segunda-feira, 12 de março de 2007

A nossa paródia

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Há muitas maneiras de relacionar dois textos: alusão, plágio, citação, enxerto, epígrafe, ilustração, nota marginal, comentário, sugestão, ou ainda o recurso a tipos discursivos, modos de enunciação ou géneros literários. Haverá muitas outras, é claro. Em todas elas há um efeito paródico, mais ou menos silencioso, contido ou disfarçado, que une os dois textos. Na rede, a remissão entre textos abre-se a uma cascata que já ninguém controla. Eis o que faz a blogosfera ser seminalmente paródica.
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E o que dizer do compromisso pessoal do ministro Raul Lino sobre a Ota?

domingo, 11 de março de 2007

Agora no Norte!

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Na Terça-feira, dia 13 de Março, às 18.30, no El Corte Inglés de Gaia, lançamento do meu romance, E Deus Pegou-me Pela Cintura (Guerra & Paz). Apresentação a cargo de João Pereira Coutinho.
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Serão também projectadas quatro curtas destinadas ao You Tube, tendo como base outros tantos excertos do romance (realização de Teresa Maia Carmo; ver restante ficha técnica aqui).
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(ver em baixo as crónicas do lançamento de Lisboa)

Histórias de um lançamento - 3 e 4

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"Luzindo pela intensa estrela interior."
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por Tati (e agradeço o Madre Mia!)
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"Tem sido bonita a festa. Cinco dias, dois livros. E festa. E gente bonita. Inteligente. Simples. Lavada de afectações. Luzindo pela intensa estrela interior. Melhor – dispensando anos-luz e ficando rentes à pele e ao olhar e ao sorriso. Ao calor e à fala. Ao humor. Duas noitadas de truz. Maré-cheia de bem-estar. Ontem, foi a apresentação do livro do Luis Carmelo feita pelo editor, o Manuel da Fonseca, da editora Guerra e Paz, o O Francisco José Viegas e o autor. Despretensiosos no discurso fluido. Risonho. Isto digo remetendo o evento à primeira parte do Chelsea/Porto, que forçou o Francisco a render-se à teoria da conspiração – reterem-no longe do ecrã que transmitia o desafio, só podia ser manha da mais traiçoeira estirpe moirama. Meu querido: o menino estava um doce com o dolorido ar na face de quem subtraíram um bombom. Acrescendo ter escrito que quanto mais «crescidas» melhor, admito: Deus o conserve em tal convicção. O mesmo deve ter pensado a minha anónima vizinha de assento, que, ao ver-me regressada do beijinho apetecido, sussurrou: - “É exactamente o tipo de homem que gosto! O meus maridos e namorados eram todos parecidos com ele.” E suspirou. Sorri convenientemente. Apreciei-a melhor – «entradota» e jovial na condição. Perante plateias assim, o painel de homens deveria ter exigido contra a entrega do convite ao mulherio, electrocardiograma recente. Juro que ao olhar de soslaio a vizinha, ruminei preocupação, não caísse inanimada a dama. Uma tragédia que estragaria o brilhante discurso do Luis. “Madre mia” , que improviso pleno de subtileza e graça!"
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"Encurtei a noite. Interromper a leitura do ”E Deus Pegou-me pela Cintura” não é fácil. Como deixar a meio os contos do O Táxi que me Apanhou? Os originais em sépia das voluptuosas mulheres da Manuela Pinheiro presenteiam-me o leito. Um gole de vinho branco gelado e a leitura. Sem limite marcado, salvo o cansaço. Que escrita... Que aprazível miscelânea de sentimentos! Os instantes felizes não são assim?"
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"...muita gente bem disposta..."
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"A coisa não tem muito para contar.Casa cheia a rebentar pelas costuras, o homem da Origem das Espécies louco de pressa para ir ver o Mourinho a ganhar, o autor Miniscente louco de vagar para o não deixar ir, muita gente bem disposta, personagens das artes, letras e cantares, a fina flor dos blogs, o brilho charmoso das pérolas, sons regionais, petiscos da beira-mar, escritores e muitos outros ficcionistas e ficcionados.Foi festa. Gente gira. Foi bom.Falta ler o livro."

sábado, 10 de março de 2007

Histórias de um lançamento - 2

"Sou algo achegada a tonturas mas o tipo, o Carmelo, tinha que arranjar um sétimo andar de um prédio famoso para exportar um livro com nome de Deus."
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por Vanessa Godinho.
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“Aqui dá-se como se pode quase como se fala ainda que por tópicos que abortam desenvolvências:
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Do técnico liguei ao Fred a ver se catava uma boleia, estampei-me:
- Dou-te boleia de metro Vanessa que o meu carro está velhinho.
E lá fui de encontro ao dear Fred metro abaixo.
Aportamos no edifício El Corte Inglês, que me é de rara visita e nunca supus ter tão elevada estatura. Sou algo achegada a tonturas mas o tipo, o Carmelo, tinha que arranjar um sétimo andar de um prédio famoso para exportar um livro com nome de Deus. Fosse por Deus, fosse pela boca do Alfredo, perdi o medo. O cientista maluco disse-me certeiramente ao chegar ao sétimo:
- Na Correia do Sul (ou país que se pareça) um prédio igualzinho a este ruiu com 1500 pessoas dentro.
Tendo o condão de me explicar precisa e detalhadamente porquê.
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Mas eu ia ao encontro de uma porta com Deus dentro e, fosse a fantasia, fosse o romance, que de acordo com o autor é uma coisa com vida própria que sobeja-se pelos becos das nossas casas correndo-nos pelos membros e não aguentando segredos, lá fui a tiracolo do Alfredo, procurando imaginar que os seus olhos de lince são mais musculados do que o corpo e proteger-me-iam do prédio e das fobias todas, que nem sei muito bem se tenho, pois são pouco seguras, mas parece-me que sim que as tenho talvez, perhaps, assim-assim.
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A Clara Piçarra manda-me uma tímida mensagem avisando que estava sentada em frente à loja das sopas. Esperamos por ela no sexto andar. Implodiu de um elevador que parecia muito prenhe de indivíduos, e trazia na cara um smile amarelo com o nome anunciado em letras gordas. Literalmente. A rapariga tinha um cartaz pintado na cara. Genial! Absolutamente genial!
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Não havia como dizer, será, não será, essa rapariga de olhos claros e riso de travessa a Clara? Era ela, e revelou-se igual ao smile. Um piropo de pessoa.
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Uma vez lá em cima, no sétimo céu do romance, vimos uma Tia chic, de impecável indumentária, e perdoem-me a falta de decoro, magníficos pára-choques. A Patrícia Grade, a nossa alma de fórum, menina de modos leves e alegres, que dispõem bem qualquer momento.
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Começamos a dança do “Entramos, não entramos, entramos, não entramos”…Fred diz:
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- Stop! Stooooop que há que esperar pela Guidinha.
- E quem é a Guidinha? – Parece perguntar a Clara.
- Obviamente que a Guidinha é a mulher do Fred! – Replicamos indignadas pelo óbvio da situação que qualquer psíquica que se preze imagina. A Guidinha gente! A santa paciência em pessoa. Só assim aguenta um bando de pacóvios a falar de fóruns e diálogos, a tirar fotografias como se não houvesse amanhã e barulhando qual miúdos da primária, porque a excitação não é terreno infértil aos adultos. Essa é a Guidinha. Uma paz de alma.
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Nisto passa uma careca luzidia e bem polida.

- É o Francisco. – Diz a Patrícia, sempre à frente da nau.
- Não, não … não tem óculos! – Conclui a Clara.
- Pois, não parece ser ele. – Remato.
- É mesmo o Barão estou-vos a dizer! – Exclama a dona Pat. E contra Pat não há argumentos.
O Barão fez-se à trupe com passos serenos e sólidos. Seguro da sua bela careca e cheio de boa onda.

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Entramos todos empalhados, com ar de quem vai às batatas. Olhei e acenei.
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- Estás a acenar para quem? Afinal? Conheces aqui gente? – Pergunta a nossa Patrícia afoita, surpresa, espantada, indignada.
- Estou a acenar ao Sérgio Godinho e uns quantos comparsas que costumam tocar rabeca comigo…hummm…apenas estou a ver se chamo a atenção do Luís.
- Ah! – Respira como quem diz “ai de ti que saias daqui levas imediatamente no focinho!” (A Pat é um sossego desconfiem das minhas palavras).
- Oh! Olha o Alfredo! Já ali na conversa com o Luís e uns outros! Olha, olha! E nós?

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(desculpem, conto isto a rir e sei que a Patrícia e os restantes retratados terão o bom humor de me perdoar, pois as inverdades confundem-se por aqui com a realidade. É dessa coisa do romance do Luís que anda por aí à solta metendo-se nas realidades dos outros como se lhe pertencessem)
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O nosso professor Pardal (Alfredo) foi de conversa e entornou uns quantos copos de sumo de laranja. E nós mantivémo-nos algo compactos e contemplativos. Compramos o Livro do LC, melhor esse romance metediço, tomem cuidado que nesse preciso momento ele está a falar da vossa história anímica insuspeita.
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Assim aparece:
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Um tipo impecável de bigode bem tratado, cabelo grisalho atinadinho e óculos de bom moço. Vem tão devagar que quase não acontece. E ao passar por nós mete o nariz no meio, bem no meio de todos, arregala os olhos e pergunta como um polícia à paisana:

(- Do LEC? – Laboratório de Escrita Criativa....)
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Mas do LEC como caríssimo Nunes! Manuel Nunes. Do LEC sociedade secreta dos esventrados da memória, ou do LEC senha de passe para o clube dos poetas mordidos? (sim ouvi dizer que a poética esmagou muito boas letras) Seja lá o que for, é certo que alguém lhe respondeu à atitude sorrateira com um murmúrio insuspeito.
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- Simmmmmmmmm somos nós! Todos do LEC. – A Clara e a Patrícia, ou fui eu? Não sei. Prefiro que sejam elas. Eu quero ser a heroína da historia, segura e perfeita, se a historia é narrada por mim, posso ser quem quiser…ou não?
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Não sei. O romance do Luís anda por todo o lado, ainda me leva para os caminhos da Rute Monteiro.
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E o Manuel achegou-se ao núcleo. É quando então aparece um jovem metrosexual, de fato cinza e camisa rosa fashion, caracóis domados e bem laminados num estilo afro europeu saído da Vogue, sorriso estampado desses que não precisam de nome para ser risonho, e uma atitude muito, meus amigos, muuuuuito cool! Qual Tarantino? Qual Jhon Travolta? Qual Al Pacino Qual Robert de Niro? …qual nada para esses! Luís Carmelo meus amigos, Luís Carmelo! Uma mistura desses 4 magníficos, com pinta e tranquilidade …o senhor é um primor. A suavidade em pessoa.
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Chamou-nos a todos pelo nome, ou assim imaginei pois a hesitação foi pequena, e os poucos instantes que pôde nos dedicar foram de uma recepção calorosa e espontânea. Isso, eu sei, não imaginei, nem me disse a Rute Monteiro. Ando sedenta para ler o romance só por causa desse nome sinistro. Eu sei que deve ser alguém seu conhecido Luís mas por Cristo, Rute Monteiro é sublime! É assim robusto…com o Mauro nas canelas não consigo lhe mandar a emoção da repetição que ecoa na minha cabeça, ela é o nome do pecado!
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O evento foi muitíssimo agradável, espontaneidade a rodos, informalidade q.b e sala cheia. Falou uma antiga aluna do LC que deu o toque de abertura, entregou a palavra ao chefe da Guerra e Paz que impressionou pela ferocidade com que lançaram o livro do LC no mercado, a campanha mais agressiva da guerra e paz, depois veio o Viegas assustar-nos com os meandros loucos da feitura da coisa, os personagens confusos que sem normas domam realidades e assomam ficções, e ele só queria era ver o jogo do Porto. Plateia risonha nas suas palavras, por vezes leves, outras vezes mais densas, mas sempre focando o que de facto importava, o livro e o autor. O jovem LC quando tomou a palavra fê-la jorrar como água, falou de si, e do corpo do livro físico que escreveu, falou das polémicas com leveza e quanto a mim além de artista deveria ser o director da obra que já lhe ultrapassou há muito tempo. A obra vê-se na net, vê-se nos acontecimentos que ele contou antes do futuro que é agora, “the man is not a writer the man is a psiquic!”
Parabéns LC.

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Saímos de caminho para casa, mas num acto de aqui agora, decidimos jantar por ali, sopas e crepes, tudo acontecendo em simplicidade de momento absorvente e voluntário. Parecia que nos conhecíamos de outros jantares. A conversa caía fluida por sobre temas diversos, ainda que a comunhão tivesse sido o LEC havia muitas outras empatias.
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Estou capacitada para embebedar muito boa gente e fazer umas experiências de cozinha (que quase sempre me corre mal mas tenho coragem e afecto suficiente para a entrega).
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Um abraço"

Histórias de um lançamento - 1

"{Este conto é uma ficção baseada em alguns factos reais (mais concretamente uma piada sobre um psicopata e uma estranguladora) e surgiu depois de alguns alunos do Laboratório de Escrita Criativa do Instituto Camões se terem encontrado no lançamento do 10º romance do Luís Carmelo. Como se deve calcular, qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência}."
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por Francisco Barão da Cunha
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"Amarrados e vendados, o psicopata e a estranguladora acordaram fechados num porta-bagagens de um automóvel. Ao despertarem, a pouco e pouco começaram a imaginar como poderiam ter ido ali parar.
Era a primeira vez que se encontravam. O psicopata, a estranguladora, a mulher da máscara amarela, a mulher do corte de cabelo moderno, o senhor do fato completo, o homem da calvície luzidia e a sua mulher.
O pretexto tinha sido o lançamento de um livro. Ao princípio a emoção das apresentações, o nervoso dos risos e a procura de uma ligação entre as pessoas imaginadas e as reais atrapalharam um discurso mais fluido. Trocavam-se gargalhadas, olhares vivos e cumplicidades construídas na internet. Mas o psicopata e a estranguladora, cada um por si, sondavam novas vítimas. Se se proporcionasse iriam agir em conformidade com os seus fatais instintos.
O psicopata parecia amável, franco e descontraído. Mas na sua mala a tiracolo escondia a arma com a qual torturava as suas vítimas: uma gramática de holandês, forrada com uma capa de aço.
Por seu lado, a calma e a ponderação da estranguladora inspirava uma estranha confiança, que de modo nenhum contrastava com com a efusão com que costumava escrever na internet. A bondade do seu rosto dissimulava os seus longos e finos dedos mortíferos.
Ao deixar cair a máscara, a mulher da máscara amarela substitui-a por uma cara viva, de olhos brilhantes e expressivos, que se destacavam no ocasional rubor da sua face. Toda ela era luz mas seria ela capaz de enfiar no reino das trevas o psicopata e a estranguladora?
A mulher do corte de cabelo moderno irradiava energia e prestabilidade, enchendo a sala com os seus sorrisos, mas teria sido ela quem colocou uma droga sonâmbula nos sumos de laranja do psicopata e da estranguladora?
O senhor do fato completo foi o que esteve menos tempo presente, tendo sido o último a chegar e o primeiro a partir. Mas também ele poderia ter ajudado a tramar o psicopata e a estranguladora. Desconfia-se sempre de um homem de fato e gravata.
O homem da calvície luzidia (e a sua mulher) poderiam encaixar-se perfeitamente no perfil Bonnie and Clyde. Ele mais calado mas muito atento, a mulher mais faladora e curiosa. Eram a dupla perfeita para trapacearem um psicopata e uma estranguladora.
A verdade é que ambos começaram a sentir algo estranho quando o autor do livro os veio cumprimentar. Sentiram uma ligeira excitação mas que ao mesmo tempo lhes parecia algo estranhamente entorpecedor. Seria uma espécie de plenitude efusiva misturada com uma iluminação interior? Hum, mal sabiam eles que era o sumo de laranja a começar a fazer efeito.
O grupo esteve muito divertido, continuando assim após a saída do homem do fato completo e os abraços e cumprimentos ao autor do livro (que os presenteou a todos com 1 autógrafo). E muito divertido foi o jantar. Foram todos corridos a sopas e pouco mais. Mas o pouco mais tornou-se muito pela conversa, pelas risadas e principalmente pelo final da refeição.
A mulher da máscara amarela ofereceu-se para levar a casa o psicopata e a estranguladora mas antes tinha de ir buscar o namorado que se encontrava nos arredores da cidade.
E nesse momento tudo se precipitou:
— Olha que eu sou um psicopata e ela é uma estranguladora — Disse entre risos o psicopata.
— Sim, tu sabes lá quem a quem vais dar boleia — A estranguladora meteu a sua colherada. Risos no grupo.
E o psicopata continuou:— E se chegares viva ao teu namorado aposto que os dois vão estar sempre de olho em nós.— Melhor ainda! Vão-nos dar as chaves do carro para que um de nós conduza e o outro vá ao lado, vigiando-nos do banco de trás.Mais risos no grupo. E o psicopata, sem o saber, descobriu a tramóia:
— Pior do que isso, tu e o teu namorado dão cabo de nós!
Risos sonoros por toda a sala do restaurante, quase que a obrigar que as pessoas das outras mesas se virassem todas para aquele peculiar grupo. Foi por entre alguma sonolência insuspeita do psicopata e da estranguladora que todos se despediram. A mulher da máscara amarela ia levá-los no seu carro.
A partir daí tudo se tornou mais nebuloso: havia uma cidade com luzes e automóveis a circular; um engano no percurso e depois as luzes tornaram-se mais ténues e as estradas mais escuras, tão pntadas de bréu que quando o psicopata e a estranguladora acordaram deveriam ainda pensar que andavam às voltas pelos arredores da cidade. Afinal estavam amarrados e vendados. E iriam ter muito tempo para pensar em como foram ali parar."

sexta-feira, 9 de março de 2007

Há ópera no meu pátio


É assim a ameixoeira que canta no meu pátio: por baixo as raízes mergulham na água do poço, por cima cintila aquela voz que sabe ao requebrar das espumas da maré baixa.

quinta-feira, 8 de março de 2007

Ainda a Rute Monteiro

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Ver aqui as três curtas de Teresa Maia Carmo, baseadas em outros tantos excertos do meu último romance. Ficha técnica neste post.

quarta-feira, 7 de março de 2007

Quase primavera

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Havia no cemitério um brilho coado. O vento quase redondo: uma barcaça entre o céu e o mar sem distinção entre proa, lava ou prumo. E, no entanto, aquilo era Évora e a ameixoeira branca branquíssima levitava no meu pátio como o fazem as estrelas subterrâneas. A memória do lançamento do livro passou a ser, subitamente, uma minúscula gota de orvalho. Por lá andará, entre mármores, sombreados de ouro, ferros forjados torcidos e ecos de um ou outro sino. Até amanhã.

terça-feira, 6 de março de 2007

Confissão estóica

Há 25 anos, sentei-me no café Ijsbreker - em Amesterdão -, estava um dia de chuva como hoje, e comecei a escrever o meu primeiro romance (viria a chamar-se Entre O Eco do Espelho). Os romances são fatias de vida e formas de expiar a carne mais aventurosa do mundo. O segundo, Cortejo do Litoral Esquecido, ao contrário da estreia, foi feito a pensar ao longe em Portugal. Navegava eu ainda à solta com a matéria dos mitos. Depois, veio o meu No Princípio Era Veneza.
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Este terceiro romance foi sonhado em ambiente de trovoada, entre um hotel onde Ruskin viveu e uma modesta casa perto do Rialto. De repente, as cidades tornavam-se personagens na minha ficção. Nem sempre a poética sufoca o curso das histórias, há mesmo momentos em que involuntariamente as ilumina. Daí que, já em Sempre Noiva, o revivalismo acabasse por tratar por tu essa luz longínqua, mas agora em diálogo com o cenário das minhas origens alentejanas.
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Em A Falha, o registo da planície permanece, mas o enredo volta a sobrevoar a candura da universalidade. O cinema entra então em jogo, ao lado das traduções e de um número variado de edições. Há saltos que se dão, cujo sentido é difuso, obscuro, por vezes delirante ao jeito de Bataille. Mas A Falha foi, também, um momento de muito prazer no plano do vivido. O sexto romance, As Saudades do Mundo, inicia um périplo de viagens que se prolonga a O Trevo de Abel. É uma fase mais efabulatória em que a trama e o carácter cintilante do plot submergem e quase se impõem a uma certa inércia onírica.
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O oitavo e o nono romances, Máscaras de Amesterdão e Inventor de Lágrimas, são invenções envolventes - lembro sempre o limbo do Verão em que os iniciei -, mas sem, porventura, aquela engenharia que faz do leitor uma espécie de holandês voador. O tempo é um leme estranho, já se sabe, e torna difícil o olhar para as nossas coisas sobretudo quando a distância escasseia. Será o caso. O certo é que, no meu décimo romance - que é lançado daqui a cerca de duas horas, E Deus Pegou-me pela Cintura -, decidi recomeçar tudo de novo. Não só o escrevi à mão, como nele defini um tipo de montagem sem precedentes, para além de ter convertido o enredo na própria iminência da actualidade (disputando-a mesmo). É sabido que foi ainda acompanhado por um movimento performativo de antecipação ficcional e por uma sequência de filmes (para o You Tube). Um recomeço.
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Neste dia de lançamento, a minha querida tia Maria do Carmo Amaro Carmelo faleceu. Estarei daqui a pouco na cerimónia do El Corte Inglés, mas depois irei ter com ela - e com a sua memória - a Évora. Há sinais que valem pelo silêncio e pelo recato de todas as histórias. E como ela, a minha Tia Carmo, adorava o José Totentino Mendonça, termino este post com um poema seu que lhe dedico:
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A presença mais pura
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Nada do mundo mais próximo
mas aqueles a quem negamos a palavra
o amor, certas enfermidades, a presença mais pura
ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância da língua comum deixaste
o teu coração?»
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A altura desesperada do azul
no teu retrato de adolescente há centenas de anos
a extinção dos lírios no jardim municipal
o mar desta baía em ruínas ou se quiseres
os sacos do supermercado que se expandem nas gavetas
as conversas ainda surpreendentemente escolares
soletradas em família
a fadiga da corrida domingueira pela mata
as senhas da lavandaria com um "não esquecer" fixado
o terror que temos
de certos encontros de acaso
porque deixamos de saber dos outros
coisas tão elementares
o próprio nome
Ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância deixaste
o coração?»
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(José Tolentino Mendonça, de A Que Distância Deixaste o Coração, Anos 90 e agora - uma antologia da nova poesia portuguesa)
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Sim, acrescentarei eu em negrito: porquê esconder a dor, num dia destes? É bom, num dia destes, ter um blogue. Tão bom como ler e provar o fausto das estrelas que cantam, ocultas, sobre o acinzentado triste do céu.

Chegou o dia

G&P
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Hoje, às 18.30, no restaurante (último piso) do El Corte Inglés de Lisboa, lançamento do meu décimo romance, E Deus Pegou-me Pela Cintura (Guerra & Paz). Apresentação a cargo de Francisco José Viegas. Serão também projectadas quatro curtas destinadas ao You Tube, tendo como base outros tantos excertos do romance (realização de Teresa Maia Carmo; ver restante ficha técnica aqui). Vai ser um prazer receber-vos neste dia, para mim obviamente simbólico e marcante. Dez... sempre são dez!