Um em cada dez portugueses vai ser formando de
Bill Gates. Sempre que leio trocadilhos pouco saudáveis numa polémica é nisso que penso.
De facto, a euforia geral com a chegada de
Vasco Pulido Valente ao mundo blogosférico tem alguma razão de ser. Com testa fixa no horizonte, letra a letra, ei-lo a soletrar com voz de arrasar: "
O liberalismo é belo, mas não há liberal praticante que seja eleito". E a máxima, já agora, ultrapassou em pouco tempo os vinte comentários. É a silenciosa vitória da hermenêutica.
B.C.
e
No The Spectator (sem links específicos) que me chegou hoje à caixa do correio, há um artigo de Paul Johnson com o seguinte título: " 'Should there be a retiring age for writers?' Discuss". Depois de uma visita guiada, que vai de Chaucer aos escritores de King´s Road dos fifties, segue-se uma conclusão generosa:
e
“(…) looking back on it from the perilous viewpoint of the early 21st century, I don´t see what writers had to grumble about in those golden days: endless newspapers with ample literary pages, magazines and reviews galore, educated readers, literate subs who could spell, publishers´parties every night serving the hard stuff, advances to be had for the asking, Great Men still alive - 'Tom' Eliot, Evelyn, Cyril, Graham, Tony, Osbert, both Osberts in fact - and bouncy, booksy girls like Sonia, Barbara and Edna to sow the seeds of sexual discord. Writers didn´t want to retire in such halcyon times.”
e
Um peixe dentro do seu aquário é um bicho quase cego.
e
e
João Pedro George tem razão,
não duvido. Quem anda nisto há anos e anos sabe que as coisas se passam assim.
Para mim, já é
biscoito que faz parte da normalidade da brincadeira: há quem o atire e há quem o agarre como pode, agilmente.
É por isso que a razão de João Pedro George me parece contundida, demasiado ferida, ou não haverá nela um tom de verdadeira exasperação (apesar de todo o
coro grego em volta)?
Fica a pergunta.
e
Soube pelos jornais que a "UMAR" passou de "União das Mulheres Antifascistas e Revolucionárias" a "União de Mulheres Alternativa e Resposta". Interessante.
"Uma das frases mais liberais (em todas as dimensões do termo) da semana vi-a citada neste debate e provém de um documento que ainda não li com a devida atenção, mas que suspeito dará muito que falar. A frase é: "Não precisamos de um Estado que regule e domine tudo, mas de um Estado que generosamente reconheça e apoie, segundo o princípio de subsidiariedade, as iniciativas que nascem das diversas forças sociais e conjugam espontaneidade e proximidade aos homens carecidos de ajuda". O documento citado é a primeira encíclica de Bento XVI, Deus Caritas Est."
e
(José Manuel Fernandes, Público de hoje, sem links)
Lê-se na capa de
O Jogo de hoje:
e
"O automóvel de Co Adriaanse foi vandalizado por um grupo de adeptos, a soco e a pontapé, quando o holandês abandonava o centro de treinos para regressar a casa, depois do jogo. Um prolongamento selvático para os apupos e insultos ouvidos ainda em Vila do Conde."
e
Não deixa de ser verdade que o populismo político e o populismo desportivo andam muitas vezes, embora nem sempre, de mãos dadas.
E.J. Esperança
E
O degelo sob sol intenso é afinal uma melopeia ténue mas constante. O cão
Ulisses está sentado há largos minutos em local estratégico e já seco a contemplar a animada percussão da natureza.
Sou membro activo de uma claque do Rio Ave em todos dos domingos que coincidam com o dia 29 de Janeiro de 2006. Ontem galvanizámo-nos e só foi pena a anulação daquele belíssimo golo já no final.
o
Todas as fotografias são da autoria de Isabel Bezelga, embora haja nelas alguma aura minha. Ler a primeira da série aqui.
e
Isto é o que aconteceu a uma escultura de José Pedro
Croft em dia de muita neve. A neve fez aumentar certas partes do corpo, enquanto outras se foram diluindo.
e
Lá estou eu, pasmado, atrás das vidraças do meu escritório. A neve faz recuar o mundo da enunciação ao esplendor do seu próprio silêncio. O resto das fotografias falam por si. Coisa única, pelo menos neste local geralmente mais propício à solaridade.
Vivi os primeiros catorze anos da minha vida em Évora e voltei a ter casa por cá há pouco mais de uma década. Mas nunca tinha visto neve nesta cidade. Hoje, no entanto, a manhã acordou branca, branquíssima. Nevou durante mais de três horas. Neste momento, o espectáculo recomeçou. Cai neve copiosamente. Farrapos largos e leves.
Temos andado pela rua de casacão, gorro e luvas - só o cão é que não achou piada à súbita voragem dos céus - e verificámos que as pessoas sorriam e comunicavam com uma extroversão rara. O Alentejo é austero nesse tipo de dádivas. Mas hoje o cenário e o contexto de hibernação alteraram-se. E logo o jogo plástico da cidade, as formas habitualmente cristalizadas e a tímida passividade das pessoas irradiaram de modo único. Continuo a olhar pelas vidraças do meu escritório (a parede virada a nascente é toda de vidro) e o panorama denota o dom de uma graça que vale a pena acolher com gáudio, com prazer e com serenidade.
Nos dez anos que vivi na Holanda isto era habitual. Uma das vistas mais belas que evoco na minha memória é a dos canais gelados repletos de crianças vestidas com cores muito vivas. Este domingo reabre essa chama antiga e fá-la comungar com o vislumbre. As fotografias estão a caminho (há algum trabalho técnico prévio a desenvolver. Até já!).
Parabéns ao Sporting. Venceu bem.
"Para mim o Benfica é tudo e até lá jogaria de borla, se necessário."
Peirce deveria ter realmente razão quando se referia ao papel da abdução. O
Luís Rainha sublinhou o facto com uma conjectura que merece realce (o resto do
intertexto, rede é rede, está aqui para quem quiser ajuizar):
b
"(...) façamos de conta que os palestinianos elegeram mesmo monstros sanguinários que só pensam em explodir autocarros."
Não sei o que preferirei: se a leveza, se a resistência, se a elasticidade, se a transparência. Mas uma coisa é certa: aparecer uma pedra nos rins em tempo de cervejas conventuais é muito ingrato. Pior seria o Benfica não vencer o derby.
e
Filipe: acho que não deverão contar com tal sorte!
Acordar sem leme como se nunca aqui tivesse estado. O vidro quase embaciado, a música transformada em gelo.
A primeira acção do Hamas, depois de conhecidos os resultados eleitorais, foi tentar hastear a bandeira do partido no próprio parlamento palestino. Sei que, a partir de agora, as mudanças vão aparecer na retórica habitual do Hamas, mas não partilho algum do - digamos - optimismo reinante. Há limites para tudo. Nem sempre a real politik significa transformar vinagre em azeite. Não bastava já a palavrosa barbárie de Ahmadinejad, naquilo que é a expressão de anti-semitismo mais exposta, nua e crua dos últimos anos.
e
É um bocado forte, mas é mesmo assim a vida nestes dias já de fim de Janeiro:
e
"Lisboa morre pouco a pouco sob os lençóis
e no outro dia é já trabalho"
e
(Paulo José Miranda, em O Tabaco de Deus, 2002)
A propósito do "Plano Tecnológico" e das possíveis parcerias agora tão discutidas na praça pública, uma jornalista da SIC perguntou há dias ao ministro Mariano Gago se os cientistas do MIT "viriam para Portugal". Ontem, na "Comissão de Assuntos Económicos, Inovação e Desenvolvimento Regional", os deputados perguntaram a Carlos Zorrinho se essas mesmas possíveis parcerias implicariam a edificação de novas infra-estruturas.
Esta inquirição (quase obsessiva) acerca da deslocação ou construção eminentemente físicas ilustra o modo como em Portugal se continua a compreender a optimização tecnológica. Ao contrário da Irlanda que preteriu sempre as infra-estruturas físicas em benefício da implementação funcional da rede e do valor, por cá continuamos a entender tudo o que se nos apresenta diante dos olhos como apenas físico e material (do betão à inevitabilidade "off-line").
e
Uma vez - talvez há uns vinte anos -, iniciei um conto que punha na boca de dois personagens (um homem, outro mulher) uma mesma e única pergunta, sempre que estavam com alguém: "Quer ser meu/minha amante?". Faziam-no com a maior das normalidades, após alguns minutos de contacto com outra pessoa do sexo oposto (fosse na farmácia, no cinema, num balcão de pastelaria, numa visita em companhia de agente imobiliário, na loja de bairro, no aeroporto ou num hall qualquer de uma universidade). Os dois personagens viviam em cidades diferentes e cruzar-se-iam, por coincidência, apenas no final da história.
O que não havia então era mail, net e blogues. Acho que é, pois, altura de reatar este prometedor enredo. É talvez daquelas histórias em que mais vale não contrariar, nem dizer seja o que for, só para ver até onde é que vai. Se calhar não vai mesmo a lado nenhum.
Edward Steichen
r
Quando o Flatiron era um solitário (foto de 1904, embora impressa em 1909). Um século depois, o que é que esta imagem respira? Um tédio que apetece rasgar ao sabor do ócio sem fim. É a minha memória, mas é também a minha imagem do dia. E ambas se confundem. Lembro-me de ter ido comprar, numa livraria das redondezas, dois livros sobre G. Vico. Estão agora ali em minha frente na estante. Não havia ninguém nos passeios, era um sábado à tarde, e o calor do início de Junho estava mais do lado do ócio profundo do que de qualquer brilho entediado. Depois, veio a noite e com ela a redenção mais involuntária que volto a pressentir no olhar de Edward Steichen. Afinal, há uma mesma noite a cruzar o simples parapeito que liga dois séculos.
d
Já escrevi três livros sob pseudónimo. Foram publicados entre 2000 e 2001. Dois deles foram motivo de crítica em jornais nacionais, mas jamais se lhes interrogou a autoria real (nem esse esforço era pedido fosse a quem fosse). Hoje acabei mais um livrinho desse tipo. Vamos ver se corre tão bem como os anteriores. E... por aqui me fico (mentira: somem a esta revelação uma desmedida gargalhada!).
e
Ou... pensavam que só o
Pipi é que tinha direito a...!?
Prosaicamente, devo dizer que prefiro o registo clássico "
Em cima da hora" ao agora repetidíssimo "
Em tempo real". Este último dá a entender que o oposto do
tempo irreal seria uma coisa realmente verdadeira. Já o primeiro aposta no calor do sobrevoo e é aí, de facto, que as coisas importantes da vida acontecem. Posicionamentos. Perguntem ao sol e às estrelas (
There is a star in the sea, and it burns up everything it touches).
Ferdinand e o M. United não podiam ontem ter sido mais pedagógicos para Ronald Coeman. Luisão já sabe, protanto, o que tem a fazer (a um minuto do fim da eliminatória). Só espero que, até lá, não se lembre de fazer tranças.
e
Ilusões: as décimas iam descendo até ao limiar do desfiladeiro. Ficaram-se pelos 50,59% (a 30 e tal mil votos da vertigem).
Estado: Para além das saudações, a questão mais substantiva do discurso de Cavaco Silva foi o realce atribuído ao papel do estado social.
Contribuição: Mais de um quarto do eleitorado de Sócrates (cerca de meio milhão de almas cor-de-rosa) convergiu claramente na maioria que elegeu Cavaco e Silva.
Romantismo: Alegre foi o grande vencedor de um campo que nunca imaginou sequer poder vencer as Presidenciais.
O Caso da Noite: De forma inqualificável, Sócrates ocupou o espaço televisivo de Alegre e as televisões deram cobertura à desnecessária manobra.
Tramóia: A Eurosondagens teve um comportamento miserável, no final da semana passada, que manteve total imunidade durante o longo especial da SIC.
Ressentimento: Soares silenciou as suas próprias feridas, mas não conseguiu ofuscar o tremendo ressentimento da derrota.
Contenção: O PSD foi um vencedor justo, cujo grito se propagou com um eco pleno de quase mutismo.
Simpatia: Jerónimo de Sousa provou a razão que o leva a ser o Rodolfo Valentino de Santa Iria da Azóia.
Delíquio: O CDS-PP venceu uma batalha eminentemente táctica num espaço que não é o seu.
Crédito: Por décimas, o Bloco de Esquerda pôde recuperar os débitos da campanha eleitoral.
KO: O PS sofreu uma das maiores derrotas da sua história: a verdadeira síndrome socialista de Octávio Pato.
Antes da Ordem do Dia: Em tempo real (às 19.08 h.),
José Pacheco Pereira respondia-me: “Neste caso, a lei tem sentido: não divulgar resultados virtuais, enquanto existem votações reais”.
Cátia: Passada a circum-navegação, um bom e pacífico regresso a Évora!
Helena Roseta: E agora, Alegre?
Joana Amaral Dias: E agora, Louçã?
Ovídea de Sousa: E agora, Jerónimo?
Cavaco: a isocronia socrática é o território de uma nova estabilidade política, desejada e pressentida, há algum tempo, pelos dois.
Amanhã, depois das eleições, é dia para voltar a pensar no desígnio bárbaro de Ahmadinejad. Felizmente, o
João (e, também, José Cutileiro) decidiu chamar as coisas pelos seus nomes no
Expresso de anteontem. Não me admiraria que a nossa Europa continuasse a viver no aquário virtual de um limbo que não consegue entender que o diálogo se transforma, por vezes, em pura mortificação.
Jogam Manchester United e Liverpool. A vítima e o candidato a vítima da Liga dos Campeões, como se sabe. A única coisa a dizer, ao fim desta primeira parte, é que a paneleirice (das tranças dos jogadores) está a aumentar (o grande Nelson, por cá, já acabou com isso, enquanto a velada tentação da saída de Simão foi acompanhada com um ligeiro e desculpável toque de cerviz).
Mas... aceitam-se apostas (João: também valem para as eleições de hoje em Cabo Verde?).
Alvin Langdon Coburn (1929)
e
Durante os dias de Janeiro, as folhas dos jarros cresceram. Ao contrário de Paul Valéry, os jarros não pedem nunca desculpa quando falam de si: excedem-se ao exprimir-se, denotam-se ao dizer-se. Apenas a flor branca, por cima, contraída como um antigo vulcão, parece algo tímida. Sinais do dia, afinal.
Hoje, no
almoço blogosférico da Comporta, muito se discutiu e prefigurou. Por exemplo:
e
Manuel Alegre, incompatibilizado com o seu partido, regressará à Argélia para fundar o blogue "
Teixeira Gomes".
e
O
Benfica, o
objecto mais tematizado da nação, foi já claramente entrevisto como bicampeão nacional (mesmo por portistas).
e
Após o
Pulo do Lobo, se for necessário, aparecerá o
Pulo da Loba ainda que não seja para refundar Roma.
e
O
Estreito de Magalhães, no cotovelo mais meridional do planeta, não passa afinal de um plácido mar sem qualquer perigo.
e
eeer
O
Aspirina B, devido à luminosa catadupa da
união de opostos, fez as maravilhas do dia.
e
A ausência mais sentida - mesmo para quem não o conhece face a face - foi, naturalmente, a do
Maradona.
e
O bacalhau com natas estava óptimo, embora a empada de coelho e o ensopado de enguias me tivessem feito crescer água na boca. Vingar-me-ei um dia destes.
e
(houve de tudo, além de um gajo de branco e cheio de frio: Babugem, Blasfémias, Bomba Inteligente, Contra a Corrente, Desesperada Esperança, Destaques a Amarelo, Homem a Dias, J.P. Coutinho, Miss Pearls, O Acidental, O Insurgente, Vício de Forma, Voz do Deserto e What Do You Represent)
Olharmo-nos e ver a idade. Melhor: ver as várias idades que deambulam na árvore da seda.
e
Eu também acho que um electricista, quando vai à minha casa, deve ser bom no que faz. Mas isso não impede que Jerónimo de Sousa o acompanhe à ópera para "
aceder à cultura". Haja liberdade!
e
Não há muitas actividades que se encarem a si próprias como se fossem “slogans” a pairar no espaço público.
Mas quando tal acontece, verifica-se que:
(a) são particularmente convidativas por fazerem depender a sua afirmação de calculados artifícios de linguagem;
(b) denotam uma desmedida vontade de vida e transcendência exclusivas (só se responde, de facto, a um ‘slogan’ com um outro ‘slogan’);
(c) dispensam o princípio lógico que passa pela necessidade probatória dos seus actos e mensagens;
(d) baseiam-se na audácia da repetição (ascendendo daí ao purismo do dogma);
(e) dissimulam ou simulam ‘mundos’, por princípio, quando a si se referem;
(f) adequam-se, através de uma indiscutível ética de ‘auto-dignificação’, a recursos, espaços e meios que são geralmente alheios à sua própria exposição e acção.

eHá duas atitudes para interpretar a cultura, desde que ela se tornou em objecto reconhecível (Herder): ou entendê-la como uma coisa tão natural como a transpiração nos dias de verão, ou entendê-la como uma mera construção.
Poderão existir marcas de intencionalidade que atravessem quer a construção (chamemos-lhe assim) ‘natural’ - a gruta ou a ruína -, quer a construção ‘arquitectada’. No entanto, não há arquitectura, por mais tradicional que seja, que não dependa de circunstâncias, de acasos, de equívocos, de intervenções singularizantes e sobretudo de regras razoavelmente estritas que envolvem quem a habita e significa.
O mundo das actividades hoje em dia consideradas “culturais” entende-se a si próprio a partir de um domínio tácito (como se reflectisse, no seu agir, uma natureza eminentemente estável) e, portanto, próximo do “natural”. Um grande “homem de cultura” corresponde, nesta medida, a uma referência quase platónica que escalou até à luz, ou até à santidade maior da “Ideia”.
Num espaço público cada dia mais acentrado, cada dia mais distante da relação clássica entre auditórios e emissores, cada vez mais baseado num fluxo omnipolitano de imagens em rede, que lugar existirá ainda para uma tal efígie olímpica?
De facto, existe, como se viu (
ver post actualizado sobre o assunto). Mas não existe como já existiu. E, melhor ainda, acontece que deixará de existir como parece ter sempre existido. Ilusão óbvia, mas sempre ofuscada e diluída
por quem legitima o “mundo da cultura” – de modo pretensamente natural -, tal como as abelhas legitimam o seu próprio mel.
Aprecio a ambição, mas não me revejo na expressão por razões de gosto. Aliás, é também por razões de gosto que me afasto de muitas posturas e personagens, sobretudo na arena política. Quem não olhou a meios para "subir na vida" foi Ali Agca que, em 1979, matou um jornalista turco e que, em 1981, tentou matar João Paulo II. Agora, saído da prisão, propõe vários milhões de dólares aos média internacionais para contar a história toda. No fundo, havia que refazer a vida. Grande estratégia. Chapeau.
e
EPC continua a ser em Portugal um dos autores que melhor enuncia aquilo que é a legitimação do "mundo da cultura". Como se disse mais abaixo, a
salvaguarda da plenitude e da própria existência do "grande convento contemporâneo", assim como a sua
profunda crise (a actualidade omnipolitana, hipertecnológica e sobretudo mediática pouco ou nada lhe liga) definem a confusão cada vez maior que existe entre o desespero das clientelas face aos protectorados e a enigmática auto-imagem da cultura como uma pretensa e derradeira forma de "sacralização". Repare-se neste passo epicizante do
Fio do Horizonte acerca de François Mitterrand, desaparecido faz hoje precisamente dez anos (Público de hoje: sem
links):
"E era um verdadeiro homem de cultura. Aliás, com o apoio de Jack Lang, está na origem de algumas das grandes iniciativas culturais dos últimos anos: pirâmide do Louvre, a Cidade da Música em La Villette, a grande biblioteca de França, o arco de La Défense, a Ópera da Bastilha. Apoiou Lang na criação de um verdadeiro modelo de política cultural."
d
A resposta aparece
hoje no DN com palavras de Santana Lopes:
e
"É que, estranhamente, sendo sua a fotobiografia, o Presidente Jorge Sampaio não conta a sua posição na altura sobre o défice (nomeadamente na reunião que tivemos a 13/10/04 e em que me fiz acompanhar pelo ministro das Finanças). Porquê?"
e Na cidade onde nasci (Évora), no fim do século XIX, a iniciativa privada construiu um teatro cujas dimensões ainda hoje são desproporcionadas. A música sobrevivia então em bandas populares e nas aulas de piano que atravessavam as casas mais ricas. Eça viveu por aqui ainda jovem e escrevia de lés a lés todo um jornal (sem grande queda “cultural”) para ganhar a vida – não havia “subsídios” para a juventude com “potencialidades culturais” –, enquanto a fotografia era matéria de pose e as demais artes visuais eram pagas simbólica ou caritativamente sob peso da encomenda (porventura da igreja e de alguns privados). A acérrima defesa do “património” só apareceu mais tarde, com certo pioneirismo nesta terra que, nos anos vinte, já se vendia como “cidade museu”. Na época, o gosto era dominado pelo encanto das “ruínas fingidas”, muitas delas encenadas nos novos passeios públicos e oriundas dos conventos derrubados, um após outro, para abrir novas praças. O estado, por seu lado, não se entendia a si próprio como um guia das coisas da criação (mesmo das artes hoje consideradas “populares”) e muito menos entendia dever gerir aquilo que, hoje em dia, designamos por “actividade cultural”.
Esta história, que tem uma escala mínima, é, no entanto, uma história bem mais geral. Quer isto dizer que a incidência estatal no chamado “mundo da cultura” foi praticamente nula até aos anos trinta do século passado. O modo com que significamos e tematizamos a questão é, pois, ainda muito recente: nela cabem apenas umas três gerações. Sem retirar nada do que escrevi no
‘post’ de baixo – e sabendo que aquilo que designamos hoje por “política cultural” não tem mais do que um efectivo quarto de século de vida -, creio que o
nosso autoproclamado “mundo da cultura” é muito frágil, carente, mas também arrogante e doutrinalmente paternalista, embora ressentidíssimo pelo facto de a actualidade hipertecnológica e mediática não lhe ligar praticamente nada. É devido a essa
quase saída de cena que o nosso pequeno “mundo cultural” anseia como nunca, hoje em dia, ao
dirigismo e ao
protectorado estatal ilimitado.

rExiste um
mundo da
cultura,
ponto final. Um mundo que se autoproclama (tal como um país se proclama) e que tem uma imagem própria claríssima: vê-se, nas sociedades actuais, como a derradeira luz de uma sacralização perdida. Esse mundo da cultura é composto por: (a) uma restritíssima bolsa de arte; (b) um conjunto estável de encenadores, músicos e actores residentes (apesar do nomadismo cíclico); (c) alguns escritores convidados (vão a todas os colóquios oficializantes); (d) um parco número de programadores “culturais” empiricamente certificados; (e) anfitriões vários de subsídios regulares (locais, regionais e nacionais); (f) bolseiros e jurados que distribuem os dinheiros anuais do cinema; (g) alguma encenação concorrencial entre ‘opinion makers’ (o legado dos antigos “intelectuais” e “críticos”); (h) mentores de diversíssimos “patrimónios”; (i) algumas instituições do estado (central e local) e privadas (fundações, etc.); (j) um pequeno recorte dos 'média' (em formatos variados que actualizam o chamado "jornalismo cultural"), (l) uma razoável
rede em grande medida estatal de contratantes de “eventos” (produtores, agenciamentos, adjudicantes, etc) e (m) políticos e patrocinadores que recorrem ao simulacro e à actividade culturais com finalidades óbvias. Tal como na escatologia medieval, o grande convento tem que ser tratado, apesar da fé (da doutrina e do poder da “criação”). Eis, pois, onde deve entroncar a discussão, para além dos caprichos circunstanciais tipo “pós-cultura”: até que ponto se está, ou não, disposto a utilizar recursos públicos para salvaguardar a plenitude e a existência do grande convento contemporâneo?
e
Embora não exista o conceito de gestão corrente no Código das Sociedades Comerciais, a verdade é que a administração de
João Talone decidiu colocar de lado toda e qualquer medida de carácter estratégico (está de saída). É talvez por isso que, ano e meio após a conclusão da obra da minha casa, ainda haja fios eléctricos pendurados por um tijolo que levita, ao vento, ao sol e à chuva (arte mininal pura), sobre o portão de entrada. Desde Julho de 2004 que a EDP tem assim por cumprir a sua própria ordem de serviço. E só hoje percebi porquê! (cada vez nutro mais paixão pelo empreendedorismo monopolista e semi-estatal português).
e
Isto da música portuguesa - só por ser portuguesa - também entrar nas quotas radiofónicas é como uma trovoada sem fim. Já bastam as quotas relativas ao género (mulheres, impérios gay, etc.) e às regiões (insulares e autónomas, norte/ Porto, mito do "interior do país", etc.). Pior do que trovoadas destas só a "TV Cabo" que me desactualizou o cartão da Power Box sem antes ter enviado o novo cartão (como é que, num domingo chuvoso como o de hoje, eu posso passar sem a companhia do Glorioso?). Restam-me os policiais, mas sobre isso não posso ainda dizer nada. Talvez daqui a dois anos, se nessa altura ainda existir Miniscente.
e
Chego a este céu no fim-de-semana. Por baixo: as fontes circulares, os terraços floridos, a vertigem das cercas, as gárgulas, os ocres claros, tons de rosa que esmiuçam fachadas, cisternas, musgos rasteiros, crisântemos, efígies de cal, mas também o prazer da vilegiatura, o memorial sem objecto, a litania sem divindade e a invocação sem quaisquer musas ou meteoros. Enfim, o peso que demorará o tempo para além da impaciência.
e
Sobre as mortes em Meca, resta-nos o silêncio. Um hermético e recatadíssimo silêncio. Mas eu pergunto-me até onde vai o significado desse silêncio tumultuoso. Todos o sabemos, mas ninguém o diz. E creio que não é apenas respeito, nem medo, nem mesmo pudor. É muito mais do que isso.
e
Allen Kosigsberg - Woody Allen.
Alphonso d'Abruzzo - Alan Alda.
Archibald Leech - Cary Grant.
Cherilyn Shakisian - Cher.
Tom Mapother – Tom Cruise.
Bernie Schwarcz - Tony Curtis.
Diane Friesen - Dyan Cannon.
Margaret Hyra - Meg Ryan.
Eugene Orowitz - Michael Landon.
Frances Gumm - Judy Garland.
Issur Danielovitch - Kirk Douglas.
Mauirice Micklewhite – Michael Caine.
Michael Guitosi - Robert Blake.
Shirley Schrift - Shelley Winters.
Walter Matuschanskayaski - Walter Marthau.
e
E no resto, haverá?
e
A presença de Edward de Bono continua avassaladora. É por isso que
Quala-Lumpur entrou subitamente na agenda do nosso quotidiano.
Do comunicado da PT de ontem:
e
“(… ) a PT apurou que a informação foi prestada relativamente aos números solicitados, tendo sido ocultada por um filtro informático os restantes dados referentes a outros números do mesmo cliente - cuja identidade é sempre desconhecida pelos serviços.”
e
Conclusão: a PT não podia jamais ter conjecturado que há "filtros informáticos" que podem ser removidos.
e
Em Portugal pós-Casa Pia pouco já interessa a verdade. O que interessa é o sentido que as coisas ainda conseguem, de vez em quando, ter. E, com coerência, Sampaio lá fez mais um jeitinho à ambiguidade e à redundância. Começou a chover ao fim do dia, a cidade congestionou e o resto - sinceramente - é como se o país apenas sonhasse com a inconsolada voz de Tony de Matos. Pura Sexta, dia 13.
e
Há episódios da infância que são extraordinários. Lembro-me, há muitos muitos anos, teria talvez uns seis ou sete anos, de chegar à conclusão que os números pares e os números ímpares não deveriam existir em paridade. Ou seja, segundo a minha intuição numerológica da altura, o facto de existirem tantos números ímpares quanto números pares corresponderia, porventura, a algo de muito estranho e enigmático que deveria escapar à harmonia da criação. E movido por uma espécie de confiança leibniziana, lá decidi que o algarismo "5" ficaria para sempre - e apenas para mim - a figurar entre o número dos algarismos "pares". Ainda hoje assim é. Como se vê, há códigos neste mundo que são absolutamente silenciosos e restritivos.
Ontem visitei um amigo que tem 82 anos e que vai ser pai daqui a dias. Em casa, era visível aquele ambiente que é próprio dos jovens casais. A felicidade pode remover montanhas (a mãe parecia saída de um conto de fadas).
Raramente vi um ministro tão desarmado, tão fragilmente inconsistente e tão fora do seu papel. A Isabel Pires de Lima, ontem, no Magazine, faltou tudo. A prestação chegou a desencadear aquela empatia piedosa por quem quase não consegue respirar. Nada me move corporativamente contra a senhora - embora discorde de muita coisa da sua actuação -, que conheci numa circunstância bem diferente onde denotou simpatia, elegância e naturalidade e nunca aquele ar de acossadamente indefesa. É por isso que as quotas (por género e região) são a pior invenção do mundo.
De facto, "Lisboa" não basta como motivo político de tiro ao alvo para iludir fraquezas e insuficiências alheias.
Ontem, pela primeira vez - no Politécnico de Abrantes -, Mário Soares abordou a possível inadequação da sua candidatura presidencial. Ter admitido o facto tem, por si só, mais pertinência do que desistir. A realidade poucas vezes terá sido tão clara, goste-se ou não (por mim, não votarei em nenhum dos candidatos): uma parte significativa do eleitorado de Sócrates vai votar Cavaco e Sócrates continuará a viver do inelutável apoio desse eleitorado. Está, pois, traçado o quadro que irá reger a vida política nos próximos três anos. A margem de manobra para uma luta política de jeito só se voltará a colocar já para 2008.
e
Ao contrário do que José Pacheco Pereira
hoje afirma, creio que o "enfado" real que estas eleições carregam e o rico quadro de ilações que suscitam e provocam são coisas que correspondem a níveis e naturezas completamente diversos (são factos que nada têm a ver com perspectivas de
vitória ou
derrota). A primeira decorre da contenda entre um 'não-dito' meio sacrificial que se arrasta há meses e, por outro lado, um conjunto cansativo de práticas de esvaziamento retórico. A segunda está toda ainda em aberto e faz parte do horizonte com que pode já pensar-se a configuração de um novo ciclo político (na parte de cima do
post, prefiguro uma coabitação ao centro com atritos muito dissuadidos no curto prazo, já que a base política legitimadora de Sócrates e Cavaco é bastante comum. A prazo, o centro acabará por se tornar sensível ao inevitável tumultuar do termo da legislatura e aí as posturas de Cavaco e Sócrates tenderão a pulverizar novos
realinhamentos, hoje apenas latentes).
No fundo, além do mais, este é um cumprimento de vizinho a vizinho. É que o Miniscente, pelo menos em metade do seu tempo semanal, mora mesmo na rua ao lado.
Fui ao site da
RTP para tentar saber o que quer dizer o "N" de
RTPN. Consultei o "
Perfil do canal", entre outros elementos informativos presentes, mas o enigma manteve-se.
e
Lembro-me, quando era pequeno, que os cintos das fardas da mocidade portuguesa tinham um "S" na fivela. O meu avô materno, avisado espírito de tradição republicana, dizia-me - bem alto para e quem o quisesse ouvir - que o tal "S" queria dizer "Sabão". No entanto, sempre percebi que era brincadeira e o enigma manteve-se. Até hoje.
e
Como vêem, não são apenas os escritores portugueses que trocam os lexemas do toma toma. A coisa é mais geral e espalha-se no mundo português de A a Z, para que o coma coma se esconda sempre atrás do toma toma. "Português Suave", diria Raul Lino. A falta que nos faz a Natália!
e
A alvenaria branca subitamente imersa pelo céu da trovoada. E o sol, ao de leve, a inclinar-se, ludibriando o cenário e adivinhando a calada fantasmagoria.
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Dupla moral da história (ou da visão): o sexo e a linguagem que diz o sexo são coisas diferentes. O céu de trovoada e a linguagem que diz o céu de trovoada também são coisas diferentes.
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Aliás, o Bataille dizia que a literatura era a expressão peculiar do "mal", embora tal concepção acabasse por exigir uma inevitável "hypermorale".
Lá está.
Gosto da serradura do meu vizinho.
Pina Moura disse que a única ética que conhece é a republicana, isto é: a lei. Ora, se a lei e a ética coincidem desta forma irrevogável, para que é que existe uma e outra? Bastaria uma, portanto: ou haveria lei e dispensaríamos a ética, ou haveria ética e dispensaríamos a lei.
Bem sei que, no primeiro caso, Fragateiro viria para o Teatro Nacional e, no segundo caso, já não viria de certeza. Mas a verdade é que um e outro casos são tão absurdos e paradoxais quanto o é a definição de ética advogada por Pina Moura.
A psicanálise da literatura portuguesa
reapareceu como tema na blogosfera. O holofone centrou-se subitamente na “foleirice” do tratamento sexual que é próprio da “generalidade” dos escritores portugueses. Mas há graciosas excepções: e diga-se que, para além do Al berto, do Luís Pacheco, ou do Mello e Castro dos “Caralhamas e Conemas”, entre muitos outros, é de aproveitar a gala para relembrar o soberbo capítulo 17 do, às vezes esquecido,
Cavaleiro Andante do Almeida Faria. No fundo, o “cu” e o “rabo” sempre andaram de mãos dadas no dizer literário, sendo o primeiro inevitável motivo de folia e figurão e o segundo uma espécie enevoada de nenúfar poético. Sempre que este tema áureo escala ao tampo da mesa – Al berto relembrava-o constantemente, enquanto Lobo Antunes sempre dele fez tábua rasa –, é realmente de estranhar o leque de subtís matizes que conduzem a literatura portuguesa a não inscrever no seu sacralizado intertexo palavras como “cona”, “caralho” ou “foder” (lexemas normalíssimos, se e quando precisos, num Rubem Fonseca ou numa Patrícia Melo - mas isso é outra história). Contudo, os próprios psicanalistas também não as escrevem na sua prosa, muitas vezes bem mais carregada de apetite de risível do que pelo secreto fio da análise. Geralmente, limitam-se a atirar para a exposta arena do ridículo alguns extractos de textos, cujas bainhas facilmente reflectem o gáudio da paródia. Esta modalidade de tratamento dos traumas portugueses – facilmente contaminável num meio como a blogosfera - é, em tudo, homóloga à do tratamento púdico do sexo que é apanágio da maioria dos escritores portugueses (e que nem um título, aparentemente maldito, como
O Amor é fodido chega para disfarçar).
Nunca me lembro, pelo menos em Portugal, de se iniciar uma campanha eleitoral, havendo já a convicção clara e generalizada de que a votação devia ter ocorrido há umas semanas.
Tudo parece tornar-se claramente penoso nos candidatos, a partir desta Segunda-feira: a destroçada voz de Cavaco (muito dos que hoje o apoiam serão amanhã os primeiros a opor-se-lhe), a sobrançaria de Soares, as ocas solenidades de Alegre, a idade do ferro de Jerónimo e as saloiadas do Bloco. Nada disto passa por direita e esquerda, mas antes pela ambiguidade persistente e hipnótica de um centro que, para um lado ou para outro, é sempre asséptico e incolor por natureza.
Muito sinceramente, Sócrates continua a ser o mais lúcido e sarcástico protagonista de todo o leque político português: não só recupera da queda e da crise muito bem resguardado da algazarra inútil, como demonstra ter sido ele o primeiro a perceber, ao jeito de Cameron, que fazer ondas a mais em águas paradas é o pior dos lances da política contemporânea.
Ao contrário de Guterres e de Cavaco, Sócrates dirige o seu governo como um hábil narrador de histórias que dá a ver o que é óbvio, mas não do modo como a larguíssima maioria o poderia esperar. Ou seja, Sócrates tem mostrado como se joga a meio campo à moda de Mourinho, não escondendo nunca - como diz o povo - que o último a rir é sempre aquele que ri melhor.
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Acabei de ler o último romance de Philip Roth.
A conspiração contra a América (2004; tradução na D. Quixote, 2005) relata a ficcionada vitória eleitoral do aviador Charles Lindbergh sobre Roosevelt, em 1940, baseada num programa político pretensamente pacífico e declaradamente anti-semítico que recusa a entrada dos EUA na guerra em curso na Europa. A assimilação e a mobilidade forçadas de crianças e famílias judias americanas – com a complacência romanesca de um imaginado Rabi Bengelsdorf, casado aliás com a tia do narrador, Mrs. Evelyn – arrasta a América para o espectro do
Progrom (apesar das resistências pontuais, como a do jornalista e candidato presidencial Walter Winchell). Quando, já na parte final do romance – em Outubro de 1942 -, o presidente Lindbergh desaparece no avião que costumava pilotar sozinho, o espectro do
Progrom ganha força real e apenas acaba por ser travado com a queda em desgraça do presidente interino que o sucede, Wheeler. Em Dezembro desse mesmo ano acontece
Pearl Harbor e já Roosevelt, entretanto, venceu as eleições que sucedem ao período ficcionalizado por Roth. A partir daí, a história real passa a confundir-se com a que tacitamente se pressupõe até ao início do livro, em Junho de 1940.
A conspiração contra a América não é um romance linear. As sequências são narradas quase sempre por uma criança, o próprio Philip (que projecta nos pais toda a força do sentido), e envolve-se no mundo detalhado e documentadíssimo da época – nem sempre com ritmo verosimilhante, diga-se - e sobretudo nos microcosmos de Alvin e Sandy (primo e irmão do narrador), capazes, um e outro, de cruzar destinos muito diversos e opostos. Não é um romance poético, nem um texto cujo desígnio plástico se torne cativante (as pressões internas e contrárias que constróem os personagens não bastam para adensar esse aspecto). O teor clássico de Roth é ilustrado, neste seu romance, pelo domínio exímio dos materiais e também pela concatenação dos imensos factos e das muitas pequenas histórias que insuflam e animam a consistência e o interesse óbvio do argumento. Não creio que este livro constitua uma criação de excelência que transcenda a exiguidade do nosso “
Parque Mayer” imaginativo, nem tão-pouco um livro que tenha deixado o tempo de leitura ao lema de mal amado. Mas ficou, sinceramente, aquém das expectativas que o tema, por si só, poderia – e pode - criar no leitor mais desprevenido. Até porque o anti-semitismo continua infelizmente na moda: 2006 é, afinal, o ano em que se comemoram cinco séculos do sempre silenciado
Progrom de Lisboa. Para quando uma resposta, ou um aceno breve que seja, a uma
micro-causa sobre o assunto que aqui lancei já por
duas vezes?
É caso para perguntar: dever-se-á apreciar mais a versão do hino norte-americano da autoria de Jimi Hendrix, ou a versão do hino português da autoria da PT?
A capacidade extraordinária de não nos encantarmos e de não nos espantarmos com a ambiguidade é um dos marcos deste início de ano. Outros preferirão falar da soberba, do vazio, ou até da rua escura e vazia onde adormece o vestígio da derradeira folhagem.
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Não sou nenhum apaniguado pelo fundamentalismo eco-patrimonial. Por vezes, chega a atordoar-me o excesso de vazio que povoa certas apologias radicais que apenas existem porque outras causas (relativas às engenharias de salvação universal) se diluíram com o tempo. Mas, tal como escrevi noutro post mais abaixo (sobre Pina Moura), há limites para tudo.
Pois bem, a casa onde morou Garrett vai ser demolida amanhã e, para hoje à noite, está marcada - por isso mesmo - uma vigília na Rua Saraiva de Carvalho. Garrett não foi apenas um pioneiro liberal, um poeta aventuroso, um dramaturgo com densidade, um escritor romântico e um político que deixou obra. Garrett é daquelas primeiras referências do Portugal moderno e cosmopolita que deviam habitar para sempre na nossa memória. Extravasou a nossa escala, tal como Eça e Pessoa, e está muito para além daquilo que, hoje em dia, se auto-designa (amiúde de modo corporativo) por "universo da cultura".
Estou cansado de filantropias facilitistas, mas hoje vou passar pela Saraiva de Carvalho (nem que seja em espírito).
Como evocação, deixo para a posteridade blogosférica este extracto de crónica do autor, retirado do jornal O Cronista de Julho de 1827 (nº21, 22-28):
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“Rara vez na história do Universo apareceu época mais importante, fértil de mais extraordinários sucessos, pejada dos mais transcendentes resultados: nunca o olho do observador político se volveu para o passado com mais espanto, nunca repousou no presente com menos quitação, nunca se estendeu pelo futuro com tanta incerteza. O homem de Estado, suspenso entre o porvir e o pretérito, sente fugir-lhe o momento actual” (...) “O povo português, que tem a ventura, sem exemplo na história modernam de ser guiado neste grande e magnífico certame por seu grande Rei, o povo português, digno desta glória por sua docilidade e moderação, caminha lento, é certo, rodeado de embaraços, por uma estrada minada, semeada de estrepes, bordada de ciladas, mas caminha todavia apesar de tudo isso".
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(Caro Manuel Pinho: o projecto até podia manter os T4s e o T3 previstos, mas a manutenção da fachada e de alguma inscrição referencial não fazia mal a ninguém. Estranhas "ciladas" da história!)
Era um bom poeta e vi-o por uma só vez no local onde morou durante quase trinta e nove anos: no Telhal. Nasceu em Évora, como José de Carvalho, Palolo, Bravo ou Lapa. Uma voz lenta, murmurante, irónica e longínqua:
“Devagar se vai ao longe”
Devagar se vai ao longe
se eu fosse monge.
Mas como não sou monge
devagar não vou ao longe
só monge.Mas como eu também
devagar não quero ir ao longe
por isso também não me fiz monge.
Mas como eu também
não quero que se sonhe
que se ponha em questão
a causa da razão
deste poema devagar se vai ao longe
cujo tema é sobre um monge
então por isso neste caso
já não omisso
faço que se diga com isso
amigo ou amiga
mais vale o prejuízo.
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foto de Miguel Carvalhais
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Foi publicado pela primeira vez por Herberto Helder na conhecida antologia que organizou há duas décadas, Edoi Lelia Doura (1985). O Ar da Manhã (1995), obra matricial do poeta, reúne poemas de vários períodos desde meados dos anos sessenta.
De facto, existem memórias fixas que habitam numa espécie de abismo involuntário. António Gancho, para mim, foi sempre uma delas. Enigmaticamente.
Não sou muito de nacionalismos. Mas para tudo há limites. Por isso, apenas pergunto (o início de ano aconselha o laconismo): o que está
Pina Moura a fazer na Assembleia da República?
O que mais me impacienta no Algarve é o modo normal com que os donos de um restaurante reagem quando vendem peixe podre. Tenho dito.
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(Boas entradas!)