terça-feira, 31 de maio de 2005

Six Feet Under - 5
r

O Luís e a Charlotte tinham toda a razão. E eu no fundo sabia disso, mas ia paparicando a mais doce e delicada das esperas. A verdade é que a realização tinha andado, afinal, a entreter os meus demorados sonos apenas para preparar terreno para o grande repto, ou melhor, para o rapto fortuito e violento que acabou por tomar conta do episódio de ontem. Entretanto, nos antípodas, Nate ficou a entrever incêndios solitários e Claire, beyond everything (excelente!), fez das suas incompreendidas imagens a tranquilidade que Rico podia um dia ter tido, se não fosse gentil cordeirinho de um deus realmente menor. De resto, a mãe de Brenda continuou mais uma vez a excitar os magalas de Conceptión, a caixeira do bairro ficou em transe com o almejado e prometido jantar e, por fim, o recém-pseudo-xerife da casa, em conformidade, lá abandonou a cozinha irado. Em fogo, mas de certeza fátuo. Se eu pudesse ter baptizado o episódio de ontem tinha-lhe chamado, muito camusianamente, A Queda.
O OLHO DO JAVALI
Folhetim em doze episódios
DÉCIMO SEGUNDO (E ÚLTIMO) EPISÓDIO
(A investida)

Era uma recta comprida e Maia acelerou. O lusco-fusco invadira o empedrado incerto, a vista das bermas e a névoa rasteira agora a espalhar-se para os lados do abismo. E foi a meio da recta que o vulto apareceu a correr, vindo da sebe escura e soturna. Veio a correr e parecia uma mancha desalinhada, em ziguezague, com um único olho gigante de cor vermelha e sanguínea, no meio do breu mais inconsolável. E diante do imenso animal, Maia teve que travar, travou, reduziu as mudanças, gritou e o embate foi terrível. Sob o lado esquerdo, o automóvel ficou encostado ao murete que dava para o precipício. Um pouco à frente, menino da sua serra, o animal jazia morto, de patas para o ar, uma verdadeira poça de sangue a escorrer sobre o traço contínuo do empedrado.
Com ímpeto invulgar, como se tivesse acordado da sonâmbula aventura, da imprevista escalada, da ilógica viagem, Maia saiu do carro a correr e foi verificar, quem sabe, se o javali morrera. Rui abriu a porta do carro, uns segundos depois, e ficou atordoado, adormecido, amparado no retrovisor direito. Foi nessa altura que o javali, num último fôlego, num derradeiro esgar, repôs a máscara da vida e investiu sobre Maia que estava ajoelhada por perto.

Rui nem teve tempo de reagir. O sangue, não se sabe se do Javali, de Maia, ou de que espantoso animal, gravou-se no vidro do carro. Um ruído seco e breve. O estilhaço da dor. Um instante, uma luz no meio da escuridão. Talvez a fotografia da iniciação. O esguicho terrível. E Rui, inerte e gelado, apeado de si. De tudo.
E o cheiro denso da balsamita a celebrar os ares da montanha. Um capricho inexplicável. E era como se o destino tivesse acordado com a viagem. E era como se o destino acordasse, de vez, para a única viagem.

segunda-feira, 30 de maio de 2005

Parafraseando Ricoeur

Dire NON À soi même comme un autre.
Eu diria antes que a França já desapareceu há muito, sob a sua própria e recôndita lenda. Mas os franceses ainda não se deram bem conta do saque secreto que contra si praticaram. Como se fossem seres de outro mundo e ninguém já os compreendesse na sua altivez sem altura.
Pérola - 1

Havia um muro branco, uma estação abandonada, a estrada nocturna e o alto de onde se via a cidade inundada de gotas suspensas e luzes sem fim. O touro saltou o rasgo da barreira, a terra abrigou a luz férrea e fez do arco-íris, perfeito e quase em fogo, a própria cor de rubi.
O OLHO DO JAVALI
Folhetim em doze episódios
DÉCIMO PRIMEIRO EPISÓDIO
(A recta imprevista)

Até que surgiu a recta que tinha aproximadamente cinquenta metros. Faltaria menos de um quilómetro para atingir o mirante. O desejo.

(Tudo se passa entre a concórdia e a traição - pensou Rui, depois de tudo ter já acontecido).

(Apenas um dom. A romagem do espírito que chega calada até ao momento em que nos vimos frente a frente. Um carro para os dois. O absurdo. Nunca nos tínhamos visto. E estávamos ali como se tivéssemos acedido à imortalidade. Esperávamos um sinal. Qualquer coisa. Um automóvel é um bem, um luxo, mas nunca pensei que fosse um sinal providencial. Porque um carro atravessa o espaço da mesma maneira que um milagre se atravessa na imaginação. Continuamos face a face, os dois, diante do mesmo automóvel. Cada um com a sua chave. Chegámos ao parque, ao mesmo parque, à mesma hora. Tentámos entender que só nós, apenas nós, nos dirigíamos ao nosso próprio carro e que mais ninguém poderia, à mesma hora, dirigir-se àquele carro que é e era o nosso. Mas, naquele dia, aconteceu. E isso foi um dom. O dom. Rumámos, depois, a bordo de um silêncio e de uma confissão sem qualquer explicação. Éramos como que um episódio barroco que leva o movimento a despertar as realidades e não a realidade. Única. E entre elas, entre as várias realidades do mundo, algo acabou por despertar o que vivemos a dois por breves horas. E por isso, juro, viajámos em direcção ao ponto mais alto, à quimera de um degelo superior, onde Deus nos pudesse esperar. E nós com Ele, de braço dado, com uma imperial ou com um imenso charuto na mão, a partilharmos a mais inenarrável das brincadeiras. E vi-me a mim e a eles, a Rui e a Deus, de mão dada a corrermos sobre as nuvens do crepúsculo, nesse istmo em que as curvas da vida adivinham a derradeira recta e, com ela, o nevoeiro rasteiro, a amarga espera pelo miradouro do desejo proibido que nunca mais veria. Aquilo já era uma espécie de redenção a antecipar-se ao cume anunciado. Ainda o mundo e a vida eram a imagem da ignição de um mesmo veículo disputado por dois seres humanos que se amavam e traíam, sem saber. Eu, a inventora da vacina maravilha, da vacina mágica e ele um homem de leis que faria inveja ao seu colega de barbas que leu os mandamentos da lei de Deus. Vejo-o agora sentado na nuvem azulada do fundo, entre dois lampadários feitos de semente e caules de balsamita. Um verdadeiro dom, esse encontro, esse magno prazer de ter existido na escalada da grande montanha, da desmesurada falésia. Até que. Até que surgiu a recta que tinha aproximadamente cinquenta metros. Faltaria menos de um quilómetro para atingir o mirante. O desejo. - pensou Maia, milionésimos de segundo antes de tudo ter acontecido).


Próximo e último episódio: "E o cheiro denso da balsamita a celebrar os ares da montanha. Um capricho inexplicável."

domingo, 29 de maio de 2005

Crescente poético luso - 6


E o que dizer deste actualíssimo poema de Ibn Sâra de Santarém (m. 1123)?

Final de um panegírico, queixando-se dos impostos

Desde o momento em que passaste pela sua mente,
vejo que a nobreza, apaixonada,
te segue pelos vales do temor de Deus,
e vai ao teu encontro dizendo “Vem a mim !”,
como a jovem a quem o seu amigo faz sofrer.
Também eu, para me dirigir a ti,
passo ao largo entre as pessoas
sem visitar nobres ou plebeus.Venho queixar-me a ti
- e não é vergonha um enfermo
querer curar as suas dores e queixar-se:
os impostos levaram
a juventude da minha cabeça
que chora cada vez que luz
o sorriso dos cabelos brancos,
e os meses em que os juros
vencem os seus prazos
me deixam posto a nu por completo.
A lua já não brilha diante destes meus olhos
que, com os primeiros cabelos brancos,
ou com o peso dos dirames, se forjaram;
ao ter que pagar os impostos, pareço cintilar e por isso
maldigo o firmamento e as estrelas.
e
(tradução de Teresa Garulo, sendo minha a fixação da versão portuguesa; Proj. Práxis nº2/2. 1/CSH 7750 795)
Universais

As abstracções também me inquietam. Não apenas a "humanidade", mas por quase igual motivo a "natureza humana". Elas, e outras da ordem do divino ou do ideológico, podem sempre legitimar um imponderável aceno de intolerância.

sábado, 28 de maio de 2005

Crescente poético luso - 5

Regressemos hoje, nesta noite ventanosa do fim de Maio, ao escalabitano Ibn Sâra (m.1123):

A braseira - VI

Quando partiram,
o violento siflar do vento frio
divertia-se com a chama, jovem
de rosto descoberto, hábil,
que, com sua fugitiva meditação,
procurava o destino da fonte
e as cores do pudor;
brilho dourado que, na obscuridade,
com o seu fogo sem fumo,
se assemelhava ao relâmpago
que golpeia a nuvem diluída em chuva.
Quando sobre as chamas o zéfiro sopra,
o cavalo oscila como uma víbora,
ao sentir os freios na boca,
e parece guardá-los dentro do seu peito
quando o temor da separação
(se) aninha no meu.
t
(tradução de Teresa Garulo, sendo minha a fixação da versão portuguesa; Proj. Práxis nº2/2. 1/CSH 7750 795)

sexta-feira, 27 de maio de 2005

Crescente poético luso - 4
e

Eis, hoje, o Fragmento nº 3 da "'Abduniyya" de Ibn 'Abdún de Évora (1050-1135):

1
Vão afligindo a noite sem dela se vestirem, por mais comprido que seja o seu manto perfumado de almíscar.

2
Levam consigo um ovo branco abrigado pelo covil que, por amor, como se fora ninho, seus corações esboçam.

3
Entre eles, os corvos das trevas sacodem as penas húmidas das asas e a penugem do peito.

4
Quando se afastam do ventre da noite e seguem para as espáduas do dia eleva-os forte rectidão
que é grande em verdade.

5
Se o medo os agitasse, levantariam as trevas como adaís, e levantariam os ventos como cavalos.

(tradução de Jose Mohedano, sendo minha a fixação da versão portuguesa; Proj. Práxis nº2/2. 1/CSH 7750 795)
Maio de todas as festas

Parabéns aos sulistas, benfiquistas e liberais!
E... sempre gostei de Jaquinzinhos.
(Disse alguma coisa mal?)