segunda-feira, 9 de agosto de 2004

Ficcionalidades de Prata

Este é o título de um conjunto de micro-ficcionalidades que vos vou propor nos próximos dias. Às vezes só com imagens (fotográficas), outras com algumas breves letras à mistura (se for capaz disso). Escorrer a memória na carência de verão, eis o olfacto fino que me guiou nesta operação. Sinestesia activa para nada fazer. Apenas olhar. Desinteressadamente. Eis um exemplo para rebate inicial:


(Desenho fotogénico, William Henry Fox Talbot,1839)
Mérida: 50 edições de festival



Estive ontem em Mérida e vi Prometeo del fuego a la luz (pela Compañía Karlik Danza Teatro, com direcção de Cristina D. Silveira e Memé Tabares). E desloquei-me a Mérida sobretudo para avaliar um Festival que consegue cumprir a sua 50ª edição, ao fim de setenta e um anos de idade (foi fundado em 1933 e esteve interrompido, por razões óbvias, entre 1935 e 1953). Para além de ter revisto o extraordinário espaço - esse sim, o grande espectáculo que parece fazer concordar hegelianamente espírito e forma ou heideggerianamente essência e coisa -, devo confessar que o Prometeu que me foi dado ver era sobretudo uma espécie de figura circense embalada em jeito de acrobata pelo voo hightec ao longo de uma bem cerzida rede de cabos. O espaço cénico de facto encheu-se e os artifícios fogosos e outros mais bem sucedidos (a lembrar as filmagens de Matrix – I) não bastaram para suprir a real falta de densidade plástica, mítica e poética. Mas valeu a pena. E as amplas margens do Guadiana, em Mérida, estão tão bem cuidadas!
Dez anos antes da primeira fotografia


Nicéphore Nièpce

“Je plaçai l´appareil dans la chambre où je travaille. En face de la volière, et les croisées bien ouvertes, je fis l´expérience d´après le procédé (…)”



“(… ) et je vis sur le papier blanc toute la partie de la volière qui pouvait être aperçue de la fenêtre, et une légère image des croisées qui se trouvaient moins éclairées que les objets”
Extracto de carta de Nicéphore Nièpce ao seu irmão (5 de Maio de 1816)

Frase de Segunda-feira chuvosa

"Com o seu íntimo pessoal cada um poderá estar em toda a parte (...)"


em Nome de Guerra (Almada Negreiros: romance escrito em 1925 e publicado em 1938)

domingo, 8 de agosto de 2004

Cavalos de fumo e de gelo


Primeira imagem fotográfica: janela de Gras, Saint-Loup-de Varennes, 1826, Nicéphore Nièpce.

Que cor pode ter um rio congelado, num dia de Agosto como este que nos faz involuntariamente lembrar o sabor da chuva?
Embore não goste da pontuação da tradução, relembro Proust (e, no meu filme mais desacertado, evoco o cheiro a terra molhada e a granitos corroídos para além daqueles canais do meu bairro de Amesterdão que se imobilizavam, durante dias e dias, brancos branquíssimos, inundados de crianças com impermeáveis vermelhos, amarelos e azuis):

Francisca sentia muito frio para poder ficar parada, e fomos até à ponte da Concórdia ver o Sena congelado, do qual todos e até as crianças se aproximavam sem medo como de uma imensa baleia encalhada e indefesa, que fossem esquartejar.

Olho para o meu quintal e sei que estou longe de tais visões. Mas, de qualquer modo, lá recolhi as cadeiras de braços para resguardar as lonas dos imprevistos elementos. Ontem à noite, no mirante, vi chegar o exército de nuvens, lentas e volumosas a envolverem pelo sul a cidade com se fossem cavalos silenciosos com algum Átila a comandá-los. E depois os telhados lunares pareciam estancar o leite vivo da alvenaria numa espécie de simulada noite americana, onde cheguei a adivinhar o ambiente que envolveu Nièpce naquela sua primeira fotografia. Faltava um século para Proust, mas a cidade evocada era a mesma. Por mim, confesso que estou em todas as cidades ao mesmo tempo. Sempre respirei assim. Por cima do fenotextos das conjunturas. Estou lá. E abraço Nièpce e Proust num único gesto apertado.
Europa vs.Trópico


Trópico, Oldham Chris

É normal que, ao longo de todo o espaço europeu, os ciclos bem demarcados da natureza acabem por ter uma inscrição mimética ou mesmo temática na produção artística. Daí que se possa dizer que a sensibilidade literária e plástica do velho continente reflicta um halo sazonal. Seria mesmo difícil citar obras em que as quatro estações do ano não se convertessem em personagens (ou em actantes) mais ou menos explícitos e mais ou menos cativantes. Daí o interesse do comentário brasileiro que a Eugénia propõe e que passo a citar:

É engraçado, às vezes penso nisso, de como o fato de não termos assim estações bem definidas nos tira o sabor dos meses. Verão ou inverno ( chuvas para os nordestinos, frio no sul ), o resto indefinido. E as férias de todos não tão concentradas. Faz uma diferença no modo de sentir o cheiro dos dias.

Eu diria mais: faz uma diferença abissal no modo de sentir os ritmos da natureza. Na Europa estes já aparecem prescritos, no Brasil tropical (e não só) há que criá-los, que reinventá-los, que transpô-los para a arena plástica e para a textura da vida. E penso que, sobre esse ponto de vista, o resultado está bem à vista.

sábado, 7 de agosto de 2004

Mérida: 50 anos de festival



Amanhã lá irei para ver Prometeo, del fuego a la luz pela Compañía Karlik Danza Teatro (direcção de Cristina D. Silveira e Memé Tabares). Voltarei ao tema.
Em Agosto não gosto de ler:

Disputas entre potros muito sérios e muito assumidos em torno de tópicos políticos e morais que fazem lembrar diatribes entre meninos sardentos de sacristia que andam entre o PP e o alarido da alface francesa de Arles misturada com barbas de Marx ao pequeno- almoço.

Comunicados que antes já foram lidos à hora de maior audiência por ministros barbudos que sabem explicar a diferença que existe e subsiste entre nomeação pura e nomeação sem remuneração.

Textos de escuteiros ou JCPs, tanto faz, sobre os tempos livres e o melhor modo de transformar santanettes em caras rosadas da Golegã, após passagem fugaz pelo quartinho da menina mais escalabitana de Garrett.

Ensaios pesadões, guias turísticos e romances da directora da Xis.

quinta-feira, 5 de agosto de 2004

Mundo de ofuscações


Juan Lecuona

Em Agosto há uma ofuscação de mundos que são habituais. Um certo eclipse consentido. O que parece estar agora à mostra é a indústria do lúdico, mas os ludemas são os primeiros a reduzir-se ao fumo da excitação de que falava Proust:

(para Swann) “a presença de Odette dava àquela casa uma coisa que faltava em todas as outras em que era recebido: uma espécie de aparelho sensitivo, de rede nervosa que se ramificava por todas as peças e que lhe trazia ao coração constantes excitações.”

É a simulação da indiferença, a ofuscação falseada, ou o tosco eclipse desenhado no toldo da praia em jeito de um rudimentar teatro de sombras.
Ainda a ciência histórica
Carlos, nada me anima contra a história. Apenas sei que, enquanto ciência (tal com a entendemos hoje), ela é muito recente e o seu aspecto fundacional múltiplo assenta raízes numa racionalidade que vai de meados do século XVIII (Vico) a início de oitocentos (Hegel). A nova era moderna pós-iluminista recriou e recodificou tudo o que nos envolve incluindo, naturalmente, a nova ciência histórica (a ideia de que sempre existiu uma cientificidade histórica é coisa da escola primária do Estdo Novo).
De facto, no alvor da identidade moderna, a redescoberta e sistematização do passado, a começar pelas mais variadas teorias neo-joaquinitas que dividiram o tempo passado em idades, constituiu uma reiterada actividade do espírito. E porque cabia agora à modernidade reiniciar o tempo, havia antes que passar (urgentemente) a ordená-lo, por forma a definir tarefas, a traçar objectivos, a seleccionar corpus de análise e, por fim, a laurear esta actividade de pesquisa como sendo a própria ciência do tempo: a história. Em todos os cantos da Europa, desbrava-se, portanto, um incessante plano de cultos da memória, seja através de museus e arquivos; seja através da inquirição e escrita de ‘Histórias’ nacionais e universais (surge a visão romântica da História com H grande): de E. Gibbon (1737-1794) a A. Herculano (1810-1877) e, noutro plano, do Marquês de Condorcet (1743-1794) a J.Michelet (1798-1874), os grandes factos passados eram agora desocultados e colocados sob perspectivas adequadas, de modo a optimizarem uma produtiva reavalização do próprio presente. No final de doze anos de trabalho, o percursor E.Gibbon escrevia, em Lausanne, na derradeira página da sua imensa obra The History of The Decline and Fall of the Roman Empire (1776-1788):

“the attention will be excited by a History of the Decline and Fall of the Roman Empire; the greatest, perhaps, and most awful scene in the history of mankind. The various causes and progressive effets are connected with many of the events most interesting in human annals.”

Esta sede de verdade englobante, de grande narrativa e de recomeço, após uma definição axiológica dos próprios “anais” humanos, nem terá escapado à infância da fotografia. Foi por isso que o deputado Arago, ao apresentar ao parlamento francês um relatório onde dava conta da invenção de Daguerre (1839), referiu:

“ ... enquanto estas imagens vos são exibidas, qualquer um imaginará as extraordinárias vantagens que poderiam ter sido retiradas de um meio de reprodução tão exacto e tão rápido durante a expedição ao Egipto; qualquer um será abalado por esta reflexão, que se tivéssemos tido a fotografia em 1798, possuiríamos hoje imagens fiéis de alguns quadros emblemáticos, dos quais a cupidez dos árabes e o vandalismo de certos viajantes privaram para sempre o mundo do saber."

Eis como a imaginação poético-literária, a imaginação histórico-narrativa e a imaginação do assombramento fotográfico se aliaram para emprestar ao homem moderno, o mesmo que agora se sonhava igual a Deus (e do qual Nietzsche - e não só - tanto riu), a massa de que ele tanto precisava para moldar a sua nova e estriada identidade. Todas as ideologias modernas viriam a moldar a História a seu belo prazer para dissimular futuros radiosos e amiúde cercear liberdades. Outras vezes, a tal "nova ciência" foi e é um apetrecho essencial, embora, aqui e ali, com uma certa tendência para a arrogância em contexto multidisciplinar.