Círculo vicioso e viciado
Vi ontem no canal 46 (Arte) um filme passado durante a revolta argelina (entre 1957 e 1962). O filme era uma co-produção franco-italiana e, como muitos outros filmes europeus do género, revestia-se de tons épicos e colocava nos libertados uma natural aura quase salvífica.
Os colonialistas europeus, neste caso franceses, eram vistos naturalmente como carrascos. Nada mais correcto, dir-se-á. Em Portugal, este é um filme que já todos vimos e revimos muitas vezes. Até à exaustão. E o mesmo se poderia dizer dos filmes ingleses sobre a Índia, dos filmes espanhóis sobre o Atlas ocidental, dos filmes holandeses sobre o Suriname ou dos filmes Belgas sobre o Congo. Neste tipo de filmes (às vezes catárticos), há duas coisas comuns, para além das “palavras de ordem”: o acentuar de que o colonialismo foi uma tragédia real e, por outro lado, o enunciar (explícita ou subliminarmente) de uma mensagem auto-punitiva, já que todos estes filmes provêm afinal do ocidente. Até aqui tudo bem.
A questão mais curiosa e geralmente envolta em tabu é outra. Podemos expô-la através de uma pergunta bastante simples: noutras culturas mundiais, onde é que esta prática é uma prática corrente? Por exemplo, há filmes chineses a exaltar os povos dos Himalaias? Há (ou houve) filmes soviéticos ou russos a exortar os afegãos ou os povos do Báltico? Há filmes africanos a evocar os escravos do interior que os autóctones do litoral entregavam aos ocidentais? Há filmes turcos a invocar as revoltas egípcias do início do século XX?
Bem sei que as usurpações e as ocupações chinesas, turcas, soviéticas, russas e até africanas correspondem, ou corresponderam, a colonialismos persistentes e indiscutíveis ou tão-só a episódios porventura delimitados. A cada caso a sua história, dir-se-á. Mas, por contraste óbvio, pode afirmar-se que há uma verdade que persiste: a Europa convive mal, hoje em dia, com os seus fantasmas e tenta salvar-se dessa densa neurose projectando sobre si própria a violência que ameaça deslustrar a sua auto-imagem de estabilidade democrática. Como se a prática democrática só pudesse ser efectiva, se prostrada na mesa do psiquiatra onde os pesadelos antigos removessem e alterassem o rosto aziago e escondido da velha Europa, restaurada, afinal, há apenas meio século das terríveis clivagens intestinas onde afinal sempre viveu.
O que custa à Europa é saber viver com a integridade a sua história, sem tabus, sem devaneios, sem pesadelos e sem quaisquer ressentimentos. A Europa ainda não soube descobrir com alguma plenitude, nestes últimos cinquenta anos, aquilo que é o valor e a lógica do presente.
E é levada, por isso mesmo, a rever no seu rosto cândido e quase pré-Rafaelita a excrescência terrível que, ao fim e ao cabo, é a mesmíssima imagem com que o terrorismo a revê e a descreve. Espantosa coincidência esta que conduz a ameaça e o ameaçado a pintarem o mesmo anacrónico e simétrico retrato.
Beneficiando da liberdade democrática que atravessa saudavelmente a Europa, as opiniões auto-flageladoras espalham-se cada vez mais como uma mancha de óleo no seu seio, enquanto as minorias culturais (sobretudo as islâmicas - ver o recente caso holandês) radicalizam e reflectem, no mesmo seio, esta auto-imagem auto-punitiva e excrescente. Círculo vicioso e viciado.
Excessivamente sensível a uma espécie de ajuste de contas perverso entre bons e maus, a Europa tem a tendência em assumir o papel destes últimos e a suas próprias expensas (compare-se com o caso norte-americano ou australiano, através dos westerns e da abordagem aos aborígenes). As democracias europeias denotam já há muito este condão, este sintoma, este estranho e enigmático alarme da sua inefável culpabilidade. E nos tempos pós-11/09, esta predisposição da Europa é acentuadamente negativa e tende, como é natural, à desistência, à renúncia ou mesmo ao impasse. É essa, também, por outras palavras, a tímida face do recente mito europeu da grande Suíça imparcial e psicologicamente abstinente que, aqui e ali, se vai revigorando através de meros rituais de celebração histórica.
Não se duvide: é a predisposição que faz a política, e não o contrário.
Concordaria a prazo com uma federação de nações europeias. Mas não com esta singularidade galopante e, pelo menos na aparência, politicamente imparável. E perigosa.
terça-feira, 9 de novembro de 2004
segunda-feira, 8 de novembro de 2004
Em leituras
Antes de arguir uma tese, sigo caminhos mais ou menos estáveis. Leio primeiro, de modo oblíquo e metonímico, algumas linhas-chave da tese no sentido de lhe captar uma espécie de escorço do seu topic. Depois, durante alguns dias, levo a cabo leituras no âmbito desse topic, mas sem uma orientação claramente definida. Releio coisas diversas, mas tento sobretudo alargar e interrogar a esfera do conhecido. Não me circunscrevo, portanto, aos lances que delimitarão a geometria da tese, acabando por construir um sistema volátil de problematização. Às vezes, faço-me acompanhar dessa armadura conceptual (espécie de um modelo teórico abastracto) por mais de duas semanas. É um espaço branco que faço povoar de perguntas e respostas (puro jogo onde o simulacro de um futuro debate se reverte agora em prazer). Até que chega o dia H. É então que me sento e passo a ler a tese, de fio a pavio, anotando todos os detalhes. O meu comentário e o meu questionário acabarão por nascer do são confronto entre as ponderações que antes haviam entrado em cena: as que se haviam constituído antes da leitura da tese e, de modo mais sedimentado, as que resultaram da sua leitura. As verdades vêem-se ao espelho e têm muitas facetas. Inesgotáveis, talvez.
Antes de arguir uma tese, sigo caminhos mais ou menos estáveis. Leio primeiro, de modo oblíquo e metonímico, algumas linhas-chave da tese no sentido de lhe captar uma espécie de escorço do seu topic. Depois, durante alguns dias, levo a cabo leituras no âmbito desse topic, mas sem uma orientação claramente definida. Releio coisas diversas, mas tento sobretudo alargar e interrogar a esfera do conhecido. Não me circunscrevo, portanto, aos lances que delimitarão a geometria da tese, acabando por construir um sistema volátil de problematização. Às vezes, faço-me acompanhar dessa armadura conceptual (espécie de um modelo teórico abastracto) por mais de duas semanas. É um espaço branco que faço povoar de perguntas e respostas (puro jogo onde o simulacro de um futuro debate se reverte agora em prazer). Até que chega o dia H. É então que me sento e passo a ler a tese, de fio a pavio, anotando todos os detalhes. O meu comentário e o meu questionário acabarão por nascer do são confronto entre as ponderações que antes haviam entrado em cena: as que se haviam constituído antes da leitura da tese e, de modo mais sedimentado, as que resultaram da sua leitura. As verdades vêem-se ao espelho e têm muitas facetas. Inesgotáveis, talvez.
Não passarão!
Abro o rádio na manhã domingueira e subitamente fica no ar a voz turbilhonada de Júlio Machado Vaz. O que se ouve é uma espécie de litania monocórdica:
Ela espera que ele lho diga para darem ambos um salto na relação, mas ele descansa e esquece a sua emulação de homem e é então ela quem pensa em agir, mas não o diz; e é aí que ele, de novo, volta a imitar os procedimentos do desejo de ambos, enquanto ela disfarça o traumatismo antigo e ele há-de navegar em águas doces e turvas. Por fim, sem dar por isso, é ainda ele que afaga o comodismo. E ele e ela.
No meio deste insólito face a face, Machado Vaz cita uns artigos científicos e ouve um outro radialista que diz sim, sim, sim. Se o ouvinte não soubesse que quem fala são eminências da nossa praceta, dir-se-ia que tudo aquilo não passava de charlatanice telenoveleira.
Não passarão!
Abro o rádio na manhã domingueira e subitamente fica no ar a voz turbilhonada de Júlio Machado Vaz. O que se ouve é uma espécie de litania monocórdica:
Ela espera que ele lho diga para darem ambos um salto na relação, mas ele descansa e esquece a sua emulação de homem e é então ela quem pensa em agir, mas não o diz; e é aí que ele, de novo, volta a imitar os procedimentos do desejo de ambos, enquanto ela disfarça o traumatismo antigo e ele há-de navegar em águas doces e turvas. Por fim, sem dar por isso, é ainda ele que afaga o comodismo. E ele e ela.
No meio deste insólito face a face, Machado Vaz cita uns artigos científicos e ouve um outro radialista que diz sim, sim, sim. Se o ouvinte não soubesse que quem fala são eminências da nossa praceta, dir-se-ia que tudo aquilo não passava de charlatanice telenoveleira.
Não passarão!
Uma abelha na lua
Vi este fim-de-semana em DVD um filme que me tinha emocionado imenso há umas duas décadas (não me apetece agora dizer o nome). Ontem voltou a tocar-me ao de leve, é verdade. Mas tudo parecia inocente, frágil, previsível, sem carne. Nestas alturas, há sempre um fantasma negro que pergunta em surdina: haverá um dia em que nada já nos emociona? (continuo a olhar para os lados e a achar vivamente que não!)
Vi este fim-de-semana em DVD um filme que me tinha emocionado imenso há umas duas décadas (não me apetece agora dizer o nome). Ontem voltou a tocar-me ao de leve, é verdade. Mas tudo parecia inocente, frágil, previsível, sem carne. Nestas alturas, há sempre um fantasma negro que pergunta em surdina: haverá um dia em que nada já nos emociona? (continuo a olhar para os lados e a achar vivamente que não!)
sábado, 6 de novembro de 2004
Os círculos
Escreve-se hoje no Abrupto:
"Tenho repetido à saciedade que existe um efeito de Big Brother nas políticas em democracia: tudo o que é importante não se vê, ao mesmo tempo que as pessoas têm a ilusão que sabem de tudo, em directo e a cores".
Concordo plenamente com o facto e sobretudo com as ilações. Mas, caro José Pacheco Pereira, dentro da compulsão quase natural do sistema político essas coisas não se podem dizer, pelo menos desse modo, pois não?
Existe uma margem de reflexão que escapa, ou que se contém irremediavelmente, quando o exercício do poder atravessa a enunciação dos mundos de quem escreve. Existe, de facto, um estar fora do círculo e um estar por dentro desse mesmo círculo. Que é o do poder, directo, real, exercido. O poder não é uma ferramenta pejorativa ou artificiosa, mas acaba sempre por ditar ou condicionar a medida e o momento em que a palavra é materializada em discurso.
E isso é pura verdade, apesar da frontalidade que demonstrou no flash-back dos tempos da reeleição de Cavaco Silva, apesar do carácter incisivo que patenteou durante a direcção lisboeta do PSD e apesar do mais recente inconformismo que nunca escondeu no seio do Parlamento Europeu. E ainda, já agora, apesar da dignidade que evidenciou no (sintomaticamente pouco falado) caso Unesco. Numa escala muitíssimo mais pequena, sei muito bem do que falo. A dissimulação entretece o dizer da política, enquanto a discrição - e tão-só a discrição - entretece o poder autónomo e corrosivamente livre da palavra.
Escreve-se hoje no Abrupto:
"Tenho repetido à saciedade que existe um efeito de Big Brother nas políticas em democracia: tudo o que é importante não se vê, ao mesmo tempo que as pessoas têm a ilusão que sabem de tudo, em directo e a cores".
Concordo plenamente com o facto e sobretudo com as ilações. Mas, caro José Pacheco Pereira, dentro da compulsão quase natural do sistema político essas coisas não se podem dizer, pelo menos desse modo, pois não?
Existe uma margem de reflexão que escapa, ou que se contém irremediavelmente, quando o exercício do poder atravessa a enunciação dos mundos de quem escreve. Existe, de facto, um estar fora do círculo e um estar por dentro desse mesmo círculo. Que é o do poder, directo, real, exercido. O poder não é uma ferramenta pejorativa ou artificiosa, mas acaba sempre por ditar ou condicionar a medida e o momento em que a palavra é materializada em discurso.
E isso é pura verdade, apesar da frontalidade que demonstrou no flash-back dos tempos da reeleição de Cavaco Silva, apesar do carácter incisivo que patenteou durante a direcção lisboeta do PSD e apesar do mais recente inconformismo que nunca escondeu no seio do Parlamento Europeu. E ainda, já agora, apesar da dignidade que evidenciou no (sintomaticamente pouco falado) caso Unesco. Numa escala muitíssimo mais pequena, sei muito bem do que falo. A dissimulação entretece o dizer da política, enquanto a discrição - e tão-só a discrição - entretece o poder autónomo e corrosivamente livre da palavra.
Frase da semana
“(…) Looking back on its past, and forward to its future, the auguries are that it will not disappoint an expectant humanity.”
Se o leitor clicar sobre esta frase, aperceber-se-á do contexto real em que foi enunciada. E devo dizer que concordo, em geral, com a análise que é feita dentro desse pano de fundo. Mas imagine agora o leitor que recuávamos uns vinte e cinco séculos no tempo e que, nessa analepse de cortar a respiração, subíamos todos às belíssimas montanhas de Delfos. Não resultaria a frase do mesmo modo?
Creio que sim.
“(…) Looking back on its past, and forward to its future, the auguries are that it will not disappoint an expectant humanity.”
Se o leitor clicar sobre esta frase, aperceber-se-á do contexto real em que foi enunciada. E devo dizer que concordo, em geral, com a análise que é feita dentro desse pano de fundo. Mas imagine agora o leitor que recuávamos uns vinte e cinco séculos no tempo e que, nessa analepse de cortar a respiração, subíamos todos às belíssimas montanhas de Delfos. Não resultaria a frase do mesmo modo?
Creio que sim.
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