segunda-feira, 5 de novembro de 2007

O Cirurgião Inglês

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O meu amigo Eduardo Côrte-Real é autor de um dos mais divertidos e consistentes textos sobre design (O Cirurgião Inglês). Para o ler, basta passar pelo site Arte Capital, edição de outro amigo e também arquitecto: João Palla. É raro ver o humor a desenhar, ou a intimar, a mais complexa das cirurgias. Vale mesmo a pena passar por lá.

Cerveja e literatura - 43

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Mais do que curioso: "Uma cerveja no inferno" é a tradução de Cesariny do livro de Rimbaud, "Une saison en enfer". De facto, existem diversas cervejas “Saison” que, quem sabe, vaticinaram este deslizar espumante no título tão inventivo quanto português - e cesarinyiano - da obra. Uma delas em Charleville. Que teria dito Rimbaud? Conhecendo o tradutor, teriam ambos rido e ter-se-iam depois abraçado. Não tenho dúvida nenhuma. E é muito provavelmente o que estarão a fazer neste momento. Até porque o incipit da “Saison” é praticamente apoteótico: “Jadis, si je me souviens, ma vie était un festin où s´ouvraient tous les coeurs, où tous les vins coulaient” (não, neste caso, não tenho o prazer de ter em casa a tradução portuguesa).
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Jean-Arthur Rimbaud, Iluminações / Uma Cerveja no Inferno; tradução: Mário Cesariny; Lisboa, Assírio & Alvim, 1999-2007)

domingo, 4 de novembro de 2007

Episódios e Meteoros - 55

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(crónica publicada desde anteontem no Expresso Online)
(ver também no meu blogue de crónicas)
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Philip Roth terminou o seu romance Casei com um comunista (1998) com uma frase lapidar: "As estrelas são indispensáveis".
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O comunismo mais ingénuo sempre sonhou, à moda dos místicos milenaristas, com um mundo perfeito. Longe dessa asa de cisne imaculada, ficava a barbárie, ou pelo menos a carne e o osso da realpolitik.
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Em todas as pessoas que foram, a pouco e pouco, abandonando o comboio de Marx e Lenine, é difícil disfarçar qual das duas costelas terá sido mais herdada. Se a ingénua, se a outra. Para não ir mais longe, olhemos para Pina Moura e para Isabel Pires de Lima. A diferença parece-me ser límpida e cristalina. E a conclusão óbvia.
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Quer isto dizer que, para a actual ministra da cultura, a frase de Roth há-de sempre ter soado muito bem. Daí que o deslumbre pelo Hermitage surja sem pecado, espelhando o desejo sempre frustrado de brincar a sério com bonecas idílicas de papier mâché.
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Afinal, o que era velha Rússia? Palácios infinitos, rendas preciosas, princesas lindas com borboletas a navegar na imaginação de príncipes estóicos; renas e mais renas, vastidões maravilhadas, ícones, tentações de sangue e vozes de gelo. Tudo a velejar num barroco de cores pastel, mas celestial. Que paraíso antes sonhado e proibido poderia Isabel Pires de Lima ter agora libertado, a não ser este?
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Estive com Isabel Pires de Lima numa única e fugidia reunião. Éramos jurados diante da escolha de um entre vários livros. Gostei da senhora: sorria com candura e não tinha ainda os olhos espantados de Judy Garland ou o ímpeto sumptuoso de Audrey Hepburn. Salvo seja. Nem o cabelo com os dourados que teriam encantado Pierre-Philippe Thomire. Hoje, quando volto a vê-la na televisão como personagem e ministra, noto, de facto, que algo de muito profundo mudou. Algo tão humano, quanto uma velha paixão subitamente revivida nos crepúsculos do Haiti.
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É por isso que deprecio, ou seja, que não levo muito a sério os habituais protestos do mundo cultural que quereriam ver o dinheirinho do orçamento nos seus próprios cofres e que nos vêm falar em "fait-divers de programação cultural" ou em "apequenar os museus portugueses".
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Deixem brilhar as estrelas!

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Cerveja e literatura - 42

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Com acidez, minúcia e ponta da espada afiada, Baudelaire diz em voz alta o que noutros Países Baixos ainda hoje se replica, sempre que se fala da bela nação trapista da Bélgica (Belgische trappisten!):
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“Os Belgas expõem os seus vinhos. Não bebem por gosto mas por vaidade – para se mostrarem à moda, ou se parecerem com os franceses.
A Bélgica, paraíso dos caixeiros-viajantes de vinhos.
Bebidas do povo: o faro (*) e a genebra.”
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(*) Tipo particular de cerveja que se bebe em Bruxelas. (N. Do T.)
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(Charles Baudelaire, Escritos Íntimos, tradução: Fernando Guerreiro; Editorial Estampa, Lisboa, 1994, p. 189)

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Cerveja e literatura - 41

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Um palco ideal para um feriado, ou para a sua véspera, ou para todas as vésperas que se dizem com uma bola de cristal no esquecimento. Onde ia eu? Na cerveja? A esta hora? Jamais. Mas leia-se, leia-se o que ao fundo, lá muito ao fundo, acontece:
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“No fundo, um palco. Em toda à volta mesas e sofás rotos e coçados. Um cheiro acre a cigarro e cerveja impregnava o ambiente. Uma bola de cristal, de outras danças e outras modas, rodopiava espalhando estrelas pela face de todos. No palco sete homens moviam-se ao som da sua música lenta, alheados, Uma bateria simples, franciscana, humilde, um contrabaixo, um clarinete, um trompete, um piano, um saxofone, e um negro grande, enorme, de pose pachorrenta e quase obesa que dançava com o seu trompete.”
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(Rui Alberto Silva, Sentados no sofá vermelho, Editorial Notícias, Lisboa, 2000, p.114)

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Cerveja e literatura - 40

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"Não é apenas na língua holandesa, já se sabe, que a cidade checa de Pilsen gerou uma designação líquida para a cerveja. Para muitas cervejas. Marguerite Duras também recorreu a essa liquidez insinuante:
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“Tínhamos falado deles, daquela gente do bar. Tínhamos dito: Ela está tão perto da morte. É ele que vai ficar sozinho. A patroa foi ter com eles. Serviu-lhes uma Pilsen preta e um bourbon. Disseram qualquer coisa um ao outro e sorriram e olharam para a sala onde se encontrava a filha da patroa.”
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(Marguerite Duras, Emily L., tradução: José Carlos González; Livros do Brasil, Lisboa, 1988, p. 5)

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Cerveja e literatura - 39

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A uma biografia de Mozart, centrada ainda por cima nas mulheres da sua vida, a cerveja não podia faltar. Enfim, à afectação da prosa, resta mesmo o jarro azul. E já não é nada mau:
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"Aloysia voltará para cumprir o contrato; ela gosta de sentir a admiração das pessoas quando canta. – Josefa olhava-as a todas, as mãos em cima da mesa perto do jarro azul da cerveja. – Acho que esperam que eu as sustente a todas, eu, que fui tão condenada pelo meu amante e que posso nunca mais ter outro, que morrerei solteirona, o que lhe convinha de certeza."
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(Stephanie Cowell, As mulheres de Mozart, tradução: Maria Georgina Segurado, Editorial Presença, Lisboa, 2006, p.141)

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Cerveja e literatura - 38

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Belo tempo, o do marialva. Permitia patilhas, cabelos de ninho estilo Madalena Iglésias e um hardcore tão clandestino quanto invejável. Para além desse fadário, havia risível quanto baste, sinaleiros de luvas brancas e uma vela diáfana ao vento que dava aso a Cardoso Pires para escrever. Da forma única como escrevia:
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“ ‘Bebo contigo/ cerveja, Whisky/ p´ra que se veja/ mais rubra a crista’ – o marialva que Alexandre O´Neill ridiculariza assim tem a ‘cor local’ a defendê-lo das raras investidas deste género que se lhe dirigem. Dispõe de privilégios, é bom lembrar. Tem mitos, clima saudosista, poetas que o cantam, e não lhe faltam os cronistas do quotidiano – uns para exaltar as fraquezas da mulher, outros a coragem do macho (…)”
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(José Cardoso Pires, Cartilha do Marialva, Ulisseia, Lisboa, 1960, p. 175)

domingo, 28 de outubro de 2007

Volta ao Mundo - 8

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Chegou há momentos mais uma crónica da volta ao mundo que a Clara e o Miguel estão a dar durante um ano. Tudo se iniciou há mês e meio e... para trás já ficou Madrid, Havana, Galapagos, Quito e Buenos Aires. Hoje o testemunho vem de Ushuaia.
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"Ushuaia - Fin del Mundo"
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" 'Demoras a chegar. Demoras a partir. Esta demora dá-te tempo para pensar.'
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Diz-me o Gabriel, um homem mais velho do que a idade, numa voz que não interrompe o silêncio. Estamos na cidade com mais silêncio do mundo.
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À nossa frente apenas Sul. Pintado com cores de brincar. Parece-me água, mas pode não ser. É demasiado azul, demasiado.
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(Torno a abrir a carta enquanto frase soltas, fragmentos, se misturam com recordações)
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Assistimos à luta das árvores, a crescerem contra o vento, contra as entranhas vazias da terra. Não contra o Homem. Esse preocupa-se em lutar com a sua imensidão.
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Estamos sentados no chão, protegidos por uma árvore diagonal. E esmaga-me o tamanho do céu.
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(Recordo o frio…)
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“Morreria sem esta força a puxar-me para Sul, sem a tranquilidade dura deste lugar.”
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Fala-me com as mãos. Há vida em cada gesto simples que me oferece.
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(Releio apenas as últimas linhas:
Ushuaia, 25 de Outubro de 2010
Gabriel)
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Guardo de novo a carta no envelope. Regresso sempre, mas ainda me lembro da primeira vez que estive no fim do mundo. Quando pensava que a solidão estava só e que o fim não tinha continuação."
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Texto: Clara Faria Piçarra
Foto: Miguel Sacramento

sábado, 27 de outubro de 2007

Episódios e Meteoros - 54

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(Crónica publicada desde anteontem no Expresso Online)
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A minha avó paterna costumava falar-me das revoluções da Primeira República e das perseguições ao clero. Desvarios do outro mundo. A liberdade é, de facto, uma coisa muito bonita. Aprendi bem cedo essa lição, muitas vezes através do sorriso com que se contam e ouvem as histórias infantis.
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Não sei se foi por causa disso, mas, em 2004, o filme de Mel Gibson sobre a paixão de Cristo passou-me completamente ao lado. Para mais, tinha-me ocupado de literatura profética durante algum tempo - fora esse, há mais de uma dúzia de anos, o tema do meu doutoramento - e já me tinha antes deliciado com A Paixão e com toda a Tetralogia Lusitana de Almeida Faria, sem esquecer outras paixões mais frondosas e igualmente venezianas.
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Embora hesite habitualmente entre o abismo dos agnósticos - aí está uma palavra que soa sempre a névoa - e uma certa tendência para predador do absoluto - aí está uma palavra que não se deve utilizar numa crónica, a não ser que saiba a vodka -, a verdade é que a grande e única narrativa da minha infância (e da infância católica que, mais ou menos, todos respirámos) era e é coisa que hoje, muitas vezes, me enfastia e que, quase sempre, se vai tornando em matéria para a mais doce das indiferenças.
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Seja como for, Gibson frustrou todas as minhas perspectivas (no domingo passado, vi a fita na televisão). Ponha-se de lado a pálida conotação da fé, com todo o respeito pelos anjos; ponha-se de lado a identidade dos personagens, com todo o respeito pelo casting e pela direcção de actores; ponha-se de lado a requintada atmosfera criada pela língua aramaica a contracenar com a hebraica e a latina... e o que sobra é sangue e mais sangue: uma violência de altar barroco e de cenas noctívagas com cobras e corujas em nome da expiação dos pecados do universo. Uma tirada patética, cheia de talha dourada e a milhas da catequese inflamada por que passei há quase meio século: aí, sim, o
medo tinha ainda patas de seda e olhos de cabeçudo.
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E como não há história baptismal sem demónios, lá surge no filme de Gibson - entre o colorido painel de adereços - uma mão cheia de judeus crispados e almofadados que acaba por convencer o pobre do Fausto
romano a cometer o maior dos pecados. Azar o deles.
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Bem pôde, pois, a minha avó ter-me falado de revoluções e perseguições. Bem pôde o fogo posto de muitas inquisições ter sido extinto. Bem pôde a catequese ter-se tornado num conto de fadas langoroso e longínquo. Bem pôde, para muitos, o simples esquecimento das grandes e variadas tragédias do século XX. Bem pôde tudo isso. Mas não haja dúvida de que a intolerância continua a viver da repetição insaciada duma mesma tónica. Duma mesma carne. Dum mesmo dogma sectário. Por outras palavras: dessa luxúria binária - própria de filme de terror de terceira classe - que afinal anima, do princípio ao fim, o psicodrama de Mel Gibson.