terça-feira, 30 de novembro de 2004

Iluminações da época

A virose do Natal começa já a criar alguma anestesia face aos episódios políticos lusos. Basta descer o Chiado para ver a festa. Quer lá o pessoal saber da russa boazona que aderiu ao PSD, dos timorenses de Canas de Senhorim, das fidelidades pessoais do Pedro, das ponderações de Sampaio, do silêncio do filósofo da sicuta, dos indígenas praticantes das pontes, ou da cara aziaga do Jorge Costa. Um puto atira fogo pela boca, as caixas da FNAC têm bichas descomunais e os duodécimos na boca sensivel de Ferraz sabem já a Dame Blanche. A crise está ultrapassada.
Esse grande esculpido

Entro no restaurante O Funil - passe a publicidade (come-se bem, pelo menos) - e o gerente recebe todas as pessoas com um amplo sorriso. Depois repetirá sempre a mesma frase: - "hoje há muitos lugares, é que já começou o fim-de-semana!"
E fica-se a conhecer a ideia de tempo que se gera na cabeça de um português, na véspera de uma Quarta-feira que é feriado. As pataniscas com arroz de feijão estavam óptimas.

domingo, 28 de novembro de 2004

Os nossos cronistas

Os nossos principais cronistas encarnam muitas vezes o personagem Martin que Voltaire criou para explicar a Cândido que os gaviões e os homens jamais mudam de carácter. São pedagogos à sua maneira, enchem três a cinco colunas num jornal diário para defender um único ponto de vista, mas sempre com o intuito de fazer crer, ou de conquistar a alma do leitor para a sua própria navegação.
Existe um único cronista que não tem preocupações dessas, até porque nada o transborda de afectos. Com duas breves colunas apenas diz o que tem a dizer, breve e escorreito, e sobrepõe sempre dois registos: um intelectualizado, às vezes geometricamente histórico-científico (ou, pelo menos, querendo vincular-se nessa legitimação por mérito próprio), um outro rebuscado na voz do povo corrente, na oralidade mais elementar, no diz-se diz-se que sabiamente intercala no meio de frases, mas com uma demarcação que traduz por aspas (palavras como “canalha”, “indígena”, “populaça”, etc. aparecem assim como oriundas doutro mundo).
É de um sincretismo com esteio amargo e rédea curtíssima que este último tipo de crónica vive. E por isso contrasta profundamente com a afectividade apologista, pegajosa e demoradamente analítica que se confunde, ao fim e ao cabo, com o estilo maioritário dos nossos cronistas.
Nomes às coisas? Para quê?

sábado, 27 de novembro de 2004

O interface nacional

Haverá esquerda e haverá direita, é verdade. Para mim, essa discussão, embora nobre, tende, hoje em dia, para uma certa voga esterilizadora. Sobretudo porque não reflecte os embates múltiplos e as posições singularizadas que se agenciam no mundo contemporâneo, nas suas mais variadas escalas.
Desde que o universo bipartido e vertical da guerra-fria se esboroou que, num mesmo movimento, se foram diluindo os quadros doutrinários que tutelavam posições, muitas vezes independentemente da racionalidade e da pertinência exigida por cada caso concreto. Era a luta movida pelo espírito de corpo. Era a linguagem do bardo contra a linguagem do outro bardo, sem que a realidade, pelo meio, interferisse ou fosse acautelada e, em primeiro lugar, devidamente cuidada.
Felizmente, o ambiente finissecular abriu a democracia para uma nova noção de espaço público hipertecnológico, tendencialmente liberto da excessiva redoma doutrinal. Essa abertura é histórica e culmina uma caminhada bastante culturalizada, porque, desde logo, intimamente ligada ao devir do Ocidente após o século XVIII. Bem sei que a banalização do mal - refiro-me sobretudo ao terrorismo - também entrou recentemente na ordem do dia, na medida em que se foram esvaindo, com notória celeridade, as barreiras mentais que separavam secularmente o segno do não-segno (palavra que, na Idade Média, significava “tudo aquilo que escapa à ordem natural das coisas”). Se tal não tivesse acontecido não havia, em alguns sectores da nossa sociedade, tanta relativação face ao hiper-terrorismo (é curioso que o líder parlamentar do partido liberal holandês - VVD -, o senhor Jozias van Aartsen, tenha ontem criticado o governo holandês pela sua relativa contemporização face ao terrorismo).
Seja como for, em princípio, o ambiente de abertura é sempre positivo, embora, no reverso, acabe por atrair para o interior dos seus sistemas elementos de caos que pululam nos intervalos entre as várias ordens que convivem e determinam posições e multiplicidades. É esse o mundo em que vivemos e é nessa complexidade que o primado da dicotomia esquerda-direita se me revela, hoje em dia, no mínimo, inerte e desajustada.
Contudo, observo atentamente a existência de meios que forçam e vincam o “ser de esquerda” e o “ser de direita” como modalidade essencialmente afirmativa.
Não é o caso do partido comunista, pois o que aí domina é a esteticização esotérica e redundante da linguagem, ou seja, “os trabalhadores” para o PCP significam os “trabalhadores para o PCP” e pouco mais. Não há grande relação entre a realidade pragmática e as palavras de ordem intrínsecas e “inclinadamente consensualizadas” que ilustram a metafísica comunista.
Já grande parte dos manifestos do Bloco de Esquerda (e dos seus activos blogueadores), dos acenos nostálgicos de Manuel Alegre, das determinações organicistas de Vasco Rato (e dos seus co-blogueadores de O Acidental) e do inadequado ênfase algo ressentido de Portas delineiam essa modalidade expressiva.
No fundo, estamos a falar das margens do sistema e das dobras que, de algum modo, se auto-exilam à abertura que, na nossa periférica terra, tenderia e tende sempre para um inevitável mimetismo. Daí que, à direita, nestes sectores mais estriados, haja alguma permeabilidade aos nacionalismos e outro tanto de desconfiança em relação à Europa. Daí que, à esquerda, nestes sectores mais estriados, haja permeabilidade à autofagia (o inimigo é sempre o Ocidente) e uma grande desconfiança face a tudo o que soe a América.
Este jogo quase simétrico documenta bem a necessidade de criação de barreiras, muitas vezes imaginárias, onde dantes existiam quadros doutrinários fixos. Por outro lado, este jogo de posições ilude a real dimensão do nosso país e desfoca a intensidade do puzzle global contemporâneo.
Muito deste jogo é pura linguagem para consumo descartável. Grande parte do que ouvimos e lemos passa por aqui. É este o interface que mais facilmente se torna visível. E, no entanto, ele tem a sua origem numa extrema minoria.
Também isso é o que permite e deseja uma sociedade aberta.
Perversão?
Talvez.
À boleia na blogosfera

Pus-me à boleia na blogosfera, entre maresia perdida e um deslumbrante luar quase a apascentar a ilusão que emerge nas autoestradas vazias. E ouvi dizer a certa altura que devíamos lutar pela mudança dos tempos. Mas eu nunca entendi bem o que existe no tempo que possa ser mudado. Já se sabe que toda a gente quer manipular, mas para quê? (talvez por ser fácil demonstrar a existência de vida noutros planetas). Vendo bem, vivemos todos num mundo de adolescentes retardados. E, assim sendo, pouco mais há a fazer do que ligar a aparelhagem e voltar a ouvir pela milionésima vez os álbuns dos Kings of Convenience. No fundo, é tudo uma questão de interpretação. Até porque, quanto mais se interpreta, mais se constata que o mundo não passa de uma metáfora cheia de metáforas por dentro.
E quando já cansado, após boleias e mais boleias, me passou pela cabeça esperar um pouco numa área de serviço, confesso que tive uma sensação estranha. Enquanto ali estava, sem grandes horizontes, os meus olhos disseram-me adeus e deixaram-me como Édipo em Colono. Para terminar esta breve viagem, devo ainda dizer-vos que ouvi dizer duas coisas simples e interessantes a um pastor. Primeiro, segredou-me ao ouvido que tinha começado o julgamento da Casa Pia. Depois, disse em voz bem alta que a Europa tinha deixado de ser uma ideia de um espaço de liberdade para passar a ser uma espécie de monstro ultra-regulado. E as ovelhas responderam em coro, seguindo um estilo jurássico e contundente: Venha o diabo e escolha!
Inclinações diabolizadas

No Congresso do PCP houve indignação quando alguém propôs que, para além do comité central, também os militantes deveriam poder livremente propor listas alternativas. A argumentação quase irada dos indignados e sequiosamente revoltados limitou-se a uma palavra: fraccionismo.
Fraccionismo entendido como um demónio indiscutível, cujo conteúdo e significado seria no mínimo indiscutível.
Ouvi na TSF a repetição dessa incompreensível e ansiosa intolerância.
É claro que não me choco, pois sei o que a casa gasta. Mas a coisa lembrou-me uma outra passada em 1588 (no fundo, é essa, cada vez mais, a actualidade do partido comunista português).
Nessa data, surgiu uma obra fundamental que se propôs separar as águas entre, por um lado, as profecias legalmente válidas e, por outro lado, as que a ortodoxia deveria proibir. A obra foi escrita por Horozco y Covarrubias e teve como título, o Tratado de la verdadera y falsa prophecia.
O seu prefaciador, o franciscano Fray Juan de Colmenares, referiu-se do seguinte modo às intenções da edição: "(...) desengano das invenções e enredos do demónio nas falsas revelações que em diversas partes ha sembrado estos dias...".
Concordâncias quase prefeitas.

sexta-feira, 26 de novembro de 2004

Vinte e quatro de Julho

Esperar três horas a ver a hora de ponta. A ponte, ao longe, iluminada. Sei que, nestas alturas, qualquer capricho tem voz enovelada, dormente, quase acrobática.
Notícias da Holanda

Na sequência de um inquérito governamental realizado na Holanda, ficou a saber-se ontem que, nos últimos dois anos, 86.000 pessoas declararam de forma fraudulenta rendimentos baixos para poderem receber subsídios de renda. Embora, com um desfasamento de mais de vinte meses, a verdade é que os inquéritos funcionam nos Países Baixos e vão regularmente ao parlamento de Haia. Os tribunais geralmente também batem à porta a horas. O exemplo é curioso, sobretudo quando o estado social - e, em primeiro lugar, a questão das reformas - se está a tornar, hoje em dia, num tema, num problema e também numa preocupação que atravessa todo o leque político neerlandês. Mais do que adormecer, há que saber agir. Entre nós, mais do que atacar por atacar as subvenções que são justas e adequadas, valeria a pena inquirir a sério e punir, quando é caso para tanto. Economia de argumentação, agilidade na acção. E também acredito que o estado social, infelizmente, não tem a imortalidade da alma platónica.

quinta-feira, 25 de novembro de 2004

Nefertiti - 2

Continuei hoje a publicar no Minitempo - o blogue subcutâneo do Miniscente - as árias da ópera de José Júlio Lopes, Nefertiti, de que fui autor do libretto (a dita esteve em cena no Teatro da Trindade, em Fevereiro de 2000, e o texto foi escrito em Março de 1999).
Não resisto

Ontem, um aluno (de Seminário de Escrita Criativa) chamado Miguel Silva - fixem este nome - escreveu num ápice e leu em voz alta este texto:

A história do Capuchinho Preto

O Capuchinho Preto corre em direcção à casa da avozinha, tropeça e rebola vale abaixo, embate numa árvore e perde as duas pernas. Continua a rebolar a grande velocidade, vai contra um pedregulho e perde os dois braços, rebola e rebola e rebola aceleradamente até esbarrar nas escadas da velha casa, a cabeça desprende-se do corpo e bate na porta que se abre. O olho salta fora da cabeça do Capuchinho Preto e voa em direcção à cama da avozinha que acorda sobressaltada: "ai! que horror, um bicho!". E esmaga o olho da neta na parede.

Não consegui resistir a publicar este texo. Lembram-se do anúncio da cerveja preta?