sábado, 31 de Março de 2007
O Simplex e o exclusivo das Bond Girls

Um dia destes tive necessidade de uma “Certidão de Teor” e deparei-me com duas hipóteses para a obter: ou ia aos habituais balcões da Conservatória ou recorria ao “Simplex”. Ponderei, decidi e foi no dia 8 de Março (a escolha não aspirou a conotações aventurosas) que acabei por me sentar ao computador e explorei, pela primeira vez na vida, o chamado “Portal do Cidadão”.
Em menos de cinco minutos, consegui introduzir os dados relativos a um pequeníssimo terreno situado num local recôndito do país e paguei com cartão de crédito quer a Certidão, quer os portes do correio. No entanto, ao contrário do que acontece com uma Caderneta Predial (que se pode imprimir em casa e na hora), este tipo de Certidão só pode ser emitido pela Conservatória onde o terreno está registado, o que significa que o pedido feito através da rede acaba, neste caso, por ser tratado pelos serviços locais. Mau augúrio, pensei.
Com efeito, ao fim de dez dias de espera, vi-me forçado a enviar um mail aos serviços do “Portal do Cidadão”. A resposta foi personalizada e instantânea: “O seu pedido já foi despachado há alguns dias, cabendo agora à Conservatória o envio da Certidão pelo correio”. Passadas duas semanas sobre o Dia Internacional da Mulher, esgotados os meus prazos e a paciência, decidi ir directamente à Conservatória. Quando a senhora ouviu o meu nome, pressenti que o nervoso lhe pairava no olhar. Ouvia-a então a soletrar: “Conheço esse processo, conheço esse processo”.
Levantou-se, dirigiu-se a uma secretária vazia e trouxe até mim a tão desejada Certidão. E concluiu: “Já devia ter sido enviada, é verdade, mas… a colega que o devia ter feito… adoeceu”.
Moral da história: qualquer “brevíssimo e descontraído suspiro” continua a ser um exclusivo das Bond Girls. O que já não é nada mau.
sexta-feira, 30 de Março de 2007
Portuenses... (act.)

Mini-entrevistas/Série II – 146

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje a convidada é Sandra Ferrás, técnica de estudos de mercado, 34 anos.
Um mundo, um universo, a palavra a quem a quer ter, a anarquia para o bom e para o mau. A liberdade para tantos, um corte com a solidão, um aprofundar da solidão. Isolamento, socialização. O universo de todas as contradições.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Já deixei de acompanhar há algum tempo o universo dos blogues. Descobri este "mundo", algures em 2001, com a passagem de uma conhecida Israelita por Lisboa. Fazia do blogspot o seu diário de viagens. Acompanhei alguém próximo que nessa altura resolveu ingressar no mundo, ainda em embrião (pelo menos por cá) dos blogues. Foi o primeiro blog nacional que conheci. O Silêncio apareceu em 2003, pelas mãos da mesma pessoa, que me arrastou para ele e acabou por ficar nas minhas mãos. Começou um pouco depois a loucura da descoberta, com meia dúzia de blogues a dar nas vistas. Deve ter sido nessa altura que mais acompanhei a onda. Alguns acontecimentos politicos faziam-me procurar alguns blogues esporadicamente (Guterres, Barroso, Santana.....). Hoje em dia apenas vejo os daqueles que me são mais próximos. Ganho com isso. São bons. Há demasiada palha, gerou-se demasiada palha e eu deixei de querer ter tempo para procurar as agulhas.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
O Silêncio chegou a ser quase um fórum com posts a terem perto de 100 comentários. Foi um escape numa época profissional especialmente má, e numa reviravolta da minha vida pessoal. Foi muito importante para a minha sanidade na altura :)E tive um saldo extremamente positivo, que se reflecte na minha vida todos os dias - conheci por ele quase todos os que hoje me são queridos e próximos. Tem graça que todos eles hoje tenham blogues. O nosso universo, mesmo espalhado por vários pontos dentro destas linhas de fronteira, está sempre ali do outro lado do ecrã, alimentando os dias em que comboios ou estradas não tornam as distâncias mais pequenas que os bits e bytes.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Acredito sim, como disse acima, para o bom e para o mau. Todos dizem o que querem com os limites impostos apenas pelo que a sua consciência e respeito ao próximo ditam. E o anonimato pode ser a ferramenta que ajuda a derrubar/ignorar até esses limites. A sensação de se passar impune a tudo dá a liberdade para dizer o que se quer - defendendo uma verdade ou uma mentira.
quinta-feira, 29 de Março de 2007
Primavera = Design na blogosfera

Mini-entrevistas/Série II – 145

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é João Pinto e Castro, 56 anos, docente universitário e consultor de gestão.
- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
Foi um original espaço público de liberdade de expressão que se abriu, algo de valor ímpar num país como o nosso, ainda tão marcado pelo temor reverencial e pela inibição perante o debate. Foi uma forma inovadora de pôr o país a falar consigo mesmo sem papas na língua, que, se não erro, abriu também as portas à revitalização e ao enriquecimento da língua. No que toca ao meu envolvimento pessoal, direi que é a coisa mais divertida que se pode fazer sem ter que tirar a roupa.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Não houve nenhum acontecimento que tivesse seguido apenas ou sequer principalmente através dos blogues. Os únicos acontecimentos que os blogues cobrem em exclusivo são as eminentemente dispensáveis tricas entre bloggers. Todavia, noto agora que o blogue do Pedro Magalhães (Margens de Erro) é a principal fonte de informação a que recorro para me manter a par das sondagens de opinião em Portugal e no estrangeiro. E é capaz de haver outras situações similares.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Reencontrei pessoas que perdera de vista, por vezes há décadas. Reatei velhas amizades e fiz outras novas. Descobri personalidades fascinantes. Entusiasmei-me com a qualidade da escrita de muita gente. Maravilhei-me com a generosidade que anima a grande maioria dos bloggers. Aprendi muita coisa com muita gente. Creio que escrevo hoje melhor, embora me tenha tornado mais crítico em relação ao resultado dos meus esforços.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Absolutamente. Penso mesmo que se trata de um dos poucos casos em que a palavra liberdade se aplica com inteira propriedade.
quarta-feira, 28 de Março de 2007
Desviver-se
e
Holy Corner (com objectividade)

Mini-entrevistas/Série II – 144

LC
É uma palavra que entrou há pouco tempo no meu vocabulário, mas que, neste momento, habita o meu quotidiano. Parece-me querer significar uma qualquer ideia de universalidade, comunidade, encontro entre pessoas que “giram em volta de uma mesma esfera”, quer no que diz respeito a conteúdos, quer a formas de sentir, pensar e divulgar questões diversas sobre os mais diversos mundos.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
O recente referendo ao aborto. Li, com alguma frequência, as tomadas de posição dos “bloguistas” que visito diariamente, mas optei por não abordar o assunto no meu blog.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Os blogues permitem um acesso rápido à informação e, ao mesmo tempo, ao lazer e ao humor que, confesso serem ingredientes procurados no meu quotidiano. Constituem um canal de partilha de opiniões de pessoas ligadas a uma mesma rede. É um espaço de troca.
Quando criei os meus momentos, fi-lo por mera curiosidade informática. Foi, de início, uma experiência solitária. Com o tempo alguns amigos foram comentando e foi crescendo o entusiasmo que hoje se traduz numa agradável rotina. Confesso-me “presa” às postagens diárias. Ainda não sei se esta prática continuará a ser um prazer ou, pelo contrário, se tornará uma obrigação. No momento em que sentir que passei do prazer à obrigação, deixarei a “blogosfera”, por considerar que só faz sentido enquanto estiver sem qualquer tipo de pressão.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Acredito que a blogosfera é uma forma absolutamente livre de expressão, com tudo o que isso tem de bom e de mau. O anonimato pode constituir algum risco. A falta total de filtro nas postagens e nos comentários permite a intrusão de alguns indivíduos com menos bom senso. Digamos que se democratizou a criação e isso leva-nos a conhecer espaços de muita qualidade, bem como aqueles que visitamos apenas uma vez.
O facto de ser uma forma livre de expressão, possibilita também a apresentação a público de pessoas que gostam de escrever e que, de outra forma, não teriam oportunidade de publicar o seu trabalho.
terça-feira, 27 de Março de 2007
A estranha obsessão da Ota - 3 (act.)
eHá três aspectos que terão sobressaído nas duas horas televisivas do programa (muitas vezes uma ostensão bem mais cenográfica do que polémica):
e
1 - A ausência de perspectivas. Ao contrário de outras actividades, os engenheiros referem relatórios, dados e inevitabilidades matemáticas e enunciam-no entre algumas aporias e a afirmação determinada e fáustica da sua capacidade transformadora. Mas, no fio do discurso, raramente cabe a figura do horizonte, enquanto metáfora que invariavelmente reencaminham para políticos, decisores e estrategas.
2 - O sorriso seráfico do poder. Na ala direita do palco, em frente de dois engenheiros já citados – e bem – aqui no Miniscente, Luís Pinto Leite e José Manuel Viegas, estava sentado o poder: de um lado, um sorriso redentor e iluminado que há muito parecia ter substituído o espírito rebelde do debate pelo determinismo consumado da decisão; do outro lado, um rosto retirado do Painel do Infante que espelhava, através de silêncio grave e austero, o altar não menos irrevogável do dogma.
3 - A corporação. A auto-imagem da engenharia constituiu a abordagem mais unânime ao longo de toda a discussão. As palmas não se pouparam quando o bastonário acentuou o facto, embora a sua intervenção final radiografasse (como nenhuma outra) a paixão em afirmar um argumento e o seu contrário, num jogo mais poético do que centrado num ditirambo à física dos materiais.
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Conclusão final: um debate oco, de polifonia previsível e onde foi óbvia – é esse o facto político fundamental a reter – a escassíssima margem de manobra para pôr em causa um processo viciado, pesado e com décadas de história.
e
Para um cidadão comum, bom pagador de impostos e interessado na coisa pública, continua a não se entender a oposição entre uma decisão política (aparentemente irreversível) e um amplo rol de factos de natureza técnica que, quer se queira quer não, a contrariam.
Assisti ao “Prós e Contras” (P&C) de ontem onde o tema (OTA - Debate Técnico) foi anunciado pela RTP deste modo: “Depois do debate político, têm a palavra os engenheiros. (…) O “Prós e Contras” reúne os engenheiros portugueses para o maior debate técnico sobre a Ota.”
e
Ignoro se este programa conduzido pela jornalista FCF é idealizado por uma equipa multidisciplinar. Todavia, no site da RTP verifico que ele é considerado “um fórum de debate alargado, com especialistas e decisores”, onde “A discussão parte de uma sondagem da UCP”, sendo o programa “ilustrado por reportagens” e contando “com a participação dos correspondentes da RTP no estrangeiro”.
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Apesar de ter em grande consideração o profissionalismo do actual Bastonário da Ordem dos Engºs (OE) que, nesta, como noutras intervenções na RTP, se esforçou por utilizar um discurso cordato, venho lamentar que a própria ‘ideia’ do tema deste P&C tenha sido atingida, desde logo, por uma falta de transdisciplinaridade que é imperdoável no actual panorama cultural global.
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Esta falta originou a interpelação exclusiva à classe do eng.ºs como detentora de uma (suposta) autoridade para responder a todas as questões (erradamente classificadas como técnicas) implicadas na decisão sobre a localização do Novo Aeroporto de Lisboa (NAL).
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Neste debate foram escandalosamente ignorados urbanistas de origem diferente da dos eng.ºs, como, entre outros, arquitectos e geógrafos. Foram também afastados do debate economistas e gestores, sociólogos e peritos em demografia, para apenas falar das áreas profissionais que o grande público conhece.
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Foram igualmente esquecidos responsáveis de organismos do Estado, fulcrais no debate e na decisão de todas as questões relacionadas com o NAL e inevitavelmente envolvidos nesta matéria, como, entre outros, os da DGOTDU, das autoridades militares e das relações internacionais e ibéricas.
e
As questões do desenvolvimento geoestratégico de Portugal (que neste P&C pareciam resumir-se à rivalidade aeroportuária entre Lisboa e Madrid) não foram sequer mencionadas e, mesmo as referências à supremacia espanhola foram afectadas pelos habituais e vulgares sorrisos que ocultam problemas endémicos de falta de cooperação, que classificaria como monumentais erros de alcance europeu e global."
Mini-entrevistas/Série II – 143

LC
Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Hugo Neves da Silva, 28 anos (a desenvolver uma tese sobre a importância dos weblogs).
o
- que é que lhe diz a palavra "blogosfera"?
segunda-feira, 26 de Março de 2007
La vie en rose

Mini-entrevistas/Série II – 142

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é O Impensado.
- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
Preferiria "bloglaxia" ou "bluglosa" - as esferas provocam-me claustrofobia, mesmo vistas de fora e apesar da música das ditas imagino-as mudas. Nas galáxias e nebulosas há ruídos de fundo e murmúrios desencontrados.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Comecei pela bulha da Coluna Infame e segui, angustiado, o seu fim. Depois comecei a seguir tudo, desde a guerra do Irão aos desabafos dos blogs mais confessionais - os que fingem que são, que a tradição não é de confessionalismos. Agradam-me, sobremodo, as bulhas pessoais e os insultos soezes.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Havia aquele tempo morto entre as 11h 30m e o meio-dia e meia e algumas horas duras de roer à noite. Agora não há.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Acredito. Por mim, aplico-me uma feroz censura que, creio, me tem tornado mais sensato.
domingo, 25 de Março de 2007
Curiosidades dominicais
sábado, 24 de Março de 2007
Não há machado que corte

Pré-publicações - 23

e
Testemunho da importância concedida a este domínio do saber é o facto de Concerto das Artes constituir a segunda da série de antologias projectada pelo Centro de Estudos Comparatistas com vista a estabelecer a cartografia actual desses estudos, inscrevendo-se este livro nessa série logo depois do volume genérico da área, Floresta encantada. Concerto das artes é a primeira das antologias mais específicas da colecção, sem abdicar da atitude antisectária e antidogmática própria do comparatismo de que releva e que assenta num princípio fundamental: a não crença em qualquer hierarquia das culturas ou dos seus vários domínios, neste caso, em qualquer hierarquia das artes. Reclama-se ainda este volume de um segundo princípio, que lhe diz particularmente respeito: a recusa de uma concepção “especulativa” – para usar a fórmula de Jean-Marie Schaeffer – ou seja, de uma concepção “transcendente”, da arte, sendo esta por definição, no nosso entender, autotélica.
Os textos reunidos nesta antologia são na sua maioria artigos ou capítulos de obras já publicados, cujo valor foi já comprovado ou que nos pareceram, como hoje se diz, incontornáveis para os estudiosos ou curiosos da área. Foram todos traduzidos ou revistos por membros do Centro de Estudos Comparatistas, com maior participação da equipa Interartes.
No entanto, julgámos importante acrescentar alguns ensaios, inéditos ou não, de especialistas portugueses, para dar também voz a estes e sobretudo permitir a abertura do volume a outras perspectivas ou propostas.
Concerto das Artes, na sua concepção e estrutura, reflecte as competências e os interesses dos seus organizadores. É composto, primeiro, por um preâmbulo teórico e genérico relativamente extenso, seguido pelo próprio corpo comparatista do livro. Ou seja, o preâmbulo poder-se-ia ter intitulado “A arte” e o restante do volume, “As artes”.
O que é a arte, quando é que se pode falar em arte e quais as suas fronteiras, por exemplo, as que a distinguem da estética, com a qual, embora mantenha relações essenciais, se tende por vezes a confundi-la: tais são, entre outras, as questões genéricas às quais tentam responder, ou melhor dizendo, que problematizam, os textos escolhidos para figurar na parte introdutiva.
Entra-se, seguidamente, na própria matéria do livro, a qual se divide em duas secções desiguais e que reflectem não só, como já vimos, as competências dos organizadores, mas as próprias tendências da área, já que a pesquisa e a produção relativas às relações da literatura com as artes visuais, e nomeadamente a pintura, ultrapassam de longe as que se interessam pelas outras interrelações artísticas. As razões deste estado de coisas são certamente várias e complexas e não será talvez aqui o lugar próprio para as investigar e interrogar."
sexta-feira, 23 de Março de 2007
A estranha obsessão da Ota - 2 (act.)


e

Público "A" (act.)

As memórias do Minitempo

quinta-feira, 22 de Março de 2007
Os macaquinhos do sótão português

Para dizer a verdade, eu até achava piada que ganhasse o Salazar – ou o Cunhal – para ver como é que essa parvoíce da “auto-estima” dos portugueses entrava subitamente em estado de parafuso.
Nunca pensei que Portugal continuasse ainda hoje com medo do escuro, dividido entre canções primaveris de embalar e a terna penumbra do “Pai” ausente e apavorante. Nem sei, em boa verdade, passe o mel da provocação, o que merecerá uma maior gargalhada: se o actual “Reality Show” da TV-i, se o Salazar – ou o Cunhal, tanto faz – nesse entretenimento fugaz da RTP.
Poderá dizer-se com alguma severidade que vai ser uma “vergonha” falar-se “lá fora” da vitória de Salazar. Mas o medo de tais vergonhas parece-me um tanto ingénuo, já que o realce de uma eventual referência da CNN ao concurso televisivo português estaria ao nível daquilo que a Al-Jazíra terá dito sobre os sentimentos difusos de uma jovem e bela indiana no Big Brother de um conhecido canal inglês de televisão.
Toda a encenação deste concurso – e de tantos outros onde vamos vivendo cada vez mais – é de tal modo tosca e pacóvia (veja-se a solenidade de Maria Elisa e a produção almofadada no Palácio de Queluz) que qualquer incauto revê, com a maior das facilidades, a nudez e a idiotice do rei sem coroa. Por outras palavras ainda: toda esta agitação sem norte se resume a um permanente jogo de imagens que gera sempre novas imagens, numa voragem de ilusões que tem um único destino: a vertigem diária do esquecimento.
À excepção dos galináceos, o hipnotismo é para quem o quer. Já era assim no tempo da lanterna mágica.
Eu preferiria uma boa "Boémia" – perdoe-se-me a publicidade – a preocupar-me com essa coisa da RTP.
Já basta quando o realmente imponderável nos bate à porta.
Pré-publicações - 22

e
Vasco Gato, Omertá, Edições Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2007
e
Pré-publicação:
e
A infusão sucedia: a escura substância do poema misturava-se mais e mais com o fervor da água, até ao ponto em que tudo aquilo era vivo. O homem bebia então o poema e o poema flutuava no sangue, atingindo todos os lugares do corpo, reclamando todos os lugares do corpo. Não era previsível o efeito do poema. Cada poema dissolvido, sorvido, feito homem, trazia consigo uma possibilidade própria. O homem crescia com o poema, crescia mais para si, mais para o poema.
O homem que possuía livros de poemas, possuía uma biblioteca em branco. Páginas e páginas de poemas arrancados sem vestígios, um crime perfeito. Era uma biblioteca poética. Uma biblioteca que podia arder."
e
Tenho o pescoço fora do sítio. Rodo-o para um lado e para o outro em busca de uma posição. Qualquer coisa estala, qualquer coisa volta ao lugar. Mas não totalmente.
e
Esta noite adormeci agarrado aos meus gritos.
e
Todas as portas a que bati se abriram, excepto uma. Todos os silêncios que feri cicatrizaram, excepto um. Todos os corpos que aqueci sobreviveram, excepto um.
er
Não compreendo nada disto. Um homem aproximou-se de mim e disse-me vou para a Irlanda. Uma mulher olhou-me longamente através de um vidro e depois suplicou-me vai-te embora. Tudo no mesmo sítio. E eu tenho um pulso fora do sítio.
ee
Mas não totalmente. Não totalmente isto ou aquilo, mas uma espécie de alquimia geral em que tudo está suspenso de tudo e onde a qualquer momento pode sobrevir o ouro. Sinto que é isso. Sinto que essa emergência está aqui, muito perto, tão perto que por vezes... Mas não totalmente."
quarta-feira, 21 de Março de 2007
Dia Mundial da Poesia - 3

Nomearás
a abelha. Do mel
só conheces
o perfume, a pálida
rosa dos favos
em botão. O gesto
suspenso à espera
da mão esquiva.
eque o sustente.
Dia Mundial da Poesia - 2

o tempo desfolhado
sobre a mesa, num livro
aberto, violado;
e
sobre o amor e a morte
deitados no nosso
leito diurno, sobre
o nosso pescoço;
e
nos nossos ombros, sobre
a noite e o dia
livre sopra, circula
o vento da alegria.
r
(1930)
e
em Assim São as Algas, Campo das Letras, Porto, 2000.
Inédito e justificado

Dia Mundial da Poesia - 1

terça-feira, 20 de Março de 2007
Quase Primavera

Um cão andaluz

Os mistérios da Arrábida

Lá fora

Estava frio ontem à noite

Talvez por nervosismo, o redactor de O Jogo trocou a concordância não se sabe bem pelo quê. Mas é verdade que, a 1 de Abril, o Benfica joga na Luz.
segunda-feira, 19 de Março de 2007
Pré-publicações - 21
ePatrícia Melo, Mundo Perdido, Campo das Letras – Editores, S.A., Porto, 2007 (lançamento a 21 de Março)
e
Pré-publicação:
e
Sou foragido. E havia muita gente no cemitério. De onde vinham os crioulos? Fiquei aflito, nem me aproximei. Um monte de crioulos, duas mocinhas de shorts, não estou nem aí, estava escrito na camiseta de uma delas. Não gosto de tumulto. Evito ao máximo. É o meu truque. Sou foragido.
O segredo, dizia um rapaz que me escondeu quando fugi de São Paulo, o segredo, se você não quer ser preso, é não andar com mais de três. Nem sozinho. E, se estiver sozinho, enfia um jornal debaixo do braço, vão pensar que você é honesto. Para ele, não havia problema se você se metesse em trens lotados, andasse em avenidas apinhadas, se todos te vissem por aí, todo mundo é ninguém, ele falava. Multidão não tem problema, contanto que você evite estádio de futebol e baile funk, que é confusão na certa. No Brasil, ele dizia, não é nenhuma vergonha ter uma ordem de prisão contra você. Tanto faz, pobre, rico, branco, os caras lá em cima, digo, ministro, vereador, bambambã, todo mundo tem. Brasileiro é assim, escroto mesmo. Faz parte da nossa cultura roubar, sacanear. É como ser vítima de assalto, todo mundo é. E são tantos os ladrões, os corruptos, os filhos da puta, os assassinos, escroques, falsários, eles não dão conta de meter todo mundo na cadeia. Não tem espaço. Então a gente fica solto. É só não dar bandeira, ser invisível, andar numa boa, sabe como é? Não bata o carro e não fique à noite zanzando por aí com preto. Porque primeiro eles vêm atrás dos pretos. É uma tradição. E tenha sempre uma mulher com você. Ajuda muito. E, agora, o mais importante: toda manhã, ao acordar, repita em voz alta: eu sou foragido.
Sei lá se o fulano seguia as próprias regras, mas ele foi preso, me contaram. Continuei ali, de longe, debaixo do sol, vendo o coveiro enterrar a minha tia. Louco para me mandar. Não sabia que ela tinha tantos amigos. Depois, notei aliviado que os crioulos estavam lá para o enterro na cova ao lado. As mocinhas de shorts também. Apareceu ainda mais gente quando chegou o defunto, empurrado pelos familiares. Não vou aguentar, dizia uma loira, na hora que baixaram o caixão. As loiras são muito dramáticas.
O enterro da tia Rosa, de repente, ficou vazio, só cinco pessoas. Eu não conto, fico de longe, por precaução. Sou foragido. Reconheci logo a vizinha, Divani. Você deve ser o Máiquel, ela falou, no dia anterior. Eu estava na sala, mexendo na bolsa de plástico que a enfermeira tinha me dado no hospital, com as coisas da tia Rosa, Bíblia, batom novinho, carteira, documentos, porta-moedas, celular, foto três por quarto do meu primo Robinson, grampos enferrujados, agenda de endereços, cartão de encanador, uma cartela de aspirina toda fodida, porra, me deu um aperto no coração ver aquelas coisas, tudo socado dentro da bolsa. Foi nesse momento que a Divani invadiu a casa. Satisfação, ela falou, esticando a mão. Odeio isso. Gente que vai entrando. Explicou que a porta estava aberta. Por isso tinha entrado. Porra. Pelo jeito, a maluca devia entrar em tudo quanto é buraco.
Contei que minha tia morreu. Que eu estava chegando do hospital. E que o enterro seria no dia seguinte. Cuidei da sua tia antes dela ser internada, disse Divani. Dei banho nela. Limpei a casa. Rosa já não conseguia fazer nada.
Depois, ficamos ali, em silêncio, olhando para aqueles cacarecos em cima do sofá. Enfiei uma aspirina na boca e senti o gosto amargo.
Ali, no cemitério, me arrependi de não ter vindo antes. No fundo, a culpa era minha. Preguiça de viajar. Vou na semana que vem, eu pensava, vou na Páscoa, vou no aniversário dela. Morreu faz uma hora, disseram, quando cheguei no hospital. O que você é dela?, perguntou a enfermeira. Sobrinho. Esperei um bom tempo até que me levassem a uma sala, onde tinham posto o corpo. Tivemos que desocupar o quarto, alguém explicou. Para outro doente. Ela falava muito no senhor, disse a mulher, enquanto caminhávamos pelos corredores. Branca como cera, careca, um punhado de pele e osso. Era só o que tinha sobrado da minha família.
Fazia quase dez anos que eu não vinha para São Paulo. Todo mundo construindo seu próprio barraco, eu vi pela janela do ónibus. Lajota, pau, lata, valia qualquer coisa. Menos tinta. Tudo cinza. O trânsito amarrado. A mesma bosta de sempre. Vê se não arranja mulher, disse Eunice, quando me levou até a porta. Você volta, não volta? Prometi que sim. Gostava dela. Na primeira vez que fodemos, ela começou a dizer que eu era educado, achei você legal porque você é muito educado. Mais tarde, quando eu já estava morando na casa dela, contou que falou isso por causa do tamanho do meu pau. Pau grande, na minha opinião, é cavalheirismo. É elegância. Vou te arrumar um emprego com meu irmão, ela tinha dito. Mas agora eu não sabia mais se ia voltar. Aquilo nem era Rio de Janeiro, era Nova Iguaçu. É tudo a mesma coisa, dizia Eunice. Mas, para mim, não era. Rio era Rio. Arromba a retina, como diz uma música que ouvi no rádio uma vez. E Nova Iguaçu não arrombava nada. Era uma cilada, isso sim. Máiquel, disse um amigo, precisamos de um homem de confiança para fazer um trabalho legal, com gente da pesada. Gente da pesada, no caso, eram policiais. O esquema é simples, explicaram. A polícia pára os caminhoneiros e leva os que estão meio fodidos para uma conversa com a gente. Negócio limpo. Os babacas só têm que pagar um pedágio, ficam de molho, num muquifo, enquanto pegamos o cartão electrónico deles, fazemos saques nas agências que tem por perto, e pronto. Você vai funcionar como zelador do muquifo. Minha função era ficar parado. Olhando. De longe. Não deixar os caras fugirem antes da hora. Logo no início, vi que não tinha profissional na jogada. Dar porrada e quebrar ossos, era disso que eles gostavam. No dia que mataram um, me mandei.
Foi aí que conheci Eunice. Fui comprar Sonho de Valsa, e ela trabalhava de caixa no supermercado, oi, ela disse. Nem achei a Eunice muito bonita. Mas eu não tinha nada para fazer, esperei ela sair do serviço. Foi assim que começou. Depois, ela me contou que o irmão levava carga para o Brasil inteiro. Que ele tinha uma carreta Scania 112 hw e vivia no Mato Grosso, Goiás, Vitória, São Paulo, na maior vida boa. Era isso mesmo que eu queria fazer. Só que eu tenho um problema. Sou foragido. Isso eu não contei para a Eunice, porque eu podia me enfiar nas estradas de terra na fronteira do Brasil com a Bolívia, quem ia me achar? O meu irmão vai te apresentar para um bom agenciador. Ele vai arranjar os documentos todos para você. Falsos, pensei. Se arruma quente, arruma frio. O irmão da Eunice estava sempre viajando. Rondônia. Rio Grande do Sul. Enquanto isso, minha tia piorava. E o tempo passava. Deu no que deu. Agora eu estava ali, tarde demais.
Saltei do ónibus. Não havia pressa, nada para fazer. O dia estava bonito, céu azul, qualidade do ar, imprópria, dizia o painel da avenida. Menos árvores, notei. Mais cachorro. Mais barulho. Mais sujeira também. A praça. O bar do Gonzaga. Será que ainda era do Gonzaga? Passei anos pensando naquele lugar. Querendo voltar. Achando que seria bom voltar. Agora, enquanto caminhava, eu pensava que essa história de lugar, na verdade, não fazia a menor diferença. Tudo era igual, ruas, casas, a cidade, quer dizer, tanto faz. Não mudava nada, estar ali. O lugar, não interessa qual, não traz nenhum tipo de paz. Cansei.
Voltei para casa, deitei no sofá, liguei a TV. Estranho ficar naquela sala, sozinho. Tudo vazio. Quer dizer, cheio. Com coisas, mas sem nada. Liquidificador, vassoura, o sofá era novinho. Mandei dinheiro para a senhora, compre um sofá novo. Ela tinha mesmo comprado, a tia Rosa.
No móvel perto da televisão, uma foto minha e da Cledir, na festa do nosso casamento. Cortando o bolo. O noivo e a noiva. E uma do Robinson, num churrasco, de sandália de dedo. O Marcão. Todos mortos. E outra da Érica, com minha filha, Samanta, no colo. Levantei, peguei o porta-retratos e voltei para o sofá. E aí, Érica, onde você se meteu, sua sequestradora de crianças? Dez anos. Dez anos sem ver minha filha. Sem saber da Érica.
De repente, senti uma coisa ruim, um gosto ruim na boca. Ódio daquela cidade, que só me fez mal. Trabalhei para eles. Cuidei daquelas pessoas. Fiz coisas muito importantes. Ganhei até troféu. E meus amigos estavam mortos. A casa vazia. Eu ali, um foragido. Gente escrota. Ódio da Érica principalmente. A Érica não podia ter feito aquilo comigo. Fugir com um pastor. Roubar minha filha. Eu andava pensando muito nisso ultimamente, ir atrás, resolver tudo de vez. E pensava sempre com mais raiva. Porque não era certo, o que ela tinha feito. Sequestrar a filha dos outros. Como seria Samanta? Onze anos e dez meses, pensei. Uma garota. De que cor seriam seus cabelos? Agora, eu estava sozinho. Por causa da Érica. Mas eu tinha uma filha. Que era minha. Estava na hora de procurar a Érica e a minha filha. Era isso que eu ia fazer. Estava decidido.
Pré-publicações - 20
ed
"O psicanalista nova-iorquino Frederick Starks acaba de receber uma misteriosa e ameaçadora carta. Sem perceber como, nem porquê, a sua vida rotineira é lançada ao caos. Encontra-se no centro de um jogo diabólico, concebido por um homem que se intitula Rumplestiltskin. Este jogo tem as suas regras: no prazo de duas semanas Starks tem que descobrir a verdadeira identidade do autor da carta e a razão da sua fúria. Se conseguir, fica livre. Se não, Rumplestiltskin destruirá, um a um, os seus parentes mais queridos, a menos que o psicanalista aceite suicidar-se."
Mini-entrevistas/Série II – 141

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é João Miguel Almeida.
No que me diz respeito, um espaço sem limites para expor e trocar ideias. Tendo chegado à adolescência na década de 80, senti falta de uma sociabilidade intelectual que as gerações anteriores viveram em cafés, cineclubes e na militância política. Na melhor das hipóteses, a blogosfera é a versão cibernética e global das tertúlias literárias dos séculos passados. Na pior, um novo interface do veneno que antes circulava em pasquins. Não creio que a blogosfera seja apenas «velho vinho em novas garrafas». O novo meio está também a proporcionar novas formas de comunicação, combinando texto, imagem estática ou em movimento e som.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Não segui nenhum acontecimento apenas através dos blogues. Mas li-os mais intensamente durante os episódios que rodearam a nomeação de Santana Lopes como primeiro-ministro, pois a blogosfera deu-me uma ilusão de que podia não apenas seguir os acontecimentos mas também intervir neles, ao apelar a determinadas tomadas de posição. Talvez esta ilusão, no futuro, se aproxime mais da realidade.
- Qual o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Em 24 de Novembro de 2004 postei no meu obscuro blogue da altura, «E o Esplendor dos Mapas», um obscuro texto intitulado «Uma sentença para K.» Recebi um comentário anónimo: «Segundo uma expressão Sufi, “a liberdade é a ausência de escolhas”. Será que K. não era livre porque não escolhia? Será que a liberdade dele não reside no facto de ele não escolher? Qual será a tarefa mais difícil – escolher ou alcançar a liberdade aceitando a vida tal como ela é?». Vou casar com a autora do comentário.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
A blogosfera alargou as liberdades de expressão e de leitura. Entre o autor e o texto publicado são eliminados intermediários. A nova liberdade não elimina antigos constrangimentos: as da lei e a possibilidade de autores identificados serem sancionados por aquilo que escrevem. Outros constrangimentos resultam da própria dinâmica da escrita no blogue: das cumplicidades que se geram entre blogueadores, da maior responsabilidade que implica uma maior audiência e da necessidade de gerir simultaneamente o escasso tempo de uma vida pessoal e as lides blogosféricas.
domingo, 18 de Março de 2007
Terá Rute Monteiro tido a mesma sorte?

Para a pergunta "O que são hoje as imagens?", eu responderia com uma outra pergunta: Haverá algum tipo de coleccionismo sem coleccionador?
Rebranding

sábado, 17 de Março de 2007
A estranha obsessão da Ota (act.)

Falavam de algo que traduzirei livremente como sendo um dilema político-demográfico, mais do que logístico-técnico.
Ou seja, em termos de demografia urbana e de simbologia das escolhas turísticas - veja-se Carmelo, “Órbitas da Modernidade”, 1.6.2 e) - 'Fluxo de viajar', p116 e 1.6.3 c) – “O sujeito global entre fluxo e refluxo”, p127 – poder-se-á considerar que a implantação do aeroporto na margem norte do Tejo virá acrescentar população temporária à área norte da NUT Lisboa e Vale do Tejo e, consequentemente, à cidade de Lisboa que carece de movimento cosmopolita para contrabalançar o peso (europeu e turístico) de Madrid e poder vir a ser considerada uma metrópole europeia.
Efectivamente, na actualidade, com os apenas cerca de 600.000 habitantes residentes/nocturnos (800.000 a 1.000.000 diurnos), Lisboa tem reduzido poder de atracção, apesar do folclore urbano que lhe poderá vir a ser incutido com eventuais alterações lexicais tipo Allgarve (Llisboa, L.lisboa, e.Lisboa, Lis.Boa?)
Ao contrário, a implantação na margem sul dará origem, nesse território, a um desenvolvimento exponencial da especulação imobiliária e dos valores demográficos e diminuirá o peso institucional dos 'lugares' oficiais e simbólicos da cidade de Lisboa, que se encontram (quase) arruinados.
Quanto à localização racional para o aeroporto em termos logísticos (onde transdisciplinarmente não se poderia negar a pertinência da demografia) e técnicos, dever-se-ia optar pela margem sul num novo terreno (do Estado) que agora parece surgir em Alcochete...
MJE
sexta-feira, 16 de Março de 2007
A caminho do Saldanha

Mini-entrevistas/Série II – 140

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é "Saboteur", Economista, 30 anos.
- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
"Blogosfera" é o um espaço gigantesco, rico, diversificado e democrático de comunicação e debate, composto por todos os blogs + todos os comentários que são deixados.
Por ser tão amplo, por vezes torna-se num espaço um pouco confuso. Cabe a cada um ir conhecendo/aprendendo os seus caminhos, espero que com espírito crítico mas, ao mesmo tempo, com abertura de espírito.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Acompanhar exclusivamente pelos Blogs? Só as vidas de amigos que foram ou estão no estrangeiro. As suas impressões, experiências… Os "acontecimentos" a que a pergunta provavelmente se refere, sigo-os através de blogs, mas também através de outro género de sites (muitas vezes a eles ligados), nomeadamente através dos próprios jornais e revistas on-line.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Mais tempo em frente a um computador, a escrever, mas sobretudo a ler. Em troca, menos tempo a ver televisão, a dormir, a trabalhar… Sem dúvida que me enriqueci mais na troca.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Sim, do mais livre que conheço, nomeadamente – acrescento – se for possível participar nela (com comentários ou posts) de forma anónima. Vim agora do Brasil onde se discute legislação para impossibilitar escrever em blogs ou até abrir uma conta de mail, sem ser totalmente identificado. Acho isso castrador: Eu não escreveria muitas das coisas que escrevo se não fosse protegido pelo anonimato. Trabalhei durante 5 anos, em posição de relativa importância, num grande grupo financeiro nacional, extremamente conservador. Naturalmente não me ía expor da mesma forma, ainda para mais sabendo que o "meu público regular" são poucas dezenas de pessoas… Aliás, utilizei algumas vezes informação reservada da empresa para fazer posts meus.
Para além disso (no processo da ocupação de uma casa em Lisboa), um post meu já foi citado em tribunal por supostamente atacar o direito à propriedade privada. E também já houve ameaças graves de malta de extrema-direita… São chatices que eu pessoalmente dispenso.
e
quinta-feira, 15 de Março de 2007
A cerveja do dia 15

Ficção, realidade e a cintura de Deus
Mas... onde é que já se viu e leu isto?
Pré-publicações - 19
A partir daqui, inúmeros são os vestígios revelados pela investigação histórica, sugerindo formas de denominação e representação comercial que atravessam a Idade Média, a época renascentista e as revoluções liberais. No entanto, parece que as marcas só se tornaram realmente num assunto crítico, para os negócios e para a academia em geral, no século XX, mais concretamente em meados da década de 1980. Tal evolução deveu-se, em grande medida, ao reconhecimento do seu valor económico pelo sector financeiro, isto é, à aceitação formal de que as marcas produzem fluxos financeiros reais para os seus proprietários.
Actualmente, apesar do forte protagonismo assumido pelas marcas, consideramos que há ainda um longo caminho a percorrer no desvendar do seu modo de funcionar e potencialidades. Se pesquisarmos na literatura do marketing, encontramos as primeiras referências sistematizadas à gestão de marcas datadas de 1930 e atribuídas à Procter & Gamble. Os debates iniciais abordavam sobretudo a questão operacional da sua gestão, ou seja, apresentavam as perspectivas tácticas e não as análises estratégicas. E só em finais do século é que as marcas ganharam realmente visibilidade científica. Deve-se a David Aaker a publicação do primeiro texto sobre a visão moderna das marcas, em 1990, ao qual se atribuiu, finalmente, força e reconhecimento científico. Antes dele, outros autores tinham tentado o mesmo, como é o caso de Peter Farquhar, que chamou a atenção para o fenómeno em finais dos anos 1980, e Kevin Keller que só viu o seu artigo publicado no Journal of Marketing em 1993, após vários anos de espera."
Pré-publicações - 18
e
A circunstância do futuro jesuíta, pensador, ensaísta, filósofo da cultura, analista político e literário Manuel Antunes foi a de um meio provincial do nosso Portugal ainda profundo, porque isolado do mundo, arcaico e sublime ao mesmo tempo e, tanto quanto me é possível adivinhá-lo, uma dessas famílias cristãs, com uma mãe devota que maior glória não desejaria para si e os seus que ter um filho ao serviço de Deus. Ele o seria plenamente depois de uma adolescência estudiosa e uma decisão, a decisão absoluta da sua vida, de entrar e ser aceite na mais exigente, e discutida pelo mundo, das nossas ordens religiosas.
O Portugal da sua formação intelectual era, pelo menos na aparência, um país política e ideologicamente conservador, hostil ao sistema de partidos do primeiro quarto do século, modernista no seu desejo de acelerar e dinamizar a nossa atrasada vida económica, dizendo-se inspirado pela doutrina social da Igreja e tendo nessa mesma Igreja a sua referência e a sua caução simbólica e cultural. Nós somos filhos e herdeiros de muitas guerras, de tradição nossa ou influência alheia, e inscrevíamo-nos então numa vasta querela europeia, ou antes, numa crise geral do sistema democrático ocidental, contestado ao mesmo tempo e com uma virulência sem exemplo pelo autoritarismo fascista e pelos totalitarismos em marcha, do nazismo e sua ideologia cultural racista ou racialista, e soviético, de referência colectivista-socialista. Nada disto o Portugal onde Manuel Antunes se formou e viria a exercer o seu magistério cultural, viveu como na outra Europa se vivia – excepto na vizinha Espanha – mas de tudo isso recebeu ecos e a tudo esteve aberto, mas “à portuguesa”, ao “ralenti”e suavemente vigiado. Pelo menos até à Guerra de Espanha que inscreveu o país vizinho e, por consequência, o nosso, numa atmosfera de cruzada, antes de nos instalar por longos anos, os anos da Guerra Fria, no paradoxal campo do “mundo livre”."
Mircea Eliade

quarta-feira, 14 de Março de 2007
Vem a caminho...
terça-feira, 13 de Março de 2007
Ainda a Rute Monteiro

segunda-feira, 12 de Março de 2007
E Deus Pegou Alan pela Cintura

A nossa paródia

domingo, 11 de Março de 2007
Agora no Norte!

Histórias de um lançamento - 3 e 4
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sábado, 10 de Março de 2007
Histórias de um lançamento - 2
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“Aqui dá-se como se pode quase como se fala ainda que por tópicos que abortam desenvolvências:
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Do técnico liguei ao Fred a ver se catava uma boleia, estampei-me:
- Dou-te boleia de metro Vanessa que o meu carro está velhinho.
E lá fui de encontro ao dear Fred metro abaixo.
Aportamos no edifício El Corte Inglês, que me é de rara visita e nunca supus ter tão elevada estatura. Sou algo achegada a tonturas mas o tipo, o Carmelo, tinha que arranjar um sétimo andar de um prédio famoso para exportar um livro com nome de Deus. Fosse por Deus, fosse pela boca do Alfredo, perdi o medo. O cientista maluco disse-me certeiramente ao chegar ao sétimo:
- Na Correia do Sul (ou país que se pareça) um prédio igualzinho a este ruiu com 1500 pessoas dentro.
Tendo o condão de me explicar precisa e detalhadamente porquê.
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Mas eu ia ao encontro de uma porta com Deus dentro e, fosse a fantasia, fosse o romance, que de acordo com o autor é uma coisa com vida própria que sobeja-se pelos becos das nossas casas correndo-nos pelos membros e não aguentando segredos, lá fui a tiracolo do Alfredo, procurando imaginar que os seus olhos de lince são mais musculados do que o corpo e proteger-me-iam do prédio e das fobias todas, que nem sei muito bem se tenho, pois são pouco seguras, mas parece-me que sim que as tenho talvez, perhaps, assim-assim.
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A Clara Piçarra manda-me uma tímida mensagem avisando que estava sentada em frente à loja das sopas. Esperamos por ela no sexto andar. Implodiu de um elevador que parecia muito prenhe de indivíduos, e trazia na cara um smile amarelo com o nome anunciado em letras gordas. Literalmente. A rapariga tinha um cartaz pintado na cara. Genial! Absolutamente genial!
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Não havia como dizer, será, não será, essa rapariga de olhos claros e riso de travessa a Clara? Era ela, e revelou-se igual ao smile. Um piropo de pessoa.
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Uma vez lá em cima, no sétimo céu do romance, vimos uma Tia chic, de impecável indumentária, e perdoem-me a falta de decoro, magníficos pára-choques. A Patrícia Grade, a nossa alma de fórum, menina de modos leves e alegres, que dispõem bem qualquer momento.
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Começamos a dança do “Entramos, não entramos, entramos, não entramos”…Fred diz:
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- Stop! Stooooop que há que esperar pela Guidinha.
- E quem é a Guidinha? – Parece perguntar a Clara.
- Obviamente que a Guidinha é a mulher do Fred! – Replicamos indignadas pelo óbvio da situação que qualquer psíquica que se preze imagina. A Guidinha gente! A santa paciência em pessoa. Só assim aguenta um bando de pacóvios a falar de fóruns e diálogos, a tirar fotografias como se não houvesse amanhã e barulhando qual miúdos da primária, porque a excitação não é terreno infértil aos adultos. Essa é a Guidinha. Uma paz de alma.
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Nisto passa uma careca luzidia e bem polida.
- É o Francisco. – Diz a Patrícia, sempre à frente da nau.
- Não, não … não tem óculos! – Conclui a Clara.
- Pois, não parece ser ele. – Remato.
- É mesmo o Barão estou-vos a dizer! – Exclama a dona Pat. E contra Pat não há argumentos.
O Barão fez-se à trupe com passos serenos e sólidos. Seguro da sua bela careca e cheio de boa onda.
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Entramos todos empalhados, com ar de quem vai às batatas. Olhei e acenei.
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- Estás a acenar para quem? Afinal? Conheces aqui gente? – Pergunta a nossa Patrícia afoita, surpresa, espantada, indignada.
- Estou a acenar ao Sérgio Godinho e uns quantos comparsas que costumam tocar rabeca comigo…hummm…apenas estou a ver se chamo a atenção do Luís.
- Ah! – Respira como quem diz “ai de ti que saias daqui levas imediatamente no focinho!” (A Pat é um sossego desconfiem das minhas palavras).
- Oh! Olha o Alfredo! Já ali na conversa com o Luís e uns outros! Olha, olha! E nós?
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(desculpem, conto isto a rir e sei que a Patrícia e os restantes retratados terão o bom humor de me perdoar, pois as inverdades confundem-se por aqui com a realidade. É dessa coisa do romance do Luís que anda por aí à solta metendo-se nas realidades dos outros como se lhe pertencessem)
r
O nosso professor Pardal (Alfredo) foi de conversa e entornou uns quantos copos de sumo de laranja. E nós mantivémo-nos algo compactos e contemplativos. Compramos o Livro do LC, melhor esse romance metediço, tomem cuidado que nesse preciso momento ele está a falar da vossa história anímica insuspeita.
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Assim aparece:
r
Um tipo impecável de bigode bem tratado, cabelo grisalho atinadinho e óculos de bom moço. Vem tão devagar que quase não acontece. E ao passar por nós mete o nariz no meio, bem no meio de todos, arregala os olhos e pergunta como um polícia à paisana:
(- Do LEC? – Laboratório de Escrita Criativa....)
r
Mas do LEC como caríssimo Nunes! Manuel Nunes. Do LEC sociedade secreta dos esventrados da memória, ou do LEC senha de passe para o clube dos poetas mordidos? (sim ouvi dizer que a poética esmagou muito boas letras) Seja lá o que for, é certo que alguém lhe respondeu à atitude sorrateira com um murmúrio insuspeito.
e
- Simmmmmmmmm somos nós! Todos do LEC. – A Clara e a Patrícia, ou fui eu? Não sei. Prefiro que sejam elas. Eu quero ser a heroína da historia, segura e perfeita, se a historia é narrada por mim, posso ser quem quiser…ou não?
r
Não sei. O romance do Luís anda por todo o lado, ainda me leva para os caminhos da Rute Monteiro.
r
E o Manuel achegou-se ao núcleo. É quando então aparece um jovem metrosexual, de fato cinza e camisa rosa fashion, caracóis domados e bem laminados num estilo afro europeu saído da Vogue, sorriso estampado desses que não precisam de nome para ser risonho, e uma atitude muito, meus amigos, muuuuuito cool! Qual Tarantino? Qual Jhon Travolta? Qual Al Pacino Qual Robert de Niro? …qual nada para esses! Luís Carmelo meus amigos, Luís Carmelo! Uma mistura desses 4 magníficos, com pinta e tranquilidade …o senhor é um primor. A suavidade em pessoa.
r
Chamou-nos a todos pelo nome, ou assim imaginei pois a hesitação foi pequena, e os poucos instantes que pôde nos dedicar foram de uma recepção calorosa e espontânea. Isso, eu sei, não imaginei, nem me disse a Rute Monteiro. Ando sedenta para ler o romance só por causa desse nome sinistro. Eu sei que deve ser alguém seu conhecido Luís mas por Cristo, Rute Monteiro é sublime! É assim robusto…com o Mauro nas canelas não consigo lhe mandar a emoção da repetição que ecoa na minha cabeça, ela é o nome do pecado!
4r
O evento foi muitíssimo agradável, espontaneidade a rodos, informalidade q.b e sala cheia. Falou uma antiga aluna do LC que deu o toque de abertura, entregou a palavra ao chefe da Guerra e Paz que impressionou pela ferocidade com que lançaram o livro do LC no mercado, a campanha mais agressiva da guerra e paz, depois veio o Viegas assustar-nos com os meandros loucos da feitura da coisa, os personagens confusos que sem normas domam realidades e assomam ficções, e ele só queria era ver o jogo do Porto. Plateia risonha nas suas palavras, por vezes leves, outras vezes mais densas, mas sempre focando o que de facto importava, o livro e o autor. O jovem LC quando tomou a palavra fê-la jorrar como água, falou de si, e do corpo do livro físico que escreveu, falou das polémicas com leveza e quanto a mim além de artista deveria ser o director da obra que já lhe ultrapassou há muito tempo. A obra vê-se na net, vê-se nos acontecimentos que ele contou antes do futuro que é agora, “the man is not a writer the man is a psiquic!”
Parabéns LC.
r
Saímos de caminho para casa, mas num acto de aqui agora, decidimos jantar por ali, sopas e crepes, tudo acontecendo em simplicidade de momento absorvente e voluntário. Parecia que nos conhecíamos de outros jantares. A conversa caía fluida por sobre temas diversos, ainda que a comunhão tivesse sido o LEC havia muitas outras empatias.
e
Estou capacitada para embebedar muito boa gente e fazer umas experiências de cozinha (que quase sempre me corre mal mas tenho coragem e afecto suficiente para a entrega).
e
Um abraço"
Histórias de um lançamento - 1
por Francisco Barão da Cunha
e
"Amarrados e vendados, o psicopata e a estranguladora acordaram fechados num porta-bagagens de um automóvel. Ao despertarem, a pouco e pouco começaram a imaginar como poderiam ter ido ali parar.
sexta-feira, 9 de Março de 2007
Há ópera no meu pátio
quinta-feira, 8 de Março de 2007
Ainda a Rute Monteiro
quarta-feira, 7 de Março de 2007
Quase primavera

terça-feira, 6 de Março de 2007
Confissão estóica




e
mas aqueles a quem negamos a palavra
o amor, certas enfermidades, a presença mais pura
ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância da língua comum deixaste
o teu coração?»
A altura desesperada do azul
no teu retrato de adolescente há centenas de anos
a extinção dos lírios no jardim municipal
o mar desta baía em ruínas ou se quiseres
os sacos do supermercado que se expandem nas gavetas
as conversas ainda surpreendentemente escolares
soletradas em família
a fadiga da corrida domingueira pela mata
as senhas da lavandaria com um "não esquecer" fixado
o terror que temos
de certos encontros de acaso
porque deixamos de saber dos outros
coisas tão elementares
o próprio nome
Ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância deixaste
o coração?»
(José Tolentino Mendonça, de A Que Distância Deixaste o Coração, Anos 90 e agora - uma antologia da nova poesia portuguesa)
Chegou o dia

segunda-feira, 5 de Março de 2007
Pré-publicação - 17
Um pintor, um signo. Signo que se desenvolve em dois sentidos: na totalidade da obra que está realizada e na que virá tomar lugar no dia próximo. Primeiro, a sensação de criar um objecto por onde perpassa o que é comum, o que vai sendo comum. Não que esses objectos do pintor estejam incluídos numa mesma classe, mas somente por estarem percorridos e se moverem sob um fundo inicial, despoletador de arte. Depois, como um conceito que se inicia num ponto fixo — de luz, de sombra ou de negro — e se expande e se desenvolve em pensamento; não de palavras, mas de organizadas cores modeladas.
e
Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Guerra e Paz, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença e Vercial.
Pré-publicação - 16

e
Este encontro reuniu investigadores de Angola, do Brasil, de Moçambique, de Portugal, de Timor-Leste e dos Estados Unidos da América. Maria Manuel Baptista, Luís Cunha, Regina Brito, Moisés de Lemos Martins, José Carlos Venâncio, Eduardo Namburete, Neusa Bastos, Benjamim Corte-Real, Joaquim Paulo da Conceição, Maria Immacolata Lopes, Benalva da Silva Vitório, Helena Sousa, Rosa Cabecinhas, César Bolaño e Joseph Straubhaar apresentaram então as suas comunicações que, a partir de hoje, temos também a oportunidade de ler.
A Conferência – que contou, na sua sessão inaugural, com a participação do Presidente da Federação Lusófona de Ciências da Comunicação, Paquete de Oliveira, e dos Reitores da Universidade do Minho e da Universidade Nacional de Timor-Leste, respectivamente António Guimarães Rodrigues e Benjamim Corte-real – desenrolou-se em três painéis plenários:
1. Lusofonia: Equívocos, Fronteiras e Possibilidades – neste painel, problematizou-se a Lusofonia, enquanto discurso e ‘cosa mentale’, e interrogou-
se a permanente reconstrução do conceito, bem como o papel da comunicação e dos media nessa reconfiguração.
2. Políticas da Língua e Identidade - num segundo momento de apresentação de comunicações e de debate, procurou-se aferir a relevância das políticas da língua no contexto do desenvolvimento de uma área cultural e comunicacional num mundo cada vez mais globalizado.
3. Os Media e a Memória Social - nesta última sessão, foram identificadas e debatidas algumas das principais estruturas de comunicação, nacionaise supranacionais, do Espaço Lusófono."
Rute Monteiro (act.)
eLogo, entre as 19h. e as 20h., na Prova Oral da Antena 3. Ver mais aqui.
domingo, 4 de Março de 2007
Estão convidados!
e e

Edição:
Ricardo Sant'Ana
Câmara:
Rodrigo Lobo
Grandes capas

sábado, 3 de Março de 2007
Suave acordar

sexta-feira, 2 de Março de 2007
Blogues e Meteoros - 19

Há dias, numa entrevista, vi-me a dizer – gosto da visualidade da expressão – que “a literatura é a bricolage de uma loucura saudável”. Nesse trecho da entrevista, reflectia sobre a antecipação ficcional do meu último romance, E Deus Pegou-me Pela Cintura, que eu e o meu editor (Manuel Fonseca da Guerra & Paz) decidimos levar a cabo desde Janeiro passado.
A operação foi simples: criou-se um jornalista virtual (Olavo Aragão) que, no seu blogue (Freelance), deu como real um facto do enredo do romance (o rapto no Líbano de uma jornalista, a protagonista Rute Monteiro). O alarme gerado pela fractura entre a realidade vivida e a realidade do romance fez o resto. Foi fascinante, depois, seguir e perceber o que se passou – não é possível aqui dar conta dos episódios –, sobretudo se pensarmos no mundo em que vivemos.
A verdade é que, nos tempos que correm, os Reality Shows são apenas uma pequeníssima parte da mistura entre ficção e a realidade que faz o nosso mundo. Aquilo que os teóricos da comunicação designam por “meta-ocorrência” mais não é do que a transformação nos media de ocorrências reais em autênticas efabulações que dão permanentemente a volta ao mundo. Ao fim e ao cabo, vivemos todos numa espécie de Vanilla Sky. O Leviatã comunicacional da actualidade (media, cibermundo, etc.) é herdeiro directo dos antigos mitos clássicos que habitavam, também eles, num limbo entre a ficção e o real.
Embora muita gente tenha compreendido a antecipação ficcional do meu romance, houve quem não aceitasse que a ficção literária também tem direito a misturar-se com a realidade e, portanto, a sair do espaço fechado entre capa e contracapa. No fundo, continuam a entender a literatura como uma coisa sacralizada e intocável e entendem o que designam por marketing como um bicho monstruoso que tem oitenta chifres e oito escamas bicudas no peito. Os meios que descendem do que já foram os “intelectuais” têm alergia a palavras como “publicidade” e “marketing”: faz parte de um genoma com história que os próprios raramente interrogam.
É natural que possam existir confluências entre uma antecipação ficcional e a organização de uma campanha de marketing. Mas são coisas muito diversas. Reato um exemplo que dei há poucos dias: é como confundir a publicidade da Lavazza ou do Martini com arte conceptual e confesse-se que, vistas de fora e de modo descomplexado, as realidades visuais aproximam-se imenso. É um jogo de aparências, tal como é todo o jogo de imagens em que globalmente vivemos.
E é neste jogo em que irremediavelmente a ficção e a realidade andam de mãos dadas que hoje em dia todos acabamos por compreender a “bricolage saudável” do dia a dia. Ou seja, quando em Janeiro se discutia o rapto da jornalista Rute Monteiro, já se estava a discutir a realidade de alguns capítulos do meu romance. Da mesma forma que, quando se discutem hoje os melhores portugueses de sempre, já se estão sobretudo a discutir as narrativas do nosso quotidiano. Uma forma de “loucura” legitimada? Não, isso é coisa só para a literatura!
Mini-entrevistas

Do enigma para o jogo
quinta-feira, 1 de Março de 2007
Mini-entrevistas/Série II – 139

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é David Luz, 34 anos, investigador em ciências planetárias (http://linha-dos-nodos.blogspot.com/).
- O que é que lhe diz a palavra "blogosfera"?
Para ir além da definição - o conjunto de blogues públicos e livremente acessíveis - sugere-me um grupo muito heterogéneo de pessoas que escolheram tornar-se visíveis, ou "audíveis", se preferir.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Nenhum (seria o equivalente a seguir um acontecimento lendo apenas as colunas de opinião da imprensa, sem ler as notícias). Mas segui através de blogues vários acontecimentos que foram tratados secundária, ou tardiamente, na imprensa (como a crise das caricaturas), e outros - como as eleições brasileiras - segui em paralelo com a imprensa.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Deram-me a conhecer uma série de vozes que não tinham lugar na imprensa escrita, muitas delas de maior talento que alguns colaboradores habituais dos jornais, regulares, cinzentos, partidários, cansados. Além disso os blogues constituem um contrapeso refrescante à estreiteza de vistas e enviesamento presentes em muita imprensa (não por serem menos enviesados, mas pela variedade que aqui se encontra).
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Por LC |










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