quinta-feira, 30 de Novembro de 2006
Mini-entrevistas - 68

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Carlos Albino (http://notasverbais.blogspot.com/).
- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”
É o firmamento, na versão mais recente – por ora, firmamento corrigido e aumentado, como outrora o Dicionário do Torrinha corrigido e aumentado, aumentando-se os erros, supria biblicamente a falta de dicionários. Mas é um esplendoroso firmamento, com os seus buracos negros – é certo; com as suas gigantescas nebulosas – anónimas como todas; os seus asteróides desgovernados – que são avisos de quanto é efémera uma suposta ordem de opinião; enfim, e é o que mais interessa, com planetas em equilíbrio que não discutem a sua grandeza e aceitam como livre o seu caminho também efemeramente pré-determinado. Essa palavra da blogosfera diz-me precisamente este firmamento onde, em qualquer oportunidade, até Deus pode criar o seu blogue, fazendo-se homem. Já não direi o mesmo dos homens que se julgam deuses.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Os blogues são tão só um meio a despontar e a descobrir a sua própria pauta, ou um instrumento de comunicação entre outros que o tempo há muito especializou, são a abertura do mundo para o comentário dos acontecimentos e dos factos - mesmo que apresentem um acontecimento ou, com autonomia, revelem um facto, apenas por erro de paralaxe, poder-se-á ver nisso concorrência ou substituição, muito menos excepção sediciosa contra outros meios. Penso, pois, ser impossível seguir um acontecimento “apenas” através de blogues. Mas seguir os acontecimentos ”também” através do directório de opiniões que já transformou a blogosfera em terra firme e até selecta em algumas áreas, é já um hábito adquirido, tanto quanto posso, quanto a acontecimentos dominantes ou que vão sendo dominantes. Sobretudo em áreas especializadas, os blogues ensinam-nos quanta verdade encerra aquele preceito de François Villon “conheço tudo, excepto a mim próprio”.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
A descoberta e prova de que, por exemplo em Portugal, para além de um escol em formatura de pensamento e análise, há uma elite circunstancialmente gregária de análise e de pensamento – os termos por esta ordem, porque é por esta ordem efémera que se gera a Crítica, o Escrutínio. Além disso, a actualização da forma de escrever do velho escriba de rolos – enrolando, lá para o fundo, cada vez mais para o fundo, o que vai escrevendo longe da preocupação de, panorâmicamente numa página ou, para maior auto-satisfação, em duas páginas lado a lado, mostrar toda a sua verdade ou o mais possível da sua verdade. Neste caso, não é a escrita que impõe a verdade acabada (mesmo com as ressalvas académicas de pé de página, impossíveis nos rolos), é a forma de escrever que, já de si, ensina que nada é definitivo e que aquilo que ainda é visível, para ter visibilidade, não pode condescender com a falta de verdade, a ausência de paixão e, por tudo, com a desatenção pela modéstia. Um escriba sério jamais quererá ser o maior, mas apenas contribuir para que um rolo, o seu e o dos outros sérios, seja o mais comprido possível. Um blogue é uma máquina de ocultar o que se escreveu, sem esconder o que foi escrito. Outros meios não podem fazer isso, por natureza.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Pois quem estaria no primeiro firmamento da história humana em que dá para acreditar, se se sentisse censurado, pré-examinado ou interditado, sendo a interdição editorial a mais recente e capciosa fórmula de punir os outros por delito de opinião ou pelo delito de não seguir dicionários do Torrinha?
Pré-publicações - 6
Nas décadas que se seguiram à morte de Cícero perguntaram-me muitas vezes, quase sempre em sussurros, como é que o senador era na realidade, mas guardei silêncio. Como poderia saber se estava a falar com algum espião enviado pelo Governo? Esperava ser saneado a qualquer momento. Porém, como a minha vida está a chegar ao fim, e como já não alimento quaisquer medos — nem sequer da tortura, pois não resistiria mais que um instante às mãos do torcionário ou dos seus auxiliares — resolvi que este livro será a minha resposta. Vou utilizar a memória e os documentos entregues à minha guarda. Como a vida que me resta será inevitavelmente breve, proponho-me escrevê‑lo depressa, recorrendo ao sistema de estenografia, numas dezenas de pequenos rolos do papiro mais fino — Hieratica, nem mais nem menos — que guardo desde há muito com este propósito. Desde já peço desculpa pelos meus erros e pelo estilo menos adequado. Também imploro aos deuses que me deixem terminar antes de a morte me vencer. As últimas palavras de Cícero foram um pedido para que eu contasse a verdade acerca dele, um pedido que estou disposto a satisfazer. Se ele nem sempre emergir como um paradigma de virtudes, paciência. O poder confere a um homem muitos luxos, mas um par de mãos limpas raramente se encontra entre eles.
O meu propósito é tratar do poder e do homem. Ao falar em poder, estou a referir-me ao poder oficial, ao poder político, a que em latim chamamos imperium, o poder de vida ou de morte, que o Estado concede a um determinado indivíduo. Um poder que foi pretendido por muitas centenas de homens, mas, em toda a história da República, Cícero foi o único que o procurou sem recursos que o pudessem ajudar, para além do seu próprio talento. Não provinha, como Metelo ou Hortênsio, de uma das grandes famílias aristocráticas, possuidoras de gerações de favores políticos que poderiam sacar em tempo de eleições. Não dispunha de um exército poderoso para lhe apoiar a candidatura, como acontecia com Pompeu ou com César. Não possuía, como Crasso, uma vasta fortuna que lhe aplanasse o caminho. Só dispunha da sua própria voz, que, graças a um extraordinário esforço de vontade, se tornara a mais famosa voz de todo o mundo.
e
Tinha 24 anos quando entrei ao seu serviço. Ele tinha 27. Eu era um servo doméstico, nascido na propriedade da família, situada nos montes que rodeiam Arpino, e nunca tinha visto Roma. Ele era um jovem advogado, que sofria esgotamentos nervosos e lutava para vencer consideráveis deficiências naturais. Poucos apostariam nas hipóteses de qualquer de nós.
Na altura, a voz de Cícero ainda não era o temível instrumento que iria ser mais tarde; era rouca e ocasionalmente podia resvalar para a gaguez. Quero crer que o problema era ele ter a cabeça ocupada por demasiadas palavras, que em momentos de maior pressão se lhe apertavam na garganta, como acontece quando duas ovelhas, pressionadas pelo rebanho que as segue, tentam passar ao mesmo tempo por um espaço estreito. De qualquer maneira, era frequente que tais palavras fossem demasiado eruditas para poderem ser compreendidas pela assistência. O «Erudito», como lhe chamavam os ouvintes impacientes, ou o «Grego», sendo certo que nenhum dos termos poderia ser visto como um elogio. Conquanto ninguém pusesse em dúvida o talento de Cícero para a oratória, a sua constituição física era demasiado frágil para lhe suportar toda a ambição; por isso, o esforço suportado pelas suas cordas vocais durante várias horas de argumentação, muitas vezes ao ar livre e em qualquer estação do ano, podia deixá-lo rouco ou afónico durante dias. A estes desastres juntavam-se a insónia persistente e as digestões difíceis. Dito em palavras simples: se queria ascender na política, como desejava ardentemente, Cícero precisava de ajuda profissional. Portanto, decidiu ausentar-se de Roma por algum tempo, com o duplo objectivo de refrescar as ideias e de consultar os mais famosos professores de Retórica, que, na sua maioria, viviam na Grécia e na Ásia Menor.
Por eu ser responsável pela pequena biblioteca do pai dele, e por possuir conhecimentos razoáveis de grego, Cícero pediu-me emprestado, como quem leva para casa um livro da biblioteca, e levou-me com ele para o Oriente. A minha função era dirigir os preparativos, arranjar transportes, pagar aos professores e tudo o que fosse necessário; ao fim de um ano seria devolvido ao meu antigo senhor. No final, como acontece com tantos livros úteis, acabei por nunca ser devolvido.
Encontrámo-nos no porto de Brindisium no dia em que devíamos seguir viagem. Estávamos no Consulado de Servílio Vátia e Cláudio Pulcro, no 675.º ano da fundação de Roma. Cícero ainda não era a figura imponente que se viria a tornar, nem as suas feições eram de tal forma populares que não lhe permitissem percorrer a mais calma das ruas sem ser reconhecido. (Bem gostaria de saber o que terá acontecido a todos aqueles milhares de bustos e retratos que chegaram a adornar casas particulares e edifícios públicos. Teriam, na verdade, sido todos partidos e queimados?) Naquele dia de Primavera, o jovem que estava no cais era magro e tinha ombros arredondados, pescoço excessivamente alto em que uma volumosa maçã-de-adão, grande com um punho de bebé, subia e descia sempre que ele engolia. Os olhos eram protuberantes, a pele amarelenta, as faces encovadas; era, em resumo, a imagem da falta de saúde. «Pois bem, Tirão», recordo-me de ter pensado, «aproveita a viagem, que não durará muito.»
Começámos por ir a Atenas, onde Cícero se prometera o prazer de frequentar a Academia para estudar Filosofia. Levei-lhe o saco para o auditório e, quando estava para o deixar ali, quis saber para onde é que eu ia.
— Vou sentar-me à sombra, juntamente com os outros escravos — respondi —, a menos que tenhas qualquer outro serviço para mim."
Pré-publicações - 5
Estava atrasada para um encontro. Tinha um longo e deplorável passado repleto de atrasos. Consequentemente, aperfeiçoara a arte da justificação teatral. O trânsito de Roma era a desculpa mais habitual, mas já inventara elevadores avariados, chaves desaparecidas, tacões dos sapatos partidos, crises emocionais e doenças de familiares. As desculpas que apresentava revestiam‑se de uma sinceridade ofegante e pesarosa, com os olhos muito abertos e ar implorante, pelo que haviam sido aceites vezes sem conta por amigos e namorados.
Desta vez, ia encontrar-se com um homem chamado Giampaolo Correale. Este contratara Francesca e vários outros alunos de História da Arte, amigos dela, para realizarem uma investigação sobre algumas pinturas da Galeria Capitolina. Regularmente, marcava uma reunião no seu apartamento para debaterem os progressos. Francesca nem sempre chegava atrasada a estas reuniões e, das vezes em que tal acontecera, Correale perdoara-lhe com um simples aceno de mão. Ela já provara ser um dos elementos mais produtivos da equipa. No entanto, ele tinha um temperamento que a perturbava, capaz de um bom humor expansivo em determinado momento, interrompido por repentinos ataques de cólera logo a seguir.
Deslocava-se numa scooter, uma Piaggio azul matizada de ferrugem, e passou diante da igreja Trinità dei Monte e da Villa Medici, descendo a serpenteante rua que levava à Piazza del Popolo. Era uma condutora cuidadosa, mas parca em perícia, apesar de oito anos de experiência. O seu destino, o apartamento de Correale, situava-se na Via Fracassini, uma zona residencial com edifícios do século XIX, pequenas lojas e restaurantes, a cerca de quilómetro e meio do centro da cidade. Achava que iria chegar cerca de quinze minutos atrasada e começou a congeminar possíveis desculpas. A verdade — que pura e simplesmente perdera a noção do tempo enquanto lia um ensaio sobre iconografia — parecia‑lhe de alguma forma insuficiente.
Quando chegou ao apartamento de Correale, situado no último piso, ofegante e com o cabelo em desalinho, parecia alguém adequadamente perturbado.
Correale abriu a porta. Tinha cerca de quarenta e cinco anos, embora parecesse mais velho, algum peso em excesso, praticamente calvo, com a barba bem aparada a fugir para o grisalho. Trazia a ponta de um charuto grosso e negro entre os dedos. Observou Francesca por cima dos óculos de leitura. Tinha os olhos algo salientes, como os dos peixes.
— Ah, afinal a Francesca decidiu juntar-se a nós! — exclamou, dirigindo-se aos outros presentes na sala. Assumira um tom irónico, mas mantinha um sorriso nos lábios.
Não era preciso inventar justificações. Francesca entrou, limitando-se a murmurar um pedido de desculpas."
quarta-feira, 29 de Novembro de 2006
A paródia é um mar

Mini-entrevistas - 67

e
-O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
Numa visão optimista, uma multiplicidade babélica. No pior dos cenários, uma garrulice pegada.
-Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Nenhum. Continuo a privilegiar os meios de informação mais tradicionais.
-Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Um impacto quase delével, acresce dizer. Ainda assim o facto de ter iniciado colaboração com o Da Literatura concorreu para que, numa primeira fase, me obrigasse a uma disciplina de escrita a que não estava muito habituado. Mas, mesmo nessa altura, a minha participação na blogosfera (até como visitante) sempre foi esporádica. E muito direccionada. Hoje resta pouco mais que um crescente desinteresse.
-Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
A blogosfera não é um sub-produto da realidade. Nessa perspectiva ela reflecte os jogos de poder e de interesses subjacentes a essa mesma realidade. Esta transversalidade é bastante mais visível em blogues que, conotados com uma ou outra ideologia político-social, procuram, deliberadamente, condicionar a opinião pública.
Já no que diz respeito aos blogues que, pontualmente, ainda vou frequentando (e eles são, na quase totalidade, de índole marcadamente cultural), penso que sim, que são uma forma de expressão tendencialmente livre. Vindicativos em relação às suas empatias ou preferências, mas livres.
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Entrevistas anteriores: Série I - Carlos Zorrinho, Jorge Reis-Sá, Nuno Magalhães, José Luís Peixoto, Carlos Pinto Coelho, José Quintela, Reginaldo de Almeida, Filipa Abecassis, Pedro Baganha, Hans van Wetering, Milton Ribeiro, José Alexandre Ramos, Paulo Tunhas, António Nunes Pereira, Fernando Negrão, Emanuel Vitorino, António M. Ferro, Francisco Curate, Ivone Ferreira, Luís Graça, Manuel Pedro Ferreira, Maria Augusta Babo, Luís Carloto Marques, Eduardo Côrte-real, Lúcia Encarnação, Paulo José Miranda, João Nasi Pereira, Susana Silva Leite, Isabel Rodrigues, Carlos Vilarinho, Cris Passinato, Fernanda Barrocas, Helena Roque, Maria Gabriela Rocha, Onésimo Almeida, Patrícia Gomes da Silva, José Carlos Abrantes, Paulo Pandjiarjian, Marcelo Bonvicino, Maria João Baltazar, Jorge Palinhos, Susana Santos, Miguel Martins, Manuel Pinto e Jorge Mangas Peña. Série II – Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira e Leandro Gejfinbein. Agenda desta semana (27/11/06 a 2/12/06): Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca e Tiago Mendes.
Pré-publicações - 4

r
O que desenha uma obra?
Quero dizer: a partir de que circunstâncias um trabalho – seja ele o de um qualquer criador e sob qualquer regime de expressão – deixa de ser um conjunto eventualmente coerente de experiências expressivas mais ou menos interessantes, para se figurar sob o nome de uma obra: aquele mesmo que, depois, torna indistinto o nome do autor daquilo de que este fez sua autoria?
O que faz, primeiramente, uma obra, por aproximação de resposta, é a presença simultânea de um conjunto de invariantes que, atravessando uma prática de criação mais ou menos longa, erige um conjunto de signos, de temáticas, ou de ambos, através dos quais se torna reconhecível um espaço singular que, desse modo, se dá a ver aos demais como um território autoral.
Não são, porém, estes signos meros tiques que se repetem, ou esses temas meras referências a outros, de sentido mais universal: nenhuma obra digna desse nome poderia dispensar-se de tocar, ao menos de aflorar, o que mais universalmente toca a todos, mesmo se isso não é, ainda, o que a distingue como tal. Trata-se, isso sim, de ser possível perscrutar nela a ocorrência de repetições que agem como formas de uma resistência, ou de uma insistência, dando-lhe uma espessura e uma materialidade que permite o seu reconhecimento. E de, concomitantemente, ser detectável nela, também como invariante, uma certa forma diferenciada de abordar as temáticas que toca, no âmbito do que, simplificando, se poderia designar como a medida de um olhar.
Para dar um exemplo simples: se é verdade que tanto Bacon quanto Lucian Freud abordaram a questão da angústia face à miséria da condição humana no processo da sua degradação física – tema que muitos antes (Kokoshka, por exemplo, mas também Egon Schiele), e muitos outros depois (Paula Rego, Robert Gober, Cindy Sherman, entre tantos) igualmente abordaram –, o facto é que cada um destes o aproxima a partir de um olhar diferenciado, que não só muda a interpretação desses sinais como os acolhe no plano do que se poderia designar por uma especificidade ontológica. E que autoriza, desse modo, aproximações diversas às temáticas similares de que partiu. Nessa diferença, por vezes muitíssimo subtil, já que uma autoria é sempre um diferimento quase imperceptível, se esboçam os signos distintivos desse renovado olhar sobre o que parece ter a idade do mundo, sejam a morte, o amor, o sofrimento, a solidão, a violência, ou os respectivos pares de opostos. Por essa razão também será possível agora adiantar que o que aproxima duas obras determinantes, dentro de um determinado modo de expressão, é mais a similitude no modo de aflorar os seus temas do que a aproximação entre as formas expressivas ditadas pelo tempo. Assim, e por isso mesmo, Lucian Freud está mais próximo de Rembrandt, chegado uns séculos antes dele, do que de muitos outros seus contemporâneos. Como Picasso evoca, na sua capacidade de exprimir a violência constitutiva do mundo, mais a Goya do que a outros seus próximos. Ou Mondrian vem de certo classicismo rafaelesco. Ou Malévich se entende melhor quando se percebe que ele erigiu a mais radical abstracção sobre a evidência presente na tradição do ícone ortodoxo russo.
E assim, também as famílias que habitam essa longa saga a que chamamos História da Arte se constituem por aproximações inesperadas que transcendem, quando são decisivas e o seu pressuposto é radical, as
diferenças históricas que as separam. Não foi Picasso quem afirmou, mostrando disto mesmo a compreensão mais absoluta, que a arte mais
moderna que conhecia era essa que acabara então de se descobrir, préhistórica, em Lascaux e Altamira?
Então, o que desenha uma obra não são pois apenas esses signos que já para trás referi, mas é, também, o modo como esta se inscreve, mesmo se subtilmente, numa determinada família – família expressiva, perceptiva, espiritual, ontológica – que, de certo modo, desde logo a coloca num plano que, sendo histórico, é ao mesmo tempo transhistórico. E na medida em que cada obra singular institui a sua própria antecedência como se, de alguma maneira, a elegesse. Por isso Harold Bloom, a propósito da literatura, pôde dizer que se deveriam fazer leituras shakespearianas de Freud antes de se procurar fazer leituras freudianas de Shakespeare.
De facto, toda a obra que, enquanto tal, se afirma toma ao mesmo tempo
a inevitável forma de um vínculo fortíssimo a uma dada tradição, que prolonga e que profundamente transforma, reinventando-a, ao mesmo tempo que pressupõe, para si mesma, uma espécie de linha de invenção que se define como um processo de resistência, ou de insistência, de um determinado corpo de questões. As que nela regressam como se fosse esse incessante regressar através de manifestações diversas o que permitiria enfim entendê-la na singularidade do seu próprio território.
Assim com a obra de Nikias Skapinakis, cujos já cumpridos 55 anos de trabalho permitem retraçar, sobre um vastíssimo corpo de experimentações e de diferenças, uma nítida linha concordante. Nela, então, em cujo percurso ao longo da segunda metade do século XX da arte portuguesa não é apenas possível encontrar essa referida dimensão de resistência/insistência temática - em que desde logo se podem destacar os elementos concernentes à impossibilidade (ou à suspeita de equívoco) com que encara a abstracção, a referência histórica alargada quer ao tempo presente quer às recontextualizações do passado (da arte e da própria história), o subtil apelo a uma sensualidade do mundo, a súbita hesitação metafísica, a distância irónica que institui entre o que seria do real e o que seria da representação) –, como igualmente se fazem evidentes certos núcleos conceptuais a que incessantemente regressa."
terça-feira, 28 de Novembro de 2006
Mini-entrevistas/Série II - 66

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Lutz Bruckelmann (http://quaseemportugues.blogspot.com/).
Um universo de oportunidades e ideias que no início julguei imenso, mas que encolheu com o tempo. O Café Central dos nossos dias.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Seguramente a polémica das velas em memória do massacre dos Judeus no 19 de Abril de 1506. Sem os blogues não teria dado pelo acontecimento, que aliás desconhecia, nem pelas tensões ainda existentes sobre a questão, que esta polémica pôs a nu.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Como imigrante em Portugal, falta-me a rede de conhecidos, de velhos amigos e compagnons de route, que quem aqui cresceu adquiriu de forma natural ao longo dos anos. Assim, a entrada na blogosfera tem sido muito enriquecedora para mim. Tem-me permitido trocar ideias, travar conhecimento e até amizade com uma série de pessoas interessantes que de outra forma não teria chegado a conhecer. Quase sinto a minha presença aqui como uma segunda vida social. Por outro lado, rouba infelizmente muito tempo à restante vida.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
O Eduardo Pitta respondeu no outro dia bem a essa questão: Depende de respectiva condição profissional de cada um. Quanto a mim, considero me muito livre, o que decorre do facto de que sou 100% amador nisto, e que não existe nenhum elo entre o meu blogue e a minha vida profissional, nem no que respeita a dependências, nem a ambições.
Pré-publicações - 3

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Saída a público: 05/12/2006.
"I
Ao quarto dia a tempestade ganhou maior ímpeto. O duelo desigual da Afonso de Albuquerque com as forças da natureza prolongou‑se desde as primeiras horas da madrugada até ao entardecer. O baloiçar impiedoso do navio já fizera os seus estragos entre os passageiros menos habituados ao alvoroço dos estômagos massacrados. Contudo, ao cair da noite, a ondulação foi misericordiosamente acalmando, o vento amainou e o tecto de nuvens baixas e negras rompeu-se para dar lugar a uma lua cheia deslumbrante que espelhou o seu brilho prateado na superfície do oceano Atlântico. Parecia milagre, eram os meados de Março, os derradeiros dias do Inverno no hemisfério norte, e o clima tempestuoso ainda não poupara o navio, particularmente nestas últimas horas.
Debruçado sobre o mar, com os cotovelos apoiados na amurada, o tenente Carlos Montanha aproveitou aquela trégua improvável dos elementos para gozar um pouco o ar puro da noite e fumar, enquanto se espantava com a beleza da paisagem: uma imensidão de água surpreendentemente apaziguada e de aspecto inofensivo que havia apenas umas escassas horas se enfurecia, agigantando-se em vagas sucessivas, de vários metros, que pareciam querer engolir a corveta. Agora o mesmo oceano, há pouco indomável, transformara-se num mar chão iluminado por um luar de cortar a respiração. Por um instante, Carlos Montanha sentiu-se desconcertado com os caprichos meteorológicos. Levantou a cabeça e deitou para o ar húmido da noite o fumo do cigarro, esvaziando os pulmões com um suspiro. Mas a sua mente estava ocupada com outros pensamentos mais longínquos. A corveta navegava ao largo da costa ocidental de África, tendo passado as Canárias, e o tenente do exército português tentava imaginar como seria o seu futuro próximo, consciente de que ia a caminho da maior aventura da sua vida.
Uma sombra silenciosa deslizou no convés e aproximou-se por detrás do tenente, levando-o por reflexo a girar nos calcanhares das botas regulares que usava com o uniforme caqui de campanha. Todavia, antes de conseguir ver alguém, ouviu uma voz de mulher.
— Boa noite, tenente."
segunda-feira, 27 de Novembro de 2006
Pré-publicações - 2
Cena 1
Entram Camilo e Arquídamo.
ARQUÍDAMO – Se alguma vez, Camilo, visitardes a Boémia numa ocasião semelhante à que me trouxe aqui, vereis que existe, como já vos disse, uma grande diferença entre a Boémia e a Sicília.
CAMILO – Creio que no próximo Verão o rei da Sicília pretende retribuir ao rei da Boémia a visita que lhe deve.
ARQUÍDAMO – A amizade entre nós irá justificar tudo aquilo em que a nossa hospitalidade nos possa envergonhar; porque, na verdade ...
CAMILO – Por favor ...
ARQUÍDAMO – Digo livremente a verdade por tudo aquilo que sei. Não poderemos ousar tamanha magnificência – tão singular, que não tenho palavras. Dar-vos-emos bebidas narcotizadas, para que os vossos sentidos não se apercebam das nossas falhas; e ainda que não possam elogiar-nos, também não hão-de censurar-nos.
CAMILO – Tendes um apreço excessivo pelo que vos é dado de livre vontade.
ARQUÍDAMO – Acreditai que digo apenas o que o pensamento me dita e a honestidade me impõe.
CAMILO – O rei da Sicília nunca será excessivamente hospitaleiro para com o rei da Boémia. Foram criados juntos na infância, o que enraizou neles uma amizade, que jamais deixará de florescer. Se outras responsabilidades e imposições da realeza os separaram, as suas relações, ainda que não pessoais, têm-se mantido oficialmente através da troca de presentes, cartas e embaixadas amistosas, como se ambos continuassem juntos, embora ausentes, apertassem as mãos sobre a imensa distância ou se enlaçassem num abraço que fosse de um canto ao outro dos ventos. Os céus guardem esta amizade!
ARQUÍDAMO – Penso que nada há neste mundo, nem mal nem razão, que possa alterá-la. Tendes o indiscutível apoio do jovem príncipe Mamílio. Jamais conheci nobre algum mais promissor.
CAMILO – Estou plenamente de acordo convosco na esperança que nele temos. É um rapaz destemido, alguém que anima os súbditos e revigora os velhos corações. Os que já andavam de muletas antes de ele nascer, querem ainda viver até ele ser homem.
ARQUÍDAMO – De contrário, não se importariam de morrer?
CAMILO – Não ... se não tivessem qualquer outro pretexto para querer viver.
ARQUÍDAMO – E se o rei não tivesse um filho, eles iriam viver de muletas até ele o ter.
Saem"
Mini-entrevistas/Série II - 65

LC
- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
A blogoesfera ocupa o lugar do café dos finais do sec. 19. Frequentado por tipos diferentes, do pouco letrado ao erudito, do sério ao humorado, do especialista ao generalista, do militante ao diletante, do anónimo ao identificado, uns sentam-se sozinhos, outros partilham a mesma mesa e alguns dão dois dedos de conversa aqui e acolá: são os links do século passado.
Apesar do aspecto descontraído, todos querem ver e alguns querem ser vistos. Muitos olham com distanciamento para os outros, em postura blasé, mas levantam o tom de voz para se fazerem ouvir nas mesas vizinhas. De novo, os links.
Além da multidão de desconhecidos, há as mesas vip onde só se senta com convite, com direito a sitemeter acelerado. Uns vestem trajes discretos mas de bom corte, outros optam por um estilo mais arrojado: mostra-me o teu template, dir-te-ei quem és.
Lá no fundo do café, se virem uma mesa discreta em tons de açafrão e vozes animadas, posso ser eu.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues ?
Creio que segui a ocupação do Iraque praticamente através dos primeiros blogs e principalmente através da Coluna Infame, mas nunca deixei de ler jornais. Há blogs que acompanhei com maior frequência durante as eleições legislativas e presidenciais ou no caso dos cartoons dinamarqueses, no entanto, há alguns temas de carácter local e regional que me interessam e que não são discutidos na blogoesfera.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Desconfio que um blog corresponde ao ponto de cruz da minha mãe. São hobbies que mantemos e que muitas vezes nos desviam a atenção do que nos incomoda, do que nos preocupa e que nos distrai. Claro que depende do “registo” que escolhemos, ou melhor dizendo, do “tom dos blogs”, como lhe chamaste.
Assim como o ponto cruz, o tom dos blogs pode ir do tom pastel ao vermelho vivo, de um registo calmo ao quezilento, do ingénuo ao matreiro, do simplório ao eloquente, em matizes várias e texturas distintas. Não há semana que não tenha vontade de liquidar o meu blog, mas assim como no ponto cruz, não há semana que não se pegue na agulha e na linha.
A verdade é que conheci pessoas que dificilmente viria a conhecer se não fosse a blogoesfera. Fiz amigos, conhecidos, recebo palavras simpática e alguns enxovalhos. A blogoesfera pode ser, por vezes, um local agressivo, mas já se sabe, quem anda à chuva, molha-se.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
A blogoesfera é um espaço de liberdade, que cobre um conjunto de temas que a vida política e artística não consegue representar. É um universo muito rico e que tem permitido a entrada de muita gente interessante e que não tinha acesso aos media convencionais.
É uma novidade que sai fora do quadro habitual dos cartões VIP. Na blogoesfera, dez valores, são dez valores. Um blog pode aguentar-se artificialmente por uns tempos, mas, se não tiver qualidade ou alguma singularidade, não resiste por muito tempo.
Quanto a isso de ser livre ou não, cada um fale por si.
domingo, 26 de Novembro de 2006
O maior - 1

sábado, 25 de Novembro de 2006
Pré-publicações - 1

e
Essas compras eram feitas com o dinheiro que a minha mulher poupava. Comprava copos e talheres, saleiros e pimenteiros, galheteiros de azeite e vinagre, molheiras, argolas para enfiar guardanapos.
Naquela tarde, a Marta já estava casada e morava ainda na casa perto da oficina. A minha mulher e a Maria passeavam-se pela feira da Luz. Era a claridade de uma tarde de setembro. Sorriam, analisavam objectos que não pensavam comprar e perguntavam:
- É a quanto?
Atravessaram a rua dos sapatos e das roupas para verem as modas. A Maria tinha uma mala a tiracolo. A minha mulher tinha uma mala de napa enfiada no braço. Pararam ao pé de um carrossel para comprarem uma fartura e, enquanto comiam, com óleo e açúcar à volta da boca, olhavam as crianças que faziam birras e escutavam a música estridente que os altifalantes distorciam.
Passaram por tendas de cadeiras e cestos de verga. A minha mulher segurou uma colher de pau e perguntou:
- É a quanto?
E chegaram a uma tenda que vendia toda a espécie de loiças. Havia cães de loiça, pintados de dálmatas, sentados, com olhos ternos. Dava vontade de lhes fazer uma festa na cabeça fria de cerâmica. Havia uma fonte de loiça que tinha luzes de várias cores e que funcionava com um mecanismo que fazia com que não parasse de jorrar água. Havia pratos de pendurar na parede a enfeitar e havia pratos de trazer a uso. Havia travessas. E havia terrinas.
O olhar da Maria foi imediatamente atraído por aquela terrina. Levantou a tampa para ver o seu interior e para segurar a concha de loiça, que tinha um cabo esculpido de flores. A pega da tampa eram três rosas com pétalas de cerâmica. As pegas da terrina eram também feitas de rosas. Em vários pontos da terrina e do prato onde estava assente, havia rosas pequenas e botões de rosa esculpidos e pintados com minúcia.
A Maria olhou para a minha mulher como se não tivesse coragem de pedir. A minha mulher olhou para ela, virou-se para o tendeiro e perguntou:
- É a quanto?
E perguntou se não baixava o preço, ele disse que não podia, ela repetiu a mesma pergunta, ele baixou o preço e a minha mulher tirou o porta-moedas da mala.
O homem ficou a embrulhar cada peça da terrina em folhas de jornal, enquanto dizia:
- Fica muito bem servida.
As lâmpadas já estavam acesas nos postes, mas ainda não era de noite. O fim da tarde era o céu que escurecia o seu próprio azul. O tendeiro regalava-se a embrulhar o prato da terrina numa folha de jornal e a acomodá-lo no saco de plástico. Regalava-se a repetir frases que já tinha dito mil vezes. A minha filha sorria e a minha mulher respondia palavras casuais com grande esperteza.
Foi essa terrina que o marido da Maria levantou com as duas mãos. Segurou-a pelo prato, segurou-a à altura do peito e, com toda a força, atirou-a para o chão num instante de absoluto silêncio. Os pedaços da terrina ficaram espalhados e inúteis por todo o chão da cozinha; da mesma maneira, ficaram espalhados os botões, os alfinetes, as pontas de lápis, os pedaços de brinquedos e todos os objectos sem uso que estavam guardados no seu interior."
Soi-même comme un autre

Mini-entrevistas/Série II – 64

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Leandro Gejfinbein, gaúcho de Porto Alegre mas habitando o Rio de Janeiro, 28 anos. Publicitário, especialista em Psicologia na Comunicação. Arquiteto de informação e analista de produto na Globo.com. Co-criador da Verbeat.org.
- O que é que lhe diz a palavra "blogosfera"?
sexta-feira, 24 de Novembro de 2006
O velhinho D66

Mini-entrevistas/Série II – 63

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Daniel Oliveira, colunista (http://arrastao.weblog.com.pt/).
quinta-feira, 23 de Novembro de 2006
Escrito há 80 anos

Mini-entrevistas/Série II – 62

LC
- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera?
Cornucópia de pessoas que se escrevem e se lêem.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
O furacão Katrina, entre o final de Agosto e o princípio de Outubro de 2005. Visitadora frequente dos blogues dos brasileiros Alex Castro e Idelber Avelar, ambos a viver em Nova Orleães, pude acompanhar por outro prisma que não o das cadeias de televisão o impacto da tempestade, o processo de evacuação, a dimensão da destruição da cidade, a criação de redes de apoio através dos próprios blogues, o já famoso resgate de Oliver e o lento regresso a uma certa normalidade.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Li blogues durante cerca de um ano, antes de criar o Quatro Caminhos (http://quatrocaminhos.blogspot.com/). Percebi que não iria trazer nada de novo ao meio, mas queria um canto neste espaço, para me pôr à prova, num registo escrito com pretensões literárias. Enfim, a assunção desse querer foi-me importante. Como o foram, também, o integrar o colectivo d’O Amigo do Povo (http://o-amigodopovo.blogspot.com), e o início ou o estreitamento de relações com outros bloggers.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Livre? Talvez um pouco mais livre que outros instrumentos de comunicação de massas, sim. Cada um posta o que quer, assina ou não. O que é evidente é que essa liberdade não cataliza, necessariamente, comunicação de qualidade."
quarta-feira, 22 de Novembro de 2006
Mini-entrevistas/Série II – 61

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Tiago Barbosa Ribeiro, sociólogo (http://kontratempos.blogspot.com/ e http://ppresente.blogspot.com/).
- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
O conceito de ‘blogoesfera’ remete-me para uma multiplicidade de redes e interdependências que se cruzam nesse espaço pleno de dinamismo que são os blogues, embora hierarquizando-se internamente. Exercendo-se numa lógica tutelar de democracia radical, a blogoesfera alimenta-se de várias blogoesferas que não têm a mesma visibilidade nem a mesma legitimidade. É algo difícil de ultrapassar, na medida em que o progressivo alargamento de um mapa diário de blogues exigirá mais de nós naquilo que é porventura o nosso bem mais escasso: o tempo. Daí que exista um núcleo central de blogues que são em larga medida a blogoesfera, alheia aos milhares de blogues que chegam todos os dias à rede. Esses blogues estão quase todos associados à produção de opinião social e política, citando-se mutuamente e limitando a projecção de novos blogues. É algo perceptível, para o que também contribuo de uma forma ou de outra, mas não sei se isso será negativo em si mesmo porque não há aqui qualquer filtro que imponha essa direcção. Decorre do entendimento dos autores já existentes sobre a qualidade de um novo blogue e da capacidade que ele tenha de se afirmar nos debates em curso. Não basta a alguém criar um blogue para entrar na blogoesfera, há que ser lido. E se é certo que alguns dos bloggers mais conhecidos o são pela capitalização de uma imagem que já detinham noutros domínios sociais, é líquido que muitos outros se afirmam a partir do seu interior. Acredito que um bom blogue terá sempre leitores, sobretudo entre os outros bloggers. Ou a partir deles.
- Seguiu algum acontecimento nacional ou internacional através de blogues?
Exclusivamente, não. E provavelmente nunca o farei, porque não é esse o potencial que neles quero explorar. Interessa-me menos uma tradução factual da realidade, em registo meramente informativo, do que reter os vários eixos que essa realidade me pode oferecer no âmbito de uma opinião livre e bem informada. Há muito que os blogues são parte inalienável das minhas leituras diárias sobre o real, mas não creio que os blogues possam ter -- ou sequer devam -- qualquer lógica concorrencial em relação à generalidade da imprensa clássica. Esse preconceito, aliás, está instalado em alguma imprensa. O que importa salientar é que os blogues têm um papel crítico, de problematização e questionamento, que supera em muito aquilo que os jornais têm para oferecer isoladamente. E aí os jornais deveriam estar mais abertos a tudo o que a blogoesfera propicia em diálogo com eles, porque é sobretudo no domínio da opinião e de ruptura com as lógicas viciosas do «senso comum esclarecido» que a blogoesfera é imprescindível para qualquer actor atento da nossa esfera pública actual.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Talvez na gestão do tempo quotidiano. Passei a integrar os blogues nos meus hábitos diários: quer ao nível das leituras, quer ao nível da produção de conteúdos.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Formalmente, sim. Não existe virtualmente ninguém, nas nossas sociedades democráticas, que não possa abrir um blogue e publicar o que bem entenda. Claro que isso possui uma dupla direcção, porventura perversa, mas que sempre existiu em todas as outras plataformas de edição prévias à rede mundial de computadores: o anonimato. Multiplicam-se os rasgos de bloggers anónimos que «denunciam» episódios obscuros, processos judiciais, plágios literários, conspirações políticas e outras urdiduras mais ou menos fantasiosas. Isso não deve ser confundido com bloggers que, pela sua posição específica (profissional ou outra), necessitam de um pseudónimo para publicar os seus posts. Evidentemente, não há forma de controlar conteúdos escritos sob anonimato que lançam anátemas e que minam o debate, como de resto senti personalizadamente pelas posições que tomei durante a recente ofensiva de Israel contra o Hezbollah. Talvez a indiferença seja uma boa forma de lidar com esses epifenómenos e, pela minha parte, nunca cito ou referencio a ligação para blogues dessa natureza.
terça-feira, 21 de Novembro de 2006
Mini-entrevistas/Série II - 60

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Paulo Pinto Mascarenhas, jornalista, director da Revista, Atlântico, 40 anos (http://revista-atlantico.blogspot.com/).
- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
Mercado, talento e liberdade. Não necessariamente por esta ordem. Para qualquer editor ou director de um meio de comunicação social que conheça o meio, a blogosfera pode ser em primeiro lugar um campo extraordinário de contratação - descoberta ou reconhecimento - de novos e antigos talentos que, por uma outra razão, não têm (ou não tinham) espaço nos meios tradicionais. E representa mais liberdade, no sentido em que alarga o campo da opinião e até da investigação “jornalística”. Num país pobre, com um povo dado a poucas leituras, com grupos de comunicação social muito fechados sobre si mesmos, a blogosfera acrescenta liberdade de expressão.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Apenas através dos blogues, julgo que nenhum. Mas já segui acontecimentos sobretudo nacionais que surgiram nos blogues e daí partiram para outros meios de comunicação. Um dos últimos foi o caso do blogue Freedom to Copy vs. Miguel Sousa Tavares. E segui muitos outros também - ou sobretudo – através dos blogues. As reacções à Guerra no Iraque, diversas eleições nacionais e internacionais, por exemplo.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Impacto virtual. Trabalho sempre com um computador à frente, é o meu principal instrumento de trabalho, mas rouba-me também horas de família e descanso em casa. É um vício, mas até agora sem contra-indicações.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Editorialmente é livre, só que isto não quer dizer que cada um de nós não tenha motivações próprias para lá estar e que estas possam decorrer das nossas outras ocupações “cá fora”, sejam profissionais, políticas ou pessoais. O que não se pode dizer é que os blogues sejam objectivos editorialmente, mas quem é que pode afirmar que os outros meios de comunicação o são? Desde que o “bloguiador” não esconda a sua identidade, as suas convicções e as suas diversas motivações, existe sempre liberdade editorial.
segunda-feira, 20 de Novembro de 2006
Pré-publicações

Leia aqui o que vai estar nas bancas dentro de dias
O Miniscente vai iniciar dentro de alguns dias uma nova rubrica dedicada apenas a pré-publicações. Embora o leque de editoras interessadas seja bastante razoável, há já cinco que confirmaram a sua efectiva colaboração: Campo das Letras, Colibri, Presença, Mareantes e Vercial. A intenção é clara: intensificar o papel da blogosfera como mediadora activa entre os mundos da edição on e offline. Até breve!
Mini-entrevistas/Série II – 59

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Bruno Sena Martins (http://avatares-de-desejo.blogspot.com/).
- O que é que lhe diz a palavra "blogosfera"?
domingo, 19 de Novembro de 2006
Não sei porquê
e... mas lembrei-me da minha avó paterna o dia todo.
sábado, 18 de Novembro de 2006
Mini-entrevistas/Série II - 58

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é João Pedro Pereira (http://www.jppereira.com/engrenagem/).
- O que é que lhe diz a palavra "blogosfera"?
sexta-feira, 17 de Novembro de 2006
Mini-entrevistas/Série II - 57

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Altino Torres, 40 anos, Consultor (http://food-i-do.blogspot.com/).
- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
A palavra "blogosfera" diz-me muito, quantitativamente e qualitativamente. Porquê? Porque nestes últimos 3 anos passei a escrever muito mais, a ler muito mais, e, neste último caso, descobri uma janela enorme onde posso refrescar a minha alma através da descoberta de novos pontos de vista, novos poemas, novas emoções. Portanto e em resumo, a palavra "blogosfera" significa abrangência. Penso que não consigo encontrar significado melhor.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Bom, essa questão merece uma resposta concreta, sendo que não é possível seguir-se determinado acontecimento apenas através dos blogs. Em todo o caso posso adiantar que segui com especial interesse o último conflito Israel-Líbano nos blogs e apenas no que diz respeito ao confronto ideológico e religioso que acabou por fazer o alinhamento quase geral de todas as entradas nos blogs sobre o dito conflito.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
O maior impacto que os blogs tiveram na minha vida pessoal foi sem dúvida eu um dia ter escrito um post a anunciar que fizera uma petição. Como é sabido essa petição correu o mundo lusófono e eu acabei a passear-me nos telejornais do dia. Mas o grande impacto desse momento não foi curiosamente "esses quinze minutos de fama". Foi precisamente o contrário, saber regressar a uma condição de perfeita simplicidade e anonimato e poder afirmar hoje que não fui capaz de me ter aproveitado rigorosamente de nada nem de ninguém com quem falei, e continuar, isso sim, a exercer uma vida cívica com todas as venturas e desgraças que são próprias de um cidadão desde sempre comum. Isso deu-me que aprender, digamos assim.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
A blogosfera é, de facto, a forma de expressão editorial mais livre que eu conheço. É tão livre que permite até que sejam perseguidos bloggers devido ao caso casa pia, por exemplo, é tão livre que permite que se difame sobre quem quer que seja e é tão anonimamente livre (anónimo no sentido de desconhecido) que permite de quando em vez uma espreitadela para alguém que se destacou num belo poema, num bom texto, numa boa fotografia. É essa a liberdade pura da blogosfera. A liberdade de se criar.
E como nem tudo são rosas, essa liberdade editorial também provoca os seus monstrinhos como é o caso da edição de alguns livros que, sinceramente, nunca o deveriam ser e só o são precisamente porque nem o editor nem o autor estavam a pensar no "Livro", em rigor, quando decidiram que podiam ganhar uns trocos com determinada coisa que aparecia em determinado blog. E aí, nesse ponto, eu sou fundamentalista. Detesto o lixo, pronto.
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Entrevistas anteriores: Série I - Carlos Zorrinho, Jorge Reis-Sá, Nuno Magalhães, José Luís Peixoto, Carlos Pinto Coelho, José Quintela, Reginaldo de Almeida, Filipa Abecassis, Pedro Baganha, Hans van Wetering, Milton Ribeiro, José Alexandre Ramos, Paulo Tunhas, António Nunes Pereira, Fernando Negrão, Emanuel Vitorino, António M. Ferro, Francisco Curate, Ivone Ferreira, Luís Graça, Manuel Pedro Ferreira, Maria Augusta Babo, Luís Carloto Marques, Eduardo Côrte-real, Lúcia Encarnação, Paulo José Miranda, João Nasi Pereira, Susana Silva Leite, Isabel Rodrigues, Carlos Vilarinho, Cris Passinato, Fernanda Barrocas, Helena Roque, Maria Gabriela Rocha, Onésimo Almeida, Patrícia Gomes da Silva, José Carlos Abrantes, Paulo Pandjiarjian, Marcelo Bonvicino, Maria João Baltazar, Jorge Palinhos, Susana Santos, Miguel Martins e Manuel Pinto e Jorge Mangas Peña. Série II – Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano e Altino Torres. Amanhã: José Pedro Pereira. Agenda da próxima semana (20/11 4 25/11): Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira e Leandro Gejfinbein.
quinta-feira, 16 de Novembro de 2006
Gratidões blogosféricas

Haverá pescoço no universo?

Mini-entrevistas/Série II - 56

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Rui Semblano, pintor e designer gráfico, 43 anos (www.asombra.blogspot.com).
- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
A primeira vez que contactei com os weblogs foi por ter lido um artigo de um jornal, em 2003, que focava o fenómeno, então ainda um meio explorado por relativamente poucos mas notórios "bloggers", como Pacheco Pereira, já mencionado no dito artigo. Aderi aos "blogs" naturalmente, como uma extensão da minha escrita diária a tinta e em papel - que não dispenso - sendo uma forma de intervenção directa na sociedade que me agrada bastante, pois nunca ficamos indiferentes ao que lemos, ainda que o processo seja subconsciente. A interactividade da "blogosfera", seja interna ou externa, proporciona um meio fabuloso de troca de informações, mas, para mim, é sobretudo o carácter pessoal do "blog" como espelho de quem o escreve e edita que me atrai. Existem momentos de verdadeiro prazer na leitura ou observação dos "blogs" que sigo usualmente, e cada vez que descubro um "novo" (para mim ou mesmo novo) é um acontecimento. A "blogosfera lusa" (como gosto de chamar à que por cá existe) já é um universo de paixões, de notícias, de interesses mais pessoais ou mais abrangentes, que exige algum esforço e dedicação a quem nela voga, agora muito ajudado pela tecnologia dedicada que entretanto se desenvolveu. Apesar do interesse despertado pela "blogosfera" no meio exterior, em especial nos meios de comunicação social, ela é e sempre será um universo próprio dos "blogonautas", sejam eles "bloggers" ou simples visitantes-leitores, embora com tendência a abrir mais e assim influenciar mais gente à medida que o uso da Internet se propaga e vulgariza. O maior obstáculo ao usufruto pleno deste espaço continua a ser a velocidade de acesso; uma vez ultrapassado, a explosão será maior ainda.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Apenas através de "blogs" nunca segui nenhum. Mas já aconteceu, em casos ocorridos no estrangeiro, ter partido dos "blogs" para a imprensa ou televisão, também estrangeira, quando não existe cobertura nacional de determinados casos. Isto é comum em questões sensíveis, como as alterações climáticas ou o conflito israelo-árabe. O facto é que a "blogosfera" pode ser ponto de partida, chegada ou passagem, mas considero um erro seguir um determinado assunto apenas nesse ambiente. Há demasiada paixão, o que a torna tão interessante e cativante. E em termos de pesquisa, é como ter um exército privado de investigadores que vasculham a Internet em busca de novidades; exército em que cada "blogger" milita a seu modo. Neste aspecto, a "blogosfera" é fantástica.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Já estive afastado da "blogosfera" por dois períodos, um dos quais por completo e durante longo tempo. Nessas alturas apercebi-me de como os "blogs" (em especial o meu) me faziam falta. Após uns meses de actividade "blogosférica", as amizades, as leituras e os processos que se desenvolvem nesse espaço tornaram-se uma parte tão integrante da minha vida como ler o jornal ou ouvir rádio ou ver um filme. Não escolhi estes três exemplos gratuitamente.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Inteiramente. Os casos em que a opinião transmitida é "comprada" são muitos e auto-evidentes, mas na esmagadora maioria, o "blogger" escreve o que sente e o que pensa sem necessidade de "incentivos". Apesar de toda a publicidade que suporta serviços aparentemente gratuitos como os motores de edição que se usam na "blogosfera" (e que na realidade rendem milhões!), ela não interfere directa ou indirectamente com o conteúdo dos "blogs". Resta saber até quando será assim, mas acredito que, salvo uma catástrofe social em que se percam todas as liberdades individuais (e convém não esquecer que a Internet nasceu de um projecto militar secreto), a "blogosfera" saberá permanecer livre e terá meios para se manter como tal.
e
Entrevistas anteriores: Série I - Carlos Zorrinho, Jorge Reis-Sá, Nuno Magalhães, José Luís Peixoto, Carlos Pinto Coelho, José Quintela, Reginaldo de Almeida, Filipa Abecassis, Pedro Baganha, Hans van Wetering, Milton Ribeiro, José Alexandre Ramos, Paulo Tunhas, António Nunes Pereira, Fernando Negrão, Emanuel Vitorino, António M. Ferro, Francisco Curate, Ivone Ferreira, Luís Graça, Manuel Pedro Ferreira, Maria Augusta Babo, Luís Carloto Marques, Eduardo Côrte-real, Lúcia Encarnação, Paulo José Miranda, João Nasi Pereira, Susana Silva Leite, Isabel Rodrigues, Carlos Vilarinho, Cris Passinato, Fernanda Barrocas, Helena Roque, Maria Gabriela Rocha, Onésimo Almeida, Patrícia Gomes da Silva, José Carlos Abrantes, Paulo Pandjiarjian, Marcelo Bonvicino, Maria João Baltazar, Jorge Palinhos, Susana Santos, Miguel Martins e Manuel Pinto e Jorge Mangas Peña. Série II – Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves e José Bragança de Miranda. Agenda desta semana (13/11 a 18/11): João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres e José Pedro Pereira.
quarta-feira, 15 de Novembro de 2006
Imagens inesperadas

Blogues e Meteoros - 9

Uma coisa é um blogue dar atenção ou dedicar-se à poesia, outra coisa é a sobrevivência na rede da poética tal como (culturalmente) a entendemos. Para expiar angústias, passo a apresentar uma breve cartilha em sete pontos sobre o futuro da ciberpoética. E por saber que o “miedo no es sonso”, como escreveu Borges em El Libro de Arena (1975), daqui a cem anos vamos ver se não acertei em cheio:
2 – A autoria da ciberpoética tenderá cada vez mais a descolar de marcas individuais. Assistiremos ao regresso e triunfo do palimpsesto de várias entradas e autorias. Esta sobreposição será mais sincrónica - várias autores ao mesmo tempo - do que diacrónica, no sentido em que um texto profético medieval era rescrito secularmente (por exemplo, a Sibila Tiburtina existiu intertextualmente entre os séculos III e XV, num quadro discursivo ex eventum que se ia adaptando às mais diversas circunstâncias históricas).
3 – A identidade do poético viverá cada vez mais do contraste com as zonas da rede baseadas na informação transitiva (quando a função se resume a designar, indicar, noticiar, difundir ou publicitar visando alvos tangíveis e reconhecíveis). A ciberpoética será, ao invés, aquele aquário de linguagem que não visa nenhum objecto específico e que apenas se refere a si próprio. Este contraste é parecido com o que é estabelecido no mundo offline entre as chamadas zonas funcionais e aquelas zonas onde o design se alia ferozmente à eficácia.
4 – A ciberpoética deixará de significar em função de um contexto prévio. Isso quer dizer que um cibertexto poético passará a criar cada vez mais o seu próprio contexto, deixando de haver um “de fora” e “um de dentro” rígidos tal como acontecia e acontece na vida offline (o caso de um livro ou de uma escultura no espaço público);
5 – Tal como a organização da rede não é centrada, também as linhas que organizam o cibertexto poético deixarão de estar presas a um centro ou a uma finalidade óbvia. Por natureza, o cibertexto poético passará cada vez mais a desdobrar-se e a irradiar nos interfaces da rede.
6 – A ciberpoética acabará com a tradição milenar que concebeu a poética como uma ocupação linear do espaço. No mundo online, a noção de sequência e de linearidade explodirá cada vez mais na direcção da multimodalidade e da coexistência dos registos que procedem das mais variadas origens.
7 – A ciberpoética será cada vez mais incorpórea: a comunicação pela comunicação, a volatilidade, a corrente de ar passageira. O poeta Carlos Bessa disse-o por palavras simples: “Quando cheguei/ à escola era a guerra, o/ cimento, o petróleo. Agora,/ é a comunicação, o chewing/ gum”.
Mini-entrevistas/Série II - 55

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje a convidada é Rititi (Rita Barata Silvério - http://www.rititi.com/).
- O que é que lhe diz a palavra "blogosfera"?
A blogosfera é uma sala de estar cheia de cantinhos onde todos podem entrar e ser ouvidos. Permite chegar a opiniões e maneiras de pensar muito originais, brilhantes e antes limitadas ao papel ou à conversa de bar. Há fufas, poetas no desemprego, compradoras cumpulsivas, taradas hormonais, velhos com piada, gente que só fala de bola, leitores de Borges, liberais, tauromáquicos, malta do tunning e saudosistas. Dispersa a importância de certos temas, inflacionados talvez pelos meios de comunicação tradicionais, e permite que se criem novas polémicas, inúteis, esquecíveis e divertidas. Como em qualquer sala de estar também há gente mal educada, burra e cheinha de si que não suporta não ser o centro das atenções, mas isso não é culpa da blogosfera, que só é um suporte, mas sim da estupidez de quem está mal em todo o lado.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
O concurso "Grandes Portugueses", a degradação informativa da incombustível Elsa Raposo ou o nascimento do semanário «Sol».
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
A Oficina do Livro editou o "Livro da Rititi", selecção de posts do meu blogue, o Pedro Rolo Duarte convidou-me para escrever no DNA e conheci pessoas muito interessantes, generosas e inteligentes, acedo todos os dias a autores geniais, aprendo de outros. Acho que é impacto suficiente para uma cidadã de classe média.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Que tipo de edição é possível na publicação de textos pessoais a não ser a do bom gosto, o pudor, a educação ou a vergonha de cada um? A blogosfera só pode ser editorialmente livre por isso é normal que cada blogger escolha se aceita ou não comentários, se devem ser ou não moderados ou se deve aceitar qualquer tipo de opinião na caixa dos comentários.
e
Entrevistas anteriores: Série I - Carlos Zorrinho, Jorge Reis-Sá, Nuno Magalhães, José Luís Peixoto, Carlos Pinto Coelho, José Quintela, Reginaldo de Almeida, Filipa Abecassis, Pedro Baganha, Hans van Wetering, Milton Ribeiro, José Alexandre Ramos, Paulo Tunhas, António Nunes Pereira, Fernando Negrão, Emanuel Vitorino, António M. Ferro, Francisco Curate, Ivone Ferreira, Luís Graça, Manuel Pedro Ferreira, Maria Augusta Babo, Luís Carloto Marques, Eduardo Côrte-real, Lúcia Encarnação, Paulo José Miranda, João Nasi Pereira, Susana Silva Leite, Isabel Rodrigues, Carlos Vilarinho, Cris Passinato, Fernanda Barrocas, Helena Roque, Maria Gabriela Rocha, Onésimo Almeida, Patrícia Gomes da Silva, José Carlos Abrantes, Paulo Pandjiarjian, Marcelo Bonvicino, Maria João Baltazar, Jorge Palinhos, Susana Santos, Miguel Martins e Manuel Pinto e Jorge Mangas Peña. Série II – Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves e José Bragança de Miranda. Agenda desta semana (13/11 a 18/11): João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres e José Pedro Pereira.
terça-feira, 14 de Novembro de 2006
Mini-entrevistas/SérieII - 54

LC
Não gosto. Deriva da velha ideia, que encontrei quando comecei a blogar, de uma "comunidade" bloguística, com algo de comum e específico. Mero mito, pois. E altaneiro (e, paradoxalmente, juvenil). Felizmente essa coisa da "comunidade" vem a ser menos referida. Repare-se, p.ex., que ninguém diz "mediaesfera" (ou mídiaesfera, venha o diabo e escolha), "literatoesfera" ou coisas assim. Há "bloguismo", uma actividade que usa um meio de comunicação. Talvez mais transitório que outros que lhe são anteriores, cada vez mais me parece. Ou talvez apenas cansaço meu. E nessa actividade coisas e gentes muito diversas.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Não sei qual(is) o(s) acontecimento(s). Mas muitos. Vivendo longe de Portugal e não lendo os jornais não-desportivos os blogs deram-me primeira (e quantas vezes única) notícia de muitos acontecimentos nacionais, um verdadeiro regresso a Portugal após anos de distância. São, aliás, muito melhor forma de saber Portugal do que os jornais (que deixei de ler).
Quanto a acontecimentos internacionais talvez mais importante do que notícias são algumas reflexões (a lula brasileira via Origem das Espécies é um exemplo de algo que chega em primeira mão, ainda assim).
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Mau impacto. O meu início do bloguismo correspondeu a uma fase familiar de maior apelo doméstico. Nesse contexto a paixão bloguística inicial conduziu a um encerramento excessivo, a um ensimesmamento. Muito prejudicial à minnha actividade profissional, terrorista da vida familiar.
Em assuntos mais superficiais permitiu compreender que o que escrevia tinha menos apelo do que cheguei a pensar.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Quando aí houve uma polémica sobre a liberdade de expressão (aquando das caricaturas dinamarquesas sobre Maomé) escrevi-o repetidamente. A liberdade de expressão é sempre relativa, a sua defesa enquanto absoluta é uma mera falácia. Nesse sentido o bloguismo é livre. Depende da agenda de cada bloguista. Há homens livres há homens que não o são. Daí que haja bloguistas que blogam livres e outros que não o sabem ou podem.
e
Entrevistas anteriores: Série I - Carlos Zorrinho, Jorge Reis-Sá, Nuno Magalhães, José Luís Peixoto, Carlos Pinto Coelho, José Quintela, Reginaldo de Almeida, Filipa Abecassis, Pedro Baganha, Hans van Wetering, Milton Ribeiro, José Alexandre Ramos, Paulo Tunhas, António Nunes Pereira, Fernando Negrão, Emanuel Vitorino, António M. Ferro, Francisco Curate, Ivone Ferreira, Luís Graça, Manuel Pedro Ferreira, Maria Augusta Babo, Luís Carloto Marques, Eduardo Côrte-real, Lúcia Encarnação, Paulo José Miranda, João Nasi Pereira, Susana Silva Leite, Isabel Rodrigues, Carlos Vilarinho, Cris Passinato, Fernanda Barrocas, Helena Roque, Maria Gabriela Rocha, Onésimo Almeida, Patrícia Gomes da Silva, José Carlos Abrantes, Paulo Pandjiarjian, Marcelo Bonvicino, Maria João Baltazar, Jorge Palinhos, Susana Santos, Miguel Martins e Manuel Pinto e Jorge Mangas Peña. Série II – Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves e José Bragança de Miranda. Agenda desta semana (13/11 a 18/11): João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres e José Pedro Pereira.
segunda-feira, 13 de Novembro de 2006
Mini-entrevistas/Série II – 53

LC
- O que é que lhe diz a palavra "blogosfera"?
A memória nostálgica de um tempo em que, com toda a imodéstia, praticamente a criei. Na companhia de Pedro Lomba e Pedro Mexia. A criança chamava-se "A Coluna Infame". Depois foi o dilúvio.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Nenhum em especial. Os únicos blogues que sigo e leio não seguem acontecimentos nacionais ou internacionais. Apenas pessoais.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Através deles conheci amigos que leio e prezo. Como um tal de Luís Carmelo.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Não existem formas de expressão editorialmente livres. Por cada palavra escolhida há sempre um critério e uma sentença.
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Entrevistas anteriores: Série I - Carlos Zorrinho, Jorge Reis-Sá, Nuno Magalhães, José Luís Peixoto, Carlos Pinto Coelho, José Quintela, Reginaldo de Almeida, Filipa Abecassis, Pedro Baganha, Hans van Wetering, Milton Ribeiro, José Alexandre Ramos, Paulo Tunhas, António Nunes Pereira, Fernando Negrão, Emanuel Vitorino, António M. Ferro, Francisco Curate, Ivone Ferreira, Luís Graça, Manuel Pedro Ferreira, Maria Augusta Babo, Luís Carloto Marques, Eduardo Côrte-real, Lúcia Encarnação, Paulo José Miranda, João Nasi Pereira, Susana Silva Leite, Isabel Rodrigues, Carlos Vilarinho, Cris Passinato, Fernanda Barrocas, Helena Roque, Maria Gabriela Rocha, Onésimo Almeida, Patrícia Gomes da Silva, José Carlos Abrantes, Paulo Pandjiarjian, Marcelo Bonvicino, Maria João Baltazar, Jorge Palinhos, Susana Santos, Miguel Martins e Manuel Pinto e Jorge Mangas Peña. Série II – Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves e José Bragança de Miranda. Agenda desta semana (13/11 a 18/11): João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres e José Pedro Pereira.
domingo, 12 de Novembro de 2006
O problema do contorno

e
Creio que para pensar os blogues há que tentar ser radicalmente livre face às correspondências que aparecem diante de nós como inevitáveis.
d
O universo comunicacional criado pelos blogues (entre a tentação do sublime e o horribilis) é de tal forma novo e singular que qualquer tentativa para o caracterizar deverá estar mais atenta aos seus impactos específicos do que propriamente a essas ou outras correspondências de tipo imediato.
sábado, 11 de Novembro de 2006
Mini-entrevistas/II Série - 52

LC
e
- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
sexta-feira, 10 de Novembro de 2006
Perceber a realidade

Encarar a realidade

A actualidade terrorista

Mini-entrevistas/Série II - 51

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Bruno Alves (http://www.desesperadaesperanca.com).
t
- O que é que lhe diz a palavra "blogosfera"?
Pouco mais que uma palavra que, por convenção, designa o conjunto de pessoas que por aqui andam.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Não há nehum acontecimento que tenha seguido exclusivamente através dos blogs. Estes são essencialmente um espaço de opinião, e só de forma secundária de informação.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Passei a ter ainda menos tempo e vontade de interagir com o mundo real.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Sim. A única limitação é a da vontade e capacidade do autor do blog, e a aceitação do que este produz pelos seus leitores. Mais livre que isto é impossível.
e
Entrevistas anteriores: Série I - Carlos Zorrinho, Jorge Reis-Sá, Nuno Magalhães, José Luís Peixoto, Carlos Pinto Coelho, José Quintela, Reginaldo de Almeida, Filipa Abecassis, Pedro Baganha, Hans van Wetering, Milton Ribeiro, José Alexandre Ramos, Paulo Tunhas, António Nunes Pereira, Fernando Negrão, Emanuel Vitorino, António M. Ferro, Francisco Curate, Ivone Ferreira, Luís Graça, Manuel Pedro Ferreira, Maria Augusta Babo, Luís Carloto Marques, Eduardo Côrte-real, Lúcia Encarnação, Paulo José Miranda, João Nasi Pereira, Susana Silva Leite, Isabel Rodrigues, Carlos Vilarinho, Cris Passinato, Fernanda Barrocas, Helena Roque, Maria Gabriela Rocha, Onésimo Almeida, Patrícia Gomes da Silva, José Carlos Abrantes, Paulo Pandjiarjian, Marcelo Bonvicino, Maria João Baltazar, Jorge Palinhos, Susana Santos, Miguel Martins e Manuel Pinto e Jorge Mangas Peña. Série II – Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone e Paulo Gorjão e Bruno Alves. Amanhã: (durante o fim-de-semana): José Bragança de Miranda. Agenda da próxima semana (13/11 a 18/11): João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres e José Pedro Pereira.
quinta-feira, 9 de Novembro de 2006
Mini-entrevistas/Série II - 50 (act.)

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Paulo Gorjão, docente universitário e investigador, 37 anos (http://bloguitica.blogspot.com).
e
- O que é que lhe diz a palavra "blogosfera"?
Associo a palavra blogosfera a uma comunidade, ainda em evolução, cujos actores interactuam entre si, embora nem sempre de forma explícita, e que tem as suas próprias regras e códigos de conduta.
Associo igualmente a um instrumento, importante, de intervenção cívica.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Não sigo nenhum acontecimento nacional ou internacional 'apenas' através de blogues, tal como hoje em dia não sigo nenhum facto apenas através da comunicação social. Dito isto, sem ser 'apenas' através de blogues, as campanhas para as eleições legislativas e presidenciais foram dois momentos em que segui com especial atenção aquilo que ía sendo escrito nos blogues.
O maior impacto tem sido o conjunto de pessoas com quem tenho vindo a manter contacto e com quem nunca teria tido qualquer interacção se não tivesse um blogue e se não lesse blogues.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Acredito que não é nem mais nem menos livre do que outras formas de expressão editorial. A blogosfera é apenas um instrumento e cada um faz dele o uso que quer. Tal como acontece com outros instrumentos.
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Entrevistas anteriores: Série I - Carlos Zorrinho, Jorge Reis-Sá, Nuno Magalhães, José Luís Peixoto, Carlos Pinto Coelho, José Quintela, Reginaldo de Almeida, Filipa Abecassis, Pedro Baganha, Hans van Wetering, Milton Ribeiro, José Alexandre Ramos, Paulo Tunhas, António Nunes Pereira, Fernando Negrão, Emanuel Vitorino, António M. Ferro, Francisco Curate, Ivone Ferreira, Luís Graça, Manuel Pedro Ferreira, Maria Augusta Babo, Luís Carloto Marques, Eduardo Côrte-real, Lúcia Encarnação, Paulo José Miranda, João Nasi Pereira, Susana Silva Leite, Isabel Rodrigues, Carlos Vilarinho, Cris Passinato, Fernanda Barrocas, Helena Roque, Maria Gabriela Rocha, Onésimo Almeida, Patrícia Gomes da Silva, José Carlos Abrantes, Paulo Pandjiarjian, Marcelo Bonvicino, Maria João Baltazar, Jorge Palinhos, Susana Santos, Miguel Martins e Manuel Pinto e Jorge Mangas Peña. Série II – Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone e Paulo Gorjão Amanhã: Bruno Alves. Durante o fim-de-semana: José Bragança de Miranda. Agenda da próxima semana (13 a 18/11): João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres e José Pedro Pereira.
quarta-feira, 8 de Novembro de 2006
Mini-entrevistas/Série II - 49

LC
- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
Não gosto muito do termo, mas habituo-me a ele com o tempo. É um modo de designar um meio, mais social do que especificamente técnico, de forma simples.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Como não considero polémicas entre blogues acontecimentos (no sentido que julgo que está a dar ao termo), penso que não houve nada que seguisse apenas e só através de blogues.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
O maior foi retomar contactos que tinha perdido. Mas suspeito que se me perguntasse o mesmo noutro dia diria que foi conhecer textos (de pessoas que não conheço) que de outro modo muito dificilmente leria. As duas coisas vão, felizmente, linkadas.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Sim, embora nenhuma liberdade seja absoluta e isso nos leve à questão da responsabilidade, à do insulto, à do anonimato, etc., etc., na linha aliás de tudo o que se pode (e deve) observar a respeito de qualquer liberdade, nos blogues e fora deles. Mas a liberdade praticável nos blogues, pelo que vejo, não suscita muita reflexão sobre estes temas, até porque a reflexão tende a dar lugar à discussão dos temas na moda nos media tradicionais, nos quais a auto-reflexão tambem não é propriamente grande. Mas vejo que estou a escrever um post que já escrevi várias vezes.
terça-feira, 7 de Novembro de 2006
Mini-entrevistas/Série II - 48

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Paulo Querido, jornalista, 46 anos (http://pauloquerido.net/).
- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
Numa palavra? Confusão. Num período? A combinação de tecnologias de auto-edição com os egos inflamáveis de milhares de estreantes na comunicação de massas provocou um terramoto comunicacional de assinaláveis proporções cujas ondas de choque estão a transformar inexoravelmente uma mão cheia de indústrias. Se não for a combinação de tecnologias de selecção e escolha com a capacidade de discernimento dos indivíduos, o ruído sobrepor-se-á à mensagem tornando-se nela e deixando a humanidade entregue ao desnorte do instantâneo e do virtual. A blogosfera aumentou a confusão e com ela aumentou a escolha. Mais do que antes da Internet, o homem precisa de flappers entre ele e a realidade.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Nenhum. Acontecimentos dessas ordens de grandeza não podem ser seguidos apenas através da "sabedoria das multidões". O blogger comenta, opina, curto-circuita ou retro-alimenta uma informação e com isto contribui para aperfeiçoar o mosaico de escolhas, realçando as pistas certas e erradas. Mas -- excepto casos pontuais que confirmam a regra -- não se espera do blogger a reportagem dos acontecimentos. Não tem a instrumentação para tal. Nem há (ainda?) ferramentas para apurar da blogosfera as sínteses sem as quais não existe informação.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Não foi directamente através deles, como nos casos de estudo, mas sem os blogues não teria conhecido a minha mulher.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Ah, é então uma questão de fé! Nesse caso, acredito.
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Entrevistas anteriores: Série I - Carlos Zorrinho, Jorge Reis-Sá, Nuno Magalhães, José Luís Peixoto, Carlos Pinto Coelho, José Quintela, Reginaldo de Almeida, Filipa Abecassis, Pedro Baganha, Hans van Wetering, Milton Ribeiro, José Alexandre Ramos, Paulo Tunhas, António Nunes Pereira, Fernando Negrão, Emanuel Vitorino, António M. Ferro, Francisco Curate, Ivone Ferreira, Luís Graça, Manuel Pedro Ferreira, Maria Augusta Babo, Luís Carloto Marques, Eduardo Côrte-real, Lúcia Encarnação, Paulo José Miranda, João Nasi Pereira, Susana Silva Leite, Isabel Rodrigues, Carlos Vilarinho, Cris Passinato, Fernanda Barrocas, Helena Roque, Maria Gabriela Rocha, Onésimo Almeida, Patrícia Gomes da Silva, José Carlos Abrantes, Paulo Pandjiarjian, Marcelo Bonvicino, Maria João Baltazar, Jorge Palinhos, Susana Santos, Miguel Martins e Manuel Pinto e Jorge Mangas Peña. Série II – Eduardo Pitta e Paulo Querido. Amanhã: Carlos Leone.
segunda-feira, 6 de Novembro de 2006
Mini-entrevistas/Série II - 47

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Eduardo Pitta, escritor, 57 anos (Da Literatura).
Define, com propriedade não isenta de ironia, o espaço público online ocupado pelos blogues.
— Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Para responder com franqueza, nenhum. Como a ronda dos blogues vem depois dos jornais da manhã (seis, todos em edição online: dois portugueses, dois espanhois, dois ingleses), à partida não há surpresas. No entanto, casos pontuais, como os das últimas eleições legislativas e presidenciais, deram azo a que os pudesse ver como “barómetro” de uma certa opinião, naturalmente orientada, menos por ideologias do que por interesses. Com as inevitáveis excepções da praxe, que são sempre duas ou três, e raramente mais do que isso, os blogues legíveis são feitos por gente de algum modo associada à (ou agarrada aos bordos da) classe dirigente: assessores da Casa Civil da Presidência da República, actuais ou antigos deputados e ministros, “spin doctors”, cientistas políticos, altos funcionários, magistrados, historiadores, sociólogos, jornalistas, antropólogos, professores universitários, colunistas, advogados, economistas, arquitectos, gestores da área económica, artistas, escritores, etc. Uma espécie de “caixa de ressonância”, em tempo real, da opinião “letrada”. Escrutínio praticamente inexistente (os interesses não deixam). Nos intervalos da emoção há textos com que aprendemos. Isso é bom.
— Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
O impacto? Roubam-me tempo...
— Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Depende do que se entenda por editorialmente livre... Veja. Como é que um chefe de gabinete, um juíz, um auditor do ministério das Finanças, o director de um jornal, um professor auxiliar, um colunista, e por aí fora, muitas vezes inscritos no partido A ou B, ou dependendo directamente de interesses “fortes”, como é que essas pessoas, assinando com o seu nome, podem ser editorialmente livres? As omissões dão a exacta medida da margem de manobra de cada um.
e
Entrevistas anteriores: Série I - Carlos Zorrinho, Jorge Reis-Sá, Nuno Magalhães, José Luís Peixoto, Carlos Pinto Coelho, José Quintela, Reginaldo de Almeida, Filipa Abecassis, Pedro Baganha, Hans van Wetering, Milton Ribeiro, José Alexandre Ramos, Paulo Tunhas, António Nunes Pereira, Fernando Negrão, Emanuel Vitorino, António M. Ferro, Francisco Curate, Ivone Ferreira, Luís Graça, Manuel Pedro Ferreira, Maria Augusta Babo, Luís Carloto Marques, Eduardo Côrte-real, Lúcia Encarnação, Paulo José Miranda, João Nasi Pereira, Susana Silva Leite, Isabel Rodrigues, Carlos Vilarinho, Cris Passinato, Fernanda Barrocas, Helena Roque, Maria Gabriela Rocha, Onésimo Almeida, Patrícia Gomes da Silva, José Carlos Abrantes, Paulo Pandjiarjian, Marcelo Bonvicino, Maria João Baltazar, Jorge Palinhos, Susana Santos, Miguel Martins e Manuel Pinto e Jorge Mangas Peña. Série II – Eduardo Pitta. Amanhã: Paulo Querido.
domingo, 5 de Novembro de 2006
Retrovisor - 15

AFA
e
Extractos de posts que dão conta do olhar (prevenido ou desprevenido) do blogger sempre que contempla pelo retrovisor a paisagem da blogosfera
"Eu gosto muito da Wikipédia, de vez em quando vou lá procurar coisas e dá-me jeito. Dantes era snob em relação a ela, hoje já não. Acho giro, bom, democrático, útil."
André Belo (26/09/06)
e w
Qualidade da vista: Telescópica
Estado da viajante: Redentor.
Tipo de espelho: Côncavo, a caminho da generosidade.
Tom (linguagem vs. rede): Adagio, embora com o pathos controlado.
Outras impressões: Foi na Holanda de seiscentos, por força dos novos dispositivos ópticos e também da indústria do vidro, que surgiu uma nova visibilidade. As novas vistas evoluíram rápida e experimentalmente do infinitamente pequeno ao estelar (do microscópio ao telescópio). Estes prodígios próprios de uma ‘Holanda voadora’ levaram Vermeer, Steen e Rembrandt, entre muitos outros, a trocar a grande narrativa de sempre pela mais elementar observação do quotidiano: anatomias, interiores de casas, corpos, afazeres domésticos ou públicos. Esta reviravolta também tem a sua história na rede. A pouco e pouco, a inscrição de dados deixou de se enquadrar em narrativas fixas (blogues de referência, sites de crédito, fontes autorizadas e tradicionais do mundo offline) para passar a ser pura circulação de dados, mobilidade autorial e partilha de palimpsestos sempre provisórios. As fontes foram-se tornando em novos baldios, no seio dos quais a letra desliza e o coração se reencontra entre a compulsão e o efémero. É por isso que a singular reviravolta do André não é um passo de dança isolado. Longe disso: o novo salão de baile é orbital, multiplanar e avança para além dos limites do próprio salão ao som de uma música tecno que vai recriando o grande barroco, embora já sem tutela divina ou leibniziana. O novo Deus é a permanente actualização e expansão da rede. Afinal, uma suave recriação do Big Bang.
sábado, 4 de Novembro de 2006
Retrovisor - 14
Extractos de posts que dão conta do olhar (prevenido ou desprevenido) do blogger sempre que contempla pelo retrovisor a paisagem da blogosfera
"O Insurgente deixou a plataforma Blogger para erguer o seu próprio espaço. Está agora com um template muito simpático e com uma arrumação notável."
JCS/Lóbi do Chá (19/10/06)
Ficha Técnica
Qualidade da vista: Clara como a água benta.
Estado da viajante: A arrumar a tenda no oásis.
Tipo de espelho: redondo, manejável e transportável.
Tom (linguagem vs. rede): Obviamente Allegro.
Outras impressões: Encontrar o seu próprio espaço: ora aí está um sinal histórico fundamental que terá ligado o fim do nomadismo ao esboço das primeiras cidades, onde os deuses e os homens conviveram ao som de flautas. Uma urbanização é sempre uma sintaxe ou uma ordem (os gregos fizeram da disposição do exército no campo de batalha a palavra “sintagma”). Quer isto dizer que a cidade acabou por recriar o espaço através de uma “arrumação” para que se pudesse caminhar entre áleas, arruamantos, jardins, linhas de água e depois atingir a praça, o ponto de encontro e o centro (menir, fórum, catedral, botequim, colombo, whatever). Na blogosfera, curiosamente, entre uma pluralidade de centros, a mitologia mantém-se. Só que o plano geral passou a obedecer ao “template”, essa matriz substancial do gosto, do conforto, do savoir vivre e sobretudo da “notabilidade”. E assim o Insurgente se refez cidade. E assim o Lóbi se fez voyeur de tal vista, de tal amplitude revivida. De como uma simples nota – uma notícia levemente judicativa – se transforma naquilo que Blumenberg designou por “reocupação” (Umbesetzung), isto é, o modo como o mito se faz e refaz, reocupando sempre as mesmas questões, as mesmas marcas e os mesmos argumentos intemporais.
sexta-feira, 3 de Novembro de 2006
Miles Davis na memória

Polémica rija
Manos James
Mini-entrevistas/Série II

LC
Quando blogar é ficção apetecida - 2
e
Extractos de posts de natureza ficcional a que apetece criar o início e o fim do enredo, ou tão-só desfrutar o pousio em media res
"Estar a estudar, janela fechada, luz acesa, serem quase sete da tarde, a luz declina no céu que hoje foi sendo cada vez mais cinzento. Esta palavra desequilibra a frase, mas o ensaísta não quer saber, responde-me de lá que o pensamento é mais rápido do que a palavra justa, ele continua à desfilada, levanto eu a cabeça a reconsiderar. O vento bate na laranjeira."
Retrovisor - 13

AFA
r
Extractos de posts que dão conta do olhar (prevenido ou desprevenido) do blogger sempre que contempla pelo retrovisor a paisagem da blogosfera
"Há quatro anos o Pedro Mexia, o Pedro Lomba e o João Pereira Coutinho não tinham, de certeza, a noção que se preparavam para mudar vidas (perdoem-me o jargão evangélico).
Tiago Cavaco (13/10/06)
e
Ficha Técnica
Qualidade da vista: Tão límpida, quanto nostálgica.
Estado da viajante: Folgadamente evocador. De quem sabe olhar para as estrelas.
Tipo de espelho: Liso, embora marcado pela espessura do olhar.
Tom (linguagem vs. rede): Oscila entre Largo, Lento e Adagio.
quinta-feira, 2 de Novembro de 2006
Mini-entrevistas/Série II

O zelo numa sociedade (muito) aberta
Retrovisor - 12

AFA
e
Extractos de posts que dão conta do olhar (prevenido ou desprevenido) do blogger sempre que contempla pelo retrovisor a paisagem da blogosfera
"Este já foi um blogue sobre Timor, mas não é um blogue sobre Timor. Teve momentos, mas não é um blogue sobre Medicina. Fala-se muito de política, mas não é um blogue sobre política. Fala-se de tudo, mas não é um «blogue sobretudo». Se fosse um blogue na moda, seria um não-blogue. Mas nem isso - isto é «tipo um diário»."
João Moreira Pinto / T1+1 (Header)
e
Ficha Técnica
Qualidade da vista: Caleidoscópica.
Estado da viajante: Decidido e também contemplativo.
Tipo de espelho: Levemente recurvado: côncavo e convexo ao mesmo tempo.
Tom (linguagem vs. rede): Apenas Moderato.
Outras impressões: Um cabeçalho – o “Header” – de um blogue é como um gigante néon aceso no ponto de encontro entre várias vias que atravessam os mais distintos planos. A blogosfera é a gradativa urbanização de um deserto quase sem fim. De nó para nó, neste vórtice de distâncias em cascata, vê-se de longe em longe o cromatismo intenso dos “Headers” e o agitado movimento das partidas e chegadas. Nem sempre o “Header” tem como função designar, referir ou apresentar; por vezes, basta-lhe parodiar ou simbolizar o próprio espaço que representa. Os olhos do blogger já reconhecem há muito estes efeitos e desajustes, já os interiorizaram, e não se inibem, por isso mesmo, de continuar a percorrer as vistas do novo universo entre órbitas e escalas sucessivas. Ao fim e ao cabo, o que conta é a actualização permamente de cada blogue, a sua textura “diária”, o seu afã quotidiano. É o que se passa, também, com o T1+1.
quarta-feira, 1 de Novembro de 2006
Mini-entrevistas/Série II
eNa próxima semana, vai iniciar-se a segunda série das "Mini-entrevistas" do Miniscente. Desta vez, serão os bloggers os entrevistados. A coisa promete, claro está.
Retrovisor - 11

AFA
e
Extractos de posts que dão conta do olhar (prevenido ou desprevenido) do blogger sempre que contempla pelo retrovisor a paisagem da blogosfera
"BILHARDICES / No cabelereiro de homens como num blogue."
Miguel Marujo (11/10/06)
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Ficha Técnica
Qualidade da vista: Curta, embora o espelho reflicta o locus do ponto de vista.
Estado da viajante: Aquieto e paciente. Na expectativa de uma ou outra derrapagem.
Tipo de espelho: Liso, mas marcado já pelo tempo.
Tom (linguagem vs. rede): Um Andantino ao ritmo de Edward Scissorhands.
Outras impressões:
Naquele tempo, o barbeiro enchia a curvatura da vida. Lembro-me que havia um cigano alto e magro todo contente pelo Benfica ter ganho ao Real Madrid de Di Stéfano por 4 a 1. As vozes cadenciavam o mutismo e, do outro lado do cigano, um sujeito seco de testa larga falava – como se as palavras fossem passos de gaivota na areia - dos longos cabelos da mulher há muito falecida (e que haviam resistido até ao dia em que os ossos se removeram das profundezas da terra). A cultura do barbeiro durou pelo menos até aos tempos da Banda do Casaco. Depois veio a paneleirice – passe o tom erudito do termo – e os cabeleireiros abriram-se ao gender e multiplicaram-se como os pães, o design e outros milagres mais ou menos liofilizados. Não quero dizer com isto que a comparação do Miguel nos remeta apenas para a cor diáfana do copo de leite, ou tão-pouco para a rara salubridade da vida em estado de blogue. Mas, como diria a mãezinha de Di Stéfano: “Pero que las hay, hay”. De facto, com música de fundo, com tesouras eléctricas, com links infindos, com YouTube e tudo… nada já há que se compare com a antiga oralidade da barbearia: aí as vistas ainda eram largas e perdiam-se na mitologia e na prestidigitação memorial. Hoje, a vista que se pode abarcar a partir do cabeleireiro masculino ou dos blogues tem pelo menos uma coisa em comum: a vida imparavelmente encenada dentro do próprio espelho.
Por LC |



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