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Terça-feira, 11 de Janeiro de 2005

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Silhuetas

Quando ia a sair do bar, era noite, vi uma nuvem humana em delírio. Imobilizei-me. Quando pensei que ia ser varrido do planeta, ouvi um estrondo. Partira-se a montra a meu lado e o caixote do lixo explodia. Depois, houve um clarão. Nada mais. Roncos e sons desconexos. Olhei para trás e aquilo parecia um amontoado de gangsters gigantes, jogadores de futebol americano, gorilas de Hanói. Passaram e eu senti que não passava de uma amiba ilesa entre a furagida praga de milhares de gafanhotos. Por milagre assim foi.


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Uma vez não são vezes

Uma vez, em Poitiers, um homem subiu a rua a correr. Entrou na estação e viu um outro homem que saía, apressado. Um correu atrás do outro. Era uma rua a descer e o tom do casario era acinzentado, informe, bordejado de hotéis com sinais luminosos já apagados. Fez-se manhã. De repente, vi uma ambulância e não consigo lembrar-me de mais nada. Só sei que foi em Maio de 1972. Na segunda metade do mês. E eu estava lá.


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Já nem me lembro da marca

Há precisamente vinte anos, com ajuda de um subsídio do sindicato dos artistas neerlandês - as coisas em que um gajo andou metido! -, comprei a minha primeira máquina de escrever movida a esfera. Aquilo era um mimo. Apagava, rescrevia e tinha uma espécie de turbo minimal que dava ao engenho um ruído de fundo motorizado que me embalava como nunca antes tinha acontecido. Foi o fim da era da martelada. Mas foi, também, o início da impensada espera de apenas quatro anos. No, a todos os títulos, histórico 1989, o MS DOS bateu-me à porta, eu levantei os braços e acabei por suspirar de consternação aliviada.
Até hoje.


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Não tinha nada que olhar

Num dia de chuva e céu muito carregado, passei pela frente da porta do meu vizinho. Não havia luz e a trovoada já ameaçava.
Olhei e vi que o meu vizinho segurava no ar a gata branca, branquíssima, que era, toda ela, naquele momento fulminante, uma rara mancha de luz no meio da mais misteriosa caverna.


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Pressentimentos imaginados

E em certas noites, à beira do canal, tantas foram as vezes que parava a olhar para longe e subitamente me ocorria a ideia de duas mãos que me empurarriam para dentro da água suja. Nunca aconteceu.


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Quando ainda escrevia à mão

Já não sei em que livros, mas confesso que várias vezes me vi rendido, sobretudo na escrita de sonhos ou na deambulação monologada, àquela imagem que é hoje, em todos os sentidos, adverbialmente incorrecta: a onda gigante do tamanho do horizonte que caminha sobre todos nós.


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Breves 3

Pedro: confirmo que o dinheiro nos leva muito mais longe do que qualquer atavismo semiótico.
Contudo, concordar-se-á que foi com actos semióticos, nem sempre ponderados, que Onassis fez o que fez.
E, muitas vezes, com a roupinha fora do sítio certo.


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Breves 2

Maria João Bustorff disse que, se o PSD vencesse as eleições, Évora seria Capital Nacional da Cultura. Por que não segredou tal novidade ao ouvido de Durão (na Primavera de 2002) ou de Santana (no Verão passado)? Faro teve mais sorte com os segredos. E ainda bem. Já agora, tenho saudades do ciberscópio da Coimbra 2003.


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Breves 1

Se tivesse sido o Aznar, também terias escrito o mesmo? Estou certo que sim. Mas gostava de lê-lo escrito por ti. Bem sei que os “ses” habitam um universo de duendes no cabo do mundo da antimatéria.
(já agora, pensavas que te escapavas à blogosfera, não era?)


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Memória & caldeirada



Ontem, na RTP-Memória, passou uma das antigas "Noites de Teatro" que, pelo menos, entre o final dos anos cinquenta e o início dos anos 70, preenchiam o serão de Quinta-feira (ou era Terça-feira?).
Na peça de ontem, Ájax de Sófocles, Eunice Muñoz encarnava Tecmessa, em gravação de 1973, com produção exclusiva da televisão estatal.
No fim, fiquei sem saber de quem era a encenação, de grande qualidade, saliente-se, e a riquíssima construção do espaço cénico.
Um desafio para a altura, mas um desafio impossível nos nossos dias.
Hoje em dia, aquela duração impertinente e extremamente estética, aquela rasurada entrega ao tempo, aquela morosidade da palavra pronunciada e aquele denso e labiríntico cruzar de vozes jamais se poderiam tornar em "produto" televisivo.
Em pouco mais de trinta anos, o alinhamento das imagens veiculadas pela televisão "evoluiu" do paternalismo calculado ao calculismo gaiteiro e massificado.
Naquele tempo, a larga maior parte das pessoas não entendia aquelas imagens. Mas era o momento da "Noite de Teatro" e isso era o quanto bastava. Tratava-se de enunciar um poder referencial e reverencial, sem quaisquer concessões por parte de quem explicava ao povo o que devia ser e como devia ser (e a peça de ontem até escapava ao verosímil dominante na época).
No tempo de hoje, a larga maior parte da população nem chega a colocar a questão da compreensão. O poder está do lado do fluxo de imagens e, para além do prodígio dos deveres - essa natureza morta já sem qualquer sentido -, basta-se a si próprio, reproduz-se por si próprio e ensimesma-se por si próprio a bem das audiências e da alegria apolvilhada do nosso bom povo global.


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Economias paralelas


Jan van Goyen

A saga dos roubos de arte na Holanda continua. Na noite de ontem, no Museu Westfries de Hoorn, foram roubados mais de vinte quadros, entre os quais obras de Jan van Goyen, Jacob Waben e de Matthias Withoos.
Ou pensam que é só por cá que as economias paralelas se agitam?


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Temperar com azeite

Hoje saiu uma "Portaria" (n.º 24/2005. DR 7 SÉRIE I-B), assinada por muitos ministérios (das Actividades Económicas e do Trabalho, da Agricultura,Pescas e Florestas, da Saúde e do Ambiente e do Ordenamento do Território), que define "as regras relativas ao modo de apresentação do azeite destinado a ser utilizado como tempero de prato nos estabelecimentos de hotelaria, de e bebidas".
When the music’s over, turn out the lights.


Segunda-feira, 10 de Janeiro de 2005

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S. Boaventura

Só hoje descobriram o manifesto. Vendo bem, até lá estão pessoas simpáticas. Há de tudo, como convém. E isto das polémicas é sempre sinal de boa vida. Só não entendo a razão que leva aquele senhor da sociologia porto-alegrense a ser tão abençoado. Será comércio justo? Não sei. O certo é que tenho ali o Mil Folhas pousado sobre a mesa, desde Sábado. Confesso que com o imbróglio até deixei queimar o bolo de requeijão. Aliás, sem ser grande barra a teologia, devo dizer que, apesar de não ter gostado nem dos poemas, nem da respectiva crítica, sempre fui um indefectível fã de Maria Filomena Mónica. Desde muito antes de ela ter dito que se “estava nas tintas para a autoconfiança dos portugueses”. S. Boaventura não está. E a real companhia também não.


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A piada de mau gosto

vem hoje no Barnabé. Não será pelo que possam pensar (venda, véu, velame de sentido único), mas é-o, sim, pelas dores do Índico. Tanto é patético o aproveitamento miserabilista da coisa, como a graçola à boleia da dita.


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Os sofás do anfitrião

Embora esteja a completar o segundo dia de contagem, o Geoloc permite conhecer a diversificada proveniência dos visitantes do Miniscente. O facto, já ontem aqui referido, não deixa de entusiasmar. Não tanto pela quantidade, mas sobretudo pelo que significa de salutar e mundializada respiração. Ora veja-se: Portugal -. 423, França - 24, Brasil - 17, Filipinas - 8, Polónia - 6 , Alemanha - 6, Reino Unido - 5, Moçambique - 3, Espanha - 3, Coreia do Sul - 3, República Dominicana - 3, Estados Unidos - 2.
O que vale é que o entusiasmo é sempre passageiro, sobretudo quando um braço deixado de fora, sobre as ondas calmas da lagoa do The Truman Show, acaba por rasgar o céu.
E, então, o rei fica subitamente nu, mas os softwares também.


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Sinal dos tempos

Com linguagens diferentes, cada vez mais a opinião de crédito aparece apostada numa clara mudança de sistema político. A crítica recai na inevitável cegueira atribuída aos deputados que são eleitos sem qualquer relação concreta e vivida com o eleitorado. Eleitos em nome de uma abstracção geral e universal, a “nação” ou o “povo”, os nossos deputados não respondem perante nada, a não ser perante a doxa imprimida nas sedes partidárias em nome da conjuntura estreita, da antecipação serôdia ou do truque previsível. É assim, goste-se ou não.
Para piorar a já débil qualidade do nosso actual formato democrático, desta feita as listas mostraram-se claramente apressadas e deficientes, tendo perdido o carácter diáfano ou dissimulador que antes ainda denotavam. Um passo de pelicano em vez do clássico pudor da rã.
Para agravar a situação, vamos ter, em vez de um único partido falso - os verdes (que permitem esconder a foice e o martelo aos comunistas) - o razoável número de quatro (anunciam-se como outros apêndices, respectivamente, o Partido da Terra, o Partido Popular Monárquico e ainda a chamada Renovação Comunista). Faça-se justiça ao partido de Manuel Monteiro - e aos outros todos, MRPP incluído - que, pelo menos, se apresentam de corpo inteiro e sem taras perdidas.
Adivinham-se, na próxima Assembleia da República, debates intermináveis, retóricas repetitivas e secas, linguajares áridos, metáforas pastosas, argumentos estéreis e horas e mais horas de debate infrutuoso. Uma casca de banana luminosa a suscitar um swing saudável e apetitoso a todos os descrentes e inimigos da democracia.


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Martha Nussbaum

em entrevista ao jornal ecologista (de esquerda) holandês De Groene Amsterdammer (10/1/2004):

Todos os direitos necessitam de um empenho activo do estado, e todos os direitos têm um componente económico.
(Alle rechten behoeven actieve inmenging van de staat, en alle rechten hebben een economische component.)
A liberdade de expressão, por exemplo, exige (implica) escolaridade, e isso significa que deve ser investido dinheiro (pelo estado).
(De vrijheid van meningsuiting vereist bijvoorbeeld scholing, en dat betekent dat er geld moet worden uitgegeven.)
Em certas partes da Índia as infra-estruturas e o sistema educativo são um verdadeiro desespero. O que é que significa então liberdade de expressão? O que é que significa então direito de voto?
(In bepaalde delen van India zijn de infrastructuur en het onderwijssysteem een puinhoop. Wat betekent vrijheid van meningsuiting dan? Wat betekent stemrecht dan?)
Mesmo nos Estados Unidos, onde as pessoas estão habituadas à ideia das liberdades negativas, há decisões do Supremo Tribunal que colocam o direito à educação com algo inerente à própria liberdade de expressão.
(Zelfs in de Verenigde Staten, waar men erg gehecht is aan het idee van negatieve vrij heden, zijn er uitspraken van het hoog gerechtshof geweest die stelden dat het recht op fatsoenlijke scholing inherent is aan het recht op vrijheid van meningsuiting.)

E esta?


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Smiling

Para sorrir ou rir um bocadinho com processos de truncagem gráfica estilo Contra-Informação blogosférica, vale de facto a pena passar pelo Bloguítica. Antes que a coisa caduque!


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Notícias do mundo da imagem

Saiu hoje a lei (n.º 1/2005. DR 6 SÉRIE I-A) que regula "a utilização de câmaras de vídeo pelas forças e serviços de segurança em locais públicos de utilização comum".
Acho curiosa a expressão "utilização comum". O semiótico A. MacHoul já quase há uma década que propôs a superação da ideia tricentenária de cultura pela mais contemporânea "community" ou "being-in-common": “A community, then, is whoever (collectively) copes - methodically - together with what happens, which may conform to what we think are collective expectations”.
O que os nossos legisladores andam a ler!


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Securitat

Ontem andei o dia meio engripado e pude ver televisão, à noite, com aquela tranquilidade que esquece o stress mais pesado. Daí que a passagem pelo Arte me desse a ver a reconstituição ficcional do único assalto ao banco estatal que terá ocorrido na Roménia, no tempo da outra senhora. A coisa passava-se em 1955. Depois de as autoridades descobrirem os bandidos - todos judeus e recentemente saneados de alguns serviços de estado - decidiram realizar o filme, sem que houvesse algum precedente nesse sentido. O ministro da tutela acabou por autorizar, desde que os serviços secretos providenciassem a máxima discrição possível. Mais: os assaltantes deviam ser os próprios actores.
É evidente que o mais patético foi ver no filme os próprios "bandidos", nos seus respectivos papéis de stars meio amedrontados, a confessar o que haviam pretensamente feito, antes mesmo de serem julgados (na realidade). Claro que, algum tempo depois do filme, um Tribunal Militar Especial fez o que tinha a fazer: foi tudo condenado à morte, sem apelo nem agravo, excepto a única mulher que, no caso, era dada como alegada cúmplice: essa, "por ser mãe", foi enviada para "trabalhos forçados" até ao fim da vida ("perpétuos").
No final, veio a saber-se que os acontecimentos, todos eles de facto reais, haviam sido parte de uma campanha anti-judaica, no momento em que a política de forçada emigração dos judeus para Israel se tornava mais do que desejada (e foi-o na prática), embora não devesse dar demasiado nas vistas. O mesmo se passou na Polónia, na altura.
O filme ilustra ainda - com uma fotogenia assustadora -, sobretudo na abordagem à perseguição e aos interrogatórios, o canibalismo político e a hipocrisia mais violenta e verdadeiramente sanguinária destes regimes do "homem novo" - expressão corrente noutros filmes romenos da época - que ainda hoje meio mundo silencia.
Porquê?


Domingo, 9 de Janeiro de 2005

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Anfitrião sabido



Com ajuda do Abrupto instalei o Geoloc, dando assim ao Miniscente a oportunidade de conhecer, em tempo real, a origem geográfica de quem o visita. Embora com pouco mais de 24 h. de convívio com o software, tempo ainda insuficiente para qualquer tipo de conclusões, é já, no entanto, interessante ver as Filipinas em terceiro lugar, apenas atrás de Portugal (cerce de 60%) e do Brasil (cerca de 12%), entre a mais recente - e, aliás, pequena - vaga de visitantes do Miniscente.


Sábado, 8 de Janeiro de 2005

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Convivência global e convivência doméstica (actualizado)

O diário holandês Volkskrant publicou, no Sábado passado, um artigo assinado por Janny Groen sobre a cada vez mais estranha relação entre pais e filhos de origem marroquina que moram na Holanda. Na abordagem de Groen, o que está em causa já não são as clássicas segunda e terceiras gerações, mas sim o caso da mais recente primeira geração, muito marcada, na sua juventude, pelo impacto do 11 de Setembro. Se, no Ocidente, o vórtice criado pelo dia das torres gémeas continua a ser visto como o início de um processo que, de um modo ou doutro, veio alterar radicalmente os paradigmas habituais de análise política e social, este caso, pelo seu lado, permite-nos confirmar esse mesmo quadro, mas agora no mais íntimo e impensado reverso da medalha.
O mais curioso no artigo de Groen - e sobretudo no que é nele subjacente - é o modo como os jovens de origem marroquina apreendem, hoje em dia, o que é o Islão. Em vez de se sustentar nos seus pilares escriturais e da tradição (hadith), o Islão acaba antes por ser moldado, por estes jovens, de acordo com um modo de desabrida e radical oposição a todos os elementos simbólicos do mundo ocidental. Quer isto dizer que, para muitos adolescentes de origem marroquina que moram na Holanda, o Islão acaba por basear-se numa interiorização caricatural, fantasmática e, portanto, diagramática.
Um “teólogo” muçulmano - o termo é, não posso deixar de sublinhá-lo, muito ocidental - da província do Brabante, de nome Mohammed Ajouaou, relata, no artigo de Groen, o que se está de facto a passar, neste momento, na Holanda. Ouçamo-lo:

"(...) tudo começa com o interiorizar de um estilo de vida adoptado por um filho e, aqui e ali, também, por uma, por uma filha. O filho entra na sala e tem sempre um comentário na ponta da língua acerca das cortinas que estão abertas. Tal pode fazer com que gente estranha veja as mulheres que estão dentro da sala. E isso não pode, de modo nenhum, acontecer. (...) Noutras situações, faz-se sentir uma pressão quase hostil sobre as mães e as irmãs para que usem o véu. A televisão também deve permanecer fechada, já que a música que dela sai não é islâmica. Numa fase seguinte, os filhos chegam a separar os pais e as mães na própria casa, sempre que há visitas."

Groen termina o artigo com esta comparação assustadora:

"Segundo Ajouau, em muitas famílias marroquinas sofre-se em silêncio. Tal como os pais de drogados compulsivos, também os pais marroquinos já não conseguem, hoje em dia, evitar a entrada do radicalismo dos filhos na sua própria casa”.

Esta conclusão revela-nos uma novíssima história acerca dos pais marroquinos que se sentem domesticamente reféns dos seus filhos e, no fundo, devido ao facto de estes respirarem um súbito fascínio pelos agenciamentos de violência global anti-ocidentais que, como se sabe, adquiriram uma nitidez muito especial na Holanda dos últimos meses. Os efeitos de contracultura já eram poderosamente conhecidos no Ocidente, pelo menos desde os anos sessenta, mas com outras cores, naturezas e devires. É por isso interessantíssima a comparação que Ajouau faz entre os pais ocidentais confrontados com o flagelo da droga e seus derivados, por exemplo, e os pais marroquinos, hoje abruptamente comprimidos pelo esquematismo pseudo-religioso.
A verdade é que, no contexto da progressiva diluição entre esfera pública e privada, que é uma das características-chave do nosso mundo contemporâneo, a situação descrita por Groen ameaça pôr drasticamente em causa a tradicional política de integração a que países como a Holanda se entregaram há umas três décadas. Este estado de coisas era inimaginável há uns vinte anos, até porque a família marroquina era então um reduto férreo e uno que, apesar das diferenças e dos traumas, não se alheava dos processos estatais que visavam intensa e honorariamente a integração das “minorias”.
Hoje em dia, o 11 de Setembro está em curso em todo o lado. Mesmo na mais aprazível sala de um apartamento de Amesterdão. Nos tempos que correm, as fronteiras entre culturas, alteridades, modos de agir e violências possíveis pulverizaram-se. E, às vezes, parecem mesmo anular-se. E ainda há quem discuta a questão da Turquia com tanto receio e impaciência!


Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2005

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Reparo

Num post (e crónica) que assinei acerca dos "juízes inabaláveis", critiquei convictamente a ideia de que poderiam - ou deveriam - existir listas "perfeitas". Interpretei o facto e tentei provar que essa ideia acabava, em última instância, por corroer o que há de mais importante e vital na própria democracia.
Mas não se entenda esse meu texto e essa minha posição, de modo nenhum, com uma espécie de aceitação acrítica das listas que estão aí a aparecer à luz do dia. A excentricidade e a incapacidade renovadora que denotam são de tal modo gritantes e generalizadas que nem quase valeria a pena escrever este reparo (ver hoje, a propósito, o excelente editorial de José Manuel Fernandes). Não irei tão longe quanto é saudável e causticamente habitual em Vasco Pulido Valente, mas, por outro lado, não há nada como a hipérbole para traduzir de forma cristalina o que se está a passar diante dos nossos olhos.


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Maiorias

Hoje, o Expresso da meia noite promete. A avaliar pelo que se passou ontem na gravação. Seja como for, estarei ainda a dar aulas a essa hora.


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No momento adequado

Foi hoje publicada no Diário da República uma "Resolução do Conselho de Ministros (n.º 5/2005. DR 5 SÉRIE I-B de2005-01-07) que "cria uma instância de coordenação da acção externa do Estado Português".
Também já não era sem tempo.


Quinta-feira, 6 de Janeiro de 2005

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Na RTP - 1, hoje à noite

António José Seguro: levanta o pano do pó, enquanto apara a máscara circunspecta.
António Filipe: levanta os óculos, enquanto ameiga com puro dó a neurose ideológica.
Fernando Rosas: Coça a orelha, enquanto delira com o derribar da conjura bourgeoise.
Pires de Lima: Levita sobre sisudez, enquanto acena na teia para o fantasma da placidez.
Dias Loureiro: Deixem-me lá em paz que eu já dei o que tinha a dar para este peditório.


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Existências

Acabo de colocar no Minitempo, o blogue mais subcutâneo do Miniscente (espécie de sótão para onde atiro coisas antigas), o texto que escrevi para o Salão do Livro de 2000. Para trás ficou uma peça de teatro, um libretto de drama musical e umas notas de viagem. E mais umas coisas. Gosto da poeira inesperada dos sótãos.


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Há com cada coisa!



Por acaso é verdade: uma coisa tão inédita entre nós como é um acordo de fundo entre patrões e trabalhadores, ou, conforme se queira a - linguagem torna-se personagem enquanto o diabo esfrega um olho! -, entre empresários e sindicatos... não tem tido quase menção na blogosfera. Sobretudo naquela em que se esperava que a coisa fosse, pelo menos, mais sensível. Deve ser do derby que aí vem. Ou será das listas ?
Já nem ouso proferir outras alternativas mais fortes. Que as há. Haverá mesmo?


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O sentido de estado e o estado do sentido

Vivemos interrogando ambos e, muitas vezes, não discernimos nem um nem outro. Não é?
Falar sobre Portugal é quase sempre reaver algum branqueamento com o seu ar diáfano, lírico e ocultado.


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Atenção

Soube, via Aviz, que a Buchholz se encontra infelizmente em situação de pré-falência. Durante anos e anos, mais numas alturas do que noutras, a Buchholz tem sido quase sempre a minha livraria de referência (ainda hoje por lá passei). Chegou a altura de voltar em força à Duque de Palmela. Fica também aqui o apelo. Para que se amplifique, para que se difunda, para que se torne bem audível. Enquanto ainda é tempo.


Quarta-feira, 5 de Janeiro de 2005

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O tom da fotografia (e de alguma elevação) a menos

O tom usado por uma "Chefe do Gabinete do primeiro-ministro de Portugal" é ilustrativo do ressentimento e do espírito de desaire que, sem mais nem menos, acaba por conduzir a generalizações e a práticas quase ofensivas face a quem pratica uma opinião livre, consistente e tradicionalmente fundamentada. Ora leia-se - na primeira pessoa do plural (grupo?, ritual?, liturgia?) - a conclusão do comunicado governamental:

"Custa-nos ler artigos de opinião baseados em mentiras"

E... para além da razão e a desrazão em causa, não haveria mais nada a fazer, tipo servir os portugueses, do que andar a responder aos artigos de Miguel Sousa Tavares?


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Posição & posições

Caro Jorge: eu não defendi nenhuma "posição", pelo menos no sentido apologético do termo. Limitei-me a interrogar ("E o que dizer das fotocópias... etc.?").
Como já escrevi, entre o acaso, a circunstância e a necessidade, há sempre uns que copiam e outros que perdem. E estes últimos, já agora, são sempre os mesmos. É assim, é parte do vivido. É um dado. Retirar "últimas consequências" daqui? Talvez apenas olhar o mar.
(de resto, Francisco, completamente de acordo: "nas tintas" para essa coisa que dá pelo nome de "progresso cultural" e, claro, corrosivamente alinhado em nome da liberdade, da independência e daquilo que nos é justa e materialmente devido)


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Estado de alma

Luz de fim de tarde, inclinação remota e um único fim em vista: demover por momentos a memória.
Há dias assim, cândidos na sua crueldade.
O que vale é poder adivinhar a frescura sem limites e a própria beleza da intuição (há coisas que só por dentro se podem ver e tocar).
A comoção é o outro nome de um mesmo abismo: a proximidade.


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Os Juízes inabaláveis

Continua na boca e na cabeça de muita gente a ideia de que a democracia deveria produzir governos e listas de deputados perfeitos.
No fundo, quem assim pensa não entende e não deseja a democracia. Porque se a democracia produz algo é precisamente o esteio que torna - em primeiro lugar - a liberdade possível. E não a perfectibilidade das soluções governativas (o que não quer dizer que não se lute, de acordo com ópticas diferentes, pelos melhores governos e soluções possíveis!).
A verdade é que a democracia é um sistema criado para os homens, com todos os seus vícios e virtudes, públicos ou privados, e não para uma galeria de deuses.
Só o dever-ser de uma ditadura - ou de um concílio divino - é que criaria governos ideais, mas essa idealidade seria sempre a idealidade de algo ou de alguém e não a emergência de opções livres e sobretudo possíveis.
Pode questionar-se a lógica que existe em certas listas que põem lado a lado, no mesmo partido, com todo o respeito, pessoas como Duarte Lima e Pôncio Monteiro (entretanto desconvidado) ou Matilde Sousa Franco e Pita Ameixa. Há mesmo casos, já se vê, em que a lógica perde o seu próprio nome, aliás bastante nobre.
Pode questionar-se o leque de poderes que a direcção de um partido tem à sua disposição para a formação de listas. Pode questionar-se a relação entre o conceito de “indígena”, de “aparelho” e de “notável” na concepção interessada das listas.
Pode questionar-se a norma de certos partidos que têm em conta apenas um desiderato funcional para a escolha dos seus Zé Ninguém (a expressão era do velhíssimo Reich). Pode mesmo questionar-se a crise evidente de representação que há-de, em todos os tempos, fazer ferver os cenários discursivos que se movem em democracia.
O que não se pode sistematicamente fazer é, em nome dessa crise natural e intestina - e que a própria democracia enquanto processo vai aprendendo a superar -, pôr-se em causa aquilo que uma certa contra-cultura designa por “formalismo”, ou por “mera democracia institucional”, ou ainda, na linha da revolução de há trinta anos, pelos “desvarios inúteis da democracia burguesa”.
Quem assim pensa, no fundo, sente-se mal em democracia. Sente-se mal entre o mau cheiro aziago da opinião maioritária e proibiria, por isso mesmo, todos os Big Brothers “burgueses” e “massificados” em nome do seu alto e elevado critério.
Quem assim pensa expande ainda hoje a sua ira furibunda em sentido único, recorre ao privilégio extraordinário da liberdade (geralmente pondo em causa a própria cultura ocidental que, nos últimos três séculos, edificou a democracia tal como a entendemos, respiramos e vivemos hoje) e sobretudo acede facilmente aos média.
Quem assim pensa chega a imaginar, por trás do seu “comércio justo” e palavroso, que tem direitos especiais que estão para além da proporção que é devida aos cidadãos tidos como “mais comuns” (por exemplo, a massa dos não menos palavrosos intervenientes nos fóruns matinais radiofónicos).
É por isso que eu continuo a sorrir face a muitos dos juízos que exigem soluções perfeitas, radicais e inabaláveis, oriundos que são dos autores dos novos Leviatãs, porque tendencialmente intolerantes, porque ressentidos face à queda dos “seus mundos idealizados”, porque, ao fim e ao cabo, involuntariamente alérgicos ao que a democracia tem de mais saudável: a livre escolha.


Terça-feira, 4 de Janeiro de 2005

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Usos e fugas

Hoje vale a pena citar Isabel Pires de Lima:

"Também eu sou nostálgica da norma, podem ter a certeza, designadamente da norma que distingue a grafia do "porque" de uso causal do "por que" interrogativo (...)"

(uso que anda, de facto, tão mal tratado!)

"Importa-me mais a defesa dessa componente da norma do que da que tenta impedir a integração de neologismos, grafados, é-me indiferente, "blog" ou "blogue", "bloger" ou "bloguista" (...)"

(concordo, mas com a maleabilidade própria das geniais "fugitiv words" criadas pelo estímulo da revista The Atlantic).


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Já agora

Dentro de dias, a nova correspondente do Miniscente em Barcelona entrará em acção. Uma contratação de Inverno.


Segunda-feira, 3 de Janeiro de 2005

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Pactos?

Não acredito em pactos de regime. Um ou outro com efeitos estruturais e com valências que ultrapassem o fôlego de uma geração ainda vá que não vá. Em democracia e em liberdade, o que esperamos verdadeiramente é diversidade e clareza de propostas e, quando vingadas pelo voto, o que se espera então é inabalável e estóico cumprimento das ditas. Má nada.


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Direitos de autor

E o que dizer, caríssimo, das fotocópias que fazem dos nossos livros (refiro-me aos ensaios e sobretudo àqueles que aparecem permanentemente nas bibliografias em licenciaturas e mestrados)?


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O 09/11 escrito em letras pequenas

Na Holanda, desde o passado dia 1 de Janeiro, todas as pessoas com mais de catorze anos passaram a ter que se fazer acompanhar de um cartão comprovativo da respectiva identidade. Nem toda a gente parece ter levado a coisa muito a sério, mas a polícia não deixou o trabalho em mãos alheias.
Cá entre nós? Havia de ser bonito.


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Relendo

Uma amiga viu o último romance de Lobo Antunes, em cima de uma mesa aqui em minha casa, e explicou a razão por que não o tinha comprado: demasiados espaços brancos e letras demasiado grandes (aquilo era espaço de vida a intometer-se no espaço do livro, aquilo era espaço de papel de merceeiro para tomar notas e não literatura, aquilo era um maço artificial para entreter compra e venda, aquilo era produto de marketing com formato ideal para tradução em capa dura sob o pretexto de romance). Engoli em seco, pensei, evoquei, sorri e acabei por decidir escrever este post, não fosse o diabo tecê-las (já agora, do dito livro, consegui ler 27 páginas, em três noites sucessivas, antes de me deitar. Imagens fortes, genialidade inventiva, mas cada vez mais uma certa modorra repetitiva e caótica de vozes e mais vozes sem esquadria e sem horizontes minimamente fixos; fica o vastíssimo prazer das imagens, fica o prazer da antecâmara da escrita, fica uma certa respiração da loucura).
E é assim, palavra a palavra, surpresa a surpresa, istmo a istmo, que um novo ano começa.


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Ouvindo 2005

Ouço siflar o horizonte nas cortinas impregnadas de luz.


Sexta-feira, 31 de Dezembro de 2004

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Bom ano!

Cá estou entre sacadas solares, cornijas voadoras, brasões sem memória, ombreiras amareladas, clarabóias coloridas, acenos invisíveis, escadarias abismadas, cantarias imobilizadas, frestas simuladas, amarras manuelinas, águas-furtadas ao vento, ameados entre sebes, jardins oblíquos, janelas namoradeiras, logradouros de ervas aromáticas, frisos com fantasmas, balaústres fugitivos, mármores enleados e terraços presos à névoa crepuscular. E é deste local mágico que vos desejo a todos, sem excepção, um grande e feliz
2005!


Quinta-feira, 30 de Dezembro de 2004

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Actualidades referendárias

Foi hoje publicado, no Diário da República, o Acórdão n.º 704/2004 (304, SÉRIE I-A) onde "o Tribunal Constitucional procede à fiscalização preventiva da constitucionalidade e da legalidade da proposta de referendo aprovada pela Resolução da Assembleia da República n.º 74-A/2004, de 19 de Novembro (proposta de realização de referendo sobre a Constituição para a Europa)".
Algum português acredita ainda neste labirinto de séries, legalidades, propostas, truncagens e procedências ao serviço de um referendo claramente imaginário?


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Actualidades culturais

"Resolução da Assembleia da República n.º 86/2004. DR 304 SÉRIE I-A de 30-12-2004: aprovada, para adesão, o Primeiro Protocolo à Convenção para a Protecção dos Bens Culturais em Caso de Conflito Armado, adoptado na Haia em 14 de Maio de 1954".
Já era tempo. Os portugueses sentiam tremendamente a falta desta grave e incontornável decisão.


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Dois em um e um em dois

Há paradoxos portugueses que são interessantes. Vejamos as três facetas de um em particular que anda aí muito em voga:
a) Toda a gente cala e reduz a tabu a homossexualidade, pretensamente, por causa da separação entre a esfera privada e a esfera pública;
b) Toda a gente envia e recebe SMSs que dizem alto o que todos dizem saber (nomeadamente que os dirigentes políticos A, B e C são gays. É interessante como o uso da palavra inglesa suaviza a alegada tempestade);
c) Toda a gente que é gay prefere viver na clandestinidade, sem tentar sequer fazer da vida um curso normal e assumido de direito próprio (a excepção é sempre coisa de malucos e excêntricos, tipo opus gay, artistas, meninos de coro, almirantes, actores, bailarinos, etc., etc., etc.).
Nos países protestantes sempre há menos hipocrisia; mas nós, portugueses, amantes de altares barrocos e de malinhas pretas de mão, adoramos ser dois em um.
Hoje lá tive que apagar mais um SMS que fingia ser
- já se sabe - mais uma mensagem de "santo natal"...


Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2004

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Balanço - 2

Há quarenta anos, os programas de TV que faziam o balanço do ano apareciam carregados de fascínio. Arrastavam o imponderável caudal das imagens a preto e branco, durante uma hora, e desse modo passavam em revista o que se sentia como distante, inocente, fotogénico e único no sentido da pouca compulsão criada.
Hoje, esses mesmos programas aparecem carregados de uma redundância enjoativa. Mobilizam o que já havia sido desenterrado reiteradamente, cortando ou alargando partes do fluxo global de imagens durante uma hora, como se quisessem anestesiar a nossa memória através de uma banalização galopante e desinteressante.
Acabei de comprovar este verdadeiro contraste, ao esforçar-me por seguir, do princípio ao fim, o programa da RTP que acabou há pouco.
Ou será isto tudo uma desfocagem com origem nos acenos da infância?
Vá-se lá saber.


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Sem resposta

Todos os dias, há mais dez mil mortos que se noticiam na sequência da imensa catástrofe do Índico. Amanhã serão cem mil e poderemos então imaginar uma cidade como Coimbra a afundar-se na impiedade do oceano, entre Sumatra e a Somália. Que dizer, para além de explicar, enumerar, ajudar, agir, mostrar, comparar, difundir e repetir até à exaustão? Que dizer para além da enxurrada retórica? Que dizer aquém da necessidade? Que dizer?
Há perguntas que é impossível colocar.


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Sontag

De Susan Sontag ficam-ne duas recordações: um grande livro sobre fotografia que li nos anos oitenta e um outro onde a autora avançou com a interessante noção de "interpretose" (não me apetece levantar e ir ver às estantes os nomes e tudo o resto; mas, já agora, por que me esqueço eu de todos os nomes dos livros, mesmo daqueles que ando a ler?).
De resto, Susan Sontag pertencia a outra galáxia.
Seja como for, a morte traz sempre a terreiro essa incompreensão de voltar de novo a não ser.


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Balanço - 1

Nunca tive grande jeito para círculos de afinidades persistentes. Nas ideias, nos livros, nos filmes, nos blogues e noutras coisas que a vida enfrenta. Na maior parte das vezes, vejo-me a regressar a sós. No limiar da partilha. Ainda que infusa, espontânea ou admirada. Mas nunca tive a tentação das tutelas e das referências fixas, a montante ou a juzante. O que não quer dizer que a amizade não ilumine este meu regressar, algo solitário, entre tectos do mundo; embora ela - a amizade - também não seja contínua, linear e indivisa.
Permanecerão os afectos e milhões e milhões de eventos que denegam a ilusão da montagem. Permanece o amor. Permanece o desejo da lucidez e da independência radical. E é assim que vejo mais um ano quase a acabar e um outro prestes a começar: sorrindo. A ternura a desfilar na confissão e a compaixão a esquecer-se do principal que haveria afinal a dizer.


Terça-feira, 28 de Dezembro de 2004

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Declaração do tempo

Regresso após uma semana de ausência. Talvez a maior desde que esta escrita se fez blogue. Vive-se um tempo incomum, embora a ameixoeira se resuma ao ermo dos ramos e a macieira ainda resista. Enquanto pode. Sobram-lhe umas amolecidas trinta folhas. Um ronronar sem fim. O Natal foi cheio, pleno. Sigilos, doces, apologias domésticas, vilegiaturas, memoriais, lume fortíssimo, litanias, luzes na janela, meteoros (um enorme na estrada para Machede) e ainda uma desmedida incontinência da paixão. Reconciliei-me este ano. Não sei com o quê. Talvez com aquela parte de mim que havia partido e hoje regressou. Somos todos a épica que mais amamos sem sequer o sabermos. E da ausência fazemos castelos, pontes levadiças, estradas desenhadas em névoa. Volto a olhar para a ameixoeira e para a macieira. Imensa a gratidão que habita no ar. Sem lugar. Por isso se escreve aqui. Como se fosse sobre a neve. Regresso.


Terça-feira, 21 de Dezembro de 2004

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Confissão em tempo de festas

Todos os anos é o mesmo.
Um exercício de renovação, uma prática de reencontro, um emaranhado de afectos em torno do tempo e do esquecimento.
Com mais ou menos consumo e luzinhas - só faz bem cumprir os rituais -, este período resiste às inércias, às agressividades menores, às vitimizações e - esperemos - ao mau humor.
Vale a pena agora pôr os pés em terra e saborear uma boa lareira.
Vale a pena agora olhar em frente e saborear a flor do solstício.
Vale a pena agora voltarmos a olhar os que amamos para entender o amor como ele é: misterioso, real, profundo, envolvente e ancestral na nossa condição própria de amar.
Permitam-me que hoje escreva com este tom, com esta legenda sentimental e com este abreviado e penetrante sentido de pertença.
Bom Natal para todos! (ver post fotográfico de boas festas mais abaixo)


Domingo, 19 de Dezembro de 2004

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Conjugalmente ao vivo


José M. Rodrigues

Olá, o que é que julgam?
Como vêem, só nos deixamos fotografar por Prémios Pessoa.
A Isabel dirá o resto. Stop.


José M. Rodrigues

Olá, desejamos a todos um grande natal e um magnífico 2005!


José M. Rodrigues

Já agora dizemos o mesmo a duas vozes:

José M. Rodrigues

Boas Festas!


Sábado, 18 de Dezembro de 2004

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Por cima

o sol a esquecer tudo o resto. Mas há ainda a buganvília amarelada e ao lado a ameixoeira que agora vive apenas da nudez dos troncos e dos ramos. É como a escrita no osso, tão depurada, sem letras, tão esquecida de si que quase se confunde com tudo o resto. Por cima.


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Shifters

E eis como a volúpia se conformou decisivamente com o apetitoso reino digital.


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Radical vs. Conservador

Caríssimo MacGuffin: foste claríssimo. Eu já desconfiava que eras, afinal, um devotadíssimo membro da Academie Française. E agora mais não fiz do que confirmar esse elementar facto estelítico. Só não citaste o medidativo Pascal, o cultural Mirabeau, o utópico Mercier e o nome do café. Daí a minha suave desilusão.


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TOP TEN

Só agora reparei que a malta está a fazer TOPs. Eu sou o mais breve de todos: inscrevo e escrevo o meu próprio Miniscente nas dez linhas seguidas do TOP.
E pronto, sou assim o único a falar verdade. Ou não existe a verdade?


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Publicidade convincente vs. memória



TIME IS MONEY: About 80% of learning Portuguese consists of memorization. Can you imagine how fast you could learn to speak Portuguese if MONTHS of tedious rote memorization were eliminated? Unforgettable Portuguese CD-ROM courses are an amazingly fast way to learn how to speak Portuguese.


Sexta-feira, 17 de Dezembro de 2004

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Máximas de 2004 - 3

"IN MEDIEVAL Europe rulers who wanted to make a statement built a cathedral. In modern Europe they build sports stadiums. This weekend the eyes of much of the continent will focus on the Stadium of Light in Lisbon, where the final of the Euro 2004 football championships will be held.… "
(The Economist, 01/07/04)


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A palavra a Mário Cláudio


Luísa Ferreira

Como director de um jornal de artes e letras pouco conhecido, mas que, mesmo assim, teve três belos anos de vida (& O Mais, 1994-1997), propus a vários escritores que respondessem a um inquérito, no número 4 da publicação (Setembro/Outubro de 1994), cujo tema central era: "Literatura portuguesa dos últimos vinte anos: que balanço?". Mário Cláudio respondeu às três perguntas do inquérito. Deixo aqui, agora, como homenagem ao hoje justamente galardoado com o Prémio Pessoa, a sua quase inédita resposta à segunda pergunta e que era: "Que temas gerais e universais foram nos últimos vinte anos recuperados na nossa literatura?"
Eis o singularíssimo texto de Mário Cláudio:

"Entendo que, na literatura, em globo, e na portuguesa, também, se fez sentir o sopro de um vento renovador, contra o peso da vária inércia de sempre, capaz de dinamizar a presença do sonho, e de conferir estatuto à magia, ao confessar a convicção na salubridade possível, numa era de múltiplas e desenfreadas poluições. A queda dos sistemas estruturados de fora para dentro, os quais encaravam a liberdade, afinal, como aplicação de uma conjuntura livresca, e a alternativa criada, desde há pouco, o tal paradigma, por uma atitude que abre a porta ao milagre, permitindo encarar a existência, em conclusão, para além da dialéctica vida-morte, deixariam iniludível rasto, bem inesperado, não raro, na produção literária nacional. Será provável que não beneficiem, com tal mudança, os criadores que se esforçam por não perder o comboio, e se afadigam, ainda, na venda incessante da imagem que lhes coube, mas eis que do calado triunfo das minorias se trata, em regra, quando a multidão vociferante não logra perceber o alarido da própria voz."

Parabéns, Mário Cláudio!


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Máximas de 2004 - 2

"The problem is this: In a highly polarized election year, the only part of the electorate still in play—those coveted swing voters—is the part that isn't paying attention. They will tend, more or less by definition, to be fairly moderate and to make their decision in a rough and impressionistic way. They'll pay attention less to policy differences, which are clear enough, than to who seems trustworthy, who seems like "one of us."
(Reason, 8/09/04, Julian Sanchez)


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Máximas de 2004 - 1

“As of 1980, these three countries (Espanha, Portugal e Grécia) on average had per capita GDPs that were about 65 percent of those of the nine countries that belonged to the EU at that time. And in 2003, their per capita GDP still stood at slightly above 70 percent of the nine members, evidence that injection of EU Structural Funds, aimed at compensating for the structural problems in the poorer members of the union, has not improved the situation much over the past two decades.”
(The Japan Times, 22/11/04, Takashi Kitazume)


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Agora mesmo

vejo a noite a transformar-se em oceano de sombras, lusco-fusco esquecido nas soleiras de alvenaria que dão para o pátio, glicínias sob o manto denso do maracujá ainda enleado à trave de metal que mais parece um remo a escapar-se entre brumas. Até amanhã.


Quinta-feira, 16 de Dezembro de 2004

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Poeticamente incorrecto

Ontem , o divertimento do governo chamou-se monovolumes (também houve o caso da Rádio Portalegre). Mas o que eu mais gostei foi a senhora que apareceu na conferência de imprensa governamental. Aqueles óculos, aquele lenço, aquela varicela estética, aquele cabelo encapelado, dourado e mergulhado pela poiesis da ventania de Ílhavo; enfim, aquela beleza vulcânica para dar o dito pelo não dito. É que o império cinzento dos homens tem, por vezes, hiper-equivalência em casos específicos como este!


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Nona Pergunta

Faltou uma nona pergunta às oito meta-fisgas de ontem (obrigado Ana pela sagacidade das respotas!). Depois de ver uns espessíssimos quinze minutos da Judite de Sousa de ontem, eis-me a postulá-la: o que haverá ao mesmo tempo de falsete e de ditirâmbico em Paulo Portas que transforma sempre a sua expressão numa espécie de crispada arrelia ressentida que não parece ter fim?


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Coisas da música

1 - Um dos famosos fados cantado por Amália e com marca vareliana teve como título "Sabe-se lá". O fado tinha - e tem - um refrão penetrante e fabuloso quando moldado pela voz de Amália: "Sabe-se lá para o que nasce, quando nasce uma pessoa". Uma gravação célebre deste fado foi registada ao vivo no Olimpia parisiense, em 1957, e ontem o Portugália da Antena 3 passou, não apenas esse registo, como também uma versão revisitada do fado pela voz de Marta Bernardes. De arrepiar, no bom sentido! Já agora, acrescente-se que a Antena 3 vai manter o jogo das revisitações de Amália até Sábado.

2 - Amanhã às 23 h., apresenta-se, na ZDB, integrado no Lumpen Trio, o meu amigo Miguel Sá (laptop)Dj, produtor e compositor autodidacta que integrou o colectivo de músicaelectrónica Zzzzzzzzzzzzzzzzzp! (1991-2002) e que criou com Fernando Fadigas osProducers em 2001. Excelente manipulador de fluxos sonoros em tempo-real que atravessam de forma acidentada - súbitas interjeições e padrões rítmicos abstractos - os territórios da dita Música Ambiental.
A não perder.
(outros concertos: M.Sá (Dj set), Sex. Fri. 17.12.2004, 23h, A CAPELA, Lisboa; Seg. Mon. 20.11.2004, 23h, ETILICO, Lisboa; Ter. Tue. 21.12.2004, 23h, A CAPELA,Lisboa; Qua. Wed. 29.12.2004, 23h, A CAPELA,Lisboa)


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Gostos, posições, explicações

O tempo que perdes a explicar ao Antigo Egipto essa coisa das compatibilidades vs. incompatibilidades! ("Pode ser-se politicamente conservador (ou liberal) e esteticamente radical" - é verdade, sou o primeiro a concordar com tais saudáveis arbitariedades, em todos os sentidos, mas a verdade, no reverso, é que esses campos se tocam uns nos outros tal como as massas de ar se atravessam indolormente. Por exemplo, qual é a tua posição no campo polistético?... e no campo estelítico?)


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Parabéns

ao Maschamba que é um dos blogues, entre cerca de oito a dez, que visito diariamente (sempre que posso). Nele não vejo apenas Moçambique; vejo, sim, em primeiro lugar - parafraseando João Cabral -, muita "faca sem lâmina" que galga "canavial" global, mas sem jamais se esquecer de cortar quando é preciso e a safra mordazmente o exige.Obrigado José Flávio!


Quarta-feira, 15 de Dezembro de 2004

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Interrogação - 2

De onde virá a ideia de que há questões que o ser humano não pode ainda colocar?


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Questão - 2

Existirá um valor que possa caracterizar a mudez de uma pessoa?


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Pergunta - 2

O que faz uma pessoa ser obrigada a interrogar com a ajuda de um enigma?


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Dúvida - 2

O que leva alguém a identificar-se com uma metáfora?


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Interrogação

Qual é o enigma no que se diz, quando - é preciso supor que - nada mais há a dizer?


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Questão

O que domina a emoção, quando ela mesma se livra do peso que a preenchia?


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Pergunta

Que vantagem existe na palavra que deambula à procura de sentido?


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Dúvida

O que faz um gesto demorar-se na impaciência com que avança?


Terça-feira, 14 de Dezembro de 2004

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Já lá está quase

Muito antes de se aproximar das esferas do indizível e do imperscrutável, a metáfora penetra, como uma corrente de ar, nos mundos e nas divisões contíguas que ordenam a casa da nossa mente. E nesse ardor, nessa inquietação, nessa voragem, o pasmo, a admiração e o gáudio como que pactuam. Em vez de riso, advirá um sorriso, uma espécie de procura serena sobre o que estará para vir.


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Textos e imagens em luta de meio campo

A partir das Cruzadas ocidentais (1017) e orientais (1096), a guerra escatológica islamo-cristã tornou-se, no essencial, numa guerra entre profecias. Ou seja, não apenas entre revelações proféticas distintas, mas sobretudo entre textos que se cruzavam, enxertavam ou manietavam, na senda de um triunfo rápido, simultaneamente terrestre e divino. De certa forma, noutra escala e noutra proporção, antecipando o actual papel dos média, na sua relação mundializada com o jogo político.


Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2004

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A situação política actual


(Sem fulanizações.
Imagem meticulosamente roubada ao bicaense Hana Bi)

(Decreto do Presidente da República n.º 100-A/2004. DR 290 SÉRIE I-A 1ºSUPLEMENTO de 2004-12-13Presidência da República Demite o Governo, por efeito da aceitação do pedido de demissão apresentado pelo Primeiro-Ministro, Dr. Pedro Miguel deSantana Lopes)


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Rectangulozinho / Gil - Gis

Estou a ler um livro que comprei na passada Sexta-feira, na FNAC do Chiado: Portugal, Hoje: O medo de existir. É do José Gil, mais um (gostei menos das recentes abordagens sobre o Pessoa - que já vinham do fim dos anos oitenta - e gostei bem mais das abordagens da segunda metade da década de noventa sobre os "monstros" e a "imagem-nua", aqui perseguindo o conceito de aura de Benjamin). É a primeira incursão de José Gil nesta área das identidades lusas, tema sempre quente e desejado por quem viveu alguns anos fora do país. Tenho muitas linhas sobre este tema, mas nunca arrisquei a passar da intensidade do borrão a livro. Não é pela quantidade do material acumulado que ainda hesito em publicar; será antes, quem sabe, devido a algum mal estar na minha relação com o próprio tema (destestaria ser misturado com essa coisa a que se chamou - e que se chama ainda - filosofia portuguesa).
Já agora, a título de nota meramente exploratória, reparo já há alguns anos que existem permanentes confusões entre José Gil e Fernando Gil. Advirá a dita do apelido, mas, mesmo assim, a tentação confusionista é imensa. Confesso que já estive diante de alunos e também de fantasmas profundamente meus que são apanhados em flagrante e repetido lapso. Portanto não confundir José Gil com Fernando Gil, o autor do grande Mediações e do já antigo Mimesis e Negação, além de participante (com Paulo Tunhas e Danièle Cohn) num dos livros centrais do ano 2003, e que aqui sublinhei com a vénia mais do que devida: Impasses seguido de Coisas Vistas , Coisas Ouvidas.


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Soberanias, abismos e convivência

As previsões demográficas provam à saciedade que a sobrevivência da democracia e da liberdade passa, nos tempos que correm, mais pela hábil gestão das mobilidades e dos recursos globais do que pela obsessão do fechamento forçado das fronteiras, hoje em dia meros entrepostos do viver global. Até porque um novo tipo de soberania está claramente, nos nossos dias, a extravasar a ordem dos antigos nacionalismos. Lutar pela soberania significa, agora já e nos tempos que se avizinham, salvaguardar a liberdade e a democracia, não apenas no território ocidental onde fez e faz história, mas também nas vastíssimas diásporas que se movem cada vez mais entre os vários blocos democráticos do Ocidente e as mais diversas origens e paragens do planeta (China, mundo árabe, etc.). É neste movimento de sucessivos reencontros que se situará a ideia de sinoecismo, defendida por Paul Virilio, e que se centra na grande cidade cosmopolítica para que o mundo contemporâneo tenderia.
Vivemos numa grande ponte entre dois universos. Entre um mundo moderno que todos revemos e codificamos claramente, e de que não nos livrámos de grande parte das tarefas, e um novíssimo mundo, cujos sinais globais, hipertecnológicos, ecológicos, macropolíticos e pós-humanos (no sentido das novas antropologias cyborg) nos acenam e nos mobilizam quotidianamente. Vivemos um período porventura homólogo ao Iluminismo de setecentos. Na altura visionava-se retrospectivamente o mundo antigo, enquanto os novos sinais - também tecnológicos, demográficos e económicos - prenunciavam já o mundo que balizaria as práticas de oitocentos e de novecentos. Nessa corrente de ar entre dois universos, Kant, Rousseau, Herder, Diderot, Vico, Hume, e muitos outros, filtraram os múltiplos devires e criticaram o complexo curso das tradições. Dessa sistematização nasceram valores fixos que evoluíram da individualização para a individuação cada vez mais fluida. Hoje revemo-los com a nostalgia dos marinheiros sem embarcação e, entre novos lances meteóricos, voltamos a ter na nossa frente a mesma corrente de ar entre duas voragens, entre dois vórtices.
É na antevisão do universo para que caminhamos - do outro lado da ponte - que os diagramas possíveis da democracia e da liberdade deverão hoje ser devidamente acautelados. Pode mesmo tornar-se normal, daqui a alguns anos, que os dois grandes blocos que se digladiavam nas narrações de muitas profecias quinhentistas, o Ocidente então artificialmente unificado por Carlos V e o vasto desígnio otomano, se venham a reestruturar no seio de uma mesma casa omnipolitana, integrando as tradições e a consciência de devir de uma mesma partilha (e esse poderá vir a ser um dos inícios do sinoecismo acima referido). Contudo, este desígnio - hoje ambicioso e bizarro para muitos - terá que pressupor uma ordem mínima, um entreposto novo, ou seja, um conjunto sucinto de regras de convivência global que deveriam postular-se, para além das crenças e das formas diferenciadas de interpretar e significar o mundo. Foi algo que a década de noventa estrategicamente descurou, devido, talvez, à vertigem de ser, ela mesma, um tempo abruptamente apaziguado.
Para caminhar nesse sentido, deve referir-se que a actual ONU, muito marcada ainda pelos anátemas do pós-Segunda Guerra Mundial, continua presa a um mundo que não entende a complexidade trans e pós-territorial (por outras razões, foi já clara a sua ineficácia em conflitos internacionais dos anos noventa e sobretudo no Iraque de 2003). Vão, portanto, ser necessários, nos próximos anos, novos mecanismos de integração e de interface que assumam, de modo descentrado, o cumprimento dessas regras. A regulação democrática das mobilidades, a segurança, assim como a normalidade das vizinhanças entre culturas e modos de vida constituem feitos estruturantes a que o início do novo milénio deverá inelutavelmente aspirar, para além das questões ambientais e da vital gestão de recursos.
Só assim, um novíssimo denominador comum poderá servir de novo ponto de partida para um novo tipo de entendimento entre blocos planetários: o Ocidente (Europa, Américas, Austrália, etc.), o imenso Mundo Árabe, a grande China (onde o crescimento da classe média tenderá a pôr em causa, a médio prazo, a comunhão entre totalitarismo comunista e capitalismo sem regras), a Índia, a Comunidade Russa, o Mundo Judaico, etc.
Kant teria teórica razão no seu tempo, mas, hoje em dia, essa razão terá que converter-se numa racionalidade que consiga agir para além dos efeitos da brusca civilização da imagem e das significações teo-centradas do mundo. Essa racionalidade ainda não existe e não pode ser sequer imaginada como uma espécie de compromisso à moda do Metropolis de Fritz Lang, ou de deslumbrada injunção diplomática que resolveria milagrosamente todos os males do mundo. Essa racionalidade deverá antes confundir-se com a democracia em projecto, não apenas formatada e fixada territorialmente em nome da liberdade e das convivências pacíficas entre diferentes, mas sobretudo no seu desdobrar para uma dimensão trans-política onde venha a ser possível, de modo inovador, salvaguardar a coexistência diferenciada entre as diversíssimas significações do mundo que, ao fim e ao cabo, definem o nosso mundo (conferindo assim sentido à cidade cosmopolítica do planeta).
A vida humana requer um sentido, uma modalidade pactuada, uma retaguarda face à barbárie. Os abismos dos dias de hoje advêm do tempo real e do império da comunicação, enquanto os de há quinhentos anos advinham do tempo divino e do império da salvação na terra. O que os liga e, por sua vez, o que nos liga ainda hoje, para além das miragens do futuro, é a medida do homem no seu caminhar no mundo, bem como a necessidade de disponibilizar recursos para todos no presente. É aí que a vida requer um sentido, um cuidar no sentido heideggeriano, e não o simples eclodir, ou a inadvertida implosão (ou desconstrução) como prática quotidiana.