segunda-feira, 2 de maio de 2005

Homicídio silencioso

Um filho de um casal meu amigo - que eu quase vi nascer - morreu num dia em que a bebedeira de um casamento, que lhe era totalmente alheio, o envolveu num jogo de ultrapassagens diabólicas. Tudo o que se passou depois foi de modo a obliterar kafkiana e sistematicamente as ocorrências para que nada se pudesse provar. E com bastante sucesso. De tal maneira que não poderei aqui dar os nomes aos bois. O futuro, já se sabe, é um processo praticamente arquivado, é a persistente mudez das instituições e é, em suma, o inapelável, o silêncio e a dor. Os meus amigos têm muita força, são gente forte e boa, mas, por isso mesmo, sofrem redobradamente. O meu abraço sentido para eles, hoje. Eles sabem porquê.
Uma das mais lúcidas decisões

de Sampaio está tomada: não convocar o referendo do aborto.
Se nós temos uma lei razoável e igual à espanhola, por que vamos ocupar o país com o sexo dos anjos?
Que este contributo (corajoso) de Sampaio contribua para que a iniciativa dos portugueses se torne em qualquer coisa de palpável (ou será que quem decide interromper a gravidez, por alguma razão que não me diz respeito, tem que continuar a ir a Badajoz, ou a esconsos sombrios para fazer florescer um dos mercados mais perversos que há entre nós?).
Quotidianos - 2


Uma pessoa vai muito bem a andar na rua e, por razões ponderosas, evita uma outra (ou seja, à maneira bem portuguesa, vira subitamente o rosto para outro ponto cardial e disfarça a orientação do chamado olhar periférico). Depois, continua a calcorrear o passeio e, sem querer, em jeito de incidente, roça com as costas da mão na inesperada rugosidade da parede. Bem feita: é vê-la, uns metros à frente, a andar com um lenço de papel enroladinho no polegar e no indicador para suster o inadvertido fio de sangue. E essa pessoa era eu.

Quotidianos - 1

Entro na Conservatória, retiro a senha (o número 41 não augura nada de bom) e sento-me à espera da minha vez. Olho em frente e é então que vejo ao vivo o livro de José Gil, na mesma proporção e com a mesmíssima falha que as páginas do filósofo revelam: ausência de método. Isto é, encaro aqueles rostos lusitanos entediados, fartos, saturadíssimos, diria mesmo: para além de melancólicos.
Uma sombra ancestral atravessa quem atende e quem é atendido. Mas trata-se de uma mancha amarga, imensamente padecida, vinda das profundezas da terra. E é assim até que chega a minha vez. Embora o “Guia de Levantamento” já tenha a provecta idade de três semanas, a verdade é que os meus documentos ainda não estão prontos. O rosto da funcionária espelha as caves de Poe. O número 41 celebra este momento ímpar. Podia ter sido o 40, tanto fazia.
Ouvir dizer

Às vezes, ouço dizer que existem "comunicadores" (e o que é isso?). Outras vezes, ouço dizer que há pessoas com grandes capacidades de comunicação (assim já está melhor). Outras vezes ainda, ouço dizer que "eu" - e é isso que me preocupa - "tenho excelentes capacidades de comunicação" (ó diabo!... são, geralmente, alunos. Já se vê).
Mas eu sinceramente não acho. Em público, cada vez mais, a minha vontade é estar em silêncio. Perante o público, cada vez mais, a minha vontade é não fazer sessões de lançamento de livros. Talvez o público seja uma coisa bastante abstracta.
Maio começa assim mesmo: algo confuso e sem auroras boreais.
Faltará uma papoila no meu quintal. É esse o problema.

domingo, 1 de maio de 2005

Torre Liberdade

A obra vai ter que esperar ainda mais alguns meses.
Hoje, as autoridades policiais da cidade de Nova Iorque tornaram públicas algumas preocupações de segurança que vão obrigar a repensar o já delicado cronograma do actual Ground Zero.Tais delongas, mesmo se justificadas, e sê-lo-ão de certeza, em nada alteram um facto decisivo e já consumado. É que este é - e continuará a ser - o local simbólico de maior densidade do planeta.
O que une e divide cada um de nós, hoje em dia, passa seguramente bem mais por este legado contemporâneo do que por outra qualquer divisão clássica (público vs. privado, esquerda vs. direita, real vs. ficção, trabalho vs. capital*, verdade vs. sentido, sujeito vs. objecto, etc.).

* É verdade, o Dia da Mãe fazia-me esquecer que hoje também é o meu dia. Ou... não serei eu, também, um trabalhador!?
Mãe, parabéns!

E lembrar que esta foto romana foi tirada... algumas dezenas de horas após o 09/11! (e o pai também tem todo o direito... a comparecer neste dia, que diabo!)

sábado, 30 de abril de 2005

Paciência asiática


É o indiscutível sinal de que vem aí, mais ano menos ano, a reunificação da grande China. Na fotografia, à esquerda, o líder da oposição de Taiwan, Lien Chan, é recebido pelo presidente chinês, Hu Jintao. Parece claro neste cerimonial quase simétrico o desígnio simbólico de suster a tentação independista do reeleito presidente de Taiwan, o senhor Chen Shui-bian. Depois de dar cartas na liberalização do comércio internacional, a China prepara agora aquilo que há sessenta anos parecia ser uma dissensão irremediável. E fá-lo com habilidade, com tempo, ou seja, com uma ilimitada paciência asiática. Chapeau. Escusado será dizer que esta é mesmo a fotografia da semana. Enquanto discutimos datas de referendos, tramas do Tratado Constitucional e as levas da inútil contracultura anti-americana, eles dançam a valsa como muito bem entendem.

A primeira cyborguização

Ian McEwan

“The novel is supreme in giving us the possibility of inhabiting other minds. I think it does it better than drama, better than cinema. It’s developed these elaborate conventions over three or four hundred years of representing not only mental states, but change, over time.”

Entrevista a Ian McEwan (por Ramona Koval)

sexta-feira, 29 de abril de 2005

Um escritor em sentido



Eu leio pouco, ponto final.
Um escritor que o diga está a cometer uma heresia, uma traição. Pois é, eu sou um traidor e um apóstata consentido. Li bastante ficção em tempos, leio hoje esparsamente, mas nada comparado com o que deveria.
Sim: o dever.
Um dever é parecido com um guardanapo branco que se estende sobre o colo em refeição consular. Um dever é também um estilhaço desprevenido que vem ter com o mais incauto. Um dever é, sem sombra de dúvida, um reflexo de luz perdido ou um passeio ao fim da tarde mergulhado no ócio e na mais pura melancolia. Num dever há tudo isso, amalgamado: um belo guardanapo de linho espalmado e recolhido, uma manobra secreta mas algo involuntária e ainda um paso doble com o próprio destino. E quando um escritor não lê o que deveria ler, como parece ser o caso, o que é que lhe poderá acontecer?
Limpa a Vichyssoise com as costas da mão. Distraído, deixa cair no chão os talheres no meio da maior das ausências. Depois, há-de ver-se a olhar em volta, enfastiado, e afastando as moscas como se fosse de avião no meio de indescritível turbulência. Uma vida sem sentido.
Sinto-me assim há anos e anos e sempre em sofrido e recatado silêncio. É um sofrimento brando, mas lento. Uma espécie de dor de dentes a saber a preguiça. E o nervo anima ainda mais o fino fado das gengivas, sempre que me vejo comparado com os vínculos estatuídos por um Fio do Horizonte, pelos questionários mundanos e habituais do JL, pelas bibliofilias almofadadas de alguns blogues e pelas entrevistas aos jovens escritores que já conseguiram integrar a caravana VIP que se desloca, à conta do orçamento do estado, a todas as feiras culturais do planeta. É uma vida sem sentido.
Estamos todos a viver no seio de uma tradição obesa que reproduz, simula ou afirma com a boca, ou com a pena, que se lê obesamente. António Guerreiro escreveu-o, com outras palavras, é claro, no nosso semanário de etiqueta (impossível lincar), lamentando a terrível vaga globalizadora, a mesma que tem colocado a tricolor francesa nos cabos mais remotos do mundo. Lembro-me, a propósito, que, nas Mitologias barthesianas (daqui a dois anos cumprirão meio século), os escritores em férias eram demoradamente retratados como seres dotados de cachimbos pensantes. Liam tudo, liam como bravos, liam todos os clássicos. Liam como se fossem já e sempre, eles mesmos, clássicos. E depois diziam em coro que “Ceci n´est pas une pipe!”. Só não liam a hemorragia de livros-produto-light que hoje se dão à estampa de sete em sete minutos. Mas estou em crer que se hoje vivessem, esses escritores leriam tudo. Linha a linha, livro a livro, tal como qualquer respeitável comentador semanal ou cronista diário o faz serena e silenciosamente.
Caso contrário, tudo isto seria uma vida sem sentido.
Não é que eu leia assim tão pouco, mas jamais o suficiente. Li o José Gil, é certo, mas só li a entrada do Museu do Louvre do Dan Brown e os halos finais de S. Tomé pela letra de Miguel Sousa Tavares. Para além de ensaios geralmente obrigatórios (nem cito autores porque esses são de facto muitos), nos últimos meses, li Roth, Don DeLillo e algum belíssimo Oz, mas não levei até ao fim o último McEwan ou o já quase ilegível Lobo Antunes (e limitei-me a raspas no que diz respeito a Sebald, Baxter, Bobin, Hoagland, Appery, Cunningham, Nothomb, Wendel, Zuravleff, Delaroche, Pietrzyk, McGarry ou Slavin. Ena tantos!). Depois, confessemo-lo de Guiness na mão, é verdade que existem escritores como Rubem Fonseca ou Patrícia Melo de que jamais acabarei de ler um livro completo, não por enjoo ou sequer tédio, mas porque adoro mastigá-los a meio caminho, como se lhes sorvesse o ritmo, a delonga da intriga e as manobras da linguagem sem nada fazer. Quieto como um pinguim no pólo sul, ou como uma lagartixa no mais denso vórtice de Agosto. Terrível preguiça, a minha.
Pois é: uma vida, afinal, sem grande sentido.
Ou seja: em sentido diante da fúria ridícula e mascarada que manda fazer o que ninguém quase faz.