terça-feira, 31 de Julho de 2007
A falha revelada

segunda-feira, 30 de Julho de 2007
A vestal e o sol
domingo, 29 de Julho de 2007
A carga dos novos ofícios
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Os grandes pavores

Pilhas

sábado, 28 de Julho de 2007
Simão

Escavações Contemporâneas - 43

LC
O sorriso do arquivo no tempo da rede
"(…) o mito é uma história exemplar e simbólica que, pelos actos dos seus protagonistas e pelo sentido do seu enredo, testemunha de uma antiquíssima experiência humana, mais profunda, de certo modo, do que a imagem cientifica, moderna e oficial das culturas; é a arca ou o arcano de uma indizível e longa revelação ôntica; é a codificada suma das intuições e de iluminações, de poemas e de filosofemas espontâneos ou aprendidos na vasta gama que vai das formas de cultura e aculturação à inspiração pessoal do transmissor ou do rapsodo; e é o que traz ao presente os segredos antigos e restantes de velhas civilizações e culturas, modificados embora por um percurso semântico difícil de seguir, de capitular e de sistematizar, mas que nem por isso deixa de ser ou deve deixar de ser para nós uma verdadeira «carta de prego», lançada remotamente ao mar do tempo por viajantes desconhecidos, nossos irmãos. José Marinho, um dos poucos filósofos que, depôs de Oliveira Martins, Sampaio Bruno e Aarão de Lacerda, meditou entre nós a essência do mito, escreveu pertinentemente que «todo o poeta verdadeiro, todo o artista autêntico é filómito, e é-o necessariamente. Não há arte sem imagem, e se a imagem meramente virtual não se insere no mundo próprio dos mitos, a imagem simbólica insere-se sempre no mundo mítico».
E isto porque o mito corresponde a uma experiência originária que o poeta não pode encontrar no círculo limitado da sua visão pessoal ou da sua existência social."
*Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista.
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Sextas - Paulo Tunhas
Sábados – António Quadros (António M. Ferro, Org.)
sexta-feira, 27 de Julho de 2007
Escavações Contemporâneas - 42

LC
O sorriso do arquivo no tempo da rede
(hoje: Paulo Tunhas)
e
Köhlin e nós*
Os recentes acontecimentos na Silésia Oriental espantaram todo o mundo. Von Breuklin declarou-se «chocado e surpreendido». Aparentemente, bastaria às autoridades levantarem um dedo e nenhum dos trágicos eventos teria visto a luz do dia. Mas é verdade que os piores sentimentos, nacionais e trans-nacionais, germinavam há já bastante tempo por aquelas paragens. Mary Woodsworth, no Listener, tinha chamado a atenção para o facto num artigo preclaro datado de Maio passado: «Sente-se a crispação nas faces e a pesada herança de tradições seculares. As refeições nas casas dos mineiros são totalmente ocupadas na discussão do futuro. As perspectivas apresentam-se geralmente sombrias. Os mais velhos, como se tudo por eles tivesse sido previsto, limitam-se a grunhir qualquer coisa enquanto enfiam a cara no prato cheio de schnakplötz, a especialidade da região. As mulheres não falam, apenas sorriem, como que a pedir desculpa. É de recear o pior».
e
E o pior aconteceu. Os noventa tanques blindados passearam-se pelas artérias da cidade impunemente. As escolas fecharam. Contam os jornais que as ruas subitamente se tomaram desertas. Ellen Schnakplötz, enfermeira no hospital principal, ainda hoje um belo edifício, diz que não faz ideia, desde há duas semanas, onde o pai e o irmão se encontram. O mesmo poderiam dizer, sem dúvida, centenas de outras mulheres da região. Com o seu metro e 89 centímetros, Ellen Schnakplötz, apesar de tudo, parece calma. Ri-se mesmo muitas vezes, e o seu riso transmite algum conforto ao pequeno quarto onde vive desde há dois anos. Por causa do actual estado das coisas, não há água na casa. Ellen não se queixa. Graceja com toda a situação. «Os nossos avós passaram por pior e sobreviveram», foi a coisa mais próxima de um queixume que ouvi daquela boca.
e
O principal inspirador destas movimentações é o hoje internacionalmente esquecido Richard de Coudray-Spekov, um aristocrata que, entre 1913 e 1917, data do seu precoce falecimento, escreveu uma série de artigos fogosos e veementes no ainda hoje existente Köhliner Zeit. O último acabava justamente com este pungente apelo: «Será possível que, passados tantos anos, a nossa própria identidade nos permaneça desconhecida? Será possível que o sangue dos nossos pais e as lágrimas das nossas mães corram pelos belos rios da nossa terra em vão, sem que quem neles mergulhe ou beba das suas cristalinas águas sinta um arrepio ancestral que tinja a sua alma com as cores do amor? Será possível que tudo permaneça envolto num denso manto de esquecimento? Não! A vida não merece a pena ser vivida assim, e eu não acredito que no peito dos meus generosos concidadãos os apelos ancestrais não hajam sobrevivido. Unamo-nos então como que juntos num mesmo corpo; que cada um faça da mão do seu vizinho a sua própria mão e do coração de todas as outras famílias o seu próprio coração. E não confundamos, sobretudo, a tibieza e o perdão!»
e
Apesar do incidental comentário de Chamberlain quando, em 1938, no caminho para Munique, passou por Köhlin — «Köhlin does not exist!» —, Köhlin existe. E as palavras de Richard de Coudray-Spekov renasceram para os seus habitantes, 73 anos passados sobre o seu trágico e misterioso fim. A história da humanidade está cheia desses pensamentos que se escondem e revelam ciclicamente, perturbadores e íntimos às memórias colectivas. Por isso não é de estranhar que Ferdinand-Auguste L’Échineur possa comentar o caso nestes termos: «Os grandes catalizadores implodem. Não basta convencer, não basta gerir, é preciso também justificar. Sem esta terceira vertente não há discurso político eficaz. Os poderes que julgavam que a Köhlin bastava o seu schnakplötz enganaram-se tragicamente. A memória pode mais que o parco salário da razão e as úberes terras da identidade prometem a paixão».
e
E agora? Agora há as histórias das pessoas simples, do homem comum que tanto convém lembrar sem pretender preteri-lo em benefício de fantasias quiméricas de individualidades dúbias cheias de falsos problemas e permanentemente alimentadas por reflexões pretensamente morais que, de resto, não seguem. A história de Köhlin é um hino ao homem comum, lutando contra as adversidades e reconquistando a sua identidade. Ao homem comum que é capaz de esquecer o seu prato de schnakplötz e elevar-se para os céus, oferecendo a camisa ao seu irmão, mesmo que este já tenha três vestidas. Não esqueçam Köhlin. No desmoronar dos grandes catalizadores, é de lá que nos pode vir algum consolo. E a cerveja é excelente, de facto.
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Sextas - Paulo Tunhas
Sábados – António Quadros (António M. Ferro, Org.)
quinta-feira, 26 de Julho de 2007
Episódios e Meteoros - 41

Há uma década, o Carlos Pinto Coelho convidou-me a ir ao Acontece para fazer uma “proposta”. No então programa do Canal 2 da RTP, a rubrica pretendia dar voz a algo de singular, interessante ou até inadvertido. Várias foram as pessoas que, na altura, aproveitaram o palco para propor leituras de Joseph Conrad e Wislawa Szymborska, audições de Lionel Cecil e Leo Slezak, ou visitas ao Guggenheim que abrira as suas portas, em Bilbao, a 19 Outubro de 1997. Outros ainda, porventura menos eruditos, terão sugerido viagens a Taiwan ou à indiana Noida.
Mas eu, indeciso e sem aquele beau dire e beau faire que é natural em Vasco Graça Moura, aproveitei os meus sessenta segundos para propor aos tele-espectadores que faltassem ao trabalho durante um dia. Apenas isso: preguiçar, dar uma volta, ficar em casa, experimentar um banco do jardim, auscultar coretos e vultos, espreitar montras, decotes, olhares, nuvens altas, quiosques ou cafés imobilizados pelo tempo. Apenas isso: reinventar em 24 horas aquilo que jamais se faria num dia normal de trabalho. Fosse qual fosse o trabalho.
A verdade é que a minha ideia nada teve que ver com a Intersindical, nem com o processo de doutoramento – porventura ainda em gestação – de Carvalho da Silva. Não, a ideia era bem mais heterodoxa e, para os lados da Infante Santo, Fernando Namora tê-la-ia compreendido com toda a fidelidade se ainda fosse vivo nos idos de noventa. É que o seu romance, Rio Triste, publicado em 1982, espelhava a mesma proposta que, quinze anos mais tarde, me viria a passar pela cabeça.
O livro narra a história de um homem normalíssimo que, num belo dia, não regressa a casa como sempre ao fim da tarde. Esgotada toda a trama de cariz policial, é no desfecho que a verosimilhança acaba subitamente por ocupar a expectativa do leitor. Ao fim e ao cabo, como se me tivesse visto e ouvido no Acontece, o homem decidira, ao contrário da sua rotina de anos e anos, faltar um dia ao emprego. Sem razão nenhuma, a não ser a de uma sadia contingência de natureza impulsiva e espontânea. Um acidente no Tejo, que aconteceu nesse dia como podia ter acontecido noutro dia qualquer, fez o resto: a morte do artista.
Eis como um simples proposta, aparentemente “irrecusável” (ao jeito de Coppola), encontrou os seus públicos-alvo no passado. Melhor: na ficção. Só gostava de saber se houve alguém, na realidade, que também tenha seguido as pisadas dessa minha proposta televisiva e perversa.
quarta-feira, 25 de Julho de 2007
Coisas da casa

Pré-publicações - 47
eMaria João Cantista (Org.), Desenvolvimentos da fenomenologia na contemporaneidade, Campo das Letras, Porto, 2007 (Julho).
Pré-publicação:
"Inclui a presente publicação uma série de estudos, todos eles virados para uma dilucidação, quer da subjectividade, quer da racionalidade, à luz de um quadro de repensamento e consequente correcção crítica destas mesmas noções na pós-modernidade filosófica.
É a subjectividade transcendental, é a constituição do sentido do fenómeno, é a redução na acepção husserliana do termo, que se oferecem a um repensamento, a partir das próprias exigências de radicalidade do mestre de Friburgo.
No caso de Hannah Arendt, é a racionalidade prática que exige a reabilitação do sentido fundamental, já que, na modernidade, a razão se mostrou “incapaz de pensar o que andava a fazer”. O juízo como reflexão reconciliadora do pensamento e da acção torna-se a questão modal em ordem ao que realmente importa: uma reflexão sobre o acontecimento. Por caminhos distintos, é este o propósito dos estudos aqui incluídos de Maria José Cantista e de Pilar Pereila Martos, intitulados O juízo em Hannah Arendt: superação do paradoxo do pensar e do querer e El papel del juicio en la rehabilitación de la racionalidad práctica, respectivamente.
Por sua vez, Bruno Pinheiro, com o escrito intitulado Sobre o mundo da quotidianeidade em Alfred Schutz, põe em relevo a importância da fenomenologia, quando aplicada ao mundo social. O fenómeno do trabalho na obra de Alfred Schutz reveste-se de uma fecundidade e criatividade pouco conhecidas do leitor português e que, na presente obra, é objecto de uma penetrante reflexão. Neste sentido, a relação do eu com o outro, bem como o fenómeno da intersubjectividade ganham um novo perfil, dilucidado pelo autor, que nos brinda com uma cuidada análise dos problemas relacionados com a acção humana, com o mundo da quotidianeidade.
A versão hermenêutica, quer da subjectividade, quer da racionalidade, são objecto de pesquisa no artigo Do sentido hermenêutico-fenomenológico de historicidade de Stella Azevedo. Em síntese, a Autora pretende prolongar o contributo da fenomenologia ao século XXI, mostrando o sentido de historicidade implícito na noção husserliana de fenómeno, através de uma interlocução com a hermenêutica, quer a nível textual-interpretativo, quer a nível metódico conceptual. Por sua vez, João Martins, no estudo intitulado Subjectividade e Racionalidade em Claude Romano, descreve o papel do fenómeno como “événement” no pensamento do autor francês, extraindo das suas características as consequências para uma metamorfose pós-husserliana e pós-heideggeriana da fenomenologia. Uma vez mais, são as suas noções nucleares que ganham uma nova perspectivação: sujeito, experiência, mundo, temporalidade, enfim, fenómeno.
Maria Manuela Martins dedica um interessante estudo intitulado A morte enquanto ‘excedente’ (Ausstand): leitura de alguns parágrafos de “Sein und Zeit” à dilucidação de um dos temas fulcrais da obra de Heidegger, pondo em relevo a infl uência de Agostinho de Hipona na génese deste pensamento, “pelo menos na época de Marburgo e de Friburgo”. A influência aristotélica é também chamada à atenção, designadamente no que respeita à noção de Cuidado, noção nuclear na dilucidação hermenêutica levada a cabo pela Autora. Por último, apresenta esta publicação um artigo intitulado Santo Agostinho no pensamento de J.-L. Marion: uma leitura de “Dieu sans l’être”, também da autoria de Maria Manuela Martins. Estamos perante um texto que se situa no limiar da filosofia e da teologia, com o objectivo principal de assinalar as possíveis afi nidades, mas também as diferenciações específicas da noção de Deus em J.-L. Marion e Agostinho de Hipona. Para aceder ao sentido de “Deus sem o Ser”, na obra de J.-L. Marion, teve a autora de proceder a uma descrição geral do pensamento do filósofo francês, enquadrando a obra específica a que dedicou o seu trabalho no todo em que se insere. Com efeito, J.-L. Marion propõe um sentido de fenómeno como doação, no âmbito de uma redução que põe em suspenso, não apenas as categorias da metafísica onto-teo-lógica da tradição filosófica ocidental, mas também a própria noção heideggeriana de fenómeno como “estanticidade” (étantité). O sentido inerente à realidade de “Deus sem Ser” inscreve-se na óptica de Deus como ágape, que proíbe toda e qualquer entificação de deus, ou mesmo um acesso cognitivo ao Ser, a partir das categorias representacionistas da metafísica tradicional. No intento de diferenciar ambas as vias de acessibilidade ao tema fulcral da metafísica, procede-se a uma explicitação do ídolo e do ícone, como dois “olhares” distintos de um mesmo “fenómeno”, visado em acepções contrapolares. Para Maria Manuela Martins, “a razão de procurar(mos) ver simultaneamente as raízes e as sintonias entre o que diz Marion e Santo Agostinho… prende-se com a própria especulação agostiniana que será avant la lettre bem mais fenomenológica e sugestiva para a interpretação de J.-L. Marion”.
O presente livro é mais uma publicação no âmbito do projecto de investigação Subjectividade e Racionalidade: elementos para uma hermenêutica da fenomenologia, subsidiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia e levado a cabo pelo Gabinete de Filosofia Moderna e Contemporânea. Será mais um tomo integrado na Colecção Filosofia, em edição da Campo das Letras."
terça-feira, 24 de Julho de 2007
Histórias familiares
segunda-feira, 23 de Julho de 2007
Uma história familiar

A aventura havia começado meses antes, no próprio cais de embarque dessa Lisboa ainda a cheirar a Odes pessoanas e ao fado castiço dos Boqueirões. Por ordens superiores, afastara-se durante algum tempo da azáfama e da lide dos dois grandes navios que estavam a levantar âncora – já de vapores ao rubro e escadas quase içadas – para ir cambiar dinheiro português. De regresso, cumprida a rápida missão, logo verificou que apenas o barco reservado à cavalaria ainda permanecia encostado ao cais; o outro – que seria o seu – deslocara-se entretanto na direcção da barra para evitar uma iminente revolta a bordo. Seguir-se-ia a viagem no barco errado, embora, segundo ditam as crónicas, a mesma tivesse sido calma e bem mais rápida do que o previsto.
No porto de Brest, descontraído e ao sabor do vento, é ele quem acaba por receber no quebra-mar o barco que transporta o contingente português com destino à fatídica região da Flandres. As altas patentes já o davam, a essa hora, como desertor, mas também como actor de possível sumiço. Afinal, compreendidos os factos, tudo se compõe e ele acaba por cumprir, como previsto, no árduo corrupio das transmissões, um serviço vital para aquela longa faixa que vai do sul de Lille, ocupada pelos alemães, a Laventie e à Boulogne marítima. É nesse teatro de guerra que os gases entram subitamente em acção, lesando-o de forma algo irremediável.
Na galeria dos feridos, por artes de sortilégio, o destino troca o número das macas e ele acaba por seguir, na sua mudez mais involuntária, para o hospital dos ingleses. É muito bem recuperado nesse território da dor, onde o 'não dito' supera tudo aquilo que se poderia augurar, ou tão-só dizer. E é apenas quando recupera a lucidez da voz que, finalmente esclarecido o sentido do acaso, ele acaba por regressar aos cuidados, aliás escassos, do exército luso. Durante este tempo todo, em Portugal, é dado como desaparecido, mas agora, com a preciosa ajuda de um general, consegue finalmente obter a justa autorização de regresso a casa.
Anda pela Paris de Gance e Delluc, galanteia uma loura no consulado português, desce no Sud Express até à terra que Buñuel ainda não trocou pela Gália e reentra, por fim, no país pobre e sidonista que é o seu. Em Lisboa, decide fazer um telegrama para o Redondo a anunciar que está de volta; ou seja: da morte imaginária para a vida, e de vez. Parte do Terreiro de Cesário para a Évora florbeliana e daí, numa bicicleta que desconheço a origem, atinge, entre poeiras, a sua vila natal, o Redondo. O feitiço de pródigo andarilho levá-lo-á, não muito tempo depois, para Vila-Viçosa. E é aí que começa parte de uma outra história que é, hoje em dia, também a minha.
Diga-se que este foi – e é – um dos mil enleios aventurosos do único avô que não cheguei a conhecer em vida, de seu nome José Carmelo, primo, entre outros, do tenor e também viajante Tomás Aquino Carmelo Alcaide que, três anos mais tarde, também poria fim à vida militar para abraçar uma singular carreira no mundo da ópera.
domingo, 22 de Julho de 2007
Pré-publicações - 46

ee
"Aristófanes foi, sem dúvida, um dos nomes mais sonantes da época gloriosa da comédia grega antiga – o séc. V a.C. ateniense. Dotado de qualidades de excelência, e de uma acuidade atenta sobre o mundo que o cercava, tornou-se um testemunho precioso de uma Atenas que somava, dia a dia, as suas maiores conquistas: a estruturação de um modelo democrático de vida social, a supremacia de uma cidade que se desejava cabeça de um império, o seu estabelecimento como sede de um espírito novo, onde intelectuais e artistas encontravam terreno propício ao engenho e à criação. Não sem que, por trás do brilho do sucesso, as nuvens negras do declínio se fossem adensando, à medida que a guerra e a corrupção se infiltravam, como vírus destruidores, num sonho de progresso que a muitos animara.
Mais do que testemunho de uma experiência histórica, Aristófanes foi também o homem de teatro completo; alguém que começou na senda de uma tradição que vinha de há muito, seguindo modelos de antecessores que pisaram, galardoados pelo aplauso da cidade, a cena de Dioniso. Com o tempo – curto para tanto talento e determinação – , o poeta emancipou-se; enveredou então por uma linha de crescente independência artística e por um projecto de reforma e valorização da comédia. À criação, foi acrescentando a teorização, fazendo do teatro um estímulo permanente à reflexão e à prática.
Como todos os que sabem pôr a vitalidade criativa que possuem ao serviço de uma causa e, por ela, correr riscos, o poeta de Egina recebeu, do público a que se dirigia, aplausos e apupos – de ambos é feita a contingência humana. Acolhido com simpatia, como uma novidade promissora, sofreu com Nuvens, a peça da reforma e da ousadia, a decepção de um terceiro prémio. Nada de mais penoso para o jovem Aristófanes, quando dava o passo – na sua opinião decisivo – em direcção à maturidade artística. Da recusa do público, sempre recordada com amargura, Aristófanes tirou, porém, uma lição construtiva: a de que um auditório se educa pouco a pouco, se vicia, com passos curtos, na qualidade, para desabrochar, por obra dos verdadeiros génios, na excelência de um juízo crítico esclarecido. Aplicada a fórmula, a partir de agora com mais prudência, o caminho que se seguiu, na festa teatral, foi de sucesso, coroado com o prémio estrondoso de Rãs, na plenitude da idade e da profissão.
Sobreveio a decadência, em consonância com a derrocada de uma Atenas que, também ela, depois de anos de ascendente e de pujança, vivia a crise sofrida do pós-guerra. Ao desencanto e cepticismo que a derrota foi instalando, postos em causa os alicerces em que assentou o brilho do século que terminava, correspondeu, no mundo do teatro, igual declínio. Sem resistências, a tragédia cedia, após a morte das suas duas últimas glórias, Sófocles e Eurípides. E a comédia, se resistia ainda, refugiava-se na mudança, de que Aristófanes continua a ser, para nós modernos, o testemunho fidedigno. Mas apesar do esforço, o poeta sentiu que os tempos eram outros, que esmorecia a energia do passado, e rendeu-se, com um lamento tristonho, a outros gostos que agora campeavam."
sábado, 21 de Julho de 2007
Estilo Império (act.)

Escavações Contemporâneas - 41

LC
O sorriso do arquivo no tempo da rede
(hoje: António Quadros* - António M. Ferro, Org.)
"(…)Importa sublinhar, antes de mais nada, que o mito implica uma fundamental distinção entre o sagrado e o profano.
O mito é uma imitatio dei, «uma imitação das desta divinas», na expressão de Mircea Eliade. Inserido no mundo profano, o homem não tem verdadeira realidade enquanto não consagra os momentos essenciais da sua existência ao mito que os fundamenta e sustenta. Diz ainda Mircea Eliade que «o homem sé se tornou um autêntico homem, conformando-se ao ensinamento dos mitos, quer dizer, imitando os deuses[1]». Há duas histórias: a sagrada e a humana, tal como há dois tempos: o mítico e o profano. Mas a história humana e o tempo profano só adquirem realidade quando subordinados à história sagrada e ao tempo mítico, que lhes conferem carácter de eternidade. Esse carácter de eternidade é precisamente o que o homem religioso procura para transcender a evanescência e a morte. Daí que o mito exija actualizações cíclicas: os ritos.
É indispensável neste ponto distinguir entre «essência do mito» e a sua «estrutura dinâmica e teleonómica», sempre unidas e complementares quando se trata de um verdadeiro mito, isto é, de um mito com raiz no sagrado e no numinoso. Adiantamos que a mitologia marxista ou materialista, exprimindo embora por transferência psicológica, a forma mais exterior do essencial mítico, só se identifica, no entanto, em plenitude, com a sua teleonomia. A sua dialéctica não é mais, efectivamente, do que uma substituição semântica; trata-se de um dinamismo teleonómico, em que as teses e as antíteses correspondem exactamente ao jogo de protecções e de obstáculos que encontra o herói mitológico na sua aventura sagrada, até se atingir, necessariamente, o cenário idílico da vitória dos deuses sobre os titãs, da fundação cosmogónica, da paz sem história, que constitui o «happy end» dos contos de fadas."
e
*«Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista.
[1] Mircea Eliade, «O Sagrado e o Profano (trad. Portuguesa), Lisboa, Livros do Brasil, s.d., p. 85
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Sextas - Paulo Tunhas
Sábados – António Quadros (António M. Ferro, Org.)
sexta-feira, 20 de Julho de 2007
Escavações Contemporâneas - 40

LC
O sorriso do arquivo no tempo da rede
A Portuguese Murder, de Philip Papineau, é um excelente romance para as férias. É verdade que o título pode induzir em erro, já que nenhum dos personagens é português nem a acção decorre em Portugal. Também nenhuma referência é feita ao Professor Agostinho da Silva. Mas explica-se: a rua de Cambridge onde vivem três dos principais personagens do livro chama-se Portugal Place. Ou melhor, explicar-se-ia caso algum crime ocorresse ao longo destas trezentas páginas, o que manifestamente não acontece. Os habitantes deste romance são gente civilizada de várias raças e credos que ocupam o seu tempo falando de Wittgenstein, passeando de bicicleta e bebendo tímidas cervejas em pubs. Mas é um romance moderno. Fica-lhe bem um título inexplicável.
A única excepção a este tom comum das personagens reside nas duas irmãs, Sarah e Margaret: Sarah passa o romance todo a encher os pneus da bicicleta (o livro começa com ela em pleno exercício dessa actividade, por uma tarde fria e chuvosa, em frente à antiga casa de Muhamad Iqbal) e a dedicar-se a monólogos cínicos e obscenos, com o seu quê de delinquente ingenuidade, na veia dos da heroína de Story of My Life; Margaret é a única católica nesta história, e cita pelo menos uma vez em cada duas frases o cardeal Newman, além de se apaixonar por todos os personagens do sexo masculino com uma improvável e mal sucedida obstinação.
Mas são excepções. Como o autor escreve no prefácio, «trata-se de um romance sobre as condições emocionais da busca da verdade na juventude». E, consequentemente, grande parte do livro é ocupada pelas discussões entre David, estudante de Teologia a quem se poderia aplicar a descrição que Conan Doyle deixou de Mycroft, o irmão de Sherlock Holmes: «todos os outros homens são especialistas, mas a sua especialidade é a omnisciência», e Jeremy, o futuro médico, no qual não é difícil reconhecer a figura do autor. Quer seja junto às margens do Cam, quer passeando de bicicleta até Ely, quer ainda em conversa no pub, o comprometimento com as interrogações essenciais nunca os abandona, no que são acompanhados por vários outros personagens, dos quais é justo destacar o memorável Square, o eterno fugitivo da desgraçada Sarah.
O espírito do romance deixa talvez melhor apreender-se através de uma longa citação do penúltimo capítulo, quando Jeremy e David começam a perceber aquilo que o segundo define como «a natureza ilógica do preconceito da verdade»: «Jeremy deitou-se sobre a relva. Não se preocupou em escolher um lugar protegido do sol. No estado em que estava, precisava mesmo de encarar o sol de frente. Isso não o distinguia particularmente de ninguém, pensou, rindo para dentro. À primeira aberta, Jesus Park enchia-se de gente disposta a aproveitar tudo o que não fosse chuva. «É impressionante como à noite é completamente diferente», continuou a pensar. E então ouviu as conversas que vinham do lado do grupo de raparigas italianas que inundavam Cambridge pela altura dos cursos de Verão, e, por uma associação de ideias momentaneamente inexplicável, lembrou-se de Sarah e o seu coração experimentou uma amarga tristeza. «Como é possível que tenha ido para a cama com toda a gente menos comigo, que sou o único que a amo?» Por um momento odiou toda a gente: David, Square, Toby, Alfred e o paquistanês da papelaria da esquina. Mas uma leve brisa acompanhada pelo tinir de campainhas de bicicleta levou imediatamente para longe os seus dúbios pensamentos. Sentiu-se de novo mais fresco e descansado. O céu outra vez encoberto tornou o parque deserto. Foi quando sentiu uma mão pousada no seu ombro, e, para seu grande horror, ao virar-se descobriu que era Margaret, que o andava a tentar converter ao catolicismo por processos pouco ortodoxos. Trazia a Apologia de Newman debaixo do braço. Mal teve tempo para reparar no seu vestido lilás, já ela se lançara sobre ele e, quando a custo recuperou o fôlego, quase afogado no meio do lilás, ouviu a sua voz: «Não são legítimas evasivas, diz a Apologia». Jeremy ainda arranjou forças para pensar em Sarah e no seu impossível amor, enquanto a irmã desta o apertava com todas as suas forças e uma fé extraordinária; mas depois lembrou-se da natureza ilógica do preconceito da verdade e optou por uma conversão oportuna».
A Portuguese Murder não é certamente um grande romance. The Nature of Oblivion e Moral Debts, do mesmo autor, voam mais alto e com mais elegância. Em particular, em qualquer destas obras, os personagens são menos volúveis do que neste seu último livro. Mas talvez que a própria natureza do tema—«as condições emocionais da busca da verdade na juventude» — obrigasse o autor a essa espécie de debilidade que pervaga ao longo destas páginas. E essa debilidade oferece um encanto próprio, parente daquele que David evoca a Sarah: «Wittgenstein costumava vir ouvir música a esta casa. Sempre que passo por aqui tenho a ilusão de recuar no tempo, como por encantamento, e espero um dia poder cruzar-me com ele». O seu encanto é o do espírito do lugar."
quinta-feira, 19 de Julho de 2007
Beleza
quarta-feira, 18 de Julho de 2007
Imagens
terça-feira, 17 de Julho de 2007
O Terrível

e
A alegoria: Manuel Monteiro afirma que está a mais. Já agora, acrescenta, ele e todos os outros (leia-se: todos os outros políticos). Quer sair do PND, de que é, creio, o único membro. Ou quase. É tudo uma questão de caras; de “caras” que se vão tornando cansativas. É a teoria da asfixia política pura. Escavada pelo próprio. Há tanto tempo. Sem que tenha plena consciência do facto. Um acidente na política nunca chega a ser noticiado. O terrível não faz parte do cânone político do nosso quotidiano. Se fizesse, Monteiro, espécie de fácil cereja sobre o bolo, estaria longe, muito longe de ser o único. Cada vez mais longe.
Pré-publicações - 45
EPré-publicação:
Embora tenha composto poesia de variados géneros, o único género de que temos poemas seus completos (e em número muito significativo) é o género dito epinício (palavra composta a partir de nike, vitória). Este conjunto de poemas representa, com os quatro livros de odes de Horácio, o cume da poesia lírica greco-latina. A ode epinícia de Píndaro é uma obra de arte complexa: é arquitectónica e musical na construção; metafórica e transcendente no desenvolvimento elocutório e conceptual. Além destes elementos estritamente poéticos, há também uma dimensão religiosa e uma dimensão histórico-cultural. Píndaro é, ainda, o poeta do Mito. As suas odes epinícias constituem, juntamente com as Metamorfoses de Ovídio, o mais abrangente repositório poético que até nós chegou da mitologia clássica.
Por todas estas razões, ler “a seco” uma ode de Píndaro em português pode ser uma experiência frustrante. Além do que já foi dito, há ainda a carga de polissemia multifacetada das próprias palavras no original grego que se perde na tradução: palavras como Graça (kháris), Tranquilidade (hesukhía), Natureza (phuá), Inveja (phthónos), Saciedade (kóros) ou Excelência (aretá) evocam em grego uma pletora de sentidos, pois cada uma encerra um universo semântico e uma forma própria de olhar o mundo. Perceber como estes conceitos entram numa poesia cuja finalidade é louvar vencedores de provas atléticas não é tarefa linear (nem mesmo para helenistas...). Por outro lado, temos as constantes descontinuidades, os solavancos e as abrupções no registo discursivo, a parada de mitónimos e de referências mitológicas que, com maior ou menor opacidade, são convocadas para o poema, no intuito de dar uma dimensão “extra” à vitória que o atleta acabava de arrebatar.
Tratando-se de poesia com estas características, a existência de um discurso hermenêutico a acompanhar o texto poético afigura-se necessidade absoluta. Ora a consolidação desse discurso hermenêutico em língua portuguesa é o objectivo que este livro pretende alcançar."
Pré-publicações - 44
wAlgures no Harz, vivia um cavaleiro a quem chamavam simplesmente Eckbert, o Louro. Rondava os 40 anos, não chegava a ter estatura média e o cabelo, muito louro e curto, caía liso, emoldurando-lhe o rosto pálido e encovado. Levava uma vida de grande recato, sem nunca se envolver nas contendas dos vizinhos, e só raramente o viam fora das muralhas do seu pequeno castelo. Como ele, também sua mulher se comprazia na solidão, e um terno amor parecia uni-los; o facto de o céu não ter querido abençoar-lhes a união com descendência era a única coisa que muitas vezes lamentavam.
Eckbert recebia poucas visitas e, mesmo então, em nada mudava o habitual ritmo de vida; a sobriedade era seu apanágio, e a parcimónia tudo parecia reger. Nessas ocasiões, Eckbert mostrava-se alegre e bem-disposto, mas, de novo só, logo deixava transparecer uma certa reserva, uma surda e contida melancolia.
O mais assíduo hóspede do castelo era Philipp Walther, um homem a quem Eckbert se apegara por lhe ter encontrado no modo de pensar afinidades com o seu. Tinha morada na Francónia, mas acontecia passar temporadas de mais de seis meses nas cercanias do castelo de Eckbert. Coleccionava ervas e pedras que, depois, se entretinha a classificar; vivia de uma pequena fortuna e não dependia de ninguém. Eckbert acompanhava-o muitas vezes nos seus passeios solitários e, de ano para ano, foi-se tornando mais íntima a amizade entre ambos.
Há horas em que uma angústia se apodera de nós por insistirmos em ocultar de um amigo um segredo que até então tudo fizemos para esconder; a alma sente um impulso irresistível de se expor inteira, desvelando o que alberga de mais recôndito, no intuito de estreitar ainda mais a amizade. Em tais momentos, as naturezas sensíveis dão-se a conhecer mutuamente, e por vezes acontece uma delas recuar, assustada, perante as revelações da outra.
Era Outono. Numa noite de nevoeiro, Eckbert estava sentado à lareira com o amigo e Bertha, sua mulher. As chamas difundiam uma luz clara pelo aposento e brincavam no tecto; a escuridão parecia penetrar pelas janelas e, lá fora, as árvores sacudiam o frio húmido dos ramos. Como Walther se queixasse de que o aguardava um longo caminho de regresso, Eckbert propôs-lhe que passasse ali a noite, metade dela em amena conversa, dormindo depois num dos aposentos até ao amanhecer. Walther aceitou a oferta, levaram-lhes vinho e a ceia, avivaram a lareira com mais lenha, e a conversa entre os amigos foi-se tornando mais animada e íntima.
Quando os criados levantaram a mesa e se retiraram, Eckbert pegou na mão de Walther e disse-lhe:
– Meu amigo, devíeis ouvir da boca de minha mulher a história da sua infância, que é por de mais estranha."
Pré-publicações - 43
ePré-publicação:
e
Procurando tomar em linha de conta as várias abordagens recentes sobre o tema que vêm mobilizando de Rosalind Krauss ou Donald Kuspit a Hal Foster, entre outros, ao longo da última década, alguns dos mais interessantes discursos da nova crítica de arte sobre uma eventual actualidade do Surrealismo (nomeadamente no que toca à possibilidade de rever alguns conceitos entretanto ultrapassados que se associaram à sua história e fortuna crítica), entendi, neste ensaio breve, pensar globalmente o fenómeno estético introduzido pela teoria e práticas surrealistas.
Tratou-se, então, e antes do mais, de voltar à origem do Movimento Surrealista, a partir dos seus textos fundadores – numa palavra, a André Breton –, para, a partir deles, encetar essa discussão, tendo em conta a importância do Surrealismo no desenvolvimento da arte moderna ao longo do século XX, e procurar contextualizar esse estudo a partir do importante núcleo reunido na colecção Berardo. Esta opção pelo regresso ao texto bretoniano corresponde à convicção profunda, que julgo ser pertinente sustentar, da necessidade de o continuar a ler em interdependência directa com as práticas artísticas dos principais artistas ligados ao Surrealismo.
Num espelhamento mútuo, no qual reside, a meu ver, a chave maior de compreensão do fenómeno surrealista. Mesmo sendo possível – como o pretendeu Krauss sobretudo – querer retirar a Breton esse papel fundador, substituindo-lhe, em medida de importância, autores como Georges Bataille ou mesmo Antonin Artaud, para ancorar hipóteses conceptuais em torno do informe ou da abjecção, não julgo que tal seja esclarecedor quanto ao que foi, histórica e esteticamente, o Surrealismo desde a sua origem."
Viva a polémica!

e
‘Bom dia padeiro, no Alcorão não está escrito que o véu é obrigatório para as mulheres, olhe, já agora arranje-me aí duas sêmeas e cinco papos-secos por favor?’.
e
Até para os mais ferozes defensores desta religião tornou-se já quase impossível manter a ideia que tudo vai bem com o Islão, que é ‘apenas uma religião’, comparável a tantas outras! Passam-se meses – qual quê? passam-se aaaaaanos! sem que seja necessário defender o Budismo no telejornal. Nunca vi o comportamento de colonos judeus no telejornal explicado a partir da Thorá. Mas um muçulmano mal levanta o dedo mindinho, logo uma armada de jornalistas, de exegetas e de multiculturalistas está pronta para explicar que não há azar; que o levantar do dedo mindinho é normal nos muçulmanos; que se trata de um muçulmano moderado, de maneira nenhuma um terrorista.
e
Como vêem as coisas não se tornaram mais descontraídas. Mas parece que já se avista uma esperança no horizonte! O fantástico islamismo moderado, que dentro em breve vai finalmente meter mãos à obra e vai tratar de iluminar a meia dúzia de fundamentalistas enraivecidos que povoam este mundo. Porque quase todos os muçulmanos são nomeadamente moderados, e desejam intensamente um Islão secular, onde haja mais espaço para a liberdade individual e para a emancipação. Pelo menos, parece ser isto o que temos que acreditar. Mais de dois anos após a morte de Theo van Gogh as sociedades ocidentais ainda não ouviram ‘algo’ significativo da parte do Islão moderado. Talvez possamos prudentemente fazer um balanço?
e
Um estudo recente afirma que a percentagem de jovens marroquinos que rejeita a sociedade ocidental já chegou aos 50%. Eu lembro-me que ainda não há muito tempo a percentagem era de 15%. E desta forma é dada uma resposta à sacrossanta pergunta que nunca é posta. A pergunta é a seguinte: Quem é que tem mais influência? O Islão moderado sobre o fundamentalista, ou o fundamentalista sobre o moderado?
e
Pois bem!
e
É absolutamente irrelevante quantos muçulmanos moderados existem, enquanto eles não mexerem uma palha e não abrirem a boca. Porque são os empreendedores fanáticos e motivados que fazem a história; são os indivíduos dispostos a agir que marcam o compasso; são os persistentes que constroem pacientemente o molde onde a moderação vai enrijecer e tomar a sua forma definitiva. Enquanto os moderados não se moverem, e não se atreverem a resistir activamente contra os seus correligionários mais extremistas, estarão sempre na mó de baixo e serão sempre levados a reboque. Esta maioria silenciosa e complacente de muçulmanos é utilizada pelos fanáticos como escudo para se defenderem, ou então como uma enorme arma que vão pôr em marcha quando a altura for propícia.
e
Porque o Islão é mesmo assim. Atacar de surpresa a cultura dominante é o único truque do Islão, mas dominam esta faceta com grande perfeição. A doutrina nasceu num país, e já se encontra em mais de 50. Como é isso possível? Porque o Islão marcha sempre em frente, nunca retrocede. São sempre os fundamentalistas que semeiam activamente a influência do Islão, alargando fronteiras e batendo-se por elas, nem que seja durante séculos: nunca os moderados conseguiram com sucesso uma retirada estratégica. O Islão só se retira quando é activamente combatido e derrotado, e para isso, em regra, foi sempre necessário utilizar medidas robustas.
e
Assim foi em todo o Médio Oriente, onde a cultura persa foi completamente aniquilada. Assim foi na Indonésia, que nuns escassos 100 anos passou de totalmente budista para totalmente muçulmana. Assim é AGORA no Caxemira, onde já foram mortos milhões de hindus. Assim é agora na fronteira norte do Paquistão, na Tailândia, em África e no Líbano, e também vai ser assim na Europa. E sempre da mesma maneira – uma vanguarda inatingível que não tem medo de sujar as mãos e que em cada dia que passa dá um passo em frente, dispersa entre uma enorme horda silenciosa de simpatizantes que é apenas utilizada como massa de cimento para preencher e cimentar o espaço conquistado. O Islão moderado não é nada mais do que argamassa.
e
E porque será que nós julgamos que vamos escapar? Porque é que não damos o corpo ao manifesto? Porque não fazemos uma tentativa para controlar a situação, porquê ficar à espera, na esperança da bóia de salvação que o Islão moderado nos possa atirar? E porque razão ousamos pensar que o Islão moderado é realmente moderado? Julgamos isso por causa desta única frase:
e
‘Nós não podemos fazer nada’.
e
Esta frase pode ser ouvida em todo o mundo. No sul da Tailândia onde os budistas sobreviventes são ameaçados e assassinados por milícias muçulmanas. E o que é que as autoridades muçulmanas locais nos dizem? É muito aborrecido, mas não podemos fazer nada. Na Indonésia raparigas cristãs são decapitadas por salteadores muçulmanos. E o que é que o governo muçulmano nos diz? Muito chato, mas não podemos fazer nada. O Islão significa nomeadamente amor! No Darfur, a milícia Janjaweed comete actualmente um genocídio expedito contra a população negra. E o que é que dizem os funcionários do Sudão? Sim, temos muita pena, mas não podemos fazer nada. Já o Arafat, com os seus terroristas suicidas, não podia fazer nada. E o Hezbollah, esses então não podem fazer mesmo nada. Nós não pudemos fazer nada: é o eterno pretexto de Allah.
e
Atentado nos Estados Unidos? Não podemos fazer nada; o Islão é mera tolerância. Atentados à bomba em Madrid e Londres? Não, não podemos fazer nada; na realidade o Islão é uma religião de bondade! Samir A (tentativa de atentados contra o parlamento holandês e contra uma central nuclear)? Mohammed B (assassínio de Theo van Gogh)? Não podemos fazer nada; são rapazes holandeses como os outros. Parlamentários e jornalistas são seriamente ameaçados? Não podemos fazer nada; ‘jihad’ significa na realidade apenas uma luta interior. O Anti-semitismo e o ódio contra homossexuais que ressurge? Não podemos fazer nada; perante Allah somos todos iguais. Crimes de sangue? Lapidações? Não podemos fazer nada; o Islão é na realidade um paraíso de liberdade para as mulheres! Viva! Fantástico!
e
Não podemos fazer nada."
Lagonda
(tradução do Neerlandês: Carmo da Rosa)
segunda-feira, 16 de Julho de 2007
Lisboa
domingo, 15 de Julho de 2007
HAPPY BIRTHDAY!

Mas quando o tema diz respeito a blogues, o tempo cheira subitamente a eternidade. Nada que se compare a um livro que tenha levado o dobro do tempo a escrever, o que já me aconteceu, nem nada que se compare a um desses planos faseados sob a forma de organigrama sem fim. Não, com os blogues a música é outra. De facto, o Miniscente mudou-me a vida, bem mais do que a literatura o havia feito há mais de um quarto de século. Se cada romance e se cada ensaio foram recortando a minha vida em episódios densos com princípio, meio e fim – uma espécie de descendência onírica que me foi carregando a memória –, já o Miniscente se intrometeu e inseminou no curso íntimo da minha vida, passando a calcorrear-lhe os ritmos, a mimar-lhe a respiração e, quando menos se esperaria, até a ditar-lhe as linhas e o tom das urgências diárias.
e
Um blogger é um “Já” (a iminência enquanto corpo) que passou a depender do compasso musical onde se insere: mera nota, mera peça e mera inscrição que julga decidir sobre o seu usufruto, isto é sobre a sua liberdade, tal como um escritor – no tempo em que a literatura se sobrepunha socialmente ao circo das imagens móveis – julgava a morosa maturação da sua escrita laboratorial. Não, nos blogues não há oficina, nem laboratório à moda dos velhos canônes, mas apenas e tão-só linha de montagem, desejo e constrangimento. Três termos num único e reluzente esplendor: linha de montagem como fôlego e actualização; desejo como existência, vínculo e afirmação em rede; e, por fim, constrangimento como imposição, glamour e voragem próprias.
e
No meu caso, o lado positivo da blogosfera passa por este tipo de convivência tão nova quanto incerta. Isto é: saber conviver com a pulsação turbulenta do mundo, numa errância encapelada que quase se apaga no momento em que surge; no reverso do dever (pesado) e das narrativas tradicionais em que o fundamental passou a ser como o olhar que nasce e morre ao mesmo tempo, por simples paixão pelo imediato, pelo instantâneo, ou pelo fiat deslumbrado e sem precedentes com que na rede se passou a perceber – e a iludir – o ‘Outro’. O “fingimento”, tal como foi caracterizado quando a poesia e a literatura ainda eram um Olimpo social, é hoje o alicerce sobre o qual o blogger cava (não digo constrói) a sua palavra fugidia. Entrámos, de vez, na idade do cavador de pérolas. O meu primo e tenor, Tomás Aquino Carmelo Alcaide, teria sorrido com grande desdém. Eu – pelo meu lado – gosto, mas sem a limpidez de outros gostos que já me marcaram a vida. O Vergílio Ferreira teria gozado. Como só ele sabia fazer. Quando não estava a escrever.
e
Um dia, tal como começou, o Miniscente há-de acabar. Mas não lhe darei, por ora, o privilégio de acabar em data certa, apolínea e pitagórica. Como é esta. Deixei para trás, neste ciberespaço apetecível, algumas séries de textos que não deslustram e muitas outras que foram concebidas ao nível de uma pastilha elástica conservadora. Em ambos os casos, ponderei sempre a forma e nunca, infelizmente, soube filtrar o que ia enunciando ao sabor das grandes audiências (embora, com o tempo, tivesse deixado de consultar, com regularidade mais ou menos adolescente, o “Sitemeter”). Diga-se, em concordância com o hábito e à luz da inexplicável efígie do seu monge, que, hoje em dia, também visito menos blogues, também desenvolvo muito menos networking e também perdi alguma paciência para actualizar links. Sintomas, dir-se-á. Sintomas, talvez, de mudanças que urgem. Até porque não há blogger que, só por ser blogger, tenha interesse. É por isso que sou alérgico a um certo corporativismo tribal que abunda na blogosfera. E com o qual, rigorosamente, nada tenho que ver. Nem nunca terei.
Quarto aniversário do Miniscente - 6
Contudo, o trabalho a bordo de um blogue, se bem que movido pela compulsão e por hábitos de permanente e actualizada inscrição, é sempre um trabalho que deverá concordar com o prazer. Com uma bitola mínima povoada pelo lúdico, pela liberdade de edição, pela manobra pouco calculista, pelo assombro da espontaneidade, pelo dislate irreparável, pela ostensão desnecessária, pela exposição pura e simples. Sem medos. Porque, como referi há mais de um ano, na sequência que ficou conhecida por “O Tom dos Blogues” (que vai aparecer, em breve, sob a forma de livro), com mais ou menos simplismo, embora com autenticidade, “os blogues somos nós mesmos”. É este, porventura, no meu caso pessoal, o móbil mais forte da persistência blogosférica: estar sempre prestes a comemorar um imenso nada que, de um momento para o outro, se pode miraculosamente transformar numa espécie de novo Rameau d´Or.
sábado, 14 de Julho de 2007
Quarto aniversário do Miniscente - 5
Um dia, tal como começou, o Miniscente há-de acabar. Mas não lhe darei, por ora, o privilégio de acabar em data certa, apolínea e pitagórica. Como é esta. Deixei para trás, neste ciberespaço apetecível, algumas séries de textos que não deslustram e muitas outras que foram concebidas ao nível de uma pastilha elástica conservadora. Em ambos os casos, ponderei sempre a forma e nunca, infelizmente, soube filtrar o que ia enunciando ao sabor das grandes audiências (embora, com o tempo, tivesse deixado de consultar, com regularidade mais ou menos adolescente, o “Sitemeter”). Diga-se, em concordância com o hábito e à luz da inexplicável efígie do seu monge, que, hoje em dia, também visito menos blogues, também desenvolvo muito menos networking e também perdi alguma paciência para actualizar links. Sintomas, dir-se-á. Sintomas, talvez, de mudanças que urgem. Até porque não há blogger que, só por ser blogger, tenha interesse. É por isso que sou alérgico a um certo corporativismo tribal que abunda na blogosfera. E com o qual, rigorosamente, nada tenho que ver. Nem nunca terei.
e
Este texto é publicado em cinco partes, entre o dia 11 de Julho e o dia do quarto aniversário do Miniscente (15 de Julho).
Escavações Contemporâneas - 39

LC
O sorriso do arquivo no tempo da rede
(hoje: António Quadros - António M. Ferro, Org.)
O português quer viver, crescer e de um modo geral ser, mas afeiçoou-se a convicções negativistas, nomeadamente ao nível político e educativo, que o conduzem a um auto-envenenamento mental. É porque não acreditamos em nós próprios, no que somos e valemos, no nosso pensamento e na nossa cultura, que em vez de pensarmos a partir daí a renovação das nossas leis, das nossas instituições ou dos nossos sistemas, constantemente, em sucessivos remendos, nos limitamos a importar, a repetir, a copiar ou a adaptar, ao mesmo tempo que nos autocriticamos sem medida e nos negamos. Disse-o de uma forma lapidar Fernando Pessoa, num pequeno texto que por várias vezes tenho citado: «uma nação que habitualmente pense mal de si mesma acabará por merecer o conceito de si que anteformou. Envenena-se mentalmente.» Daí que, acrescentou, « o primeiro passo para uma regeneração, económica ou outra, de Portugal, é criarmos um estado de espírito de confiança – mais, de certeza, nessa regeneração.» Vivemos hoje um período de menoridade e de adolescência regressiva em que, predominando o intelecto passivo, as pessoas se auto-satisfazem e auto-iludem como os lugares-comuns ideológicos, com os discursos demagógicos e com as ideias convencionais de gerações que, para repudiarem um certo tipo histórico de nacionalismo, perderam a própria identidade e já não sabem quem são ou para que são, os portugueses. (…) devido ao cientismo e ao tecnicismos predominantes que o positivismo nos trouxe, sem o acompanhamento de uma educação do intelecto para o desenvolvimento das faculdades superiores do homem, o nosso ensino público dirige-se à mentalidade pueril, não logrando a elevação do intelecto passivo e adolescente até ao intelecto activo e adulto, o que explica a facilidade com que o estudante cai nas mais quiméricas, utópicas ou demagógicas ideologias, com pouca ou nenhuma capacidade de eleição ou de análise.(…).
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Sextas - Paulo Tunhas
Sábados – António Quadros (António M. Ferro, Org.)
sexta-feira, 13 de Julho de 2007
Quarto aniversário do Miniscente - 4
No meu caso, o lado positivo da blogosfera passa por este tipo de convivência tão nova quanto incerta. Isto é: saber conviver com a pulsação turbulenta do mundo, numa errância encapelada que quase se apaga no momento em que surge; no reverso do dever (pesado) e das narrativas tradicionais em que o fundamental passou a ser como o olhar que nasce e morre ao mesmo tempo, por simples paixão pelo imediato, pelo instantâneo, ou pelo fiat deslumbrado e sem precedentes com que na rede se passou a perceber – e a iludir – o ‘Outro’. O “fingimento”, tal como foi caracterizado quando a poesia e a literatura ainda eram um Olimpo social, é hoje o alicerce sobre o qual o blogger cava (não digo constrói) a sua palavra fugidia. Entrámos, de vez, na idade do cavador de pérolas. O meu primo e tenor, Tomás Aquino Carmelo Alcaide, teria sorrido com grande desdém. Eu – pelo meu lado – gosto, mas sem a limpidez de outros gostos que já me marcaram a vida. O Vergílio Ferreira teria gozado. Como só ele sabia fazer. Quando não estava a escrever.
Escavações Contemporâneas - 38

LC
O sorriso do arquivo no tempo da rede
(hoje: Paulo Tunhas)
e
O que ficará do comunismo? (1990*)
É quase tão misterioso saber se os comunistas acreditam no comunismo como ter a certeza da fé em Deus nos católicos, embora certamente menos interessante. Em relação aos católicos é, digamos, natural que assim seja. A crença e a descrença devem, em princípio, formar um todo: «temor e tremor» e esperança podem perfeitamente andar de mãos dadas com desesperada coragem. Mesmo que a totalidade dos meus amigos católicos me pareça gente pouco dada a intimidades com «as realidades inefáveis e desconhecidas» e eminentemente dedicada às coisas dizíveis e tangíveis, eu devo sempre reconhecer que há algo que não posso saber. Só Deus sabe os segredos que as pessoas guardam.
Mas o problema com o comunismo é obviamente diferente. Enquanto que é literalmente impossível provar que Deus não existe, as provas do terror comunista são ostensivas até mais não. Eram-no desde há muito, mas negá-las agora exige um exercício de cegueira tão extraordinário que excede até as capacidades de gente excepcionalmente dotada para o efeito, como os comunistas. Claro que se pode ainda—pode-se sempre—recorrer ao argumento da «bondade» da doutrina e culpar a realidade crua e imperfeita dos «desvios» e dessas coisas desagradáveis que aconteceram. Ainda no outro dia um historiador russo, Medvedev, dizia que o capitalismo demorou muito tempo a reconhecer os direitos humanos: seria necessário dar pelo menos igual tempo ao comunismo.
O menos que se pode dizer é que é um disparate puro e simples. Passando generosamente por cima do facto do que é dito em relação ao capitalismo ser apenas uma meia-verdade, é como se alguém, depois de conseguir que a sua cozinheira, finalmente, cozinhasse bem, ou pelo menos decentemente, a substituísse por outra perfeitamente incapaz de fazer sequer uma omeleta e destinada a envenenar a família aos longo dos anos, com o argumento sumamente estúpido de que, quando aprendesse a cozinhar, alimentaria melhor os sobreviventes e os descendentes destes, caso os houvesse.
Como dizia Necker a Turgot, referindo-se a uma situação apesar de tudo menos preocupante: «Não consigo compreender esta fria compaixão intelectual pelas gerações futuras, que deverá endurecer os nossos corações contra os gritos de dez mil infelizes que agora nos rodeiam». A compaixão intelectual continua duvidosa e os números são muitos milhões.
O comunismo enquanto tal já não é susceptível de fé. Ultrapassou, por assim dizer, o seu limite de elasticidade. Mas a fé comunista, perdido o seu objecto primeiro, encontra facilmente um segundo objecto, íntimo e difuso. Os sonhos que se transformam, para certos homens, num ritual que é uma espécie de comércio com o sentido do mundo (o sentido do mundo confundindo-se com a ilusão da sobrevivência), são os últimos a desaparecer— e a matéria, definitivamente, não conta. A fé comunista, perdido o seu objecto primeiro, não vai no essencial mudar. Do Dr. José Magalhães ao pequeno militante professor num qualquer liceu do país, as mesmas coisas, estúpidas e prodigiosas de ortodoxia, irão ser repetidas, por exemplo, sobre a cultura. A litania dos infinitos direitos, o que com justeza se poderia chamar a obrigação aos direitos, a visão conspiratória do mundo que defende os pequenos talentos egotistas e lhes explica a própria nulidade disfarçada de produto de conjuras, perpetuar-se-ão numa linguagem a que alguém perfeitamente deu o nome de «baixo latim de legionários derrotados», espécie de ersatz daquela antiga comunhão com as «realidades inefáveis e desconhecidas», agora tristemente dizíveis e tangíveis. E então isso — essa cadeia de reflexos de um filantrópico e elitista ódio ao mundo, turvo, meio solene, despeitado, raivoso de poder—será, como já quase é, a última matéria restante dos sonhos solares do Dr. Cunhal. Provavelmente será também a mais durável. E ninguém diga que está bem. O baixo latim está em todo o lado.
w
quinta-feira, 12 de Julho de 2007
Quarto aniversário do Miniscente - 3
Um blogger é um “Já” (a iminência enquanto corpo) que passou a depender do compasso musical onde se insere: mera nota, mera peça e mera inscrição que julga decidir sobre o seu usufruto, isto é sobre a sua liberdade, tal como um escritor – no tempo em que a literatura se sobrepunha socialmente ao circo das imagens móveis – julgava a morosa maturação da sua escrita laboratorial. Não, nos blogues não há oficina, nem laboratório à moda dos velhos canônes, mas apenas e tão-só linha de montagem, desejo e constrangimento. Três termos num único e reluzente esplendor: linha de montagem como fôlego e actualização; desejo como existência, vínculo e afirmação em rede; e, por fim, constrangimento como imposição, glamour e voragem próprias.
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Este texto é publicado em cinco partes, entre o dia 11 de Julho e o dia do quarto aniversário do Miniscente (15 de Julho).
quarta-feira, 11 de Julho de 2007
Quarto aniversário do Miniscente - 2
Mas quando o tema diz respeito a blogues, o tempo cheira subitamente a eternidade. Nada que se compare a um livro que tenha levado o dobro do tempo a escrever, o que já me aconteceu, nem nada que se compare a um desses planos faseados sob a forma de organigrama sem fim. Não, com os blogues a música é outra. De facto, o Miniscente mudou-me a vida, bem mais do que a literatura o havia feito há mais de um quarto de século. Se cada romance e se cada ensaio foram recortando a minha vida em episódios densos com princípio, meio e fim – uma espécie de descendência onírica que me foi carregando a memória –, já o Miniscente se intrometeu e inseminou no curso íntimo da minha vida, passando a calcorrear-lhe os ritmos, a mimar-lhe a respiração e, quando menos se esperaria, até a ditar-lhe as linhas e o tom das urgências diárias.
terça-feira, 10 de Julho de 2007
Quarto aniversário do Miniscente - 1

Uma revelação seis anos depois
O limbo discreto

Pois bem, longe das polémicas de outros tempos, as eleições parecem estar a acomodar a blogosfera a um limbo de discretas microcausas, um dos terrenos férteis da sua curta história.
segunda-feira, 9 de Julho de 2007
O teor da felicidade

domingo, 8 de Julho de 2007
Sete Maravilhas

sábado, 7 de Julho de 2007
Blogues e Meteoros - 38

Por trás do cenário da presidência portuguesa da UE, o país anda encantado com as Sete Maravilhas (do mundo, do país, tanto faz!). A discussão é frívola, atravessa sem grande ruído regionalista – felizmente – o nosso breviário de costumes e irá acabar naquilo que, hoje em dia, se designa por “grande evento”. Pouca importa a designação e o teor do “grande evento”, pois o que nele conta é a comunicação pela comunicação, o impacto da simulação mundializada e o aparecimento em rede de algumas figuras (ou fantasmas?), cujo êxtase reside nessa aparição e não, claro, no que proferirem, cantarem ou ajuizarem.
Mas não se pense que as designações são coisas vãs. Na maior parte das vezes, ao designar, quer o plebeu quer o nobre significam muito para além do que desejariam. Por exemplo, quando Durão Barros invocou solenemente "Bartolomeu Dias" e "Vasco da Gama", no Dia Um da presidência portuguesa (para significar a Alemanha e Portugal), o artifício disse bem mais a seu respeito (e da Comissão) do que acerca do Tratado do Éden. O cariz heróico, mobilizador e entusiástico, subjacente às “Descobertas” de Durão Barroso (e omnipresente no vocabulário oficial), contrastou com um óbvio alheamento do público.
Apesar da propensão geral para os “grandes eventos”, é curioso como o capricho metafórico dos Descobrimentos nos persegue. E nos mascara. Devo dizer que, com os meus dez ou onze anos, já brincava à Infante D. Henrique nas poças da chuva. Com quinze, deitava caravelas no Rio Nabão e sentia um frisson épico que não desonrava as lendas domésticas sobre o Mundo Português, os êxtases pessoanos ou a eloquência em verso de Garrett sobre Camões. Estávamos todos já em rede: eu, as “Lendas e Narrativas” e ainda um delirante reitor do então Liceu Nacional de Évora que dava animadas aulas sobre o “Quinto Império”. Um dia, como sabemos, veio a XVIIª precedendo o augurado paraíso da Expo-98. “Foi assim”, parafraseando Zita Seabra: as alucinações comemorativas e as metáforas do nosso destino sempre adoraram voltar ao local do crime: à gesta dos Descobrimentos (Ai, Ai, “Sete Maravilhas”!). Como um ratinho a pedalar numa redoma de plástico. Como um passarinho a debicar na ameixa (mais do que) madura. Como um insípido episódio, às esquerdas ou às direitas, sempre a rimar consigo mesmo. Sempre.
Escavações Contemporâneas - 37

LC
e
O sorriso do arquivo no tempo da rede
Segundas - João Pereira Coutinho
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Sextas - Paulo Tunhas
Sábados – António Quadros (António M. Ferro, Org.)
sexta-feira, 6 de Julho de 2007
Escavações Contemporâneas - 36

LC
O sorriso do arquivo no tempo da rede
(hoje: Paulo Tunhas)
e
Felicidade
"Aristipo de Cirene, que viveu, parece, por volta da primeira metade do século IV a.C., dizia que «três são os estados relativos ao nosso temperamento: um, pelo qual sentimos dor, semelhante à tempestade no mar; outro, pelo qual sentimos prazer, parecido com a leve onda, porque o prazer é um leve movimento, comparável a uma brisa favorável; o terceiro é o estado intermediário, pelo qual não sentimos dor nem prazer, análogo à calma do mar». E o prazer é para ele uma coisa diversa da felicidade: enquanto que o primeiro é imediatamente buscável, a segunda — que é algo como o sistema de todos os prazeres particulares passados, presentes e futuros — é-nos possível apenas indirectamente, por meio dessas leves ondas, leve movimento das brisas favoráveis.
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A felicidade, pelo menos aparentemente, é para nós tão «vulgar» como o era para Aristipo de Cirene. É uma mistura de prazer, lembrança e esperança dele, uma espécie de harmonia incompreensível, porque todos os tempos se dividem perpetuamente e nos deixam inermes e abandonados no seu movimento. Para mais, a felicidade é notoriamente menos conspícua que o prazer. O prazer é, em geral, facilmente reconhecível; a felicidade não. A mais terrível pergunta de todas é: «foi, até agora, feliz?». É terrível porque parece que não faz sentido. Não faz sentido responder que sim: o título mais obsceno que alguma vez algum livro recebeu foi certamente o da autobiografia de Pablo Neruda, Confesso que vivi. Ou então deve dizer-se isso exactamente porque não faz sentido. Mas responder que não faz tão pouco sentido como responder que sim: como é que se pode saber que não se foi feliz? E talvez também se deva dizer isso por não fazer sentido.
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Há algo na felicidade que não tem nada que ver com o verbo ter. A verdadeira raiz da felicidade é a admiração. É-se feliz na medida em que se admira a felicidade, em que se soube admirar a felicidade própria e alheia. Mas é-se feliz como se não fosse connosco. A felicidade é a coisa mais impessoal do mundo, mesmo que se manifeste pessoalmente. A felicidade é muito exactamente uma Ideia, no sentido de Platão. Algo que nos esforçamos por imitar mas que pertence a uma categoria ontológica diferente.
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E nesse sentido pode coexistir, mesmo que imperceptivelmente, com a dor, o que não acontece, é claro — a não ser nos limites literários —, com o prazer. Dor e prazer são termos contrários; dor e felicidade não. Enquanto houver força para admirar a Ideia da felicidade ela existe - de uma maneira ou de outra, mesmo que estejamos completamente despossuídos dela. Em nenhum lugar se vê isso melhor do que na música, que é aquilo que Schopenhauer chamava «órgão do sonho». E na poesia também, quando é uma espécie de música.
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Platão dizia que a filosofia é uma preparação para a morte. A morte não é uma Ideia, e por isso é impensável. E a dedicação filosófica é uma dedicação ao pensável, um esforço para transportar o pensável para além do impensável, nisso residindo o lado inútil da filosofia, que é o seu lado não prático. Mas é só através de uma dedicação deste tipo que a felicidade pode ser admirada e imitada.
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Talvez então que a recordação dos leves movimentos, das brisas favoráveis a que se referia Aristipo de Cirene deva ser uma recordação, e uma esperança, por imitação. A felicidade e a harmonia não foram nunca possuídas porque são literalmente insusceptíveis de posse: são susceptíveis apenas de admiração."
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Sextas - Paulo Tunhas
Sábados – António Quadros (António M. Ferro, Org.)
quinta-feira, 5 de Julho de 2007
Henrique Viana

Touradas e copinhos de leite - 3
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1 – O “amplo espectro” que referes serve também para quem, como eu, na minha condição de não aficionado militante (e até de vivencialmente desfasado do meio que germina e qualifica as tauromaquias), não deixa de afirmar um espaço de tolerância telúrico, estético e mitológico onde cabem, com toda a naturalidade, as touradas.
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2 – Saberás provavelmente melhor do que eu como o discurso da “civilização” vs. “barbárie” serve - na boca de muito facilitismo - para tornar a tourada numa manifestação “atrasada” e própria apenas de uns quantos “machos incultos” e meio selvagens. O discurso sobre a tourada não é um discurso circunscrito pela racionalidade e, geralmente, apesar da latitude dos espectros, é na antinomia intolerante e na ‘correcção’ circunstancial que os variados argumentos ‘contra’ – a par, naturalmente, de muitos ‘prós’ – são talhados. É o pobre mundo dos ‘topoi’ no seu melhor (“repudiar”, por exemplo, evidencia, de imediato, uma recusa, uma morte, uma mudez que se desejará impor).
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3 – Não entendo bem o teu terceiro ponto. Mas é evidente que o relativismo existe, mesmo quando o hiperterrorismo parece (para alguns – será a esses a que te referes?) menos ameaçador para o modo de vida, ou para o livre usufruto do quotidiano, do que um indefeso touro a sangrar numa arena. Fernando Gil falava de "ideologia global", quando se referia ironicamente à miséria do Ocidente por ter cometido o crime de inventar a liberdade, há umas centenas de anos, tal como ainda a entendemos hoje. No nosso tempo, a pouco e pouco, a liberdade está a tornar-se numa ré diante de jurados “fracturantes”. Já agora: a expressão “apunhalarem touros a trote” está na linha do escárnio futebolês e menos, portanto, na de um entendimento – ou desejo de avizinhamento – recíproco, não está? Vendo bem, o interlocutor não é forcado. Embora aprecie os galanteios, danças, devaneios e erros grosseiros e até físicos de uma boa pega.
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4 – A questão reposta neste ponto era, de início, menos burlesca. Confesso. Tratava-se tão-só de perceber a natureza da seriedade com que o sofrimento do touro é sublinhado pelos porta-vozes que aparecem, de vez em quando, no espaço público com aquele ar de sacerdote purificado que trocou as viagens apocalípticas ao cabo do ‘Além’ pela justiça a que deve obedecer – concordo – o transporte dos animais. Afinal, é preciso comer carne com alguma qualidade.
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5 – As regras sobre o sofrimento desnecessário atravessam o emergir moderno e projectam-se sobre nós, na actualidade, como que a preencher o ‘Dever Ser’ pesado e vertical que foi abandonando, nas últimas décadas, as nossas sociedades (não leves a mal o possessivo, na medida em que ele releva um facto e não um desígnio). No seu tempo, Hemingway foi um herói (muito incómodo): macho, fumador, homem de prazeres, amante da Fiesta. Hoje os heróis são feitos de fluxo: mecanismos automatizados que obedecem a vontades prévias reguladas pela instantaneidade high tech. Fluxo de consumir, de viajar, de expressar, de ver, de pensar, etc. O mainstream organiza-se assim, i.e.: através da disciplina pouco livre com que se adopta (com novos tipos de pudor) a ideia de um mundo indolor, baseado na simulação de um corpo protésico e quase eterno que o comandaria (as profecias “cyborg” levam ao extremo este ‘item’). Não é por acaso que a eutanásia anda agora nas bocas do mundo. Concordo, pois, contigo: não há medidas para o sofrimento desnecessário, incluindo “as da tourada”, ainda que os novos moralismos (que são amorais no modo como se processam em fluxo) tentem criá-las nas novas voragens socialmente correctas.
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6 – A banalização! Ó Bruno por que razão convocas a minha belíssima infância e as tauromaquias populares e enraizadas (como me lembro delas, a partir do meu posto de estóica observação!), tu que vives num mundo em que as inundações, as guerras, os atentados, as mortes na favela, as quedas de avião e os terrorismos globais se banalizaram tão absurda e radicalmente? Não te parece paradoxal? Não te parece que há aí qualquer coisa que falha (e que está a mais ou a menos)? Não te parece que anda por aí uma demissão face a causas reais que se quedam quase sempre pela ingenuidade inoperante do “alter” e do “anti”? Não te parece que a falência fatal de algumas cartilhas políticas obrigou contingentes de “desempregados” (metáfora pessoana) a reinventarem objectos singulares para preencher a ira e o desencanto em que subitamente se reviram? Não achas que as touradas constituem para tais contingentes “espectros” ou “fantasmas” (mais ou menos ópticos) que dão a sensação (o simulacro, mais uma vez) de que uma qualquer “luta continua”? Isto tudo, claro está, apesar de se pensar, não sobre o vazio, mas sobre um perímetro mínimo onde o entendimento deveria ser – e eu creio que deve ser – um esteio para a tolerância.
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7 – A terminar, diria que não há aqui, de facto – ao contrário do que legitimamente pensarás –, uma questão de solidariedade para com as “minhas” origens. O que há é uma visão que tende a reconhecer o livre usufruto dos actos a quem os pratica. A ti, a mim, aos toureiros e aos aficionados. A liberdade não cai como uma receita, ou uma denegação imposta, sobre as nossas cabeças; ela inicia-se em nós. E o bom senso deverá articular oposições, posições e gostos. A questão do tabaco não anda muito longe desta: eu, por exemplo, não fumo; mas, cá em casa, todos os fumadores podem fumar. E bem sei que fumar faz mal e faz sofrer os Outros. Tal como as touradas fazem sofrer os ‘seus’ Outros. Mas não é o sofrimento, apenas, o que está em causa nas touradas. Pensá-lo… reflecte sinceramente uma visão reducionista. Se assim fosse, Bruno, elas já não existiriam. Se assim fosse, Bruno, as touradas não teriam sido motivo para a criação de tantas e tantas mensagens artísticas ricas e diversas. É porque existe algo mais nelas. Muito mais. Algo que ressoa de muito longe e que tem que ver profundamente connosco. Goste-se ou não do que somos, ou do que pensamos que infalivelmente não somos – ou seremos. Um pouco de humildade para observar e entender o que não é do ‘nosso mundo’, ou do 'nosso campo', não faria mal a ninguém. Há muitos anos, talvez há uns vinte, que penso assim. E conto já quase com 53 anos.
quarta-feira, 4 de Julho de 2007
Parabéns!

Pérolas de Julho

Pré-publicações - 42

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“Existe uma fotografia da tia Sadie e dos seus seis filhos sentados à volta da mesa do chá, em Alconleigh. A mesa está colocada, como antes, agora e sempre, no hall, à frente de um enorme lume feito com toros. Por cima da lareira, despretensiosamente à vista na fotografia, está pendurada uma pá de trincheira, com a qual, em 1915, o tio Matthew matou à pancada oito alemães, um por um, à medida que se arrastavam para fora dos abrigos subterrâneos. Ainda está coberta de sangue e cabelos, objecto de grande fascínio para nós quando crianças. Na fotografia, a cara da tia Sadie, sempre bonita, parece inesperadamente redonda, o cabelo inesperadamente tufado e a roupa inesperadamente desleixada, mas não há dúvida de que é ela quem está ali sentada com o Robin em mares de rendas, refastelado sobre o joelho. Ela parece não saber bem o que fazer com a cabeça do miúdo e a presença da Ama, à espera de o levar dali, embora não esteja visível, é sentida. As outras crianças, entre a Louisa, com onze anos, e o Matt, com dois, estão sentadas à mesa com vestidos de festa ou bibes franzidos, e pegam em chávenas ou canecas, dependendo das idades, todos a olhar fixamente para a câmara com uns grandes olhos, muito abertos por causa do flash, e ar de sonsos. Ali estão, parados como moscas, na cor âmbar do momento — a câmara faz clique e a vida continua; os minutos, os dias, os anos, as décadas afastam-nos cada vez mais daquela felicidade e da promessa de juventude, das esperanças que a tia Sadie terá neles depositado e dos sonhos que eles sonharam para si próprios. Muitas vezes penso que não há tristeza mais dilacerante do que a dos velhos retratos de grupo de família.
Em criança, eu passava as férias de Natal em Alconleigh; era uma rubrica regular na minha vida e, embora algumas dessas férias tenham decorrido sem nada muito específico para recordar, outras destacaram-se por causa de acontecimentos dramáticos e ganharam um carácter próprio. Foi a altura, por exemplo, em que houve um incêndio na ala dos criados, a altura em que o meu pónei caiu sobre mim no riacho e quase me afogou (não chegou a acontecer porque depressa o arrastaram dali para fora, embora, segundo consta, haja quem tenha observado umas bolhinhas de ar). Houve drama quando a Linda, aos dez anos, tentou suicidar-se para se juntar a um velho e malcheiroso Border Terrier, que o tio Matthew tinha mandado abater. A Linda apanhou e comeu um cesto cheio de bagas de teixo, foi encontrada pela Ama e obrigada a ingerir mostarda e água para vomitar. Ouviu depois “uma palavrinha” da tia Sadie, levou um puxão de orelhas do tio Matthew, passou vários dias de cama, e ofereceram-lhe um cachorro Labrador, que depressa tomou o lugar do velho Border nos seus afectos. Houve um drama ainda maior quando a Linda, aos doze anos, descreveu às filhas de uns vizinhos que tinham ido tomar chá lá a casa, aquilo que ela julgava serem as “coisas” da vida. A apresentação que a Linda fez dessas “coisas” foi tão macabra que as crianças deixaram Alconleigh num pranto medonho, com os nervos debilitados para sempre e muito reduzidas as hipóteses futuras de uma vida sexual saudável e feliz. O resultado foi uma série de castigos terríveis, desde uma sova, dada pelo tio Matthew, até ficar a almoçar no quarto durante uma semana. Houve as férias inesquecíveis em que o tio Matthew e a tia Sadie foram ao Canadá. As crianças Radlett liam os jornais avidamente, todos os dias, na esperança de verem a notícia de que o navio onde os pais viajavam se afundara com todos os passageiros a bordo; ansiavam por ser órfãos — sobretudo a Linda, que se via como a Katy do livro What Katy Did, com as rédeas da casa nas suas mãos pequenas mas capazes. O navio não embateu contra nenhum icebergue e sobreviveu às tempestades atlânticas; entretanto, tivemos umas férias maravilhosas, livres de regras.”
Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.
terça-feira, 3 de Julho de 2007
Blogues e Meteoros - 37 (act.)

Sabe-se que Berardo não é muito bem visto pela galeria vetusta que, há uns bons vinte anos, ainda se designava de modo corrente por “intelectualidade”. Nem o design negro (mitologicamente Augustus) que o acompanha bastará para suprir as mil desconfianças que, apesar de tudo, não excedem, aqui e ali, os suspiros contidos ou os embaraços mais ou menos impertinentes de alguns. Apenas Mega Ferreira, na boca do lobo, foi mais longe e bateu com a porta. Além disso, o autor de Heliventilador de Resende foi categórico: só aceitara presidir ao conselho de fundadores do Museu Berardo para dar ao “exterior a imagem de uma certa unidade de propósitos entre a Fundação (Berardo) e a Fundação Centro Cultural de Belém”. Enfim: sem que nada o fizesse prever – acreditemos no vaticínio mais ingénuo –, estalou o verniz, afundaram-se as aparências e o “right to the point”, que nunca fez escola no Portugal dos pequeninos, tornou-se subitamente em mutismo e campo de pragas. Qual arte contemporânea, qual quê! O que a antiga galeria vetusta nunca apreciou foi o cheiro dos legumes.
Nas sociedades do novo mundo, o imponderável anda muito mais próximo da experiência quotidiana do que na Europa. Os casos revisitados nas histórias de Paul Auster são disso sintoma. Homens como Berardo, que associam a sua história pessoal a universos tão distintos como as minas, o desporto, a bolsa, a arte e os legumes, são normais nessas sociedades. De algum modo, foi o imponderável associado ao tipo de iniciativa meteórica de que Berardo é exemplo (entre nós) que estiveram na base das sociedades do novo mundo, sobretudo nas Américas e na Austrália. No velho continente, a saga das revoluções (e das evoluções) modernas pôs de lado as realezas dos muitos “Roi Soleil”, mas não aboliu de vez um certo espírito de privilégio que, entre esquerdas e direitas, sempre acabou por se projectar na figura dos “intelectuais” e dos “geniais criadores” (desses que Kant descreveu como exemplos únicos, cuja singularidade não poderia ser explicada por qualquer regra).
É por isso natural que a entrada desabrida de Berardo na “Casa dos Privilégios” tenha gerado a ira do dono do Templo e com ele a ira sigilosa de todo o subterrâneo Antigo Regime. Não se imagine, pois, que o nosso país seja incapaz de ver a sua poética brandura ferver em pouca água. Até porque os privilégios em cena, hoje em dia, já não significam ceptro, descobrimentos, Gugunhana ou água benta, mas apenas o direito a uma presença exclusiva de alguns num palco – que desejariam – ilimitado.
Esquecem-se que no tempo da rede se está em todo o lado, ao mesmo tempo, em muitos palcos e em muitos auditórios. E quantos mais Berardos aparecerem neste novíssimo caos, mais se irá apagando a velha e disfarçada herança dos privilégios.
Bartolomeu e Gama revisited

segunda-feira, 2 de Julho de 2007
Carne e Osso
Ravel

domingo, 1 de Julho de 2007
Da inveja

Pré-publicações - 41

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Pré-publicação:
"Há muitos anos que considerava a escrita como um sacramento: tinha Pávlov em conta de escritor de segunda, Pavsáni e Paláma, de qualquer modo, de autores iguais em mérito – isto com base no facto de estarem localizados na mesma página da enciclopédia. Sem a ajuda de ninguém, aprendera com os anos a distinguir, num oceano de livros enormes, as ondas grandes das pequenas, e as pequenas da espuma da praia – que enchia quase por inteiro os armários ascéticos da secção de literatura contemporânea.
Tendo trabalhado alguns anos enclausurada como uma monja no arquivo da biblioteca, Sónetchka acabou por ceder à persuasão da sua chefe" (...) "e decidiu-se a entrar para a universidade, para o departamento de filologia russa. E começara a preparar o programa, vasto e absurdo, e estava quase a fazer os exames quando de repente tudo se desmoronou, tudo se alterou de um momento para o outro: começou a guerra.
Isto foi provavelmente o primeiro acontecimento da sua vida que a precipitou para fora do estado nebuloso de leitura infindável em que se encontrava. Juntamente com o pai, naqueles anos a trabalhar numa oficina de instrumentos de precisão, foi evacuada para Sverdlóvsk, onde rapidamente se encontrou num domicílio seguro – uma biblioteca, numa cave…"
Por LC |


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