normal, por exemplo, em Espanha.
Isto não impede outras incertezas (ver posts em baixo e lembrar a quase ausência de euforia que ontem percorreu as ruas).
Actualizando: tive a ligeira sensação - isto é uma ironia - de que Sócrates não foi capaz de fazer aquilo a que se chama "um discurso de vitória".
Pensa bem, Sócrates!Como dar volta a isto? -
"Com um crescimento económico à taxa média anual de 2,2 por cento (1990-2003), a diminuição dos custos com o "pessoal" para 13 por cento do PIB (2008) e 11 por cento (2012) e o aumento das "prestações sociais" à taxa anual de 7,5 por cento (2000-2003), as "despesas correntes primárias" atingiriam os 43 por cento (2008) e os 47 por cento do PIB (2012), níveis insusceptíveis de financiamento fiscal. Neste quadro hipotético, a estabilização das "despesas correntes primárias" ao nível dos 40 por cento pressuporia uma década de crescimento económico à taxa média de 4 por cento."
(Medina Carreira, em O Público)
Dependências"Os partidos dificilmente correspondem a essa necessidade de mudança, porque se sentem limitados pela Europa, pela economia, pela pobreza, pelo peso do Estado, e isto prolongando-se durante muito tempo, por vários ciclos eleitorais – e de alguma maneira, desde as maiorias absolutas de Cavaco Silva, os ciclos eleitorais reproduzem uma certa impotência política –, penso que pode ser um problema muito grave."
(José Pacheco Pereira, em A Capital)
Sem dramas"Não creio que seja aqui o lugar de comentários alarmistas ou apocalípticos, estamos numa gestão – pode não ser uma coisa muito entusiasta, mas eu penso que o difícil em Portugal é nós entrarmos no nosso próprio presente."
(Eduardo Lourenço em A Capital)
Diagonais - 7O argumento típico da “cultura do livro” relativo à diagonal aparece espelhado no Dicionário da Academia com máxima clareza: “ler em/ na diagonal -- ler rapidamente, de uma forma superficial, percorrendo o texto em ziguezague, em viés”.
Juro que adoro, com o devido sorriso, esta linguagem dos dicionários.
É extraordinária a expressão “ziguezague”. De tal modo que nos leva imediatamente para os patins que resvalariam numa pista de gelo onde cada cristal seria uma palavrinha arrumada, douta e digerida. Esse tipo de ágil deriva ou percurso sobre “o texto” é visto, no dicionário, como exageradamente rápido e superficial. Como se o movimento e a superfície fossem inimigos da compostura e do saber. Aos partidários dessa visão almofadada, aconselho um autor hoje muito na moda: José Gil e o seu livro de 1996 sobre a imagem-nua e as pequenas percepções, do qual deixo aqui um delicioso extracto (p.40):
“O olhar escava a visão. A vista é o único sentido que adquire (assim) uma profundidade interna: o olhar reenvia para o interior do corpo (como para o sem-fundo da alma). A profundidade do tacto depressa se torna superfície; a profundidade do ouvido não existe enquanto tal, mas apenas como engendramento de uma superfície interna, ou de um espaço volumétrico - ambos limitados; a profundidade do olfacto dissolve-se no difuso; a do gosto, esgota-se na assimilação do corpo. Só a vista, através do olhar, penetra até a um sem-fundo”
Não terá sempre o livro tido o seu próprio “sem-fundo”, ao contrário do que pretenderão os cultores da cultura do livro?
Não será “o fundo” do livro - o tal que torna pejorativa a leitura em diagonal - uma grande ilusão de perspectiva (como a dos cenários pictóricos pós-quattrocento)?
Ou será que apenas blogues sabem viver deste “sem-fundo”, onde a diagonal é rainha do seu próprio reino chamado rede?
(esclarecimento: eu sou uma pessoa dividida entre dois amores profundos: o amor pela cultura do livro e o amor pela imaterialidade dos blogues, Por este último, o amor é mais apaixonado, visceral, encantatório. Pelo primeiro, o amor é mais conformado, temperado ou até místico. Daí que a “diagonal” se torne num tema escaldante!)
Diagonais -6Sabem qual foi o ponto-ómega literário das diagonais (falemos agora de escrita e não de leitura)?
Foi a famosíssima “chuva oblíqua” do Fernando Pessoa.
(no meu apartamento de Amesterdão, lembro-me que havia uma parede quase toda coberta com um pano minimalista onde apareciam estampadas as formas de uma chuva oblíqua. Há figuras que obsessiva e secretamente nos perseguem. Iconologias pessoais.
Diagonais - 5Pergunta: será que eu leio em diagonal aquilo que escrevo?
Resposta: tanto quanto o talhante. Ou seja: o suficiente para não cortar os dedos.
Diagonais - 4O que é que terá em comum “ler muito muito em diagonal” a Constituição Europeia, os programas dos partidos, ou os regulamentos da arbitragem?
Mais do que o real valor da economia na nossa vida, alguma inteligência.
O terreno dos blogues? Talvez seja apenas uma pressentimento. Ou uma espécie de profecia invertida que parte do futuro em direcção aos fragmentos do presente. Ou um simples paraíso onde se sentem novos impactos: ideias fugazes, argumentos em construção, quotidianos em curso, fragmentos imperfeitos e encapelados, etc.
O ser dos blogues vive na razão inversa das correcções e depurações que são próprias da cultura do livro. Na escala do imediato, fica sempre por dizer aquele corpo que a linguagem um dia diria.
Sim, a cultura do livro sempre idealizou que a linguagem, um dia, iria dizer tudo (de cima para baixo): o futuro, a salvação, a escatologia, a ética, a teodiceia, tudo.
Mas aquilo que se diz na escala do imediato equivale tão-só a uma luz muita viva que já chegou, mas que ainda não chegou a ser. Um corpo dinâmico apenas feito de cometas que se cruzam. Em rede.
Eleições?Só de lembro, agora, de uma frase do Partido Humanista, ouvida ontem - sexta-feira -, por mero acaso, quando atravessava a ponte 25 de Abril: “Defendemos a eleição directa dos juízes”. Óptimo.
Sábado injustoÉ sábado, fim de tarde, tom azulado, solar, um pombo a desenhar o arco levíssimo do céu até pousar na abside quadrangular da igreja. Granito claro e alvenaria puída, suja, áspera, memorial. Volto a olhar para o tampo da mesa onde sou absorvido pelo perímetro irregular do monitor, pixels, ícaros minúsculos, espuma de tempestade errante.
Enfim, seja como for, escrevo no Word porque estou sem internet. Desde Sexta-feira de manhã que, inexplicavelmente, deixei de ter ligação. Sem mais, pum pum, foi assim mesmo como quem diz - Ah! Não queres saber da campanha, então toma!
Um dos dramas dos dias de hoje é conseguir chamar um técnico a casa, mesmo pagando bem. É um deserto de oferta à nossa volta. Parece que este tipo de procura tecnológica não é contemplado no mercado com uma oferta de jeito, mínima, apetrechada, séria. Se se tratasse de uma pizza, a coisa não seria bem assim. Até porque esse choque, já Portugal muito assimilou há muito tempo: é o famoso “choque das massas”, ou da fast food rapidinha a sorrir sem freios da sã obesidade e sempre à boleia das motorizadas de estrompido arreliante. Há dias e há horas, dessas pessoanas, urgentes, pungentes como as que são cantadas no cais da Ode, em que me sabe mesmo bem devorar uma dessas iguarias liofilizadas. É a Ceia depois da Ode, ou não fosse esse o étimo vulgar e plebeu da Odisseia (Charlotte não me batas!). Adoro, de vez em quando, só para arreliar os puristas, um belo hamburger encrostado, um pizza ainda a lembrar a gelo, um croquete estaladiço com um ou outro vestígio de esferovite. Nesse campo, já eu, e já todos nós interiorizámos o choque. Falta o outro, o tecnológico.
Perceberam a falta? Mas esse, dizem os peritos, é um tipo de choque que apenas nos irá abalar daqui a uns dez anos. Receita finlandesa. E até lá, perguntou eu?
Vou ficar aqui à espera de alguma empresa “24 hours a day” que se desloque de helicóptero até ao meu pátio encantado? É isto, afinal, a “wireless” (- Eles falam tanto tanto! - Fiquei a gostar mais do Ricardo, sinceramente, desde que soube que ele pertence à mesma maioria absoluta a que eu, o Pedro Mexia e mais seis milhões E MEIO de bons portugueses pertencem)?
AvisoTenho estado sem rede desde Sexta-feira de manhã. Espero estar de volta no início da tarde de hoje (publicarei então os posts que tenho escritos no Word).
Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2005
Diagonais - 3
Contudo... a diagonal continua a ser um problema polémico e divergente. Veja-se: ler um jornal em diagonal é normal. Suspeitar que um ministro não conhece os dossiês (lê-os em diagonal) é terrível; já faz perder eleições. Ler as intruções de um software em diagonal pode ser perigoso. Mas andar na Diagonal, em Barcelona, pode ser fantástico (também depende como, com quem e quando). Agora a sério, retomarei o tema.
Diagonais - 2
Continuando a nossa conversa da manhã: não acham que "ler em diagonal" (trata-se de uma expressão ligada à cultura do livro) não é, de certo modo, uma longínqua antecipação da expressão marcadamente contemporânea "navegar/surfar na rede"?
Em ambas o olhar desliza à procura de sentidos que vão unindo elementos dispersos, à medida que se vai formando uma compreensão, também ela deslizante, mas profundamente intuitiva e certamente em forma de um rasgo que apela à manobra maior da inteligência.
Estou certo disso. E qualquer crítico - não me refiro agora ao professor Marcelo - que diga em voz alto o que faz, no dia a dia. Só poderá confirmá-lo. Estou também certo disso. Sem hipocrisias desnecessárias. Até porque uma certa "moralidade" tradicional da leitura, nos tempos que correm, tende mais a confundir-se com ingenuidade provecta do que propriamente com a verdade pura e dura. Ainda estou mais certo disso.
Retomarei o tema.
Aberturas – 2 (ou ainda a guerra entre blogues e a “mainstream media”)
Mais episódios aqui. A coisa parece agudizar-se.
Ócios iraquianosVeja-se este precioso sinal dos tempos vindo directamente do Iraque (blogue Iraq the Model):
"Maybe the reason for not writing much these days is because of the current situation in Iraq; the elections are over and the results have been announced so there's nothing BIG to reason or to write about.Also, there aren't any remarkable changes in the everyday life in Iraq recently; although the security situation has somewhat improved in Baghdad but still not to the degree that makes a difference. Less explosions and gunfire are heard but criminal gangs still perform their attacks so the citizens of Baghdad are still cautious."
Já não sei quem disse que o tema central do trabalho literário do Eça era precisamente o ócio. Tirando os "gangs" e outras desventuras, cada qual na sua escala e época. É claro.
Aberturas - 1Ainda seguindo o pretexto da demissão de Eason Jordan da CNN, vale a pena ler este artigo de Elizabeth Spiers sobre a relação entre "blogging" e a (altivamente) designada "mainstream media".
Os casos por cá ainda não constituem uma dramatização com a que é aqui narrada. Mas já há uns sinais. Não há?
Diagonais - 1
Glenn Reynolds apresentou no seu blogue dois (novos) livros de Tony Daniel. Do primeiro, Metaplanetary, disse Glenn ter gostado e até testemunhou o facto com alguma ênfase. Quando ao segundo, limitou-se a afirmar: " (and) Superluminal, which I haven't read yet, but which looks quite good (...)".
É por essas e por outras, talvez, que ninguém ousa, pelo menos em vida, desdenhar o trabalho de William Shakespeare.
Mas, por outro lado, qual é o mal de ler e apreender um livro pela diagonal? (acho que a diagonal é mesmo um bom tema para desenvolver aqui nos próximos dias. Que acham?)
Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 2005
Passe pelos irmãos Minion (em Inglês) e Minitempo (Memória)
Transa Atlântica
O Ritornello, programa da Antena 2 de Jorge Rodrigues e Maria dos Anjos Pinheiro, de que sou incondicional fã, tem estado a ser emitido a partir do Brasil. Um óptimo som, uma óptima atmosfera, uma grande serenidade e, hoje, com a voz de Tomás (de Aquino Carmelo) Alcaide, senti um especial sentido de proximidade.
CiberamorAaron Ben-Ze'ev acaba de escrever um livro sobre as paixões que podem invadir-nos neste mundo muito particular: Love Online: Emotions on the Internet. O livro, tal como Yuval Dror testemunhou, compara "amor à primeira vista e "love at first chat". Mas não só:
"Ben-Ze'ev writes that this kind of love is based on a "personality cult" in which someone who has certain good qualities is assumed to have others. To illustrate this, Ben-Ze'ev provides quotes from people who say they fell in love with an on-line partner from their very first conversation. He uses this effective strategy throughout the book, which is interspersed with hundreds of quotes (some of them quite charming) from people talking about their on-line experiences".
Já agora, qual é a sua experiência neste campo tão singular?
(via Minion)
Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2005
O impacto dos bloguesSobre recentes demisões na CNN e sobre o impacto dos blogues no Reino Unido vale a pena ler este artigo de Rhys Blakely no Times On-Line.
VeracidadesEntão não é que o livro de estilo do The New York Times proíbe o uso da expressão “bullshit”! Trata-se de um caso terrível para um ensaísta como Harry Frankfurt e sobretudo para o seu recente ensaio, “On Bullshit". Lawrence Solum não tem dúvida: é coisa que vale a pena ler. O pior é a elipse mediática (via Minion).
Movimento blogosféricoOlhares Algarvios (textos extraídos de um romance, de duas novelas e de um ensaio) no Minitempo, o blogue subcutâneo do Miniscente. E ainda dois poemas em Inglês no novo Minion (o blogue onde "the road seemed to go on and on").
DisplicênciasUm bom exemplo de como o "corporativismo" jornalista (a expressão não é pejorativa), às vezes, está ainda a milhas do tempo de abertura omnipolitana em que vivemos é a crónica que aparece hoje no Público, assinada por José Vitor Malheiros.
Vejamos esta parte subtil onde os blogues aparecem referidos:
"Que a lógica displicente de produção de um blogue (que na origem é um diário pessoal) tenha penetrado no próprio jornalismo e no relato dos factos é mais grave. Mais do que relatores, os jornalistas tornaram-se comentadores, fontes de apartes, piscadelas de olho e cotoveladas cúmplices no leitor. Como esta campanha eleitoral mostrou à saciedade (mas já vem de longe), os jornalistas têm uma dificuldade cada vez maior em guardar para si próprios os seus sentimentos e conjecturas, as suas opiniões ou os boatos de que têm conhecimento e acham que eles merecem a glória do blogue, quando não da radiodifusão ou da impressão."
Sem comentários.
Uma outra parte bastante palpitante deste texto é a referência à "verdade" (basta clicar e ler) e sobretudo a sempre ocultada natureza dos seus destinatários que, ao fim e ao cabo, secretamente motivam - e de que maneira - toda a enunciação do encolerizado relato.
É mesmo verdadeNo dia seguinte, vimos ao longe, muito ao longe, uma caravana de mercadores. Era um cortejo lento e de tons claros a disputar as hastes do horizonte, já de si um belo e único prodígio de fôlego. No fundo da tela mais do que irreal, o movimento ondulado dos animais e o esfumar esmiuçado das figuras avançava. Personagens de fumo esbatidas na linha quase translúcida que mal separava o azul amplo do céu e a indefinida limpidez do areal avançavam. E tal como magicamente apareceu assim também se desfez esta visão, no último cabo do olhar com que nos era dada a perspectiva. Ou talvez a ilusão. Ou ainda o sortilégio inexplicável e fino do amanhecer.
(continuo a escrever, já se vê)
É verdadeJá tudo aconteceu no deserto:
já aqui se cruzaram oceanos, florestas luxuriantes, rios caudalosos, savanas intempestivas, praias temperadas e desalentos estépicos. Toda essa lembrança aparece agora distentida no horizonte, grão a grão, cacto a cacto, esqueleto a esqueleto, miragem a miragem, memória a memória. Aqui a morte e a vida, o pecado e a virtude, a brancura e a treva igualam-se. O que deve ser e o que pode ser equiparam-se. Sobra sempre a distância, o extremo, a voz erma, o som dos violinos, o desejo.
(continuo a escrever, já se vê)
A NoiteEstava reclinada sobre a noite
a entrever as giestas e um desses volumes
de alvenaria que vão dar à alma
era a impressão nítida de não haver mais nada
dizia
Vermeer
o pintor
teria gostado de ver
voaria através da luz inclinada
e dessa penumbra inventaria a noite
que o rio antigo absorveu.
The Night
She was reclining on the night
glancing at broom shrubs and one of those blocks
of masonry that lead to the soul
there was a clear sense of nothing else existing
she said
Vermeer
the painter
would have liked to see it
he would fly through the oblique light
and from that shadow invent the night
the ancient river absorbed.
(tradução de Bernardo Palmeirim)
Segunda-feira, 14 de Fevereiro de 2005
Mitologia dos brandos abalos
O país tornou-se subitamente numa menina frágil e susceptível, dessas pré-rafaelitas pintadas por Rossetti. Qualquer evento, qualquer estrela cadente, qualquer aceno mais discreto parece logo gerar uma volta ao mundo, uma ofensa, uma praga ou um pasmo desnecessários. Decreta-se um luto sem sentido. Os partidos suspendem ou moderam campanhas. A respeitabilidade torna-se num elefante agitado e ruidoso dentro da cristaleira. A demagogia apressa-se a envenenar a seriedade, enquanto os reizinhos ficam subitamente nus, sem tanga, sem fio dental, sem nada. Diante de todos. E os iluminados que quereriam convocar a questão religiosa, hoje, em Portugal, acabam por mostrar-se tão ridículos como aqueles que impusessem, à força, a discusão pública acerca das diferenças entre Gungunhana e Zurara. Uma farsa. Tristeza. Pensam que é assim que ganham votos?
A democracia precisava, neste momento, de um pouco mais de dignidade. E a ética, qualquer ética, mesmo a do luto, só poderá advir de dentro de cada um. Jamais de fora, de forma pesada, falsa, alarmada e pretensamente institucional. Haja juízo.
FresquinhaAcabo de saber que o meu próximo livro, o ensaio A Grande Viragem (subtítulo: O terrorismo. A viragem profética actual. Textos inéditos do séc. XVI. O milénio) sairá no próximo mês de Abril com a chancela das Publicações Europa-América.
Domingo, 13 de Fevereiro de 2005
O fim de um blogue de referênciaCaro Flávio:
É certo que teremos que aceitar o livre fim do Ma-schamba, mas tal não significa que não o deixemos de ver com esse misto de tentação que teria levado, um dia, Orfeu a olhar para dentro dos olhos de Eurídice. Face a face, perigosamente.
Eu preferiria manter a cena dentro da cena. Há liberdades que chocam com o prazer alheio, amigo Flávio. Mesmo assim, são liberdades. Respeitemo-las. Até porque os limites que lhes poderíamos imaginar cabem unicamente no ditame e na decisão do seu autor.
Contudo, apetece repetir: deixa-te de coisas, anda lá blogar com a gente!
Política vs. jogo (act.)
A celebrada expressão "Obviamente demito-o", pronunciada por Humberto Delgado há mais de quatro décadas, ainda não fazia realmente parte de um jogo. Foi uma frase de corajosa e feliz ruptura que, independentemente das abismadas perspectivas da época, separava o possível do impossível e demarcava os campos em presença. E se algum jogo estava aqui em causa, então era um jogo muito grotesco, falseado à partida e incomunicável.

A permuta da expressão "Olhe que não, olhe que não", reiteradamente utilizada no frente a frente Soares-Cunhal durante o escaldante Outono de 1975, já era uma evidente peça de jogo, embora ainda com regras muito rígidas e estriadas: a linguagem era posta a oscilar com muito cuidado (e sem extravasar as medidas) entre referências reconhecíveis, pesadas e claríssimas. Tudo era possível dentro dessa moldura. Tudo era possível dentro dessas imagens fixas, imobilizadas e próprias de uma inevitável doxa. E todos conheciam excessiva e feericamente as regras do jogo, qual cartilha que simetricamente se distribuía pelas barricadas dos contendores. Foi assim que a revolução se pôs em marcha: como um eldorado orgíaco e vivido no presente, como a grande ilusão do ponto-ómega social, como uma varinha de condão que perpetuaria o homem numa espécie de novo deus.

A recentíssima expressão "Este sabe quem é", assim como a variada tradição dos "Choques" (ou os “rumos” e as “utilidades”) já constituem peças de um jogo que não tem fronteiras, nem pilares alicerçados em valores e em referências hierarquizados. Tudo agora passou a ser possível, sem que seja necessário um "de dentro" e um "de fora" que separassem as simulações, os piscares de olho do "media training" ou os acenos em torno do delírio.
A linguagem tomou conta dos acontecimentos, não como um meio para vaticinar palavras de ordem (de unicidade ou de pluralidade), mas como fim apoteótico onde deslizam afectos, imagens fluidas, crenças esparsas, cores, estilhaços de design, simulacros (de ordem, de confiança, de missionário, de dandy) e estereótipos vulgares (o líder a quem se “compraria um carro em segunda mão” ou “com quem se sairia à noite”). A linguagem tornou-se num fluxo que faz e fez a própria campanha eleitoral. É o uso da linguagem, em cada partido, que passou a criar a ideia de um sentido. E não qualquer objectividade, verdade ou materialidade.
Já se sabe que a linguagem institui sempre os seus marcos de experiência, as suas balizas próprias, as suas coordenadas, para além de se adaptar quase geneticamente a cada campo onde é chamada a germinar. Já se sabe - é clássico - que a linguagem transcende quem a utiliza, autonomizando-se face ao locutor, ao emissor, ao actor. Mas, no nosso mundo, essa autonomia deixou de ser um facto que se contempla e analisa para passar a ser o turbo de um motor que se utiliza. E por isso, neste nosso mundo onde a linguagem do fluxo de imagens passou não só a caracterizar mas também a identificar o perfil fantasmático de cada jogador, o vencedor será sempre o próprio jogo. Apenas o jogo. Nada mais: o jogo.
Mas a pergunta persiste: e depois do jogo?
Reviver a ficção na realidade
Se for à National Gallery, em Londres, poderá recorrer ao programa "ArtStart" que permite interagir instantaneamente com simulações de obras de arte famosas e, portanto, descobrir detalhes ínfimos que, até agora, eram impossíveis de descortinar através do olhar corrente.
É o que acontece com "O retrato de Arnolfini" do flamengo Jan van Eyck, o qual, segundo parece, tem mais histórias ocultadas daquilo que se possa imaginar.
A partir de agora, o poder de vaticinar histórias sobre figuras invisíveis da história da pintura universal vai deixar de ser um dom exclusivo de Dan Brown. Qualquer alegre mortal poderá passar a celebrar tais vaticínios. É tudo uma questão de tocar.

Tocar na imaterialidade mística dos pixels e, de repente, sentir a glacialidade da mão de Deus, ou dos deuses: that´s what it´s all about.
Continuamos com o mesmo fascínio de Huijgens, apenas trocámos a roldana, a lente e a matéria pelos domínios ilimitados do interface on-line.
Sábado, 12 de Fevereiro de 2005
Já começou a festa
BBC
Sim, é uma festa e uma obra de arte, ambas no Central Park de Nova Iorque. Claro que é obra de Christo e também de Jeanne-Claude. Quando é que uma das colinas de Lisboa é alvo de uma destas manobras?
O ano passado foi a vez do Reichstag:

BBC
Espaço públicoAcabo de receber por mail um documento designado “Queremos um País Culturalmente Activo” (diz respeito ao concurso para "Apoio a Projectos Pontuais de teatro, dança, música, arte contemporânea e projectos transdisciplinares em 2005"). Referem os organizadores da iniciativa que o mesmo "já foi subscrito por mais de 70 estruturas e (por) mais de 200 profissionais das artes".
Acrescento eu: seria muito bom ver esse documento subscrito por quem, justamente, não pertence às "estruturas profissionais das artes".
Seria um extraordinário sinal de que uma luta, em Portugal, pode ser uma luta não corporativa.
Quando aparecerá, um dia, esse tipo de manifestação verdadeiramente aberta e não exclusivista no nosso espaço público?
VozesSou eu que escrevo o que aqui aparece. Não haja a mais pequena dúvida. Mas também não é menos verdade que, ao reler este meu blogue, verifico amiúde existirem involuntárias personagens autonomamente criadas que acabam por inscrever um ambiente, uma locução, uma enunciação, um estilo e até uma encenação muito peculiares. Redundantemente específicas. Não há nada a fazer. A linguagem estatui sempre o seus mapeamentos de experiência, as suas balizas, as suas coordenadas e sabe sobretudo adaptar-se quase geneticamente a cada campo onde é chamada a germinar. Neste caso, o campo é uma ciber-experiência espontânea, pouco orgânica, fragmentária, de natureza instantanista e dotada de um auditório impreciso, ou seja, um blogue. São muitas as vozes que habitam a voz do Miniscente. Mas não só. Não há blogue onde este tipo de mise en scène não seja a genuína expressão que garante, afinal, a sua verossimilhança e individualidade. A sua haecceitas.
Onde, quem, o quê?
A Europa descrita por Anthony Lane no The New Yorker de hoje:
"Most Americans know nothing of the location, composition, or purpose of the European Union. There is no shame in such ignorance, for most Europeans are in the same position—rather worse, indeed, given that they are the ones who are meant to be experiencing a pleasant sensation of unity. If anything, the view from the States is more precise: Europe is that Shrek-shaped landmass to the left of the Middle East, and the European Union, or E.U., must therefore be the constitutional equivalent of a group hug, designed to insure that no Finn, say, will ever launch a first-strike attack on a Greek. Europeans themselves, however, cannot even decide where Europe begins and ends. Does it include Turkey, which has taken the first step toward joining the E.U. in 2015? Does it even include Great Britain, a founding member? To most Englishmen, the geography is unambiguous: Europe is what you get if you are stupid enough to venture any farther than Kent."
Mas vale, de facto, a pena ler na íntegra.
Sempre é muitíssimo melhor do que aturar a campanha eleitoral (um choraminga com o passado, o outro choraminga com os média que o delapidam, outros choramingam com as notícias propositadamente falsas, outros choramingam ainda com percentagens delirantes que alvitram, outros... por que não se vota já amanhã?)
Arthur Miller
"Cada uma destas peças, em diferentes graus, foi começada na crença de que desvendava uma verdade já sabida, mas não reconhecida como tal."
(prefácio às Collected Plays)
Sexta-feira, 11 de Fevereiro de 2005
ManhãAs cortinas abriram-se e eu vi ao longe uma luz a descer no horizonte. Um fio a crescer para fora de si e a invadir o olhar incandescente com se fosse a vela de um barco quase a aportar na grande estrela ausente.
Que se estaria a passar?
Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2005
Terrorismo na blogosfera
Cuidado, eles andam aí. E desta feita até ascenderam a "case study".
Judiaria
Acabei de repor o novo endereço do Rua da Judiaria.
Lê-lo é sempre fonte de prazer, de amizade e de rigor.
Erro do Público
A direcção editorial do Público deu hoje à estampa uma nota onde se lê:
“A direcção editorial do PÚBLICO reconhece que fez uma má escolha do título de capa ao optar pela expressão "aposta em", expressão ambígua a meio caminho entre o "prevê" e o "apoia".”
Contudo, é óbvio que a acção de “apostar” está muitíssimo mais ligada à acção de “apoiar” (durante a corrida, eu apoiarei fortemente o cavalo em que antes apostei) do que à acção de “prever”.
Prever é sobretudo neutro, ou seja, é meteorológico, é conjectural e é científico (a “thirdness" de Peirce). Parece-me que o “meio caminho” advogado pela direcção editorial do Público é uma espécie de pântano embebido por alguma “má” consciência.
Teria sido melhor enunciar tão-só o erro, apenas isso. O que, aliás, acontece na dita nota.
A desfolhada
Os mais novos não se lembram. Mas a letra era mais ou menos assim:
"Ninguém me telefonou do PSD a dizer que era um jantar de campanha. Isso é mentira! Vamos acabar com essas chatices, vamos acabar com as tricas. Vamos fazer deste país um país a sério, e não um país de mentiras."
À chegada a Santa Apolónia, Simone de Oliveira tinha o país inteiro à espera. Foi um Festival da Eurovisão memorável.
Números
As sondagens são cálculos com magma científico. De um lado a racionalidade, do outro lado a flexível mão do oleiro.
Fins de histórias
Pensar um fim hilariante para uma história circunspecta é o mesmo que supor o carnaval ao longo de todo o ano. Mas é mais ou menos isso o que se passa na realidade, não é?
A força do TT
Ouvi hoje um ex-líder da bancada parlamentar do PCP dizer que estava impressionado pelo facto de o partido de Portas ter decidido utilizar uma palavra de ordem “sua”. O que eu, já agora, achei verdadeiramente patético. Mas não é que o PCP, para disfarçar o comunismo nas mesas de voto, não tinha já inventado uma coisa chamada CDU, precisamente o nome de um conhecido partido cristão-democrata europeu?! Simetrias interessantes, afinal.
Coitadinhos
A demagogia miserabilista é feita sempre do mesmo: comiseração, caridade, promessas fúteis, ignorância e muita estupidez (há mesmo quem compare o Portugal de hoje com o atributo que mais perseguem na linguagem utilizada: o “fascismo”)
Abdução
Um amigo meu que não tem paciência para voltar a arrancar com o seu blogue, disse-me que, durante estes dias, procurou máscaras de Santana Lopes por todo o lado. Mas em vão. Já não irá votar nele. E eu também não (mas quem me dera ter à mão o Democracia 66 holandês).
O professor
O problema de Cavaco Silva é não poder sobreviver na mitologia do equívoco. E esse tipo de contaminação, como se sabe, domina o nosso tempo.
Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2005
Senhor Silva
O problema de Alberto João Jardim é o das crianças bem comportadas: dizem alto o que os outros pensam.
Órbitas
Um poema tem muitos fins e muitos desses fins pululam fora do território do poema.
Fundem-se esses fins, perversamente, noutros labirintos. Um poema é, pois, infiel. Por natureza.
Eis o poema que há muito se escreve por estas terras azuis e belíssimas.
Felicidade
O romance - virá a ser mesmo romance? - que estou a escrever desde o início da semana passada entrou hoje numa nova fase. Chamo-lhe, há muito, a fase do "não retorno". Quer dizer que já sei que é coisa para ir até ao fim. Para já é o que sei e é o quanto basta. E é muito. Mas não esqueço o que aprendi com Calvino:
"O problema de não acabar uma história é este. Seja como for que ela acabe, seja qual for o momento em que decidimos que a história pode considerar-se acabada, verificamos que não é para esse ponto que (se) conduzia a acção de contar, que o que conta está noutro sítio, é o que aconteceu antes: é o sentido que adquire esse segmento isolado de acontecimentos, extraído da continuidade do contável."
Aquilo que eu desigo por fase do "não retorno" é a certeza formada e fundada de que sei que o tal "noutro sítio", porventura no plural, já habita a centena e tal de páginas que enformam o borrão ainda sem título que estou a trabalhar. Preciso agora é de encontrá-lo (ou encontrá-los). Amanhã terei mais um dia, de sol a sol, apenas para essa demanda. Não é bom?
Contagem mensal
Num mês de Geoloc, o Miniscente foi lido em:
Portugal - 8620, Brasil - 651, Estados Unidos - 465, México - 124, Espagne - 113, Moçambique - 108, Reino Unido - 107, França - 90, Alemanha - 88, Itália - 54, Holanda - 51, Canadá - 42, Luxemburgo - 30, Suíça - 21, Bélgica - 21, Peru - 18, Venezuela - 15, Noruega - 14, Colômbia - 13, Argentina - 12, Filipinas - 9, Angola - 9, Austrália - 9, Chile - 7, Polónia - 6, República Dominicana - 6, Japão - 6, Hungria - 6, Singapura - 6, Áustria - 6, Suécia - 6, Porto Rico - 6, Coreia do Sul - 3, Dinamarca - 3, Bahrain - 3, Malásia - 3, Taiwan - 3, Belize - 3, Israel - 3, Macau - 3, Índia - 3, Paquistão - 3, Sérvia - 3, Finlândia - 3, Roménia - 2 e Irão - 2.
Obrigado a todos!
Terça-feira, 8 de Fevereiro de 2005
Fragmentos, acertos e relâmpagos
Notas oportunas do blogue do Diário de Campanha da SIC:
“Os repórteres que andam na campanha do PSD (e é-me fácil falar, estando no conforto da redacção) sabem que a agenda de Santana é muito parecida com a de uma ambulância do INEM. Não tem nada marcado e avança em situações de emergência."
(Ricardo Costa)
“No mesmo dia dedicado ao tema ''pobreza'', Louçã foi a... Cascais. Era segunda-feira de Carnaval. A acção de rua no centro da vila apanhou turistas surpreendidos e gente apressada com a ameaça da chuva.”
(Joaquim Franco)
“Com nenhuma carga cientifica e a poucos dias do próximo barómetro da SIC arrisco dizer: o PP vai ser uma surpresa e aproximar-se muito dos 10 por cento, o Bloco não vai ser a terceira força, o PCP não vai ter uma hecatombe, o PSD vai apanhar um susto valente e o PS não está a fazer nada para ter maioria absoluta.“
(Ricardo Costa)
“Disse Eurico de Melo, ontem, em Castelo Branco, num esforço físico visível que “O Pedro é um Sonhador”, que “anda nisto há mais de 30 anos”, que o “conhece bem”, que Sá Carneiro “gostava da ambição política dele” e que “ele, (o Pedro) não mudou”. O Pedro não ouviu. Nunca ouve os que falam antes dele.“
(Pedro Cruz)
“E ao final da noite, Paulo Portas disse que depois do Carnaval, sairá à rua para o contacto directo com o povo que ainda não teve.”
(Ana Margarida Póvoa)
Máquina do tempo
Ontem entrei numa festa com casaca lilás e cabeleira loura à final de setecentos. Quando saí, mais parecia o Andy Warhol a olhar pasmado para o Flatiron.
Dois séculos de percurso numa só noite.
Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2005
Da verdade ao uso
Do Wittgenstein do Tratado Lógico-Filosófico (enviado a Russel em 1920 e publicado em 1921) para o das Investigações Filosóficas (escrito durante 16 anos, tendo ficado pronto em 1949) há uma diferença abissal: o primeiro ainda acreditava numa forma de significação baseada nas condições de verdade, enquanto o segundo já entende a significação como qualquer coisa directamente ligada ao uso da linguagem.
Esta diferença perseguiu o quotidiano em mudança da segunda metade do século XX e ainda hoje nos bate tranquilamente à porta.
O que interessa cada vez mais é, pois, o sentido criado pelo modo como nos olhamos, como nos julgamos, como comunicamos. Muito menos interessará, nesta lógica, o arco-íris de verdades que todos os dias, por esse magma omnipolitano de imagens, se imprime nos nossos olhos.
É por isso que o modo de aparecer da política no espaço público é, hoje em dia, o de uma arte da comunicação e não mais o de uma clara e objectivada proposta de resolução dos problemas.
Seja como for, é cem mil vezes mais importante o agir livre de todos do que qualquer normal palhaçada no uso da linguagem, ou do que o próprio emparedamento da verdade.
Domingo, 6 de Fevereiro de 2005
A ler já hoje
A ser lido por todos. Obrigatoriamente. É um artigo essencial de Medina Carreira. Deixo aqui este extracto:
"Dispersos na nossa sociedade, temos 4,5 milhões de indivíduos que integram uma espécie de "Partido do Estado". Têm em comum a dependência directa do Orçamento e representavam, em 2003: 43 por cento da população residente; 56 por cento do eleitorado; 62 por cento da população com mais de 24 anos de idade. Pensionistas e subsidiados (mais de 3,8 milhões), equivaliam a 70 por cento da população activa. Este "Partido do Estado" absorvia 70 por cento dos impostos cobrados (1980); atinge agora os 85 por cento (2003). O pessoal político dos principais partidos "invade" progressivamente o Estado e pretende mais funcionários, mais pensionistas, mais subsídios e mais subsidiados, porque aí pode angariar mais votos. Os que ainda estão fora do "Partido do Estado" constituem uma minoria cada vez mais desiludida, reduzida e silenciada, e menos influente. Adormecido e enganado, Portugal trilha o caminho para o desastre financeiro do Estado e para uma pobreza mais generalizada dos portugueses. Ninguém nos acode."
Sábado, 5 de Fevereiro de 2005
Self-fulfilling prophecy
Não há nada como a entrega total à casualidade do acaso. Bate sempre certo. É a forma ideal de transformar uma asserção em facto. Muitas vezes, basta a fé para que chova, noutras é suficiente gritar o nome da nossa equipa para que ela meta golo. Tudo uma questão de convidar a realidade a cumprir o apelo enunciado. De resto, o hábito faz o monge. Ora leiamos o que escreveu J. Carlos de Assis:
"O presidente Lula espera que, tendo sido da Europa o século XIX, e dos Estados Unidos o século XX, o século XXI seja o século do Brasil. Deu-me a impressão de que ele estava lendo o discurso. Se é assim, é mais grave. Trata-se de um delírio coletivo. O presidente acha que sua presença no governo é um fator decisivo, por si mesmo, para melhorar as perspectivas brasileiras, independentemente do que ele faça ou não faça no poder. Dito de outra forma, o Brasil vai melhorar porque tem Lula na Presidência, e não exatamente pelo que Lula vier a fazer nela."
Há quem diga - estou a lembrar-me de F.Kermode - que a nossa relação com a instabilidade do tempo contemporâneo tem três traduções possíveis: esta, o famoso "self-fulfilling prophecy", a também atractiva metáfora da "crise" e ainda a mais clássica, mas sempre actuante "teoria dos ciclos" (de decadências e retomas sucessivas).
Qual preferem?
O que é uma "Gafe"?
Na secção dedicada ao "leitor", é esta a pergunta de hoje do Jornal do Brasil:
"Quando fala em público, devia Lula ter a seu lado um assessor para evitar gafes?"
Esperam-se respostas. E, já agora, generalizemos o caso.
A isto se chama democracia (c/ actualização portuguesa)
(Globo. Ontem em S.Paulo)
"Quem não vai cair na folia, nem gosta de assistir programas de carnaval na TV, não precisa se preocupar: a RCA, concessionária de tevê a cabo em Teresópolis está com uma programação diferenciada nesses dias de carnaval. A concessionária, que distribui mais de 60 canais, divulga programas especiais para os que não gostam das festas de carnaval."
via O Diário de Teresópolis
(Idêntica atitude podiam ter as televisões portuguesas, não em relação ao Carnaval - que por cá é patético, triste e ridículo -, mas em relação à enfadonha campanha eleitoral que amanhã oficialmente começa)
China e direitos humanos
Leio na Folha de S. Paulo:
"O governo brasileiro escolheu a China como um dos parceiros para investir na troca de experiências sobre direitos humanos. O país asiático é notório freqüentador de relatórios que condenam governos que violam esses direitos regularmente."
Carnaval?
Tenho sincera dificuldade em compreender. Espero comentários das terras do Brasil!
Basebol
Ora aí estão 750 mil euros bem gastos. Gerir os recursos na nossa terra está a ser, cada vez mais, uma obra artística à Marcel Duchamp: Urinol na galeira de arte e basebol em Abrantes. Pois então.
Sinopses
Acabei de publicar no Minitempo as sinopses actualizadas dos meus romances (com excepção do primeiro).
Little is left to tell
Vi o debate na SIC, no passado dia (quando foi?), e até hoje ainda não fui capaz de ter uma reacção de jeito, tal o modo pungente como me tocou.
Apenas entendi agora o que se passou, ao reler o Ohio Impromptu (Improviso de Ohio) de Samuel Beckett. Ou seja: “Little is left to tell”
Sexta-feira, 4 de Fevereiro de 2005
Só fumaça
Portugal é fértil em soluções jurídicas que afirmam A e ao mesmo tempo o seu contrário. Basta um requerimentozinho a uma autarquia para que a excepção se torne campeã entre regras. Para deixar as coisas como estão, não valia a pena conceber sequer uma nova lei. E para imaginar um diploma que mudasse, bastava copiar o irlandês. Agora, assim, é para rirmos. Todos. Fumadores activos, passivos e os outros. Mas esta solução era inevitável, tão portuguesa porque tão vizinha daquele “deixa andar” levemente incomodado com as chatas das mudanças que se sentem “lá fora”.
Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2005
Jogo - 6 (mostrar a vida privada?)
O que “mostra” o exibicionismo?
Dá sobretudo a ver aquilo que é inevitavelmente reenviado para outra e outra coisa. O exibicionismo não “mostra” nenhum objecto, antes o suprime.
A vida privada pode exibir-se e, ao fazê-lo, cria naturalmente uma série de conotações (em princípio encenáveis) sem fim.
Mas isso não significa de modo nenhum que se “mostre”.
Jogo - 5 (mostrar a vida privada?)
Deus, enquanto foi Deus, foi-o porque não se “mostrava”.
“Mostravam-se”, sim, as suas consequências. As suas marcas. As suas linguagens (cujos alfabetos se espraiavam na natureza ou na sintaxe histórica, pelo menos a partir do epicentro das religiões ditas “axiais”, ou do “Livro”, ou crentes numa dada escatologia).
Na Ética de Bento de Espinosa, pensamento e realidade do ser provêm de uma única substância. Contudo, a “natureza naturante” (ou Deus) é a única realidade substantiva, enquanto que “a natureza naturada” seria entendida como desprovida de substantividade, dispondo de existência meramente “modal”, isto é, ao nível das manifestações que adviriam da produtividade una e divina.
Nesta medida, a realidade seria única, eterna e imutável, embora no plano do acontecer transitório fosse efémera.
Pode esboçar-se uma certa alegoria contemporânea, na relação entre privado e público que, se aproxima desta mecânica espinosista.
O que se "mostra" neste último tem origem ao nível das manifestações que estão diante dos nossos olhos todos os dias.
O que se "mostra" naquele outro, no privado, é um misto de coisas onde há um fundo insondável de “natureza naturante”, mas também fragmentos ou imagens processadas pela “natureza naturada”.
Não há, pois, uma forma exacta e possível para “mostrar” o privado, porque não cabe, porque não se adequa, porque é ambígua a substância ou a natureza a que realmente pertence.
Seria mais fácil um mundo onde taxativa e drasticamente o público e o privado se separassem. Fronteiras rígidas. Mas isso não acontece.
Mais uma vez: trata-se de um dado, de um facto.
Tal como a existência de nuvens incertas em dia de muita chuva.
Jogo - 4 (mostrar a vida privada?)
A imprensa cor de rosa “mostra” encenações que se destinam a evidenciar coisas, mas não a vida privada.
Existirá a “live life”, a não ser na imaginação de Duchamp?
O fim das mediações é talvez a única utopia contemporânea e é própria dos que crêem na “cyborgização” do mundo (o termo original é, creio eu, de Manfred Clynes), i.e., no pós-humano.
Nessa altura, o acto de “mostrar”, na acepção de pôr a nu todas as virtualidades, passará a ser um gesto redundante.
Sem sentido.
Só há sentido, quando é preciso traduzir aquilo que não pode, de modo nenhum, ser “mostrado” através de telepatia. Em ficções como The City and The Stars (Arthur Clark), em filmes como Robocop (Verhoeven), ou no conhecido manifesto de Donna Haraway (Manifesto for Cyborgs), o entendimento do sentido e do “mostrar” alteram-se profundamente.
A grande diferença é que, apesar dos delírios, o nosso tempo hipertecnológico é um tempo muitíssimo mais próximo (e contíguo muitas vezes) destas voragens do que Verne era, por exemplo, de um elementar motor de uma fábrica téxtil.
O grande paradoxo dos nosso dias é funcionarmos como se já não existissem mediações (como se tudo se visse, como se tudo se “mostrasse”), quando, no fundo, a “Darstellung” kantiana, o pôr em cena esquematizado ou simbólico, continua ainda a reger toda a nossa comunicabilidade. E toda a nossa capacidade de significar.
Daí tanta ambiguidade ilusória e sugestiva em torno do simples acto de “mostrar”.
Jogo - 3 (mostrar a vida privada?)
Será que as revistas tipo Caras, Lux, etc. "mostram" a vida privada de alguém?
Jogo - 2 (mostrar a vida privada?)
O acto de“Mostrar” nem tão-pouco existiria, se todas as virtualidades de “y” que se quisessem “mostrar” alguma vez se imaginassem expostas à luz do dia.
Como disse Vattimo, glosando Gadamer, “o ser que pode ser compreendido é linguagem”. É, pois, natural que, em época de incremento radical de linguagens especializadas e de enunciados fragmentários tipo zapping, o que haja a “mostrar” sejam tão-só imagens de imagens que, por sua vez, se subsumem a vestígios de imagens de imagens. Fluxos ficcionais mundializados ou regionais. A coisa é realmente homóloga ao mundo de imagens da nossa mente que Damásio tão bem explicou em O Sentimento de Si (sobretudo na concatenação dos relatos de imagens que se processam entre os níveis do "proto-si", da "consciência nuclear" e da "consciência alargada"). É por isso que a vida privada, esse conteúdo complexo, essa labiríntica rede de fenómenos de um determinado quotidiano, não pode jamais ser “mostrada” como um absoluto. Pelo menos do modo antinómico - e um pouco preto no branco - que pressupõe a oposição entre “mostrar em público a vida privada” e a necessária implicação de ausência dessa mesma “vida privada” (ainda por cima sob conjectura algo legitimadora de uma dada teodiceia).
Jogo - 1 (mostrar a vida privada?)
Aforismo: “Mostrar em público a própria vida privada é coisa de quem não tem vida privada”.
Comentário: Um instrumento que (no mundo) sirva para "mostrar" já está referido a qualquer coisa antecipadamente.
Esse instrumento e/ou essa ferramenta "mostram" sempre aquilo que um contexto determina que possa e deva ser "mostrado".
Um guia de viagens ou uma lista telefónica funcionam assim. São de certa forma programados.
Mas, por outro lado, não há nenhuma determinação que condicione a "mostrar" o que pode ser "mostrado", quando se fala de “vida privada”. Precisamente porque a vida privada é um amplexo, ou é algo que não pode ser sequer descrito, ou é uma entidade e não propriamente um organismo delimitado que, por isso mesmo, escapa à capacidade redutora de a linguagem o traduzir na plenitude (com a excepção para a incursão de natureza poética, para a qual o comum e o incomum dos políticos, e mesmo quase todos os mortais, convenhamos, não denotam particulares aptidões).
O acto de "mostrar" “y”, entendendo “y” como a complexidade que a vida privada apresenta, corresponde seja ao que for menos a uma propriedade de “y”. Nesta medida, por mais que se tente "mostrar" “y”, este “y” persistirá sendo o que é, ou flutuando na ordem com que flutua.
Neste tipo de casos complexos, como o é o caso da “vida privada”, "mostra-se" sobretudo a linguagem que procuraria "mostrar" “y”, mas é certo e sabido que o determinante de “y” repousará no seu enquadramento, no seu ambiente neonatal e na sua ocultação, afinal.
É por isso que ninguém vê a vida privada de Santana Lopes ou de Sócrates ou de Portas, por mais que os média desenterrem, voluntária ou involuntariamente, partes dessas virtualidades.
É antes o jogo criado em torno dessa “realidade” (criada pelo agregado de N imagens que tentam “mostrar” “y”) que pressupõe a lide que faz aparecer, no quotidiano, a ilusão dos tais “castigos”, prémios, críticas, boatos, denodos, vergonhas, insultos, rumores e outros pandemónios conhecidos e, já agora, muito tristemente em voga.
Quarta-feira, 2 de Fevereiro de 2005
Será?
É rara a vez que vejo os meus amigos escritores que têm blogues a escreverem sobre a sua própria escrita, enquanto escrevem (digo, enquanto se fecham para escrever romance, ensaio, poesia, ou seja o que for).
Às vezes, chego a sentir uma certa timidez em fazê-lo, pois pareço demasiado só nessa aventura. Ou talvez eu funcione ao contrário: reservo dois a três períodos do ano em que o resto tudo, rigorosamente, deixa de existir (partes de Fevereiro, de Junho e de Setembro), em vez de espraiar e misturar as várias escritas num único plano aberto ao tempo.
Mas, que diabo, à noite, ou nos intervalos, há sempre espaço para espreitar e marcar esta caixinha que tem como legenda "Publish Post". Não será?
Bom, vou continuar. Estou em Nova Iorque. Enquanto escrevo. Mas ligado, ligadinho às vezes que estive lá. In fact.
Sobre uma frase do dia
Escreveu Luciano Amaral:
"Há na blogosfera um problema a que provavelmente nunca me conseguirei habituar, e que é o registo simultaneamente público e privado do seu conteúdo."
Eu penso que isso, essa flutuação público vs. privado, é sobretudo uma característica da contemporaneidade. É um dado, tal como acontece - num certo nível de flutuação - com os pares real vs. ficção, auditórios vs. públicos, esquerdas vs. direitas, simulação vs. instantaneidade, etc. Tal como acontece com a electricidade ou com as redes globais.
Neste tempo, em que velhas linguagens ainda convivem com os novos tempos, é necessário algum cuidado. Até porque estas são as primeiras legislativas que se cruzam com a blogosfera e a quase inevitável radicalização pode conduzir ao abismo da ofensa. Esperemos, contudo, que o exercício da liberdade - e ser-se livre acarreta responsabilidades - implique respeito e não apenas denegação do outro sob a capa da mais redutora cultura dicotómica. Ser-se frontal não implica elidir, suprimir, anular (ontem, Sócrates, na RTP-1, libertou-se um pouco da amarra do "media training", mas foi preciso sentir na pele a infeliz ofensa santanista traduzida pela palavra "colo". Saliente-se o facto).
Terça-feira, 1 de Fevereiro de 2005
O partido das florzinhas brancas
O Saramaguês como expressão eleitoral já chegou até nós.
Inédito
Nunca me tinha acontecido. Até porque já tenho partido de notas, de cruzamento de textos embrionários, ou até de rascunhos sem qualquer sentido. Às vezes, de nada. Mas partir de uma peça de teatro, isso nunca tinha acontecido. Escrevi-a há quase três anos e meio e, até agora, apenas foi motivo de uma leitura em sítio respeitável, embora pouco conhecido (uma possível encenação, aliás muito interessante, chegou a andar em negociações avançadas no início do Verão de 2003). E não é que agora estou a partir desse texto dramático na direcção de uma narrativa!?
O fulgor inicial projecta a coisa em romance. Vamos ver. Para já, as personagens estão a responder, é só simpatia, é só compreensão, diálogo frutuoso e tudo parece encaminhar-se para um desafio maior. A ossatura do texto já está a robustecer, a tonificar, a ampliar-se. Fevereiro é sempre um mês generoso para estas coisas. De um lado, as frequências e, do outro, uma única aula de mestrado; no reverso, fica diante dos meus olhos toda esta maresia muito calma em que o tempo se distende e promete evasões felizes.
Vou reiniciar mais um dia de trabalho. Até logo.
Revendo o écran (ou o ecrã; os dois são possíveis)
Soube bem voltar a ver Six Feet Under. Há muito que a série devia andar engripada. Há muito que havia cancelado todos os encontros com o público português. Ou estarei, como é natural, devidamente desatento?
Segunda-feira, 31 de Janeiro de 2005
Média e terror
AFP
Mark Bowden escreveu um excelente artigo na Atlantic de Dezembro passado sobre a cooperação entre os média e o terrorismo. Aí se reflectia sobre a relação entre a estratégia das imagens globais que as redes do terror passaram a usar no pós-2001 e a inocente capitulação dos média ocidentais face a esse plano (incluindo o tempo da antena associado aos sucessivos raptos do final do ano passado). A certa altura, Mark Bowden escrevia: "Leading the news with acts of terrorism is often both journalistically unwarranted and - assuming that decent people everywhere would like to see such acts cease - tragically self-defeating".
Vem isto a propósito das notícias que ontem as rádios e as televisões foram difundindo a partir do cenário iraquiano. Em vez de relevarem a adesão da população às urnas de voto - e o significado real dos números narrados -, muitas vezes os dez ou quinze actos terroristas do dia foram noticiados com mais realce. Já sem falar, também, do tempo dado à GNR portuguesa. Como se o pano de fundo do que se estava a passar coincidisse mais com a presença da al-Qaída do que com a mobilização activa de mais de oito milhões de eleitores. De facto, voluntariamente ou não, muita gente neste mundo terá ontem praguejado para que tudo corresse mal. Mas não foi assim.
Népias & direitos
Tinha que ser Jerónimo de Sousa a inventar os "direitos políticos de autor". Talvez a coisa pudesse ter sido útil aos escritores que inventavam os seus escritos nos antigos "Palácios da Cultura", essas torres de arquitectura irrespirável, massiva e monocórdica (a iluminação nocturna sempre favorece a monstruosidade). Memories.
Corporação
Os jornalistas não perdem um grama (é masculino!) que seja para se constituírem como objecto de notícia. Revêem-se razoavelmente entre o nível da excepção, do acidente, da inversão, ou ainda do sal ficcional que é abundante nas meta-ocorrências. E o bom povo bate palmas.
Paradoxos do antiamericanismo
Leia-se com branda voz:
Peritos do mundo inteiro começam hoje a discutir na Unesco, em Paris, um projecto de tratado para proteger a diversidade cultural. Este é um assunto importante para vários países que querem defender a sua produção cultural face à hegemonia dos Estados Unidos.
Isto por um lado, mas, pelo outro lado, os mesmos actores tão ciosos das suas "culturas" exigem aos EUA o pagamento da factura da UNESCO.
É o chamado Paradoxo à Fórum Social.
Entre antropologias ou os olhos em bico
WD
Outro dia, numa aula, vi-me a dizer - acontece-me muito ponderar a partir de uma objectiva que, sendo minha, me observa de fora - que estávamos celeremente a atravessar a ponte que liga a antrolopologia da potencialidade e a antropologia da virtualidade. Na primeira os eventos realizam apenas um parte dos seus vários possíveis (daí que a realidade e a ficção se separem de forma abismada), enquanta na segunda as possibilidades poderão vir a aparecer todas ao mesmo tempo devido aos encantos hipertecnológicos (daí que a ficção se possa vir, um dia, a libertar do manto que sempre a separou do real).
Domingo, 30 de Janeiro de 2005
Júbilo
O que se passou hoje no Iraque é profundamente encorajador e, de certa forma, inesperado. Em todo o mundo, muitos terão praguejado para que tudo corresse mal. Há alturas em que o paradoxo põe lado a lado o hiperterrorismo e as contraculturas que respiram o privilégio da liberdade sem que, de todo, o valorizem.
Hoje respirei fundo e fiquei feliz. Descomplexadamente feliz. No entanto, estas eleições são o início. Um puro início da segunda fase de um longo processo.
Mas nunguém poderá dizer que foram uma "farsa". Para além de falso e de rotundamente desonesto, era esse argumento que a al-Qaída mais gostaria de ouvir. Mas não ouvirá.
Sábado, 29 de Janeiro de 2005
Carolina
Embora por suave afinidade, é uma ideia excelente ser avô na lua cheia de Janeiro.
Malcolm Gladwell - 3
"The philosopher Isaiah Berlin divided people into foxes, who know many little things, and hedgehogs, who know one big thing and Gladwell, unsurprisingly, identifies himself as a fox."
Eu também prefiro, de longe, a equipa das foxes.
Malcolm Gladwell - 2
"His thesis is this: quick decisions based on first impressions are often much better than those made after lengthy analysis; less information can be better than more; or simply: sometimes the best way to judge a book is by its cover."
O que não quer dizer que a "snap decision" não nos possa arrastar rio abaixo!
Malcolm Gladwell - 1
“I hate that word (intuition), it’s so overloaded - it’s a way of demeaning this process, saying it’s all emotional. I really want people to take snap judgments seriously. Just because you can’t explain something doesn’t obliterate its legitimacy”.
Rápido e bem, não faz ninguém? Gladwell não pensa assim.
Gravidade
Diz Margarida Rebelo Pinto com excelsa sageza e perene sagacidade:
"Depois de perdidas as colónias, Portugal não se virou para lado nenhum e a pouco e pouco foi perdendo a sua auto-estima. Hoje, apesar de todos os problemas nacionais inadiáveis, somos um país no bom caminho; o único problema é que não acreditamos nisso".
O problema está, pois, algures entre as colónias, a fé e o pescoço que não roda o suficiente. A identidade portuguesa anda mesmo na moda. Em movimento. Depois de Lourenço e Gil, é esta a teoria do momento.
Davos, Davos…
Escreve hoje Mário Bettencourt Resendes:
“(…) na próxima quarta-feira, vou almoçar com a loura que protagonizou o mais célebre cruzar de pernas da história do cinema e que recentemente pôs fim à sua relação com o director de um diário de S. Francisco. Deve ter, no mínimo, alguma apetência pela área dos media... Como o mundo não é perfeito, à mesa vão estar mais algumas dezenas de pessoas, entre elas Richard Perle, um dos gurus do neoconservadorismo norte-americano. O local é um dos hotéis de Davos ( …)”
Só o viril cronista poderá dizer o que tem a marmota a ver com a perdigota. Enfim, debates. Muito insulares, já agora.
Desvarios
A avaliar pela capa, o Expresso de hoje entrou em estado de cativante delírio. Ao lado de uma fotografia de Luís Delgado com área de 200cm2, aparece o título: "Cavaco apoia Governo romeno". Um pouco por baixo ficamos também a saber que "Encontro do PSD junta Valentim e Damasceno". O carácter dadaísta desta capa poderia ter sido coerentemente amplificado com a fotografia de um pôr do sol nos Cárpatos, precisamente na noite do encontro de todos os personagens das narrativas de James Malcolm Rymer, Thomas Preskett Prest, John Polidori, Joseph Sheridan e sobretudo de Bram Stoker. Portugal, de facto, ainda tem coisas giras.
Sexta-feira, 28 de Janeiro de 2005
Intolerâncias vs. liberdade
Custo a entender que a inteligência sobreponha o cromatismo compulsivo das facções políticas à lógica da livre abertura dos percursos individuais. Falo de Freitas do Amaral, naturalmente. Mas Durão, Pacheco, Lamego, Espada, Zita Seabra entre muitos muitos outros, também percorreram as suas vias livres, e às vezes dolorosas, entre campos, mundos e intermináveis terras de ninguém. A forçada coerência estalinizante é própria das formigas, mas não dos homens. Julgo eu. E muito menos o será da inteligência. Resida o afecto à direita ou à esquerda. Tanta visão esquemática que por aí anda... tão subliminarmente hostil à liberdade!
É já depois de amanhã
"With not even candidates out on the streets, role of getting out vote has fallen to infantrymen." (Steve Fainaru, Washington Post)
A razão e o erro podem coexistir. Mas a evidência supera ambos. Largamente.
Deslindando mistérios recentes
"Fique no entanto a saber-se que muito foi tentado, felizmente sem vir para as páginas dos jornais, para que tal acontecesse. Houve muita gente que não ficou sentada e que tentou. Falhou, mas também não é verdade que muitos militantes, entre os quais me incluo, não tenham tentado persuadir, convencer, sem sucesso."
Quando o autor destas linhas nos fala acerca do novo espaço político que poderia vir a ser preenchido por um novo partido (não fosse a "pouca fluidez do sistema político" e a "rigidez" do sistema eleitoral), o que será mais importante: a manifesta impossibilidade de concretizar esse projecto (que seria o equivalente aos "Democrats" ingleses ou ao "D66" holandês), ou o simples facto de enunciar - e assim legitimar e prenunciar - essa mesma possibilidade?
Fico-me, ou seja, tenho-me ficado mais pela última hipótese. Mera intuição. E que eu desse por isso, Pacheco Pereira já referiu o facto umas quatro vezes (entre o seu blogue e as crónicas impressas em papel). Sublinhe-se. A repetição faz o engenho e o engenho faz a coisa.
Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2005
O que dizer?
The Jerusalem Post
É o problema. O que dizer. Dizem-se as coisas, não se diz a barbárie. Desdizem-se as coisas, mas não pode desdizer-se a barbárie.
Meta-ocorrências típicas
Por que razão andam as televisões a dizer-nos que há uma vaga de frio polar a sobrevoar o país? Se calhar, é isso. A sobrevoar. Mas muito por cima.
Por que terá sido?
E há ainda uma leveza tardia a recobrir o ócio que faz a pedra viver no seu silêncio.
A geração
A desestruturação das redes sociais no ocidente, com destaque para a família, fez emergir, nas últimas décadas, a importância da ideia de geração. Particularmente a partir da segunda metade do século passado, uma (nova) geração passou a ser a procura de um espaço singular de significação, de uma haceitas, e a simultânea e exaustiva repetição das palavras de ordem que se iam cumulativamente estabilizando ao longo dessa procura. Há sintomas claros que permitem demarcar a iminência de fim de uma geração e o necessário advento de uma outra. O mais peculiar é a permuta mútua de elogios no espaço público entre os elementos-chave que mais terão contribuído para cimentar a anterior procura num conjunto de crenças (tal como Peirce as entendia: um estado de repouso, de bem estar e de arrumação mental que, ao contrário da dúvida, orienta quase toda a reprodução dos hábitos).
É verdade
Continua a ser o único derby a sério que há em Portugal. E nunca houve um tão longo. A chama foi encarnada, claro. Mas redistribuam-se os parabéns.
O Benfiquismo - 3
Os benfiquistas têm uma compaixão incomparável. Nutrem pela sua equipa um facílimo desdém ao fim de meia hora de jogo se a coisa não calibra, mas ajoelham-se diante dos deuses do futebol se a águia relembra, por segundos que seja, os tempos áureos. Não há meio termo. Ou o declive quase sem fim, ou a ascese pouco temperada. Ou o Olimpo com vista para a Bursa otomana, ou a estepe árida com vista para esqueleto de bicho. No meio fica o jogo, o desaire, a mediania, o quadro electrónico empatando, o tempo de desconto, o fora de jogo, fora do planeta, numa palavra: a desmesurada espera.
Não há espera igual à de um Benfiquista, confesse-se. E há razões várias para esta especificidade. Por um lado, a ausência de alimento que uma equipa destas necessita como de pão para a boca: vitórias, títulos. Muitos e incessantes títulos. Por outro lado, a presença excessiva, exagerada, sem fronteiras da convicção. Sim, da convicção. Uma convicção de aço, benfiquista. Mas pouco mais do que isso. Até porque seria preciso expiar para tentar explicar essa convicção. Para a domesticar e para a entender. Seja como for, uma convicção inabalável. Da cor de sangue de boi, mas revestida por um inverno longo, um inverno que dura há mais de uma década. Sem parar, como um comprido túnel de neve sem fio de luz no horizonte. E, apesar de tanta agrura, a espera. Sempre essa ravina sem dó que acaba todos os anos com o soluçar da mesma palavra: a espera.
A compaixão é, pois, um acto normal que, para qualquer bom benfiquista, faz parte da espera. Saber esperar, saber respirar compassadamente. Porque é ela, a compaixão, que impede o ditado popular - quem espera desespera - de ser verdade. Na arena do Benfica ninguém desespera, ninguém desalenta, apenas espera. Por compaixão. Essa forma matreira de impedir o tédio no jogo e de afastar as manhas mafarricas da má arbitragem. Há, de facto, sentimentos incomparáveis nos benfiquistas. Dignos como o elefante na montanha. Um por todos e todos por um. Fazer da espera um império, uma consagração, uma apoteose memorial. E acreditar na espera, sempre, como Rómulo acreditou em Roma. Um dia há-de acontecer.
Em voz alta
Durante muito tempo resisti em dizê-lo. Até porque sei há séculos que amigos de amigos nem sempre espelham a coisa com objectividade, se é que um cheesecake desses existe. Mas o tempo acaba sempre por desenrolar a luva com que o mundo redescobre a sua forma possível, que não ideal. E é aí, nessa constatação óbvia, que a verdade fala por si, sem quaisquer tutelas, pressões ou submarinos em ziguezague. E por isso, agora o digo:
Gosto sinceramente do espasmo bem digerido, da frase polida e discreta, do contraste filigrânico a rastejar pelo humor e ainda do aroma citacional que não queima. Rara combinação de alfaias e sebes que fazem frase e sintaxe nua, despida, depurada, quase a vibrar no osso. É o que persigo ao longo do texto, esse caudal sem fim de página, que o João escreve e encaminha, muitas vezes sem que eu, leitor, dê excessiva importância ao que se alude por esgotar-se no próprio corredor do texto tal prazer. É assim na escrita blogosférica e na Folha também, menos o é no Expresso, mas aí talvez devido a algum náufrago que pesa na ostensiva divisão das orações em três partes. Mas tal não ensombra o brilho e sobretudo o deleite que faz gosto.
Tinha que dizê-lo. Já está.
Terça-feira, 25 de Janeiro de 2005
Intellectuals
Ora aí está uma coisa que me interessa: o colapso dos intelectuais. No pó que soçobra à era pós-pós-pós, as antigas imobilidades ideológicas e outras não menos pesadinhas (havia um francês amado por americanos que lhes chamava "arborescentes") aparecem agora, subitamente, diante de nós como fantasmas. Ninguém dá pela falta delas, mas quando surgem mencionadas logo lembramos o seu rosto barroco e dantes quase omnipotente. É o que a Nova Cidadania - hoje comprada - nos delega, ou seja, um promissor livro de Frank Ferudi (Where Have All The Intellectuals Gone), acompanhado de interessante crítica de Carlos Marques de Almeida, que já me obrigou a dar ordens transatlânticas - à Amazon - para que se faça rapidamente ao caminho até este meu pátio de buganvílias e alguns cometas. Voltarei ao tema.
O Benfiquismo - 2
Só no Benfica é que se anunciam jogadores novos, durante semanas e semanas, como se fossem cosmonautas saídos de uma epopeia maior. E depois não chegam, não aterram na Portela. E toda a gente sabe que assim é. Mas o frémito, essa espécie de raro entusiasmo que se recicla todos os sete dias, esse, não pára. Nem cede. Para o pior e para o melhor. Até porque o verdadeiro benfiquista é aquele que sabe olhar para o céu e nele desvenda sinais maiores. Encantatórios: por exemplo, cometas avermelhados que prenunciam a vitória no simples verbo das entrevistas, nas manchetes dos jornais, nos escândalos prometedores, nas desavenças menos explicáveis e até mesmo na revisitação quotidiana da grandeza histórica do clube.
Existe entre o adepto e o Benfica aquela vertigem que ligou, um dia, Cléopatra e Marco António no promontório de Accio, independentemente do sangue vertido e dos campeonatos e vidas ameaçados de costa a costa. Perdidos por cem ou por mil, na senda de um ponto-ómega certo, os benfiquistas caminham para a catedral com esse frémito antigo e com esse grito de batalha das velhas gestas sem limite, mas sem terem em conta a real dimensão em que navegam. E quando confrontados com o relvado, com os lances, com os passes, com o intenso dramatismo do jogo, os benfiquistas admitem então sofrer e não hesitam em mergulhar a âncora da exaltação como se houvesse males que são, afinal, segredos bem guardados da natureza. Mas, diga-se, males apenas próprios dos heróis.
É por isso que o sofrimento benfiquista não é um sofrimento qualquer. Traz atrás de si o inexplicável, o insondável, o irremediável. Há uma filosofia profunda no Benfica que alia a mística do clube aos resultados palpáveis. É uma filosofia do desconcerto. É uma metafísica que transforma a crença, não em querela, mas em algum delírio. Uma onda que não cessa e que tem de miragem o mesmo que terá de força. Mas nada a evita e nada nela indicia, também, qualquer quebra de persistência ou de vontade. O ânimo de um benfiquista tem hoje um substrato de sofrimento cristalizado até à raiz. É como uma planta com pouca água, mas viçosa, vermelha e secreta. Melhor dito: sedenta e ansiosa pelo inferno que a faria rejuvenescer, um dia, na Luz.
3+2, 4+1, 3+1+1, etc.
Bolonha é de facto uma confusão em Portugal. E este artigo reflete-a, espelha-a e, de algum modo, adensa-a. Não será verdade?
Declaração obrigatória
É o que diz o Diário da República de hoje (Portaria n.º 103/2005. DR 17, SÉRIE I-B): o "Ministério da Saúde Integra a infecção pelo VIH na lista de doenças de declaração obrigatória". Haja comentários.
"Esses gerais são sem tamanho"
A Ângela deu-me a conhecer um blogue todo dedicado ao João Guimarães Rosa. Vale a pena.
Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2005
O Benfiquismo - 1
Há uma única coisa em que eu sou muito português. É no Benfiquismo. E não sou o único, pois é no Benfica que a pátria é mais pátria e que a tradição da nação é mais indelével. Goste-se ou não, mas o facto é que o Benfiquismo é uma constelação que atravessa de norte a sul, de paralelo a paralelo, de pólo a pólo e que vive do ronronar sequioso e vivamente glorioso de um passado, não deixando de ameaçar invadir o presente com algo de inesperadamente novo e épico. Domingo a domingo. É nessa iminência, misto de esperança e de cantochão do mais inusitado espanto, que reside o Benfiquismo.
Tal como Portugal, o Benfiquismo oscila entre a ilusão do zénite e a brusquidão das trevas, entre o desmedido voo e a ocultação das penas, entre o desejo imprudente dos marinheiros do fim do mundo e a nostalgia dos calceteiros perdidos na melancolia dos seus labirintos infinitos. Ser Benfiquista é este receio infundado da vitória, espécie de ressoar pessoano que faz do menino da sua mãe a Pietá onde adormece o jogador vermelho e branco da pátria-mãe, enquanto os outros festejam apenas o futebol e não o mito.
O jogador do Benfica, o jogador vitorioso do Benfica permanece ocultado no seu mundo irreal e carregado de névoas e brumas distantes. Apenas um sinal, apenas um brevíssimo sinal do fundo da fatalidade portuguesa, poderá ou poderia levantá-lo. E eis que o aceno fará a hora. Já ouço a abertura dessa ópera por escrever.
De facto, só acredito nas celeumas da "filosofia portuguesa" se aplicadas ao Benfiquismo. De facto, só acredito no mito do amor eterno e até no sebástico se aplicados ao Benfiquismo. De facto, só acredito no milagre de Ourique - sendo o mouro símbolo da adversidade do destino - se aplicado ao Benfiquismo. Tudo o resto é apenas para levar a sério. Demasiado.
No Benfica, o que há a mais carece no nosso tempo. Mas falta mostrar. Entrar em campo. E tal como falta a Portugal um projecto mobilizador, também falta ao Benfica voltar a ser. Marcar golos. É isso que faz ter na alma a chama ardente. Esperança, caos, fado, delírio, ironia? Tudo, tudo isso. E tão, tão português.
Vale tudo
Há pessoas para quem o mapa do metropolitano de Londres (de Henry Back) ou um candeeiro da Baushaus (por exemplo de Wilhelm Wagenfeld) é precisamente o mesmo. Tanto faz, afinal é tudo design. Na política é que não devia ser bem assim. Mas, muitas vezes, também é.
Quem me arranja esse programa?
O jornal online Portugal Diário retirou o inquérito sobre as próximas eleições legislativas. Os responsáveis do site explicam que foram «obrigados» a apagar a sondagem depois de detectado um programa automático que votava ininterruptamente no PSD.
Um programa destes podia ajudar a fundar um novo partido.
Cabotagem brasileira e a mágica arara
"Voz nem choro não se ouviu, nem outro rumor nenhum, feito fosse decreto de todas as pessoas mortas, e até os cachorros, cada morador. Mas pessoas mor que houvesse: por trás da poeira, para lá da fumaça verdolenga se vislumbravam os vultos, e as tristes caras deles, que branqueavam, tantas máscaras" (JGR, Grande Sertão: Veredas)
Obrigado por esta imagem que é a de um velho grito de João Guimarães Rosa!
Dominações vs. ilusões - 4
As tecnologias que envolvem, na actualidade, a investigação no campo da neurobiologia e a própria conectividade global em rede estão a definir, cada vez mais, um terreno fértil onde o humano pode passar a ser visto como um fluxo virtual por desvendar, até ao limite - hoje ainda impensável - das suas potencialidades.
As próteses, a digitalização da materialidade corporal, as novas mediações entre metabolismos apontam já para uma abismada revolução na ordem da cultura e do genoma, os dois macrocódigos através dos quais nos compreendemos e significamos a nós próprios, pelo menos nos dias que correm.
Plano nacional de Leitura
Então os ministérios esquecem a logotecnia, o cibermundo e o horizonte dos blogues? Sou eu que imagino, ou é mesmo verdade?
Decepção
Está a gente à espera da tão anunciada vaga de frio polar e acontece-nos isto. E eu a pensar que ia utilizar os gorros de malha e o equipamento da neve! Seja com for, parece que ainda há dez anos de relativa esperança.
Programa eleitoral do partido inexistente
Em altura de campanha eleitoral, caso existisse um partido, mesmo se pequeno, sem grandes alinhamentos corporativos (sindicais, patronais e outros) e sem cargas ideológicas pesadas, atento à liberdade, ao ambiente e às novas formas de sociabilidade, creio que o seu programa de regionalização deveria e poderia ser inovador.
Proporia, por exemplo, três regiões. Só que, em vez de estas serem máquinas burocratizadas e abertas ao apetite funcional dos caciques localistas, seriam antes regiões meridianas essencialmente viradas para a resolução muito pragmática de aspectos económicos.
Por exemplo, suponhamos a existência - por concelhos - da Faixa Litoral, da Faixa Interior (acima dos 70% da média comunitária) e da Faixa Interior Depressionária (abaixo dos tais 70%). Podia imaginar-se um quadro orçamental com regras diferentes e outros mecanismos inventivos e compensatórios virados para a "descriminação positiva", como costuma dizer-se. Não haveria parlamentos, nem fronteiras latitudinais ou outras, nem cargos fixos, centrados e instalados em pretensas capitais regionais.
Havia, isso sim, umas tantas reuniões por ano dessas três redes de concelhos (uma espécie de Assembleia Móvel) de onde sairiam, de acordo com uma parametragem previamente definida, os principais projectos que supririam as lacunas, aliás diagnosticadas, deste cantinho da União Europeia (e não havia cá tempo para moções e para política caricatural e coisas dessas).
Simples, fácil, exequível e sobretudo ao arrepio das tentações politiqueiras e corporativas tão em voga, quer na versão Relvas, quer em tantas outras.
Noite embevecida
Não é que, ao ver o filme e o documentário sobre Winston Churchill, bebi um copito a mais! (ainda por cima... bela cerveja alemã comprada no Lidl, passe a publicidade)
Não é que, apesar de tão datado como Trajano, eu continuo a admirar profundamente o jeito intuitivo, sagaz e persistente desse menino de ouro! (But... this are things one never tells!)
Domingo, 23 de Janeiro de 2005
Uf!?
Há episódios incríveis numa rede espontânea como é a internet. E esta que vos vou contar até era de manter em silêncio. É verdade, devia agora era calar-me, sossegar e apenas sorrir ali na varanda a fingir que olhava para a primeira infância da novíssima laranjeira. Trata-se de um romance que foi o meu primeiro (escrito em 1982 e publicado seis anos depois) e que nunca devia ter saído a público. Felizmente isso aconteceu numa pequena editora, ainda por cima, na altura, com sede na Suíça. Coisas estranhas. Já há quase há uns vinte anos, uma revista de uma universidade norte-americana (Elizabeth Shaffer, Introduction to Between the Echo of the mirror em New Wave, Un. Colorado, 20, 1988, pp.22-25, Boulder) pôs-se a traduzir uma parte do livro e eu fiquei pasmado. Hoje... ando à boleia pela net e não é que dou com uma página designada "The best novels of all times in the Portuguese language (Selected by Piero Scaruffi)" onde a dita hipótese de romance aparece em vigésimo quarto lugar, antes da Memória de Elefante de Lobo Antunes e depois de Vidas Secas de Graciliano Ramos!
Não sofro de autofagia, mas sei que só conto os meus romances a partir do segundo (o mesmo não acontece com os ensaios). O princípio de Peter é um bom guia. Mas uma boa garagalhada não é pior.
(já agora os cinco primeiros da surpreendente lista são: "Machado de Assis (Brazil, 1839): "Don Casmurro" (1899), Augustina Bessa-Luis (Portugal, 1922): "Vale Abraao/ Abraham's Valley" (1991), Jose Saramago (Portugal, 1922): "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (1984), Jose-Maria Eca-de-Queiros (Portugal, 1845): "O Primo Basilio" (1878) e Jorge Amado (Brazil, 1912): "Dona Flor e seus Dois Maridos" 1966).
Simplicidade - 2
Tenho uma aluna que escreve com palavras bastante previsíveis, calculadas e imagináveis em todo o terreno. Mas, no final de cada texto, rebate toda a aparência com um arrebatado valete de ouros. E eu fico sem saber o que dizer. Ainda bem.
Simplicidade - 1
Há de facto blogues que nos deleitam, devido à sua talvez inesperada criatividade. E fica sempre esta pergunta: por que esperamos o que esperamos? (talvez pela mesma razão que não esperamos o que, muitas vezes, nem se chega a avizinhar do nosso destino mais imediato)
Visitantes Miniscênticos das últimas duas semanas
Sabe bem saber que os caminhos deste blogue se cruzam com muitos outros:
Portugal - 4309, Brasil - 317, Estados Unidos - 191, Moçambique - 69, França - 60, Espanha - 58, Alemanha - 53, Reino Unido - 42, México - 41, Holanda - 21, Canadá - 18, Luxemburgo - 12, Filipinas - 9, Suíça - 9, Itália - 7, Polónia - 6, Áustria - 6, República Dominicana - 3, Coreia do Sul - 3, Japão - 3, Dinamarca - 3, Hungria - 3, Bahrain - 3, Noruega - 3, Malásia - 3, Venezuela - 3, Singapura - 3, Taiwan - 3, Belize - 3, Peru - 3, Bélgique - 3 e Colômbia - 1.
Espero dar eco activo às mais variadas topografias que vêm ter diariamente com o Miniscente!
(fonte Geoloc)
Dominações vs. ilusões - 3
E de repente a palavra "maremoto" invadiu com sofreguidão a nossa linguagem. Talvez seja genético: a necessidade de hiperbolizar cede imparavelmente à natureza da escolha. Entre tantas potencialidades e virtualidades, esta, a do "maremoto", passou de súbito a moda e, de certo modo, já virtualiza o discurso que nos envolve (até os nossos melhores cronistas já foram levados pela torrente).
O senso comum cresce assim: como um motor turbo que se alimenta do verosímil, do denunciado, do previsível, ou do simples encaixe criado pelos efeitos da rotina que não ousam ir patra além da própria rotina. E desta maneira singela, o que é montagem mimética e repetitiva torna-se na coisa mais natural e inquestionável do mundo. Um detalhe. Apenas isso. Mas é da repetição que nasce a liturgia. Toda a liturgia, toda a crença e, até certo ponto, toda a capacidade de iludir e induzir a convicção.
Dominações vs. ilusões - 2
O virtual veio possibilitar que o campo de possibilidades deixasse de ser uma mancha imaginária que se cumpriria num além (escatológico, utópico ou ideológico), para passar a ser a imanente realização, já e hoje, de todas as possibilidades através das tecnologias de raiz ciberespacial.
A visão desceu à terra e confinou-se assim com a instantaneidade, enquanto sistema de vida, no seio do qual a dominação já não depende de um centro, de um espaço original ou de um império, mas depende, isso sim, de um movimento, de uma modulação e de uma abertura que está para além do político clássico (e moderno).
A liberdade, a democracia, as soberanias, a própria existência estão, hoje em dia, a jogar-se em novos tabuleiros. Tabuleiros poliplanares.
(não admira, pois, que a política seja cada vez mais mera gestão, a nível local, e tentativa de controlo dos fluxos de imagem a nível global)
Dominações vs. ilusões - 1
O estado alucinogénico, tão na moda há umas quatro décadas, permitia viajar ao longo da propagação electrónica. O real e o não real separavam-se ainda, embora se separassem já menos do que acontecia antes com o paraíso e a vida terrena.
Hoje, a tendência é cada vez mais híbrida: real e não real a fundirem-se e a sobreporem-se, enquanto a alucinação tácita e socialmente consumada do virtual (e do seu embrião chamado zapping) se perfila em vez do velho alucinogénio.
Os expressionistas não viam, tinham visões. Hoje somos todos expressionistas, mas com uma diferença: em vez de visões, vamos tão-só visionando. Como se isso fosse apenas ver. Por sobre este diáfano aparelho de linguagens e de convicções desmontadas, vamos falando, vamos blogando, vamos pretensamente opinando.
Mas o rei vai nu.
Pessoa bem dizia que o mito era esse "nada que é tudo", como se fosse "o corpo morto de Deus/ vivo e desnudo". Lembram-se?
Lembrando Bataille
Se a RTP tivesse um canal que pudesse concorrer com a SIC-Notícias (não é, pela certa, salvo raríssimas excepções, aquele pobre empreendedorismo que pode ser visto a partir do Monte da Virgem), faria um programa, aos Sábados, pelas 00.00 horas, com o nome quase baudelaireano, “Flores do Mal”. Podia até ter como breve epígrafe: “La littérature, je l´ai, lentement, voulu montrer, c´est l´enfance retrouvée” (Georges Bataille, La Littérature et le mal).
Sol de Janeiro
Hoje plantei uma laranjeira. Livros já escrevi. E desde que ouvi o presbítero Louçã, fiquei a saber que pouco mais interessa.
Vazios da campanha eleitoral
Um choque em cadeia supera qualquer ideia mais pura sobre fiscalidade, tecnologia ou gestão.
Limiares da campanha eleitoral
Marques Mendes e António Vitorino fariam um tête à tête mais equilibrado. Por todas as razões.
Às portas da campanha eleitoral
If you can't see the light at end of the tunnel there must be a train coming.
Por LC |
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