quinta-feira, 31 de Maio de 2007
Pingue-pongue
quarta-feira, 30 de Maio de 2007
Greve?

Escavações Contemporâneas - 19

LC
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Tempos e Clima (28/10/1999)
Em causa estão, mais uma vez, as ameaças colocadas pelo nosso modelo de civilização industrial e tecnocientífico, às próprias possibilidades de sobrevivência da humanidade, em condições de dignidade e qualidade mínimas, num horizonte histórico de longa duração.
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Há muitos elementos contraditórios e até patéticos neste tipo de reuniões, que se têm generalizado nas últimas duas décadas. Porém, não é todos os dias que centenas de pessoas -- desde burocratas da administração pública, passando por cientistas de reconhecido mérito, até representantes de organizações não governamentais ambientais, e de grupos de pressão ligados a sectores empresariais -- se reúnem em salas confortáveis para analisar relatórios científicos que apontam cenários de cataclismo cerrado, estendendo-se para além do ano 2100!
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No passado, o futuro pertencia a Deus e aos seus profetas, geralmente andrajosos e descalços. Hoje, o futuro sai em transparências coloridas de terminais informáticos, como resultado de simulações matemáticas de extrema complexidade.
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Contudo, o aspecto mais incómodo em todas estas grandes cimeiras, dedicadas ao candente problema das alterações climáticas, é a suspeita radical que nos assalta quando nos interrogamos sobre a questão chave da sua eficácia prática: será que daqui poderão sair resultados tangíveis e convincentes?
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As dúvidas e as proposições dos cépticos nesta matéria têm a seu favor um argumento muito importante: no dossier sobre o clima a assimetria, a clivagem entre o tempo da natureza e o tempo político atingem o seu limite extremo.
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Todos sabemos que em democracia o tempo político se mede por grandezas temporais que não ultrapassam um dígito, enquanto que a Natureza se avalia em décadas, séculos e milénios.
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As alterações climáticas, muito mais do que, por exemplo, a questão da depleção da camada de ozono, colidem generalizadamente com o nosso modo de vida quotidiano. Com o modo como moramos, como nos transportamos, como nos alimentamos, como nos divertimos, como trabalhamos...Para evitar que os nossos filhos e netos venham a habitar num planeta mais degradado e com menos opções para o exercício da sua liberdade precisaríamos de líderes políticos com visão estratégica e cidadãos corajosamente empenhados na vida pública. Precisaríamos de políticos e eleitores menos egoístas, com uma noção mais ecológica e menos economicista do tempo. Precisaríamos de uma concepção da vida que fosse estratégica e solidária, e não imediatista e hedonista.
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Qual será a direcção política que abdicará dos seus 4 anos de mandato para pensar nos interesses dos eleitores que ainda não nasceram? Qual será o cidadão que se importará autenticamente com a desgraça do seu próximo, exilado, contudo, na linha do futuro, que o egoísmo torna opaca e invisível?
Quem será capaz de quebrar a lei de bronze do tempo político, que em Bona centenas de pequenos actores se limitam a afagar?
terça-feira, 29 de Maio de 2007
A sociologia da barricada

Escavações Contemporâneas - 18

LC
(hoje: Fernando Ilharco)
As bases de dados, o multimédia, os satélites e as modernas telecomunicações estão a fazer da mass customization o terreno natural da competição. A capacidade de manipular uma imensidão de dados pode proporcionar conhecer os outros – inimigos, competidores, clientes, partners, etc. – melhor do que eles mesmo se conhecem a si próprios. O fim da guerra na Bósnia ilustra também este ponto. Os acordos de Dayton foram assinados porque os EUA demonstraram possuir uma superior capacidade de informação, nunca antes exibida por qualquer das partes – mapas do terreno a três dimensões, em realidade virtual, e a capacidade de mediante satélites e radares monitorizar detalhadamente e com precisão o cumprimento dos acordos. E, claro, a capacidade de colocar um míssil em qualquer parte do planeta qualquer instante.
A informação é a matéria-prima da estratégia. "Na sua essência, a estratégia não pode ser melhor do que a informação na qual é baseada", refere Jan Herring, ex-CIA, actual director da consultora "Futures Group" ("The Role of Intelligence in Formulating Strategy", "Journal of Business Strategy", 1994) . A guerra do Golfo em 1990 e a estratégia da operação Tempestade no Deserto são um exemplo para tornar claros os conceitos em causa. O general Schwarzkopf, para formular a sua estratégia e desenvolver o seu plano de batalha, dependia em grau elevado de informação sobre as forças armadas iraquianas – número e capacidade das armas e a sua disposição no terreno, etc. Uma vez iniciada a campanha, o general norte-americano passou a necessitar de informação em tempo-real sobre a resposta das forças inimigas, a fim de melhor ajustar a implementação dos seus planos. Por outro lado, Schwarzkopf criou propositadamente uma percepção, diferente da realidade na mente dos militares iraquianos, revelando-lhes o tipo de informação que ele – Schwarzkopf – queria que eles soubessem.
A Guerra do Golfo demonstrou um desequilibro de forças brutal. Mas essa desigualdade não estava nos homens, nos aviões, nos tanques ou nos mísseis. Tradicionalmente os EUA estariam em desvantagem. Como disse repetidamente Saddam, "não são de cá; são menos; e estão a atacar". De facto a grande vantagem dos americanos estava, como está, no próprio território dos EUA. Foi a partir de uma "cauda de tecnologia" que se espalhou por toda a América que a guerra do Golfo foi combatida.
A eficácia da estratégia está directamente relacionada com o grau de integração e a prontidão da informação disponível. "Isto é o sonho de um oficial de combate!", comentou um coronel dos Marines dos EUA, em Dezembro passado quando em exercícios na... Bolsa de mercadorias de Nova York ("Herald Tribune", 96/12/17).
Os novos guerreiros estão a ser criados nos sillicon valleys, nos campus universitários, onde intencionalmente se misturam escolas de tecnologia, de politica, de economia e de engenharia, nas redes planetárias de informação e nas garagens de start-ups da nova revolução, nos centros de investigação para o conhecimento das empresas globais, etc. Mas as surpresas não vão abandonar o futuro. A não-linearidade pode gerar todo o tipo mundo e o contrário. "Quanto mais conhecimento-intensivo são as acções militares, menos lineares de tornam; mais um pequeno input num lado qualquer pode neutralizar um enorme investimento" (Toffler, "Wired", Maio 92). "Demasiados especialistas vêm que nós (os EUA) estamos a ganhar! Mas eles utilizam as ferramentas da linearidade e o mundo actual não é linear. Aqueles que vão competir contra nós irão procurar meios assimétricos. Terão outro enquadramento do mundo" (Van Riper).
Toffler acrescenta, no texto que estamos a citar, que as actuais estruturas politicas e morais vão desaparecer. "Não há nada por mais remoto que seja que nos possa preparar para enfrentar exércitos equipados com armas de engenharia genética. Vai ser um mundo estranho". "É um mundo estranho", foram as palavras finais de Margaret Tatcher na última reunião a que presidiu do Governo inglês.
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Quintas - Bragança de Miranda
Sextas - Paulo Tunhas
Sábados – António Quadros (António M. Ferro, Org.)
segunda-feira, 28 de Maio de 2007
A Chave do Dia - 10

JMR
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(1) L Carmelo - “Quando as ideologias apareceram, o método foi simples: tirar a pele a toda a história humana e declarar que agora é que ia ser a sério. No entanto, não deixou de ser curioso como os tempos modernos se nos foram antes apresentando através da diversidade, do contraditório e da diferença. Actualmente, uma coisa chamada "consenso" está a transformar-se numa bactéria infecciosa cujo contágio é simples: acabar com a polémica ilimitada e propor um sorriso comedido que tudo e todos acabem por levar a sério. É assim o consenso, a nova ideologia que se dá, muitas vezes, a ares patológicos. Já tinham reparado?”
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(2) F Ilharco - “Os novos guerreiros estão a ser criados nos sillicon valleys, nos campus universitários, onde intencionalmente se misturam escolas de tecnologia, de politica, de economia e de engenharia, nas redes planetárias de informação e nas garagens de start-ups da nova revolução, nos centros de investigação para o conhecimento das empresas globais, etc.”
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Lembranças, MJE.
Pré-publicações - 31

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Isabel Freire, Fantasias Eróticas - Segredos das Mulheres Portuguesas, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2007 (Maio).
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Pré-publicação:
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Há 30 anos era frequente aparecerem mulheres com problemas de desejo ou de falta de sensibilidade, mas que faziam questão de honra em dizer que nunca se negavam. Além disso, muitas vezes nas entrelinhas percebia-se uma conflitualidade moral (quando começavam a sentir-se excitadas, entravam em conflito com elas próprias e bloqueavam o prazer). Actualmente as mulheres têm relações sexuais quando lhes apetece e se não lhes apetece recusam-se. São mais donas do seu corpo e do seu prazer», explica Francisco Allen Gomes.
Se as três fantasias que abrem o primeiro capítulo deste livro fossem figuras de estilo, seriam metáforas de emancipação sexual. No grande ecrã, já foram excelentes planos, na literatura, arrebatadas descrições e diálogos:
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– A procura do «sexo pelo sexo» com um prostituto, sem laços nem afectos, e portanto fora da esfera do «sagrado matrimónio» ou do compromisso estável;
– O prazer sexual na igreja, diante dos olhos de Deus, como recusa da ideia de pecado e da concepção reprodutiva do sexo.
A imaginação erótica destas mulheres recria portanto actos transgressores do ponto de vista cultural, social, religioso, todos eles passíveis de condenação (abuso sexual, profanação de local de culto e prostituição). O «mal» sobrepõe-se ao «bem», o prazer alimenta-se do crime, proibição e pecado.
Nas três fantasias, o parceiro é por norma desconhecido e o relacionamento fugaz, sem consequência nem compromisso. Estamos fora do plano emotivo, romântico, e os principais ingredientes do prazer erótico são a liberdade, ousadia, interdição e risco."
domingo, 27 de Maio de 2007
A Chave do Dia - 9

JMR
sábado, 26 de Maio de 2007
O Triunfo do Design

Escavações Contemporâneas - 17

LC
O sorriso do arquivo no tempo da rede
(hoje: António Quadros - Org. António M. Ferro)
"As caravelas já não partem deslumbradas a desvelar o Cabo. Não. O tempo é outro. Mas os pescadores portugueses continuam na praia a fixar com olhos estáticos o mar infindável e a viver e a lutar e a sofrer e a morrer o destino do mar. E na imaginação das crianças e dos adolescentes, no inconsciente dos adultos frustrados numa fixação à terra que lhes parece injusta e odiosa, a ideia da aventura, da viagem, do descobrimento palpita como uma promessa e como uma fascinação."
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António Quadros, «A Existência literária»
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Segundas - João Pereira Coutinho
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Quintas - Bragança de Miranda
Sextas - Paulo Tunhas
Sábados – António Quadros (António M. Ferro, Org.)
sexta-feira, 25 de Maio de 2007
Blogues e Meteoros - 32

A presença do design na nossa vida está a tornar-se na consecução da última utopia do século passado: fazer do presente um território habitável.
E o facto é que hoje vivemos definitivamente afastados do tempo em que tudo se investia a pensar num futuro perfeito, mas sempre adiado. Ou seja: hoje vivemos sobretudo imersos na quadratura infinita da rede e num limbo aberto onde confluem, cada vez mais, o público e o privado, a ficção e o real, o excesso de informação e o delírio global (é assim nos reality shows, nos media, nas metáforas políticas ou na publicidade). E tudo nos chega alinhado, recortado e enunciado pela mão (às vezes paradoxalmente invisível) do design: os jornais que lemos, os passeios que atravessamos, os sites que visitamos, os copos por onde bebemos, as viaturas que guiamos, as camisas que vestimos, os telemóveis onde segredamos, as torneiras que abrimos, os ciberjogos que sonhamos ou as janelas que fechamos.
Nada parece, pois, escapar a um mundo de figuras e formas que, para além de garantir a eficácia e o bem-estar, também nos conta histórias ou efabula em voz baixa (como faziam os mitos da Antiguidade). Neste palco do dia a dia, o design deixou de ser apenas um revestimento: o que ele agora nos promete é o milagre da transformação do mundo físico envolvente numa imensa aura onde o nosso corpo acabará por rever-se, como nunca aconteceu em toda a história humana. É como se o design se estivesse a converter, diante de todos nós, no primeiro hardware que é, ao mesmo tempo, um puro e ilimitado software.
O que antes, ao longo da recente história moderna e industrial, se limitava a ser uma simples companhia instrumental do presente, está hoje a constituir-se como um modo de o homem se cumprir, se realizar e, de algum modo, passe a alegoria, se salvar.
Esta quase ritualização dos objectos culturais que nos ordenam a vida e o sentido – à partida apenas ferramentas práticas e funcionais – é menos uma novidade e mais um reencontro. Lembremo-nos, por exemplo, dos báculos que apareciam inscritos em monumentos megalíticos e que, no seu tempo, eram, indiferenciadamente, objectos de culto e objectos de elementar pastoreio. Esta mistura já há muito que nos povoava a memória, mas hoje volta a correr-nos no sangue de um outro modo. Possivelmente como um navio sem velas nem mastros que decidiu submeter-se a uma súbita e fascinante ordem dos ventos.
O caos respira onde não há imagens que lhe dêem sentido. Quando se criam imagens, a voragem tranquiliza-se. Era assim com Heraclito, em Éfeso, e é assim hoje por todo o lado. Pela mão do design. A nova mão de Deus, depois de Maradona.
P.S. — Na última crónica, anunciei uma visita guiada aos blogues que se dedicam ao design. Esse texto já está escrito, mas submeterei a sua publicação – e eventual desenvolvimento – à espontaneidade com que a presente série se for desenvolvendo.
Escavações Contemporâneas - 16

LC
(hoje: Paulo Tunhas)
Não é preciso ir muito longe. Aqui há dez anos atrás, a pequena e média intelectualidade, que tinha gostado das côdeas de poder pós-revolucionário, adorava Khomeiny, admirava Mao e a China comunista e achava horrível e disparatado que pelas almas daquelas gentes vivendo sob o Império russo passasse algo como um vago desejo de democracia. Mais: aqui há dez anos atrás a pequena e média intelectualidade achava Sá-Carneiro e Freitas do Amaral liminarmente fascistas e tinha pelo Dr. Mário Soares — como costuma ainda ter, pensando que não — um íntimo e profundo desprezo, muito parecido com aquele que as pessoas infelizes têm pelas felizes. Sob este ponto de vista é difícil de esquecer um artigo absolutamente fascinante do Prof. Eduardo Lourenço, publicado por volta de 1977, suponho, e recolhido num livro intitulado «O Complexo de Marx» (título, diga-se de passagem, eminentemente equívoco atendendo ao seu conteúdo), em que se dizia — é citado de cor porque há coisas inesquecíveis — que Mário Soares não poderia nunca ser o Salvador Allende português, não por falta de coragem física e moral, mas por falta de convicção socialista. Esta pequena maravilha, que merece ser lida e relida para ilustração própria, era dita naquele tom superior, que o General Eanes divulgou na medida das suas possibilidades, de quem não duvida das suas convicções e lhes atribui o estatuto de predicado moral inefável. Uma esmerada colaboradora de uma revista recentemente publicada, e dirigida pelo Dr. Eduardo Lourenço, é de resto, a Dra. Edite Estrela. Ficam feitas as contas e fechado o círculo da convicção socialista.
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O que é sumamente misterioso nisto tudo, como de costume, é o tempo e o que se passa no tempo. A maioria absoluta das almas que juravam, esperançosas, por Khomeiny; para quem a China era uma espécie de Disneylândia revolucionária, paraíso terreal onde ambicionavam poder espraiar o seu indomável altruísmo; que achavam que as formas representativas da democracia burguesa eram uma solução pérfida e indecorosa para os polacos — como é que essas almas se dão com as imagens dos milhares e milhares e milhares de mortos do regime de Khomeiny e os episódios recentes com ele relacionados?; com os cinco mil mortos presumíveis em dia e meio de ocupação militar da praça Tiananmen; com os resultados das recentes eleições na Polónia, em que, o Solidariedade alcançou a totalidade dos lugares do Senado, exprimindo a vontade do povo através — deve-se sublinhar — do processo clássico das democracias «burguesas» e representativas? Como é que essas almas se dão com isso?
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A resposta, tão inacreditável que deve certamente revelar um grande segredo escondido nas profundidades do espírito humano, é: surpreendentemente bem. A boa-consciência dos pequenos e médios intelectuais de esquerda permanece intacta através dos tempos, sem possível ameaça de intranquilidade. Está tudo na linha da plácida descoberta de Vital Moreira sobre as dificuldades globais do marxismo-leninismo. Afinal estava tudo errado, mas a descoberta de um erro que é uma espécie de ilustração teórica do sangue de milhões — um erro a que Octavio Paz pôde um dia dar o nome de pecado — é vivida fora de qualquer tragédia e sem qualquer espécie de sensação de comprometimento pessoal.
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Porque é que isto é assim? Eliminada a hipótese improvável de tal se dever a um extraordinário poder civilizacional do Prof. Cavaco Silva, que teria baptizado os portugueses na água da democracia, limpando as suas almas de qualquer mácula, resta uma outra solução, não particularmente agradável mas substancialmente mais verosímil: é a de que os pequenos e médios intelectuais de esquerda não pensam, e, portanto, não podem viver como tragédia humana os seus pensamentos. Não estão ligados a eles e não se sentem por eles culpados. Os adeptos do comprometimento são do mais absoluto descomprometimento por relação às suas ideias.
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Isto manifesta-se nas mais comezinhas coisas. No outro dia, na televisão, Francisco Louçã, que a esquerda agraciou com uma misteriosa fama de inteligência e criatividade, inquirido sobre que Europa se deveria opor à Europa da actual CEE — quer dizer: respondendo à única pergunta realmente interessante que o jornalista (excepcionalmente benévolo, de resto) lhe poderia pôr — limitou-se a algumas tiradas de uma espantosa indigência sobre a solidariedade com os pacifistas das duas Alemanhas e com uns movimentos quaisquer de uns rapazes espanhóis. Por inacreditável que pareça, foi tudo. E este tudo, infelizmente, é simbólico da esquerda.
quinta-feira, 24 de Maio de 2007
Nosferatu

Um aviso

quarta-feira, 23 de Maio de 2007
A filosofia da filosofia

Embora em muitíssimos aspectos eu esteja nos antípodas de Mehdi Belhaj Kacem, acho imensa piada ao facto de o autor escrever filosofia sem ser propriamente um filósofo (i.e., sem ter formação académica na matéria). E reforço o meu agrado pela simples razão de que Kacem faz disso carreira, obra e até manifesto. A questão é interessante: as epistemologias foram-se impondo nos últimos séculos como arenas de extrema especialização (as linguagens das ciências reinventaram-se de modo cirúrgico). Este processo de exclusões mútuas tornou-se num tabu inquestionável. As excepções aparecem raras vezes através da chamada "divulgação de qualidade" (Damásio é disso um exemplo fulgurante). Só a literatura e alguns derivados das chamadas ciências sociais e humanas (geralmente considerados como menores ou especulativos – entre as para-ciências "psi" e o espírito "xis" o caminho é fecundo) é que extravasam esta arrumação que uma unanimidade radical testemunha ao jeito das velhas moralidades. A filosofia aparece como um eixo muito singular que atravessa o caudal das excepções e a voragem metódica e tradicional do rigor. Por vezes, citar autores que os filósofos reivindicam como sendo apenas da filosofia é ainda uma heresia. Aproveitando a descontraída boleia de Kacem, pus-me a imaginar o que podia ser o meu tratado de filosofia. Fiz um esquema numa A4 dobrada ao meio e percebi, de imediato, os dez temas que o organizariam (começaria sempre, capítulo a capítulo, por destacar a questão postulada e a tese a defender): Instantaneidade e absoluto, Deus e terrorismo, Liberdade, Expressões e rede, Design e utopia, Topoi e media, Ilusão e Metailusão, Patologia do consenso, Esquerda/Direita/Vazio e Causas diáfanas contemporâneas.
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(a propósito do artigo de Alexandra Lucas Coelho sobre Kacem, ontem publicado no Público: creio que uma boa transcrição fonética do Árabe, sem ser, portanto, a partir do Francês, daria "Mahdí" e não "Mehdi". Repito: creio eu...)
Pré-publicações - 30
elinguagem” (Amaral, 1991). Questão de método, atente-se na prescrição relativa à organicidade que para os seus textos o autor defende: “mas ou [o] levam inteiro com o centro no centro e armado à volta como um corpo vivo ou não levam nada, nem um fragmento” (Helder, idem, ibidem). Concebe-se, portanto, o texto como um “corpo vivo”, orgânica e totalitariamente fundado na linguagem que lhe dá forma, espelho e reflexo do seu centro. Admitida a importância da posição autoral sobre a integridade do discurso, observe-se a lucidez do leitor crítico: “Esta poesia é vital, não posso compreendê-la por meros actos de dissecação” (Magalhães, 1989). E é no próprio centro do poema que se colocam as questões para as quais tento aqui ensaiar uma correspondência: “Onde estão o corpo e a vida dele e a sua integridade? Onde, a solidão para escutar a solidão daquela voz?” (Helder, idem, ibidem). Trata--se precisamente de concentrar a atenção na “integridade” e singularidade de tal “voz”, a partir do estudo do conceito de escrita em Photomaton & Vox [particularmente no texto (em volta de)]. Tento aqui experimentar a especularidade inerente à linguagem, seguindo a hipótese apresentada por Helder: “eis o espelho, o mágico objecto do conhecimento, o objecto activo da criação do rosto” (Helder, “Poesia Toda”, A Phala, n.º 20, 1990: 4)."
Escavações Contemporâneas - 15

LC
O sorriso do arquivo no tempo da rede
O véu da violência sexual tem muitas cores. Começa, lentamente, a ser destapado. Em Portugal e no resto do mundo. Da violência doméstica aos escândalos de pedofilia em instituições tão respeitáveis como a Igreja Católica norte-americana.
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Para onde quer que nos voltemos nesse arco-íris da ignomínia é difícil não sentir sempre asco e repugnância. O velho preconceito do «entre marido e mulher não metas tu a colher», quebrou-se, e o espectáculo da «paz familiar» esconde, muitas vezes, um cenário de prepotência e terror.
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Mas o pior de tudo é o abuso sexual sobre crianças e adolescentes. Uma jovem, violada aos 17 anos, dizia para a televisão que duas semanas após a violação tentara o suicídio. Só depois dessa frustada tentativa fora capaz de denunciar o criminoso. Mas, um ano depois, confessava, com voz embargada, que todos os seus sonhos se tinham desfeito para sempre.
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Como se pode compensar alguém que aos 18 anos já não tem sonhos? Como se pode punir alguém que rouba a alma e a esperança a uma criança ou a um adolescente? O nosso Código Penal não é, certamente, o lugar onde encontraremos respostas para estas perguntas.
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Quintas - Bragança de Miranda
Sextas - Paulo Tunhas
Sábados – António Quadros (António M. Ferro, Org.)
terça-feira, 22 de Maio de 2007
O Triunfo do Design - II
Roma?

Escavações Contemporâneas - 14

LC
O sorriso do arquivo no tempo da rede
A Dissuasão da Informação (I) - 21/07/1997
O nuclear já tem sucessor. Para variar é a informação. Na politica internacional, a dissuasão baseada na capacidade de destruir os outros (nuclear) está a ser substituída pela capacidade de evitar que os outros nos destruam (informação).
Alvin Toffler avisa em várias das suas obras que "a forma como se faz a guerra reflecte a forma como se cria riqueza". Ou seja a tecnologia mais avançada de que cada grupo, região ou país dispõe é a utilizada para criar o futuro: gerar riqueza, manter o poder e elevar a dissuasão sobre os "diferentes".
A ameaça da recolha dos benefícios das novas tecnologias, e a capacidade para o fazer, ditou para já o fim de um império mundial: a União Soviética. A "guerra da estrelas" de Ronald Reagan foi o projecto que levou a URSS a assumir uma derrota estratégica. Na Islândia em Reyckiavick, em 1986, Gorbatchev despediu-se de Reagan dizendo "podia ter dito não". Era do projecto "guerra das estrelas" que estavam a falar. Esse projecto ilustra a nova natureza do poder e as características revolucionárias da nova tecnologia.
A "guerra das estrelas" visava tornar impossível a penetração de qualquer míssil no espaço aéreo dos EUA, um objectivo alcançado com tecnologias de informação. Um sistema de satélites, radares, etc. manteria em vigilância permanente os céus dos EUA, da URSS, e as respectivas bases de mísseis e mais umas quantas zonas criticas um pouco por todo o mundo. A tecnologia teria a capacidade de detectar todo e qualquer míssil que se dirigisse para os EUA, accionando automaticamente mecanismos de resposta (mísseis anti-misseis, "lasers" a partir do espaço, etc.). A ideia era boa e deitava por terra o pressuposto mais fundo da era nuclear: a doutrina da destruição mútua assegurada. Os EUA tinham competência e capacidade para a colocar em prática. A URSS não tinha.
Basta ver o que está a acontecer neste preciso momento no espaço. A América envia de Marte para a Internet as mais espantosas imagens sobre o planeta vermelho. No espaço, a MIR do ex-império vermelho está à beira de se tornar o tumulo dos seus cosmonautas, porque entre outras coisas, um deles "desligou a ficha errada e toda a nave ficou sem energia" !? ... Foram coisas como esta que desequilibraram o jogo. O decorrer do tempo faria – como fez – o resto.
O conceito e a capacidade mudaram o mundo. Este é ponto critico na utilização de toda a tecnologia. Mais do que o último grito da tecnologia, praticamente à disposição de todos, a derradeira vantagem está na forma como a utilizamos. Não se trata se uma questão de imaginação ou de inspiração, mas de transpiração, de treino, de inteligência e de tempo. O General Van Riper, dos Marines dos EUA, referiu em Abril passado num encontro do United States Institute for Peace, em Washington, que "o determinante é a importância dos conceitos subjacentes à tecnologia, bem como o contexto histórico e cultural em que a tecnologia é disponibilizada". Por exemplo "em 1939, todos tinham a tecnologia, mas os alemães tinham os conceitos. De facto, o exército alemão era mais pequeno do que a sua oposição, mas era dotado de superiores conceitos na utilização da tecnologia, o que lhes permitiu uma posição de superioridade". Atente-se na forma como os alemães organizaram o seu exército "à volta" do conceito do tanque (panzer), não se limitando a adicionar tanques ao anterior conceito de exército.
A Guerra do Golfo reflectiu de forma brutal o choque de duas civilizações tecnológicas. A dos modelos industriais, da quantidade, de massas e da força bruta (Iraque), e a dos modelos da nova tecnologia, da qualidade, do conhecimento, da precisão e do detalhe (EUA).
Pouco depois desse embate, o golpe pró-comunista na URSS falhou. E a informação esteve de novo no centro dos acontecimentos. A história é certamente muito longa e recheada de segredos, mas entre outras coisas é interessante referir uma conversa entre Peter Schwartz e Alvin Toffler, publicada na "Wired" há 4 anos. Referiu Schwartz: “Em 1987, em conversa com Vellakoff, conselheiro de Gorbatchev para a ciência, ele disse-me que a prioridade das prioridades era colocar o maior número possível de antenas de satélite por toda a União Soviética, para quando o "inevitável golpe" chegasse Moscovo não pudesse controlar o espectro radioeléctrico. Foi precisamente o que aconteceu. No dia do golpe, eles correram para a sede da televisão, mas já nada disso interessava. Toda a gente podia ter acesso à CNN!”
Em Belgrado, numa história cuja primeira parte terminou já este ano, sucedeu o mesmo. Como é possível manter uma manifestação anti-governamental, anti-militar, anti-policia na rua durante seis meses a fio? A resposta é esta: com a atenção da CNN e com a Internet! Ao fim de duas semanas de protestos nas ruas, Milosevic, que se recusava a aceitar os resultados das eleições locais, decidiu silenciar a rádio B92, que coordenava os manifestantes. Mas os B92s não se foram abaixo. Agarraram-se a um telefone (e na Jugoslávia há muitos ...), ligaram-se à Internet e continuaram a dizer o que queriam... para a Holanda! Aí, a BBC e a Voz da América reenviavam o sinal para a Sérvia. Melhor e mais barato! Tal é o lema da Mars Pathfinder e do século XXI!
Dos modelos político-económicos construídos sobre o pressuposto de que a informação relevante é difícil, morosa e cara de obter, estamos a passar modelos baseados no pressuposto inverso. Contudo o overload de informação exige estratégias complexas, capazes de cortar a direito na ambiguidade. "A questão decisiva quanto ao tipo e ao grau das ameaças, e a base da cooperação, é agora a capacidade de cortar a direito nessa ambiguidade" (Joseph Nye, Jr., William Owens, "America's Information Edge", "Foreign Affairs", Março/Abril, 96).
Segundas - João Pereira Coutinho
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Quintas - Bragança de Miranda
Sextas - Paulo Tunhas
Sábados – António Quadros (António M. Ferro, Org.)
Mini-entrevistas/Série II – 150

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Hélder Faustino Raimundo, 50 anos, professor no ensino superior (blogue Contrasenso)
- O que é que lhe diz a palavra "blogosfera"?
Já me disse coisas diferentes. Primeiro, uma surpresa de descoberta de um meio tão revolucionário quanto caótico. Depois, uma bola de neve de atracção e perigo relacional. Por fim, um instrumento complementar da informação e da comunicação. Um processo social como todos os outros, aliás.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Na verdade nenhum, em exclusividade. Os blogues funcionaram umas vezes como catalisadores, outras como complementos ou alternativas aos acontecimentos. Mas, muitas vezes, marcaram-me a agenda de pensamento e a emissão de opiniões.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Apetece-me dizer que me impuseram um comportamento mais virtual com a realidade: muitas horas no teclado e no ecrã obrigaram-me a olhar o mundo em antecipação. Mas nunca me retiraram da "rua". Contudo, reconheço que, ao mesmo tempo, me dotaram de uma competência de resposta mais premente.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Se olhar o problema do ponto de vista da liberdade moral não posso acreditar. Muita gente já disse, por aqui, as peias e os estereótipos que nos manipulam. Mas o ponto é outro: comparativamente aos media tradicionais a expressão editorial é, de longe, muito mais livre. E essa liberdade irá impor-se sobre os outros meios e transformá-los, não tenho dúvidas.
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Entrevistas anteriores (apenas a Série II): Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira, Leandro Gejfinbein, Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca, Tiago Mendes, Nuno Miguel Guedes, Miguel Vale de Almeida, Pedro Magalhães, Eduardo Nogueira Pinto, Teresa Castro (Tati), Rogério Santos, Lauro António, Isabela, Luis Mourão, bloggers do Escola de Lavores, Bernardo Pires de Lima, Pedro Fonseca, Luís Novaes Tito e Carlos Manuel Castro, João Aldeia, João Paulo Meneses, Américo de Sousa, Carlota, João Morgado Fernandes, José Pacheco Pereira, Pedro Sette Câmara, Rui Bebiano, António Balbino Caldeira, Madalena Palma, Carla Quevedo, Pedro Lomba, Luís Miguel Dias, Leonel Vicente, José Manuel Fonseca, Patrícia Gomes da Silva, Carlos do Carmo Carapinha, Ricardo Gross, Maria do Rosário Fardilha, Mostrengo Adamastor, Sérgio Lavos, Batukada, Fernando Venâncio, Luís Aguiar-Conraria, Luís M. Jorge, Pitucha, Gabriel Silva, Masson, João Caetano Dias, Ana Luísa Silva, Ana Silva, Ana Clotilde Correia (aka Margot), Tomás Vasques, Ticcia Patrícia Antoniete, Maria João Eloy, André Azevedo Alves, Sílvia Chueire, André Moura e Cunha, Helder Bastos, José Bandeira, João Espinho, Henrique Raposo, Jorge Vaz Nande, João Melo, Diogo Vaz Pinto, Alice Morgado e Sérgio dos Santos, Adolfo Mesquita Nunes, João Paulo Sousa, Pedro Ludgero, João Tunes, Miguel Cardina, Paula Cordeiro, Edgar, André Azevedo Alves e Inês Amaral, David Luz, Saboteur, João Miguel Almeida, O Impensado, Hugo Neves da Silva, Paula Capaz, João Pinto e Castro, Sandra Ferrás, Alberto Lyra, Carlos Araújo Alves e Luís António Martins dos Santos.
segunda-feira, 21 de Maio de 2007
A Chave do Dia - 8

JMR
Escavações Contemporâneas - 13

LC
O sorriso do arquivo no tempo da rede
Não é fácil ser um conservador. Tem as suas vantagens: interessados em viver o presente, deixamos o passado e o futuro para reaccionários e revolucionários de todas as cores e idades. Isto proporciona uma certa diversão, como dizia Mr. Bennet à filha Elizabeth em momento de inusitada confissão: rimos dos nossos vizinhos até ao dia em que eles se riem de nós. Mas depois alguém pede um manual para conhecer o ideário e o pânico instala-se. É como o noivo que no momento sacramental se esqueceu das alianças em casa.
Um conservador não tem manual. E grande parte da sua atitude assenta, precisamente, no ataque a qualquer manual. Caricatura, eu sei. Também li o meu Burke. O meu Disraeli. O meu Oakeshott, o meu Scruton. E criaturas menores, como Quintin Hogg ou o lendário Duque de Cambridge, que era menos reaccionário do que o pintam e menos conservador do que eu gosto. Mas quando me encostam entre a espada e a parede, dou por mim a pensar alto. A pensar longe. A pensar caro. E se os diamantes são os melhores amigos das mulheres, os relógios Patek Philippe são os melhores amigos dos conservadores.
Uma questão de preço? Por favor, não sejam filistinos: o dinheiro não é conversa de cavalheiros. E as linhas clássicas do relógio não encerram a discussão: um conservador não é peça de museu, como Che Guevara ou qualquer lunático que se preze. Falo de outras linhas. As promocionais. Duas frases que resumem quilos e quilos de filosofia dispersa. «You never actually own a Patek Philippe. You merely take care of it for the next generation». Precisamente. Não somos donos de. Tomamos apenas conta para. E, na imagem que acompanha o produto, pai e filho jogam xadrez num banco de jardim. Xeque-mate!
E xeque-mate porque em duas frases está a essência do que somos e não tanto do que pensamos. Sim, é possível dissertar longamente sobre as vantagens da tradição, da hierarquia, da autoridade. Perante gente civilizada, é até possível mergulhar na sabedoria do «preconceito», entendido sem preconceitos como a velha gaveta onde procuramos a foto com o rosto esquecido, ou quase, que então relembramos para sossego da alma. Gratos, muito gratos. Mas um conservador não se faz nem se desfaz. Acontece. Dizem que é doença. Talvez seja: a doença própria de quem vive o mundo sem procurar destruí-lo ou reconstruí-lo com os caprichos próprios de uma criança.
Não ser dono do mundo implica não ser dono dos nossos semelhantes. Implica não os manipular ou arrasar de acordo com a nossa própria vontade. Só um selvagem desmonta um Patek Philippe para saber como ele funciona. A um conservador bastará saber que o relógio funciona. E quando houver atrasos de um minuto, ou dois, ou três, o conservador não vai buscar um martelo. Prefere mãos cuidadas e prudentes, que acertam o parafuso em falta. Ou nem isso: um conservador tenderá a aceitar a imperfeição das coisas e a adaptar-se pacificamente a elas. Um minuto a menos significa um minuto a mais: de tolerância e concessão. Às onze e cinquenta e nove da noite, saberemos, enfim, que um novo dia começou. Se o relógio diz o contrário, nós sabemos que ele diz o tempo certo. E está certo.
Talvez seja pessimismo a mais. Para um conservador, será sempre pessimismo a menos. Porque qualquer conservador viverá a vida com a certeza da sua própria morte. Não que essa promessa final se converta em desistência final. Pelo contrário: é a promessa final que valoriza os entretantos. Mas nunca demasiado. A vaidade humana será motivo de riso porque em cada gesto haverá sempre uma caveira. A arrogância humana será motivo de temor porque em cada gesto haverá também outra caveira. Neste caso, a nossa. A vossa. A dos que ficaram para trás.
Mas nós continuamos. Não que exista um mapa, uma rota, um porto determinado que orienta a nossa navegação. Existe apenas a certeza do barco e a necessidade de o manter a flutuar. É pouco? É o suficiente. Para que um dia as águas que hoje cruzamos possam ser experimentadas pelos viajantes que acabarão por chegar.
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Quintas - Bragança de Miranda
Sextas - Paulo Tunhas
Sábados – António Quadros (António M. Ferro, Org.)
domingo, 20 de Maio de 2007
A Chave do Dia - 7

JMR
sábado, 19 de Maio de 2007
A Chave do Dia - 6

JMR
Escavações Contemporâneas - 12

LC
e
(…) Assim, a filosofia americana, opõe ao dualismo cartesiano, o naturalismo evolucionista; à substância, o acontecimento; à eternidade, a temporalidade, à contemplação, a acção; à intuição, a significação, aos elementos, os conjuntos; ao passado, o futuro; ao sistema, o método; à filosofia da torre de marfim, a filosofia em equipa, à filosofia do pensador, a filosofia do cidadão; à moral pessimista da metafísica do Ser, a moral optimista da filosofia da acção.
(…) O tipo de movimento preconizado pelo activismo pragmatista americano surge-nos alegoricamente (…) como um caminhar em floresta insondável, de clareira em clareira, sem ideia ou noção do que estará para além da floresta, concentrando-se todas as energias em atingir a próxima clareira, ainda que tal processo possa levar a uma marcha em círculos.
(…) a acção proposta(…) concentra-se na fabricação de objecto e exige como que uma coisificação(…) fora dos seus ambientes de trabalho, o espírito atrofia-se-lhes através de uma cultura vulgarizadora e medíocre. (…) afigura-se-nos que esta marcha é agora automática e procede por inércia; o seu crescimento é como o de uma bola de neve, rolando pela montanha abaixo. (…) Vive-se a folia do extrínseco, esquecem-se os preceitos do movimento do pensar.
António Quadros, «O Movimento do Homem»
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Quintas - Bragança de Miranda
Sextas - Paulo Tunhas
Sábados - António Quadros (org. António M. Ferro)
sexta-feira, 18 de Maio de 2007
Blogues e Meteoros - 31
Quando no final dos anos setenta, e sobretudo a partir da década seguinte, se começou a falar em pós-moderno — e em “pós-tudo” —, percebeu-se que um ciclo histórico se estava a finar. A pouco e pouco tornou-se óbvio que, entre a amnésia colectiva gerada pelo excesso de informação e o fim dos futuros “de ouro”, apenas ia sobrando o presente. E foi justamente a urgência em dar um novo sentido ao presente que acabou por dominar o pensamento filosófico das últimas décadas. Mas não só. Essa urgência também encontrou o seu símbolo, a sua forma e a sua adequação por excelência: o design.
O design deixou, portanto, de ser um simples molde da nossa cultura, ou o recorte “ecléctico” dos objectos públicos e privados que nos rodeiam, para passar a ser um modo de ver e fruir o mundo que reúne, no dia a dia, a eficácia, o conforto e a estética. Ao longo de séculos, o homem sonhou com o paraíso. É verdade que não o encontrou nem no céu nem na terra, mas, em vez desse sonho muitas vezes trágico, acabaria por reunir numa experiência única aquilo que o realiza em termos práticos (eficácia e conforto) e aquilo que o cumpre num plano que ressacralizou o vazio deixado pelos deuses (a arte e a estética).
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A Chave do Dia - 5

JMR
Há uma parte da vida que não tem pudor da sua natureza inevitavelmente patológica: o histórico das cadernetas prediais, a enganosa dança dos spreads, as vozes do call center (que invadem a privacidade), a ausência de rede e, claro, o modo como os monopólios (PT, EDP…) se fazem sentir na primeira pessoa de cada um de nós. O que vale é que hoje o Boletim Meteorológico concorda em género e em número com a realidade.
Escavações Contemporâneas - 11

LC
(hoje: Paulo Tunhas)
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«Mas, quando eles se impõem a lei de não falar senão das obras ainda quentes da forja, impõem-se uma outra, que é a de serem muito enfadonhos. Não se preocupam em criticar os livros de que fazem extractos, mesmo tendo alguma razão para isso; e, com efeito, qual é o homem suficientemente ousado para se criar dez ou doze inimigos todos os meses?»
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Estas palavras são, como se diz, actuais, pelo menos no que diz respeito ao nosso excelente país: eis um caso em que a verdade não é, efectivamente, nova. Tirando algumas criaturas excepcionais, que fazem sinceros esforços para perceberem porque é que gostam ou porque é que não gostam daquilo de que falam, a maioria declina qualquer interesse nesse género de desporto. Não é certamente por modéstia relativamente às limitações do seu gosto; não é, porque aquilo aparece sempre num tom definitivo que não deixa margem para dúvidas. É só puramente genial, pronto, e a inteligência do reconhecimento do génio é opinião bastante. De resto, a inteligência mede-se pela rapidez no reconhecimento dos génios, e há gente que bate extraordinários recordes. Na década passada, por exemplo, houve a caça aos génios alemães e austríacos: tudo gente jovem mas suficientemente madura para permitir o prazer de ser reconhecida. Disseram-se deles coisas que nunca antes foram ditas de Fielding, Sterne ou Dickens. Foi uma boa década.
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O problema, no fundo, é ecológico. Devia haver um limite, fixado por algum organismo competente, para o número de génios que cada jornalista literário poderia caçar por ano. Abrir-se-ia uma excepção para os génios existentes, digamos, até ao século dezoito (inclusive). Para estes, a autorização seria ilimitada. Mas para os recentes, as proibições seriam severas, com vista a protegê-los da ameaça da extinção. Cada jornalista literário teria direito a reconhecer apenas dois génios por ano, no caso de esses génios oscilarem entre os trinta e os cinquenta anos e terem publicado menos de cinco livros. A tolerância aumentaria (prudentemente) com a idade e o número de livros publicados. Assim, um génio de oitenta anos com aproximadamente quinze livros estaria praticamente ao alcance de todos os jornalistas literários médios. Claro que é preciso pensar em excepções. Os Drs. Prado Coelho e Mega Ferreira teriam direito a mais génios do que os outros. Compreende-se: são velhos caçadores e ensinaram muito. Um pouco arbitrariamente, talvez, seria de atribuir ao primeiro, por ano, um total de cinco génios frescos (quer dizer com apenas um livro, publicado menos de uma semana antes de ser referido); o segundo contaria também com o bónus de dois génios frescos. De qualquer modo, é um assunto a estudar.
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Mas os problemas do jornalismo literário em Portugal não se resolvem apenas com medidas ecológicas. Porque a falta de respeito não se limita à caça ao génio e ao dever do enfado a que se referia Montesquieu. Há uma falta de respeito mais recente que provém de uma atitude aparentemente oposta, carinhosamente auto-baptizada de irreverência. O exercício da crítica, nesta perspectiva, consiste em procurar por todos os processos demonstrar que o que se critica é infinitamente menos interessante do que quem critica. No meu tempo, chamava-se pura e simplesmente má-educação.
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E depois há a obrigação de ter graça, que é uma coisa muito misteriosa. À falta de respeito enfadonha opõe-se a falta de respeito pretensamente engraçada, e gasta-se imenso esforço nisso. Tanto num caso como no outro não se corre o risco verdadeiro de gostar ou de desgostar; e não se tem, certamente, graça. Porque a graça é, como toda a gente sabe, gratuita. E não sua. A crítica irreverente sua como o diabo. Tal com a crítica enfadonha, foge de todas as maneiras dessa coisa elementar de buscar razões e de as explicar. O medo de ser burro é a mais exemplar manifestação da incompreensão da arte e a graça não é filha da labuta.manifestação da incompreensão da arte e a graça não é filha da labuta. ee
Mas o que preocupava realmente Usbek, o persa que assinava em Paris a carta escrita por Montesquieu, não eram de facto as características do jornalismo literário parisiense do pincípio do século dezoito. O que o preocupava eram as notícias que os eunucos lhe enviavam sobre as ameaças da revolta no seu serralho. Guardadas as devidas proporções, eis uma verdade que também não é nova."
quinta-feira, 17 de Maio de 2007
A Chave do Dia - 4

JMR
quarta-feira, 16 de Maio de 2007
Vale tudo

Escavações Contemporâneas - 10

LC
O sorriso do arquivo no tempo da rede
2
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A política mudou radicalmente nas últimas duas décadas. Todos os partidos já entraram na era da ditadura da imagem. As campanhas partidárias em nada diferem do ‘marketing’ de qualquer produto. E como para qualquer produto, também o ciclo de vida dos políticos é cada vez mais curto.
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Ao exigir aos líderes que sejam os símbolos das virtudes que escasseiam na pátria, os partidos tornaram-se em máquinas devoradoras de homens. Num gesto endeusam os chefes, no gesto seguinte sacodem-nos para o esquecimento.
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António Guterres é já uma sombra. Durão Barroso brilha agora sob as luzes da ribalta. Mas, mais à frente, trabalha, sem cessar, a trituradora, que o espera. A última palavra será sempre sua."
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Quintas - Bragança de Miranda
Sextas - Paulo Tunhas
terça-feira, 15 de Maio de 2007
A Chave do Dia - 3

JMR
Roma - 1

Escavações Contemporâneas - 9

LC
"A violência extrema e a sua ameaça visando fragilizar, destruir ou chantagear os poderes instituídos está a tomar novas formas. O traço apolítico e o anonimato ganham terreno. Veja-se os casos do gás “sarin” em Tóquio, da bomba dos Jogos Olímpicos em Atlanta, do terror da bomba em Oklahoma, do atentado em Dahran, do avião da TWA 800 (?), etc. No Peru, os Tupac Amaru obedecem a um outro modelo: um misto de terrorismo e de guerrilha, sem alta tecnologia e com Kalashnikovs e reféns. Um modelo de riscos cada vez maiores e por isso de sucesso difícil nos países mais avançados.
Ao novo complexo anónimo-apolítico do terrorismo, os poderes conhecidos e os desconhecidos, os grandes e os pequenos, sentir-se-ão cada vez mais inclinados a adicionar a nova tecnologia, as televisões por satélite e a world wide web. Um agente dos serviços secretos dos EUA, não identificado, - citado por Walter Laqueur, director do CSIS (um think-tank americano), na "Foreign Affairs" de Outubro de 1996 - referiu que "com 1 bilião de dólares e 20 hackers bem treinados conseguia "desligar" os Estados Unidos da América". Laqueur comentava que "o que ele consegue fazer, também um terrorista pode fazê-lo".
A defesa, a polícia, os bancos, o comércio, os transportes e as telecomunicações, a ciência e uma enorme percentagem das actividades governamentais e privadas dependem das tecnologias electrónicas. Laqueur refere que se trata de áreas vitais das sociedades modernas que podem ser alvo de ataques isolados ou concertados de piratas informáticos ou de info-terroristas, deixando cidades ou países inteiros "sem funcionar". "Desligado" ou "sem funcionar" podem significar realidades distintas no dia a dia das populações. Têm no entanto um traço comum: o caos.
A infraestrutura da informação das sociedades avançadas, ou seja a sua riqueza, códigos e conhecimento, pode sintetizar-se em cinco grandes áreas: as redes telefónicas e informáticas governamentais, militares e de entidades públicas; as redes de telecomunicações comerciais e dos media; os sistemas de informação que regulam e gerem os transportes (trânsito automóvel, aviação, comboios); o sistema de informação financeiro; os sistemas que gerem a produção e a distribuição da energia.
Todos estes sistemas e se relacionam electronicamente numa gigantesca e complexa teia de dados e de símbolos, alicerçando o funcionamento das sociedades contemporâneas. O mau funcionamento de um sistema pode provocar reacções em cadeia imprevisíveis. "Se retirarmos uma componente de um destes sistemas, todos os outros serão imediatamente afectados. Se desligarmos partes de dois ou mais destes sistemas, veremos o inicio de uma catástrofe" (Winn Schartau "Information Warfare: Chaos on the Electronic Superhighway" na "Wired" de Setembro 96).
Os ciber-terroristas poderão desligar, apagar, sabotar ou confundir "software" que gere sistemas vitais para o funcionamento das sociedades avançadas. O terreno da batalha são as redes de comunicação, os satélites e os computadores. As armas são os vírus, a sabotagem da programação, a falsificação dos dados, as "bombas lógicas de software", as quais tornam ilógico tudo por onde passam gerando maus funcionamentos em cadeia. Dos erros de "software" para os acidentes "reais" e o pânico generalizado podem passar meia-dúzia de segundos.
O que aconteceria numa grande cidade se na hora de ponta todos os semáforos ficassem vermelhos? Ou verdes? Como reagiria um país se as contas bancárias de todos os seus cidadãos ficassem a zero? Ou crescessem 1000 vezes? O que faríamos se o multibanco nos passasse todas as notas que tinha em stock na sequência no nosso pedido para levantar cinco contos? E se os telefones todos de uma cidade começassem a tocar ao mesmo tempo e não parassem ? E se deixassem de tocar de vez?
São cenários para o que os especialistas da "information warfare" chamam as "guerras da 4ª geração", em que os adversários dos Estados serão grupos extremistas, cartéis da droga, organizações internacionais do crime, grupos revolucionários extremistas, fundamentalistas vários, loucos sem causa e muitos outros; “trata-se de inimigos sem um centro de gravidade militar identificável” (Bernard de Bressy, presidente da Athéna, França, "Le Monde", Setembro de 1996).
Em 1995 os computadores do Departamento de Defesa dos EUA deverão ter sido atacados 250.000 vezes, segundo informações do próprio Pentágono. Nos mercados globais, em que as empresas evitam admitir vulnerabilidades deste tipo, conhecem-se alguns episódios. Fala-se de "estranhas" alianças entre serviços secretos e multinacionais. O FBI admitiu recentemente ter estado envolvido na investigação de um ciber-ataque que havia vitimado o Citibank em 1994. Oficialmente nunca houve qualquer confirmação, mas foi comentado que do banco norte-americano haviam desaparecido 400.000 dólares... “limpos por hakers russos”.
Quase 30 anos depois do Departamento de Defesa dos EUA ter criado um sistema de redes de comunicação invulnerável à guerra nuclear – o embrião do que é hoje a Internet – a rede global dos computadores e telecomunicações será no futuro a principal ameaça à segurança das sociedades mais avançadas do mundo. Os centros de investigação das guerras da informação e de formação das novas elites do conhecimento e do poder ganham fatias crescentes dos recursos das sociedades ocidentais.
Os desafios e as ameaças do ciber-terrorismo e da ciber-guerra já passaram há muito a sofisticação dos argumentos da melhor "ficção cientifica". Novos modelos e novas tecnologias são desenvolvidas em instituições militares e cientificas por todo o mundo – nos serviços secretos, nas forças armadas, em multinacionais, em locais que nem sonhamos, e por gente que não fazemos ideia quem seja."
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Quintas - Bragança de Miranda
Sextas - Paulo Tunhas
segunda-feira, 14 de Maio de 2007
A Chave do Dia - 2

Escavações Contemporâneas - 8

LC
(hoje: João Pereira Coutinho)
"No passado domingo, provavelmente pela décima vez, dei por mim a rever As Pontes de Madison County, a obra-prima do melodrama que Clint Eastwood - quem mais? - realizou há uns anos, a partir de um romance intragável de Robert James Waller. E, uma vez mais, dei por mim a indagar se a história entre Robert e Francesca acaba mesmo como eu sei, e como vocês sabem, que ela realmente acaba. A natureza absurda desta dúvida absurda deve-se, claro, à famosa sequência final: quando Francesca apenas tem de abrir a porta do carro, abandonar a vida que tem e partir com o homem que ama. Quando assisto ao momento agónico da escolha, filmado com uma inteligência e uma sensibilidade que simplesmente me esmagam, eu sei, como vocês sabem, que uma vida e uma família, sobretudo na América rural da década de 60, não se apaga de um momento para o outro. Mas é certeza que dura pouco. O gesto de Francesca, ao renunciar ao amor e, por via disso, ao mortificar-se para sempre, oferece um dos momentos mais terrivelmente sacrificiais do cinema moderno. Pela sua violência, sim. E pela sua silenciosa e tão anónima tragédia. Não, eu não gostaria de um final feliz. Eu gostaria, tão-só, de fundir a realidade com a ficção. E, num gesto de misericórdia, de inocência e de fraqueza, mergulhar a mão na tela e abrir a porta do carro para que o filme terminasse como eu sei, e como vocês sabem, que ele talvez termine um dia. Quando eu passar novamente pelas pontes de Madison County."
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Quintas - Bragança de Miranda
Sextas - Paulo Tunhas
A Chave do Dia - 1

Mini-entrevistas/Série II – 149

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Nome: Luís António Martins dos Santos, Docente universitário (Departamento de Ciências da Comunicação – U. Minho), 39 anos.
Falar da Blogosfera já equivalerá, neste momento, a falar de ‘imprensa’ ou de ‘edição livreira’, por exemplo. Ou seja, se falarmos desse imenso espaço (o Technorati diz que já segue uns milhões) de edição pessoal como uma entidade una não passamos, certamente, de generalizações.
Esse lugar em que co-existem blogs, podcasts e wikis (para referir apenas os formatos mais populares) é tão imenso e tão variado que sinto dificuldade em encontrar uma só imagem para o descrever. Diria que as várias blogosferas são novos espaços de interacção social com particularidades; umas emanando directamente do formato – como um certa cultura de valorização do novo, uma predominância de um tipo especial de escrita (curta, dinâmica e com referências externas), uma facilidade enorme de disseminação de informações (Links, trackbacks, feeds de rss) – outras resultantes, sobretudo, da percepção de que estaremos perante espaços absolutamente distintos – a existência de regras de ‘presença’ e de relacionamento fluidas e a relativa desvalorização do ‘estatuto social físico’, por exemplo.
Creio que, no caso particular dos blogs (e não tanto no caso das salas de chat), o discurso sobre a alter-existência, sobre a duplicidade de registos (o eu físico e o eu virtual) não colhe. Pelo menos não colhe para as blogosferas que conheço. As existências ‘blogosféricas’ com as quais mais contacto são bem reais e, no mais das vezes, indistintas (na essência) das existências ‘off-line’ dos autores.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Com franqueza, ‘apenas através dos blogs’, não me recordo de nenhum de forma muito explícita. Mas isto acontece, parece-me, porque no meu ‘bloglines’ não tenho uma pasta especial para blogs e um outra para feeds de órgãos de informação. Está tudo misturado e a separação é feita pelos temas.
Há, porém, assuntos que foram despoletados na blogosfera e que segui com atenção, sendo que a sua presença nos ditos media tradicionais foi consideravelmente mais reduzida. Lembro-me, por exemplo, da recente polémica sobre a ‘net neutrality’.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Os blogs são, para mim, em simultâneo, espaço de recolha de sugestões, espaço de anotações e espaço de debate.São um universo de estímulos, um lugar de inquietude permanente. E isso – acho – é espaço vital para um curioso obsessivo como creio ser.
Aprendi muito nestes três anos que levo de interacção mais directa com os blogs e creio que, nesse particular, a minha ‘conta corrente’ vai sempre estar negativa.
Foi através dos blogs que conheci muitas pessoas com interesses semelhantes aos meus e que com elas partilhei algumas dúvidas. Foi, ainda, através dos blogs que conheci muitas pessoas pelas quais fui surpreendido.
Os blogs afastaram-me da televisão…e também isso vejo como um desenvolvimento positivo.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Não será nem mais nem menos do que todas as outras, se considerarmos (como eu faço) que ‘editorialmente livre’ é coisa
indissociável de ‘editorialmente responsável’.
Se esse for o nosso entendimento, aplicam-se todas as regras conhecidas (as legais e as do bom senso) sem grandes diferenças. E isso deixa-nos suficientemente livres para criar, assinalar, coleccionar, debater ou expor. Tudo, de uma forma mais simples e barata do que no passado.
A blogosfera não resolve problemas, não altera equilíbrios e não existe como espaço neutro (higienizado, se quisermos). Ela é, ao mesmo tempo, motor e reflexo e, nisso, importa passivos e activos de outros ambientes. É, portanto, tão restritiva e tão livre quanto os enquadramentos (e as pessoas) que participam, naquele momento, na sua construção.
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Entrevistas anteriores (apenas a Série II): Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira, Leandro Gejfinbein, Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca, Tiago Mendes, Nuno Miguel Guedes, Miguel Vale de Almeida, Pedro Magalhães, Eduardo Nogueira Pinto, Teresa Castro (Tati), Rogério Santos, Lauro António, Isabela, Luis Mourão, bloggers do Escola de Lavores, Bernardo Pires de Lima, Pedro Fonseca, Luís Novaes Tito e Carlos Manuel Castro, João Aldeia, João Paulo Meneses, Américo de Sousa, Carlota, João Morgado Fernandes, José Pacheco Pereira, Pedro Sette Câmara, Rui Bebiano, António Balbino Caldeira, Madalena Palma, Carla Quevedo, Pedro Lomba, Luís Miguel Dias, Leonel Vicente, José Manuel Fonseca, Patrícia Gomes da Silva, Carlos do Carmo Carapinha, Ricardo Gross, Maria do Rosário Fardilha, Mostrengo Adamastor, Sérgio Lavos, Batukada, Fernando Venâncio, Luís Aguiar-Conraria, Luís M. Jorge, Pitucha, Gabriel Silva, Masson, João Caetano Dias, Ana Luísa Silva, Ana Silva, Ana Clotilde Correia (aka Margot), Tomás Vasques, Ticcia Patrícia Antoniete, Maria João Eloy, André Azevedo Alves, Sílvia Chueire, André Moura e Cunha, Helder Bastos, José Bandeira, João Espinho, Henrique Raposo, Jorge Vaz Nande, João Melo, Diogo Vaz Pinto, Alice Morgado e Sérgio dos Santos, Adolfo Mesquita Nunes, João Paulo Sousa, Pedro Ludgero, João Tunes, Miguel Cardina, Paula Cordeiro, Edgar, André Azevedo Alves e Inês Amaral, David Luz, Saboteur, João Miguel Almeida, O Impensado, Hugo Neves da Silva, Paula Capaz, João Pinto e Castro, Sandra Ferrás, Alberto Lyra e Carlos Araújo Alves.
domingo, 13 de Maio de 2007
Quando blogar é ficção apetecida - 3
Extractos de posts de natureza ficcional a que apetece criar princípio e fim, ou tão-só desfrutar o pousio em media res.
Um convidado apresentou a novidade a mim e aos demais alunos: tratava-se de uma reportagem online sobre “esportes radicais” construída a partir de vídeos interligados.
Nós, alunos, clicávamos dentro do vídeo (na imagem de um desportista, por exemplo) e éramos deslocados para outro vídeo (uma entrevista com o tal desportista, para este exemplo).
Achámos a experiência estimulante, verdade. Mas o fato é que, depois disso, foi somente ocasionalmente que ouvi falar deste tipo de construção: o hipervídeo." somente ocasionealmente que ouvi falar deste tipo de construção: o hiperv
sábado, 12 de Maio de 2007
New European Laws

Blogues e Meteoros - 30

Não consigo conjecturar. Não faço a mais pequena ideia. Mas parece-me que o tom de análise é sempre o tom mais agastado, mais sujeito a erosão, mais mortificado. E também me parece que o tom do discurso político é sempre uma ferida aberta pela contingência e pelo imediato. Sobrarão, talvez, as pastilhas elásticas de Mourinho, os tiques espontâneos de Pedro Tochas ou as loucuras de Jardim.
sexta-feira, 11 de Maio de 2007
Escavações Contemporâneas - 7

O sorriso do arquivo no tempo da rede
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(O Primeiro de Janeiro, 14 de Outubro de 1990.
Terminou recentemente, ao modo exemplar do balão estourado, o debate mais ou menos público sobre o projecto de programa de Filosofia para o ensino dito secundário. O processo do balão estourado governa-se por regras simples. Primeiro, arranja-se alguém com fôlego suficiente para encher o balão; depois, é fatal como o destino, quem enche o balão exorbita do fôlego e fica com o nariz em situação perigosa; finalmente, numa atitude ao mesmo tempo caridosa e malévola (a natureza humana é dada a estes paradoxos), um espinho, tornado invisível pelo balão demasiado inchado, surge de repente e estoura tudo. O divertimento tem como consequência o não ter praticamente consequências, excepto uns orgulhos feridos, uns ódios amestrados e umas vaidades recompostas. A substância que estava dentro do balão, a natureza do espinho e as razões que motivaram tão grácil duelo caem no esquecimento a velocidade prodigiosa, na pressuposição ousada de alguma vez alguém as ter sequer suspeitado. Passada uma semana, é necessário um verdadeiro talento arqueológico para as imaginar.
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Em segundo lugar, modernité oblige, o projecto de programa descurava (como certamente o seu substituto irá fazer) qualquer perspectiva histórica. Alguém deveria explicar a alguém que grande parte dos alunos dos liceus portugueses não fazem a mais remota ideia se a fundação da nacionalidade portuguesa é anterior ou posterior à invenção da salsicha enlatada ou às Demoiselles d'Avignon, e isto não por qualquer tara congénita ou motivos semelhantes, mas porque, pura e simplesmente, os programas liceais estão estruturados de modo a que qualquer curiosidade em matérias desse teor se desvaneça à primeira aula. O único programa de Filosofia decente seria aquele que, não descuidando elucidações conceptuais e cruzamentos com outras disciplinas, indicasse sobretudo um (mesmo que discutível) fio histórico entre as doutrinas. Os adolescentes, ainda que principalmente interessados em dramas que julgam sem qualquer possível relação com os dos seus antepassados e em furores e melancolias amorosas, são capazes de maravilhamento pela História. Não têm culpa nenhuma de lhes ensinarem coisas decididas por gente que vive na ressaca de historicismos, ou que se comporta como tal. Não têm culpa que o respeito e o encantamento pela História pareça pecado mortal aos olhos de quem escolhe o que vai aparecer nos manuais que vão utilizar.
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Em terceiro e último e rápido lugar, o projecto rejeitado sofria de uma desproporção essencial, fruto da falta de respeito anteriormente referida. Por muito importantes — e actuais, como se diz — que as questões postas pela tradição analítica anglo-saxónica sejam, elas só ganham o seu pleno sentido contra o pano de fundo de tradições anteriores. Quem quer que tenha estudado em Inglaterra (onde, de resto, não se ensina Filosofia no «secundário») sabe perfeitamente que é assim. Ora Duns Escoto, Ockham e Pascal (para escolher um trio variado) não são respeitados neste programa. O programa de Manuel Maria Carrilho — cujas virtudes aqui omito, já que não pretendo fazer dele uma apreciação exaustiva — é de um novo-riquismo filosófico patético. Exceptuando poucas áreas — as da Filosofia Política, por exemplo —, incha de modernidade. E estoura. É um mistério como pode alguém com dois dedos de cabeça cair numa coisa destas. Quase que nem precisava do espinho para rebentar. O bom senso deve ser a coisa pior distribuída do mundo.
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Mas o espinho, nesta edificante história, estava lá. Arrebitou-se em reuniões que misturavam gente mais ou menos séria e honesta, gente que mais ou menos procurava defender os seus lugares e as respectivas incompetências, e gente que mais ou menos tem fé em Deus ou no curso da História e acha a concordância com essas fés a pedra de toque da verdade. É o que se chama um espinho de respeito. Tanto mais que, ao que se diz, por detrás das «Associações de Pais», que eram, por assim dizer, o «espinho visível», altíssimos e espirituais poderes manobravam, orientando o curso do mundo. E o Ministério foi obrigado a renegar o promissor e espevitado filhote.
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Resta saber o que vai agora acontecer. Na mais plena boa vontade, e sem lugares ou fés para defender, talvez valha a pena fazer um aviso modesto e muito geral. Vale para todos os programas de todas as disciplinas, desde Filosofia a Matemática. Consiste na elucidação seguinte: as mais exigentes, as mais edificantes, as mais atentas reformas hão-de sempre revelar-se de uma total inconsequência enquanto o ensino do Português for a vergonha que se sabe que é. Particularmente na Filosofia, enquanto os alunos chegarem ao décimo ano do liceu desconhecendo completamente qualquer regra gramatical; enquanto o sujeito e o predicado continuarem, nos testes dos alunos, a formar frases-Frankenstein; enquanto cada palavra, da mais simples à mais complexa, for um enigma resolvido a martelo — não há nada a fazer. Esqueçam-se, por favor, do programa de Filosofia e dos outros todos. Olhem para o de Português. Percebam que se no primeiro ano do ciclo um aluno passa o tempo todo a ser esclarecido sobre a natureza do «signo», não pode nunca jamais em tempo algum fazer a mínima ideia do que é a gramática; sobretudo se, passado o tempo escolar obrigatório, vai sachar os campos dos pais. Percebam que se procurarem remediar essas coisas, os professores de Filosofia (e os outros todos), mesmo ignaros e mal pagos, vão ter maior sucesso na sua delicada e brutal tarefa. Percebam que o que se passa nos inumeráveis liceus deste país é, antes de tudo o mais, a dramática tentativa de administração de conhecimentos vários sem um meio eficaz (a língua portuguesa) de transmissão. Percebam que isto é a única coisa urgente a resolver. Tentem perceber. Mas se não perceberem, pelo amor do Céu, não façam programa nenhum.
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Ou então, bem vistas as coisas, façam. Desde pelo menos 1975, sexta-feira 11 de Julho, dia em que o Diário da República, lª série, nº 158, regista a aprovação, pelo Conselho da Revolução, do Decreto-Lei nº 363/75, sobre as bases programáticas para a reforma do ensino superior, até aos nossos dias, em que o Eng. Roberto Carneiro lança, perante a passividade geral, uma coisa obscena chamada «Escola Cultural», tudo é possível. Das universidades do Conselho da Revolução, «lugares de trabalho efectivo de professores e estudantes, lugares em que o ócio, o oportunismo, a indisciplina e outras formas condenáveis de individualismo» são «denunciadas como contra-revolucionárias e definitivamente banidas» até à «Escola Cultural» do Engº Carneiro, que tem como principais objectivos «promover a capacidade de distinguir entre o ter e o ser e de preferir o ser ao ter», «criar condições de satisfação e felicidade aos actores do drama escolar» e fomentar o aparecimento de «professores culturais» (sic), com o «diâmetro» superior ao dos professores «curriculares», o que muda é apenas o estilo da parvoíce, não o seu universal fulgor. Que mal pode vir ao mundo, nestas condições, de um programa de Filosofia mal feito, incompreensível para professores e alunos, enviesado, pouco criterioso e disparatado? Que mal pode suscitar o singelo facto de a esmagadora maioria dos alunos não aprender gramática portuguesa no liceu? Nenhum. Graças a Deus, nenhum. Qualquer coisa manifestamente serve.
e
Morreu o programa? Viva o programa!
quinta-feira, 10 de Maio de 2007
Folhetim - 15
51, AVENUE D´IÉNA
por Almeida Faria

15
Entrei a seguir na livraria, onde folheei e comprei o livro do Herbert. Decidido a flanar sem destino, demorei-me diante do Deux Magots observando um jongleur de boulevard disfarçado de explorador, com binóculos e chapéu colonial, que ora fingia buscar ao longe um oásis e escrevinhava num diário de viagem, ora desdobrava um mapa em cima do tejadilho dos automóveis que paravam no semáforo e que, quando o sinal verde voltava, desatavam a buzinar porque o funâmbulo não arredava pé nem dava mostras de deixar de analisar o mapa. O público da esplanada ria desocupado e, no fim do espectáculo, pagava recebendo em troca uma foto do falso ou verdadeiro aventureiro que a carimbava nas costas, assim autenticando a sua efígie de celebridade do género fugaz.
Para não ter que me dobrar a meter-me num táxi, vim de metro até à avenue Kléber e apeei-me na estação em frente ao Majestic. Virei à avenue des Portugais e, pela rue Jean Giraudoux, depressa desemboquei na avenue d'Iéna. Chegando ao número cinquenta e um, a minha falta de confiança na técnica fez-me pensar com pavor no código da porta. Sem nenhuma lógica receei o pior, ainda que o fecho funcionasse afinal sem problemas. Os problemas vieram mais tarde, depois de me despir e, em calções de pijama por causa do calor, me deitar em cima da cama lendo o livro recém-comprado.
Terei sido desviado do meu dia tranquilo pelo estudo acerca de Torrentius, de cuja vida se sabe mais que dos seus quadros? Há descrições de alguns deles, embora, por muito que se somem substantivos e adjectivos e todo o arsenal dos dicionários, jamais as palavras nos tragam o que num instante a mente recebe da imagem. Este Torrentius terá sido rosa-cruz, perjuro e debochado, um S. João Baptista do Marquês de Sade, acusado e perseguido, preso, torturado e destruído pelo puritanismo calvinista. Natureza-Morta com Brida, o seu único quadro conhecido ou sobrevivo, provável alegoria da temperança, da áurea mediocridade e do domínio sobre os instintos – tudo o que lhe faltou em vida –, está em Amsterdão no Rijksmuseum. Existe algum elo oculto entre a tormentosa vida de Torrentius e os acontecimentos que me levaram à presença do antigo proprietário desta casa? Alguém, além de mim, o viu no terceiro andar?
Ou conteria a assiette Nobel um desses filtros mágicos que provocam fantasias e nos desaparafusam o juízo? E as noites de hoje, de amanhã e depois, como serão? Se ouvir passos, ponho tampões nos ouvidos e não ligo. O truque serviu para resistir às sereias de Ulisses; também funcionará contra um fantasma. Terão os astros enviado o reconstrutor desta casa só para me forçar a meditar sobre a vanitas inerente a toda a arte? Se ao menos a série dos meus desenhos se equilibrasse entre a justa medida dos mestres – a brida de Van de Beeck – e a liberdade sem açaimo, o pensamento sem mordaça, a rédea solta, a desmedida! Mas não estou seguro disso e desespero até do título: As Lágrimas de Eros soa-me a patético. Agora é tarde. O pior é que arrefeci lá em cima e nem dois soníferos me põem a dormir. Não há meio de aquecer, o que é muito bem feito – para aprender a não andar em tronco nu num palacete destes.
FIM
Pré-publicações - 29
eDom Quixote Contado Às Crianças por Rosa Navarro Durán com ilustrações de Francesc Rovira, Campo das Letras, Porto, 2007 (2ª edição).
e
Pré-publicação:
e
Dizem uns que se chamava «Quijada» ou «Quesada» e outros «Quijana». Mas isto pouco interessa à nossa história. Passava o tempo a ler livros de cavalaria, até ao ponto de deixar de caçar. Já só lhe interessava ler essas histórias apaixonantes.
quarta-feira, 9 de Maio de 2007
Novas de hoje

e
Entretanto, pode ler hoje aqui no Miniscente:
- Pré-publicação do romance O QUE ENTRA NOS LIVROS de António Manuel Venda.
- Penúltimo episódio de VANITAS - 51, AVENUE D´IÉNA de Almeida Faria.
- A rubrica “Escavações Contemporâneas”, hoje assinada por Viriato Soromenho Marques.
Pré-publicações - 28
António Manuel Venda, O QUE ENTRA NOS LIVROS, Ambar, Lisboa, 2007.
Dei uma volta pelo monte. As agulhas dos arqueiros do vento frio não paravam de me acertar. Passei perto dos cães, que já estavam a dormir, os três em cima das mantas que de dia carregavam entre os dentes para se exibirem. Só um dos gatos apareceu, o branco, rebolando-se junto de mim. Os restantes três deviam andar na caça, ou em disputas no montado com alguma gineta. Voltei para casa e com a tenaz afastei os troncos que ardiam na lareira, para que as chamas fossem morrendo. Se piasse uma coruja àquela hora não seria de admirar. Esperei um pouco, mas não piou nenhuma. Vi o gato branco a passar pelo parapeito de uma das janelas, aos saltos, como se fosse com pressa em direcção a alguma coisa, talvez juntar-se aos outros na contenda com a gineta. Sim, podia ser isso, se houvesse mesmo gineta, e contenda. Um dos cães ladrou, o mais novo, mas calou-se logo a seguir; se calhar tinha sentido algum intruso por perto, um javali, ou um texugo, ou simplesmente um rato a aventurar-se por um monte onde havia gatos, ou um ouriço-cacheiro. Entrei no quarto, com a luz ténue de uma lâmpada colocada junto ao chão a permitir-me andar sem tropeções.
*****
– Caro colega, procurava um título?
– De um livro, suponho! – atirou o outro, com um sorrisinho que normalmente seria sonoro mas que naquela ocasião se ficou por um movimento da boca.
O senhor Sapinho Júnior disse que sim. E acrescentou um «obviamente» que se preocupou em destacar na resposta com uma pronúncia das sílabas ainda mais cuidada do que lhe era habitual. O dono da livraria ficou na expectativa, até que o senhor Sapinho Júnior lhe virou as costas, metendo-se novamente nas procuras. Passaram uns segundos, até que mesmo de costas atirou ao colega:
– António Manuel Venda. O nome, colega, diz-lhe alguma coisa?
– Autor? – perguntou o outro.
– O romance «O Medo Longe de Ti». Editora Temas e Debates.
O homem repetiu tudo para a funcionária, a quem tinha captado o olhar, como se aquilo fosse um jogo de passa-palavra. Enquanto ela se embrenhava nos registos informáticos, ele chegou-se ainda mais perto do senhor Sapinho Júnior e disse-lhe:
– Na Sapinho Livros não têm a obra, presumo…
– Ora exactamente – confirmou o senhor Sapinho Júnior. – E pretendo adquiri-la.
*****
Estava com o carro a uns dois metros dele. Com o motor desligado. Abri a porta e procurei no chão uma pedra pequena, coisa que não foi difícil de encontrar. Apanhei-a e fechei a porta, e logo a seguir abri o vidro e atirei a pedra para perto do pequeno mocho. Ele não se mexeu, mas os seus olhos estavam muito abertos, e tinham vida, neles eu percebia que existia vida. Podia ser mesmo um vigilante."
Folhetim - 14
51, AVENUE D´IÉNA
por Almeida Faria

14
«Talvez esteja a aborrecê-lo. Se a arquitectura dos negócios não é o seu forte, daqui a pouco adormece sentado. Antes que isso aconteça, agradeço a sua benevolência. Amanhã serei eu a escutá-lo. É pouco falador? Contar-lhe-ei então como funciona a alegada eternidade, onde tudo se passa em esferas infinitas cujos centros estão em todo o lado e cujos perímetros, que nas circunferências se chamam comprimentos, não estão em lado nenhum. São esferas de matéria transparente, girando num perfeito isolamento em tudo oposto à vossa barulheira contínua. Esferas não tão afastadas da Terra e barreiras não tão intransponíveis quanto o presumem os vivos. Nós, sombras de sombras, andamos muito perto das vossas existências meteóricas. Mas basta, desculpe se me alonguei. Obrigado por hoje. Boa noite.»
Não me estendeu a mão, cujo contacto não seria dos mais cálidos. Fechei a porta monumental e, às escuras no átrio, a minha perturbação era tal que não encontrei o interruptor iluminado. Avançando na penumbra, desci a escadaria a custo. No segundo piso as lâmpadas ficaram acesas, ou por prática da casa ou só por minha causa, e foi-me fácil alcançar o meu quarto. Numa ingratidão indesculpável, após o luxo do terceiro andar achei um tanto serviçal este quarto de criada, apesar de renovado e com banho privativo. Os dedos tremiam-me, os dentes batiam-me enquanto me fechava à chave. Perdido o nexo na cadeia dos factos, passei em revista o dia sem perceber em que momento o real descarrilara. Ter-me-ia o reino do entendimento abandonado quando deixei o Museu d'Orsay? Fui ao Café des Lettres, cinquenta e três rue de Verneuil, experimentar uma assiette Nobel à base de salmão, arenque e tosta Skagen coberta de camarões com molho de aneto ou luzendro, e trouxe a ementa para servir de amuleto a um amigo que, na sua vaidade das vaidades, todos os anos anseia receber o cheque e a glória desse prémio.
(continua)
Próximo episódio: “O público da esplanada ria desocupado e, no fim do espectáculo, pagava recebendo em troca uma foto do falso ou verdadeiro aventureiro que a carimbava nas costas, assim autenticando a sua efígie de celebridade do género fugaz.”
Escavações Contemporâneas - 6

LC
(hoje: Viriato Soromenho Marques*)
"No passado dia 7 completaram-se 50 anos sobre o desaparecimento físico de Sebastião da Gama (1924-1952).
e
Sebastião da Gama foi um meteoro na nossa literatura. A sua morte prematura aos 27 anos não o impediu de publicar em vida quatro livros, a que se seguiram outras obras pela mão de personalidades como Hernâni Cidade ou David Mourão Ferreira. Na sua curta existência, a Serra da Arrábida ocupa um lugar absolutamente central. No plano poético, a Serra-Mãe (1945) é a perfeita celebração de uma montanha que representava para o poeta uma espécie de símbolo e ponte com o destino, a transcendência e a divindade.
e
Mas o poeta da Arrábida foi também um educador nato. Alguém que no magistério educativo juntava os princípios do amor e da responsabilidade. Recordo-me dos olhos brilhantes, como alguns dos seus ex-alunos me deram testemunho da força luminosa e do sortilégio de bondade que irradiavam da sua personalidade ímpar.
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Na sua poesia, Sebastião da Gama atingiu o coração das coisas, e soube enfrentar com coragem os grandes desafios da vida e da morte. Foi um meteoro que ascendeu à categoria de estrela. Uma estrela solitária, que dispensa constelações, como tudo o que é verdadeiramente grande."
terça-feira, 8 de Maio de 2007
Em jeito de índice

-Estreia de Fernando Ilharco na rubrica "Escavações Contemporâneas".
-Edição do antepenúltimo episódio de VANITAS - 51, AVENUE D´IÉNA de Almeida Faria.
A partir de amanhã, inicia-se no blogue Folhetins e Novelas a publicação de dois novos folhetins da autoria, respectivamente, de Fernando Monteiro e de Luís Graça.
Pré-publicações - 27
e"Nora sentiu o aperto no lado esquerdo da nuca. Agora acontecia com frequência. E não pôde deixar de pensar que tinha sido preciso chegar aos 50 anos para ficar dependente de inibidores de enzima. Olhou para o relógio e viu que tinha uma hora pela frente. O motorista vinha às oito. Largou o relatório, enterrou-se no sofá e semicerrou os olhos. Sabia-lhe bem estar ali, os braços perdidos na seda puída, com a luz de Abril coada pela buganvília. Afinal, comprara a casa por causa dela. Virada a poente, a parede envidraçada garantia devassa a todo o comprimento. Mas ela tinha apostado no avanço da trepadeira. O toldo listrado ainda lá estava mas já ninguém se lembrava dele. Acima de tudo, Nora gostava do instante em que o reflexo dourado das lombadas era toda a luz à sua volta. Nesse lapso de pura magia olhava a correnteza dos livros, o jarrão com as aráceas, o pé esguio do candeeiro de marfim que o pai trouxera da viagem a Moçambique, as molduras de prata com retratos da família e, no canto esquerdo, o brilho dos puxadores de latão das portadas viradas ao jardim. Tinha de fixar esse instante antes que desaparecesse. A escuridão engolia a sala num ápice, e mesmo a parede de vidro dava a ver os verdes a enegrecer. Era nesse preciso momento que Teddy (um smoke inglês de pêlo curto) se espreguiçava e partia. O gato tinha lugar cativo no cadeirão chippendale e nunca se refizera da partida de Martim, o filho de Nora. O mais que fez foi esperar três dias. Assim que intuiu o carácter definitivo da mudança, urinou sem complacência na porta do quarto do dono. Passava a ser o macho da casa. Foi nesse dia que Nora ouviu os berros. E o baque. Receando o pior, subiu as escadas com alvoroço. Percebeu tudo quando viu o rosto afogueado da criada e o rabo grosso de Teddy.
Não teve remédio.
— Vá arrumar as suas coisas, Isaura. Daqui a dez minutos deixo-lhe o cheque na cozinha. Não dê nunca o meu nome como referência, ver-me-ia obrigada a ser desagradável.
A rapariga não queria acreditar. Tartamudeou, bateu no avental, barafustou, rompeu a chorar. Chorava convulsivamente, a cara opada, feita um borrão vermelho. Nora achou repugnante de ver, mas foi inflexível. Isaura partiu a rosnar impropérios, ameaças veladas, o homem dela era ucraniano, e nunca se sabe, nunca se sabe do que um ucraniano de maus fígados é capaz. Teddy seguiu o melodrama à distância. A partir daquele dia ignorou os criados. Nunca mais voltou ao primeiro andar.
Martim vivia noutra casa há praticamente três anos. Os amigos da mãe achavam natural que um rapaz da sua idade, independente, que vivera seis anos em Inglaterra, escolhesse um canto seu. Volta não volta perguntavam por namoradas.
A parcimónia de Nora era lendária.
— Não faço ideia.
Dizia aquilo num tom que não admitia réplica.
A verdade é que lidava mal com o problema. Andaria o filho pelos 15 anos quando lhe disse que queria levar com ele o Tó nas férias do Carnaval. Ela achou bem. Eram amigos, andavam os dois nos Salesianos, e o Tó, embora arisco, seria bem recebido na casa da Curia. Tendo nascido ambos, Martim e o Tó, no mesmo dia e praticamente à mesma hora, o marido de Nora, num acesso de liberalismo, garantira ao Sequeira, o motorista, que os rapazes estudariam no mesmo colégio.
— Pago eu!
E honrou o compromisso até ao dia em que o Tó, então com 16 anos, desapareceu sem razão aparente da vida dos pais e da família Moncada.
O bilhete continuava lá em casa porque ela o tinha pedido ao motorista e não o devolveu:
e
Não se ralem comigo. A vida que eu quero aí não dá. Salesianos, muito bacano, e depois? Recepcionista do Estoril-Sol à custa de cunha da família Moncada... Empregado no casino? Não quero. O pai dê um abraço ao senhor engenheiro. A mãe diga ao Martim que não me esqueço dele. Nunca. Ele percebe. Dou notícias. Beijos, Tó.
e
Na tarde em que o leu, Nora gelou. Tinha gravada na memória a imagem de Martim na cama com o filho do motorista. A casa da Curia só tinha camas de casal, e as férias de Verão, tal como as do Carnaval e da Páscoa, impunham protocolos próprios. Embora fossem cinco, os quartos da casa não eram grandes. Anos houve em que o Grande Hotel foi uma extensão natural do núcleo familiar. Naquele dia, Nora julgava-os entretidos na vila. Seriam seis da tarde quando foi ao quarto à procura de uma revista extraviada. E então viu. Completamente nus, a dormirem profundamente, o radiador aceso em cima do tapete, muito próximo da cama, lençóis e cobertores atirados para trás, a perna esquerda do Tó atravessada nas costas do filho. Toda ela abanava, mas obrigou-se a olhar, a custo sustendo a respiração. Depois fechou a porta. À noite pretextou uma enxaqueca e pediu que lhe servissem o jantar no quarto. O marido nunca soube. Era preciso evitar confusões, perguntas embaraçosas, recriminações mútuas, os mexericos que um regresso intempestivo provocaria, sabe-se lá com que consequências para o motorista. Todos se interrogariam: o marido, os pais, os sogros, a irmã, os amigos, os outros empregados.
Quando as férias acabaram, tudo voltou à rotina. Nora desdobrou-se em estratégias para dificultar o convívio dos rapazes. Matriculou o filho no Instituto Italiano, impôs aulas de judo nas noites que sobravam e arranjou um explicador de matemática que só tinha vaga ao sábado à tarde e morava em Algés. Ao mesmo tempo que achava simpática a ideia do judo, o marido aprovou o cuidado com a matemática. A cultura italiana deixou-o indiferente.
— Esse explicador é mesmo bom? É o melhor? Não havia outro mais perto?
No dia seguinte pediu os contactos do professor do Passos Manuel.
— O Tó também vai. E para o judo também.
Nora não queria acreditar no que ouvia, sentia-se metida num pesadelo. Três vezes por semana eles iam e vinham do clube de judo sem que ela conseguisse mexer um dedo. Para a Rua do Salitre, ao menos para aí, Martim ia sozinho, mas nem por um momento lhe passou pela cabeça que o súbito interesse do filho pelo dolce stil nuovo pudesse ter alguma coisa a ver com os penetrantes argumentos do jovem mestre Carlo Sifreddi.
Uma noite, Martim chegou bastante mais tarde do que era costume.
— Estivemos a ver os frescos do primeiro andar. O Sifreddi tem a mania dos detalhes. Sabe tudo.
Curioso, Nora não se lembrava de ter visto frescos no palacete Braancamp Freire, mas também só lá fora ouvir conferências, não tinha sequer a certeza de conhecer o jardim.
No dia em que soube da fuga do Tó ficou sem saber o que pensar. Teve pena, sinceramente teve, do Sequeira e da Laurinda, atónitos, de olhar vazio, pendurados numa infinitude de perguntas sem resposta. Para ela, era pequeno consolo pensar que as coisas podiam mudar. Com efeito, não mudaram.
Naquele momento não sabia o que mais a incomodava, se o aperto na nuca ou a perspectiva do jantar. E o comprimido que não fazia efeito! Mas ainda tinha uma hora à sua frente."
Escavações Contemporâneas - 5

LC
e
"Do Golfo !?… Não tenho "pendentes" no Golfo... quem é que me quer falar do Golfo? Porque não vai para a bicha como os outros...."
No caos que envolve o fecho dos noticiários, entre ecrãs e mais ecrãs, numa torrente de decisões, o “falcão” colocou a chamada nos auscultadores.
- … fala o movimento para a libertação do Sul ... exigimos que nos coloquem de imediato no ar... têm 60 segundos…
A história mais ambígua, mais mal contada e mais decisiva de sempre estava prestes a começar.
Nesse momento numa outra linha, o Pentágono solicitava que a chamada fosse colocada no ar. O “falcão” pressentia que algo estava para acontecer. Num segundo tudo mudou: de uma noite sem história para a maior crise de sempre. Enquanto chamava o Bill e o Manolo, os coordenadores da noite, o “falcão” disparou o spot “something fast”. Nunca havia sido usado, mas desde há uns anos estava pronto a ir para o ar. Sob o indicativo “breaking news”, e um fundo azul do planeta suspenso no espaço, a vermelho destacava-se o subtítulo “something…”
A confusão no estúdio era imensa. As chamadas não paravam e os acontecimentos sucediam-se vertiginosamente. Na linha 9 a chamada misteriosa aguardava. O sistema telefónico indicava tratar-se de uma chamada de um telefone móvel por satélite, algures na região do Golfo Pérsico/Médio Oriente.
- ... é uma brincadeira idiota, vamos avançar com a peça sobre o México ... - referiu Bill, prontamente interrompido por Manolo. Tinha passado um minuto e a Casa Branca estava em linha pressionando para que colocarem a chamada no ar: “vão colocar no ar a chamada dos tipos. Deixem-nos falar à vontade... tentem mantê-los a falar o mais tempo possível... esta linha fica aberta para nós...”
O “falcão” colocou de novo a 9 nos auscultadores e preparou-se para a colocar em emissão. “… estamos prontos…”, disse ele.
A emissão avançou... “CNN breaking news... something… vamos colocar no ar uma chamada telefónica feita em directo... a partir do Golfo Pérsico...”
Durante alguns segundos parecia o vento e o mar, cortados por sinais electrónicos.
- “... em nome dos povos explorados do Sul... exigimos aos fascistas do Ocidente que cumpram três condições: terminem para sempre as transmissões de televisão por satélite para o hemisfério Sul; libertem os nossos irmãos prisioneiros e escravos na Europa, na América e na Ásia; abandonem em definitivo todos os territórios ocupados no Médio Oriente, na América, em África e na Ásia... têm 24 horas... não pretendemos negociar coisa alguma... se falharem, o vosso novo ano começará como nunca pensaram ser possível... três cidades ocidentais serão atingidas por mísseis nucleares... dentro de 30 minutos queremos ver os primeiros sinais de boa vontade da vossa parte...”
Enquanto isso, no Pentágono o gabinete de choque denominado "a derradeira chantagem" ouvia a chamada. Washington estava ao corrente. Há semanas que os satélites espiões registavam os fluxos de dados que entravam e saíam de um pequeno barco no Golfo Pérsico. Tratava-se de um grupo extremista, sem ligações politicas de peso, praticamente isolado e seguramente sem capacidade de lançar mísseis nucleares. No entanto, todos os cuidados eram poucos. Chantagem é chantagem e o que se passou nunca chegou a ser inteiramente esclarecido.
A NATO garantiu a segurança das cidades ocidentais. Os movimentos mais ou menos radicais, mas com “curriculum” demarcaram-se do golpe. Fontes não identificadas da Defesa dos EUA referiram “não poder garantir que o grupo extremista não tivesse material nuclear”, chamando recorrentemente a atenção para os perigos do seu manuseamento. Por todo o mundo populações inteiras avaliavam os mais variados boatos. O mais persistente de todos identificava como centro geográfico da chantagem uma pequena aldeia nas fronteiras da Europa e da Ásia. Uma aldeia cuja população havia partido à medida que outros protagonistas iam chegando. Era ali que estavam instaladas as rampas dos mísseis, “que afinal existiam”.
As declarações, os telefonemas e o “bluff” prosseguiram durante 36 horas nas televisões internacionais. A meio do segundo dia de crise aguda, uma enorme explosão varreu a remota aldeia. Os comunicados oficiais referiram que o grupo extremista detinha de facto um engenho nuclear, o qual havia explodido quando o haviam tentado lançar. No entanto fora do circuito dos media internacionais outra história corria: um míssil de enorme potência, lançado de um submarino, apagara a aldeia do mapa.
As populações mantinham-se confusas e assustadas. Dali a dias, por todo o mundo, grupos às centenas comandados por “vigilantes” concluíam que a única forma de escaparem aos mísseis dos inimigos ou dos amigos era não terem terroristas por perto. Denunciaram-nos e expulsaram-nos. Quem tinha um nome relacionado com algo suspeito teve que mudar de vida. A bem ou a mal. O terrorismo com causa e com nome tinha chegado ao fim. Outra história estava apenas no começo.
Folhetim - 13
51, AVENUE D´IÉNA
por Almeida Faria

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«Ainda que me irrite a arte actual, o título da sua exposição agrada-me, lembra-me as emoções e dramalhões dos vivos. Que alívio ter passado já por isso! Amanhã de manhã, como não há cá ninguém aos sábados, vou ao vestíbulo dar uma vista de olhos a esses seus mistérios da morte e de Diónisos. Gostei do cartaz, e gosto de ver pintura à luz crepuscular da tarde ou da madrugada. Não me agradeça, não o faço por obrigação; faço-o pelo mesmo motivo que me levou a coleccionar as minhas pinturas, esculturas, azulejos, jóias, baixelas, tapeçarias, tudo que estava aqui. Notou que me refiro a elas como me referiria a minha mulher, a minha filha? Não a meu filho, que para mim deixou de existir. Compreende a minha vontade de juntar sob este mesmo tecto as minhas obras, por amor delas, não por vaidade? O Walter Scott, o Victor Hugo e outros possessos pela vaidade é que precisaram de casarões à sua imagem. À Maison Visionnée Habitant Visionnaire. Só um vaidoso escreve frases destas. Hugo, evidentemente. Em mil novecentos e dezanove, no ano da mais monstruosa matança de arménios, comprei o torso de Hugo esculpido por Rodin em mármore branco, colocado a três quartos e virando um pouco a cabeça para nos olhar de frente. Desde aí associei Hugo ao massacre. Esquisitices, não ligue. Como não posso aspirar à criação artística, tento viver no halo dela. Sem sofrer, ao contrário dos artistas, que têm fama de nunca se darem por satisfeitos. O senhor é desses? Ainda bem. A não ser que o diga para me convencer ou para se convencer de que é artista. Depois de ver os seus quadros decido. Se a insatisfação fosse critério, também eu seria artista, pois nunca me satisfiz com o que tive. Já agora, se me permite, confesso-lhe o seguinte. Nos anos vinte, quando um descendente de Mallarmé cedeu ao Louvre o retrato do célebre simbolista por Manet – aquele em que ele assenta a mão meditativa sobre um caderno aberto enquanto o fumo do charuto levemente se eleva, e que se inspira no Baudelaire de Courbet –, meteu-se-me na cabeça arranjar qualquer dos restantes retratos do poeta, um dos mais retratados que conheço. Foi muito retratado por Whistler para quem posou vezes sem conta, e por Munch e Gauguin, porque Mallarmé os recebia todas as terças-feiras no seu salão da rue de Rome e lhes chamava os seus terça-feiristas. Desisti de vir a ter um retrato de Mallarmé ao ver que não adiantava continuar procurando, mas desforrei-me com a Palas Ateneia, não assinada nem datada, embora seguramente de Rembrandt. Comprei-a ao governo soviético num lote de cinco obras, entre elas A Lição de Música, também conhecida por Dama e Cavalheiro Tocando, de Gerard ter Borch. Só que, para me assegurar da não-concorrência do meu intermediário Wildenstein, combinei que eu ficava com o Rembrandt e lhe cedia as quatro restantes. Cumpri com o meu rigor habitual, que me soube a meia derrota pela perda daquele óptimo Ter Borch.
(continua)
Próximo episódio: “Numa ingratidão indesculpável, após o luxo do terceiro andar achei um tanto serviçal este quarto de criada, apesar de renovado e com banho privativo. Os dedos tremiam-me, os dentes batiam-me enquanto me fechava à chave.”
segunda-feira, 7 de Maio de 2007
Folhetim - 12
51, AVENUE D´IÉNA
por Almeida Faria

Escavações Contemporâneas - 4

LC
(hoje: João Pereira Coutinho*)
Eu li The Secret Agent numa altura de certa inocência política e até moral. Vivia-se a queda do Muro, o optimismo do fim da história. E o 11 de Setembro ainda pairava longe. A obra de Conrad era um policial negro sobre um atentado falhado, um crime conjugal e um suicídio inesperado. Tudo muito convencional. Então o livro ficou a dormitar na estante e quando voltava a Conrad, voltava às obras filosoficamente maiores. Como Heart of Darkness, uma machadada eloquente nas certezas virtuosas da «fé» iluminista. Ou como The Shadow-Line, novela aparentemente menor sobre a linha imperceptível que cruzamos na viagem pessoal rumo à maturidade.
Por causa de Dalrymple, e da obra de Updike, regressei a The Secret Agent. Soprei o pó. Li. Reli. E fui anotando, página a página, a presciência assustadora do autor, que em 1906 escrevia sobre o mundo de 2006.
Enredo: Adolf Verloc (curioso nome: Adolf) é casado com Winnie, mais nova e mais inocente do que ele. O casal vive por cima de uma loja esquálida numa rua esquálida de Londres, na companhia da mãe de Winnie e do irmão de Winnie, Stevie, um adolescente retardado (não é pleonasmo; o rapaz é clinicamente retardado). E se todas as famílias infelizes são infelizes à sua maneira, a infelicidade que Verloc trará para dentro de portas será, literalmente, o seu próprio fim: ao recrutar Stevie, o adolescente (e um inocente), para um atentado terrorista ao Observatório de Greenwich, Verloc destrói o último elo que o ligava à humanidade. Destrói e destrói-se aos olhos de Winnie.
A obra de Conrad está historicamente correcta. Em 1894, uma tentativa falhada ao Observatório era um sinal de que as actividades anarquistas e terroristas seriam um problema sério para o futuro da Europa. Conrad percebeu o sinal e, como sempre acontece, recebeu assobios fartos dos seus contemporâneos mais optimistas. A obra era «demasiado sórdida para ser trágica e demasiado repulsiva para ser patética», escreveu-se. Em cartas ou diários, o próprio autor questionava seriamente se a publicação do livro fora um gesto sensato. Estas dúvidas acabariam por cessar poucos anos depois: quando um membro da espécie assassinava o arquiduque Franz Ferdinand em Sarajevo. A Europa mergulhava, e mergulhava euforicamente, na matança das trincheiras.
Ler The Secret Agent, no eterno retorno de hoje, é revisitar a mais brilhante visão sobre a mentalidade de um terrorista. Dalrymple sublinha a essência dessa mentalidade: o tédio existencial profundo de quem recusa participar na vida, no seu incerto cortejo de vitórias ou fracassos e nas exigências de disciplina, sacrifício ou sentido moral que a define. Concordo, sim; concordo e cito: «ele era uma vítima da descrença filosófica em qualquer tipo de esforço humano», escreve Conrad sobre Verloc. É o niilismo de Verloc que o convida à violência: como se houvesse na violência uma promessa de redenção. E não deixa de ser singular como o «ennui» venenoso e destrutivo de Verloc também se encontra nos terroristas que Conrad prenunciou. Lawrence Wright, no recente The Looming Power: Al Qaeda’s Road to 9/11, é primoroso ao explicar a atracção do jihadismo para jovens muçulmanos, sobretudo sauditas, que encontram em versões radicais do Islão uma fuga ao puritanismo tradicional do credo doméstico. Exactamente como Verloc, filho de um pregador cristão e radical, «um homem superiormente confiante nos privilégios das suas certezas». A melhor forma de derrotar o dogma é pela criação de um dogma que o derrote.
E a violência? Dirige-se a quem, ou a quê? Nos terroristas de Conrad, dirige-se aos símbolos maiores do seu tempo. «O fetiche de hoje não está na realeza ou na religião», afirma um dos comparsas de Verloc. «O fetiche de hoje está na ciência». Matar um rei ou um presidente é um acto convencional. Atacar uma igreja pode ser confundido com uma atitude espiritual. O radicalismo do terror deve atacar aquilo que os contemporâneos mais prezam. Na Inglaterra eduardiana de Conrad, a ciência era a manifestação suprema do progresso. Cem anos depois, o que mais prezamos é a normalidade «burguesa», alguns dirão «capitalista», das nossas vidas urbanas. Torres de negócios onde fazemos negócios. Transportes públicos onde nos deslocamos em público. Habitualmente.
Os terroristas de Conrad regressaram sob novas roupagens. E a única forma de entender a besta é saber do que a besta gasta. Conrad sabia. Sabia que os herdeiros da «fé» iluminista estavam errados ao acreditar que os homens matam porque a corrupção da sociedade os obriga a isso. E sabia também que a ignorância ou a pobreza não explicam a escolha pelo mal – uma escolha tantas vezes consciente e autónoma. Ouvir o coração das trevas é regressar à natureza prévia onde ele bate. E a única natureza que interessa, ontem como hoje, é a humana."
domingo, 6 de Maio de 2007
Sinais da noite eleitoral

Folhetim - 11
51, AVENUE D´IÉNA
por Almeida Faria

11
Vencidos pelo peso do sono, os meus olhos estavam já meio fechados quando estas interrogações me caíram em cima e me obrigaram a levantar as pálpebras murmurando uns "nãos" de cortesia que o meu anfitrião decerto nem ouviu.
Próximo episódio: “Dizia Perse que eu seria escritor, se insistisse na escrita. Lisonjeava-me enquanto seu mecenas, mas é verdade que li imenso.”
sábado, 5 de Maio de 2007
Blogues e Meteoros - 29

Por razões essencialmente académicas, viajei durante alguns anos dentro de manuscritos medievais. Eram escritos com grafemas árabes embora a língua neles transcrita fosse qualquer coisa entre o antigo Aragonês e o actual Castelhano. Quem os escrevia – autores anónimos que iam reactualizando quase sempre os mesmos textos – tinha perdido a língua mãe e grande parte da sua cultura original. O carácter híbrido destes autores (que sobrepunham à perda de memória uma grande criatividade expressiva) manter-se-ia até à expulsão definitiva da Península Ibéria, já no início de seiscentos.
Refiro-me às vastíssimas comunidades de raiz islâmica – os chamados “mouriscos” – que sobreviveram no Levante ibérico (sobretudo em Aragão) às conversões obrigatórias e às expulsões do início do século XVI (e do final do século anterior). A literatura aljamiada destes derradeiros autóctones islâmicos da Ibéria tinha uma característica singular: a miscelânea temática. Nos manuscritos que circulavam de mão em mão lia-se de tudo: descrição de viagens (na tradição árabe da Rihla), profecias (Aljofores), tratados de superstições, livros de sortilégios, crenças populares, receitas mágicas, fórmulas cabalísticas, temas épicos, ditados, lendas, “Rogarias y Alabanzas de Mahoma”, disputas com judeus e cristãos, instruções para a leitura do Alcorão, excertos tradicionais (Hadith), temas gramaticais (sobretudo fonéticos), preceitos relativos a heranças, medicina popular, fórmulas mágicas, sequências didácticas e morais, etc, etc.
Este modo desfragmentado de abarcar um mundo inevitavelmente perdido (hoje dir-se-ia “este discurso pós-cultura”) está a reaparecer na actualidade com outras vestes. Veja-se: perda de memória colectiva e de referências fixas; o emergir de uma nova hibridez (as fronteiras das culturas hoje atravessam-se no globo), de novos modos expressivos e de mediação (chatsfera, mediasfera, blogosfera, etc.). E ainda, para terminar, alguma miscelânea temática como método. Esta última característica tornou-se óbvia no universo dos blogues que está a ser, por sua vez, nos últimos – poucos – anos, transposto para livro. O Meu Pipi (Oficina do Livro, 2003), Pedro Mexia (Fora do Mundo, Cotovia, 2004), Barnabé (Oficina do Livro, 2005), O Gato Fedorento (Cotovia, 2005), Jaquinzinhos (O Espírito das Leis, 2006) e alguns outros iniciaram a saga.
Como cereja sobre este bolo de ressonâncias já antigas, surge agora Intriga em Família de Eduardo Pitta (Quasi, 2007) que reúne perto de trezentos posts desassombrados e heterodoxos do blogue Da Literatura. Se ainda fosse preciso provar que na blogosfera se escreve particularmente bem, esta obra de Pitta reluziria. Além disso, neste guia “sage” e de bom manuseio, o recorte temático é, por natureza, abundante e variado. É a nouvelle cuisine servida a todos. Sem qualquer excepção. E graciosamente. Ponto.com.
Folhetim - 10
51, AVENUE D´IÉNA
por Almeida Faria

10
No meu tempo, poucos tiveram o privilégio de olhar estes quadros. Apesar de educado à europeia, conservei hábitos do Próximo Oriente e nós, orientais, não mostramos a ninguém os nossos haréns. Um costume prudente. As minhas belezas artísticas tinham de contentar-se com o privilégio da minha companhia. Não me julgo _ nem espero que me julguem _ um tiranete à antiga. Habituei-me foi a lidar com as minhas obras de arte como um sultão lida com o seu harém, como um sábio trata os amigos mais queridos e um pai se preocupa com os filhos. Depois do trabalhão que elas me deram, do pormenor com que as estudei, com que lhes discuti ou aceitei sem discussão os preços, com que lhes devotei o melhor de mim depois de serem minhas e as coloquei nesta casa para que nunca mais fossem separadas, queria conservá-las num espaço único, num porto de abrigo qualquer onde se sentissem bem, onde fossem, em suma, felizes. Será legítimo atribuir às obras de arte o direito à felicidade? Creio que sim. Não as coleccionei para perpetuar o meu nome como coleccionador, coleccionei-as para ter o direito a vê-las de cada vez que me apetecesse. Dispondo dos meios necessários, moveu-me o princípio de que cada aquisição fosse ponderada e escolhida com o maior detalhe, desde a sua qualidade intrínseca até à autenticidade da patina. De todas elas, a mais prestigiosa será sempre a face severa e suave daquela andrógina figura de Rembrandt a que uns chamam Alexandre o Grande e outros Palas Ateneia, a tal que nasceu já armada e guerreira da cabeça de Zeus. Inclino-me para esta última tese, agrada-me que a cabeça seja de mulher, ou melhor, de deusa. Custou-me tanto esforço e dinheiro e deu-me tal prazer, que chegava a adoecer ao pensar na hipótese de que algo lhe acontecesse. Hoje está a salvo em Lisboa. Aqui, todavia, bem iluminada e sem que um vidro se intrometesse entre nós e a nobreza dela, revelava a sua suprema força de carácter. Sem as minhas obras-primas, este edifício ficou irreconhecível. E o terraço perdeu a graça, as trutas e faisões desapareceram, a falta de rega secou a terra, secou o buxo, as sebes, os vasos ficaram vazios, os meus diálogos ficaram em suspenso por falta de alguém com quem dialogar."
(continua)
Próximo episódio: “Quem se entrega ao impulso de caçar objectos belos, recorrendo a diversas tácticas e estratégias, sabe do que falo, sabe que, como qualquer apaixonado, não descansa enquanto não consegue o que quer.”
sexta-feira, 4 de Maio de 2007
Acrobacias antes do voo
A piada da engenharia bateu hoje à porta do governo (dizia Mário Lino, perante uma audiência regional, estar "inscrito na Ordem dos Engenheiros"). O fantasma teve aqui um nome claro: a (imprudente) acrobacia da OTA. Mas terá um outro nome oculto: o fim do estado de graça do governo.
Fernando Monteiro no Folhetins e Novelas

Escavações Contemporâneas

LC
Escavações Contemporâneas - 3

LC
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O espectáculo consistia na confirmação pelo Conselho de Estado de Cuba, presidido por Fidel de Castro, da sentença de morte do general Ochoa e de mais três oficiais, condenados, parece, por tráfico de droga. Como infelizmente não parece impossível que seres que confundem a inefabilidade da sua inconsciência com a pedra-de-toque da verdade existam, talvez valha a pena explicar porque é que para um vulgar ser humano aquele espectáculo deveria ter provocado uma reacção de horror. Mas sem dúvida que é rigorosamente inútil procurar fazer, mesmo que vagamente, compreender quanto a questão da verdade ou falsidade da acusação é neste caso por inteiro espúria.
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Comecemos pela cena. Fidel de Castro falava ao Conselho de Estado, umas vinte pessoas. Exibia as suas penas pessoais pelo facto em si e pela condenação de Ochoa, antigo herói da revolução. O Supremo Tribunal Militar já ratificara a pena capital ditada pelo Tribunal Especial Militar. Tratava-se agora da decisão final. Fidel falava com emoção. Dava a entender que a sua decisão era um sacrifício. O príncipe, mesmo o príncipe de uma revolução, tem que obedecer à lei. Não falava pelo seu coração (o seu coração batia por um antigo amigo), falava por uma obrigação maior — o bem do povo e da revolução, a justiça popular — que habitava nele e a que ele se dedicava. Mesmo que lhe ferisse o coração. Falava, em última análise, contra si. O seu voto de confirmação da pena de morte — cuja abolição os comunistas entre nós devem achar uma vitória da liberdade, e não é preciso dizer mais — partia-lhe o coração. E contra o seu coração, em primeiro lugar, votou. O voto dos outros a seguir veio. E, por unanimidade, foi concordante com o voto de Fidel.
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Esta história edificante de um sacrifício revolucionário é, a todos os títulos, exemplar — e na sua exemplaridade reside discretamente o seu horror. É exemplar, em primeiro lugar, porque é inteiramente previsível. Toda a gente sabia que se iria passar assim. Os ímpetos perestroikos ainda não chegaram a Cuba e os modelos seguidos são os das tiranias de ideologia altruísta (de que o comunismo é, perdoe-se o optimismo, o modelo acabado). Por isso não há novidade para o espectáculo.
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É exemplar, em segundo lugar, porque é já uma paródia de si mesmo. É a repetição de uma história antiga, o que o comunismo, mais do que qualquer outro sistema, tem tendência a exibir, confirmando, por uma vez, uma previsão de Marx. Daí o lado quase cómico de tudo isto — ou inteiramente cómico para quem não sentir o horror da morte ou a puder justificar. Há descrições fiáveis, feitas por autores divulgados, das encenações que Estaline e os seus amigos faziam em privado das últimas declarações das vítimas dos processos de Moscovo. Mas o problema é que a tragédia, repetindo-se, continua tragédia. O cómico, se se quiser, é a consequência histérica da irrealidade aparente dos factos. É uma defesa. E uma defesa do cinismo. Não é inteiramente perdoável, mesmo que olhar de frente a tragédia seja insustentável.
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É exemplar, em terceiro lugar, porque é uma mentira verdadeira que faz perder o mundo. Quer dizer, é uma traição ao mundo. Há crimes que degradam o valor do mundo. Expresso numa linguagem egoísta, isto significa que há actos que fazem perder a sensação de continuidade do Eu com o mundo. Certamente haverá almas que o negarão: terão os resquícios de uma ciência do mundo que lhes pemitirá restabelecer a continuidade. É coisa de escuteiros progressistas e é uma mentira verdadeira porque simultaneamente inconcebível e previsível e real.
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É exemplar em quarto e último lugar porque provoca o silêncio. Os confiantes cretinos na bondade do que se educaram a pensar como natural perdoam tudo. E perdoam tudo porque nunca lhes passou pela cabeça aquilo que Santo Agostinho uma vez escreveu: que a piedade é coisa diferente da pura e simples abstenção do mal. Não sabem, singelamente, o que é horror."
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Folhetim - 9
51, AVENUE D´IÉNA
por Almeida Faria

9
O meu anfitrião pareceu perder-se por instantes na distância dessas ilhas, de onde pouco depois regressaria: "Já que o senhor é dado à leitura, se quer conhecer Perse sugiro que comece por Exil, um dos livros que ele me enviou em mão para Portugal, por um amigo, e onde encontrei ecos do que eu mesmo vivi, longe das minhas origens, da minha primeira língua. Nem para mim nem para ele o exílio foi só uma experiência, não, o exílio foi a nossa experiência, uma via sacra com paragens precárias, provisórias, na nossa condição de nómadas. Ele gostava de disfarces, recorreu a vários pseudónimos e, na correspondência de meia dúzia de anos entre nós, inventou outro _ Douglas _ que depois ambos usámos. Por amor ao secretismo nenhum de nós concedia entrevistas, ser falados não fazia parte dos nossos objectivos. A mim faltava-me paciência para conversar com jornalistas e eles vingavam-se indo de propósito a Lisboa buscar informações irrelevantes junto do pessoal do Avis, ou ao Ritz em Paris ou a outros hotéis por onde passei. O caso de Perse era diverso, e acredito que a discrição lhe trazia vantagens libertinas. Casou tardíssimo, aos setenta e um, idade em que só poetas ou milionários se atrevem a casar. Consta contudo que, antes da americana com quem veio a casar, foi homem de longas ligações amorosas. O seu fascínio pelo feminino nota-se em poemas que resistem a ser classificados, pequenas epopeias, elegias ou odes com algo de bíblico, de erótico:
_ Jeunes femmes! et la nature d´un pays s´en trouve toute parfumée...
e eu sou sensível a versos desses porque também dediquei ao feminino um culto que muitos dos meus quadros denunciam: além da cunhada do Fantin-Latour de que já lhe falei, há um Retrato de Rapariga, do Ghirlandaio; uma Dona Leonor, irmã de Carlos V e duas vezes rainha, primeiro de Portugal, depois de França, retratada por Van Cleve; a Helena Fourment, do Rubens, a Madame Claude Monet, do Renoir; e outras, como a tristonha infanta Dona Mariana do Velasquez ou a Santa Catarina atribuída a Cranach. Lutei anos a fio por uma dama do Goya que não obtive e considero uma derrota esse insucesso.
(continua)
Próximo episódio: “Inclino-me para esta última tese, agrada-me que a cabeça seja de mulher, ou melhor, de deusa. Custou-me tanto esforço e dinheiro e deu-me tal prazer, que chegava a adoecer ao pensar na hipótese de que algo lhe acontecesse.”
quinta-feira, 3 de Maio de 2007
Folhetim - 8
51, AVENUE D´IÉNA
por Almeida Faria

8
Aí tive um vago vislumbre do esplendor daquela casa em vida do proprietário. As portas de espelhos lapidados – de dobradiças e fechos e puxadores amarelos como os frisos das cadeiras, dos canapés e cadeirões dourados nos mesmos tons que os apliques de três braços – ampliavam a estreita galeria reflectindo os motivos dos móveis, dos tapetes persas, do soalho embutido, num cruzar de imagens repetidas que me deixou meio perdido. Por uma dessas portas, à direita de quem chega, a governanta indicou-me um corredor dito de serviço, de chão axadrezado e muros e tectos forrados de azulejos branco baço, como num hospital, e onde outrora ficavam os quartos das criadas. Coube-me o quarto número dez, com uma sacada virada a poente, que me alegrou pela perspectiva de ter sol ao fim da tarde. Desfiz a mala, saí e andei um bocado para desentorpecer as pernas. Desconhecidos passavam por mim descontraídos, talvez por ser véspera de fim-de-semana, véspera de férias para alguns, verão para todos, dia longo. Na Étoile tomei um táxi para o Museu d'Orsay, onde queria revisitar o Rimbaud e o Verlaine em Um Canto de Mesa, e o retrato de grupo no estúdio de Manet. Mas em nenhum momento dei por este inteligente e culto cavalheiro.
«Já vê que não me intrometi, nem no Museu d'Orsay nem enquanto o senhor lia. Respeito aqueles a quem a leitura dá prazer, também fui desses. Em jovem diletantei em livro de viagens que Saint-John Perse elogiou, e o gosto de ler estará na base da minha obsessão pela Leitura do Fantin. Este Perse era bom poeta, creio, embora um tanto áulico de mais para o meu gosto. Conhece versos dele? Não? Nem são bem versos, são versículos em tom oracular, de fôlego oceânico, de uma eloquência quente, comovente, frases como vagas demoradas. Impressionaram-me. Em Exil _ onde havia curiosos jogos fónicos entre Alexis, um dos seus nomes de baptismo, e exil _ o halo das palavras valia tanto quanto o seu sentido. Talvez os poetas sejam todos assim, não sei, este foi o que eu mais li e sei que ele saboreava as palavras como coisas concretas, dotadas de espessura e peso. Tínhamos em comum esse respeito pelo concreto. Os estudos de mineralogia, de geologia, de ornitologia, sobretudo das aves marinhas, a sua prática de navegar, aliados aos seus talentos, fizeram dele um cantor do cosmos, do mundo imemorial, dos mitos, do ar, do mar, dos elementos olhados como se acabassem de nascer. Botânico minucioso, aconselhou-me quanto à flora a plantar no meu parque normando e depois da guerra perguntava-me se a alta sabedoria das minhas árvores _ era assim que ele escrevia _ fora poupada aos furores bárbaros. A relação dele com a natureza era muito intensa, mais ainda que a minha, e o que ele mais apreciava nesta casa não era a biblioteca, era o terraço por cima de nós, no último piso. Já subiu até lá? Antes da guerra, nos anos breves em que fui reunindo as minhas preciosidades nesta casa para melhor me rodear do meu passado, os faisões esvoaçavam no terraço em voos curtos, domesticados, por sobre as colunas e obeliscos, e as trutas nadavam à vontade no tanque ao comprido, onde a água saltava de repuxos e saía de bicas, como num chafariz. Ali conversávamos sentados, num recanto elevado do terraço, e Perse não era como outros poetas de quem se diz que são uns tímidos, uns sujeitos virados do avesso, Perse era mais que um conversador, hipnotizava quem o ouvia narrar estadas na China, contactos políticos e cenas da sua infância em Guadalupe, Pointe-à-Pitre, nas Antilhas."
(continua)
Próximo episódio: “Consta contudo que, antes da americana com quem veio a casar, foi homem de longas ligações amorosas. O seu fascínio pelo feminino nota-se em poemas que resistem a ser classificados, pequenas epopeias, elegias ou odes com algo de bíblico, de erótico (…)”
quarta-feira, 2 de Maio de 2007
A voz e o juízo

Folhetim - 7
51, AVENUE D´IÉNA
por Almeida Faria

7
«Aqueles fulgores de frutos e flores onde perversamente aparece a pétala fanada, a polpa murcha, o podre; aquelas riquezas da Terra onde de súbito surge o bolor e o verme; os moluscos e insectos carregados de recados, a mosca simbolizando talvez o demónio ou o mal, o caracol cuja casca alude, segundo alguns, ao vazio da fortuna, ao oco tambor da vanglória e da fama. Quanto me esforcei por obter uma dessas maravilhas! Mas as boas não apareciam no mercado, quem as tinha não as largava, ou estão nos museus, no Louvre, em Berlim e Viena, e nas grandes colecções dos holandeses. Fui de propósito a Estrasburgo ver A Grande Vaidade, do Stoskopf. Não a conhece? Não perca. Lá está a ampulheta, a caveira, o mundo enquanto teatro – uma gravura na parede representa não me lembro já que arlequinada. Vale a pena a viagem, e olhe que quem lhe fala deu muita volta aos melhores museus mundiais. Infelizmente não fui na minha vida anterior à América porque, quando pretendi ir, veio a guerra. Como adivinhei que aprecia obras destas? Então não acha extraordinário que eu não o interrompesse enquanto lia esse tal Herbert?»
Só um espírito saberia o que eu fizera antes de adormecer! Lia, com efeito, algumas páginas de Zbigniev Herbert sobre Simon van de Beeck, que se autocaracterizou assinando Torrentius e foi admirado no seu tempo como mestre da mais perfeita imitação da vida visível, esquecido depois durante três séculos e recentemente redescoberto. Pintor enigmático e semiclandestino que me faria companhia nesta mansão onde vou expor As Lágrimas de Eros, que não imaginei em ambiente tão solene. Quando me convidaram a apresentar toda a série e acentuaram a palavra toda, aceitei sem hesitar porque me apetecia vir a Paris e passar dias inteiros no Louvre. A pintura obceca-me tanto que a qualidade das cidades depende dos seus museus de belas-artes. Há anos que Paris para mim principiava diante de certas telas do Louvre e terminava minutos antes do encerramento do museu, quando zelosos funcionários corriam comigo de uma dessas salas onde sempre me faltava rever algo. Salas que me faziam levitar, justificando só por si toda a viagem, e que ainda mais atraentes se tornaram desde que de algumas delas se descobre, da janela, o jogo entre a ligeireza das pirâmides de vidro, os efeitos do vento na água dos tanques triangulares e a compacta exuberância das fachadas do pátio outrora real. Agora movia-me também o desafio do contraste entre os meus desenhos escandalosos, nunca expostos, e a sóbria seriedade do vestíbulo do pequeno olimpo da avenue d´Iéna, cujas normas e pormenores a governanta me explicara à chegada, à medida que o envidraçado elevador Art Déco, de madeira, ferro forjado e banco almofadado, nos conduzia pouco apressado ao segundo andar.
(continua)
Próximo episódio: “Tínhamos em comum esse respeito pelo concreto. Os estudos de mineralogia, de geologia, de ornitologia, sobretudo das aves marinhas, a sua prática de navegar, aliados aos seus talentos, fizeram dele um cantor do cosmos, do mundo imemorial, dos mitos, do ar, do mar, dos elementos olhados como se acabassem de nascer.”
Escavações Contemporâneas - 2

LCA
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O sorriso do arquivo no tempo da rede
(hoje: Viriato Soromenho Marques)
O mundo, e em particular a Europa, vivem hoje sob a sombra do que parece ser um dos mais difíceis paradoxos do nosso tempo. Os sinais, entre outros, são os seguintes:
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No Kosovo, albaneses e sérvios prosseguem num massacre intempestivo e cruel, que partindo dos confins da história, ameaça tornar-se num conflito regional de proporções incertas.
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A União Europeia avança para a moeda única, mas as divisões nacionais, e a transformação da Alemanha num país 'normal' (que defende o seu egoísmo nacional com a firmeza de todos os outros) tornam quase impossível uma Agenda 2000 favorável à coesão económico-social, e estiveram à beira de deixar a União sem a sua Comissão, o mais imparcial e menos 'nacional' dos seus órgãos.
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No Brasil, o velho Ítamar Franco, candidato presidencial falhado, ao não pagar as dívidas do Estado de Minas Gerais aos cofres federais coloca o Brasil à beira da ruptura e lança as bolsas do mundo inteiro numa vertigem depressiva.
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Em Angola, a hora da paz, conseguida com tantos esforços e tantas vítimas, deu outra vez lugar à guerra aberta, com exércitos que falam português combatendo em ambos os lados da barricada.
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Qual é o verdadeiro paradoxo jazendo sob estes fenómenos, dispersos pelos quatro cantos do mundo?
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Por um lado, quando se perspectivam os grandes problemas e interrogações do futuro conjugamos, cada vez mais inevitavelmente, o difícil verbo GLOBALIZAR.
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Por outro lado, quando se procuram as forças e os sujeitos capazes de se tornarem nos protagonistas do futuro, vislumbramos os Estados, os Povos, os Indivíduos continuarem prisioneiros de velhos dilemas, angústias e ódios associados ao problema da identidade nacional.
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Quando pensamos nos grandes problemas da economia, do comércio, do ambiente, da guerra e da paz, voltamo-nos, sem outro recurso, para o horizonte do diálogo, dos compromissos e das instituições internacionais e supranacionais...
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No entanto, quando confrontados com a urgência desses desafios, próprios de um planeta em acelerada transição, refugiamo-nos, talvez defensivamente, na aparente segurança dos valores nacionais.
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Esquecemo-nos, porventura, que a própria formação da Nação e da consciência nacional não constituiu uma dádiva da Natureza, tendo sido antes o fruto de um trabalho altamente complexo de construção e sedimentação históricas.
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Os Estados-Nação, consolidados sobretudo no século XIX, correspondiam, também eles, à necessidade de responder a tarefas que já não poderiam ser enfrentadas a uma escala espacial e organicamente inferior.
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O que significa ser-se hoje, nesta viragem de milénio, um nacionalista? Até que ponto e em que medida é compatível a preservação da identidade nacional com a urgência das novas tarefas globais? É possível uma posição nacionalista que não se afirme à custa da lógica da exclusão e do desrespeito pelos direitos humanos universais? O que é que existe de estrutural e de simplesmente conjuntural na presente vaga de nacionalismos?
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Estas são algumas das perguntas que entrarão, inevitavelmente, na agenda política do século XXI. Um século em que teremos de aprender a estender o nosso patriotismo às fronteiras do mundo inteiro. Um século em que, quase inevitavelmente, teremos de escolher entre sermos cosmopolitas, cidadãos o mundo, ou abrirmos as portas ao caos e à catástrofe do sistema internacional."
terça-feira, 1 de Maio de 2007
Folhetim - 6
51, AVENUE D´IÉNA
por Almeida Faria

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«Nunca me conformei com não ter nenhum Whistler, o amigo americano do Fantin. Partilhavam de um fraquinho quase feminino por flores, e refinaram na feitura daquele tipo de retratos que, sem se limitarem aos corpos, às caras, conseguiam meter no quadro a casa ou o ambiente de trabalho dos retratados. Sim, amigos de longos anos, por isso os juntaram agora no Museu d´Orsay. Como decerto reparou, na Homenagem a Delacroix Fantin colocou Whistler mesmo ao centro, a seu lado, ambos fazendo pendant com Manet e Baudelaire. Sim, é verdade, ainda ontem o senhor esteve diante desse quadro, mas talvez não recorde que se conheceram no Louvre, quando o jovem Fantin copiava pormenores das gigantescas Bodas de Canaã. Fantin era apagado, tímido e baixinho, sobrevivendo à custa de cópias de quadros famosos. Durante o inverno metia-se na cama a desenhar por não haver aquecimento em casa. Whistler gozava de rendimentos suficientes para lhe pagar uns consommés no Café Molière e para o convidar a ir a Londres, onde o instalou em casa de um cunhado. Em contrapartida, Fantin apresentou-o a Courbet, que havia de retratar a modelo irlandesa de Whistler em La Belle Irlandaise. Lembra-se? Era uma beleza, efectivamente!»
Houve um silêncio sonhador antes de ele retomar o fio ao que dizia: «Whistler, por seu turno, apresentara a Fantin o então parisiense Swinburne, de comprida e ruiva cabeleira romântica, que fui ver pintado por Dante Gabriel Rossetti no Fitzwilliam Museum, em Cambridge. E Swinburne, nesta dança de roda, introduziu-os no cenáculo do dito Rossetti que lhes arranjou clientes endinheirados e boémios. Fantin admirou o bem-estar e a abundância da burguesia britânica com o mesmo respeito que dedicava aos pintores do passado. Mas voltando a Whistler, que viveu parte da adolescência como um príncipe, em S. Petersburgo, onde o pai dirigia a construção da via férrea para Moscovo na dependência directa do czar, tentei informar-me se haveria por lá algum dos seus primeiros quadros. Em vão, nada à venda. Procurei até em Estocolmo, onde vou bastantes vezes para ver e voltar a ver as caveiras com coroa de louros de Christian Thum; a sumptuosa simplicidade das cerejas do Osias Beert; ou o Jan Davidsz de Heem com copos de vinho, frutos diversos, ostras abertas e até um caracol avançando de cornos ao sol na toalha vermelha; ou as tulipas com rã e borboletas do Johannes Bosschaert. Do Whistler, nada. A S. Petersburgo não fui na outra vida, ainda que negociasse com o departamento soviético de antiguidades que me vendeu obras do Ermitage. Paguei a marchands meus conhecidos, peritos em transacções por essas bandas, sempre em vão. Foi uma das minhas frustrações, tal como a de nunca ter conseguido nem uma daquelas misteriosas naturezas-mortas designadas por vanitas, que traduzem em imagens o memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris.
(continua)
Próximo episódio: “Não a conhece? Não perca. Lá está a ampulheta, a caveira, o mundo enquanto teatro – uma gravura na parede representa não me lembro já que arlequinada. Vale a pena a viagem, e olhe que quem lhe fala deu muita volta aos melhores museus mundiais.”

Por LC |

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