Quarta-feira, 31 de Janeiro de 2007
Novas descobertas sobre Rute Monteiro

Pré-publicações - 14
"1.
“No dia em que Atla morreu, os homens juntaram-se na taberna diante do porto velho. Enquanto atiravam aguardente para as gargantas e olhavam as gaivotas com a persistente angústia que amofina os pescadores quando estão presos em terra, recordaram que Atla, enquanto viva, era a mais bonita mulher que jamais tinham visto, ali ou em qualquer outra parte do mundo. Dois ou três suspiraram profundamente, como se a estivessem vendo tal como ela era nos seus dias de mais espantosa beleza, quando trazia soltos os caracóis do cabelo e o sol lhe incidia no rosto moreno. Um deles derramou no chão algumas gotas do bagaço. Um outro disfarçou a lágrima que tinha no canto de um olho.
– O raio do cisco!
Algumas portas adiante da taberna, as mulheres também se juntaram para comentar o óbito. Recordavam-se perfeitamente da raiva que tinham a Atla, da inveja que sentiam quando os homens a miravam ao chegarem do mar, do ódio que reprimiam quando, à noite, adormecidos nos leitos conjugais, eles invocavam o nome dela nos sonhos mais mansos. Mas, estando Atla morta, as mulheres não lhe chamaram puta, desta vez. Não escarraram para o chão quando escutaram o nome dela. Persignaram-se.
– Que descanse em paz.
– E que Deus lhe perdoe.
– Já não nos tenta mais os maridos.
Nessa noite, porém, enquanto Atla esperava que chegasse a manhã do seu funeral, deitada, muito direita, no bojo de um caixão modesto, os sonhos dos homens da vila voltaram a povoar-se de imagens dela. Babaram as fronhas e murmuraram o seu nome. Voltaram-se nas camas e, dormindo, procuraram nos corpos das esposas presentes o prazer da mulher que jamais foi deles.”
eActualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Guerra e Paz, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença e Vercial.
Jogos com deuses
Mini-entrevistas/Série II – 113

LC
Remete para uma enorme comunidade de pessoas que escrevem livremente e frequentemente na internet. Dentro da grande comunidade, existem outras mais pequenas, que se formam naturalmente, entre pessoas que se lêem mutuamente e partilham afinidades ou, não tendo essas afinidades, têm gosto e/ou curiosidade na leitura umas das outras.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Não costumo seguir grandes acontecimentos pelos blogues, para isso continuo a confiar nos meios de comunicação social tradicionais. Contudo, o fim do Governo de Durão Barroso e a possibilidade de serem convocadas eleições antecipadas, que não chegou a verificar-se, talvez tenha sido o assunto nacional que melhor ou mais apaixonadamente acompanhei nos blogues. Internacionalmente, interessam-se sobretudo opiniões sobre o conflito israelo-palestiniano, nomedamente pró Israel, porque considero que na imprensa portuguesa há um certo deficit de textos de opinião que defendam o ponto de vista israelita. De resto, interessam-me essencialmente blogues que não sigam propriamente a agenda, que sejam mais livres e leves, com textos sobre coisas do dia-a-dia, pequenas futilidades e opiniões sobre produtos culturais (filmes, livros).
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Mantive um namoro de cerca de um ano com uma pessoa que conheci através de um blogue.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Sim, os blogues são um espaço de liberdade.
Terça-feira, 30 de Janeiro de 2007
Os mil cuidados

Mini-entrevistas/Série II – 112

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje a convidada é Ana Luísa Silva, 26 anos (http://horas-perdidas.blogspot.com/).
- O que é que lhe diz a palavra "blogosfera"?
De um ponto de vista objectivo, exactamente aquilo que a palavra traduz: o conjunto de pessoas que utilizam blogues como meio de comunicação, sejam eles bloggers ou seus leitores. Pessoalmente, vejo a blogosfera como uma comunidade, um universo paralelo, onde cada um pode adoptar a identidade que escolher, expressar-se com total liberdade e partilhar pontos de vista, trocar ideias, debater desde política a ciência, literatura a astrologia, e onde, a par do que acontece na sociedade real, se descobrem empatias, amizades e até ódios de estimação.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
É difícil definir um acontecimento em particular, na verdade, desde que entrei na blogosfera que sigo atentamente todos os acontecimentos nacionais e internacionais através de blogues, permitindo-me ter uma visão alargada sobre as várias posições, quer políticas ou éticas, de um ponto de vista neutro ou pessoal, o que não deixa de ser interessante. De momento, talvez o tema que siga mais intensamente seja o referendo do aborto.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Imenso! Entrei na blogosfera por acaso, quase por brincadeira, e na altura nunca pensei que passados quase dois anos ainda escrevesse regularmente e muito menos que tanta gente me viesse a ler. Tinha acabado a licenciatura há pouco tempo e estava à procura de emprego, pelo que tinha imenso tempo livre. Visitei o blogue de uma amiga, e decidi criar um como forma de me distrair e ocupar o tempo. Nunca tinha escrito e nem sabia que gostava de escrever, estava habituada a escrever relatórios e monografias de carácter científico onde o sujeito é inexistente e o texto se pretende impessoal, pelo que foi um desafio começar a escrever na primeira pessoa e desenvolver a minha criatividade. Hoje quase não passo sem esse exercício e tornou-se uma forma importante de expressão e crescimento pessoal, permitindo-me extravasar sentimentos e opiniões, e também uma forma de distracção, divirto-me muito, tanto a escrever como a ler outros blogues.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Acho que todo o conceito de blogosfera assenta exactamente nessa premissa, a liberdade total de expressão, onde qualquer um se pode manifestar, independentemente da sua opinião, da sua formação, educação, escolaridade. Pessoas que à partida jamais teriam a possibilidade de comunicar com o grande público, ver a sua voz ouvida através dos meios tradicionais de comunicação social, podem fazê-lo aqui sem restrições, sendo essa liberdade e igualdade de oportunidades o que torna a blogosfera tão interessante. De outra forma como é que uma miúda que escreve umas coisas por graça chegaria aqui?
Segunda-feira, 29 de Janeiro de 2007
Mini-entrevistas/Série II – 111

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é João Caetano Dias (http://ablasfemia.blogspot.com/).
- O que é que lhe diz a palavra "blogosfera"?
Espaço de liberdade para onde confluem egos diversos e vaidades várias.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
'Apenas' é uma palavra demasiado ampla. Sem 'apenas', o caso das caricaturas do profeta foi um dos acontecimentos em que os blogues estiveram mais atentos do que alguma imprensa amedrontada e viciada no politicamente correcto. Também as histórias das manipulações da informação no conflito do Líbano passaram pela imprensa generalista como uma leve brisa. Os blogues estiveram lá.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Menos tempo, novos amigos e um livro.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Domingo, 28 de Janeiro de 2007
As mini-entrevistas da próxima semana
Eu adoro pastéis de Belém

Link, linca e deslinca
Sábado, 27 de Janeiro de 2007
A moda Rute Monteiro (act.)
The Holy Corner (act.)

O Jesualdo Ferreira foi educado para saber que não se manda "investigar um jogo" por causa das traves (foram três as divinas intervenções das traves da baliza) e da mão pouco arredia do gentilhomme Quaresma.
Mini-entrevistas/Série II – 110

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Neste fim-de-semana o convidado é José M. Martins [Masson], economista e professor (http://almocrevedaspetas.blogspot.com).
- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
A blogosfera é um dos poucos divertimentos intelectuais, que nos resta, contra o tédio. Palavra com 10 letras, de muita circulação em cafés, alcovas partidárias e oficinas de jornais, é a “máquina desejante” [chez Guattari] pós-moderna que mais aparenta viver. Não sabemos se é da crise de paradigma que nasce o ofício ou se, pelo contrário, é pela blogalização que se vai domesticar a crise. O certo é que esta epidemia do bloganço ainda está pouco vigiada, regulamentada ou admoestada, segundo rezam autorizados comentadores lusos. Assim, mui incivilizada contra o enfado, a blogosfera indígena é daquelas que mais aprontam “o grande espectáculo do desastre, o incêndio, a decomposição” [Tzara] da fazenda pública. Daí que os psiquiatras andem falidos, pois a blogofilia é “ainda menos aborrecido do que divertirmo-nos" [Baudelaire].
Alguns exegetas (nós, evidentemente) falam da blogosfera como uma sociedade invisível, à maneira de Daniel Innerarity, em que se assume uma nova relação entre espaço e sociedade, com movimentos e produção social própria, de “dimensão silenciosa” e fora do controlo do poder do Estado. Esta movediça desterritorialização, de transgressão global e em rede, marca uma nova discursividade, inscreve a vertigem da dissidência, sendo portanto a transformação mais radical dos nossos dias. E é sinal, pois, de uma “outra globalização”: o investimento do desejo. Basta, por isso.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Todos os acontecimentos, actuais e vindouros, são cavalgados eximiamente pelos blogues. Ao que parece, ao mais pequeno indício de ruído surge um acampamento de nevróticos bloguistas, prontos a abater qualquer novidade, assunto ou conspiração que se ponha a jeito. Este antiquíssimo desporto indígena é, diga-se, uma nobre pedrada no charco, face à domesticação, que por cá reina, nos jornais e TV’s. O bloguista é um verdadeiro blogleur, de sedução infinita. Mas, evidentemente, a abominável invasão do Iraque pelo mundo moderno Bushiano foi fértil em postas. O que permite, no futuro, saber quem (não) apoiou esse espectáculo insano. E por cá, dizemos que se não houvesse blogosfera em português ninguém mais se lembraria desse proletário das letras, o engenhoso João Miranda (Blasfémias). E se não assinássemos alguns blogs académicos, nunca saberíamos que o governo actual era socialista. Daqui se pode observar a intensidade com que acompanhamos a boémia doméstica. Para continuar!
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Suponho que, tirando a frequência da mesa verde (cruzes canhoto!) de bridge ou de um joguinho apetecível de xadrez, nada há a declarar. Vamos cumprindo, conforme podemos e o trabalho permite.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Sabe-se que “é mais difícil ser livre que puxar uma carroça”, porém temos para nós que a nostalgia da critica é sempre autenticamente vivida, o que significa que a blogosfera é tão (menos) livre que outro qualquer meio de comunicação. Mas reconhece-se, sem arremelgar a vista, que há blogs com uma intensa e sábia agenda partidária. O que, se não fosse muito imaginativo e licencioso, seria burlesco. É a vida!
Saúde e fraternidade.
Sexta-feira, 26 de Janeiro de 2007
Isto é

A engenharia "TLEBS"

A figura do ano
Mini-entrevistas/Série II – 109

LC
- O que é que lhe diz a palavra "blogosfera"?
Rede de interacção entre blogues e sites pessoais, que em certos casos formam sub-comunidades sociais entre si.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Todas as eleições em Portugal desde 2003, as eleições presidenciais norte-americanas, os acontecimentos violentos em Timor, os atentados terroristas de Madrid e Londres, o debate e referendos sobre a «Constituição Europeia».
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
- O conhecimento e subsequente relacionamento com pessoas que se reveleram na sua esmagadora maioria muito interessantes, algumas das quais se tornaram bons amigos.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
- No que me diz respeito, não tenho nem sofri até hoje qualquer limitação externa à minha liberdade de expressão enquanto blogger.
Quinta-feira, 25 de Janeiro de 2007
Haja dimensão!
Look Around You

Mini-entrevistas/Série II – 108

LC
Comunidade virtual, com tudo o que isso traz de intrigante e de excitante. É o nosso "café" possível, onde se vai, de vez em quando, para ver se alguém passou por lá, para "cumprimentar" blogoamigos ou blogoconhecidos, para descobrir gente nova que chegou à "cidade".
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Muitos, uma vez que a blogoesfera tem vindo gradualmente a substituir a leitura dos jornais online. A distância de Portugal favorece, também, essa busca de informação quer seja de natureza política, quer seja de natureza cultural. Só para citar um exemplo muito recente, recordo o caso "Miguel Sousa Tavares - plágio ou nem por isso", que segui avidamente em muitos blogues nacionais e para o qual, aliás, dei a minha pequena achega.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
O maior foi, decerto, o de me ter puxado, de novo, para a escrita, que estava abandonada há anos, e de me ter obrigado a fazê-lo de uma forma regular. Retomei portanto um dos meus prazeres de antanho com a vantagem de agora ter reacções (positivas, muitas delas) de pessoas que não me conhecem o que, admita-se, é muito agradável.
Acrescem as amizades que já criei, tanto em Portugal, como na Bélgica, com gente que, de outro modo, os acasos da vida não teriam certamente cruzado comigo. São pessoas de idades diversas, formações académicas distintas, que me proporcionam um enriquecimento fantástico.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Acredito! Com tudo o que isso tem de positivo e de negativo. Porque há quem saiba aproveitar essa liberdade e quem a utilize para fins mais duvidosos. Mas, como na televisão, a liberdade de desligar o botão também existe.
Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2007
Figurações que mudam

Imagens de Rute Monteiro
Mini-entrevistas/Série II – 107

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Luís M. Jorge (http://vidabreve.wordpress.com/).
- O que é que lhe diz a palavra "blogosfera"?
Terça-feira, 23 de Janeiro de 2007
Sibilinas
Mais uma esfera sibilina.
O adro das ilusões
e
Mini-entrevistas/Série II – 106

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Luís Aguiar-Conraria, 32 anos, Professor de Economia na Universidade do Minho(http://aguiarconraria.blogsome.com/)
- O que é que lhe diz a palavra "blogosfera"?
Segunda-feira, 22 de Janeiro de 2007
Do comboio ao TGV

Mini-entrevistas/Série II – 105

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Fernando Venâncio (http://aspirinab.weblog.com.pt/).
Vejo a blogosfera como uma multidão informe, aloucada, saudavelmente contentinha de si, passeando descontraída pelos rebordos dum abismo que dá para o mundo físico. Ela é, assim, um universo paralelo, em que tudo é real, também. Reais são os seus prazeres, dores e desvarios, reais os seus sonhos, triunfos, frustrações. Só que a realidade é doutro tipo: impalpável, fugidia, insatisfeita. Os habitantes dela são, por sina assumida, transumantes, desenraizados, nómadas. Nesse sentido, esse habitáculo galáctico em que se entra teclando, e donde teclando se sai, pode revelar-se mais inóspito do que o suporíamos, e portanto, a prazo, rejeitável. Mas podem seguir-se-lhe universos menos habitáveis ainda. Só uma coisa parece certa: a intranquilidade veio para ficar.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu através dos blogues?
Foi o observar da descoberta, alheia e própria, da inaudita versatilidade deste brinquedo, o «blogue», que consegue produzir coisas tão humanas como a admiração e o enamoramento, mas também a irritação, a suspeita e o enxovalho. Tudo público, claro.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Criar-me mais um gastadoiro de tempo, onde ele já era tão escasso. Mas a queda compulsiva para intervir vinha já de longe. Ninguém foge ao fado.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
É, decerto. E o controle social, em que a blogosfera é exemplar, evitará que o mundo exterior, repressivo, ponha tão cedo as botifarras aqui dentro.
e
Entrevistas anteriores (apenas a Série II): Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira, Leandro Gejfinbein, Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca, Tiago Mendes, Nuno Miguel Guedes, Miguel Vale de Almeida, Pedro Magalhães, Eduardo Nogueira Pinto, Teresa Castro (Tati), Rogério Santos, Lauro António, Isabela, Luis Mourão, bloggers do Escola de Lavores, Bernardo Pires de Lima, Pedro Fonseca, Luís Novaes Tito e Carlos Manuel Castro, João Aldeia, João Paulo Meneses, Américo de Sousa, Carlota, João Morgado Fernandes, José Pacheco Pereira, Pedro Sette Câmara, Rui Bebiano, António Balbino Caldeira, Madalena Palma, Carla Quevedo, Pedro Lomba, Luís Miguel Dias, Leonel Vicente, José Manuel Fonseca, Patrícia Gomes da Silva, Carlos do Carmo Carapinha, Ricardo Gross, Maria do Rosário Fardilha, Mostrengo Adamastor, Sérgio Lavos e a Batukada. Agenda para esta semana (de 22/1 a 27/1): Fernando Venâncio, Luís Aguiar-Conraria, Luís M. Jorge, Pitucha, Gabriel Silva e Masson (do Almocreve das Petas).
Domingo, 21 de Janeiro de 2007
Depois da ilusão do cinema

Afectações
Agenda das Mini-entrevistas

Sábado, 20 de Janeiro de 2007
Mini-entrevistas/Série II – 105

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje a convidada é Batukada, 27 anos, signo leão, consultora, a desencalhar uma tese e suburbana assumida (http://moodyswing.blogspot.com/).
- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
A palavra “blogosfera” diz-me, isto é, traz-me à memória, o saudoso Pastilhas (www.pastilhas.com). Foi na sala de conversação (no chat, digamos) do Pastilhas que eu e vários amigos acompanhámos, há uns quatro anos, em directo, o nascimento luso disto tudo (como éramos extremamente intelectuais, já conhecíamos os blogues da estrangeirada – que, diga-se, não interessam nem ao menino Jesus; os nossos é que são bons!). Depois o Pastilhas descambou e só ficou isto da blogosfera. E é assim…
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Que segui e continuo a seguir. O Óscares, claro. Desde que existe a blogosfera, nunca mais acompanhei esta saga pela televisão. Aliás, acho mesmo inadmissível que ainda haja pessoas que sigam a odisseia oscariana pela televisão. Excepção feita, obviamente, aos que relatam o acontecimento. Muito, muito divertido!
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Impactou mormente na área humana (brrrrr…) e dos hábitos de leitura. Então, vejamos: trouxe-me, principalmente, bons amigos e boas pessoas e um espaço onde posso mostrar a esta gente as músicas de que gosto, sem ter de as cantar (o que é chato). Depois, trouxe-me algo maravilhoso que foi a actualização no mínimo espaço de tempo: à distância de quatro ou cinco cliques por dia, fico actualizada, cultural, social e intelectualmente. Só não me trouxe disciplina na escrita, o que é pena. Mas, no fundo, é tudo muito bonito. Juro.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Não, não acredito. Mas no bom sentido.
Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2007
Blogues e Meteoros - 14

É mais fácil escrever uma crónica entitulada “Os meus romances deste ano“ do que esta que é votada aos blogues. Um livro que se lê é sempre um tempo de vida. Seja uma fatia de Agosto, uma semana da Páscoa ou umas quantas noites do início do Outono. Um livro fica sempre marcado como se o tempo de incubação fosse já o da sua memória. De repente, David Lodge ocupa a cor solar das areias de Mil Fontes, Paul Auster aparece como uma papoila vermelha numa pousada de Serpa e Philip Roth ruge na minha direcção como se acompanhasse as folhas dos plátanos ao vento numa alameda de Cáceres. Um livro marca sempre um tempo e sinaliza uma presença: é como uma sombra que se une à luz, sua memória. Não há nada a fazer, é mesmo assim.
E é, também, por isso que posso perguntar com toda a ponderação: o que tenho eu em conta quando inicio a leitura de um livro? A resposta é óbvia e segura: um percurso, alguns heróis, uma arrumação linear, umas tantas complicações, uma topografia que privilegia a progressão e o plot, a necessidade de conjecturar o desenvolvimento do enredo (prefigurar conclusões, estados de clímax e as mais variadas possibilidades de desenlace), etc.
No entanto, quando se trata de viajar no continente dos blogues, esta questão deixa de ter razão de ser. O terreno passa, subitamente, a ser movediço. Será então mais adequado formulá-la do seguinte modo: O que tenho eu em conta quando entro num blogue?
A pergunta pressupõe desde logo o mais elementar: não há princípio num blogue, no sentido em que há incipit num livro. Quer isto dizer que, num blogue, estou sempre a bordo de uma deriva, como se estivesse mergulhado num projecto de design sem definições nem marcas muito precisas. O importante é ‘estar lá’ e dar-me conta do que fruo, como se percorresse uma espécie de diagonal que se propaga em várias direcções e que se cruza com diversas vozes de um monólogo tanto interior como exterior que abarca uma multidão.
E, no entanto, entre o ruído de fundo dessa multidão – o novo coro grego que deixou de ilustrar atmosferas para passar a ser ele mesmo a atmosfera –, há vozes que, de vez em quando, consigo suster, travar e escutar entre o infindo labirinto da rede. Essas vozes correspondem afinal àquilo que designo pelos “meus blogues”: aqueles por onde passo todos – ou quase todos – os dias; aqueles por que sinto uma (às vezes inexplicável) empatia e simpatia; aqueles com quem aprendi a contracenar num espectáculo que nem sempre vive da visibilidade e da ostensão.
Esta respiração silenciosa e imensamente partilhada é um novo mundo ainda por relatar, ainda por contar, ainda por revelar. O diálogo na rede não é, pois, apenas uma questão de “tom”, no sentido da procura expressiva por parte dos bloggers (tema sobre o qual tenho escrito). É também, e porventura em primeiro lugar, um novíssimo modelo de interacção e de comunicação entre mundos, euforias, emoções e afectos (com ênfase para o que costuma caracterizar-se pelo “não dito”) que se está agora a encetar e a explorar.
(continua)
Uma jornalista portuguesa raptada no Líbano
Mini-entrevistas/Série II – 104

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Sérgio Lavos (http://retrato-auto.blogspot.com/).
- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Exclusivamente através de blogues, nenhum. Mas desde que comecei a acompanhar o fenómeno que sigo atentamente a opinião de alguns bloggers. Opinião, sublinho, porque em relação a factos, notícias, continuo a preferir os media tradicionais. No entanto, a blogosfera permite um acesso a uma informação muito mais plural. E dado que a isenção jornalística não deixa de ser uma ilusão, será sem dúvida um avanço a multiplicação de opinião que os blogues permitem.
Impacto negativo - as horas retiradas aos dias, passadas no apaziguamento do vício. Impactos positivos - a possibilidade de exercitar a escrita em diferentes registos; o facto - desejado ou não - de pertencer a uma comunidade virtual, com a consequente partilha de conhecimento e de gosto que isso pressupõe; a sensação, não imediatamente comprovável, de que o futuro de algumas formas de expressão passa pelos blogues - incluindo a edição; finalmente, o feedback obtido, negativo ou positivo, em relação a algo que começou por ser perfeitamente secundário.
Absolutamente, se descontarmos os limite auto-impostos. Mas é uma questão de decência, de escolha do blogger. Estamos sujeitos a levar com aquilo que o ser humano produz de pior: a inveja, o ressentimento, a mesquinhez. Mas é, de longe, preferível isso a um estrangulamento da opinião e da liberdade de expressão. Quando a censura chegar à blogosfera - e há muitas formas de censura - então o meio acabou de vez. Os precedentes que conhecemos, espero que se revelem apenas excepções à regra. Quanto à má-educação de muitos, é apenas uma repetição daquilo que acontece lá fora. Que se criem os instrumentos que permitam controlar os abusos, sem nunca pôr em causa a ilusão de liberdade de que usufruimos.
Pré-publicações - 13
eOs dois homens, cansados, olharam para Antonia Gallo com os olhos carregados de ressentimento e hostilidade. Queriam ir para casa, mas ela não deixava. E sabiam que ela tinha razão, o que tornava as coisas ainda piores.
Estavam os três no departamento de pessoal da Oxenford Medical. Antonia, a quem toda a gente tratava por Toni, era directora das instalações, e a sua principal responsabilidade era a segurança. A Oxenford era uma pequena empresa farmacêutica — uma boutique, no jargão do mercado bolsista — que fazia investigação sobre vírus potencialmente fatais. A segurança era, por isso, de importância vital.
Toni tinha organizado um inventário de stocks e tinha descoberto que faltavam duas doses de um fármaco experimental. E isso já era suficientemente mau: o produto, um agente antiviral, era um segredo bem guardado, pelo que a sua fórmula tinha um valor incalculável. Podia ter sido roubado para ser vendido a uma empresa da concorrência. Mas havia uma outra possibilidade ainda mais assustadora, que estava a causar aquela expressão de ansiedade no rosto sardento de Toni e a desenhar-lhe aqueles círculos escuros por baixo dos olhos verdes: a de o produto ter sido roubado por um ladrão para uso pessoal. E só havia uma razão que podia levar alguém a fazer isso: ter sido infectado por um dos vírus letais utilizados nos laboratórios da Oxenford.
Os laboratórios estavam localizados num enorme edifício do século xix, que tinha sido construído na Escócia para servir de casa de férias a um milionário vitoriano. Tinha a alcunha de Kremlin por causa da vedação com duas fileiras de grades, arame farpado, guardas à paisana, e do sofisticado sistema de segurança electrónico. Porém, na realidade, parecia mais uma igreja, com arcos em ogiva, uma torre e uma fila de gárgulas a contornar o telhado.
O departamento de pessoal ficava num dos quartos mais grandiosos. Ainda tinha janelas góticas e lambrins de linho, mas agora com armários de arquivo onde outrora tinham existido guarda-fatos e secretárias com computadores e telefones onde dantes havia toucadores repletos de frascos de cristal e escovas de prata.
Toni e os dois homens estavam a telefonar, a contactar todas as pessoas com acesso ao laboratório de segurança máxima. Havia quatro níveis de biossegurança. No mais elevado, o BSN4, os cientistas, equipados com fatos espaciais, manuseavam vírus para os quais não havia vacina ou antídoto. Como era o local mais seguro do edifício, era aí que estavam guardadas as amostras do fármaco experimental.
Nem toda a gente tinha acesso ao BSN4. A formação em riscos biológicos era obrigatória, até mesmo para os funcionários do serviço de manutenção que iam mudar os filtros de ar ou reparar as autoclaves. Toni também tinha frequentado as sessões de formação para poder entrar no laboratório a fim de verificar o sistema de segurança.
Dos oitenta funcionários da empresa, só vinte e sete tinham esse nível de acesso. No entanto, muitos deles tinham partido para as férias de Natal. Já era terça-feira, e os três responsáveis continuavam infatigavelmente a tentar apanhá-los.
Toni acabara de ligar para um resort em Barbados, o Le Club Resort, e depois de muita insistência tinha conseguido convencer o subdirector a ir à procura de uma jovem técnica do laboratório chamada Jenny Crawford.
Enquanto esperava, Toni olhou para a sua imagem reflectida na janela. Considerando o adiantado da hora, estava a aguentar-se bem. O seu fato castanho-chocolate com riscas brancas mantinha o mesmo aspecto de fato de negócios, o cabelo espesso continuava bem arranjado, e o seu rosto não mostrava sinais de fadiga. O pai era espanhol, mas Toni tinha herdado a pele clara e o cabelo ruivo da mãe, que era escocesa. Era alta e elegante. Não estava nada mal para uma mulher de trinta e oito anos, pensou.
— Devem ser altas horas da noite aí! — disse Jenny, quando finalmente veio ao telefone.
— Descobrimos uma discrepância nos registos do BSN4 — explicou Toni.
Jenny estava um pouco embriagada.
— Já não é a primeira vez que acontece — disse, num tom despreocupado. — E nunca ninguém fez um drama por causa disso.
— Mas nessa altura eu ainda não trabalhava cá — retorquiu Toni com brusquidão. — Quando foi a última vez que acedeste ao BSN4?
— Terça-feira, acho eu. O computador não dá essa indicação?
Dava, de facto, mas Toni queria confirmar se a versão de Jenny coincidia com os registos do computador.
— E quando foi a última vez que acedeste ao cofre?
O cofre era um frigorífico seguro com o nível BSN4.
Jenny estava a ficar mal-humorada."
Quinta-feira, 18 de Janeiro de 2007
A discussão de ontem na "Dois"

Neste tipo de diálogo, tende a esquecer-se que os códigos construídos em dois séculos para tutelar a actividade jornalística pouco ou nada têm que ver com a invenção de regras que hoje tentam ajustar os novíssimos e variados dispositivos da rede às linguagens que chegaram até aos nossos dias (e que foram, nos últimos cinco milénios, moldadas para finalidades ‘verticais’ – religando emissores inacessíveis e poderosos a auditórios passivos – e não para a súbita horizontalidade da rede).
A fusão emissor/editor é, nesse contexto, um factor decisivo mas não único. O fundamental situa-se na natureza expressiva completamente nova que está a superar géneros milenarmente herdados, amalgamando-os e dando origem a novos tipos de comunicabilidade, de interacção e de reposição e efabulação do real. As “deontologias”, a natureza da “notícia” e da “informação” – dados que ‘fizeram academia’ no meio jornalístico dos últimos dois séculos – constituem entidades de outra galáxia (com excepção para as extensões online dos media tradicionais) quando confrontadas com o espaço comunicacional que as múltiplas expressões em rede estão a gerar e a problematizar na actualidade.
Não me parece, pois, aconselhável esta assunção quase universal que acata a tradição do jornalismo como ponto de partida para discutir a força elocutória do universo hipertecnológico (é interessante como as próprias designações – é o caso da “Web 2” – também acabam por denotar a impaciência desse novíssimo e difícil ajuste entre a linguagem disponível e a lógica das novas interacções).
Curiosamente, noto – neste tipo de debates – um certo azedume e até ressentimento por parte de alguns jornalistas (postura ontem tão bem encarnada pelo director adjunto do DN) face à nova realidade da rede, como se ela constituísse um subversão ou um desvirtuar de uma certa legitimação do poder (profissional, deontológico e social) e não uma autónoma e novíssima esfera da comunicação e da expressão globais (ainda à procura de si própria) de natureza completamente diferente.
Mini-entrevistas/Série II – 103

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é “Mostrengo Adamastor”, jornalista (http://substrato.weblog.com.pt/)
- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
Associo a palavra blogosfera ao conjunto dos blogues que costumo ler, aos bloggers que costumo hiper-ligar [linkar] e vice-versa e às pessoas que visitam e comentam os posts, (mesmo as que não publicam em blogue próprio). Essa interactividade, a actualização constante, a provocação e a reacção, distinguem os blogues dos outros meios, a blogosfera dos mass media.
Nunca segui nenhum assunto exclusivamente através de blogues. Acompanho as opiniões sobre os assuntos nos blogues que leio, mas também sigo a actualidade pelos meios de comunicação gerais, principalmente publicações on-line nacionais e estrangeiras.
Perdi algum tempo, mas ganhei amigos [e fama e fortuna].
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Acredito que alguns blogues o são, mas apenas os que são publicados sob pseudónimo(s) [não confundir com anonimato]. Temo que muitos bloggers se auto-censuram porque temem perder um amigo, sair de um determinado grupo de opinião, perder o emprego, etc.. Até porque já aconteceu mais que uma vez.
Pré-publicações - 12

Jeremy Nicholas, Chopin, Vida e Obra, Bizâncio, Lisboa.
e
Pré-publicação:
e
e
Da Quinta ao Palácio, 1810-1822
Ninguém sabe ao certo em que data nasceu Fryderyk Franciszek Chopin. O ano não oferece dúvida: 1810. O local também é certo: uma casa rural térrea com paredes caiadas e chão de terra batida na propriedade do Conde Skarbek em Zelazowa Wola, pequena aldeia na margem do Rio Utrata, a cerca de trinta quilómetros para oeste de Varsóvia. O registo de baptismo na vizinha igreja de Brochow dá o nascimento como ocorrido em 22 de Fevereiro, mas, como frequentemente acontecia com tais registos, a data pode muito bem ser aquela em que foi participado o nascimento, muitas vezes semanas depois do acontecido. A incerteza surgiu porque a família de Chopin e o próprio compositor sempre afirmaram que ele tinha nascido no dia 1 de Março. Os estudiosos de Chopin inclinam-se para esta data, em detrimento da de 22 de Fevereiro, na proporção aproximada de dois para um, se bem que não existam provas concretas que corroborem nenhuma delas.
Chopin era franco-polaco de nascimento. O pai, Nicolas, tinha ido parar àquela propriedade agrícola por um caminho tortuoso e durante muito tempo houve incerteza quanto às suas exactas origens. Frederick Niecks, naquela que foi durante muitos anos a autoridade de referência sobre Chopin, afirmava que Nicolas Chopin tinha nascido em 1770 em Nancy, Lorena, e rejeitava as alegações de que ele fosse “filho natural de um nobre polaco que foi para a Lorena com o Rei Estanislau Leszcinski”. Hoje, porém, restam poucas dúvidas de que Nicolas Chopin nasceu no seio de uma família de camponeses, em 15 de Abril de 1771, em Marainville, aldeia da região dos Vosges, no nordeste de França. O jovem Nicolas despertou a atenção de um polaco, Jan Weydlich, administrador da propriedade agrícola de um nobre polaco, o Conde Michal Pac. É possível que a família Pac se tenha mudado para a região quando, em 1735, o Rei Estanislau recebeu o título de Duque da Lorena. Fosse como fosse, Nicholas Chopin conviveu com os polacos desde tenra idade e quando, em 1787, Weydlich resolveu voltar ao seu país de origem, Nicolas acompanhou-o, segundo alguns para fugir ao recrutamento para o exército francês. Nos cinco anos seguintes Nicolas trabalhou como empregado de escritório na fábrica de tabaco de Weydlich, em Varsóvia.
A cidade deve ter surpreendido pela sua grandiosidade o jovem camponês de França. Um tal Sr. Coxe, que visitou Varsóvia pouco antes de Nicolas Chopin lá ter chegado, deixou-nos as suas impressões:
w
As ruas são espaçosas, mas mal calcetadas; as igrejas e os edifícios públicos são grandes e imponentes, os palácios da nobreza são numerosos e magníficos; mas na sua maioria as casas, em especial nos subúrbios, são choupanas de madeira, minúsculas e mal construídas.
w
O que mais deve ter impressionado Nicolas Chopin terão sido as movimentadas ruas e praças de Varsóvia, animadas por uma mescla de polacos, lituanos, russos, alemães, moscovitas, judeus e wallachianos. J.E. Hitzig, biógrafo de E.T.A. Hoffmann que conhecia bem Varsóvia, pinta um retrato expressivo do local:
w
As ruas de largura imponente, formadas por palácios ao melhor gosto italiano e por barracas de madeira que ameaçavam ruir a qualquer momento em cima das cabeças dos moradores… Judeus de longas barbas, e monges vestindo todo o tipo de hábito, freiras da mais rigorosa disciplina, completamente veladas e entrapadas, em meditação; e nas grandes praças bandos de jovens polacas com xailes de cores garridas, a conversar; veneráveis anciãos polacos de bigodes, cafetã, cinto, espada, e botas amarelas e vermelhas; e a nova geração vestida à mais inacreditável moda parisiense. Turcos, gregos, russos, italianos e franceses numa multidão em mutação constante; ainda por cima, uma polícia extremamente tolerante que não interferia minimamente com os divertimentos populares, pelo que pelas praças e ruas circulavam constantemente teatros de Polichinelo, ursos bailarinos, camelos e macacos, diante dos quais as mais elegantes carruagens e os moços de recados paravam a olhar embasbacados.
w
Em 1792, a Polónia foi dividida entre a Rússia, a Prússia e a Áustria, o que levou ao encerramento da fábrica de tabaco. Mais uma vez o destino deu uma ajuda. Talvez Nicolas Chopin tivesse regressado a França em busca de trabalho se não tivesse adoecido. Quando se recompôs, já estava em marcha a insurreição de Março de 1794 – uma reacção à Segunda Partilha da Polónia. Alistou-se na Guarda Nacional de Varsóvia, chegando ao posto de capitão, mas foi ferido. Na sequência da derrota das forças polacas, seis meses depois, pela Rússia e pela Prússia, viu-se mais uma vez desempregado. Iria ser salvo pela sua língua materna. O francês era na altura a lingua franca da aristocracia e da sociedade culta, na Rússia e na Polónia. Era moda essas famílias terem um preceptor de língua francesa para os filhos, e em 1794 Nicolas Chopin teve a sorte de conseguir esse lugar junto da rica família Laczynski, nos arredores de Varsóvia. Aí estava pois um francês que, apesar de ter virado as costas à sua França natal, ganhava a vida a ensinar francês aos polacos. À semelhança de muitos outros imigrantes, Nicolas adoptou os hábitos, a cultura e a língua da sua nova pátria com maior fervor do que os cidadãos nativos, tornando-se mais pró-polaco do que os próprios polacos. Até mudou o nome, de Nicolas para Mikolaj. Cortados os últimos laços com a terra natal, viria mais tarde a manter os filhos na ignorância quanto à sua nacionalidade francesa e às suas origens humildes."
Pré-publicações - 11

u
"1
Nora sentia Connor a observá-la.
Ele fazia sempre a mesma coisa enquanto ela arranjava as malas para uma das suas viagens. Encostava o seu corpo de um metro e noventa de altura à ombreira da porta do quarto, as mãos enterradas nos bolsos dos seus calções Dockers, o rosto torcido numa carranca. Detestava a simples ideia de não estarem juntos.
Contudo, normalmente não dizia nada. Limitava-se a ficar ali, em silêncio, enquanto Nora ia enchendo a mala, parando de vez em quando para um gole de água Evian, a sua favorita. Mas, nessa tarde, Connor não conseguiu conter-se.
— Não vás — pediu, na sua voz grave.
Nora voltou-se para ele com um sorriso afectuoso.
— Sabes que tenho de ir. Sabes que também detesto isto.
— Mas já estou com saudades tuas. Diz que não, Nora; não vás. Manda-os para o diabo.
Nora deixara-se cativar desde o primeiro dia pela vulnerabilidade que Connor se permitia mostrar ao lado dela. Formava um contraste tão intenso com a sua imagem pública de duro e rico gestor de fundos de investimento aberto, com a sua própria companhia sediada em Greenwich e um escritório em Londres! Os seus olhos de cachorrinho desmentiam o facto de ter uma constituição de leão. Poderoso e orgulhoso.
Era verdade que, com a relativamente jovem idade de quarenta anos, Connor era essencialmente rei de tudo quanto o seu olhar abrangia. Encontrara em Nora, de trinta e três, a sua rainha, a companheira perfeita para a sua vida.
— Sabes, podia amarrar-te e impedir-te de partires — comentou ele, em tom de brincadeira.
— Isso parece divertido — retorquiu Nora, no mesmo tom. Levantou a tampa da mala, que jazia aberta sobre a cama. Procurava alguma coisa.
— Mas primeiro talvez pudesses ajudar-me a encontrar o meu casaco de malha verde?
Connor soltou uma gargalhadinha. Ela divertia-o tanto! Piadas boas ou más, não tinha importância.
— Referes-te ao que tem os botões de pérola? Está no guarda-fatos principal.
Nora riu:
— Andaste outra vez a vestir as minhas roupas, não foi?
Dirigiu-se para o cavernoso compartimento que servia de guarda‑fatos. Quando regressou, com uma camisola verde na mão, Connor deslocara-se até aos pés da cama. Brindou-a com um sorriso e um brilho travesso nos olhos.
— Ai, ai! — exclamou ela. — Conheço esse olhar.
— Que olhar? — inquiriu ele.
— O olhar que diz que queres um presente de despedida.
Nora reflectiu por um instante, antes de sorrir por sua vez. Deixou cair a camisola numa cadeira e avançou para Connor com passos lentos, detendo-se deliberadamente a poucos centímetros do corpo dele. Vestia apenas sutiã e cuecas.
— De mim para ti — sussurrou-lhe ao ouvido, encostando-se a ele.
O presente não vinha muito embrulhado, mas Connor nem por isso deixou de levar o seu tempo. Beijou suavemente o pescoço de Nora, depois os ombros, traçando com os lábios uma linha imaginária até às curvas dos seus seios, pequenos e empinados. Permaneceu aí um bocado, afagando-lhe o braço com uma mão, enquanto lhe desapertava o sutiã com a outra.
Nora estremeceu, com o corpo a vibrar. Engraçado, divertido e muito bom na cama. Que mais pode uma mulher desejar?
Connor ajoelhou-se e beijou a barriga dela, traçando círculos com a língua em torno do seu minúsculo umbigo. Depois, apoiando os polegares nas suas ancas, começou a puxar-lhe as cuecas para baixo. Acompanhava o percurso da peça de vestuário com beijo atrás de beijo.
— Isso… é… muito… bom — sussurrou Nora.
Era a vez dela. Quando o corpo alto e musculoso de Connor se endireitou à sua frente, começou a despi-lo. Com rapidez e destreza, mas sensualmente.
Permaneceram imóveis por alguns segundos. Completamente nus. Olhando um para o outro, absorvendo cada detalhe um do outro. Meu Deus, o que poderia ser melhor do que isto?
De súbito, Nora riu-se. Deu um rápido empurrão a Connor, que se deixou cair sobre a cama. Estava inteiramente excitado. Um prodigioso relógio de sol humano estendido sobre o edredão.
Nora estendeu o braço para a mala aberta e pegou num cinto Ferragamo preto, esticando-o entre as mãos.
O cinto estalou."
e
Quarta-feira, 17 de Janeiro de 2007
Segredos de edição

Mini-entrevistas/Série II – 102

LC
O Miniscente está a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje a convidada é Maria do Rosário Fardilha (http://divasecontrabaixos.blogspot.com/).
1 – O que lhe diz a palavra “blogosfera”?
É um admirável mundo novo, mesmo se fica nos antípodas da fábula criada por Aldous Axley. É um mundo pouco organizado, onde impera a vontade livre individual, quase sem condicionamentos de estilo, forma ou conteúdo. Tem as suas castas, mas o sistema que as cria nada tem de científico. Se me ocorre esta associação, é apenas pela rapidez com que a inovação “blogosfera” se impôs.
Em 2004, quando me sugeriram que criasse um blogue, resisti. Acho que associava a blogosfera” a um ambiente frequentado por informáticos e adolescentes (alguns tardios). Nos jornais, teria lido qualquer boa referência à escrita de um ou outro blogger, mas mantinha a desconfiança. Criaram-me o blogue, ainda me lembro do email com as instruções, “blogger.com/start, por agora não mexas no template”, etc..
Talvez por causa dessa iniciação, persisto em olhar a blogosfera com um conjunto de indivíduos isolados, movidos pelas mais diversas motivações. Existem empresas, associações, embaixadas, várias entidades colectivas a gerir blogues, mas nas leituras que faço procuro sempre a “reason-why” do indivíduo. Cada um cria depois uma teia de relações virtuais, uma pequena “comunidade”. A blogosfera, hoje, é um conjunto infindável de pequenas comunidades e, quando passeio por lá, viaja comigo um sentimento de pertença ou de estranheza. Sei quando estou dentro da “minha” comunidade e quando entro em território desconhecido. Fascina-me, é claro, o visto Schengen comum que dá acesso a toda área. Nenhum outro meio permitirá maior e mais rápida liberdade de acesso e circulação.
A “blogosfera”, por permitir uma nova forma de expressão, massiva e mais livre; por oferecer entretenimento e informação à la carte tem ainda o mérito de ser uma das raras inovações de pendor tecnológico que não desumaniza. Ela serve de facto o Homem.
Penso nas motivações base que nos movem: hedónicas, oblativas e de projecção pessoal. Que outra actividade ou serviço é tão cabal na sua satisfação?
2 - Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Acho que nenhum. Os blogues têm servido sobretudo para me “avisar” da ocorrência de qualquer acontecimento e para perceber os diferentes estados de espírito ou sensibilidades que um mesmo acontecimento pode gerar.
3 - Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
O Divas & Contrabaixos aconteceu quando comecei a colaborar com um jornal regional. O blogue tem o nome da rubrica do jornal. Mas logo percebi que o jornal e o blogue tinham ritmos próprios. O D&C descolou-se da sua origem e passou a ser um espaço (para uma experiência) pessoal. Mas continuo a associar o blogue à minha inserção na cidade, Aveiro. Acabava de chegar e foi também através dele, ou por causa dele, que passei a viver com mais intensidade a cidade. Fotografei, pesquisei, conheci pessoas ligadas ao “fazer a cidade” e o blogue permitiu-me espalhar essa energia.
Com a minha entrada na blogosfera, descobri também “o zapping blogosférico”. É um entretenimento delicioso e que vicia. Nos primeiros tempos, era capaz de ficar horas em frente do computador, a navegar e a “blogar”; depois tornou-se um hábito mais moderado, mas ainda um hábito.
4 - Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Talvez alguns blogues tenham um editor-chefe na penumbra mas, por princípio, a blogosfera é editorialmente livre.
Terça-feira, 16 de Janeiro de 2007
Travessias sem margens

Contra as engenharias sem sentido

Mini-entrevistas/Série II – 101

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Ricardo Gross, 36 anos, Casa Fernando Pessoa (comunicação).
- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
A possibilidade de escrever para mim e para outros sempre que quero, necessito e/ou posso.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
A postagem, quando regular, de blogues como o Contra a Corrente e o Homem a Dias.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Conhecer pessoalmente os autores dos meus blogues favoritos. Tornar-me amigo de alguns deles.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Na blogosfera só existe um tipo de censura. A que impomos a nós próprios.
Segunda-feira, 15 de Janeiro de 2007
Para lembrar a cor do mar

Mini-entrevistas/Série II – 100

LC
- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
Não me diz nada. Nunca, aliás, falou comigo, nem eu com ela. Agora a sério: é, supostamente, a «comunidade» dos blogues.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Internacional: a guerra no Iraque.
Nacional: a guerra entre Carolina e Pinto da Costa.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
O maior impacto foi a diminuição das horas de sono.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Sim, embora, espero, cada blogger tenha os seus «condicionalismos», ditados pelo bom senso, pela educação, pelo pudor, etc.
Domingo, 14 de Janeiro de 2007
Mini-entrevistas da próxima semana
Sábado, 13 de Janeiro de 2007
Blogues e Meteoros - 13

Ao longo dos anos setenta, habituei-me à nova dicção, de início bem menos familiar que a do meu avô (que sublinhava os anos vivos do cinematógrafo até ao arco de penumbra dos anos trinta) e que a dos meus pais (que pairava nos males da guerra e também nos promissores fifities que me veriam nascer). Cada década acaba sempre por corresponder a uma escala musical que se esgota, ao insuflar de um balão que depois se esvazia, ou a um soufflé que se expande no forno até abrir brecha. Isso mesmo: uma brecha que não nos chega a preparar, como deve ser, para a década seguinte. Foi essa radical inércia que me fez sentir estrangeiro face ao número 70, tal como se anunciava, imperial, naquele eufórico fim de dia de 31 de Dezembro de 1969, estava eu ainda no sexto ano do Liceu.
Acontecer-me-ia, depois, algo parecido nos últimos dias de Dezembro de 79, de 89 e de 99. Mas com um impacto cada vez mais leve. O que, no início, era apenas falta de hábito converteu-se depois numa indiferença que se vestia de um repetido afã patético. Era sempre outro e outro réveillon que se limitava a citar a arte com que Bataille, um dia, tão bem caracterizou o riso (Experiênia interior, 1943 e O limite do útil, 1945): vinha o autor por uma rua e, sem qualquer necessidade, viu-se subitamente de guarda-chuva aberto. Era como se o "bem estar" e uma prodigiosa "sensação de impossibilidade" se juntassem e fizessem o riso tomar conta do corpo. E Bataille, concluía: Na altura, (eu) “não era na verdade senão o riso que me tomava”.
É assim que – com uma brevíssima pausa no meu blogue – acabei de entrar no ano de 2007: sem as histórias do meu avô, sem a imagem inaudita de um conjunto de algarismos por soletrar, mas tão-só com um imenso guarda-chuva aberto e a rir, a rir, a rir. Como se a inércia fosse afinal a mais comovente invenção das nossas vidas.
Petição contra as taxas do multibanco

Mini-entrevistas/Série II – 99

LC
O Miniscente está a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje a convidada é Patrícia Gomes da Silva, jurista, 34 anos (www.abrotea.blogspot.com e www.almamater.blogger.com.br).
- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
Tal como antes referi, é uma teia onde se pode encontrar palavras, raciocínios, sentimentos, opiniões sobre quase tudo.
É também um sinal de solidão, parece-me. Chega a ser uma contradição. Se por um lado chegamos a todo o lado, numa lógica de globalização, por outro estamos cada vez mais longe do que está próximo.
Custa-me pensar que se a blogosfera vem substituindo os convívios, as tertúlias, aqueles espaços onde antes se discutiam as questões interessantes e que eram importantes na consolidação dos conhecimentos e que contribuíam para que nos mantivéssemos de espírito aberto, atento e crítico.
Hoje, parece-me que são cada vez menos os momentos em que isso acontece. Talvez por falta (aparente) de tempo. Mas a tendência parece ser a de procurar, num acto solitário, as opiniões (solitárias também elas) dos outros na blogosfera. Não digo que seja errado. Apenas insuficiente. Perde-se a capacidade de contradizer. Perdem-se as pessoas.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Nunca segui nenhum acontecimento através de blogues. Tenho sempre a necessidade de procurar informação onde me parece ser mais isenta. Claro que quem conta um conto, acrescenta um ponto. Mas tento sempre seguir os acontecimentos pela comunicação social, lendo vários jornais, ouvindo diversas rádios e tentando seguir os boletins informativos de todas as televisões portuguesas. Se estivermos a falar de uma acontecimento internacional, muitas das vezes procuro encontrar informação directamente na comunicação social estrangeira. Raramente procuro nos blogues essa informação por uma razão simples: raramente são isentos e imparciais. Aliás, por definição são mesmo subjectivos. São a voz parcial, opinativa dos seus autores. E, por isso, raramente os visito. A proliferação de blogues de opinião, de sujeitos que pensam discorrem sobre o mundo e os seus factos chega a ser algo muito irritante. Todos têm algo a dizer sobre tudo. Como se pudéssemos deixar pura e simplesmente de raciocinar sobre as coisas e apreender, tão só, os raciocínios dos outros. Isso é algo que me incomoda e que evito. Prefiro correr o risco de ter uma opinião errada, mas ser a minha. Corro conscientemente esse risco. Porque no fim, o mundo será aquilo que eu entendo dele e não apenas o que outros pensaram.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Curiosa como sou, assim que ouvi falar em blogs, procurei informação. Experimentei criar um, logo depois outro. Desde então tenho criado vários para as pessoas que conheço. Sou uma adepta, apesar do que escrevi acima ou talvez mesmo por isso. Escrever muitas vezes é como exorcizar medos, frustrações, fantasmas. Poder publicar o que se escreve, colocar as palavras à disposição dos outros, faz parte desse processo de me livrar do pensamento e do inconsciente. É um puro acto de egoísmo. Porque se sabe bem ser-se lido, receber comentários, críticas, o importante é poder dar (literalmente) o que está cá dentro e está a mais. Antes dos blogues, as palavras guardavam-se em papéis amarrotados, empilhados e esquecidos. Mas continuavam sendo só minhas. E por isso, vivas e incómodas. Desde que pude começar a publicar os meus textos, aconteceu que deixaram de ser minhas. E por isso de me afectar. Agora, pelos comentários e e-mails que recebo, constato que passaram a ser de outros. Há quem leia o que escrevo e passe a sentir como seu os sentimentos que descrevi. Por isso alimentar um blogue passou a ser um acto de egoísmo, porque de alívio.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Sim, entendo a blogosfera uma forma de expressão editorialmente livre. Quando os blogues funcionam como uma extensão do pensamento de cada um, adquirem uma volatilidade natural, propria do pensamento. Imaginar que possam surgir limites exteriores parece-me absurdo mas...não começam eles já a surgir?
Mais do que lhe responder, apetece-me deixar-lhe a questão de saber se será razoável impor limitações à blogosfera que ultrapasssem a consciência individual de quem escreve!
Sexta-feira, 12 de Janeiro de 2007
O presságio de um fim

Ainda que seja sempre melhor sem Saddam, não deixa de ser evidente que o Iraque de hoje é um campo de guerra em que ninguém confia em ninguém: um monte de pó entre muros, alvenarias e cabanas; um grande mar de casas esburacadas e palmeiras onde vive um povo traumatizado, dividido, em guerra civil, sem qualquer segurança e permanentemente exposto ao ritmo das explosões, dos ataques inesperados, dos fanatismos religiosos e dos apetites dos terroristas.
A incompreensão entre culturas, o artificialismo das fronteiras, os desígnios cruzados, as pequenas vinganças, o cansaço político e as expectativas baixíssimas não auguram nada de bom. Qualquer pessoa com os pés na terra, ou seja, não alimentada pela doença infantil do anti-americanismo, pode constatar que este Iraque dificilmente evitará um destino no limiar do trágico.
Basta conhecer um pouco da história da região - desde o início do califado Abássida até ao advento Seldjúcida e depois Otomano, desaguando nas turbulências do século XX - para perceber que a ideia e a prática da democracia, tal como a entendemos, é algo que não está propriamente sujeito a uma espécie de Export-Import. As teocracias e as administrações de ferro sempre constituíram, no Iraque, os ecos reais do poder.
As últimas medidas anunciadas por Bush dificilmente deixarão de ser entendidas como denunciadas e até defensivas, na medida em que preparam o fim do mandato aumentando o ruído da voz de comando, radicalizam o caminho (fortemente minado) que conduz à futura campanha eleitoral e deixam assim a verdadeira “batata quente” ao sabor dos votos e dos imponderáveis do Outono de 2008.
Não sei se a expressão “fuga para a frente” se aplicará bem neste contexto, mas como Andrew Sullivan referiu, os esforços anunciados por Bush poderão já ser tardios: “The only way it will work if we have the means to take on the Mahdi army and the Shia extremists with Maliki's backing and force the government to be more open to the Sunnis (something many of us doubt)”. Isto é: como um porta-aviões, que ninguém ousa baptizar com o nome de Teseu, perdido dentro do fio de Ariadne e à procura de uma saída francamente improvável.
As Mini-entrevistas da próxima semana

Mini-entrevistas/Série II – 98

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é José Manuel Fonseca ("Anarca constipado": http://kropotkine.blogspot.com/).
- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Quinta-feira, 11 de Janeiro de 2007
Usufrutos
Uma cisão no Miniscente para responder ao bom do maradona. Aqui.
Mini-entrevistas/Série II – 97

LC
Uma imensa comunidade virtual, uma espécie de "tertúlia" sem fronteiras, em que as pessoas se vão agregando em "grupos de pertença", partilhando interesses comuns, que acabam por se intersectar em função das diferentes áreas temáticas. Um espaço de interactividade, debate de ideias, de intercâmbio, de controvérsia, polémica, de amálgama de opiniões, de grande dinâmica, de "combustão" quase imediata.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Não exactamente apenas através de blogues, porque será virtualmente impossível "escapar" ao poder dos "media tradicionais", mas, em particular a nível político, a blogosfera – pelo seu carácter de instantaneidade, com possibilidade de reacção em "tempo real" – tornou-se, em diversas circunstâncias, como a primeira fonte de informação (em termos cronológicos).
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Em termos estritamente ligados ao "fenómeno", proporcionou-me a realização de um anseio de miúdo, o de escrever em "letra de forma" – eu sempre "sonhei" ter um blogue, mesmo muito antes de saber que eles iriam ser "inventados"! –, vindo, em paralelo, "roubar" tempo onde ele "já não existia".A nível mais geral, era incapaz – ao iniciar o Memória Virtual (já há quase 3 anos e meio) – de antever o impacto que teria na minha vida: a blogosfera propiciou-me grandes aprendizagens (a vários níveis), assim como o nascimento de verdadeiras amizades… e, fundamentalmente, proporcionou-me conhecer uma pessoa muito especial.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
É inegável que os blogues vieram abrir uma nova "janela" de intervenção pública, dando espaço de opinião e de afirmação de ideias a alguns milhares de portugueses, numa ferramenta em que o autor se funde com o "editor", sendo importante ter presente que a "massa crítica" dos utilizadores da Internet em Portugal é ainda relativamente reduzida.E mostrar que há muitas pessoas a escrever (muito) bem português e a ter a capacidade de argumentar, para além dos (relativamente fechados) circuitos tradicionais. A liberdade de expressão é, ainda assim, relativizada pelas condicionantes envolventes, como a inserção profissional, provocando situações de "auto-censura", tantas vezes originando a necessidade de recurso ao anonimato, tão controverso na blogosfera.
Entrevistas anteriores (apenas a Série II): Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira, Leandro Gejfinbein, Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca, Tiago Mendes, Nuno Miguel Guedes, Miguel Vale de Almeida, Pedro Magalhães, Eduardo Nogueira Pinto, Teresa Castro (Tati), Rogério Santos, Lauro António, Isabela, Luis Mourão, bloggers do Escola de Lavores, Bernardo Pires de Lima, Pedro Fonseca, Luís Novaes Tito e Carlos Manuel Castro, João Aldeia, João Paulo Meneses, Américo de Sousa, Carlota, João Morgado Fernandes, José Pacheco Pereira, Pedro Sette Câmara, Rui Bebiano, António Balbino Caldeira e Madalena Palma. Agenda para esta semana (de 8 /1 a 13/1/07): Carla Quevedo, Pedro Lomba, Luís Miguel Dias, Leonel Vicente, José Manuel Fonseca e Patrícia Gomes da Silva.
Quarta-feira, 10 de Janeiro de 2007
Lui, Il Tremble

Gaia ciência
O número dez sabe sempre bem
Mini-entrevistas/Série II – 96

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Luís Miguel Dias. (http://amontanhamagica.blogspot.com/).
e
Entrevistas anteriores (apenas a Série II): Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira, Leandro Gejfinbein, Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca, Tiago Mendes, Nuno Miguel Guedes, Miguel Vale de Almeida, Pedro Magalhães, Eduardo Nogueira Pinto, Teresa Castro (Tati), Rogério Santos, Lauro António, Isabela, Luis Mourão, bloggers do Escola de Lavores, Bernardo Pires de Lima, Pedro Fonseca, Luís Novaes Tito e Carlos Manuel Castro, João Aldeia, João Paulo Meneses, Américo de Sousa, Carlota, João Morgado Fernandes, José Pacheco Pereira, Pedro Sette Câmara, Rui Bebiano, António Balbino Caldeira e Madalena Palma. Agenda para esta semana (de 8 /1 a 13/1/07): Carla Quevedo, Pedro Lomba, Luís Miguel Dias, Leonel Vicente, José Manuel Fonseca e Patrícia Gomes da Silva
Terça-feira, 9 de Janeiro de 2007
Ai Ai, Blogger da minha alma!
Ludemas
Camaleão
Paciências
Resguardo
Bonzinho
Já agora
Mini-entrevistas/Série II – 95

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Pedro Lomba (http://www.vicio-de-forma.blogspot.com/).
- O que é que lhe diz a palavra "blogosfera"?
Uma das grandes experiências da minha vida. Um sinal de liberdade. Uma ambição de expressão, de escrita, de autenticidade. Como se vê, sou um lírico.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Talvez as últimas presidenciais. Mas nunca segui nenhum acontecimento em particular. A blogosfera é sobretudo generalista.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
No início um grande impacto. Havia a blogosfera e o resto do mundo. Agora estou mais moderado. Faço outras coisas. Saio à rua.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Para mim sim. Sou um absoluto ditador de mim próprio. Mas há quem não se dê bem com a liberdade. A própria e a alheia.
Segunda-feira, 8 de Janeiro de 2007
Mini-entrevistas da semana

CONCURSO DE ANO NOVO: ENCERRAMENTO

O Rapto das Sabinas, Carolum Collardum, BND
E
Mini-entrevistas/Série II – 94

LC
- O que é que lhe diz a palavra "blogosfera"?
Ah, essa é fácil, Luís! A blogosfera é o conjunto de blogues e dos seus leitores.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Ora, assim de repente… nenhum. Mas é verdade que segui quase exclusivamente os acontecimentos nacionais referentes aos blogues portugueses, como o fim da Coluna Infame ou do Barnabé (acontecimentos que serão também internacionais, dado que na blogosfera não há fronteiras), com algum impacto na imprensa escrita, embora não tanto como mereciam.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
No meu caso, o impacto foi muito surpreendente. Para quem nunca esperou nada do blogue (a não ser divertir-se a revelar gostos e opiniões e a treinar a escrita), só posso dar-me por muitíssimo satisfeita e feliz com todas as coisas boas que me aconteceram; como, por exemplo: a edição de livros a partir de blogues e a colaboração regular na imprensa escrita, primeiro no Expresso e, a partir daí, na Atlântico e no Sol. Conheci ainda pessoas de quem sou amiga e com as quais não teria o tipo de amizade e de proximidade que hoje em dia tenho, se não tivesse havido leitura mútua e discussão de pontos de vista, a partir de gostos e de ideias apresentados e desenvolvidos nos respectivos blogues. Ah, e vejo menos televisão. Não sei se isso está relacionado com os blogues (se com a própria televisão), mas há bastante tempo que só vejo séries e pouco mais.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Mais do que uma forma de expressão, a blogosfera é um meio de comunicação e, como tal, é livre como qualquer outro. Julgo que o problema da liberdade está nas pessoas e não no meio utilizado: há pessoas mais livres que outras. E há momentos em que mesmo as pessoas mais livres não se sentem nada livres. É isso! A liberdade pode ser um estado de espírito. Por exemplo, quando estou triste, sinto-me menos livre. Chamem-me romântica. Mas considero-me uma pessoa livre e por várias razões, que passo a enumerar (só porque adoro a coisa esquemática): 1) opto por não alimentar situações à partida doentias; 2) não sou hostil à liberdade dos outros; 3) sou, sobretudo, uma pessoa imaginativa e estou muito interessada nos aspectos criativos e artísticos (relacionados com a escrita e com as ideias) possíveis de serem testados e experimentados no blogue. Nada disso seria possível sem liberdade (de espírito, momentânea, objectiva, o que se quiser). Ah, e editorialmente, claro que sim. Nos casos em que o blogueador é uma pessoa livre - ou nos momentos em que se sente livre -, uma vez que o editor do blogue é também o seu autor.
3
Entrevistas anteriores (apenas a Série II): Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira, Leandro Gejfinbein, Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca, Tiago Mendes, Nuno Miguel Guedes, Miguel Vale de Almeida, Pedro Magalhães, Eduardo Nogueira Pinto, Teresa Castro (Tati), Rogério Santos, Lauro António, Isabela, Luis Mourão, bloggers do Escola de Lavores, Bernardo Pires de Lima, Pedro Fonseca, Luís Novaes Tito e Carlos Manuel Castro, João Aldeia, João Paulo Meneses, Américo de Sousa, Carlota, João Morgado Fernandes, José Pacheco Pereira, Pedro Sette Câmara, Rui Bebiano, António Balbino Caldeira e Madalena Palma. Agenda para esta semana (de 8 /1 a 13/1/07): Carla Quevedo, Pedro Lomba, Luís Miguel Dias, Leonel Vicente, José Manuel Fonseca e Patrícia Gomes da Silva.
Domingo, 7 de Janeiro de 2007
De Portugal!

CONCURSO ANO NOVO - RESULTADO

O Rapto das Sabinas, Carolum Collardum, BND

O Rapto das Sabinas, Carolum Collardum, BND
e w
Eis, resumindo, as frases indutoras aqui publicadas entre 15 de Dezembro de 2006 e 6 de Janeiro de 2007:
1-Palavras que deve pronunciar esta semana: “Deus”, “escolha” e “cintura.”
2-Verbos a evitar esta semana: “Pegar, colocar e agarrar.”
3-Início de frase complicadas: “E Deus cumpriu o prometido.”
4-Fim de frase a utilizar muitas vezes: “E pousou a mão na minha cintura.”
5-Raciocínios estimulantes: “Pegou-me por baixo e sussurrou já não sei o quê.”
6-A pronunciar em voz baixa: “E Deus pegou na coisa desejada.”
7-Palavras a repetir às duas da manhã: “E Deus pegou na vela já acesa.”
8-Frase a segredar em voz baixa: “Fê-lo com cuidado como se fosse pela cintura.”
9-À vista desarmada: “A curva do rio parecia a cintura da jornalista.”
10-Título de livro: “E Deus pegou-me pela alma.”
11-Associação mental muito rápida: “E se a alma fosse parte do corpo?”
12-Sem perceber a lógica da coisa, teria dito: “Pegou-me e provavelmente evitou o pior.”
13-Talvez um romance: “E Deus pegou na cintura da mulher desaparecida.”
14-Modos de esquecer o passado: “E Deus escolheu o verbo pegar.”
15-E se Rute perguntasse: “Mas o verbo pegar não é tauromáquico?”
16-Título de um mau policial: “Terá a mulher raptada escapado ao pior?”
17-A conclusão sage: “E Deus pegou-me e sussurrou em voz muito baixa.”
18-Consequência do logro: “Cumpriu mas não totalmente: fê-lo pela cintura.”
19-Por vezes, pergunto-me: “E se a frase fosse uma mera adição?”
20-Quase a chegar ao fim: “E se Deus me pegasse mesmo a sério?”
21-Coro de questões dos últimos dias: “Por onde, por onde?”
22-Penúltimo aviso: “Apenas pela cintura?”
23-Último aviso: “Dizem que é uma espécie de romance.”
e
Sábado, 6 de Janeiro de 2007
Mini-entrevistas/Série II – 93

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje a convidada é Madalena Palma, Jornalista, 30 anos (http://aliciante.weblog.com.pt/).
- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
Relativamente à primeira questão que me colocou, o termo blogosfera, a meu entender, refere-se a uma comunidade em crescimento. Os blogs já deixaram de ser uma moda para passarem a ser um vicío e um complemento dos órgãos de comunicação social.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Como blogger e como jornalista sigo todos os acontecimentos quer sejam eles nacionais ou internacionais também pela blogosfera.
São um complemento e gosto de ler as opiniões de várias outras pessoas que não tem um espaço de opinião num órgão de comunicação social. No caso de serem acontecimentos internacionais procuro ler a blogosfera local, ou seja quem está mais perto dos acontecimentos para me inteirar das opiniões locais.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Na minha vida pessoal não tem grande impacto ou melhor eu tento que não tenha. Apesar do Aliciante ser um blog intimista tento que não seja um diário ou que relate acontecimentos pessoais. Gosto de escrever poesia e contos pelo que não acredito que haja grandes razões que o levem a causar qualquer tipo de impacto na minha vida.
Encaro-o como uma extensão de mim mas também não lhe dou demasiada importância.
Relativamente a outros blogs roubam-me tempo mas como referi atrás atendendo à minha profissão a leitura enriquece e uso-os como objecto de trabalho.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
A blogosfera é editorialmente livre e essa é uma afirmação verdadeiramente correcta. É essa liberdade que eu constato. Liberdade em termos de escrita pois não tem que ser regida pelos habituais padrões, liberdade de expressão, mas demasiada liberdade também tem os seus pontos negativos. Acho que deve haver margens de decência e liberdade pelo que encontro uma forte lacuna em termos jurídicos nesta comunidade que é a blogosfera.
3
Entrevistas anteriores (apenas a Série II): Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira, Leandro Gejfinbein, Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca, Tiago Mendes, Nuno Miguel Guedes, Miguel Vale de Almeida, Pedro Magalhães, Eduardo Nogueira Pinto, Teresa Castro (Tati), Rogério Santos, Lauro António, Isabela, Luis Mourão, bloggers do Escola de Lavores, Bernardo Pires de Lima, Pedro Fonseca, Luís Novaes Tito e Carlos Manuel Castro, João Aldeia, João Paulo Meneses, Américo de Sousa, Carlota e João Morgado Fernandes. Agenda para esta semana (de 2 /1 a 6/1/07): José Pacheco Pereira, Pedro Sette Câmara, Rui Bebiano, António Balbino Caldeira e Madalena Palma.
CONCURSO ANO NOVO - 23 (último)
PRÉMIO: TRÊS LIVROS (DISPONÍVEIS) DO AUTOR DO MINISCENTE ESCOLHIDOS PELO PRÓPRIO VENCEDOR (AQUELE QUE DESCOBRIR A FRASE EM PRIMEIRO LUGAR ).
(este concurso tem a duração de 23 dias: de 15 de Dezembro de 2006 a 6 de Janeiro de 2007 – respostas permanentes para luis.carmelo@sapo.pt)
Sexta-feira, 5 de Janeiro de 2007
Mini-entrevistas/Série II – 92

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é António Balbino Caldeira (blogue Do Portugal Profundo).
- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
A liberdade de informação e opinião dos cidadãos, acima da censura e cobertura dos meios de comunicação social promíscuos com o poder.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
O caso de pedofilia da Casa Pia.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
1. A Polícia Judiciária e um procurador do Ministério Público, no dia 27 de Outubro de 2004, a fazer busca de minha casa - por causa da suspeita do crime de desebediência simples a um despacho judicial que não me era aplicável e cujo conteúdo só conheci no dia da sentença que me absolveu - ainda de noite; à mesma hora (7:00 da madrugada) a Polícia Judiciária em casa de minha mãe; a minha mulher e os meus filhos precocemente conscientes da atemorização do Estado/poder; e-mails ilegalmente apreendidos; o meu computador apreendido; a minha tese de doutoramento apreendida durante 7 meses.
2. O meu julgamento em que fui absolvido, sentença reforçada pelo Tribunal da Relação de Coimbra.
3. A citação como arguido de outros processos sistémicos. A desigualdade de tratamento de poderosos e simples.
4. A solidariedade da blogosfera livre.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
O meio é livre, mas as pessoas podem também vender-se ao poder ou migrar do sistema podre para a defesa da sua posição nesse mesmo sistema.
~s
Entrevistas anteriores (apenas a Série II): Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira, Leandro Gejfinbein, Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca, Tiago Mendes, Nuno Miguel Guedes, Miguel Vale de Almeida, Pedro Magalhães, Eduardo Nogueira Pinto, Teresa Castro (Tati), Rogério Santos, Lauro António, Isabela, Luis Mourão, bloggers do Escola de Lavores, Bernardo Pires de Lima, Pedro Fonseca, Luís Novaes Tito e Carlos Manuel Castro, João Aldeia, João Paulo Meneses, Américo de Sousa, Carlota e João Morgado Fernandes. Agenda para esta semana (de 2 /1 a 6/1/07): José Pacheco Pereira, Pedro Sette Câmara, Rui Bebiano, António Balbino Caldeira e Madalena Palma.
CONCURSO ANO NOVO - 22
PRÉMIO: TRÊS LIVROS (DISPONÍVEIS) DO AUTOR DO MINISCENTE ESCOLHIDOS PELO PRÓPRIO VENCEDOR (AQUELE QUE DESCOBRIR A FRASE EM PRIMEIRO LUGAR ).
(este concurso tem a duração de 23 dias: de 15 de Dezembro de 2006 a 6 de Janeiro de 2007 – respostas permanentes para luis.carmelo@sapo.pt)
Quinta-feira, 4 de Janeiro de 2007
Já somos dois!

Para que conste

Mini-entrevistas/Série II – 91

LC
e
e
- O que é que lhe diz a palavra "blogosfera"?
CONCURSO ANO NOVO - 21
PRÉMIO: TRÊS LIVROS (DISPONÍVEIS) DO AUTOR DO MINISCENTE ESCOLHIDOS PELO PRÓPRIO VENCEDOR (AQUELE QUE DESCOBRIR A FRASE EM PRIMEIRO LUGAR ).
(este concurso tem a duração de 23 dias: de 15 de Dezembro de 2006 a 6 de Janeiro de 2007 – respostas permanentes para luis.carmelo@sapo.pt)
Quarta-feira, 3 de Janeiro de 2007
Diacrónica do Onésimo

Se não dispuséssemos já de provas apodíticas de como os intelectuais (os de antiga cepa, entenda-se) não têm jeito para o negócio, bastar-nos-ia uma recentíssima prova.
Eduardo Lourenço publicou mais um livro; o tema, a modernidade literária que veio revirar o lirismo romântico, idealizado, e que o sopro de Nietzsche acabaria por fazer cair, a princípio lentamente mas depois em queda livre, no corpo - nos corpos e na pós-modernidade do quase mero eros. Lourenço, na peugada de Eça, foi desencantar a musa de Lamartine, que desde cedo tanto cativara o nosso romancista-mor, e pespegou no título da sua colectânea de ensaios as próprias palavras queirosianas: As Saias de Elvira.
Estrangeirados, afrancesados tanto um como outro, já se sabe. Mas Eça escrevia no século XIX e não no XXI. Eduardo Lourenço, malgrado o seu impressionante faro literário, estético, filosófico e até de analista político, revelou mais uma vez não estar pelos deuses fadado para tirar partido económico dos seus livros.
Fosse ele mais atento aos sinais do mercado actual e, simultaneamente, mais castiço, mais lusitano, mais vernáculo nas suas intertextualidades e ter-se-ia lembrado de recorrer ao nosso folclore, para dele extrair um despudoradamente bem mais rentável título: A Saia da Carolina.
Um acento cheio de gravidade (ACT.)
Mini-entrevistas/Série II – 90

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Pedro Sette Câmara (http://www.oindividuo.com/).
- O que é que lhe diz a palavra "blogosfera"?
E
Entrevistas anteriores (apenas a Série II): Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira, Leandro Gejfinbein, Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca, Tiago Mendes, Nuno Miguel Guedes, Miguel Vale de Almeida, Pedro Magalhães, Eduardo Nogueira Pinto, Teresa Castro (Tati), Rogério Santos, Lauro António, Isabela, Luis Mourão, bloggers do Escola de Lavores, Bernardo Pires de Lima, Pedro Fonseca, Luís Novaes Tito e Carlos Manuel Castro, João Aldeia, João Paulo Meneses, Américo de Sousa, Carlota e João Morgado Fernandes. Agenda para esta semana (de 2 /1 a 6/1/07): José Pacheco Pereira, Pedro Sette Câmara, Rui Bebiano, António Balbino Caldeira e Madalena Palma.
CONCURSO ANO NOVO - 20
PRÉMIO: TRÊS LIVROS (DISPONÍVEIS) DO AUTOR DO MINISCENTE ESCOLHIDOS PELO PRÓPRIO VENCEDOR (AQUELE QUE DESCOBRIR A FRASE EM PRIMEIRO LUGAR ).
(este concurso tem a duração de 23 dias: de 15 de Dezembro de 2006 a 6 de Janeiro de 2007 – respostas permanentes para luis.carmelo@sapo.pt)
2-Verbos a evitar esta semana: “Pegar, colocar e agarrar.”
3-Início de frase complicadas: “E Deus cumpriu o prometido.”
4-Fim de frase a utilizar muitas vezes: “E pousou a mão na minha cintura.”
5-Raciocínios estimulantes: “Pegou-me por baixo e sussurrou já não sei o quê.”
6-A pronunciar em voz baixa: “E Deus pegou na coisa desejada.”
7-Palavras a repetir às duas da manhã: “E Deus pegou na vela já acesa.”
8-Frase a segredar em voz baixa: “Fê-lo com cuidado como se fosse pela cintura.”
9-À vista desarmada: “A curva do rio parecia a cintura da jornalista.”
10-Título de livro: “E Deus pegou-me pela alma.”
11-Associação mental muito rápida: “E se a alma fosse parte do corpo?”
12-Sem perceber a lógica da coisa, teria dito: “Pegou-me e provavelmente evitou o pior.”
13-Talvez um romance: “E Deus pegou na cintura da mulher desaparecida.”
14-Modos de esquecer o passado: “E Deus escolheu o verbo pegar.”
15-E se Rute perguntasse: “Mas o verbo pegar não é tauromáquico?”
16-Título de um mau policial: “Terá a mulher raptada escapado ao pior?”
17-A conclusão sage: “E Deus pegou-me e sussurrou em voz muito baixa.”
18-Consequência do logro: “Cumpriu mas não totalmente: fê-lo pela cintura.”
19-Por vezes, pergunto-me: “E se a frase fosse uma mera adição?”
20-Quase a chegar ao fim: “E se Deus me pegasse mesmo a sério?”
Terça-feira, 2 de Janeiro de 2007
Mini-entrevistas/Série II – 89

LC
O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é José Pacheco Pereira (http://abrupto.blogspot.com).
- O que é que lhe diz a palavra "blogosfera"?
A comunidade dos blogues em geral e em especial a comunidade dos blogues portugueses.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Os blogues.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
O Abrupto é uma das Vozes que sempre desejei ter. Pessoal, intacta, em tempo rápido, mais jemenfoutiste do que qualquer outra.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Numa democracia o único limite à liberdade é a lei. A lei geral. O meu príncipio é que o que não se deve fazer lá fora, não se deve fazer cá dentro.
CONCURSO ANO NOVO - 19
PRÉMIO: TRÊS LIVROS (DISPONÍVEIS) DO AUTOR DO MINISCENTE ESCOLHIDOS PELO PRÓPRIO VENCEDOR (AQUELE QUE DESCOBRIR A FRASE EM PRIMEIRO LUGAR ).
(este concurso tem a duração de 23 dias: de 15 de Dezembro de 2006 a 6 de Janeiro de 2007 – respostas permanentes para luis.carmelo@sapo.pt)
Segunda-feira, 1 de Janeiro de 2007
CONCURSO ANO NOVO - 18
PRÉMIO: TRÊS LIVROS (DISPONÍVEIS) DO AUTOR DO MINISCENTE ESCOLHIDOS PELO PRÓPRIO VENCEDOR (AQUELE QUE DESCOBRIR A FRASE EM PRIMEIRO LUGAR ).
(este concurso tem a duração de 23 dias: de 15 de Dezembro de 2006 a 6 de Janeiro de 2007 – respostas permanentes para luis.carmelo@sapo.pt)
Por LC |






XML | RSS Feed