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quarta-feira, 30 de Novembro de 2005

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Veja o Episódio 5 do novo folhetim BD


Uma BD inédita da autoria de João Palla e Carmo.
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Uma homenagem a Victor Palla em seis episódios.
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Veja e leia em baixo o quinto episódio.


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Episódio 5

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terça-feira, 29 de Novembro de 2005

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Veja o Episódio 4 do novo folhetim BD


Uma BD inédita da autoria de João Palla e Carmo.
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Uma homenagem a Victor Palla em seis episódios.
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Veja e leia em baixo o quarto episódio.


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Episódio 4

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segunda-feira, 28 de Novembro de 2005

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Veja o Episódio 3 do novo folhetim BD

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Uma BD inédita da autoria de João Palla e Carmo.
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Uma homenagem a Victor Palla em seis episódios.
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Veja e leia em baixo o terceiro episódio.


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Episódio 3

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Faz hoje dez anos

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Universidade de Utreque, às 12.45 h.


domingo, 27 de Novembro de 2005

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Veja o Episódio 2 do novo folhetim BD


Uma BD inédita da autoria de João Palla e Carmo.
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Uma homenagem a Victor Palla em seis episódios.
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Veja e leia em baixo o segundo episódio.


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Episódio 2

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sábado, 26 de Novembro de 2005

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Veja o Episódio 1 do novo folhetim BD


Uma BD inédita da autoria de João Palla e Carmo.
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Uma homenagem a Victor Palla em seis episódios.
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Veja e leia em baixo o primeiro episódio.


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Episódio 1

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Vem aí um novo folhetim em BD


Uma BD inédita da autoria de João Palla e Carmo
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Uma aventura em seis episódios em torno da ecléctica arquitectura dos anos cinquenta.
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Uma homenagem a Victor Palla.


sexta-feira, 25 de Novembro de 2005

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Heimat

Cruzo-me com uma fila de carros parados, enquanto subo de táxi a Conde Redondo. Uma sucessão de rostos tristes, severos, irremediavelmente imobilizados.


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A generosidade das marés

Sempre que os média aproveitam o dia internacional de qualquer coisa para uma súbita inundação temática (que ficará sob silêncio o resto do ano), cria-se, quase necessariamente, uma monstruosidade.
O rosto terrível desse monstro anunciado ficará a pairar na expiação colectiva durante alguns dias e, uma semana depois, há-de diluir-se no mais sigiloso, indiferente e, às vezes, voluntário esquecimento.
Nada que admire a ingenuidade reinante. Até porque é essa a regra com que nos inventamos, ficcionalmente, no tempo: marés invisíveis, ondas perfeitas, oceanos cruéis.


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Secreta defesa

Interessante, no mínimo, o modo defensivo como o governo sente necessidade de responder a um artigo de opinião (neste caso de José Pacheco Pereira - Público de ontem, sem links).
No termo do comunicado, o ministro dos negócios estrangeiros, Freitas do Amaral, remata de modo algo metafísico:
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"(...) o problema não consiste apenas - nem sequer principalmente - na oposição França/Inglaterra, nem é um problema PAC/cheque britânico. É uma questão muito mais funda, mais vasta e mais complexa. A seu tempo isso poderá ser pormenorizadamente explicado e debatido."


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Folhetim

O Trevo de Abel – (último) Episódio 42
Terceira Parte: O tempo de Abel
Folhetim do Miniscente
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A escada rolante da estação de Baixa-Chiado é imensa, branca e bela. Sai-se à superfície como se se tivesse saído de uma visão luminosa do inferno de Dante. Segue-se a Brasileira, a estátua do poeta, o Camões em obras e depois a mais autêntica via de Lisboa, a Rua do Alecrim. Por ela, o destino da cidade se une ao Tejo, o que geralmente é coisa ofuscada, diluída, que se encontra velada pela suave roupagem das colinas da cidade. Enquanto desce a rua, Abel relembra, por secretos augúrios da memória, a cor avermelhada dos céus da noite. A aurora boreal do longínquo dia em que nasceu, como lho contara a avó Maria Alba, e os outros dois céus inauditos que o fizeram ser, por sortilégio, primeiro Caim e agora Abel.
Febril, nervoso e quase já esquecido da súbita reminiscência, Abel quedou-se subitamente imóvel, por instantes, nesse momento preciso em que acabava de descer o plano inclinado e luminoso Rua do Alecrim. E agora? Pela frente, apenas o Tejo e nada mais. Nada mais me resta. Tudo o mais é desaire e esquecimento, talvez assombro. Abel sentiu então uma desmedida vontade de juntar o seu destino às águas do Tejo e nelas desaparecer, cruzando o seu caminho com as tentações de Lisboa, de Santo António e dos seus fados de vaticínio irreal. Mas os passos venceram a contenda e Abel voltou a andar. Como um autómato, desceu a rua com leveza até quase se abeirar do Cais do Sodré. Povoado por sinais contrários, mergulhado em desejo e terror, Abel tanto se sentia acossado como herói. Por segundos, voltou a encarar o panorama, os vultos a silhueta de bronze do Duque da Terceira e, para além do rico empedrado da praça, o próprio rio, as suas margens, a maresia, a incerta névoa fluvial.
Abel terá percebido nesses segundos o que o poeta quereria dizer, ao contemplar dali, sem passado nem futuro, toda esta urbe esfumada num autêntico desejo absurdo de sofrer. Confrontado com tais sombras e bulícios interiores, Abel contornou os quiosques dos jornais, passou pela agência de viagens, atravessou a avenida e acercou-se da estação. Que fazer? Abel encolheu os ombros e, sem medir rumo e leme, acabou por se sentar na última das esplanadas ribeirinhas onde o destino, sempre ínvio, ainda permite que se visione o que resta da antiga e nostálgica Doca de Abrigo.
Daqui já partiram os vapores ditos lisbonenses e, na minúscula doca, recolhiam-se, em tempos que já lá vão, embarcações de pesca de mastro branco e altíssimo, ateadas por cordas, correntes de metal e deslumbradas memórias. De todo esse espectáculo, Abel apenas descortinou, ao longe, sobre o pontão, um par de namorados que continua a abraçar-se sob a ligeira neblina que envolve, ao longe, a Lisnave, os braços dos guindastes, o arcaboiço metálico e escuro das ancestrais naves de sonho. Depois, chegou a imperial bem tirada e, ao mesmo tempo, aportava na gare marítima um cacilheiro carregado de pneus cor-de-laranja que mais pareciam globos armilares do antigo império. E foi nesse momento, após um último olhar para a outra margem, que Abel sentiu uma desmesurada necessidade de falar, de contar, de se expor fosse a quem fosse.
Na mesa ao lado, estava já sentado o desconhecido senhor Zorba, entretido que estava com o seu silêncio e com a textura negra da Guiness. A conversa iniciar-se-ia pouco depois e foi então que Abel sentenciou a sua primeira frase. A tal frase. Disse Abel: “Não tenha medo, mas o que está à sua frente é um homem que já viveu várias vidas e que agora se transforma em luz”. Zorba intrigou-se, mas ouviu; percorreu com Abel o percurso da 24 de Julho até às Janelas Verdes. Aí apareceu Isabel, depois a Júlia e a Dona Joana já em Santos-o-Velho. O resto é conhecido, pois o grupo foi-se alargando e, com ele, a própria história; surgiu o senhor Gouveia na D. Carlos e, perto da Rua Nova de S. Bento, todos os restantes: o senhor deputado, o senhor professor de comunicação - o mais sisudo e calado - Lopamudra de Vidarbha, Chico e Sara de Belém e o sr. Brihadratha. O sapateiro Palmeirim, como todos se lembram, só se juntaria ao grupo na Rua da Boavista, perto do Conde Barão.

- E agora aqui estamos, já o sol nasceu e a noite passou. Desde o meio da tarde de ontem que venho contando toda esta longa história, e confesso que me sinto agora mais aliviado, menos misterioso. Ainda ontem, a esta hora, estava a entrar no fatídico duche e cantava, cantava, miraculosamente cantava. Era como se a voz de Adão me tivesse de novo visitado. Eis-me, portanto, aqui, entregue a vós, sem mais nada para dizer. Eu que sou Adão, Caim e Abel, ao mesmo tempo. E agora? Gritou Isabel, gritou Zorba, gritou Lopamudra de Vidarbha. Não tenham medo, o que está à vossa frente é um homem que se transforma em luz. A frase, a tal frase. E o senhor Gouveia apontou com fúria para baixo e disse: Venham, venham por aqui, vamos para os baixos do Jardim de S. Pedro de Alcântara; lá... sempre estamos mais recatados, escondidos. E depois... logo se vê, haveremos de decidir o que fazer. E o grupo desceu pela Rua de S. Pedro, entrou no jardim e aí viu nascer a manhã.
E o sol levantou-se dos lados do Castelo, da Graça, de S. José e nós os treze, entre canteiros, passeando pelos bustos de Ulisses, Vénus e Minerva, evocando a idade de ouro, a bonança do vazio e a terrível aflição do momento. Até que, por volta das onze da manhã apareceram helicópteros, viaturas, buzinas, sirenes, comandos; o cerco era total. Em cima, o jardim foi praticamente fechado e Abel, diante de tal aparato, recuou até ao tronco do imenso limoeiro, sobre o abismo, encostado a nada, ao fim. Os doze ficaram um pouco mais atrás, encostados à cerca de metal, aflitos, brancos de rosto, impávidos, esperando a voz, o alento, o sinal decisivo de Abel. E o nosso homem gritou, gritou, gritou muito alto para que o ouvissem - Tenho uma granada comigo e estas doze pessoas são minhas reféns. Tudo o que quero é... esperar aqui neste sítio, até ao pôr-do-sol. Depois disso entrego-me, desde que me deixem contar tudo o que tenho a dizer. - Ao crepúsculo? Mas o homem está maluco. O que vamos fazer, comissário? Tenham calma, não vêem que ele tem reféns e está armado? Nada de avançar, para já, com os comandos. Vamos esperar até ao pôr-do-sol, vigilantes, até porque esta espera pode não agoirar nada de bom. À volta, por toda a Lisboa, uma multidão imensa rodeou o local e ouve quem gritasse em coro: canta, canta, canta Adão! Mas o silêncio de Abel manteve-se. Perdurou.
Passaram algumas horas e os doze mantinham-se aquietos, hirtos, dominados por uma qualquer grandeza sem nome. Por cima, as hostes amotinavam-se, iam-se agitando a pouco e pouco e, apoiados às grades, Luísa, Leonor, Arlete, Dona Olga, o médico, Porfírio, algumas russas de Porto Brandão e gente e mais gente sem fim contradiziam-se nas implorações, impropérios e lisonjas. Um caudal de gritos, alaridos, brados e ecos ressoando entre as fileiras da polícia e o cheiro a limão que envolvia a aparente calma de Abel. Nos telhados e sótãos dos prédios vizinhos, sobre estruturas improvisadas, as televisões transmitiam já em directo todo o folclore, a espera, o semblante enigmático e longínquo de Abel. A tarde ia caindo, lenta, preguiçosa e, com ela, aumentava a expectativa, o temor, o tremor, a grande questão afinal: porquê o crepúsculo? Perto do pôr-do-sol, o comissário falou com o ministro e tudo foi decidido acerca da manobra. Os comandos avançariam por baixo e igualmente pelo ar, de helicóptero, tentando assim salvar os reféns e, ao mesmo tempo, não dando oportunidade a Abel para deflagrar a granada ou qualquer outro explosivo. A multidão estava ao rubro, a excitação polvilhara a capital, o jardim começava a escurecer.
E foi quando Abel ouviu ao longe o ruído dos helicópteros e o vasculhar das sebes no acesso ao jardim que, sem mais, correu subitamente para o meio dos doze e disse: abram um círculo à minha volta, protejam-me. A cidade estava em suspenso, parecia calada; as sombras dos helicópteros a percorrerem telhados, uivos de cão ao longe; as cordas lançadas às grades, os comandos escalando por baixo do Jardim de S. Pedro de Alcântara. Quase ao mesmo tempo, a polícia de choque interveio à bastonada para evitar a histeria colectiva que se formara. Um atrito, uma espessa nuvem de gestos, sonidos de violoncelo, corpos por terra, uivos de cão ao longe e Abel entre os doze, de braços abertos, rindo muito alto, unindo os pés e lembrando-se como nunca de Alonso, o pirotécnico, o nómada fogueteiro de Trujillo.
De repente, mal caiu o sol, Abel ficou com a pele toda macerada, em tons lilases, depois parecia vermelha, mais do que corada, quase em fogo. Passados alguns segundos, já os comandos saltavam as grades e os helicópteros apareciam sobre a Rua de S. Pedro, de súbito, sem que nada o fizesse esperar, Abel ficou incandescente como uma pira de lenho a arder e o seu corpo, agora longilíneo, afunilava-se como se o tronco, os membros e a cabeça se tornassem, de repente, numa vara muito alta em cor e em forma de fogo. E mais se parecendo com um gigante fio-de-prumo de brasas virado para as nuvens, Abel subiu pelos céus de Lisboa como se fosse o pau, o simples pau de um magnífico foguete e, ao atingir a calote ainda azulada da esfera pelos últimos raios de sol; ao atingir a curvatura celeste reflectida nas águas avermelhadas do grande Tejo; ao atingir de par a par o arco perfeito da atmosfera das Tágides, este foguete que fora Adão, Caim e Abel transformou-se num colossal fogo de artifício que fez regressar Lisboa à lembrança da sua última aurora boreal. E Zorba, espantado, quase destruído, sentiu uma estranha irritação nesse seu sinal paterno em forma de serpente com duas cabeças. O pasmo era total e, por cima, expandia-se o clamor, a beleza da frágua vermelha; seguiram-se explosões e mais explosões na indolência dos ares, dos eflúvios de lume, luz e brilho que se expandiam em forma de trevo de três fogos. Foi assim durante mais de meia hora.
Foi assim, em Lisboa, num dia de fortunas e luminárias.


quinta-feira, 24 de Novembro de 2005

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Da nossa poesia mais actual

A poesia portuguesa dos últimos anos, em vez de exceder-se para tentar referenciar o mundo (ao constituir-se como diamante das 'grandes narrativas' tradicionais), passou antes a tentar encontrar formas de sentido mínimas: estilhaços recortados do dia a dia com um realismo próprio dos primeiros tempos do cinematógrafo, onde o fundamental foi, ao mesmo tempo, perceber e fazer agigantar os actos minúsculos do quotidiano que subitamente se libertavam da hipecodificação secular do olhar. Essa épica original do cinematógrafo corresponde, nos nossos dias (e no caso da poesia), a um perfil quase subterrâneo, fugaz e apenas iluminado pelo sigilo. Um recato que passa despercebido no fluxo ininterrupto de imagens globais, mas que, às vezes, o sinaliza de modo abismado e mesmo grandioso.


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Folhetim

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Termina amanhã a publicação do folhetim O Trevo de Abel, baseado no meu romance homónimo de 2001.


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Folhetim

O Trevo de Abel - Episódio 41
Terceira Parte: O tempo de Abel
Folhetim do Miniscente
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Passei uma noite péssima. Leonor, felizmente, decidiu tomar comprimidos para dormir e não deu por nada. De manhã, levantei-me mais tarde do que o normal e fui lentamente, a sós, para o duche como que a imaginar saídas possíveis para isto tudo. Só me vinha à ideia o mordomo catalão, uma qualquer fuga aparatosa e sempre, sempre... o diabo do Porfírio. O cerco à minha volta apertava-se. Pensei em fazer a mala, telefonar para Barcelona, desaparecer.
Subitamente, sem razão nenhuma para tal, enchi o peito e vi-me a cantar muito alto, sob os auspícios da água quente do duche: “Leonor Luísa Amor/ Pelo vosso coração/ Canta a minha dor/As rosas desta visão”. Maravilha! Quase rejubilei. Vinda do nada, talvez do gravitas da alma, era outra vez a voz de Adão, potente e bela, ressurgida como que por milagre. Que maravilha! Era como se as cordas vocais tivessem sabiamente regressado ao seu paraíso primeiro e inicial. E... porquê agora?
Entretanto, no rés-do-chão, Leonor abriu lentamente a porta e subiu alguns degraus. Não foi preciso mais para ficar apavorada diante daquela voz televisiva, clara e nítida, que conhecia como ninguém. Parou ainda no cimo das escadas e, já trémula de palavra e espírito, ainda teve forças para gritar - Abel, estás em casa? Sem resposta, Leonor desceu a escadaria rapidamente, em pânico, veloz, com a boca presa, os olhos muito abertos, a respiração quase em suspenso, parada, irada. Abel, nu em flor, apercebendo-se do tremendo descuido, do repentino dom, do indomável susto, desceu até ao hall do primeiro andar e ainda gritou - Querida, estou aqui, o que é, o que se passa? Nessa altura, já Leonor tinha batido com a porta e fugido, fugido.
Sem tempo sequer para pensar, vesti-me num ápice e - continua Abel - segui pela esquina de cima. Passei pelo ‘Ano Zero’, a loja de cerâmica da vizinhança, e meti-me depois no táxi, uns metros mais à frente. Contei o dinheiro, acelerei, evitei a praça e, em poucos minutos, dei comigo em plena estrada de Pero Pinheiro. Atravessei então bermas de eucaliptos, nuvens baixas e carregadas e soube, por fim, que era este o termo da minha fase de Belas. Agora, já não podia voltar para trás. Depois do cantor, o chulo e agora o pacóvio, o pateta alegre! Ri-me de tanto fantasma, de tanta história insuportável, de mim mesmo, juro. Acelerei e voltei a cantar muito alto, alto, alto... e senti, a dada altura, que estava a ensandecer ou a tresloucar-me. Segui pela CREL, cigarro atrás de cigarro, lento, concentrado. Até que decidi o que fazer. Eureca.
Leonor correu até à praça, entrou no Centro de saúde e pediu para falar com o médico. O médico? Mas... o senhor doutor agora está muito ocupado, é quase hora de almoço, é uma hora muito má! Por favor, diga-lhe que é a Leonor, é muito urgente. É coisa de vida ou de morte, a sério... é isso mesmo, de vida ou morte. O médico entretanto apareceu com a bata branca a envolver-lhe o espanto, a ousadia do momento, a dúvida. Mas o que é que se passa, Leonor? Senhor doutor, ontem o senhor, afinal, tinha toda a razão. O morto-vivo está mesmo na minha casa! Ouvi-o a cantar muito alto e garanto que era ele, sem engano, sem hipótese alguma de me enganar. É que eu segui, durante anos e anos, o programa dele e conheço-lhe a voz, juro sr. Doutor, conheço-lhe a voz como conheço as minhas mãos. Mas não é apenas isso. É também o corpo... primeiro era aquela articulação do cotovelo, o osso, a forma do braço, depois as coxas ao andar, o pescoço, mas não só. Sabe, é que ele, já lho tinha dito uma vez, foi meu namorado, há muitos, muitos anos! Leonor fala, balbucia, hesita, parece tremer. Veja lá Leonor, está tão nervosa! Mas há mais, repare sr. Doutor, aquelas costuras atrás das orelhas devem ter sido plásticas que ele fez... para ocultar a identidade ou coisa do género e nunca por causa de qualquer acidente que tenha sofrido. Sempre desconfiei disso porque, pelo menos umas duas vezes, ele me trocou as estradas e até os sítios onde tudo se terá passado. Ó sr. Doutor, desculpe-me, deixe-me falar, eu sei que não estou nada bem, mas há uma última coisa que quero dizer. Aquele nome não existe no Arquivo, ou antes, deverá corresponder a alguém que já… morreu. Em vez de ir à escola, hoje de manhã, fui aos Arquivos Centrais e confirmei isso. É verdade, sr. Doutor, tem toda a razão, eu devia ter desafiado o homem cara à cara... mas reconheço que fiquei apavorada, tive medo; não estava à espera de ouvir aquela voz de defunto a cantar. Parecia uma coincidência do diabo, vou ao arquivo, falto à escola e reencontro um morto! Foi demais para mim e foi por isso que tive que vir até aqui a correr, desculpe sr. Doutor...
O médico agarrou então no pulso de Leonor e disse com voz muito decidida - Venha, vamos daí, vamos lá à sua casa, depressa. Subiram os dois pela Cândido Reis, entraram no hall, depois na cozinha; examinaram a sala, os quartos, passaram pelas águas-furtadas e ninguém, nada, vazio total. No entanto, o ar de casa subitamente abandonada falava por si: marcas de duche deixado a meio, roupa no chão, flocos e notas espalhados na bancada da cozinha, o armário aberto com peças de roupa a menos. Não mexa, não mexa em nada, vê-se mesmo que o tipo fugiu a correr; aqui há realmente marosca e da grossa! Dê cá o telefone, dê cá. Eu falo, eu falo, esteja quieta e tome mas é este comprimido, vá lá. Está? Está? É da polícia? olhe, venha num instante à Cândido dos Reis, 68, sim, sim, aqui em Belas. É melhor virem com toda a velocidade, porque a história parece apontar para coisa perigosa. Muito obrigado, até já. Em pouco tempo, duas viaturas da PSP estacionaram em frente à casa cor de cereja e, na hora que se seguiu, Leonor depôs o que pôde, o que sabia e do que, já há algum tempo, desconfiava.
Minutos depois, Dona Olga, espreitando de frente e no fundo dos olhos do médico, desabafava: Mas isto... é o verdadeiro diabo entre nós! Punha e voltava a pôr as mãos à volta da cabeça, suava e repetia, repetia - O perigo que a nossa Leonorzinha deve ter passado! - É verdade, é verdade. Seja como for, ela está agora ali na Casa de saúde a compor-se com uns calmantes e eu vou lá passar outra vez daqui a um bocado. Aproveitei para vir aqui à esplanada, porque vi, através dos vidros, que estava sozinha... posso tratá-la por tu? Só entre nós, claro. Claro. Então, diz-me... a tua mulher continua com as febres? E o médico, mexendo o café, abrindo os dedos cheios de alianças, a sorrir com ar adolescente e malandro, circunspecto... a fazer-se à resposta com alguma avidez demorada, lenta - Está mas é com febres de malta! Não, era tudo treta minha. Sabe, fiz com que ela, ontem, não saísse de casa; há lá umas pinturas a fazer e isso dava-me mais tempo para ir buscar uma ou outra tangerinazinha ao seu quintal, já está a perceber? - Seu madraço, seu brejeiro, como te atreves! Vou-me já calar, Olga, porque estou a ver a tua irmã do outro lado da Praça. - Pois é, e vem para cá, já deve ter sabido tudo acerca da Leonorzinha. - Mas antes de me calar, queria dizer-te ainda isto: eu agora não quero outra coisa senão os gomos sumarentos das tangerinas, entendes? E Olga, efusiva, exultante, a ranger entre dentes - Seu madraço, seu castigador, se não fosse ali a minha mana, dava-te com a mala nesse sítio. Quem te vê e quem te viu! Cuidado, olha que em Belas sabe-se tudo, tudo, e onde é que andará aquele bandido do Abel?
O que ouvi no noticiário a meio da tarde fez-me, de imediato, abandonar o carro numa colina isolada a norte de Alverca. De seguida, contornei a colina, segui a pé pela parte debaixo da auto-estrada a rebentar de trânsito e, depois, sem qualquer norte, sem direcção ou rumo, corri entre estradas velhas, atalhos, barracas, prédios de quinze andares no meio da lama; acampamentos de ciganos, quiosques, armazéns clandestinos, gráficas; oficinas de recauchutagem de pneus, casas saloias, tascas cheias de ferroviários, viadutos e alguns passeios esventrados. Na feira do relógio, comprei um casaco e novos óculos escuros. Deambulei pela Avenida do Brasil, pelos lagos do Campo Grande e só me vinha à mente os olhos de Sara, os gestos de Leonor; Luísa a saltar as grandes ondas de Porto Covo. Advinham-me imagens coloridas das ruas de Banguecoque, da tromba de água do Índico, das casas brancas de Djibouti; via diante de mim as meninas de Porto Brandão, os aplausos sem fim do ‘Tostões e Biliões’, a minha desconhecida filha, ou os olhos ávidos da Dona Olga; revia o Porfírio gigante e cheio de tatuagens, o Maremagnum catalão, o mordomo; enfim, tudo aquilo era eu, perdido de sentidos, na Estrela ou no Jardim do Paço do Lumiar a contemplar um céu avermelhado e sem qualquer explicação. Senti-me tonto, fraco, frágil e sem forças. Sentei-me num dos bancos de jardim do Campo Grande e pensei - Já chega! Já chega. Chega de fugas, de fingimentos, de duplos. Chega de desventuras. Serei assim tão anormal? Não será possível contar toda esta minha história a alguém e ser ouvido? Poderei alguma vez vir a ser perdoado? Mas perdoado pelo quê?
A todo o momento, a polícia pode cercar-me, levar-me, ou interrogar-me. Antes isso. Estou aqui no Campo Grande, a sós, livre de querer e de ser, mas, seja como for, à vossa disposição, de todos. Pensei. E pela cabeça passava-me tudo, tudo: era o funeral da Estrela, os cartazes ostentando o meu rosto de Adão hilariante, o antigo fadista dos seguros, a Arlete a dançar à noite nos jardins de Belém; as belas putas do Pireu, o aeroporto de Dubai, as águas-furtadas de Barcelona e Sara e eu num sonho de Verão, em Cascais. Foi então que, sem medo de nada, de rigorosamente nada, me meti no metro. Fosse o que fosse. Circulei, estação após estação, até ao Marquês de Pombal e daí até à Baixa-Chiado. Talvez a secreta notoriedade do nome do Chiado, boémio de gema, homem de perdição, me tivesse atraído. Mas a quê?


quarta-feira, 23 de Novembro de 2005

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Realeza cultural - 3

O estado filantropo, razoavelmente remediado e sempre pronto a insinuar-se perante o magistério do que se designa por "cultura", torna-se amiúde num corpo narcísico que evoca e actualiza certas formas arcaicas de auto-sacralização. Noutros tempos, era através do universo das indulgências que os superiores representantes do ‘Altíssimo’ na terra se encarregavam de mediar o perdão do mal, para além, é evidente, de edificarem templos e acomodações luxuosas (os museus e o mercado das ‘indústrias da dignificação contemporânea’ estavam ainda para vir).


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Realeza cultural - 2

É evidente que Marshall McLuhan estava a brincar quando afirmou: “A publicidade é a maior forma de arte do século XX”.


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Realeza cultural - 1

Através de interessadas e inalienáveis subvenções ao mercado da cultura, grande parte dos representantes do altar do estado simula uma espécie de dignidade salvífica e tenta, ao mesmo tempo, publicitar a sua alegada e humilde generosidade perante um público sequioso de mediações tutelares algo perdidas.


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Delírios da Ota - 2

Pois é: o meu amigo MacGuffin já tinha associado "Otário" a partidário da Ota. Mas eu vou um pouco mais longe e baptizo todos aqueles que imaginaram, durante décadas, o sumptuoso conceito. Baptizo-os, naturalmente, com o nome generalista de "Idiotas". A língua portuguesa tem sempre segredos bem guardados para as ocasiões.


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O Trevo de Abel - Episódio 40
Terceira Parte: O tempo de Abel
Folhetim do Miniscente
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Afinal o médico, obsequioso e afável, sempre acabou por regressar à tertúlia. É quase meio-dia e meia e Dona Olga, arranjadíssima com o seu vison habitual, sentou-se agora mesmo à mesa do Café Parque. Então a sua esposa hoje não vem? Sabe, está engripada, nada de importante. Olhe que pena que eu tenho! Estimo as melhoras. Muito obrigado, muito obrigado. Então e o jornal, hoje, não o traz? Veja lá, como fiz as palavras cruzadas no intervalo da manhã, acabei por deitá-lo fora. A propósito, li ao de leve a notícia do morto-vivo e a senhora... ouviu falar? Sim, sim, ontem na televisão, o chefe da polícia, ou lá o que era o senhor, falou muito bem. Mas sabe uma coisa, senhor doutor, estas coisas arrepiam-me. Deixam-me com um medo enorme. O que eu acho, o médico a puxar as mangas do casaco e chegando-se à frente, o que eu acho, sabe, é que meio mundo é louco. A gente ainda disfarça, porque temos cá a nossa educação, as nossas coisinhas, mas este mundo anda fora de si, acredite que é verdade. Ó senhor doutor, não me diga uma coisa dessas!
E quando o médico, taciturno e melancólico, disse o que disse com palavras a rolar de lentidão e algum ardor, desencadeando aquele movimento desencontrado de íris, sobrancelhas e pupilas, logo Dona Olga sentiu uma íntima esperança de que alguma coisa, um dia, pudesse ainda vir a acontecer. Mas... senhor doutor, agora só aqui entre nós, acha mesmo que eu e o senhor doutor, por exemplo, somos... maluquinhos que disfarçamos que não somos? Não é isso Dona Olga, não é nada isso, o médico a rir-se bastante alto e retirando de uma assentada os cotovelos de cima da mesa, - olhe lá Dona Olga, nós estamos bem, damo-nos bem e até nem temos motivos de queixa, mas fora aqui dos nossos hábitos e da nossa rotina, digo-lhe mesmo, esse mundo tornou-se numa coisa diabólica. Pois é, Dona Olga de olhos abertos a repetir, pois é, pois é. E hoje o raio da mulher da fruta nunca mais me aparece aqui! Se quiser, sr. Doutor, tenho tangerinas muito boas no meu quintal. Está bem, está bem. Depende de como as coisas se encaminhem em minha casa...está a ver... tenho que receitar umas pomadas, uns tratamentos à minha mulher e, depois, se ela estiver melhor, passo ainda pelo Centro de Saúde e, lá mais para ao fim da tarde, posso ir lá então colher umas tangerinazinhas. Dona Olga sentiu um calafrio, ao longo da coluna vertebral, dos quadris, das orelhas e tremeu como varas verdes, entre os artelhos e as finas rugas da testa, completamente pálida e sedenta de mão de homem. Há tanto ano! Dona Olga estava perdida, corada e afónica, no momento em que eu e a Leonor nos sentámos.
Então, senhora professora, como vão indo as suas aulinhas? Ah, senhor doutor, os meninos, hoje em dia, são todos uns malcriados. Olhe, olhe, estávamos agora mesmo aqui a falar nisso. Dona Olga, já a sorrir, bem rosada e perfumada de olhar, dizendo que sim com a cabeça. Pois é, pois é, naturalmente é preciso ter uma grande paciência; e como eu estimo, por isso mesmo, aqui a nossa Leonorzinha! Eu, sisudo, caladinho, já a mexer o meu chá de limão e a pensar nos templos do interior da Tailândia. E com os taxistas em Lisboa é o mesmo, continua Dona Olga. Andam sempre a correr, parecem uns malucos, como o sr. Doutor dizia, há pouco, meio mundo anda louco, mas louco mesmo a sério! Excepção feita aqui ao senhor Abel, claro está. E o médico levanta o sobrolho, olha-me de baixo para cima e pergunta com ar agoirento e aziago, então mas o meu amigo não teve um acidente, uma vez? Eu? Ah sim, e eu a tentar fixar de lado os olhos no rosto Leonor. Teria ela falado ali das minhas costuras atrás das orelhas, mas que gente esta! O raio do médico, se calhar, ainda está mas é remoído com aquela história do "festo". Eu? Acidente, Eu? Sim, sim, aqui a Leonor contou que passou muito mal, há uns anos, e que até teve que fazer umas plásticas. Ah, sim, sim, isso foi ali na auto-estrada, entre... Saragoça e Barcelona. Sabe, coisa de jovem, estava nos meus vinte e tal anos. Acontece a todos. Dona Olga repetiu, sim, sim acontece a todos, mas coitado, que coisa! E isso custou-lhe muito? Ó Dona Olga, nem imagine! E o médico com o sobrolho levantado, com cara de coronel frustrado, a querer tramar-me com outra pergunta ainda pior que esta.
E então onde é que se fez operar, em que hospital? Olhe, sr, Doutor nem eu já me lembro bem, foi há tanto tempo! Então não foi em Saragoça? Avançou Leonor, ingénua, adjuvando a doméstica intriga do médico. Sim, sim, claro, foi aí mesmo; é, foi em Saragoça, fica em Aragão, conhecem? Ai, conheço tão mal a Espanha, disse e suspirou Dona Olga na direcção do empregado que era, todo ele, uma bandeja arqueada de cafés, garrafas e uns brindes do dia. São caixinhas de marmelada que trago para os senhores, porque hoje é o vigésimo quinto aniversário da casa! Foi nessa altura que chegou a irmã da Dona Olga. Sentou-se, trocou a perna e disse logo na direcção do médico: Olhe, sr. Doutor, o jardineiro disse-me que a mulher da fruta está com papeira e que, portanto, não pode vir hoje. Papeira? Papeira, naquela idade? Há com cada uma! Olha que esta! Isto hoje mesmo é dia de coisas do Entroncamento! Só faltava mesmo é que o morto-vivo estivesse para aí escondido numas águas-furtadas de Belas. O quê? Águas-furtadas, o quê? Disse Leonor. Bom, bom, isso é maneira de dizer. Sabe, durante a guerra, os espiões escondiam-se, ou nos sótãos, ou nas caves. Dona Lola, com o seu ar vidrado, pedrado, ilimitadamente seco de voragens: Ai era? Era mesmo assim? É como lhe digo. E eu, a acabar o chá de limão, e o nervoso miudinho a subir-me pelas canelas até aos joelhos e daí à barriga, ao peito, entrando-me pela cabeça que parece já oca, sem conteúdos, vazia. Subitamente vazia.
Mas o senhor Abel, hoje, está muito pálido, continuou o médico. E de imediato Leonor ergueu a cabeça e virou-se para mim, aparentemente preocupada: Estás-te a sentir bem? E, sem mais, se pôs a contar que eu tinha tido dores no peito, outro dia, quando acabava de almoçar, trá la lá, trá la lá, trá la lá, sempre a falar, não é capaz de se calar e não há nada que lhe ocupe a cabeça que não lhe povoe logo, a correr, os lábios, os gestos, a fala, o raio que a parta. Salvo seja. Não, não, sinto-me mesmo bem, fino. E acho que está quase na minha hora; é que hoje o meu turno começa à uma hora da tarde, porque o senhor Domingos foi ao curandeiro. Então... o que é que o homem tem? Perguntou Dona Olga para a mesa. Ficou tudo a olhar para o vago, uns para os outros, ou para ninguém que fosse; fez-se silêncio, demora, delonga. A atrapalhação com nome próprio. E foi a irmã que acabou por tomar a palavra, com ar secreto, balbuciante, como se chamasse um gato do outro lado da rua. Chega-se à frente, toca com os túrgidos na mesa e avança em máximo sigilo: Ó mana, parece que tem um mal no sítio... dos homens. Dona Olga tapou a boca com a mão carregada de anéis, enquanto eu sorria e Leonor olhava para o chão. Quando me levantei, o médico ainda disparou para o ar: Ó senhor Abel tenha cuidado no serviço que isto hoje parece que está tudo assombrado. Dona Olga riu muito alto, a julgar que era piada. De costas para o médico, sem ligar à desdita, virei-me para Leonor, já atónita, e limitei-me a repetir - Às 6 h, querida, está bem? Então, até logo. Leonor despediu-se de mim com um sorriso leve, improvisado, talvez mesmo distante. E porquê?
Ao chegar ao táxi, abri o rádio e, nas notícias, falava-se já em exumação. Era isso que eu temia. O que iriam eles encontrar? A questão tinha saltado fronteiras e a polícia tinha agora já em seu poder um depoimento do mágico Muhammad Mubarak, para além de andar no encalce de fontes mais consistentes. Entretanto, desse ou não desse, a polícia ia distribuir por todo o país o rosto de Ulisses Caim dos Santos Trigo, meliante, assassino e perigoso elemento que, porventura, poderia ainda estar vivo e a monte, constituindo, portanto, uma verdadeira ameaça para a paz pública. No final das notícias, o chefe Madeira, entrevistado, repetia: a exumação de ambos os corpos é uma medida normal, quando há indícios de crime, ou quando se regista uma ausência de indícios e provas necessários à investigação de um crime.
A polícia começa agora a tratar o que era uma simples anedota num caso realmente sério. Nesse dia, viajei até Campolide. Esperei, ao longo de toda a tarde, a uns bons trinta metros da casa de Porfírio. Observei, tomei notas, esperei. Perto das 6 da tarde revi o gigante; ia um pouco coxo e mais enfatuado do que o normal; entrou rapidamente em casa sem me dar tempo fosse para o que fosse. Fiquei indeciso sobre o que fazer, nervoso, escondido atrás dos meus óculos escuros, com algum medo à mistura. Foi nessa altura que olhei para o relógio e dei comigo a gritar: Mas já são 6 horas e eu esqueci-me de ir buscar a Leonor! Corri para Belas e entrei em casa com os bofes na boca. Que tinha tido um serviço para Lisboa, que não tinha podido parar para telefonar. Mas que já não saía hoje, etc. etc.
Leonor olhou então para mim com um aparente desdém, sorriu depois e disse com voz serena, tranquila - Não há problema nenhum com isso! Percebi logo que devia ter sido uma coisa dessas. Pareces tão nervoso nos últimos dias! Eu sosseguei, mas logo estremeci quando Leonor me disse que a Luísa viria amanhã jantar cá a casa. Ah é? E porquê? Para retribuir? Mas o jantar que ela ia dar... ainda não aconteceu, pois não? Não, mas, no outro dia, foi ela quem me pagou o jantar. Mas o que é que tu tens? Fazes com cada pergunta mais estranha e absurda! Parece que não te conheço! Qual é agora o problema de convidar a Luísa, uma minha amiga, a vir cá comer a casa!? Começo a não gostar nada do ambiente que tu andas aqui a criar, sabes eu...


terça-feira, 22 de Novembro de 2005

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O delírio da Ota

A campanha de marketing do governo tem acentuado o facto de o estado ir apenas investir um quinhão muito pequeno no projecto. Começa agora a ver-se que não é verdade. Para já, parece que, nos próximos doze anos, os frequentadores da Portela terão que pagar uma taxa de 7 a 8 Euros por voo. Dá vontade de tudo fazer para passar a voar apenas a partir de Madrid, Badajoz, Faro, Sevilha, seja de onde for.


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Presidenciais

Há figuras assim: exilam o olhar dos outros. Não são propriamente Acácios; mas são as efígies que os Acácios adulam e de que necessitam para respirar e sobreviver (ver mais no Idade Média).


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Folhetim

O Trevo de Abel - Episódio 39
Terceira Parte: O tempo de Abel
Folhetim do Miniscente
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Bom, e para terminar o telejornal com algum suspense - a pivot ri-se com ar atormentado - deixamos aos senhores telespectadores uma história verdadeiramente admirável. Este senhor que vêem nas nossas imagens é o egípcio Muhammad Mubarak, mágico e prestidigitador, que, após alguns espectáculos no Cairo, deu uma entrevista ao Sunday Egipt onde disse que, em pleno planeta Terra, existia um homem que já tinha morrido uma vez e que, apesar disso, ainda vivia. Mas o mais interessante, segundo Mubarak, não confundir com o presidente do Egipto, é que o homem em causa é um português de gema. A locutora, em voz que dizem ser off, simula depois um sorriso de grande autenticidade e ternura e adianta - Não bastasse já isso, a verdade é que todos nós o conhecemos de nome, ou seja, tratar-se-ia de José Adão Ulisses Ferreira, imagine-se! Diz quem ouviu Mubarak que a história lhe teria sido contada, no passado Verão, durante um espectáculo seu, dado algures na Etiópia. O nome que o morto-vivo adquirira, na sua segunda vida, era qualquer coisa como Ulisses Caim dos Santos Trigo. Enfim, senhores telespectadores, não podíamos ter acabado de melhor forma este nosso telejornal. Continue connosco e tenha um óptimo serão, sempre na nossa companhia. Boa noite.
- O quê, ouviste aquilo pá? Aquele era o gajo que a gente capturou na Gago Coutinho - disse o chefe Madeira. - Já viste, ó Macedo, aquele nome diz-me qualquer coisa, não era o tipo das russas ali de Porto Brandão? - disse o senhorio da casa da Rua das Flores. - Chega aqui filho, ouve lá, esse tipo que te tramou a vida não era um tal Caim dos Santos Trigo? - disse a mãe de Porfírio, trémula, no hall da pequena casa de Campolide. - Inventam com cada coisa! Ainda ontem estivemos aqui à noite a falar dele, não é engraçado? - disse Leonor. Abel, por sua vez, levantou-se, limpou os lábios com a ajuda do enorme guardanapo branco e, ainda a mastigar, nervoso, levantou-se da mesa, correu, correu e foi dizendo que tinha pressa, que já vinha; - Deixa-me só lavar os dentes, é só um bocadinho. Disse. Abel chega entretanto à casa de banho, abre as luzes laterais do espelho, encosta-se ao mármore da bacia e encara o próprio rosto, face na face, imagem trocada e truncada pelos seus nomes sem nome, olhos nos olhos diante do espelho. E agora? O que vale é que o raio do Preste não conheceu a minha terceira vida, haja pois sossego! E Abel, naquela posição de confronto consigo mesmo a falar sozinho, a segredar, a temer talvez o pior. Mas por que não me sei eu calar, porquê? E se o Porfírio acaba por falar? Mas, também... que pode ele provar? Eu, a todos os títulos, estou morto, não é? Não é assim? Abel de olhos vermelhos em monólogo assustador, perdendo o controlo, a questionar, a questionar-se: estarei vivo? E o que é que me aconteceu, durante este tempo todo? Porquê eu? Abel passa com as mãos pela testa, parece gemer, abre e fecha os olhos, volta a monologar, a questionar, a mão agora sobre o peito... até que, por trás, sem mais, em silêncio perfeito de esfinge, surge Leonor.
- Que é que estás a fazer, querido? Não te sentes bem? O que é que se passa? O coração a galope, acelerado e eu branco, pasmado, virando-me para trás. - Querida, eu estou aqui... com umas dores estranhas no peito, sabes? - Mas vê lá se queres que eu chame o doutor, com essas dores nesse sítio não se brinca. Foi agora enquanto comias, foi? Mas... por que não me contas tu o que sentes? Se te doía o peito, devias-me logo ter avisado! Parece até que... andas estranho nos últimos tempos! Estás com suores frios, é? Eu vou chamar o doutor, está bem? Sempre é melhor. - Não, não faças isso, não vale a pena, isto já está melhor, juro. Olha, põe lá aqui a mão, vês? Vês que não estou com nenhuma arritmia? Vês? Só ia lavar os dentes, não te impressiones, se calhar comi depressa demais, não achas? - Vê lá, querido, estás tão estranho! Não queres hoje descansar? Deixa o táxi por uns dois dias, vá lá! Se quiseres eu também meto atestado e não vou à escola. - Não, isso nunca. Garanto que já estou bem, deixa-me lavar os dentes e depois saímos juntos. Vou levar-te à escola e vou para a praça que até é um sítio tranquilo, descansa que já me sinto mesmo bem, está bem? Pronto, se assim o dizes. - Mas sem pressas. - Certo. Combinado.
A meio da tarde, o telefone da praça de táxis chamou Abel à Idanha e o carro seguiu lentamente, com o condutor bastante apreensivo, curva após curva, ao longo da Avenida Veiga e Cunha, entre paredes recheadas de heras e muros claros. Ocorria-lhe a grande tromba de água por que passara a ocidente de Ceilão, ou o rosto magro e quezilento de Preste Nekemte; as mil histórias de mar e os olhos meio demoníacos do etíope que, de repente, passavam a anil baço. Sentava-se depois no chão do convés, acendia a pequena vela que trazia no macaco e contava histórias de um reino onde nasciam mulheres de bigode e homens com cornos em sangue. Em Djibouti, já na estação, perto da bilheteira, chamou-me à parte e disse - Olha, tem cuidado que nesse reino havia muitos como tu. Conheço bem o que são homens com vários cérebros, corações ou almas, sim, almas fora do corpo correcto e corpos trocados da sua alma. Essa gente é convulsiva, perigosa. Tal como César ou Napoleão. Tem cuidado, não corras riscos, isto que eu sei são histórias que vêm dos confins do tempo. Se não ligares a estas palavras, hei-de ainda falar de ti. Sorri e vim de novo ter com Porfírio que estava com o carrinho de bagagem na mão. Esta gente é toda maluca, pensava eu.
O caminho para a Idanha não é longo, mas está cheio de casas surpreendentes, inóspitas, quase coloniais, estampadas por madeiras de cor pastel, azuladas, afastando-se da estrada por quintais cheios de labirintos, fontes secas, arbustos cansados, oliveiras idosas e hortas meio abandonadas pela humidade dos penhascos. Depois, surge a Quinta da Oliveirinha, surgem as trepadeiras debruçadas em frente do chamado Pacato´s bar e surge ainda a grande mansão meio fantasma, meio assombrada, rodeada por sebes densíssimas, pinheiros bravios, tubos retorcidos para escoar as chuvadas nocturnas e, no topo, no cimo quase inacessível da cumeada, duas palmeiras a escalar o céu com os seus dois troncos muito alongados e estreitos, deixando as copas a flutuar entre nuvens, entre esse logro da respiração divina e da nossa ocultação sem nome. Abel entrou finalmente com o táxi na Idanha, depois de ter percorrido, com olhos assustados e muito vermelhos, essas mágicas palmeiras, esses misteriosos caminhos, esses terríveis prenúncios de vales e vistas, talvez mais frondosos dos que envolvem a estação de caminhos-de-ferro de Djibouti.
Preste Nekemte avisara, é verdade, estou ainda a vê-lo dependurado no comboio quase pré-histórico que partia para a Etiópia. Porfírio levantava as suas mãos de gigante e gritava até breve, até breve. E eu a sorrir, a pensar em Lisboa, na Sara, na minha infinita e desejada Stone. Eu, em estado de estupefacção total, a querer-me vingar dos desgraçados dos Coimbras e vendo naquele Preste um mero embarcadiço delirante, embora, devo reconhecer, me tivesse feito estremecer, pensar, delirar. É que parecia querer penetrar dentro do meu mistério insondável e até conhecê-lo, dominá-lo. Foi há milénios, tudo isso. Há milénios. De regresso à Praça 5 de Outubro, Abel cruza-se agora com a bizarra agência funerária da Victor Cordon que, entre paredes esquecidas, a estalar de cal e tinta esbranquiçada, ostenta, mesmo ao meio, a escultura vermelha de uma deusa pagã a desfolhar um trevo de três folhas na mão. Ao fundo, o largo, os fofos de Belas, os TIRs habituais para cima e para baixo, sacudindo os prédios frágeis desta vila que já viveu um dia a sua sonhada e nostálgica belle époque.
No dia seguinte, ‘O jornal da Capital’ fazia capa da história do morto-vivo e dizia: “Desde ontem que o túmulo de Adão Ulisses tem sido visitado por inúmeras pessoas, ligadas à lenda viva do paladino de 'Tostões e Biliões'”. E acrescentava, no interior: “Embora sem confirmação oficial, fontes seguras confirmaram a ‘O Jornal da Capital’ que a polícia judiciária está atenta ao caso e que, para além de ter desencadeado contactos internacionais sobre a estranha ocorrência, também já inspeccionou as campas dos nomes referidos pelo mágico egípcio. Ou seja, não apenas o túmulo da conhecida vedeta, Adão Ulisses, mas também a campa do meliante Ulisses Caim. A curiosa parecença dos nomes, pelo menos através da presença do enfático “Ulisses” em ambos, foi ontem motivo do programa radiofónico ‘Escárnio a bem dizer’ da ‘Emissora Regional de Lisboa’. Enfim, é um tema que promete ainda fazer correr muita tinta, quando, de início, apenas parecia matéria de chacota, ou mote para um fugaz e meteórico primeiro de Abril. De facto, é caso para dizer que o nosso estimado Adão Ulisses, de boa memória, tinha que continuar a fazer-nos rir e também a pensar, mesmo depois de morto “, concluía o porventura inspirado articulista de ‘O Jornal da Capital’.
Abel fechou o jornal, colocou-o sobre o banco e suspirou. Com o olhar parado, quase imóvel, o nosso homem parecia dizer, sem o dizer, que a vida é disfarce, farsa bem contada, dissimulada, que a vida é desdobramento, duplo. Que a vida é caçada de fantasmas, que a vida é a rapidez de disfarce, eficácia de farsa, relato convincente de dissimulação, que a vida é a tentação do duplo, que a vida é uma derrapagaem desabrida entre jogadores e presas.
Em frente, sob a luz do fim da tarde, a Casa de saúde das irmãs hospitaleiras mantinha a sua fixidez habitual. Portadas azuis sobre paredes amarelas, ocres, dóceis. Portadas em formato neo-gótico, talvez de supositório ou de foguetão, quem sabe se de fantasma? Quem me dera ser o Fritz Lang, pensou por fim Abel.


segunda-feira, 21 de Novembro de 2005

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Coincidências e décadas

Faz agora dez anos (de hoje a oito dias, mais precisamente), fui a Utreque defender uma tese. Quando regressei a Portugal, soube no aeroporto da morte deste senhor a quem, duas décadas antes, tentara tirar nabos da púcara diante de uma câmara televisiva. Fica a imagem para colar a retina à imprecisa rotunda onde, às vezes, fortuitamente, se dilui a memória mais involuntária.

"Eu tinha grandes naus", não era meu caro Assis Pacheco?


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Seca sem agravo

Um blogue 'exclusivamente político' tem sempre tendência a encerrar-se a si mesmo numa lancinante correria atrás da agenda que lhe é dada. E é por isso que quase se limita à mimetologia aristotélica, ou seja: a techné cumpre, por um lado, o que a physis é incapaz de realizar, mas, por outro lado, imita-a". Schiller diria que sim, embora sem grande propensão para as imitações. Talvez os blogues 'exclusivamente políticos' devessem beber um pouco da água criadora de Schiller.


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Ler grande reportagem "Avatar"

Tudo se passou entre Tete e Chimóio. A situação excede a moral da história. Mas ambas são interessantes e fiéis a um princípio que se procura e persegue. Qual será, não se sabe (há aqui eco de Jorge de Sena). Mas está lá. Inteirinho. A ler.


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Fragmentos, narrativas, actualidade

Uma brevíssima reflexão acerca publicação de folhetins aqui nos blogues: uma sequência novelesca de pequenos episódios faz crescer as audiências; uma sequência romanesca de grandes episódios afugenta radicalmente as audiências. Experiência própria. Só aqui para nós: O Trevo de Abel tem já um tempo de vida muito curto: acaba na próxima Sexta-feira. Depois, é claro, voltamos de novo ao convívio em massa (presidenciais, micro-causas, escárnios, empatias, polémicas, romances do século, posts de leitores, as mais curtas histórias do mundo, links, vaidades vitais, invejas, truca-truca, ditos risíveis, bibliotecas de papel, politiquices, ilusionismos, sitemetergate e ainda o estado do Lula).


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Folhetim

O Trevo de Abel – Episódio 38
Terceira Parte – O tempo de Abel
Folhetim do Miniscente
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Era muito tarde, era já noite, quando Leonor entrou em casa. Chovia sobre Belas, sobre a serra, sobre as encostas do Telhal e as nuvens seguiam rasteiras em direcção às terras saloias, a Lisboa, ao interior carregado de pinheiros mansos, calcários antigos, vinhas abundantes e trevas. Preparei-me para descer do sótão até ao andar de baixo e a tempestade parecia acentuar-se; o granizo batia com força nas telhas, eram pancadas secas sem fim, medonhas. E Leonor não se calava.
- Mas... foi muito bom ter saído, sabes? A Luísa é uma antiga amiga que eu conheci, quando ia comer à cantina da câmara... porque dava aulas ali ao pé na altura, numa escola da Junqueira. Ela foi casada com o Adão Ulisses, aquele da televisão que já morreu, lembras-te? Era bom homem. Conheceste-o? Sim, imagina. Quando era mais nova, costumava dizer às minhas amigas que eu e ela, a Luísa, éramos como Evas do mesmo Adão. É que, em adolescente, tive uns namoricos de praia com ele. Depois, é evidente, nunca mais o vi; é assim mesmo a vida. Estranhas? Mas foi verdade. Para que saibas. Tem graça, não tem?
As mãos de Leonor acompanham o movimento das palavras até ao peito, parecem taças que recebem de muito longe o líquido precioso da infância. Deixa subitamente de sorrir e está agora em minha frente como se fosse no eléctrico fantasma de antigamente e os nossos pés se tocassem; falavas alto para que o motor fosse apenas música de fundo, ou um coro sumptuoso elevado pelas begónias e mimosas da grande serra; falavas alto e os miúdos perguntavam se eu podia dormir lá em casa e tu, lembro-me bem, quase coravas e dizias que não com a cabeça; as sombras das ramagens e dos sucessivos troncos de plátanos cruzavam-te o rosto como se te tornasses no imenso ecrã do meu primeiro e enternecido cinema. É isso o amor? E agora está aqui em minha frente, voltas a mexer os lábios com a maior das dádivas do mundo - Tem graça, não tem? Continuas com as mãos quase agarradas ao peito, dedos virados para o ar, para a incandescência frágil do que nos ligará; nem tu própria o sabes, nem imaginas, mas, de qualquer maneira, ainda aí estás, efusiva, doando-me a expressão mais profunda e sincera de ti, ao contares-me o teu mundo, abrindo-o sem limites.
- Tem graça, não tem?
Respondo que sim, talvez pudéssemos ir comer fora, é tarde, mas o que ressoa ao longe é o temporal, o granizo, nada a não ser o testemunho obscuro do mundo em movimento. Comemos apenas torradas, o ruído da televisão, os passos cruzados no corredor e o sono; palavras vãs, entretecidas a sós, e o que é a história de um dia por contar, ao serão? Sim, é isso mesmo, a vida toda. Foi melhor não termos saído, parece que já há menos chuva, faz-se tarde, talvez eu esteja excitada dos encontros de hoje e por isso ainda não tenha vontade de ir para a cama, e tu? Eu nem sei, estou calado há tanto tempo e o ecrã da televisão agita-se sobre legendas, cores difusas, um regatear de retratos sem tempo, nem lugar.
- Está bem, está bem, nesse caso vou à cozinha abrir mais uma cerveja. Pela rua estreita há sempre carros que passam, expiações em alvoroço, sinais de vida, companhia. O homem é um ser gregário e por isso gosta de partilhar a chuva que agora acalma, as tempestades, as palavras, o som dos motores e até os gestos. Leonor estica os braços sobre a mesa, encosta a cabeça com a mão e aponta para a televisão - Olha aquele é parecido com o Adão, não é? Aquele, quem, onde? Assusto-me, mas não o digo; olho mas nada pressinto. Sorrio e acrescento qualquer coisa sem sentido - Ah, pois é, mas quem será? Quem é?
Talvez exagere no tom da pergunta, na prosódica, no timbre carregado. Leonor volta a endireitar-se na cadeira e repete pela segunda vez
- Então não vês que é o personagem do filme? É o filho da Laurence que fugiu de casa, não estás a seguir o filme? Mas que filme ando eu a seguir na minha vida, há tanto tempo, há uma imensidão sem nome? O meu filme é este puzzle sem rosto, esta charada sem nexo; talvez seja apenas uma cabala elementar, ou tão-só o abismo de mil palavras cruzadas que entretêm o lazer ou o tempo, parece que estou a ver o médico na esplanada do Café Parque devorando-as sem parar, até ao desfecho, ao termo, ao limite.
Olha para dentro do saco da fruta e para as tetas da saloia anafada e a Dona Olga chega de braço dado com a irmã. Vêm depois os cafés, o carioca e o empregado mexe no bigode, olha para os pombais azulados, tosse. Dona Olga pergunta à Leonor se ainda quer, um dia, ser mãe. A mulher do médico sorri, falta ainda algum tempo para que o marido remate as palavras cruzadas, mas o jornal ocupa meia mesa, será impaciência, será hábito, será o quê afinal? E a irmã da Dona Olga volta à carga, os bebés são a melhor coisa que há na vida, não acha? Não, não, tudo o que é pequenino, as flores, os cãezinhos, até as miniaturas das raposas que tenho lá em minha casa. Risos. Bebo o meu chá de limão, ouço os TIRs cruzando impiedosamente o sossego de Belas, risos, e o empregado tossiu outra vez e reentrou no café. O que acha, senhor Abel?
Parou a chuva, o filme está quase a acabar e eu volto ao frigorífico. Nessa noite, Leonor agarrou-me com muita força no cotovelo do braço esquerdo. Parecia querer aí encontrar uma senha, um indício, uma ternura demorada. Que lindo braço tens tu, silenciou. Lá fora, a chuva ainda mole e leve escorrendo nos vidros; o céu lilás e macio, fazendo lembrar outros episódios mais sombrios. O que acha, senhor Abel? Minha senhora, sabe, a vida é como um jardim onde tudo nasce e cresce! Que poeta me saiu o senhor Abel! Dona Olga acrescenta: está quase sempre caladinho aí com o seu chazinho, mas quando fala diz coisas muito lindas. O médico bate com a mão na mesa; são as palavras cruzadas, deixe-o, é sempre assim, gosta de as fazer, mas aborrece-se com elas! A mulher do médico desculpa, justifica, sorri e volta a olhar de soslaio para Dona Olga. Agora percebo que a Leonorzinha esteja... tão contente e feliz, não é? Ó senhor doutor, então diga lá a palavrinha que não é capaz de descobrir? E ainda por cima só falta essa para acabar tudo? Veja lá. Pode repetir, pode? Ah bom, é o seguinte: ponto alto entre duas ou mais rios mas que não faz parte da rede hidrográfica de nenhum deles. Estranho, diz Dona Olga; Inventam cada coisa, diz a irmã da dita; deixa lá isso, hoje, diz a esposa; eu sou professora, mas desculpem... é que não sei mesmo, diz Leonor. E o senhor Abel não nos diz nada, não?
A meio da noite, Leonor acordou e olhou insistentemente para Abel, enquanto o antigo Caim e Adão dormia do outro lado desse olhar penetrante e demorado; é um olhar anatómico, carinhoso, mas, ao mesmo tempo, surpreso, e até algo admirado. É o olhar dos amados que não distingue ainda a diferença entre a ilusão óptica e a ilusão amorosa, mas, agora, parece o olhar de Leonor querer desvendar física e friamente o que os sentidos lhe dão, na realidade, a ver. A respiração tranquila, as costuras atrás da orelha, o acidente, coitadinho, como terá sido? Mas, de novo, com alguma insistência, a mão de Leonor volta a avançar sob o edredão e mexe ao de leve no cotovelo, no braço de Abel. De onde conheço eu esta carne tão íntima, este vigor, esta forma invisível? Leonor olha para a janela, salpicos de chuva sem direcção, lentos, escorrendo sobre as minúsculas vidraças e Abel quase a despertar, sob o efeito da carícia que lhe tolhe o braço, o antebraço, o estreito cotovelo, essa forma íntima e antiga. E o senhor Abel não nos diz nada, não? Olhe, acho que esse ponto se chama "o festo". Sim, "o festo". O doutor levantou a cabeça, ostentou o brilho da sua cabeleira branca impecavelmente penteada e disse baf baf baf. Dona Olga juntou as mãos e pensou que este era, de facto, o marido perfeito para a Leonorzinha.
E a mulher do médico a dizer que era já hora de irmos embora, pagam os cariocas e os cafés e eu a perguntar, então está certo senhor doutor? O homem olha para dentro do saco da fruta, volta a cabeça para o escorrega do parque infantil e diz que sim. A irmã de Dona Olga está atenta ao relógio, que é ainda cedo, diz melosamente; falta ainda tempo para o almoço... e Leonor a pensar, mas terá o médico ficado sentido? Abel põe a chave do táxi em cima da mesa, despede-se, há sorrisos de infinita afinidade, vou-te buscar à escola às 6, está bem? Leonor ficou com o mesmo olhar anatómico, carinhoso, mas, ao mesmo tempo, surpreso, e até admirado.
Por que é que o Abel se levantou da mesa, de modo tão brusco? Pergunta para si Leonor, quando o médico e a mulher já entraram no carro. Dona Olga repete: aquela senhora é mesmo muito difícil. Ao longo da vida toda, sempre, sempre deu cabo do senhor doutor, sempre; então havia lá agora razão para se irem embora! A irmã de Dona Olga concorda e Abel já está de pé e repete, vou buscar-te à escola às 6, está bem? Leonor fez o tal compasso de espera, olhou com a alma vazia por instantes, mas logo contracenou. Claro, até logo, querido; até logo e não demores. Dona Olga enternecida com o casal e temendo não ver o médico amanhã e depois de amanhã, sabe-se lá até quando.
Nessa noite, já nem sei se foi no fim-de-semana ou depois, acabei por acordar às 4 da manhã e senti a mão de Leonor à volta do meu cotovelo. Olhava-me com uma expressão enredada, enigmática, talvez fosse da minha respiração e eu perguntei:
- Estava a ressonar?
Leonor sorriu, afagou-me a testa e disse que não.
Com a ponta dos lábios muito vermelhos e encorpados.


domingo, 20 de Novembro de 2005

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Tirada pós-moderna

Na semana que acaba de passar, as autoridades francesas afirmaram que tudo tinha regressado à normalidade. Afinal, apenas duzentos carros haviam ardido. Moral da história: há um país na Europa onde a normalidade é medida pelo número de automóveis que os seus cidadãos incendeiam numa só noite.


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O mais curto sermão - 45

Caminhavam com fúria, desfalecidos, um misto de ira e de cólera. Quando chegou o crepúsculo, perto já do promontório, o sargento gritou para os recrutas: “Corram todos imediatamente em direcção à falésia”. Só João G. não abriu o pára-quedas. Um bom Franciscano adora sempre pregar aos seus peixes.
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Ponto final.


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Folhetim

O Trevo de Abel – Episódio 37
Terceira Parte – O tempo de Abel
Folhetim do Miniscente
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Dei boleia à Leonor. Era a segunda vez que vinha a Lisboa desde que a vida me fez ser Abel. Levei-a ao Campo Santana e, depois de a deixar do lado do Patriarcado, dei a volta ao jardim e estacionei. Do outro lado, a uns cinquenta metros de distância, vi o corpo talvez mais esbelto e alto de Luísa. Vinha com saltos muito altos e uma espécie de vestido azul-escuro com rendas claras ao longo dos ombros. Luísa, a abandonada, a falsa viúva rica. Deu-me vontade de rir ao revê-la, ali, pela primeira vez, ao fim de tanto tempo. Eu tirava e punha os óculos escuros, baixava e subia as palas do carro, agitado que estava com estas coincidências destemperadas. A Luísa. Descia comigo pelas escadas rolantes do Rossio, ouvia-me cantar com voz de tenor nas caves de Linda-a-Velha, voava dentro das ondas como uma sereia. A Luísa. E agora estava ali, sentada mesmo ao lado de Leonor, a antiga filha do solstício. Se as duas soubessem, se imaginassem!
Do outro lado do jardim, frente a frente, esboçavam sorrisos, gestos e uma conversaria de arrazoados sem fim. O amor é como o sabor a ostras, uma impressão desalmada que arrebata qualquer um. De barba mal feita, mão no queixo e riso desenfreado, contido, Abel pôs de novo o carro a trabalhar e desceu à avenida. Que saudades de Lisboa, outra vez! Por que tenho eu a mania de que me possam reconhecer, se no tempo do Caim isso não acontecia? Intuições, meu nitrato de sódio, intuições, dizia-me a Arlete com a sua voz batida, trilhada. A desgraçada veio das brenhas e teve azar. Onde morará hoje? Parece que foi agora que entrei na casa da Bica e ela queria pôr fogo naquilo tudo, chegou a encostar o isqueiro à cortina e depois à toalha junto do fogão. Tive que andar com o cobertor na mão a apagar o perigo. Dizia que eu não lhe ligava, que não lhe passava cartão, que no fundo se sentia apenas uma boa puta de alterne. Tudo isso foi já no tempo do ‘Limões e Biliões’. E como ela tinha razão.
Belos tempos, belos tempos, dizia Abel diante dos semáforos dos Restauradores, do Avenida Palace, da Estação do Rossio. E, de longe, a acenarem com lascívia, aqueles lábios muito vermelhos, encorpados, atiçando murmúrios e sons; gestos depois reunidos em palavras, meio acabadas e articuladas com demorada languidez: Leonor, Luísa, amor, - diria o meu fado. E deste modo o fui cantando pela 24 de Julho, olhos postos no sol e na mais remota lembrança, mergulhado que ia também no saber do acaso e na doutrina dos desacertos, senão mesmo na instrução perdida da felicidade:


Leonor Luísa Amor
Pelo vosso coração
Canta a minha dor
As rosas desta visão

Leonor e Sara Amor
Pela vossa felicidade
Canta este meu ardor
A flor de lis da cidade.


Passei Alcântara e, de repente, decidi seguir ao largo das águas. Vi a foz do rio, Algés, o Bugio, Oeiras, Estoril. Pena é que a minha voz de Adão se tenha quase perdido, depois da primeira operação. Pena é esta ruína que eu sou. E vi Carcavelos, S.Pedro e o azul sempre azul. E vi fados nesta cor de mar, de que foi feita a excitação das minhas vidas e também o furor deste momento de súbita felicidade. Vi coisas que não cabem em quadras e vi vontades audaciosas de ser outro, outra vez e sempre; fosse quem fosse que não eu mesmo, Adão, Caim ou Abel. Por dentro, sentia que morria e vivia sem nexo, mas, nesse bate bate, nesse alarme bizarro, era absorvido pela mesma canção, pela mesma intimidade e pelo desejo. Sabor a ostras, a amazonas perfeitas, a seios de ouro dominando-me o destino. Até que apareceu S.Pedro, Estoril e Cascais. estaciono, paro, procuro uma lista telefónica e descubro por fim o verme do apelido da viúva rica, a Luísa infiel, a Luísa maldita. Afinal, é mesmo ao lado da Praça de touros. Circulo e, de novo, me advém a rebentação, a areia, o céu, a natureza em rocha e o mar fundidos para sempre. É como se na minha frente surgisses e tivesses os lábios sempre vermelhos, encorpados, ateando sussurros, sons e acenos reunidos em palavras articuladas com demorada lascívia; são palavras líquidas, arrastadas até ao meu ouvido que já não ouve e apenas te olha. Mas eu não te vejo o rosto, nem o apelo que me lançarias. Onde estarás? Tão longe. De onde virás? Leonor, Luísa, estou perdido entre vidas vividas, cruzadas e tanta memória trocada, truncada!
Paro o meu táxi estrategicamente e espreito para a grande casa onde mora Luísa. Não estarás, Luísa, eu sei, mas vejo uma empregada a limpar os vidros; vejo cães que ladram atrás dos portões e das grades; vejo sebes densas e a cor rosa clara que faz esquadria às portadas das janelas; vejo antenas, câmaras de segurança, telhas com clarabóia e o alarido do vento do Guincho. Vejo tudo subitamente. É como se conhecesse de cor o leme da felicidade e nunca o tivesse partilhado. Vejo a vida toda, subitamente. Onde estás? Tão longe. De onde virás? Leonor, Luísa, estou perdido e rio-me alto, muito alto. Rio-me de todos os cenários que a vida, hoje mesmo, me deu a ver, a conhecer. Sim, onde estarás? Pergunto eu e a mulher, impassível, continua a limpar os vidros com mãos de ovareira, e as sebes a ondular na brisa e, por cima, a clarabóia a reflectir a antiga luz desse mar tenebroso e belo que me faz lembrar Banguecoque, Djibouti, Colombo, o Pireu. Ó alma incendiada, por que não consigo saciar tanto desejo, sem nome, sem corpo, sem destino? Onde estás? Donde virás, neste final de dia sem qualquer história? Que me acontecerá no termo de mais uma vida? Por que perco eu, afinal, o próprio amor pela vida? Porquê? Por que trevo de quantas folhas?
Estou de novo na marginal e vou pelo Guincho, Cabo da Roca, Colares, Sintra; vou pelas montanhas do início do mundo. São elas que protegeram, há muito, o labor indómito de Ulisses. São elas que me deram pousada e horizonte nesta terceira vida. Para onde irei? Era como se chegasse ao palco, os holofotes já acesos, as bancadas cheias de uma multidão incinerada e eu a correr, a correr; pouco depois, apareço frente às câmaras; pisco os olho às produtoras, belisco o rabo à anotadora, abro a boca, os braços, os olhos e puf puf puf, em directo para o país todo, são vinte horas certinhas; e hoje, amigos, depois das notícias do mundo, o tempo e a música; o ritmo e o movimento; você já sabe que não é apenas espectador, é sim o meu maior e melhor amigo; amigo íntimo, companheiro de jornada, luz desta luz que não é palco, nem fingimento; é vida! Sim, sim, a sua vida é a minha vida. Eu sou a sua vida aí em casa, na sua casa e você está aqui como se a sua vida fosse este show! Eu sou a empatia e a simpatia que é só sua, afinal, aqui e hoje, neste ‘Limões e Biliões’! Hoje, meus amigos, sorteamos quase cem mil contos e dois BMW... da série que você vai, desde já, adivinhar. Depois das onze horas, virá o desporto, a entrevista, o universo VIP e a carolice do Hertzan-BIC para que haja riso, riso, riso. Curva à esquerda, curva à direita, e o carro a subir à vila velha; bons tempos em que o eléctrico funcionava e tu, Leonor, dançavas com os teus lábios nos meus, por cima desta névoa rasteira até ao Palácio da Pena, ao céu. Onde estás, donde virás? Diz-me. Porquê eu?
Diz-me. Silêncio, o doutor avançou até mim e disse-me como se fosse pecado - São dois corações, senhor Adão. Sim, é melhor tirar um, nunca vi nada assim. O homem tinha a bata branca congestionada, manchada de sangue escuro, mas estava branco como o deserto e olhava para mim com cara de terrorista, saqueador de bruxedos ou de impropérios à solta. Eu, José Adão Ulisses Ferreira, sujeito a isto tudo? Ó senhor doutor, desculpe lá, mas por que é que a enfermeira ficou mal disposta? Não, não se pode dizer ao país. Quer perder o emprego, quer? Veja lá. Portugal não pode passar sem si, sabe? Você sabe isso muito bem. Mas porquê esse ar de carniceiro, será que me tornei em tuberculoso sem cura? Terei peste suína ou outra qualquer? Avance-se com a operação. Claro. Claro. Para a faca. Porquê eu?
Fiquei ao longe, muito ao longe, era a anestesia. Maus augúrios, fios lentos desligando-me de vocês os dois, vermelhos, sim muito vermelhos e cheios de batom; esses lábios vermelhos, encorpados, ateando sussurros, sons e acenos reunidos em palavras já sem sentido, articuladas com demorada lascívia. Eram palavras líquidas, arrastadas até ao meu ouvido anestesiado que já não ouvia nem escutava. E depois? Acordei, é cedo, muito cedo ainda. A vida está por um fio. Está? Está? Ninguém responde. Tento telefonar para Barcelona e ninguém atende. Hei-de conseguir, hei-de conseguir. Chego a Sintra e viro na direcção de Belas. Vou aproveitar para descansar. Sinto-me atordoado, a transbordar de memória, de mim. Farto da vida. Segue-se Pero Pinheiro, passo pelo campo de golf, pelo Sabugo e dirijo-me finalmente a casa. Subo as escadas, atravesso a malfadada cozinha e vejo-me a correr, desvairado, até às águas-furtadas. Parece que nunca saí daqui em toda a minha vida. Não, a Leonor hoje regressará da visita à Luísa, não da escola. Não te enganes Abel, Adão, Caim. Não te enganes, vê lá no que te metes. A vida talvez esteja mesmo por um fio. Onde estás? Estás Longe? O que me terá hoje acontecido?
A quem é que tu perguntas isso tudo? Não sei. Deixem-me mas é olhar pelas vidraças das águas-furtadas e sonhar.
Ao menos isso, sonhar.


sábado, 19 de Novembro de 2005

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A mais curta história de um invento - 44

Sob um tufo de silvas bastante denso, Semião descobriu uma folha de bronze carregada de estranhos e enigmáticos sinais. Acabaria por ser a descoberta mais importante do século. Afinal, havia animais que falavam e escreviam entre si.
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Ponto final.


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A mais curta lenda falhada - 43

Conheceu Eva Duarte em Janeiro de 1944, quando um amigo pintor o convidou a ir a uma festa de apoio às vítimas do terramoto de San Juan. Tudo podia ter acontecido entre eles. Mas Juan Peron antecipou-se com um secreto licor entre mãos e o resto é bem conhecido.
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Ponto final.


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Folhetim

O Trevo de Abel – Episódio 36
Terceira Parte – O tempo de Abel
Folhetim do Miniscente
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O Príncipe Real de Lisboa já foi chamado Alto das Cotovias e conheceu perto de si a graça de muitos vendavais e moinhos de vento. O Príncipe Real de Lisboa foi local de lixeira do Bairro Alto, de ruínas sucessivas e de acampamento militar a seguir ao maior dos terramotos. O Príncipe Real de Lisboa foi lugar de forca, de Basílica Patriarcal, de incêndios e voragens. O Príncipe Real de Lisboa foi miragem de construções faraónicas, foi cabouco do erário e, de novo, entulho restaurado. O Príncipe Real de Lisboa foi o ponto alto de muitos esquecimentos e de planos infrutuosos.
Por agora, esquecidos da história mais irremissível e perdida, os cedros de folhagem aberta descansam apoiados nos caramanchões e a noite parece finar-se na timidez ainda lúgubre do dia. E este é o dia em que tudo, quase de certeza, irá acontecer. Abel está cansado da imensa história que vem contando ao grupo que o acompanha, há já horas e horas. Abel senta-se num dos bancos, fecha os olhos, quase dorme. Deixa por momentos este mundo e assim dorme profundamente por instantes, Abel.
À volta, como se apenas tivessem passado segundos durante as últimas horas, o diálogo precipita-se. Inicia-se:

Isabel - O que é que queria Isaías dizer com tudo aquilo?

Dona Joana (extenuada) - Referia-se, quase com toda a certeza, ao encontro que ontem tivemos com ele, junto ao Mercado da Ribeira.

Lopamudra de Vidarbha - Mas o Isaías aparece nesta história como Judas, ou antes como o bom amigo que avisa de perseguição iminente o próprio acossado?

Júlia - Não sei, talvez as duas coisas. Eu sou muito desconfiada.

Altino de Mendonça - E acham mesmo que a Leonor não reconhece no Abel, pelo menos na intimidade, qualquer coisa do antigo namorado? É que, quando eu há pouco disse - “tomai e comei” - era nisso que estava a pensar. Ou seja, a presa reconhece sempre o seu caçador, mesmo depois de morta. Não vos sabe muito melhor um faisão caçado por vós, do que por qualquer outro deputado da nação?

Zorba - Vê-se mesmo que vives noutra galáxia, ó pobre homem de S. Bento. É evidente que há coisas dessas que se sentem. Mas são coisas sem tradução. São apenas manchas muitos distantes da nossa consciência. Eu, na Grécia, há muitos anos, senti isso mesmo. Achei-me subitamente de amores por uma mulher alta e vestida de negro. Dançava com ela dia e noite, transfigurado, e, por isso mesmo, me baptizaram por Zorba. No fundo, essa mulher, retirada a máscara veneziana ao fim da festa das sete noites, era, imaginem, a minha própria irmã, ou seja meia-irmã. É que o meu pai também foi embarcadiço e fadista. Leram os Maias?

Isabel - Ó pai, isso é uma coincidência incrível. Nunca me tinhas contado isso.

Zorba - Pois não, filha. A vida é assim. Uma autêntica caixinha de surpresas.

Senhor Gouveia - Mudando de assunto, aquele mordomo catalão de traços orientais era, ao fim e ao cabo, amigo de longa data do próprio Adão, não era? Sempre me pareceu isso.

Zorba - Sim, sim, mais ou menos. Segundo percebi, logo no início da conversa, ainda no Cais do Sodré, o Adão, enquanto cantor e figura televisiva, tinha um filipino ou coisa do género como seu representante em Barcelona. Mas, de qualquer maneira, ele pagou-lhe sempre e bem; muito, muito dinheiro.

Sara de Belém - E as máfias da Catalunha não passaram por Portugal?

Sapateiro Palmeirim - É evidente que sim, mas isso só aconteceu depois do escândalo da Gago Coutinho. Os Coimbras já nem existem e os negócios com as russas estão hoje na mão de gente nova. São os Cortes Ingleses. São as OPAs dos dias de hoje.

Chico de Belém - E como é a vida de Luísa e da filha, hoje em dia?

Júlia - Penso que vive em Cascais, fez um casamento bom e dedica-se a fazer festas. Contrata criados de papillon, encomenda cozinhados sumptuosos e paga às revistas do social para testemunharem o feito. Fica muito contente com isso e, depois, vai vivendo desses rendimentos fotogénicos. Às vezes, e porque tem certas heranças nostálgicas, organiza encontros com antigas amigas, mas sem convidar os habitués do jet set. Nada melhor do que separar águas para estar sempre bem consigo mesma.

Dona Joana (consumida pelo cansaço) - Então... foi por causa disso que a Leonor recebeu aquela chamada no telemóvel...

Júlia - Exacto.

Dona Joana - Estou a ver, estou a ver.

Senhor Gouveia - Uma coisa é certa: quando ele ressuscitou, deixem-me empregar esta palavra só para ser prático; dizia eu, quando ele ressuscitou a primeira vez, assustou-se muito e desinteressou-se depois quase totalmente pela sua vida anterior. Pelo contrário, quando passou de Caim a Abel, os pavores foram-se dissipando, a pouco e pouco, e, por trás dos apetites domésticos de Belas, surgiu-lhe até um certo interesse pelo passado.

Isabel - Talvez isso seja verdade, mas só em parte. Reparem que ele foi levado a recordar insistentemente o tempo dos seus catorze ou quinze anos, apenas porque reencontrou a Leonor. Acho isso uma coisa espantosa, a sério! Quanto ao resto, só o curso das coisas o poderá ditar, não é?

Sapateiro Palmeirim - Sim, sim, no entanto, se o Isaías andou a espalhar a nova pelos cais de Lisboa e se o Preste João da Etiópia, nos tempos que se seguiram, também espalhou a mesma notícia pelos mares televisivos do planeta, não é, pois, normal que a coisa tenha começado, com algum vagar, a soar também aqui por Lisboa?

Senhor Gouveia - É possível, é possível. Disso não me tinha eu lembrado.

Sapateiro Palmeirim – Claro. Não é assim que se fazem rumores? Penso bem que sim, porque é o mesmo que dizer que, quando alguma folhagem evita o sol de Verão, se esta o toma em cheio, é muito maior a sombra que o amparo sentido. Assim são também os que falam demais e intrigam, pois as suas esperanças tomam sempre praticamente em cheio a realidade das coisas de que falam e intrigam.

Zorba- Ó Isaías, és ainda pior que o deputado. Quando falas, não há palavra que se perceba!

Júlia - Mas... será o Abel, a esta hora, já um acossado?

Dona Joana - Em Francês é “A bout de souffle”, não é?

Sara de Belém (rindo-se) - Mas o Abel não é nenhum actor de cinema! Não confundamos as coisas!

Júlia- Quero eu dizer... não correrá perigo o Abel a esta hora?

Zorba - Não, tenham calma. Deixem o homem contar o resto da história. Não vêem que já abriu os olhos e se espreguiça?

Dona Joana (definitivamente exausta) - Diz-me a idade... que os bons presságios despertam sempre com o sono da manhã.

Isabel - Vamos sair daqui. Este lugar é bonito, por fora, todo ele feito de repuxos e cedros, mas, no fundo, tem uma história medonha: lixo, forca, entulho e incêndios!

Zorba - Ó filha, és mesmo impressionável diante das coisas mais normais deste mundo. Repara que a vida só separou, um dia, o que é normal do que é anormal por necessidades da razão, dos dogmas, dos mundos fechados. Por mais nada. Mas a vida é muito mais do que isso. Acredita.

Júlia - O Abel que o diga. Olha, que já se põe de pé e acorda.

Abel - O quê, o quê, de que falam?


sexta-feira, 18 de Novembro de 2005

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Risível - 7

Jan van Steen
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A palavra a Montaigne:
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"O lamento e a comiseração são misturados a uma certa estima pela coisa que se lamenta; as coisas de que troçamos, estimamo-las sem valor. Não penso que haja em nós tanta desgraça como vaidade, nem tanta malícia como loucura "
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(Essais, Vol. I., Cap. L, Gallimard, Paris, 1962, pp. 418/9)


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Folhetim

O Trevo de Abel - Episódio 35
Terceira Parte: O tempo de Abel
Folhetim do Miniscente
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E ao sair da Cruz dos Remolares, depois de encarar a luz do sol em forma de trevo, tive quase a ideia de ter visto um imenso pavão que, nos antigos banhos públicos, anunciava com voz humana coisas bem estranhas que se estão a passar nesta cidade de Lisboa. Disse-me essa visão que hei-de encontrar, no local dito de S. Paulo, o homem com várias vidas, o qual, parecendo morrer, continua vivo no seu corpo e espírito, viajando por esse mundo fora com o encanto interditado pelos muitos deuses criadores. Mais disse esse pavão de penas agitadas que o sol, no último dia da sua aventurosa vida, há-de desaparecer por minutos e desse eclipse nascerá, em certa cidade do mundo, um outro homem tão estranho como o de Lisboa. E enquanto regresso ao túnel da Rua do Alecrim e me encaminho agora para o Terreiro do Paço, mais ainda sinto que esse dia está para breve.
Durmo enrolado a jornais nas traseiras da gare, sonho e visiono coisas que escapam à ordem natural das coisas, mas não se pense que ando apanhado pelo cavalo ou por chutos de seringa infectada, nada disso. Nunca fui drogado, nem mafioso, nem sem-abrigo rotulado na testa, embora experimentasse tudo na vida. O que vejo e ouço são palavras sem som, são sons sem sentido, são sentidos sem norte. Se tivesse vivido há dois milénios e meio, talvez fosse profeta. Contudo, nesta vida de desnortes, carências e muitas dúvidas, aprendi a recortar retalhos de verdade através das figuras que as nuvens desenham neste estuário milagroso do Tejo. Subitamente, eis-me chegado ao Terreiro do Paço e as arcadas, a abertura do espaço, o arco regenerado e as colunas e colunatas voltadas para o rio definem subitamente um equilíbrio e geometria únicos que apenas, na velha Alexandria, se terá sonhado ou imaginado. Isto é o fogoso corpo iluminado ou iluminista, misturado com a perdição e talvez com a prova de uma beleza desencantada e em suspenso. Só aqui, neste breviário de encontros, poderiam emergir coisas estranhas que Lisboa conhece e que estão prestes a desocultar-se.
Neste locus da ordem e da delicadeza de contornos que é a Praça do Comércio, há uma memória do antigo Terreiro que era avermelhado, cheio de varandas contíguas e desalinhadas, quase flamengo e aberto apenas às marés, ao grande torreão do Paço e ao ímpeto mercantil da lendária Rua Nova. Isaías lembra o velho traçado, o ruído ao fundo da hecatombe, a tragédia precipitada e, diante de tal ondulação irregular da Ribeira das Naus, despontaria já, nesse ímpeto terrível de 1755, a nitidez, a definição e o rigor das formas anunciadas. Depois do estertor, veio o esquadro, a norma aparente e o tempo da magia só já submersa. É essa a história e a causa das coisas estranhas que se anunciam em Lisboa. No centro da actual Praça, D. José I ainda aspira à idealidade de um centro quase perfeito e, para sugerir essa mesma demanda imaginária, o cavalo em bronze que o transporta levanta, com imprevista leveza, uma das suas sete patas.
Ao entrever a fantástica desproporção, neste mundo esculpido pela maior das arrumações e aprumos, Isaías apenas consegue imaginar a ideia de voo, de descolagem, de Ícaro momentâneo que se aprestasse a sobrevoar e absorver o Tejo. É essa a sua visão mais momentânea que, entre a nuvem do comedimento e harmonia, aspira ao delírio e aos mil sortilégios que se possam supor. Mas Isaías sabe também que, desde os acenos em matéria de Ode ou verso popular até ao canto do Café Martinho da Arcada e ao recato do Cais Sul-Sudeste, nada mais paira senão mistérios, vogas marítimas, maresias de uma qualquer agonia luminosa e visionária. Isaías cruza em diagonal esta Praça Maior de Lisboa e não esquece de maneira nenhuma o pavão que, com voz humana, falou em alto e bom som de um tal Adão, Caim e Abel em trânsito por Lisboa; era um pavão que a luz do sol da foz do Tejo transformou em efígie na cabeça caprichosa e sonhadora de Isaías.
É verdade que, para Cesário Verde, os desejos absurdos de sofrer deverão ter tido origem nesta excelência e graça por decantar, talvez algo veneziana, mas também solar e atlântica, e sobretudo cheia de brumas escondidas sob a pele de tanta geometria aparente. Isaías encosta-se aos arcos do norte, junto aos alfarrabistas, e conta pelos dedos. Conta apenas números, esse mote abstracto, ou estrutura da imaginação, ou esquadria anterior a qualquer acto; Isaías repete muitas vezes esta operação: com o polegar conta números, apenas números durante um tempo quase infindável. O Terreiro do Paço, confessa o próprio, é um dos resultados aproximados do insondável compasso dos números. Por trás da geométrica cadência bachiana, o ritmo dos arcos nasce, emerge e parece anunciar uma música silenciosa que, à noite, empresta ao amarelado das luzes um incerto vaguear de sigilos, de silhuetas imersas pela vertigem pessoana; alaridos distantes de paquetes, navios e naus antiquíssimas irrompendo pelas correntes do grande rio das Tágides; desafiando a barra, o oceano, até o universo. É essa a sua senha: entre a morte e a pulsão da aventura quase total, pensa Isaías sem o dizer por palavras.
Para Camões - dizia o fadista e poeta do engenho - o sublime som do seu estilo grandiloco e corrente, ditado ou implorado às Musas do Tejo, mais não era do que um mar espesso de enigmas e segredos que, por natureza, se atravessa no caminho de todas as histórias impossíveis de contar, de narrar, de esclarecer. A própria Praça do Comércio é, ela mesmo, uma história por contar. Lisa e ampla, este espaço de números também por calcular prepara e acarinha a partida das grandes viagens, a invocação dos grandes poemas, a margem de toda a divagação. Porventura, também alimentará os que vêem a sua alma incendiada, o coração repartido, a ousadia abismada. Por trás do equilíbrio do Paço e das geometria modelares, os anjos de Ulisses abrem as asas e conseguem voar até à memória mais antiga do fascínio. Quem verá esses anjos, sob a forma de pavão, fado, ou luminária... a sobrevoar visões, letras, passos, amores encantados; tragédias da natureza, ou tão-só os simples números que Isaías continua ainda a contar com os seus dedos turvos de clochard?
É esse pasmo sem tradução que Isaías sente e que consigo traz na retina carregada, sempre que, por artes de fortuita passagem, lhe advém ao olhar este ancestral Terreiro que hoje é a talvez aparente Praça do Comércio. E por isso repete: disse-me a visão desta alvorada que hei-de encontrar, no local dito de S. Paulo, esse homem de várias vidas, o qual, parecendo estar morto, continua ainda vivo no seu corpo e espírito, cruzando mundos e o mais que a natureza e os deuses criadores desde o princípio interditaram. Isaías acompanha o pôr-do-sol atrás da ponte suspensa e revê, na sua mente de estilhaços puros, as várias bússolas e indícios do pavão visionado. Tudo iria ocorrer, um dia, perto das naves do Mercado da Ribeira. Mas a tempo, espero, hei-de admoestar esse Abel desafortunado. Talvez haja já quem o tenha denunciado pelas muitas pragas que nos chegam do Oriente, do Egipto e até aqui dos Remolares e da Boavista. Hei-de admoestá-lo pelos muitos perigos que decerto correrá, dizia.
Fez-se noite e Isaías retoma agora o seu caminho habitual em direcção às portas neo-góticas que limitam a sul o parque automóvel da EDP, junto à Praça de D. Luís I. No esconso da portada, já aí chegaram, entretanto, o pirata, antigo jogador e corretor; o velho Mateus, ex-presidiário convertido ao budismo; o Nativo, reformado da lotaria; o Lémur, apeado de chulo e, por fim, Silvestre que, nos tempos áureos, fora campeão de natação em Algés. E Isaías repetiu para quem o ouvisse: Que pode um clochard ver diante dos seus olhos, senão a fotografia de algo que já foi, sem lugar nem tempo, mas que se perpetua no inefável desejo de apenas ser? Apenas isso, disse Isaías, mas sem jamais o ter dito através de tais palavras. Chegará depois a sopa dos pobres, a noite, mil luminárias, e Isaías continuará, apesar de tudo, a pensar que, na sua frente, o mundo não é um simples encadear de lugares e de factos, onde tudo se encaixa e se explica. Diante de si, o que luz é a própria matéria, a própria vida em movimento, embora desfocada do seu lado imediato, directo, actual.
O profeta desempregado dos nossos dias é este tipo de clochard que, em diferido, consegue transmitir, talvez a ninguém, recortes e retalhos da verdade que só ele entende, por via das mil figuras desenhadas nas nuvens mais baixas, após o crepúsculo. Isaías ama Lisboa e acima de tudo o Tejo. Adorava tornar-se, ele mesmo, na cor dessa água nocturna. Adorava ser o pavão vislumbrado na alvorada desse dia, magnífico nas suas cores de framboesa e ventura. Adorava poder cantar como o velho Adão, correr como o destemido Caim, contemplar como o reservado Abel. Adorava ser tudo isso, ao mesmo tempo. Talvez devido a esse desejo, sempre vivo e sempre ocultado, Isaías tenha explicado que a vida marginal e noctívaga, à beira desta 24 de Julho, não é senão a sapiência do acaso, a doutrina dos desacertos e a instrução da perdida providência.


quinta-feira, 17 de Novembro de 2005

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Cavaco Silva e o Abrupto

Estou de acordo com muito do que José Pacheco Pereira tem dito e escrito acerca da pré-campanha presidencial: de um lado, os “tribunícios” habituais e, do outro lado, Soares dissimulando tudo o que passou a ser no pós-11/09. Há ainda o enigma Alegre, cujo horizonte ficcional assenta na figura do ‘guerilheiro injustiçado’ à procura de um discurso e de um posicionamento claros. Por fim, aparece Cavaco, por quem JPP não esconde ilimitado e coerente apoio.
Hoje mesmo, sob o tema “Temas Presidenciais ( 3ª Série) - Uma Campanha Declarativa”, Pacheco Pereira avalia as razões que justificam a actual proeminência de Cavaco. Não concordo com esta ponderação concreta (e digo-o com a consciência de quem não se vai abster, embora com a certeza de que não irei votar em nenhum dos candidatos).
JPP começa por afirmar que Cavaco “parte com patamares de apoio” sem precedentes. Não creio que assim seja. De facto, Cavaco surge nesta pré-campanha tal como Soares e Sampaio surgiram no final dos respectivos primeiros mandatos: sem reais alternativas. Nos três casos, a criação acumulada de comunicação era - e é - mais do que suficiente para conter as máquinas de sinalização publicitária que fazem e enunciam as habituais campanhas. Seguidamente, JPP traduz a disponibilidade do eleitorado para a mensagem de Cavaco Silva em função de um “princípio de necessidade”. É verdade – e é tão óbvio quanto “exemplar” - que a necessidade de estabilidade pressupõe sempre a opção mais plausível (do mesmo modo que, para Kant, a necessidade de comprazimento pressupunha o belo). Ou seja, à falta de alternativas, a necessidade apenas acaba por aplicar o chamado princípio da ‘exclusão de partes’. E é exactamente por causa disso que toda a gente sabe que Cavaco Silva vai vencer as próximas eleições (sendo apenas dúbio quando, se na primeira, se na segunda voltas). No final do seu post, JPP inscreve na análise a dimensão mediática. É aqui que são focadas as consequências da “sobreexposição” e é aqui que ganha corpo a mais frágil de todas as ilações (baseada, creio eu, na recente entrevista à TV-I). O argumento de JPP é o seguinte: a pouca “plasticidade” de Cavaco seria dissuadida pelo facto de o candidato “falar de coisas sérias”. A tensão e a ausência do ‘must’ televisivo das blagues seriam assim superadas pela seriedade, como se esta se contrapusesse, por omissão, a tudo o resto que vai sendo enunciado e declarado na pré-campanha. À moralidade e alguma altivez do argumento (hipercodificando a seriedade, de modo monossémico, no meio de uma amálgama de ruído) corresponderá, por fim, o tom “declarativo”. E é este tom, afinal, que se constitui como substância vital da análise de JPP e que encontraria as suas raízes na capacidade de o “professor” escapar à anedota e à mundanidade, como se, no fundo, emergisse, ele mesmo, de um limbo puro, único e porventura providencial. Devo dizer que é um certo moralismo subliminar que me afasta de Cavaco. E o mais curioso - e surpreendente - é que é este mesmo esteio, impregnado de um silencioso “dever-ser” de imaculada exclusividade, que acaba, curiosamente, por se espraiar na entusiasmada análise de JPP acerca das potencialidades reais do candidato Cavaco Silva.


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Agir

Que o ministro aja e seja eficiente. Se o fizer, nem chega a valer a pena dizer a palavra "vergonha", ainda que possa ter toda a razão.


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Novas subcutâneas

O Minitempo actualizado: Poe e questões adâmicas literárias.


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A mais curta história judicial - 42

O provedor da justiça limpava os óculos. O Juiz Silvestre amaciava a toga. O magistrado mais baixinho dizia que era espiado pelos serviços secretos de todo o mundo. E ali iam os três, confidentes, cada um com um vaso de sardinheiras na mão. Depois dos santos populares, demitiram-se em bloco. E fizeram muito bem.
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Ponto final.


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A mais curta história incidental - 41

O taxista lembrava o antigo nome da ponte e ela nada. O taxista vociferava, letra a letra, “S-a-l-a-z-a-r”. E ela nada. A bandeirada já passava dos dez euros e ela nada. Foi então que ela começou a trautear a abertura da ópera Guilherme Tell de Rossini. E o taxista, enfurecido com tal indiferença, travou de repente. E morreu.
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Ponto final.


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Folhetim

O Trevo de Abel - Episódio 34
Terceira Parte: O tempo de Abel
Folhetim do Miniscente
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Está a ver, minha filha, tantas vezes a dizer que a vida não se compunha! A dizer que podia ter tido uma vida de luxo, é verdade, mas que depois tinha ficado viúva muito cedo, não é assim? Ele, esse saudoso Adão, era bom homem, bem parecido, uma bonita figura. Mas... ter sido seu namorado em jovem já é um orgulho e um privilégio que deve até agradecer a Deus. Mas, sabe, Deus escreve sempre direito por linhas tortas - eu que o diga! - E a felicidade, minha filha, tinha que acabar por bater-lhe à porta. Não é por acaso... o senhor Abel é um sujeito que, embora humilde, é tranquilo, discreto e deve dar-lhe muito carinho; Dona Olga abre então a boca e descreve uma larga baía com os lábios distendidos, hirtos, expelindo, em breves segundos, um estrídulo ai ai, ui ui.
Que bom que deve ser... ter um homem em casa, eu bem me lembro como era antes do Armando ter desaparecido em África, Deus o guarde e tenha compaixão de nós todos! Mas não me posso queixar, embora o que mais me custe, hoje em dia, seja a vista e o ouvido. Mas a gente distrai-se, há sempre coisas que fazer, cortinas, canjinhas, a paróquia, os fofos de Belas; o que é preciso é saber fazer bem a massa e polvilhá-la com açúcar bem granuladinho, também costuma fazer, não é? A minha mana, a sua vizinha, diz-me que sim e a Leonorzinha é muito jeitosa; pena é que depois do vosso... enlace, Dona Olga abre agora os olhos, embaraçada, como a não querer sublinhar a ausência da palavra casamento, - mas a Igreja até já protege o namoro e as relações de facto dos mais novos, mesmo sem matrimónio, não é assim? E os leigos já fazem, hoje em dia, quase o mesmo que os padres dantes aprendiam por si sós, e eu, sabe, minha filha, no fundo, até era capaz de admitir que nós, mulheres, pudéssemos dar missa. Não pense que sou assim tão antiquada, pois a idade cria caruncho e saudade do tempo em que despertávamos para certas coisas, mas agora os tempos mudam muito depressa, é tudo a correr, e a minha mana, pois, coitada, desde que a Leonor deixou de estar só, digamos assim, não vai já visitá-la como ia dantes e isso para ela até era importante.
Sabe, a minha irmã nunca conheceu homem, e agora Dona Olga colocou a mão sobre a boca e evitou que os maus-olhados e os espíritos mais aziagos se aproximassem do hálito de tais palavras, não vá o diabo enredar as suas histórias onde menos se espera. Bom, mesmo bom, é durante as longas invernias, ter ali ao lado um homem e, à noite, no tempo das constipações, servir-lhe um chazinho e umas torradas com aspirina e muitas colheres cheias de mel de favo é coisa que faz sempre bem, embora os intestinos, está a ver, isso é que é o pior. Gosto de a ver assim, rosadinha, composta e de novo a dar aulas sem aqueles pesos, aquelas dúvidas em que andou aí mergulhada. Pois é, pois é, eu apercebi-me de que a Leonorzinha andava mal; não andava mesmo nada bem, até pediu um atestado médico, ai, ai, ai, o que nós nos admirámos com isso, não fosse a voz esclarecida e sábia do senhor doutor e juro que até tínhamos, eu e a minha mana, pensado que a doença era mesmo coisa a sério. A voz é subitamente mais secreta, escondidinha, cheia de gafanhotos. Andar aí com dúvidas a mais não é lá muito boa coisa, não.
É que a Leonorzinha, nessa altura, andava tão branca, até emagreceu e pouco aqui aparecia na esplanada. Mas não há mal que não venha por bem e a menina, porque é boa moça, generosa, sempre pronta a ajudar e por isso… mesmo tinha que atrair até si aquilo que merecia; digo-lhe, minha querida, que eu sempre tive essa intuição, sempre a tive. Bem lhe disse, hoje e tantas vezes antes, que é por linhas tortas que se escreve a felicidade, não é assim? Leonor respondeu finalmente que sim e espreitou o relógio. Abel não voltara ainda à praça e há já meia hora que o médico e os restantes convivas tinham ido para casa. A tarde de sol e céu azul prometia. - E onde foi a sua irmã? Foi a casa da costureira que, pelas minhas contas, já cá deve estar. Foi o seu..., o seu Abel - sorrisos e cochichos - que a levou de táxi ao curandeiro do Sabugo, não sabia ?... Até mesmo o senhor doutor lá vai. Quem parece que não vê com bons olhos a ida do senhor doutor ao Sabugo, sabe quem é, sabe? Pois, pois, é a mulher dele. A Dona Isabel.
Sabe, é uma senhora muito difícil, sempre assim foi, e faz a vida muito negra ao nosso doutor, isto é... só aqui mesmo entre nós, eu até penso que ele... se fosse mais novo havia de repensar a vida. Mas já se sabe, dantes a educação era outra coisa e as alianças pesam, são bodas de ouro e de prata e por mais que se saiba que não há amor e que não há verdade, o certo é que na minha geração ninguém se atreve a divórcios e coisas dessas. A si, Leonorzinha, ainda a percebo. Repare, com quase trinta anos na altura desse pavor do 25 de Abril, é normal que se tenha separado. E foi o seu único casamento, pois claro. Deve ter sido uma experiência penosa, difícil, mas percebe-se. E os tempos também se davam a isso nessa altura, digamos que é até verdade, vistas as coisas já com uma certa... distância. Agora comigo, ou com o senhor doutor... não, não, não pode ser. Até lhe digo mais - Dona Olga como que deita o cabelo grisalho e o nó de vison da gravata sobre o desprevenido colo da professora - Olhe, o senhor doutor... conheço eu bem, há muito, muito tempo. Ah, Ah! não core, não core, Leonorzinha, que não é nada disso que está a pensar... isto é só a gente a falar. Só isso.
Bom, minha filha, tenho que ir andando, Tenho tanta coisa para fazer! Vou começar por ir ao pão, depois passo pelo senhor Figueiredo a ver se ele me arranja um peitinho de frango ou coisa assim do género, porque tenho andado com umas náuseas, à noite, umas sedes, umas coisas que nem imagina. Ainda vou aproveitar a luzinha do fim da tarde para coser as bainhas ao cortinado da dispensa e, depois, não posso perder a telenovela das sete. Também está a seguir, não está? Ai é? Olhe, eu não, vejo essa e a das nove e meia, faz parte do meu dia a dia. Ah... é verdade, a minha mana disse-me que a Leonorzinha tem lá em casa umas revistas espanholas de decoração, será que me podia emprestar uma que é, segundo julgo, acerca de cobertas... dessas que se usam para proteger os sofás. Obrigada, obrigadinha. Dona Olga levanta-se, cobre os mil anéis reluzentes com as luvas de cor pastel, fecha o casaco, apara o cabelo grisalho muito bem penteado, recebe das mãos de Leonor a sombrinha e conclui, no momento em que vê na sua frente o imóvel jardineiro da Junta freguesia: Ai filha, tenho que pedir ao homem para ir lá ao meu quintal. Tenho umas begónias e uns arbustos para desbastar, o limoeiro também está a morrer e, depois, é tanta erva daninha a aparecer por todo o lado que eu já nem sei o que fazer à vida!
Dona Olga despediu-se finalmente de Leonor que voltou a olhar para o relógio e seguiu logo para a escola. Até que, em frente dos jardins da Vila Jacinta, o telemóvel tocou e a professora foi levada a exclamar um emocionado - Olá Luísa! Ah! Desculpa não te ter logo reconhecido. Como estás? E a tua filha? Ah é? Uma reunião de amigos... mas fazes anos? Sim, sim, entendo. Olha, tenho todo o gosto e sabes... tenho grandes notícias. Sim, andou mouro na costa. Não, não, já acostou e aportou como deve ser. Sim, sim, como deve mesmo ser. Não, isso não. Sabes, eu já tive um divórcio e prefiro assim. Aliás, hoje em dia, já não é problema para ninguém. Na escola e entre as minhas amigas, mesmo as mais idosas, é coisa que toda a gente já aceita. Sim, estou bastante feliz. Tive aí, há uns meses, uns períodos difíceis... mas isso é coisa que já lá vai. E tu? Percebo, percebo, Mas ainda bem, pode ser que, desse modo, atinjas o que queres, não é? Está bem, está bem, eu depois telefono-te. Olha, e fico muito contente por te teres lembrado de mim. Sim, sim, talvez já há uns bons cinco anos que não nos vemos uma à outra! Um beijinho também para ti, clic.
Leonor andou depois até à casa das bonecas e, já na rua da escola, não retirou os olhos do telhado muito inclinado, quase germânico ou sintrense, que se ergue ao fundo, esbatendo-se no claro claríssimo azul do céu. Leonor vai tranquila, contente com o convite, - a Luísa, a Luísa dos tempos em que comíamos na cantina da câmara, em Alcântara. Depois a coincidência de sermos ambas Evas do mesmo Adão que Deus levou. A sorte que teve na vida... com o segundo casamento e a herança que ganhou do galo cantor é que são a minha secreta inveja. Quem me dera não ter que dar estas aulas e andar de iate nos mares do sul! Quem me dera.
À frente, impiedoso, o rosa esvaído das paredes é esventrado por janelas graves e pelo muro gradeado, vigiado por um guarda minúsculo com sardas e óculos quase redondos. Por dentro, no jardim centenário, várias dezenas de crianças brincam com balões de cores vivas, cheias, exuberantes, enquanto a colega de turno de Leonor, alta, gorda e quase já na reforma, agita os folhos da saia comprida, arrastando o ocultado bigode para cima e para baixo, tal como o movimento da corda que, de um dos lados, ela mesma segura. Toca a sineta e tudo recolhe subitamente para a sala de aula onde, no topo, ainda esmorecem os sombreados dos antigos retratos de Salazar e Caetano.


quarta-feira, 16 de Novembro de 2005

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A mais curta história de Júlio Dinis - 40

A mulher do guarda prisional meteu-se com o padeiro. Era de noite e a vida parecia ter ganho o sigiloso brilho da estrela da manhã. Até que o crime foi descoberto na aldeia. E o fogo de artifício transformou-se num imenso vulcão. Nada restou. vulcão irado. Nada sobrou.
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Ponto final.


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Folhetim

O Trevo de Abel - Episódio 33
Terceira Parte: O tempo de Abel
Folhetim do Miniscente
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Foi no meio de lapas, algares, pedras maceradas pela ondulação e estranhos sinais inscritos nos estilhaços da arriba dados à luz pela maré baixa que a língua de areia se abriu. Vimo-la a partir das bóias de salvação, tábuas brancas engalanadas de pneus velhos e uma âncora desenhada a carvão. Tentámos alcançar a estreitíssima língua de areia, qual oásis entre a tormenta e a liquidez que nos despertaria os sentidos, o alarme do olhar. Pé ante pé, diante de salpicos e da aragem agreste que sobressaltava o corpo envolto em toalhas, em fervor antiquíssimo. O mês de Setembro desse ano longínquo parecia agora fechar-se, para sempre, com ilimitada saudade de tempos vindouros e também com o antecipado adeus que um certo silêncio já anunciava. Pela frente, a cadência infernal das ondas parecia disputar a bandeira vermelha que o vento sacudia, em ira de luas vivas e equinócio, com a mesma força com que a brancura azulada dos toldos, das cadeiras de braços e das barracas se agitavam no meio do areal praticamente deserto. Era um mar encapelado que desafiava a estreita língua de areia que o capricho das erosões fazia aparecer no termo da falésia; era o sopro da ventania a levantar, mais atrás, os apetrechos da praia e da própria estação balnear que parecia de vez acabar.
Continuo por trás das janelas das águas-furtadas à espera que Leonor chegue a casa a qualquer momento, abrindo a boca, a plasmar memórias e deixando o bafo colar-se nas pequenas vidraças quadradas da guilhotina da janela. Com o dedo, desenho diagramas sem sentido, riscos e folhas talvez de trevo, linhas rectas e uma maçã a adivinhar-se pelos contornos que conduzem o dedo a secreto porto. A vida é uma forma a compor-se a todo o momento, iguaria em expansão, essência talvez a esbater-se. Foi nesse Setembro, diluído já em miragem, numa voragem a esfumar-se, e onde o mais fértil dos mundos começava e acabava ao mesmo tempo, que nos deitámos como verdadeiros náufragos do desejo sobre a apertada língua de areia. Estávamos agora abraçados com a tentação mais desmedida e os meus dedos a desviarem a alça do fato de banho de Leonor, a unha sobre a virilha invicta e depois a folga, a abertura, a fissura magnífica e tanto sal, areia molhada, grão pastoso e algas e mais algas entre lábios, olhos e dedos navegando sob o soutien, ou sob o elástico de pano dos meus calções. A pele eriçada, desconhecida, estirada na palma da mão cada vez mais aberta; os olhos revirados, a lua no ocaso das marés vivas e o zum zum do mar tão próximo e ameaçador. Ri-me muito alto e atirei dois pedaços de madeira que as ondas tinham arrastado até à raiz do penhasco, da arriba negra e carcomida. O zum zum do oceano a rebentar, a crescer.
Até que a grande onda atolou o acto e nos mergulhou em súbito pânico. Vertigem brusca de quem espreita para além de. E os meus olhos à janela das águas-furtadas desenterrando essa miragem vivida há tantas vidas, eras e naufrágios sem mar. Se ela imaginasse que era eu, aquele Adãozinho tenro e ainda sem fibra! Talvez fosse esse o primeiro dos meus inexplicáveis naufrágios, generoso e sem qualquer bóia, nem corda de salvação, mas arrojado. Da casa azul, em frente, sai a irmã da Dona Olga com os seus óculos de tartaruga e vestido azul-escuro; é, pois, quase meio-dia e meia, hora de encontros no café. No céu, a luz tímida diz-me que a espera é breve, tranquila como a retina em catadupa inesperada. Limpo as vidraças lentamente com a manga do casaco e, ao descer as escadas, ouço ao longe a chave na porta. É Leonor, apressada, pergunta-me se também quero ir ao café da praça. Pois claro, é hora do chá de limão. Depois de almoço começa o meu turno, há tempo, espreguiço-me e ela a olhar-me fixamente como se fosse sigilosa adivinha, pitonisa de qualquer coisa remota, autêntica, desvelada há muito, mas sem nome próprio.
E o mar brutal avançando sobre nós nesse tempo sem fundo e depois, sem apelo, a dor súbita, imprevista e medonha ao embatermos nas rochas por umas duas vezes; nada do outro mundo, apenas o susto, o limite, ou o alívio de tornar a ver a onda a refluir. Levantamo-nos e os corpos mal resistem, e os gestos a perderem-se, e as vozes que dizem Leonor e Adão, Adão e Leonor; mal de nós se o intervalo entre as vagas for pequeno. Subitamente, a água em forma de espiral parece absorver-nos e enrola-nos os passos, as pegadas já translúcidas, a força com que nos detemos colados aos rochedos. De relance, vejo o fato de banho de Leonor trilhado, rasgado por cima da perna, talvez já na cintura. Entre as duas vagas fugimos sem saber onde pôr os pés, os braços, a névoa do olhar e a outra. Reparo subitamente que tenho sangue nos artelhos e Leonor, atónita, tem os olhos enlevados, aturdidos; queixa-se do braço, dos rins, da pancada, da vida sôfrega ou do instante inacabado.
Que sorte, mesmo assim, ter perdido de vista a língua de areia já ao longe; que sorte, apesar de tudo, ter revivido o prazer do abismo, afugentado pelo monstro vivo da natureza sem dó. E nós os dois, tantos anos depois, e sem podermos partilharmos sequer o passado, ali sentados no Café Parque, mal ainda haviam chegado as meninas de bata azul que trabalham na casa de saúde das irmãs hospitaleiras. Passados dois minutos, o médico atravessa a Praça e espreita para o lado da bomba de gasolina à espera que a revisão do carro esteja pronta. Junto ao Parque infantil, o jardineiro parou entretanto diante das ervas, da alfaia e do carrinho que faz lembrar o dos gelados nessa praia de antigamente. Parou o jardineiro diante do seu eterno canteiro e com ele deteve-se a ocultação do nosso olhar prolongado desde esse dia em que, na Praia das Maçãs deserta e plena de desejo bravio e enfurecido, nos conhecemos carne a carne. Cinco minutos depois, chegaram a Dona Olga e a irmã de braço dado. A meio do meu chá, a costureira da mulher do médico requisitou-me para ir a uma quinta no Sabugo e lá fiz a estrada de Pêro Pinheiro, antes ainda da minha hora.
Mas haverá uma hora marcada para fazer seja o que for? Perguntava-se Abel, enquanto descia ao largo do campo de golf e se lembrava de tudo. Era noite profunda e eu tinha ainda nos meus ouvidos o ruído seco das balas. A modorra nocturna da Gago Coutinho. O sol entretanto tinha nascido e eu, atemorizado, deixei atrás de mim o Cabo da Roca e toda a paisagem avermelhada e medonha de falésias e arribas. Sabia-me de novo transfigurado e ressuscitado; por isso, o horror e a fobia invadiram-me o espírito e a urgência de sobreviver a tais metamorfoses fantásticas e sem explicação. Como já acontecera uma vez, era preciso agora mudar de rosto, de gestos, de nome. Segui então para norte, como se fosse levado a reencontrar-me com este meu destino duplo: o da singular Belas e o da minha meninice de amores. A dada altura, estacionei a motorizada junto ao penhasco e, com a suada do mar a referver uns trinta metros mais abaixo - ainda a retenho com todo o seu alvoroço mortal -, corri em direcção à abandonada cabine telefónica. Era um casinhoto solitário, edificado na berma da maltratada marginal e onde eram visíveis os vestígios de antigas chamas. Puxei a porta de vidro para mim e, por milagre, ouvi o tinir constante do telefone. Meti moedas, rodei o número escrito por trás do cartão do Hotel Oriente de Barcelona. Falei com o mordomo de ares orientais e, à minha volta, sobre o tejadilho da cabine telefónica, começou a chover copiosamente. Juro que era uma chuva quase vermelha, assustadora. A voz compassada do meio filipino meio catalão lá me ensinou, com muita paciência, onde ir, onde me apresentar. Restavam-me os cheques do Porfírio e pouco mais. Foi numa destas quintas muradas junto ao campo de golf que acabei por entrar, devido à cunha do fiel mordomo. E foi assim que os meus lábios perderam espessura, que a minha face se estreitou ainda mais e que, por fim, a minha testa ficou mais ovóide e menos larga. Tinha agora uma face a dar para o triangular, compensada pelo cabelo mais curto do que fora apanágio em Caim ou em Adão. Atrás da orelha e sob o cabelo, as costuras acumulavam-se; era muita operação, muita mexida.
Aquilo tinha sido um acidente em pequeno, repetia eu a Leonor, em voz baixa de lençóis, sempre que ela passeava os dedos na minha cabeça. Leonor ouvia, ouvia, calava, mas repetia, com ar matreiro e sem o dizer sequer por palavras, - malandro, meu grande malandro, o matreiro és tu. Mas tudo isto eram sorrisos e gestos da pele, ternura leve e prazenteira, quando os corpos, a nu, enchem a casa e a aura perfeita onde chegam a habitar a dois. Foi nessa estranha casa-clínica que me deram novos papéis e me definiram a minha nova identidade. O meu destino era agora mais paroquiano, reservado, protegido. Taxista de boa memória. Abel de meu nome.


terça-feira, 15 de Novembro de 2005

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A mais curta história melodramática - 39

Tinham sido vizinhos durante anos e anos e raramente se olhavam. Um dia, encontraram-se face a face, de modo súbito, e decidiram fugir ao torpor que os perseguia. E um deles perguntou, com os olhos escancarados: “Se amanhã o mundo acabasse, que faríamos hoje nós os dois?”
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Ponto final.


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Folhetim

O Trevo de Abel – Episódio 32
Terceira Parte – O tempo de Abel
Folhetim do Miniscente
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Subo às águas-furtadas e não sou capaz de deixar de pensar em Barcelona. Apenas por estar no sótão, nas águas-furtadas, no desvão, na mansarda, na trapeira, enfim neste espaço fechado tipo farol, breve torreão de menagem, resguardo infantil, porventura. Aqui dormiu Leonor durante anos e anos até que a morte dos pais a fez descer ao primeiro andar, acompanhada das bonecas, dos napperons, das molduras, dos pratos falsos da China, ou da Vista Alegre. É uma casa cor de cereja, talvez bordeaux claro, rosa ácido, ou mesmo tinto da região, desde que filtrado pelos raios do sol que entram pelas janelas altas que são de guilhotina, divididas em dezasseis pequenas vidraças por cada portada. Um encanto.
Leonor continua na escola. Espero-a como se estivesse ainda no passeio diante da casa branca da Praia das Maçãs e o mar urgisse, e a porta se abrisse pela calada, era tempo de sesta e os senhores haviam saído. Entrei e, por trás da marquise, viam-se pinheiros, arbustos rasos, campos de gaivotas a descansar do entra e sai pelas arribas, pela escarpa aberta; e nós abraçados, com mácula, talvez com aquele deslumbre que invade os corpos de tanto se desejarem; por tudo e por nada, Leonor punha batom e fazia-se mais velha, entrava-me nos olhos e dizia três palavras, uma frase, um ínfimo gemido... e eu corado por dentro, crescendo para fora, revendo o movimento dos braços na janela entreaberta das marquises; havia aragens fortes, marés estranhas, luas muito demoradas, era da idade e o tempo passou a correr, pode crer-se.
Parece que estou ainda a viver essa lenda longínqua. Estou de pé à janela da nova casa e vejo, em frente, outro sótão infantil e outra casa também de bonecas, azul-clara como a dos pombais da praça, e o telhado ao meio interrompido por um triângulo genuíno, onde aflora uma única janela no porão aéreo, na sobreloja. Subitamente, estou a andar de táxi e levo Leonor comigo pela primeira vez. Vamos a Sintra, Leonor precisa de ir à Câmara, coisas de heranças, diz. É claro que Belas já foi sede de concelho, há tanto tempo que isso foi, e, depois, enfim, contam tanta história, - O senhor é que, na sua vida, deve ouvir contar de tudo, não é? - Sim, até já tinha ouvido falar nessa coisa da Casa Real que dá ali para a praça e que, como a senhora disse, como é que se chama, Ah, sim, Leonor, Dona Leonor, pois, pois é; tudo isso foi há imenso tempo, era em Belas que se realizava a grande romaria - Claro, eram as festas do Senhor da Serra. - Nesses tempos remotos, o Marquês de Belas encontrava-se muitas vezes na Rua da Palma, em Lisboa, com um amigo que era meio galego. Um belo dia, morre o marquês e o amigo que era seu credor apropria-se da quinta e, mais tarde, são já os filhos do galego que vendem a quinta e também o palácio ao senhor Albufeira e este, por sua vez, assim reza história, Dona Leonor concorda, não é verdade? - Sim, sim, Leonor leva a mão ao cabelo e estuda o escorço, a efígie, a figura, a estampa, o brilho oculto na imagem reflectida nos vidros do carro - é este senhor Albufeira, dizia, quem acabou por dar cabo do jardim, da mata, das cataratas e até, um dia, as próprias festas do Senhor da Serra acabaram. Leonor, uf, era ela mesmo, uf, que euforia secreta; Leonor, dizia, fora à Câmara e eu passeei-me pela Pena, pelos cafés, espreitei a estação e o novo museu, mas só do lado de fora. Uma hora depois, lá trouxe a professora de volta até esta casa onde agora estou. Na Cândido Reis, é verdade que não me havia enganado.
Leonor já era assim no tempo da Praia das Maçãs. Tinha o riso exuberante, uma espontaneidade súbita e o olhar aparentemente fixo e monótono. Era agitada, corria mais que os miúdos, olhava com frieza para os arames do estendedouro que ficavam junto às lajes da marquise onde pousam as roupas. Pela calada, repito, eu entrava - e estou ainda a entrar - naquela óptima casa de praia que mais parecia um comboio (tinha um longo corredor ao meio, todo vazio, comprido e as portas abertas ou fechadas das muitas divisões da casa davam para essa passagem sem fim) até que, na frente da roupa estendida, encostados ao embaciado dos vidros, ela me puxou pelo pescoço e dançava e dança ainda com os seus lábios nos meus. Com uma fúria descomunal, imensa, arrebatada. Leonor tinha esse olhar fixo num ponto, mas era coisa só de aparência e foi por isso que Dona Olga, na esplanada do Café Parque, se virou para ela e lhe disse - Então, senhora professora, está a pensar no quê? Nessa altura, o médico chegou e recebeu da saloia anafada o seu saco de fruta e pediu o café. Dona Olga manteve o olhar suspenso, hirto, e do alto do seu cabelo grisalho muito produzido, casaco cor de camelo e gravata larga de vison com nó de ombro a ombro, repetiu Dona Olga a pergunta com ênfase, enquanto o médico espreitava para dentro do saco da fruta e abria as narinas e, por milagre, eu próprio apareci e logo pedi o meu chá de limão. Foi então que Leonor me repetiu o seu bom dia de sempre e, virando-se para a Dona Olga, carregada de anéis depois de descalçar a luva, e, claro, virando-se também para a esposa do médico, disse que hoje não ia dar aulas porque tinha uma grande dor de cabeça. Era do tempo, concordava o dono do café, a esposa, o doutor, Dona Olga, a própria decerto e até eu disse que sim com a cabeça, mantendo o apreciado silêncio de sempre.
Esse meu gesto, ou talvez a manha com que o meu olhar se terá emancipado das operações plásticas por que já passei, ou mesmo algum desejo mais sublunar, tiveram influência nos planetas de Leonor. E a verdade é que, nesse dia à noite, quando o telefone tocou na Praça 5 de Outubro, e o tinir da campainha sobrevoou o vazio dos bancos de pedra, dos pombais, do parque infantil, do coreto, de tudo - e eu atendi, era a voz dela quem falava do outro lado e me pedia que a levasse a Lisboa, - É que a esta hora só uma pessoa de confiança, sabe! Fomos pelo IC19, Segunda circular, Avenida da República e, mesmo ao pé da Biblioteca Nacional, disse-me de súbito - Pare o carro se faz favor. Eu parei e ela atrás, com um xaile lilás à volta do pescoço, perguntou - Se deixasse por acaso de ser taxista, era mesmo capaz de largar de vez a sua profissão? Que sim, já tinha trabalhado pelo mundo todo, fora gerente de empresas, trabalhador de marinha mercante, agente da Swissair, operador de televisão e agora taxista. - O meu problema é esse! Sabe, penso que as minhas dores de cabeça só surgem quando, de repente, há qualquer coisa que eu, no fundo de mim, recuso ou detesto fazer. Gostava de ter estado em todos esses países e ter feito outras coisas, mas agora é tarde demais!
Percebi que queria desabafar e, por isso mesmo, de modo simpático, convidei-a para cear num restaurante perto de Queluz, coisa de jeito, bem frequentada. Fui ficcionalizando a minha vida como pude e, naturalmente, ocultando as outras vidas por mim vividas enquanto, do lado dela, ia ouvindo o rosário triste da sua história e a revelação mais inesperada; ou seja, para além de tanto desaire, apenas as tais longínquas férias de Verão, na Praia das maçãs, se salvavam na alegria da memória. Corei, cruzei os braços, cocei as mãos e lembro-me que havia imenso calor dentro do restaurante e, além do mais, fazia-se já bastante tarde. Por isso, levei a Leonor à porta de casa e aconselhei-a a pedir um atestado médico, a dar uma volta, a ocupar-se com outras coisas durante uns dias; - Eu... podia levá-la à Nazaré ou à Batalha, enfim, se achar que não é, vamos lá, ousadia minha dizê-lo ou, por outras palavras... que está à vontade na sua vida para que eu o possa propor desta maneira. Que sim, dizia Leonor - Mas esta minha cabeça é... e não conseguia acabar a frase de modo nenhum e eu logo me apercebi da atrapalhação e, nestes casos, diz a sabedoria antiga, que é melhor deixar a festa por acontecer, no ponto de rebuçado, na margem limite. Foi o que fiz. Saí do carro nessa altura, abri-lhe a porta e ela saiu. Disse boa noite secamente, apertei a mão e apenas pus o táxi a trabalhar quando vi luz acesa no primeiro andar. Sabia agora que os próximos episódios ditariam sentença.
Continuo nas águas-furtadas e já não penso em Barcelona. Mas lembro que no tempo dos meus catorze a quinze anos não havia ainda esgotamentos, angústias a metro, desabafos tresloucados e várias vidas vividas. Havia apenas a esperança de viver uma única vidinha e era ao correr da pena que, por linhas ínvias, o destino se escrevia. Era uma caligrafia que se estendia, leve, diante daquelas marquises onde havia o tal grande estendal, o cheiro a goma, a mão sábia das lavadeiras, as cortinas de rede e, por trás do embaciado dos vidros, os lábios dançavam durante uma eternidade que se ia dilatando fora do tempo. Nessa desordem feliz, ou melhor, nessa felicidade meteórica e sem tradução possível morava eu e morava a Leonor; enquanto, agora, é nesta desordem desencontrada, ou melhor, neste desencontro tornado encontro e sem qualquer explicação possível que eu e a Leonor habitamos numa mesma casa.
Tudo aconteceu numa ida à Batalha, talvez um mês depois da ceia. Tinha estacionado o carro perto de Vieira de Leiria, algures bem em frente do oceano nocturno e tumultuoso. Aí, à beira desse areal meio molhado, lembrei a Leonor, mas sem nunca falar, sem uma única palavra, tudo, tudo, tudo o que ela já vivera, quando as Maçãs ainda eram uma praia paradisíaca e solar. Dei-lhe a ler a maresia, o sussurro das ondas, a noite. E nós ali agarrados ao fim de algum tempo de pasmo. E nós a lutarmos com os nossos fantasmas, sem saber onde passar a mão pela pele, pela roupa, pelas extremidades da história. Tanta atrapalhação e engasgo que valiam por cometas e luzes de ribalta. Como me lembrei do pirotécnico Afonso! Era uma história de amor inesperada. Pela idade, diria ela. Pelo meu singular fado, pensaria eu.


segunda-feira, 14 de Novembro de 2005

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A mais curta história de errância - 38

Leonor correu até ao fundo da carruagem sem saber porquê. Parou junto à porta do restaurante, fixou demoradamente o pinheiro, a paisagem adormecida e aquele homem muito alto que tinha um jornal debaixo do braço. Até que entrou no compartimento 36. Aí se sentou ao colo de Proust e adormeceu.
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Ponto final.


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A mais curta história gaia e científica - 37

Passou a carroça. Ouviu-a como quem se pendura na Via-Láctea até percorrer o mais ínfimo eco. Foi depois à janela e pensou que devia escrever a palavra “coveiro”. E depois o resto: “Será que ainda não estamos a ouvir o ruído que fazem os coveiros a enterrar Deus ?”
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Ponto final.


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A mais curta história operática - 36

Levanta-se e fica a observar os vidros da janela. São cortinas de renda branca presas aos lados, quase suspensas. Passa pela sala, ouve os ponteiros do grande relógio e coloca os narcisos na jarra chinesa. Antes de desmaiar, Maria Callas volta a montar o cavalo que já tinha entrado em casa.
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Ponto final.


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A mais curta história do tacto - 35

Ficou perturbado ao vê-la e não conseguiu deixar de a seguir. Quando a ponte se abriu, perdeu-a de vez. O cargueiro passou então lentamente entre as margens do canal. E foi no momento em que a sirene se ouviu que um ligeiro toque nas costas o empurrou para o fundo do canal.
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Ponto final.


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A mais curta história de expiação - 34

Edgar viu no passeio um curdo que se incendiava por motivos políticos. Anos depois, apaixonou-se pela modelo turca, Fetay Soykan. Nem três dias tinham passado sobre a lua de mel em Paris, quando o seu carro se desfez numa bola de fogo que quase chegou ao céu.
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Ponto final.


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A mais curta história surpreendente - 33

A praia está deserta e o crepúsculo sereno. A certa altura, Rui vê uma mancha avermelhada na água que cresce como óleo. Corre, entra no mar e desvenda, à altura do peito, uma espécie de alforreca gigante com escamas recurvadas e um olho gigante a viver a sua última agonia.
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Ponto final.


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A mais curta história picante - 32

Viu o barco abandonar o quebra-mar opondo-se à forte ondulação. Antes de se ocultar no meio do nevoeiro, Romy Schneider apareceu na vigia e ter-lhe-á feito adeus. Foi aí que ele abriu o casaco de par em par.
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Ponto final.


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Folhetim

O Trevo de Abel – Episódio 31
Terceira Parte – O tempo de Abel
Folhetim do Miniscente
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Sempre se disse nos Remolares e na zona do Conde Barão que tinha garras. Apesar da silhueta informe e bizarra que ostenta, uma longa cabeleira encaracolada invade-lhe os olhos, a fronte e a própria fermentação silenciosa da alma. Pouco fala e parcos são os sinais que dá de si a todos os outros. Talvez tivesse já sido arrumador, marinheiro ou cartomante, porventura aprendiz de pirata ou nómada, a bordo desta viagem do tempo que parece querer incendiar-se, dizem, na suavidade do Outono. Há quem espalhe a sete bocas que ele é um misantropo libertino, um devasso sem nome, um antigo mestre florentino. Até que nesse dia viu passar um táxi na Rua Nova do Carvalho.
No ar, é denso o fumo das castanhas. Terá garras ou talvez não. E... se as tem, encobre-as sem qualquer mansidão por sob a imensa sujidade de carvão que lhe mancha a pele, a aura e a deslumbrante expressão de uma saudade adiada. Às vezes, num repente assustador, ergue-se, voa, levanta-se, parece o verdadeiro génio da garrafa de Aladino que corre atrás de um eléctrico, ou então, serenamente, fica a olhar em frente para a fresca limpidez da montra da sapataria. Ou será uma retrosaria, uma pastelaria, um negócio decadente de fotocópias e atacadores? Tanto faz.
Nesta misteriosa Rua da Boavista de Lisboa, onde as fachadas se adensam de breu e as luzes amareladas e foscas iludem a mansidão nocturna, ele anda para trás e para a frente e, neste vaivém constante, arrasta o corpo globuloso como se fosse um imenso cilindro de metal, mãos sob a imensa capa feita de jornal, pano-cru, ou tela baça de corcel perdido. Apesar de lúgubre, cavernoso e sem piedade alguma nos gestos, mesmo para o rude sabor de inesperadas alcateias, é certo e sabido que traz sempre consigo o enorme e já famoso maço de folhas escritas. Por isso lhe chamam o Isaías.
De manhã à noite, escreve, rabisca, desenha sobre papel de embrulho, blocos de almaço, cartolina de caixa de chapéus ou sapatos. A letra é larga, redonda, cheia de folgas e rebentos, prolonga-se em traços obtusos, oblíquos e finos que esquecem as linhas, os rumos do olhar, a ordem. Dizem que, um dia, ele deu em maluco por ter perdido os mandamentos divinos que lhe haviam sido comunicados por instâncias do limbo. Todas as madrugadas, apesar dos traumas e da vida que leva, Isaías lê tudo o que escreveu no dia anterior com uma ansiedade que o atira de novo, rejuvenescido, para o cais entretanto molhado pelo encantamento do sol que volta a nascer. Dia após dia, até que, de novo, se senta no poial de pedra vulcânica, diante do quiosque onde os jornais, líquidos de gracejo e de tinta, já luzem diante de mil e um transeuntes. Assim costuma estar, descansado como um felino em suspenso, até àquele dia em que viu passar um táxi na Rua Nova do Carvalho.
Tem garras ou talvez não, dizem as más-línguas. Há mesmo quem o tenha visto miar, ou rugir como lince selvagem e depois espreguiçar-se por sob o nastro metálico da ponte, ali para os lados da amena Cruz de Alcântara da sua criação. Há mesmo quem o tenha visto trepar pelos mastros de um navio tailandês, carregado de tigres de papelão e audazes nautas do fim do mundo. Há quem diga, pelo perfil, que é a reencarnação exacta do poeta. Talvez de Tolentino, Elísio, Nobre, Chiado ou até Cesário. Há quem segrede que dantes adorava bifes com grãos de pimenta verde. E é verdade que, na primeira Terça-feira de cada mês, um senhor alto e magro, antigo padre no Loreto, lhe paga um desses bifes em Santos-o-Velho.
Depois, depois... pouco fala e raros são os sinais que volta a dar de si aos outros. Todos os dias desce a D. Carlos e senta-se no velho poial da Boavista. Escreve, escreve e escreve. Persegue eléctricos, percorre o cerrado das noites e revê sempre o sol nascente, após a reescrita de toda a bainha do universo. Dizem que já foi rei de Portugal, fadista e grão-mestre em Malta. Mas, agora, francamente, está cansado da vida mais pueril; nada sabe do milénio, da SIC, de Timor; convenhamos que fuma Definitivos e adula a curta asa dos pombos, no momento em que deposita um olhar lívido de morte sobre a árvore gigante que existe no Largo do Conde Barão. E ali terá ficado, para sempre, de lápis na mão e a olhar para mim, como se quisesse, já sem resistência, esconder as garras, o medo, a semente inaudita ou a loucura mais sadia que Lisboa tem.
Até àquele sábado em que viu passar um descuidado táxi na Rua Nova do Carvalho.

Nunca soube por que raio tive que ir a Lisboa nesse dia, mas o médico, sempre tão prestável com as minhas gripes e males reumáticos nas pernas, não é pessoa a quem se possa dizer que não. Para além do mais, também me fui habituando a sentar à sua mesa, todos os dias ao meio-dia, já que a moda do chá de limão era muito glosada, assim como, entre a gralha das conversas das senhoras, o meu silêncio se tornava também cúmplice da muito estima que sentiam por mim. Não fosse o diabo tecê-las e eu tivesse que conduzi-las a Lisboa ao Santa Maria ou ao Telhal, é coisa que nunca se sabe. De qualquer modo, ao ter passado fugazmente pela capital, adorei cruzar todas aquelas ruas onde não voltava há tanto, tanto tempo. Não fosse eu Adão, Caim e agora Abel, tudo ao mesmo tempo, e era caso para dizer, de dentes à mostra e sorriso folgado de verdadeiro júbilo, - foi mesmo coisa de outra vida! Por outro lado, diga-se que estou já tão longe daquela Lisboa onde, a cada esquina e por trás de cada cortina, pode de facto habitar um dos herdeiros dos Coimbras, o Correia e, se calhar, a máfia do Barça à procura ainda do defunto e velho Caim!
Quando, já descontraído e mais leve do que o normal, voltei a Belas, antes de estacionar o carro na praça, vi-a a atravessar o jardim do coreto, deambulando em frente do cinema velho, a Leonor. Devia andar a congeminar acerca do tempo perdido, dos azares que teria tido na escola ou na cozinha, se calhar andava ali apenas a espreitar os pombais. Saí do carro, andei em direcção ao pequeno lago dos peixinhos dourados e, sob a folhagem do caramanchão, pus-me a olhar para a encosta do Senhor da Serra. É um verde que podia fazer inveja aos altos de Sintra, não fosse a catacumba à mostra que foram construindo, ano após ano, em betão, ferro e asfalto na esquadria de colinas, entre burros mansos, velhas cascatas e moinhos aéreos. E ela ali a passar por mim, ditando perfumes e pegadas invisíveis, como quem não quer a coisa, meio errante meio princesa, talvez reconhecendo-me por causa do nosso primeiro contacto, há alguns dias; ou talvez não indo além do vulto ou do fantasma que eu seria a seus olhos, mas, eis que num repente próprio da gentileza de Belas, me disse boa tarde. Depois, repetiu-o e sorriu. Correspondi ao cumprimento como pude e regressei ao táxi, visivelmente perturbado, para depois a perseguir com os meus olhos, qual ávido voyeur e aventureiro de débeis certezas e mil alarmes secretos. Ela seguiu pela Avenida da Marinha e virou logo à esquerda, junto ao Restaurante do Faria, decerto pela Cândido dos Reis. Desapareceria por essa esquina como um espectro sem corpo e eu, com os olhos apontados e fixos nos pombais, aquelas caixas azuis claras com porta, janela e telhado, pregadas ao cimo do tronco dos plátanos, para onde Leonor olhava - ou seria afinal para as nuvens? - E eu esboçando a desordem, chamemos-lhe o encontro fortuito, mas mesmo assim muito desejado.
Foi um dia cheio de serviço, um dia ofegante, apesar do ir e vir rápido entre camionetas e motorizadas através destas ruas apertadas e cheias de ruído; buracos sem aviso resgatados por avejões de impermeável amarelo e laranja a colocarem fibra óptica debaixo do chão; ultrapassagens suicidárias em vielas e estradas de arrabalde; enfim, cargas e descargas de fofos e marmeladas de Belas e ainda autênticos comboios de TIRs cheios de mármore siciliano e calipolense de Pêro Pinheiro. Um dia ofegante por fora e por dentro que mais me fez lembrar, confesso, o caricato roubo de uma motorizada e o caminho intempestivo em direcção ao Cabo da Roca, naquela noite. Tinha acabado o primeiro tiroteio da minha vida, era ainda o Caim de meu nome lúgubre, e eu mortinho, completamente defunto, a ser carregado para a casa mortuária e a ser velado, quem sabe se por alguma das polacas ou russas, talvez até pela mãe do Porfírio. Um dia ofegante como esse em que ao mesmo tempo que me reconduziam - é o termo - aos Prazeres, eu aparecia ou reaparecia vivo, vivíssimo, em pessoa, deitado sobre uma motorizada roubada, a alta velocidade e a caminho do Cabo da Roca. Que vista de mar, aquela, tingida por uma espécie de filtro avermelhado, qual aurora boreal espelhando-se de um lado ao outro do horizonte, sobre as águas agitadas, rochas, cais imaginários, atalhos térreos e miradouros centenários; era uma autêntica visão filtrada pela vermelhidão do ar que coava a humidade suave dos faróis, que se reflectia no fragor e murmúrio das ondas, e que ainda caldeava as nuvens baixas desse Inverno.
Foi de facto um dia ofegante, esse em que me reencontrei com Leonor, face a face.


domingo, 13 de Novembro de 2005

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A mais curta história de Natal - 31

Na árvore de Natal, ao lado das estrelas e dos farrapos de algodão, estava pendurado um louva-a-deus. Roger Moore ainda perguntou a sorrir o que aquilo queria dizer, mas, de repente, o bicho agigantou-se, abriu os seus olhos vermelhos, e comeu-o.
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Ponto final.


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Folhetim

O Trevo de Abel – Episódio 30
Terceira Parte – O tempo de Abel
Folhetim do Miniscente
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Foi no início de uma tarde de céu nublado e nebuloso que tudo ocorreu. Eu tinha subido até à estrada do Moinho Velho e preparava-me para regressar à praça. Quando dei a curva à direita e tive que parar junto ao portão da escola, deparei com a senhora enérgica que tinha saído pelas grades do portão e que, a dado momento, voltou para trás, quem sabe se por ter sido chamada por colega ou empregada. Nessa altura, talvez porque algo muito longínquo e incógnito me despertasse a atenção, abri o vidro do carro e involuntariamente ouvi a estrondosa gargalhada com que a dita senhora correspondeu a quem a chamara. Desci, logo a seguir, a íngreme rua da escola até à casa das bonecas e fui, sempre intrigado, com os olhos fixos no retrovisor. Perto dos azulejos da Casa da Sorte, vi que a senhora continuava a sorrir, a sós, e que ia bastante carregada com uma mala e um saco de compras. Tinha um verdadeiro ar de professora e, no seu jeito roliço e chorudo, pode dizer-se que era uma mulher elegante. Pela segunda vez, fui levado a parar o carro, baixei o vidro e, com a cara muito séria, perguntei - Mandou-me parar? Ao que ela respondeu, porventura admirada, - Eu? Um táxi? Ai! Não, não, não; deve ser engano. Sorri, olhei-a nos olhos e desci ao meu poiso, paredes-meias com o repuxo e os bancos semi-circulares cobertos de buganvílias.
Na Praça 5 de Outubro da já minha vila de Belas, estive grande parte dessa tarde sem qualquer serviço. Sentado ao volante, no meu posto de espera, eu ia entretendo o vagar e a delonga, como sempre, através de olhares fugazes para as portadas azuis da Casa de Saúde, para os encontros da esplanada do Café Parque e, mais à direita, para o parque infantil, hoje completamente deserto. A dado momento, entre mil e um pensamentos e divagações meio ocas, como que voltei a reter a euforia, o andar, o gesto enérgico, a admiração, a voz e dei comigo a pensar que conhecia esta professora de algum lado! Mas de onde? E terá sido nesse instante de sigilosa descoberta, ou de leve torpor, que eu me vi súbita e espontaneamente a dizer entre lábios - Mas é a Leonor! Confesso que, uns metros atrás, o tipo da gasolina deve ter-me visto a falar sozinho; deve ter-me visto a rir e a agitar os braços, tal era o reconhecimento quase milagroso que tinha acabado de acontecer.
Agora urgia confirmar e seguidamente indagar tudo o resto: onde morava, que hábitos tinha, com quem convivia, etc. - Mas porquê? Voltava eu a perguntar aos meus botões de taxista misantropo; cidadão na defensiva das vidas já vividas; homem temeroso de Adões e Cains de estirpe expansiva e inexplicável. - Nesta minha nova quietude, nada melhor que a redoma do novo carrinho para estar bem e sobretudo protegido!, Pensava Abel com alguma sofreguidão e contida esperança, ao som da Rádio Capital. Depois, o telefone tocou. Era uma voz esganiçada a pedir táxi para o início da Avenida da Marinha. Abel pôs a viatura em marcha, mas não conseguia pensar já noutra coisa. A professora. A professora. A Leonor. Vários dias assim se passaram, até que decidiu voltar a passar pela escola à uma e meia.
Nesse dia, quem sabe se por nervosismo ou remoto gáudio, Abel passou pelo Café Parque um hora antes da arremetida. Sentou-se na estreita esplanada em frente de uma chávena de chá de limão e limitou-se depois a tentar relaxar-se, a descontrair. Ao lado, na mesa habitual, o médico era, ao mesmo tempo, um leitor ávido do jornal diário, o anfitrião das amigas íntimas da mulher e ainda tinha tempo para receber das mãos de uma saloia anafada a fruta que, doutra maneira, teria que comprar fora de portas. Um quadro da corte da aldeia revisto nos nossos dias, nesta que é - ou poderia ter sido - uma pequena Sintra, hoje cercada por arranha-céus, disformes betões e uma infindável travessia automóvel, para além da CREL, lá em cima a cruzar a via láctea desta vila de flor de lis.
De repente, sem mais, estava eu ali sentado a pensar naquele arco de belo betão, navegando no lado mais vazio de qualquer quimera e ria de mim para mim; eu ali sentado e sem saber ainda que, minutos depois, seria ela a descer a rua, o rabinho a sobrelevar e a ressaltar os dois lados das cuequinhas, ou cinta que fosse por sobre o arco belo da sua cintura; minutos depois seria ainda ela a ostentar para os lados o bambolear das doces nádegas, de par em par, quais peças de fruta que o doutor agora consulta, quando mete os olhos indiscretos no fundo do saco, de certeza a ver se a saloia anafada o não enganou. Eu, sentado na esplanada a beber o chá de limão e não a cerveja, pois que nesta minha profissão de taxista só posso beber às vezes e às escondidas; já se viu o que era se a senhora de gravata larga de vison e cabelo grisalho muito arranjado me visse a beber um brandi, ela que olha para as bochechas caídas do médico com algum alvor, senão mesmo anseio? E daqui a minutos, lá vou voltar de táxi a descer a rua, desta feita atrás dela, como que antevendo o deleite; não apenas vê-la a cambalear o saracoteado das nádegas, mas sobretudo para a estudar com mais vagar: os tornozelos redondinhos, o modo como pega na pasta e leva a outra mão ao cabelo, o riso contido, a agilidade. E eu a ver-me ali sentado, mas já a ouvir-lhe a gargalhada que voltou a largar à porta da casa das bonecas, quando apareceu a menina de bata azul que trabalha na casa de saúde das freiras hospitaleiras e é assistente do médico que agora pousou o jornal e disse - Que belo dia, pelo menos hoje não chove!
Na montra da loja das bonecas existe um pequeno Cristo deitado de barriga para o ar, mas, nas prateleiras de cima, há algumas bonecas ainda de pé que ostentam batom, folhos largos e brancos, bochechas vermelhas e muitos, muitos chapéus lilases de chita, como de chita eram os vestidos de noite que o minúsculo jet set da Praia das Maçãs vestia nos bailes recatados dos anos sessenta, quando nós namorávamos, para cima e para baixo, entre Sintra e o mar. Eu e a Leonor. Entretanto, a menina de bata azul saiu da loja e tu riste como sempre gracejaste; alto e líquido motejo, troça ou mesmo escárnio; vi-te ainda a mexer a perna lentamente, o tornozelo redondo, o timbre certo, o jeito. És tu, de certeza, Leonor, e eu tenho o dever de me dar a conhecer à tua gargalhada que é solitária, não deve ter companhia; é, pelo menos, o que me diz a maravilhada intuição que hoje, desde cedo, me acompanha. Volto a levar o chá de limão à boca e olho para o relógio todos os minutos, ou quase. Quando o faço, ouço da mesa do lado a Dona Olga, de cabelo grisalho arranjadíssimo e múltiplos anéis, a inquirir com voz fina: - Então senhor Abel, um descansozinho... não? - Que sim, respondo eu, revestindo-me de prudente sorriso e um crescendo de pressentida intimidade, cuja motivação não descortino, nem ao menos pelo ar húmido estilo capacete que, tal como na Ilha na Madeira, hoje cobre esta Belas e toda a sua via láctea de betão, lá mais para os lados palacianos de Queluz.
Às dez para as duas, levantei-me e andei até ao carro com os pés a repetir a forma dos ponteiros, tal era o modo como me dava e dou a esses momentos de verdadeira arremetida e convicção. O que eu queria era manter o meu recato, o meu sigilo. Que não me viessem cá falar noutras vidas e coisas dessas, pois, desde a última vez que mo acontecera, depois das desventuras da Gago Coutinho, Porfírios, Arletes, Saras, Tailândias e outras coisas assim, eu não queria senão estar a sós com as minhas coisinhas - e, se, com sorte, nesse meloso desejo de reconforto, me aparecesse uma Leonor transfigurada pelo tempo, eu não desdenharia avançar. Bem sei que sou um sonhador desafortunado, um rapaz sem melhoras; já a minha avó Maria Alba o dizia, apesar de, nesse tempo, eu chegar sistematicamente a casa com más notas e não perceber nada, mas nada mesmo de aritmética. Levantei-me e paguei o chá, ouvi um coro aldeão de cumprimentos e com ele elevou-se-me a confiança e o ardor. Contudo, nestes momentos de maior impulsão sanguínea, de maior convulsão e temperança, muitas vezes era a minha primeira família que eu evocava e recordava... a Luísa, a minha filha. Mas porquê? Vá-se lá saber! Pensei eu, já no momento em que rodava a chave e a ignição antecedia a marcha do Nissan. E assim avancei.
De qualquer modo, se tinha saudades, era porque nunca mais podia aparecer ao pé da Luísa e da minha filha, a não ser que fosse depois tido e achado como Romeiro da primeira vida e assassino da segunda; por outro lado, jamais podia voltar a encarar aqueles que abandonei e de que me desinteressei radicalmente na última das vidas. Só me restaria, ou escrever cartas efémeras à minha filha, coisa para a qual não tenho grande talento; ou apenas lembrar por lembrar com suprema melancolia e decisivo arrependimento. Mas para que servem esses sentimentos pouco nobres, afinal? Pensei ainda, já o carro subia a Rua Dr. Malheiros, cruzava depois as glicínias da Victor Cordon em frente do Mercado Paroquial e da abandonada Vila Jacinta para, logo a seguir, voltar a subir, sem quaisquer pressas, pela insuspeita estrada do Moinho Velho. Aí os telhados aumentam, as paredes reclinam-se e, a culminar a visão, a escola perfila-se nas alturas. E o coração a voltar a bater, a bater, a bater.
Dei a volta perto do edifício da pré-escolar e, após uma breve descida com o motor já em ponto morto, encostei à esquerda junto ao muro. E aí fiquei, lado a lado com os jarros bravios que se encostam à água corrente da sarjetas, a observar, mais abaixo, sobre a parede cor-de-rosa e porosa, três gatos meio vesgos que pareciam querer espreitar a saída das crianças da escola. Até que surgiu a professora augurada. Lá ia ela, rápida e agitada, a descer a rua íngreme, olhando à direita para a escadaria recheada de pneus com vasos pelo meio; uma delícia de paisagem urbana. Foi então que meti a segunda e me pus atrás dela até voltar a ouvir, junto à casa das bonecas, no fundo da rua, a tal gargalhada deslumbrante. Embeveci-me e decidi que haveria de descobrir a casa onde ela morava. Isto não era apenas mais uma amante, um futuro caso sem sentido, ou o que se imaginasse; era sim o que restava do meu primeiro e sincero amor dos catorze, quinze anos.
Desconfiava agora, de facto, que o destino me tivesse posto na mão uma ave tão esbelta para não mais a deixar fugir...


sábado, 12 de Novembro de 2005

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A mais curta curta metragem - 30

O raccord da sequência anterior - Amália dá dois saltos no ar - é criado pela luz do candeeiro que lhe bate no peito. Sobre esta imagem é sobreimpressa a legenda “Fim”.
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Ponto final.


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A mais curta tragicomédia - 29

E aqui estou vergado às estrelas mais distantes, preso aos males do fogo e ao incerto calabouço do futuro! Que me restará? Talvez uma aflição ainda maior do que a de morrer de morte natural?
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Ponto final.


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A mais curta das dúvidas próféticas - 28

Concedeu o Altíssimo dons angelicais à égua que atravessou o sertão, depois de ter visto navios de degredo e mil grilhetas de escravos. Até que fungou, virando-se para o Padre e questionou: “Crê mesmo na ressurreição de D. João?”
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Ponto final.


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A mais curta letra Hip-Hop - 26

Não sei quem diz que não, não sei se como pão, como vão; não sei se fujo ao cão, não sei se sou pavão, como não.
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Ponto final.


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A mais curta adivinha - 27

Um morreu em Paris, a 16 de Agosto de 1900. O outro morreu nove dias depois em Weimar.
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Ponto final.


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A mais curta promessa - 25

Pode ler-se nos meus lábios.
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Ponto final.


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Folhetim

O Trevo de Abel – Episódio 29
Terceira Parte – O tempo de Abel
Folhetim do Miniscente
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No ar, o terrível cheiro a alfazema pôs-me subitamente a descoberto, mas nem sei sinceramente face a quem, ou a quê. No meio deste cenário de areias e súbito deslumbre das aves na praia vazia, a verdade é que o candeeiro de vidro esbranquiçado ainda detinha, apesar de tudo, a sua velha imobilidade e carácter. Levantava-se como uma planta esguia no cimo do caule metálico já algo carcomido pela humidade do oceano. Há tantos anos que tudo se passou. Fosse como fosse, este mar é e sempre foi bravo, destemido, cheio de ondas altas, repetidas, seguidas, rebentando em espuma de cor verde ou estelar, ao longo de mais de cem metros; rebentando em espumas iradas e revoltas, num alarido de fustigação de rochas, algares e concavidades abertas pelas antigas piscinas de boa memória.
Nestas terras ao norte do Cabo da Roca, os casinos foram morrendo a pouco e pouco e as casas de habitação tornaram-se refúgios de uma guerra talvez perdida, sem vivalma ou vestígio balnear ou outro. Sobra um casal alemão e, do outro lado, uns três reformados a vaguearem entre o antigo quiosque e o único restaurante de peixe agora aberto. As nuvens fundem-se com a poderosa aura oceânica e ditam a solidão do longo Inverno que aqui parece ter ancorado de vez. Olho subitamente para baixo e revejo o semi-círculo murado onde ainda se resguarda o antiquíssimo carrossel. São os mesmos quatro cavalinhos a preto e branco que andam sempre à volta. E quando o vento agora os torna a empurrar, ouve-se aquele rugido ou fragor muito fino que me faz lembrar os miúdos de bibe e a cara dela, esbelta e agitada, como que a tentar, de algum modo, impor disciplina, respeito, sensaborias.
Lembro-me que o eléctrico partia muito cedo de Sintra e que, ao longo da bela e impetuosa descida, eu via os plátanos recurvados sobre os vales, os azulejos da cooperativa de Colares, os pinheiros cerrados, as mélias, e, depois, no final, à direita, a gare minúscula da Praia das Maçãs. Ainda lá está essa estação de fadas com porta ateada às minúsculas janelas, rodapé azul e telhal abraçando horizontes de cal e os quatro globos das esquinas. Era uma espécie de cuba árabe sem cúpula. Chegava sempre cedo e cedo corria até à ordenada floresta de cactos de flor vermelha, por trás dos quais se adivinhavam as ondas e, mais em cima, a varanda recortada pelas piscinas naturais. E ela, sempre ela.
Foi talvez há quarenta anos e eu teria os meus catorze ou quinze. Punha-me em cima do muro, abismado pela paixão, espreitava e via os três gaiatos acabadinhos de chegar, ainda de camisola e sandálias por descalçar. Estava ali em cima do muro, sem idade, como agora encostado à parte de trás do meu solitário táxi. Arrumavam depois a um canto os baldes de borracha, as inúteis pás, sacos de revistas; toalhas de várias cores e uma bola azulada que quase sempre deixavam cair no areal. Ela trazia um chapéu de sarja que é um algodão forte e macio da mesma cor que o roupão turco, atado por um cinto que lhe fazia sobressair as linhas, a ondulação delicada do corpo. Quando se despia, nesse momento em que estou ainda e agora a espreitar, o fato de banho logo surgia a condizer, brilhante, diluindo-se na neblina com que esta praia esconde os raios solares e o frémito violento das suas vagas.
Do outro lado da Praia das Maçãs - diziam os raros pescadores que Eva, em fuga, tinha aqui deixado a maçã ingloriamente roubada no paraíso -, no morro mais elevado e escarpado, uma casa de rés-do-chão continua a sinalizar este mistério da nostalgia do Verão. Olho para lá agora do mesmo modo que, nesses tempos recônditos, aí descansava o olhar antes de ganhar coragem para descer. Quase sempre, era ela quem me via nas escadinhas e, atenta, mandava-me suspender a marcha com a palma da mão. Depois entretinha os garotos, acariciava-os e acorria até ao pé de mim; vinha sempre com aquele ar de quem se quer livrar da vida arrumada que o trabalho, um dia, impôs. Dizia-me com as palavras entornadas em sorriso - Olha, vamos a Sintra. Ao menos, estamos juntos durante a viagem de ida e volta. Não podemos parar a meio, pois os miúdos são pequenos e tenho que os levar para casa à hora de almoço. Não, hoje a mãe deles e as tias foram para Lisboa, estou sozinha. Vamos?
Contrafeitos e em fila pouco indiana, os miúdos seguiam à nossa frente na direcção do quiosque. Antes de chegarmos à gare, cheios de expectativas e silêncios, o homem das batatas fritas e o dos gelados Olá e Rajá hipnotizavam a garotada, um simples escudo bastava. Para trás, ficaria a água a crescer na boca, a vista das areias escuras, cor de salmão, talvez de limbo, onde corriam banheiros entre toldos armados ao vento e algumas barracas na retaguarda, de lona insistentemente branca e de tédio. O eléctrico retirava-nos subitamente desta história arrastada e atirava-nos para o intolerável coração do olhar com que nos dávamos e guardávamos, um ao outro; face a face, ante a mornidão do ar que, pelas janelas e portas abertas, nos embatia no rosto, na admiração, no mar silencioso de afazeres a esbater-se nas pontas do chapéu de sarja e nas folgas do roupão que Leonor tentava prender com os dedos. Tentava, mas não conseguia e assim passavam por nós, aquietos, eucaliptos reclinados, choupos em linha, arbustos acamados, pinheiros bravos e mansos, moradias cor de barro, moinhos perdidos e, junto ao céu, o castelo dos mouros e um palácio majestoso do ignorado rei artista, de seu nome Fernando.
Ao chegar a Sintra, mudávamos de linha e voltávamos a descer. Perto do quiosque da Praia das Maçãs, despedíamo-nos sem grandes marcações e, de imediato, eu ia sentar-me nas rochas ao pé do mar ou subia ao morro oposto ao da povoação. Tinha os meus amigos e porventura uma escassa colheita de passatempos para desfrutar, mas preferia descobrir motivos de interesse nos sortilégios que me rodeavam: fazia das manchas na rocha um mapa de cidades, das algas a baterem em mínimas crateras cenas de naufrágio e salva-vidas, das escaladas ao desfiladeiro a sul da praia subidas pelo Everest. A avó Maria Alba que tinha visões dizia que eu estava talhado para coisas fora do comum. Via-me a tocar realejo sobre as nuvens em países longínquos, via-me de foguetão entre o céu e a terra, via-me a atravessar o mar com as minhas próprias braçadas. E eu acreditava naquilo e corria por estes areais pedregosos e observava a natureza, os sinais marcados nas mós abandonadas, os gestos imprevistos dos homens e sobretudo a vista desabrida do mais alto dos penhascos. Era assim a minha vida até que a paixão, nesse prolongado estio, me bateu à porta. Era a primeira vez e viera com força. Era, de facto, um verdadeiro enxame percorrendo-me o esófago, a laringe, os músculos das pernas. A náusea.
Nunca falava disto com ninguém, nem mesmo em Lisboa para onde regressava antes do sol se pôr. De repente, via-me mais discreto, mais parado que o normal, sem vontade de comunicar com os rapazes da minha Rua da Junqueira. Comecei mesmo a desconfiar que a avó Maria Alba podia ter razão, já que descobria neste meu estado sintomas de alguém que estava verdadeiramente talhado para coisas fora do comum. Deixei de brincar com barquinhos e carros de papel, deixei de dar as minhas corridas até aos jardins de Belém, deixei-me de futebóis com os de Alcântara e de Santa Cruz. Agora só queria era ir para o Rossio apanhar o comboio, duas a três vezes por semana, pois o dinheiro não dava para mais. A minha mãe Marieva estranhava, mas, quando estendia a roupa e vinha à janela, olhava-me com aquele versado olho de atalaia de quem percebe e simultaneamente teme o que vê.
Conhecera Leonor na estrada das Azenhas do Mar, entre as casas de pedra e vidro que olham ávidas o mar e os miradouros selvagens que caem sobre a magnífica rebentação. Tudo se passou num final de Julho, quando, ao longo desse declive de maresia e iodo, eu corri, uma vez, atrás dela e dos miúdos com a bola na mão. Ao fim e ao cabo, salvara a bola e o esquecimento que não me pertenciam. Devo confessar que, na altura, pensei que ela era a mãe dos gaiatos e não uma estudante - como eu - que uma família endinheirada encarregara de tratar dos filhos. Vi que ela se ria para mim, ou de mim? O riso, no entanto, manteve-se em Agosto. E em Setembro. Deixei de aparecer ao pé da casa e passei a marcar a piscina ou a zona das barracas como lugar de encontro. As viagens a Sintra e algumas raras escapadelas eram o mel perfeito desses dias longínquos. O diabo e o verdadeiro inferno, durante esses dias de ouro, confundiam-se com os miúdos e pouco mais. Diga-se a verdade.
Hoje, tanto tempo depois, aqui estou ao fim de uma tarde de Fevereiro, perto da minha nova terra, a olhar para o mar. Por que assombro ou maldição se repete a vida dentro da vida? Uma após outra, eclipsando-se, elas sucedem-se; umas nas outras, desocultando-se, elas trazem-nos ao olhar os mesmos casos e sombras.
Assim pensava o taxista Abel, uns dois anos depois dos acontecimentos da Gago Coutinho.


sexta-feira, 11 de Novembro de 2005

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A mais curta história clássica - 24

Andou por lógicos e ínvios caminhos até que encontrou a sombra do petiz Alexandre. E respondeu, anos depois, o aluno macedónio ao mestre: “Jamais pensei que me cativáveis com tão inexplicável seca”.
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Ponto final.


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A mais curta e cáustica cantiga de amigo - 23

Era uma vez um cruzeiro. E da amurada, ela gritou na direcção do iceberg branquíssimo: “Ai, ai, ai, e Deus… e o é!”. E ele, por ser o amigo, nem sequer respondeu. Apenas embateu.
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Ponto final.


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O mais curto diário pessoal - 22

01/06/1945. Encontrámo-nos finalmente na praça. E o que dissemos da dor? O mesmo que dizemos da água: transparente, abundante e envolvente. Seja como for, estamos vivos, a guerra acabou e outra há-de possivelmente começar.
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Ponto final.


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A mais curta história da traição - 21

Quando viu Judas vir com os soldados romanos, deixou-se prender. E Pedro negou tudo três vezes. Libertaram alguns presos porque era Páscoa. E Jesus foi levado para o lugar da caveira com uma cruz às costas.
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Ponto final.


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A mais curta arguição de mestrado - 20

"À Jô pelo seu calor". O objectivo é claro, o corpus estimulante e o método interdisciplinar. D. Broadway limitou-se à tradição crítica: “les lézards”. Contudo, postularia: “les arts lancent son jeu”. A prova foi elementar. Depois dos dois capítulos analíticos, a conclusão e a biblografia apresentam-se com razoável consistência. Somam-se ao projecto duas adendas, sete exemplares de cada uma.
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Ponto final.


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A mais curta arguição de doutoramento - 19

"À Ana pela sua companhia, de noite e de dia". Definiu seis objectivos e o método foi comparativo. P. Hawkins analisou o mesmo corpus e baseou-se numa parecida falha epistemológica, embora sem recorrer a idênticas fontes primárias. Assim se demonstrou claramante a natureza do sermão. Sem esquecer a vasta bibliografia e o tumultuoso oceano de notas, a conclusão denotou pertinência. Ao fim de dez anos adormecia no meio do pó.
e
Ponto final.


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A mais curta novela mexicana - 18

Carmen caiu pelas escadas e, depois de um suspiro, viu à sua frente o galã Javier. Lola aproveitou a altura para se vingar. Apertou o lenço embebido em clorofórmio na boca de Carmen, tirou a gravata a Javier e engoliu sem querer o microfone miniatura tinymike.
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Ponto final.


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A mais curta história de heranças - 17

Era uma vez um leão esfomeado. Enviei condolências e flores à família. Quando, anos depois, enviuvei, não tive a mais pequena dúvida: levei Meryl Streep de vez para o Quénia.
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Ponto final.


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A mais curta história nuclear - 16

A cena passa-se nos anos oitenta, nas vésperas do Day After. “Puxei tanto a brasa à minha sardinha que se queimou”, disse Afonso. “Por mim, sempre prefiro o solário!” replicou Ana. Morreram juntos a olhar para o mar.
e
Ponto final.


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Folhetim

O Trevo de Abel - Episódio 28
Segunda Parte: O tempo de Adão
Folhetim do Miniscente
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Era quase Natal quando Porfírio e Adão subiram de táxi até à velha casa de Campolide. A mãe do gigante embarcadiço das sete tatuagens, como sempre, abriu a porta com alegria e estupefacção. Enrolada em lágrimas e num grande xaile preto, a velha senhora tinha o tamanho de um único braço aberto do seu filho, mas, por outro lado, era dotada de uma voz fina e esganiçada que, por si só, fazia tremer os vidros da marquise. Comemos um abundante cozido à portuguesa e, ao longo da noite, à medida que uma garrafa de bagaço se ia esvaziando, combinámos todo o nosso plano, detalhe a detalhe.
No dia seguinte, seguimos para Porto Brandão no carro de um primo de Porfírio, emigrante nos longínquos petróleos da Líbia. Atravessámos a ponte e, a uns metros da entrada na aldeia, estacionámos a viatura e seguimos a pé pela ruela sem vivalma onde se erguem, meio secretas, as Tágides de Ulisses. Porfírio bateu à porta e, passados alguns momentos, surgiu uma das polacas que, talvez de modo imprudente, acabou por abrir a porta. Apareci de imediato e a reacção da rapariga foi de estertor, de desmedido pânico. Mas porquê? Perguntei eu. Rapidamente, percebi que algo de muito estranho se estava a passar... a avaliar até pelo aspecto da casa.
Estava tudo desarrumado, encardido; sentia-se um cheiro a fechado e a velho; havia copos partidos no chão, toalhas a cobrirem móveis, espinhas de peixe sobre a estante e pó por todo o lado. - Que é que se passou, rapariga? Mas a polaca tremia e apenas era capaz de dizer que tinha ali ido por causa de um senhor... e mais não conseguia transmitir, tal era o nervoso e sobretudo o medo. Olhava para nós como se fôssemos fantasmas, como se jamais ali pudéssemos ter aparecido. Empurrámo-la à força para dentro do carro e seguimos para a casa do primo do Porfírio, na parte de cima da Rua de Cruz de Alcântara. Interrogámos então a rapariga, mas não dizia palavra que se visse; até que com a ajuda de algumas festinhas mais agridoces lá contou tudo o que queríamos saber.
Sim, e a questão agora era esta: onde é que estava Sara? Não, afinal não estava em Barcelona, estava ainda cá... Voltámos rapidamente ao carro e corremos a toda a velocidade para a Gago Coutinho, através do frenesi terrível do trânsito de Lisboa, via eixo Norte-Sul e Segunda Circular. Depois, estacionámos o carro a uns cem metros do palacete e Porfírio concordou que era boa táctica a que lhe propunha. Ficámos a bolachas ao longo de toda a tarde e de todo o serão. Já era noite avançada, quando o embarcadiço de Campolide foi à bagagem buscar o caixote. Disse-lhe, na altura, que se aproximava o tempo da maior vigilância; era quase uma da manhã e os ares davam-se à maior das expectativas. O meu coração começou a bater, talvez de raiva.
Vi passar um ou dois carros de clientes. Paravam lá mais à frente e desapareciam depois pelo quintal, em direcção às garagens. À uma e meia, o Porfírio abriu finalmente a porta, piscou-me o olho e, com a sua habitual energia, disse à polaca: vá, cá par fora! A rapariga saiu e seguiu até à parte de trás do carro com o gigante do meu amigo. Reparei o modo asiático como ele inspeccionou o que se passava na rua até que abriu o porta-bagagens; depois, num gesto ágil e rápido, encafuou aí a polaca, tapou-lhe a boca e fechou a portada. Vestimos então as luvas, tirámos o material do caixote e garanto que senti o coração a bater ainda com mais intensidade. Lembrava-me agora tão bem da cara do pirotécnico Alonso, do halo diabólico e prestável do mordomo catalão; ouvia agora tão bem a voz fina e misteriosa que me falava por dentro; sentia, enfim, com tanta nitidez a estranha e prestável solidariedade do embarcadiço Porfírio.
Até que saímos do carro com um ar o mais normal possível e, depois, corremos até aos morros de terra que rodeiam, em ligeira cumeada, as traseiras do quintal. Observámos as operações por trás de um eucalipto e a rotina era a habitual: clientes que chegavam e que subiam. Atrás das cortinas, reconhecia-se o movimento dos quartos e cheguei a desvendar claramente uma ou outra russa com que eu próprio lidara nas Tágides. O que é que estes gajos me tramaram? O que pensam eles que eu sou? Por fim, foi já perto das duas da manhã que vi o mercedes preto meio blindado do Correia a entrar pelo quintal, debaixo dos arbustos. Deitei-me então atrás do muro e levantei a cabeça no hora h para observar o quadro.
Quando um dos garçons abriu a porta de trás do carro, apareceu o chefe dos Coimbras - era um tipo alto e magro com aspecto ministeriável. Do lugar do condutor surgiu, quase ao mesmo tempo, o Correia, vestido de blusa preta e lanterna apagada na mão. Até que... da porta dos fundos eu vi com os meus olhos e não me enganei; até que vi, repito, com os meus próprios olhos a Sara em pessoa, a sorrir, dirigindo-se ao chefe e beijando-o na boca. Eu vi e atirei-me ao chão. O Porfírio, por perto, mandou-me calar, que me acalmasse, que tivesse cuidado. Voltámos a subir aos morros e, em poucas palavras, contei tudo, de fio a pavio, ao Gigante de Campolide. Minutos depois, e já devidamente municiados, avançámos com vagar até ao muro e esperámos a altura exacta para agir.
Eram duas e vinte da manhã, quando Porfírio atingiu por trás o guarda-costas com um soco banguecoquiano. Seguimos depois sob os arbustos e heras pelo lado direito do palacete, correndo devagar e mantendo o corpo dobrado até à altura dos parapeitos das janelas. As sombras pareciam cobrir os nossos movimentos e o meu coração estrondeava e bramia de raiva; como podia aquela puta ter falado em paixão, em falinhas mansas com o Correia, em reformar a Rua das Flores? A gaja já, nessa altura, me andava a enganar e a tramar! Pelo menos, de alguma coisa me serviu o raio da polaca! Junto à porta de vidro que dá para o relvado, Porfírio fez-me um gesto breve e parámos os dois atrás dos frisos da parede.
Nesse instante abriu-se a porta de vidro e, de dentro do palacete, Sara saiu abraçada pelo tipo bem parecido, alto e magro. A voz dele era, de facto, a do gajo que me mandara torturar em Monsanto. Não havia dúvida... e poder agora ouvir com clareza o que ela lhe dizia, agarrada ao pescoço de girafa - Que estava parvamente apaixonada, que a uma pessoa com a vida dela... isso nunca antes tinha acontecido, que concordava... podíamos até dar uma volta ao mundo, etc. Num dado momento, aproximaram-se os dois da piscina e ali ficaram, de pé, durante alguns minutos, confidenciando traições e desejos, volúpias e insídias. Olhei para cima e o céu estava negro. Cheguei a pensar nos belos tratos da água da piscina, mas o Porfírio, mais lúcido, advertiu-me que a sala, por dentro, devia estar cheia de gente. Estaria mesmo?
Quando, segundos depois, por trás, o alarme foi dado - a nossa inocência foi não termos logo liquidado o guarda-costas - Porfírio disparou imediatamente sobre o chefe e eu corri e agarrei na puta da Sharon Stone, antes baleada num pé pela minha feliz pontaria. Tentámos ainda fugir pelo portão da frente do quintal até ao carro, mas, em pleno passeio aberto da Gago Coutinho, tornámo-nos em presa fácil para o enraivecido bando dos Coimbras. Porfírio ainda conseguiu fugir, ferido numa perna. Sara morreu no tiroteio. E quanto a mim, poderão ainda adivinhar o resto da história?

Júlia foi a mais rápida a tentar esboçar uma reacção.
- Para que cemitério é que foi enviado, desta vez?
- Eu vou sempre para os Prazeres, já se sabe. Mas, desta feita, antes ainda do funeral, apareci sentado num dos jardins do Paço do Lumiar. Nesse instante, eu olhava para cima e o céu já não era negro, juro. Estava tudo vermelho; era como se se estivesse a viver uma autêntica aurora boreal e, por dentro dos meus ouvidos, uma voz fina e misteriosa dizia-me: Sai, sai, sai desta cidade. E eu fui andando, andando; é verdade que durante quilómetros e quilómetros andei. Estranhamente, antes de sairmos do carro, eu tinha ficado no bolso com uma das carteiras que o Porfírio pousara sobre o tablier. Já depois de S. António de Cavaleiros, no meio do campo e cheio de fome, sobretudo exausto de mim e de tantas vidas sem nexo, verifiquei que a dita carteira estava cheia de cheques. Nem tudo parecia correr mal.
Quase ao fim da noite, roubei uma motorizada e fugi em direcção ao Cabo da Roca. Queria ver o mar, algo de insondável para lá me empurrava; era como se sentisse no meu destino as histórias de Preste e de Porfírio. Contudo, se desta vez me descobrissem, talvez fosse dado como assassino, pois, embora a escassas horas de ser enterrado, a polícia ainda decerto desconhecia o número exacto dos assaltantes que se haviam envolvido no tiroteio junto ao palacete e eu, pelo meu lado, mantinha a mesma fisionomia de um dos meliantes, assim como a falsa identidade que comprara em Barcelona.
Cheguei ao mar e perdi-me em lágrimas. Nem a traineira, ao fundo da íngreme encosta, me aquietou o espírito, ou me conformou o indomável monstro que eu sentia ser. Que iria ser da minha vida? Mas de que vida? Por que não morreria eu de vez, ao contrário de todos os mortais? Por que não me chamaria para o inferno a mulher paradisíaca de Ibn Wahb?
Subitamente... dei por mim a olhar, de modo fugaz, para a brevíssima luz daquela traineira meio fantasma que, entre o breu absoluto deste ocidental mar português, agora se perdia na escuridão da noite.
Na falésia deste abismado cabo, tão longe e ao mesmo tempo tão perto, diante do meu olhar inconformado, aquela barca distante agitava-me a consciência, assim como agitava as enigmáticas correntes do mar de tanta saudade. Nesse momento - como se algo de fundamental se passasse dentro de mim - eu senti de repente todo o silêncio, toda a mudez inexplicável do extremo mais extremo da Europa.
Era o concerto do mundo, o grande relógio da vida.
Por que estaria eu ali, afinal?
Isabel pareceu entender esta última pergunta e disse:
- Olhe, Abel, o azar é sempre o azar dos heróis, mas a ventura, essa, é, também, sempre a ventura dos heróis.
A ventura, avançou entretanto o narrador, é uma forma felicidade. Mas é a forma de felicidade que mais próxima está da desventura, como o cabo está do seu mar e as vidas estão umas das outras.
Seja a de Adão, de Caim ou a de Abel.
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Fim da Segunda Parte
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(continua)


quinta-feira, 10 de Novembro de 2005

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O mais curto ditado popular - 15

Galinha o pôs.
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Ponto final.


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A mais curta história de malteses - 14

Era uma vez um largo que era o centro do mundo na cidade de La Valletta.
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Ponto final.


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O mais curto relato apocalíptico - 13

Chegada ao último céu, a carroça aportou face ao trono divino e, do lado de fora da cena, alguém segredou – Baixa os máximos!
e
Ponto final.


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A mais curta história cretina - 12

Apertaram os ossos em Cnossos, não se viam há mais de cinquenta anos, mas tratavam-se ainda por “rapazes”.
e
Ponto final.


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A mais curta história fantástica - 11

E D. Sebastião não era hermafrodita, nem centauro. Mas, mal abria os olhos, encarnava ao mesmo tempo em Carry Grant e em Debra Kerr.
e
Ponto final.


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A mais curta história de terror - 10

Chegado ao inferno, Ceaucescu vibrou com incomparabile potenza e os condenados logo fugiram para o Limbo pela escadas de serviço.
e
Ponto final.


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O mais curto romance histórico - 9

E assim se provou que Santo Agostinho era afinal um bom português.
e
Ponto final.


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A mais curta autobiografia - 8

Almocei com Shackleton e Borges, no Verão de 1916, atravessei o Pacífico e voltei a Veneza como Marco Pólo para jantar com Coco Chanel.
e
Ponto final.


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A mais curta de um escritor maldito - 7

Deportado em Plutão, Céline voltou a inscrever reticências na página em branco.

Ponto final.


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O mais curto guião cinematográfico - 6

E Eva lá fugiu com a maçã. E o Diabo disse:
- It ain't over until the fat lady sings!
The End.
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Ponto final.


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A mais curta história de aventuras - 5

Ao fim destes anos todos, Mónica foi finalmente ter à Antártida com Clinton. E foram felizes ao longo da eternidade.
e
Ponto final.


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Folhetim

O Trevo de Abel - Episódio 27
Segunda Parte: O tempo de Adão
Folhetim do Miniscente
e

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Afinal, passaram mais de quarenta e oito horas até ao anúncio da partida, ainda em Colombo, do imenso Cruiser com destino a Roterdão. Depois de a meteorologia ter previsto o pior, apenas se haviam sentido algumas tempestades e borrascas entre os mares de Trivadrum e as proximidades do meridiano das Lakshadweep. A nova escala, entretanto anunciada pela capitania liberiano-holandesa, apontava para uma rota este-noroeste na direcção de Djibouti, já à entrada do Mar Vermelho e a sul de Maçuá, Mareb e Angote.
Ainda na capital do Sri Lanka, e depois de ultimados todos os sinais de partida, quem sabe se por feitiço do próprio destino, deu entrada na imensa nave um dos maiores amigos de há muito do português Porfírio, de nome Preste Nekemte. Segundo rezam as histórias de mar, é meio etíope, meio judeu e, sobretudo, diz-se, está sempre disposto a ornamentar as longas viagens com as mil e nevoentas histórias da sua antiga terra. No início das bonanças, na senda ainda distante das ilhas de Socotora, os três homens trabalharam e comeram juntos, mas, à noite, já em plena ascensão ao Mar Arábico, Porfírio foi quem mais narrou histórias do Oriente e de Portugal, enquanto, geralmente encostado ao beliche e mantendo até alguma prudência, o etíope, calado, se limitava a mascar um latex encarniçado com cheiro a erva.
Até que os seus olhos muito claros, cor de ostra fresca, ficaram subitamente acastanhados ou em tons de anil baço. Nessa altura, sentou-se no chão, abriu a pequena vela que transportava no bolso do macaco e, piscando o olho ao gigante de Campolide, contou:
- Entre este mar onde há dias acabou a tempestade, a antiga torre de Babel e a minha antiquíssima terra - no triangulo, cujo vértice fica no deserto de Rub’-Khalí - existiu, há milénios, um reino chamado de ‘reino da alma satisfeita’ e que não foi menos importante do que o reinos da Atlântida, de Alexandre, de César ou de Harún al-Rashíd. Na memória dos sábios, ao longo de muitas e muitas gerações, ficou escrita a palavra, o testemunho, a memória exacta. Vou-te contar, sobretudo a ti, amigo do meu amigo Porfírio, o que esse reino era para... que entendas a viagem que o destino te pediu que fizesses.
Nesse momento, Porfírio apertou a mão a Caim como que a persuadi-lo a escutar atentamente as palavras do aparente transfigurado mago do Índico. E Preste continuou:
- Nasci em Vijayanagar, em Gujarat, na Etiópia, de onde era natural metade da minha família. De resto, um dos ramos dos meus avós paternos era de Haifa e outro ramo dos meus avós maternos era originário das Ilhas de Socotra. A minha ascendência e também descendência, curiosamente, sempre se espalhou pelo território do velho reino. Talvez o meu caminho esteja assim ligado a ter que contar o que as centenas de avós de todos os meus avós sempre ouviram dizer e transmitiram. É isso o que dizem ser o mito, ou o conto.
- Mas onde é que ficava esse reino, exactamente? Perguntou Caim.
- Bom, a nossa terra estende-se, numa das fronteiras, até à extensão de cinco a seis meses em largura e, na outra das fronteiras, ninguém de verdade poderá afirmar até onde se alonga o nosso domínio. Esse lado desconhecido e de ouro está ligado ao que terá sido, durante toda a Antiguidade, o conjunto de nascentes daquele que é, hoje em dia, o Rio Nilo. Essas nascentes situavam-se então em abismos íngremes, talvez ilocalizáveis, e eram permanentemente alimentadas por águas férteis deste oceano Índico, depois de purificadas pelas conhecidas montanhas da lua. Estas montanhas eram dois gigantescos penhascos que, tal como as mamoas pré-históricas e os relevos de Ceilão, eram semelhantes a duas mamas de mulher com os respectivos mamilos, e no topo dos quais havia sempre neve e calor ao mesmo tempo, durante todo o ano; e era de lá que se via, a olho nu e entre nuvens finas, todo o reino na sua amplitude: desde a aura da Babilónia antiga, ao berço do sol e daí, entre um descomunal arco-íris de 14 cores, até à Índia posterior e anterior das monções. Contudo, sempre existiram partes desse reino que não podiam ser conhecidas; quem sabe se, porventura, essas partes são as cordilheiras verdejantes e de fogo que, neste preciso momento, sob a nossa presença, o Oceano Índico cobre e oculta? Só quem puder contar as estrelas ao céu e as areias ao mar, poderá alguma vez imaginar a dimensão das terras desse antigo reino e todo o seu poder.
- E por que tem o Prestes a necessidade de contar a história desse seu reino? Voltou a inquirir Caim.
- Porque nesse reino havia de tudo e, hoje em dia, o homem só já vive de amnésias e não mais de mitos ou contos. E porque, se há pessoa que não entende claramente o seu próprio destino - dizia-se no meu reino antigo - é porque, de qualquer maneira, ainda está presa a outro tempo, a outra encarnação, a outro devir por cumprir. É possível até, segundo o que o Porfírio me contou, que na sua vida, caro Caim de Lisboa, haja coisas por explicar que melhor se virão a aclarar... ao conhecer o que lhe conto agora. Já imaginou o que acontecia se... fosse espreitado por uma mulher sua que, a partir do céu, o visse a pensar numa outra? Não ouviu contar a história atribuída a Ibn Wahb?
-Sim.
-Pois bem, se o seu destino quis, um dia, atravessar este meu reino é porque há algo nesse seu destino que o liga a algo do meu reino. É tudo.
-Mas o que é que havia nesse seu reino, de facto?
-Olhe, tome bem atenção: nesse meu reino havia de tudo, ou seja, havia burros selvagens de cinco patas, homens de cornos e sem dentes, monstros com olhos no peito e antebraços na anca; mulheres de barba e crista, pigmeus albinos sem mãos e aves subterrâneas como minhocas. Mas nesse meu reino também escorria mel e abundava leite e ouro e, por outro lado, atente a isso, os homens adoravam troncos em forma de cruz e raízes a que chamavam assídio, cujo fim era o de afugentar os males e obrigar os maus espíritos e as esmeraldas do oriente a desaparecerem. Nesta terra, por fim, os homens viviam várias vidas e viam amiúde o céu com a mesma cor que a casca dos frutos silvestres contemplam as suas graínhas.

As noites seguintes encheram-se deste tipo de conversas e lendas. Entre o convés, a ponte, os vastos beliches do porão e a ré, Caim, Porfírio e Preste trocaram as imaginações mais dilaceradas e desconhecidas e fizeram-no como se, entre eles, desde sempre, uma intimidade profunda tivesse sido cultivada. Até que o Cruiser se aproximou do Corno de África e entrou no esplendor cintilante das águas do Golfo de Aden. Djibouti, ao fundo do novo cenário, desliza entre o planalto do continente e as praias serenas de coral e marés frágeis, precisamente onde o golfo acaba e o mítico Mar Vermelho se prenuncia. Terra cosmopolita, quente e rigorosamente branca de ponta a ponta, protegida pela baía de Tadjoura e aberta à lassidão e ao quebranto de África oriental, Djibouti vive sobretudo da passagem marítima e do término dos caminhos de ferro. À volta, a paisagem de Afar é inóspita, pedregosa, sem fim. Talvez também por isso, a cidade se feche, hoje em dia, em mistérios tal como o Rio Ambuli, subterrâneo, que é um dos alimentos potáveis da urbe.
Sob uma atmosfera quente e pesada, apesar da altura do ano, Caim e os dois amigos passaram quase uma tarde inteira na Praça Central de Menelik, antes de Preste tomar o comboio nocturno para Addis Abeba. Tempo de suspensão da alma, de encantamento do sorriso, de tradução da esperança por uma simples e despreocupada quietude; sumos de coco a entreter a delonga e o anúncio - entretanto comunicado - das próximas duas escalas da viagem: Pireu e Lisboa, antes de Roterdão. No meio da bela modorra e até prostração do tempo africano, Caim foi como que subitamente levado a cortar a respiração e quase começou a falar, mas logo acabou por ceder. Instantes depois, sem conseguir impedir-se, sem percalços e medos, disse finalmente a Porfírio e ao enigmático Preste Nekemte o que tinha para dizer:
- Também conheço reinos sem explicação e que, por sinal, não são doutro tempo, ou seja, por outras palavras, eu já vivi uma vida antes desta e sei muito bem o que digo. E conto-vos mais: enquanto morri, vivi. Ou seja, enquanto me faziam o funeral, apareci na mesma cidade de Lisboa sentado num banco de jardim. Jamais uma tal coisa poderá ser percebida, explicada, ou mesmo dita. Não sei porquê, se é da imobilidade mágica desta cidade, se foram as vossas histórias contagiantes de gente de mar e do mito e do conto, mas a verdade é que, por trás desta minha recente tatuagem no braço, existia uma outra pessoa completamente diferente. Acreditem que já fui cantor e homem de televisão de muito importância no meu país e que, desde há algum tempo, voltei a ser outra coisa, não sei bem o quê. Nesta nova vida, ouve quem me traísse. Vou agora regressar a Lisboa para ajustar contas, para fazer o que os antigos heróis faziam com as suas próprias mãos. Regresso... para agir como essa mulher que estava no céu, segundo a lenda de Ibn Wahb; ou seja, que penalizou a quem antes - na terra - ela mesma fora leal. Penso que foi Deus ou o fado quem fez com que nos encontrássemos para eu melhor entender o que fazer... e sobretudo para ter coragem de contar o que vos contei agora. Não sei bem mais o que dizer...
Preste levou o coco à boca e, depois de cautelosamente pousar a palhinha sobre a mesa, disse com lentidão:
- Também é uma boa história, essa!
Porfírio, olhando de frente para Preste Rekemte, enviou para longe o fumo do cigarro de Ceilão e exclamou, meio a sorrir, meio a folgar com o ambiente de perfeita indolência:
- É, de facto, uma óptima história!


quarta-feira, 9 de Novembro de 2005

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O mais curto enredo épico - 4

D. Sebastião e Carlos Magno deram a volta ao mundo até que se encontraram no nevoeiro das arribas do Guincho. Disse então o segundo - Quem salta primeiro?
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Ponto final.


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A mais curta peça de teatro - 3

Aristeu - De que modo morrem as árvores?
Genovévia - Quem sabe se… de pé!
d
Ponto final.


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A mais curta história de fadas - 2

D. Pedro ressuscitou em Alcobaça e não viu Inês em sua frente. Ela, vinda de trás, tapou-lhe os olhos e perguntou – Adivinha quem é?r
e
ponto final.


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A mais curta história policial - 1

Deus apareceu sobre o muro do quintal e Rosário disse – Foste tu! Ele sorriu e adiou para sempre o julgamento final.
rr
ponto final.


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Notícia, rapina e incêndios

Público
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O modo enérgico e quase épico com que, hoje às 7 e meia da manhã, a TSF anunciava os dois automóveis incendiados na Amadora é coisa que faz pensar. Não estou a dizer que tivesse havido vontade de cobertura de um potencial rastilho social que facilmente arderia entre nós, à imagem do que está a acontecer na permeabilidade das terras francesas. Mas a apetência por factos que se tornem em notícia de primeira água (e em meta-ocorrência) é tal que a locução e a ilocução logo se alteram quando parece haver presa desejada no horizonte.


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Folhetim

O Trevo de Abel - Episódio 26
Segunda Parte: O tempo de Adão
Folhetim do Miniscente
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Da amurada do imenso Cruiser, Caim viu a tranquila Península de Malaca chegar ao seu termo, entre neblinas, obscuridades e o rochedo mágico de Batu-Ribn que é adorado pelos pigmeus de Semang. Mais a sul, algumas horas depois, a cidade dos Leões, ou Singapura, surgiria subitamente luminosa no envidraçado dos seus arranha-céus que mais pareciam submergir das águas baças e espessas onde abundam sobretudo tonkogs, as famosas barcaças de junco, caruma e velas escuras de que é alimentada a grande metrópole flutuante. Singapura é o ancoradouro por excelência onde a Ásia se inicia e acaba e, ao mesmo tempo, é o legendário entreposto que une o Mar da China ao Grande Índico. Aqui, quase todos os navios do universo fazem escala e as histórias que se contam ficam sempre a meio, por reinventar; até porque os seus narradores vivem de visões, de devaneios da perpétua viagem; de sonhos de passagem, de miragens e desejos, talvez, quem sabe, à procura de um fim predestinado.
Ao início da tarde, Porfírio e Caim juntaram-se a alguns portugueses de Malaca, amigos do gigante das sete tatuagens de Campolide. Comeram pato de Bornéu e porco doce chinês na Ground Road e, durante umas horas, depois da nostalgia de uma prova de vinho de Colares, secularmente engarrafado, visitaram a River Valley, a Hill Street e o conhecido jardim botânico. Logo que a noite começou a cair, húmida e quente, o Cruiser retomou finalmente as suas manobras e, sob o olhar contemplativo de mil malaios empoleirados em autênticas ilhas de estacas e rede, Singapura haveria irremediavelmente de ficar para trás, sob as chuvas calmas e regulares que animam a proximidade meridiana do equador. Pela frente, a longa travessia destina-se agora à escala de Colombo, no Sri Lanka. Rota bem definida, mais ou menos paralela ao equador e reservando a Caim, ao longo do dia, algum trabalho de limpeza apenas no convés e junto à ré, onde a grande hélice já vai desenhando um leque de espuma a perder de vista. A carga do colossal Cruiser é constituída basicamente por automóveis japoneses, produtos têxteis e material electrónico. Foi com lentidão que esta grande massa de aço, durante noites e noites longas, começou por penetrar no mar de Andaman.
Porfírio terá protegido o desamparado Caim, conseguiu arranjar-lhe trabalho leve e até um beliche razoável no Cruiser transatlântico, embora as histórias entre ambos estejam ainda e sempre por revelar; por acontecer. Provavelmente, nunca nada virá a explicar por que é que uma mão se dá a outra, num momento em que, de repente, o futuro deixa de existir e o presente se torna num espectro sem silhueta, ou mesmo numa cova negra sem qualquer saída. Há um tempo atrás, Sara aparecera em Barcelona a cumprir esse mesmo papel e agora, sem mais, nos antípodas do seu mundo e de uma primeira vida já vivida, Caim voltava a olhar para o mar da existência com uma esperança algo surpreendida. Não é raro que Caim enjoe e viage dias a fio quase deitado, ou reclinado - convulsivo, sôfrego e lunático; noutras alturas, revê apenas o espectáculo distante de uma imensa tromba de água no horizonte, como aconteceu já a sul das Ilhas de Nincobar; ou empurra com a vassoura baldes e mais baldes de água suja com que a tradição matinal manda limpar o convés.
Ao longe, duas semanas depois, a Ilha de Ceilão surge como um verdadeiro paraíso, ou seja, como o local onde os sete céus coincidem com a extremidade do Pico de Adão ou com o ponto mais alto do Monte Pedrotagalla, para já não falar da elevação de Kirigalpotta, venerada há séculos por budistas. Durante a aproximação à grande ilha, Porfírio, encostado à murada, aproveitando as últimas folgas no trabalho de bordo, contou a Caim algumas das histórias acerca do chamado umbigo do mundo, tal como a gíria marítima lhe chama, relatadas, ao longo dos tempos, por embarcadiços ou estivadores seus amigos:
- O que me disseram sempre... foi que, aqui, há muito milhares de anos, esta ilha também se chamava a ilha de Sarandib e que o Pico de Adão era então conhecido por Monte do Jacinto. Ora, o paraíso, como diziam os antigos nessa altura, teria nos píncaros do Monte de Jacinto a sua parte intermédia, o que quer dizer, segundo gente que sabe, velhos sábios... até porque dantes as pessoas duravam mil anos, ou mesmo mais; o que quer dizer, dizia eu, que foi nesse Pico altíssimo - Porfírio, de cigarro na boca, aponta agora na direcção da montanha - que Adão e Eva viveram a cena da maçã proibida, estás a ver do que falo, não é? Segundo essa lenda... que aqui mesmo, nestas praias, toda a gente conhece, é desse ponto alto do paraíso que, um dia, se lançaram à terra as sementes dos homens justos e mais: todos os que pecam nesta vida... voltam também, mas apenas em espírito, a esse mesmo paraíso do Monte Jacinto, embora só depois de experimentar o fogo do inferno que se esconde, debaixo da ilha de Sarandib, no fundo da terra. Acerca disto tudo, há uma história que um marinheiro do rochedo de Iémen, aliás meu conhecido há mais de vinte anos, repetia todas as noites nestas nossas andanças; essa história, vou ver se ainda me lembro bem dela, dizia assim:
- A uma das mulheres que vivia no paraíso, falou uma voz que vinha das nuvens mais altas do Pico de Adão e disse-lhe: Tens porventura o desejo de ver o teu esposo que ainda vive no mundo dos terrenos? E ela, essa mulher que morrera jovem e bela, pairando sobre os picos do Monte Jacinto, respondeu que sim. E logo, de imediato, os véus lhe foram retirados do rosto e com eles as nuvens que tudo cobriam, podendo a dita mulher, a partir daí, ver claramente este nosso planeta de mortais; ao olhar o mundo, nesse preciso momento, viu a mulher o seu marido deitado num pequeno barco de pescadores de Negombo. Enquanto atentamente olhava para o marido, a voz que vinha das nuvens disse à mulher que não se esquecesse de o desejar mais tarde no paraíso, do mesmo modo que, antes, ela sempre o desejara após as longas noites de pesca. No entanto, passado alguns instantes, a mulher acabou por verificar que os pensamentos do marido estavam agora absorvidos por uma outra mulher, também habitante do mundo dos mortais. E, recolocando de novo o véu no seu olhar choroso, a mulher do paraíso gritou e gemeu com ardor, na direcção das nuvens silenciosas do Monte Jacinto: Ó desgraçado, por que me abandonaste? Não vês que esses teus perversos pensamentos e tentações hão-de apenas durar umas quantas noites? Diz a lenda que, nessa mesma semana, uma tempestade fulminante e assombrosa o levou em trágico naufrágio. E, desse modo, foi o homem direitinho ao fogo infernal que se esconde, como já disse, debaixo destas águas, na profundidade da Ilha de Ceilão. Dizia o meu amigo do Iémen, o Basan, que isto era uma lenda antiga contada por um homem muito sábio de nome Ibn Wahb.
- Sabes muitas histórias, Porfírio... aprendeste-as todas no mar?
- Tudo o que aprendi, aprendi-o aqui, no mar, entre portos e lendas... e muitas outras coisas. Sou capaz de misturar línguas, de comer copos de vidro, assoprar lume e fazer... como é que dizem... o kamasutra com ervas de Quilon e pau de Nellore. Posso não ter estudado, mas sou capaz de passar horas e horas a contar-te coisas que já vivi e histórias que nem te passam pela cabeça, homem!
-Também eu tenho uma história que não passa pela cabeça de nenhum mortal, juro.
Porfírio apenas sorriu e nem chegou a reagir à inesperada arremetida de Caim.
Fez-se silêncio, qual coro sigiloso de olhares mútuos, quem sabe, se distantes, se próximos? Após a curta pausa, deu-se início à amarração. Ambos os homens deram então uma rápida volta ao convés e esforçaram-se depois nas tarefas de acostagem. Dos lados de Comorim, a brisa é agora morna, amena; convidaria a um descanso que ninguém aqui chega a sonhar ou sequer a imaginar. No porto desta cidade de Colombo, junto ao cais, aparece gente com turbante alaranjado e braceletes de metal; surgem flautas para ofídios e muitas bancas de tecidos brilhantes e coloridos; mais ao longe, vêem-se linhas densas de coqueiros e, de entre a água lodosa e sombria, desponta um cheiro acre, indefinível, onde se mistura carvão, folhagem de chá, talvez caril. Aproxima-se um dia de paragem - mera escala técnica - que, no entanto, anuncia muito trabalho de braços, muito vaivém entre doca, porão e convés.
- Maldito seja aquele Correia, aquele Coimbra e aquele desnaturado do Did-Abha, estilo dentinho de coelho tímido! Maldito seja quem tramou esta minha segunda vida que a primeira apagou. E eu, agora... obrigado a estes sacrifícios e trabalhos, por paga e castigo, talvez... a redimir-me, a expiar-me, a resgatar-me... mas de quê?


terça-feira, 8 de Novembro de 2005

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Valerá a pena ler e lançar?

Como sou um misantropo incorrigível, pergunto, em voz alta, ao terreiro público da blogosfera:
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- Se algum dos 33 poetas citados e exemplificados no meu último livro (A Novíssima Poesia Portuguesa e a Experiência Estética Contemporânea) quiser colaborar comigo num lançamento / leitura, eu estou disponível!


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Risível - 6

Jan van Steen
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O absurdo que resulta do cómico consiste numa espécie de movimento sem retorno que o riso parece anunciar e (ameaçar) em cada momento em que se faz acto. Como se o ‘riso sem fim’ fosse uma espécie de horizonte que se desenha no sujeito que ri, através de um sentimento simultâneo da atracção e de temor. É aí, nesse subliminar sonho que se sonha acordado, que o devir da loucura e a tensão do prazer se encontram. No verdadeiro limite de um abismo que é tão inconfessável, quanto inexplicável. Tal como a música, diria Kant.


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Folhetim

O Trevo de Abel – Episódio 25
Segunda Parte – O tempo de Adão
Folhetim do Miniscente
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Caim esperou até à meia-noite, uma da manhã; duas e três da alvorada e nada. Regressou ao hotel, sem contactos e com dinheiro apenas para uma ou duas noites confortáveis como a que tinha acabado de passar no Holliday Inn. Tentou telefonar para Portugal e nada. Abriu a carteira, já nervoso, e reparou que a data marcada no bilhete do voo de regresso a Amesterdão-Lisboa era a desse mesmo dia que estava agora a nascer... para as 10 e 15 da manhã. Como era possível atravessar esta Tailândia inteira, entre Nong Khai e Banguecoque, em pouco mais de 3 ou 4 horas? Como? Caim telefonou para o aeroporto local, mas os poucos voos estavam superlotados e as listas de espera eram enormes. Os preços dos táxis aéreos eram ainda mais insuportáveis, impossíveis mesmo. No restaurante, apenas lhe foi dito e redito que não existia, naquelas paragens, qualquer senhor baixinho e nutrido, de nome Long. Caim estava desesperado como havia estado naquele dia em que fugira do Jardim da Estrela para a Bica e daí para Badajoz, Espanha, o mundo... até conhecer Sara e o resto tudo até aqui e agora, neste inóspito norte da Indochina. Caim estava só, sem recursos; sem conseguir sequer ouvir uma voz que fosse do outro lado das ligações telefónicas.
Choveu o dia todo, trovejava; as nuvens vinham rápidas da zona do Laos e Caim viu-se obrigado a regressar ao quarto. Sem saber para onde se virar e fumando desalmadamente, o nosso homem tentava, apesar de tudo, decidir o que fazer, onde se dirigir, que magicar. Parecia um leão dentro de uma jaula, aflito, faminto, sem ver esperança para além dos vidros do quarto do hotel. Relâmpagos e mais relâmpagos atordoaram o fim da manhã e o início da tarde. A essa hora, Caim pagou o hotel e acabou por comprar o bilhete para o habitual comboio da noite. Banguecoque era, para já, o destino escolhido. Depois se veria.
Ao longo da viagem, o nosso Caim, aflito e consumido, reviu as montanhas íngremes a norte do Mekong; reviu depois a lenta descida até à planície central, cheia de florestas de teáceas, ébanos e belas madeiras sândalo; reviu colinas e terrenos mais chãos, repletos de elefantes, templos amarelados e búfalos; de mulheres, aves brancas e crianças dizendo adeus ao comboio; viu intermináveis campos de arroz e aldeias e mais aldeias com mil tecedeiras e árvores do céu; reviu campos de algodão, milho e mandioca; reviu as terras argilosas e pantanais na confluência do Ping e do Nan; reviu os arrabaldes da grande cidade e a desmedida nuvem de poluição que lhe faz aura; reviu, por fim, já na madrugada seguinte, a mesma estação de caminhos-de-ferro de Banguecoque onde fora enganado pelo Sr. Did-Abha, o tal abutre cínico que sorria em falsete com estilo dentinho de coelho tímido. - Como me pude eu deixar enganar? Isto foi coisa do Correia, dos Coimbrãs! Os filhos da puta! E agora o que vai ser da minha vida? Pensou em voz alta Caim em pleno hall da estação monumental de Banguecoque.
Caim andou a pé dezenas e dezenas de quilómetros. Passou pela cidade velha e viu as magníficas chapas de ouro do Mahaprasot; passou por P´hrabat e viu as fabulosas pegadas de Buda; passou pelos exuberantes jardins das muralhas e viu as esmeraldas do mau-olhado; passou por perto das mil balsas de bambu, espalhadas nas águas da dançarina Thai, e viu tudo muito mal parado. No entanto, Caim passou por todo o lado e nunca desistiu, nem nunca vergou, embora em cada cabine telefónica fosse sempre o mesmo vazio; em cada caixa multibanco fosse sempre a mesma recusa; em cada hotel fossem sempre os mesmos preços assustadores. Que fazer?
- O cabrão do Did-Abha... de certeza que me trocou o bilhete de avião, enquanto eu dormia na viagem. E o que é que me terão tramado no cartão de crédito? Será isto uma cilada, uma rasteira; um ardil ou uma simples armadilha? Uma delas é de certeza, pensou Caim em voz mais baixinha, depois de se ter aproximado da zona do porto e de se ter estafado ao longo de quilómetros e quilómetros, o que lhe fez lembrar aquele dia, em Cascais, quando Sara correu, correu e correu sem fim. Entre guindastes, paredões e navios altíssimos de porte e calibre; entre cabos de aço, cadeias e motores; entre contentores, carros japoneses e uma maresia a saber a zinco... Caim foi-se perdendo no ambiente portuário, até que entrou num bairro de construções baixas e bastante humildes, porventura à procura de uma pensão barata e protegida. E foi num dos pobres restaurantes indianos da zona, entre galos e serpentes amestradas, gatos felpudos e gaiolas de aves de todos os tinires e zunires que, talvez por providência ou luso fado, lhe apareceu o Porfírio, embarcadiço gigante de longa experiência e alguma idade, marinheiro de sete tatuagens de Campolide. - Homem, você está perdido ou quê? Se quer uma ajudazinha, ouça-me bem. Fica aqui a trabalhar no restaurante comigo mais uma semanita e temos barco para Roterdão, depois, no dia 15. - Só no dia 15? - Ó amigo antes não há! Se quer voltar a casa e não tem cheta, só lhe resta fazer o que lhe digo. Está a ver aquela varanda emadeirada? Pois é ali que eu costumo dormir. Aqui ganha-se para comer e ainda molhamos o prego, com cuidado, claro, se for o caso. Gosta mais de mulheres ou de meninos? - Então isso nem se pergunta, sou português e homem como você! - Perguntar não ofende, amigo, então não é? E... por estas terras há de tudo, já se sabe.
Caim assentou arraiais na pensão do indiano-tailandês Pandya e partilhou a exígua divisão com Porfírio durante uma semana e mais quatro dias.

Os repuxos do lago do Príncipe Real começam agora a recortar a neblina violeta que, a nascente, parece querer descobrir, por eflúvios, vagas e lassidão da aragem fria, o nascer de mais uma jornada. Novo dia já pressentido pelo grande grupo, liderado pela narração impiedosa de Abel, neste momento - talvez para ganhar fôlego - ainda encostado ao monumento que foi um dia erigido à memória de António França Borges, o fundador do jornal O Mundo. Júlia, Isabel e Dona Joana encostam-se às traseiras do banco mais próximo, enquanto os indianos abrem a boca e os brasileiros, nostálgicos da pura natureza, se perdem a ouvir o canto dos primeiros pássaros. Apenas o deputado olha para o relógio, no preciso instante em que o sapateiro Palmeirim, para trás e para a frente sobre o orvalho do canteiro, parece amiúde falar sozinho. Um cheiro a limão invade Lisboa neste fim de longa noite; do coreto antigo parece a brisa desenhar o claro som de um violoncelo; dos olhos vermelhos de Abel emana a simples visão ou a história fiel de quem foi possuído pelo destino; Sobre o monumento pousa e levanta asas o corvo negro e, por tudo isto ou talvez por nada, ouviu-se dizer na voz fina e misteriosa de Palmeirim: - Rogo ao destino para que todos vós, que me deixastes entre estes sinais abrasados, não conheçam sequer a morte, e que a vida vos seja o que no corvo cacareja apenas de e pela verdade!
Geralmente ninguém entende a ambiguidade da voz de Delfos que fala pelos lábios do sapateiro Palmeirim, com costados de Belmonte, e que é natural dos antigos Remolares alfacinhas. Contudo, Isabel e Júlia sorriram e Abel parece até ter descansado a sua expressão densa e carregada. - E quando é que embarcaram... Caim e Porfírio? Perguntou o Sr. Gouveia, por trás das largas olheiras negras que lhe avivam as maçãs do rosto. Abel ouviu, pensou e logo continuou a sua narração, imperturbável, alheio às horas e a tudo:
- Ali fiquei uns dez dias nas turvas águas de Banguecoque. Ali fiquei aportado naqueles misteriosos bancos de bruma e humidade suspensa. Ali fiquei com o gigante Porfírio, numa casa a dez metros das balças onde um homem lavava a cara, o pescoço ou o queixo, e onde a mulher utilizava a mesmíssima água para cozer o arroz; onde os patos, de asas abertas e bicos longilíneos, se entretinham a chapinhar em solidariedade com as crianças que, por seu lado, rugiam e brincavam sobre as águas acastanhadas, quase soturnas, sempre ladeadas por embarcações a remos, repletas de legumes, transístores, ou garrafas de sumo de limonada. Passava já de meados de Novembro e eu estava farto dos cheiros agridoces a gengibre, pimenta e ao vazio de quem não tem nada na carteira; estava farto da saturação do ar, da palha molhada, da verga e das cascas secas a boiarem na água oleada e preta; estava farto do ruído dos guindastes, das ventoinhas da gare do porto, do brado insistente dos vendedores de massagens; estava farto até dos estilhaços de palavras portuguesas ainda errantes no reino de Sião; estava farto, mas ao mesmo tempo, fascinado e desejoso de estar naquele preciso lugar, para sempre... embora noutra condição, noutro contexto, noutra companhia. Junto a Sara, por exemplo, envolvido por estatuetas e belos sumos e sons, sentado com os pés suspensos no cais envidraçado do Hotel Oriental, à beira do Menan, provando iguarias raras e lendo, depois do chá, um livro da Agatha Christie que também ali se hospedou. Passava já de meados de Novembro, creio que a 17 ou 18, quando finalmente embarcámos com destino a Roterdão.
Que vida a minha!


segunda-feira, 7 de Novembro de 2005

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Paris and elsewhere

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Num dos lados do Atlântico, muitos foram secularmente os que entraram sem quaisquer promessas de subvenção e, apesar disso, a história das Américas foi lentamente abrindo um lento, real e, bastantes vezes, arriscado leque de possibilidades e de oportunidades. No entanto, saber a que mundo se pertence, mesmo se recheado de clivagens e de aberturas incertas, é já uma grande vantagem para a integração natural (não intelectualizada ou sonhada nos laboratórios "multiculturais").
Noutro dos lados do mar, muitos foram também os que entraram e, de um dia para o outro, viram os seus filhos nascer num mundo desenhado pelo peso do estado, pelas subvenções e sobretudo pelo fechamento tradicional. Diga-se que não saber a que mundo se pertence é um dos maiores e mais terríveis espectros da história (os mouriscos expulsos de Espanha, no início do século XVII, constituem a esse respeito um exemplo tão esquecido quanto extraordinário).
Estas são duas das formas - entre algumas outras - de entrever o mundo contemporâneo e futuro, mundo onde a mistura global faz e fará, cada vez mais, a sua própria lei. Não há, em nenhum dos casos, soluções perfeitas. Contudo, creio que a Europa vai ter que parar para pensar. Sempre que a Europa parou, nos últimos anos, foi porque bloqueou e não porque quis renascer numa direcção mais adequada.
Talvez seja por isso que o reverso da al-Qaeda se está agora a manifestar nas áreas da Europa que, nos últimos quatro anos, mais relativaram o perigo hiperterrorista. É sintomático que o calcanhares de Aquiles seja o primeiro a ceder. Reimaginar a democracia como modo de garantir a liberdade é, hoje em dia, também, repensar o modo como a Europa rica pensa, ou não, continuar a comprar a diferença, as minorias, a pobreza e as inevitáveis desigualdades. Há coisas que não se compram. Mas há coisas que se pagam. Inquestionavelmente.


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Risível - 5

Jan van Steen
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Eça fala do ócio em quase toda a sua obra, ou seja, escreve sobre esse mundo frugal em que os personagens se referem a gestas e afazeres alheios, mas onde o que conta verdadeiramente é o quadro vivo onde se move a cupidez, a inveja menor, a intriga, o desejo contido, o egoísmo e o acacianismo como causa superior. No fundo, Eça ri-se do mundo que melhor conhece, do ambiente a que regressa entre o idílio cosmopolita e a sala de estudo arranjada por Jacinto, que tinha a um canto um molho de varapaus e bem próximo o cheiro a favas. Ao rir-se do seu mundo profundo, Eça riu-se de si próprio por comprazimento seu, mas fê-lo sem grande alarde, deixando o verdadeiro espalhafato para a subtil troça com que o Portugal de hoje ainda é bafejado.


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Folhetim

O Trevo de Abel – Episódio 24
Segunda Parte – O tempo de Adão
Folhetim do Miniscente
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Caim voou para Banguecoque acompanhado de um senhor alto, magro, franzino e sobretudo sorridente, mais parecia um desses retoques de Hergé desenhados para o comprazimento de Tintim em luta com os Dupont, algures em terras do nascente oriental. Raramente o dito Sr. Did-Abha disse palavra ou gesto mais rasgado que se visse, ao longo das muitas horas de cruzeiro e turbulência, agraciadas pelo bombordo do enorme avião holandês. Na véspera, à noite, Correia tinha conduzido Caim a um restaurante chinês no Alto da Ajuda e foi aí que conheceu, pela primeira vez, os dotes hieráticos, estilo dentinho de coelho tímido, que eram próprios do riso contido de Did-Abha, seu companheiro de viagem. Ao fim de sete horas e meia de voo, aterrámos no meio do mais impiedoso dos desertos e vimos, pouco depois, a nave aproximar-se de um extraordinário e aerodinâmico tubo de metal e vidro, rodeado por todo o tipo de eclécticas mangas e aeronaves em trânsito. Era o Dubai, envolvido por dunas altas, outras mais extensas e breves, de cor de mugem e jade, tingida de gema em tons pastel, apesar das penumbras que voejavam ao ritmo das nuvens mais altas. Foi durante a única escala da viagem, no meio de lentas e acidentadas escadas rolantes, que Did-Abha me contou os detalhes do plano, aliás num razoável Português misturado, imagino, com a antiga língua dos de Sião:
- Quando chegarmos a Banguecoque, você vai logo comigo para a estação e rapidamente, uma meia hora depois, partirá para Nong Khai. É uma viagem longa de comboio, cerca de doze horas, e, pelo caminho, passará por Korat e pela zona de Ubon. No dia seguinte, depois de se refazer de sonos, irá jantar a um restaurante vietnamita situado no centro, o muito conhecido Thai-meo, e, às dez e meia da noite - fixe bem esta hora -, um senhor de fato azul, baixo e nutrido, de nome Long, dirigir-se-á a si. Terá de lhe dar este envelope e esperar. Verá que depois receberá tudo, mas tudo o que precisa. O pagamento, esse, é comigo. Ou seja, quando chegarmos à estação de Banguecoque, vamos juntos a um dos bancos que aí existem e, na minha frente, faz-se logo a transferência que ficou acertada ontem em Lisboa, combinado? Claro, quanto ao regresso, já estamos conversados; creio que o Correia já lhe deve ter contado, a seu tempo, a história toda, não é assim?
É evidente que, recurvado no meu silêncio e habituado a ser travesti de riscos e vidas duplas, mais não fiz do que limitar-me a concordar, enquanto, com os olhos, me ia secretamente apaixonando pelas mulheres veladas e sem rosto; pelos carros japoneses expostos sobre piras de mármore em movimento e, por fim, pela arquitectura celestial que, de dentro do aeroporto, nos dava a ver o deserto como se fosse um puro momento do gravitas; sem espaço, tempo, vida, ecos e referências. E foi com essa carência ou excesso de ritmos e cadências, misturado com visões e saudades das canjas e cozidos de Porto Brandão, que vi o avião bramindo entre os ares do Índico, com destino agora marcado para as terras dos pagodes de ouro, onde existem estanhos de brilho raro e até antigas pegadas de Buda.
Antes de aterrar dormitei e pelas brasas desse sono, revi Sara na montada de um camelo como se pairasse por sobre as vidraças do Dubai e eu, cá em baixo, aflito, com medo que a flagelassem com pedras na mão. Mas que teria ela feita? Perguntava. Mas que segunda vida é esta minha? Insistia ela face ao Emir de longas vestes de seda; quando voltei a olhar para as escadas rolantes... que não resistiam, contudo, à desmedida turbulência, vi então que o pobre Did-Abha fechara o transístor e me dissera a rir: o Sporting perdeu. Foi nessa altura, ao levantar a cabeça, que nitidamente reparei que a minha Sara não voava coisa nenhuma, nem ninguém lhe queria afinal fazer mal. Foi com este alívio pueril e real, entre o sono e a toada dos jactos, que vi na minha frente a boneca da holandesa, hospedeira vestida de verde-claro até nos olhos, a dizer-me que tinha que endireitar o banco e pôr o cinto de segurança. Por baixo, surgiam campos de arroz, água amarelada ou de um azul cor de palha escura e, por fim, a longa pista e muitas palmas.
O táxi fez um longo caminho até chegar à margem do rio Menan que separa a velha da nova cidade. Para trás, ficaram os magníficos cones de ouro do Templo da Aurora ou de Wat-Cheng, ou ainda as muralhas e as barcaças de bambu caldeadas ao longo das águas meio paradas do rio; para trás, ficava também a rapidez da viagem, o cansaço do voo e o suor acumulado pela sonolência prolongada. A estação das chuvas parecia, a pouco e pouco, ter já acabado e algum frio invadia agora, pelo lado norte, a imensa Baía de Sião. Did-Abha sorria com os seus finos dentes de coelho tímido e, num repente, apontou-me para o enorme edifício que dominava a praça onde acabámos por parar. Era a estação de caminho de ferro, cuja fachada ostenta uma espantosa meia-lua de contínuas vidraças, parecida aliás às de Paris. Por baixo, as colunas são regulares, a par a par, e intercalam-se com uma delicadeza mais oriental, como se fossem dedos de uma gigante bailarina Thai submersa no delta. Entrámos pelo alpendre principal e fomos ao banco, onde me limitei a assinar os vários certificados de transferência, enfim muito dinheiro. Minutos depois, despedimo-nos e juro que foi um alívio ver partir aquele sorriso ambulante, carregado talvez de mil ópios e de uma enigmática e cínica timidez.
Uma hora mais tarde, parti para norte. Longa e lenta viagem a perder de vista. Após a imensa planície argilosa e aluvial, os rios separam-se dando origem ao Ping e ao Nan e a linha-férrea inflecte para leste. Surgem ao longe, de cor negra e violeta, as altas montanhas que se estenderão ao longo da fronteira com o Cambodja. Extenuado e exausto vi depois, ao longo de horas, terras e terras de lamaçais e brejos; bosques de sândalo, teácea, ébano e sapão; colinas e solos baixos cheios de búfalos, árvores do céu e tecedeiras a rir à porta de aldeias dominadas por lentos elefantes, templos, e, depois, arroz e sempre arroz e ainda os conhecidos campos de fumo, ou de mandioca, milho e algodão. Até que nas proximidades do Rio Mekong, já claramente na direcção norte, ressurgiram as montanhas e a famosa cidade de Nong Khai, meu destino anunciado. Felizmente consegui quarto num dos Holliday Inn, não muito longe do conhecido restaurante Thai-meo que, por sinal, pontuava nos folhetos turísticos do meu próprio quarto. A noite levar-me-ia umas doze horas de sono e, com elas, assombrações nocturnas, recordações ínvias, estranhas saudades e memórias muito antigas de uma qualquer aurora boreal.

Abruptamente, talvez porque os lençóis me envolviam a cabeça, vi chegar até mim um camponês de chapéu de linho branco que montava um gigantesco búfalo de cornos retorcidos e de olhos virados para água, qual narciso que me olhava; e vi que eu próprio estava submerso e agarrado às roupas de cor amarela e sedenta da bailarina Thai do delta; e vi que ela assentava os dedos dos pés no fundo da baía e os dobrava em ângulo recto até unir os joelhos com sumo equilíbrio; e vi que também desdobrava os braços como se fossem hastes coladas às palmas das mãos muito abertas, onde pousavam sargaços e botilhões, peixe doce, carume e moliço. Agarrei-me ao pescoço da bailarina, bati com os pés no fundo da baía e consegui chegar à superfície da água, da vida. Por cima da água sempre amarelada e suja, vi ainda o pontiagudo pagode de cores áureas que se elevava por cima da cabeça de Thai, a sonhada. Tudo aquilo ondulava lá em baixo e ardia nos olhos do búfalo e até mesmo na expressão de gozo do camponês de chapéu de linho branco que o montava. Quando tirou o chapéu e o próprio véu lendário das iguarias do Dubai, vi afinal que o camponês não era senão o tal desgraçado do Did-Abha que sorria com o seu estilo dentinho de coelho tímido e afanado. Depois, a luz apagou toda a quadratura da imagem e revi, ao fim e ao cabo, que

era a luz por trás dos cortinados do Holliday Inn desta cidade desconhecida de nome Nong Khai, o meu destino anunciado. Tomei duche, refiz-me do corpo e do espírito e, ao espelho, adveio-me ainda a estranheza pelos meus lábios mais espessos, pela minha face mais estreita, pelo meu olhar mais saliente e até, imagine-se, pela minha testa aparentemente mais ovóide e larga. Era assim, eu mesmo, depois de Adão e antes do resto; mas do quê? Espreguicei-me para disfarçar e, de seguida, durante uma hora e meia, tentei sucessivamente telefonar para Porto Brandão e para o Correia, mas não consegui. Raio de ligações e de comunicações, nesta era dos satélites, chips e de logotecnia evaporada!
Durante a tarde, entretive-me sobretudo a ver a CNN com medo das cobras e também das esmeraldas do mau-olhado que, por aqui, no norte da Indochina, se colam ao chão e aos vasos de ouro dos templos, como se fossem lapas em rochas ou estrelas em céu estrelado. Foi só às nove e meia que finalmente avancei, de casaco fechado e com os meus antigos óculos escuros espelhados, até ao terreiro do famoso restaurante de Thai-meo. Comi pato ao estilo do Laos, chá vietnamita e uma espécie de espargos agridoces dos vales do Mekong. Depois, conforme combinado, esperei até às dez e meia da noite pelo senhor de fato azul, baixo e nutrido que daria pelo incisivo nome de Long. Esperei, é evidente, com a justa convicção e com o mesmo porte com que, por exemplo, me lembro de ter recebido a minha tatuagem lilás no Maremagnum de Barcelona.


domingo, 6 de Novembro de 2005

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Risível - 4

Jan van Steen
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O jogo de palavras pode exprimir o artifício, a cilada fina, o ardil ou a dimensão fática que pretende reter no mesmo edifício comunicacional, e a qualquer preço, o destinatário. Face à simulação de encarceramento, o riso pode traduzir, por isso mesmo, uma atitude de defesa ou de resistência intuitiva: o silêncio sem silêncio.
Contudo, existe uma estética do jogo de palavras que geralmente não conduz ao riso, mas antes a uma espécie de crescendo sensitivo e sinestésico, por via da sucessiva e imprevista cadeia sonora (a poesia simbolista, levada ao seu extremo, por exemplo). Aí o riso não tem sentido, pois a linguagem quer-se a sobrevoar os seus próprios referentes, coisa informe, diluída mas com intensa vida própria.
Por fim, poder-se-á admitir que o jogo de palavras conduz ao engano. Mas que engano? O engano que se confunde com uma simples e até desejada mudança face ao esperado, ou seja, um elementar lapso na expectativa? Poderá ser. Ou antes, e tão-só, o engano que consiste no súbito instante em que o pano se abre e se fecha, tal como acontece com a prestidigitação que nos sugere existir continuidade na sucessiva vida e morte dos ‘pixels’?
Muitas vezes, o engano é um engano que se impõe silenciosamente como regra, ou como uma simples intermitência sem fim. E aí já não há riso: há antes e apenas espasmo, emolduração do vazio, repetição oscilante. O Hip Hop, por exemplo, vive dessa repetição hiper-activa e é construído a partir de sons discretos, virtualizados, diferentes por si mesmos. Esses sons são especificidades indefinidas, claras identidades simuladas e criadas para serem puro efeito sem representarem seja o que for. Nada determina esses sons, ainda que baseados em sonoridades anteriores reconhecíveis, nem nada parece fazê-los caminhar em direcção a uma apoteose, ou a um clímax expressos. Aí já não há de facto riso motivado por um “jogo de palavras”.
O engano pode, pois, ser um mero desengano ou até uma forma de paródia já demasiado interiorizada. E o riso pode então ser um simples lapso e não tanto o fruto imediato de um engano, ou de uma súbita e inesperada quebra de estimativa.


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Folhetim

O Trevo de Abel – Episódio 23
Segunda Parte – O tempo de Adão
Folhetim do Miniscente
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As Tágides de Ulisses, no lado lisboeta, começaram a fracassar a dada altura. Boicote, falta de contactos, denúncias, cercos, má fama, quebra na discrição, tudo era possível. Passados cerca de dois meses sobre o famoso jantar de Cascais, já o Outono ia dando sinais de si, Sara, imperiosa, sempre ágil e sobretudo após mais uma noite das antigas, disse que era necessário repensar as coisas, mudar, reformar. De roupão vermelho e longa boquilha de prata alagada em batom, Sara falou então da desistência do contabilista, da derrapagem do circuito de Barcelona, da crise das viagens das putas - sobretudo polacas - e até da própria moleza e negligência de Caim para impor disciplina na outra Banda, embora aí, diga-se a verdade, não faltasse mercadoria por enquanto.
- Vamos ter que fechar isto aqui, é muita massa para nada, pensou em voz alta. Aliás, acho que devíamos fazer como fizeram o Coimbra e o Garcia, ou seja, ir ao Oriente buscar fornecimento a prazo para não andarmos sempre armados em agência de viagens, senão, daqui a pouco, vale-me mais a pena voltar para a cirurgia plástica. Caim levantou-se, atirou o copo para o chão e pensou em voz baixa que - A mim não me metes tu medo; lá porque me deste a mão, também ma podes tirar, mas não tens razão de queixa, pois se a coisa começou a falhar... até é mais do teu lado do que do meu. - Mas... quem teve a ideia de trazer para cá material europeu foste tu, mais os aviões e o diabo. Eu, por mim, comecei só por Porto Brandão e a coisa até se safava como deve ser. Não podemos andar a comer lagosta com caril todos os dias e pagar ao mesmo tempo a massa que pagamos ao sistema! Mas... lá por isso eu ponho-me a caminho de Singapura ou de Hong Kong... é que vim a saber, quer dizer... houve um tipo dos do Coimbra que me disse que... - Ah, então andas com falinhas mansas com essa gente, não é? - Ora, e tu também não vens aos jantares? - Mas vou contigo, sempre te fui leal e fui eu quem te pôs neste mundo das putas. Sem mim, fugido como andavas - ainda se há-de saber a quê - devias estar agora nas ruas da amargura, nunca te esqueças disso! - Olha, dissemos que nunca havíamos de tocar nisso e tu já estás aí a levantar cabelo e a dar o dito pelo não dito! - Mas não havíamos de tocar no quê? - No passado, coño, no passado! Mas... o que é o raio do passado, se, só aqui entre nós, o que começamos a notar agora é a imensa dificuldade em dar conta do presente e do futuro? Como é que vamos pagar, por exemplo, às moças que estão, hoje e aqui, a dormir nesta casa? Não temos dinheiro, Caim, está quase no fim a massa; põe-me esses pés na terra de vez! - E tu... até parece que sou eu quem quer sempre andar a viajar e a comer fora que nem uma desalmada! - Não interessa, o que te digo é que é preciso reformar. Por mim, fechava já esta casa e passávamos para a outra banda. E mais: vamos mas é procurar mulheres a outro lado, prontos.

Ao fim de duas horas a decisão estava tomada: nem mais uma puta para a Rua das Flores. O alarido entre as meninas foi grande e, passados dois dias, toda a Lisboa sabia do escândalo. - Com a mão-de-obra não se brinca, dizia o ajudante dos Coimbras ao Dr. José, o pseudónimo forte de Caim. - É pá, tivemos que fechar aquela merda para poupar... e o que é que querias? Tratamento vip para as gajas, não podia ser. - Mas é que com essa forma de agir pagam vocês e pagamos nós; olha que há muita boa gente metida nisto, pá! Os dois homens vão de Mercedes preto meio blindado, ao longo da Avenida Infante D. Henrique, percorrendo a rota oriental da Expo-98. Cotovelos de fora, tatuagens ao alto, óculos escuros, cárie por tratar e vozes moles ostentando domínio e desaire ao mesmo tempo. - E depois há outra coisa que para aí se diz, pá. Isto de pôr mulheres a dirigir putas só nas novelas brasileiras ou lá para os haréns de Paris, ou o diabo. Desculpa dizer-te isso, mas tu devias afastar aquela gaja. Não te estou a dizer para te juntares à gente, até porque pagas a massa ao sistema e tudo. Mas... devias ver que nestas coisas, não se pode funcionar estilo família de sacrista, marido e mulher, estás a ver? Eu também tenho a minha senhora, aliás bem governada, mas no que toca a trabalho é só comigo, ó mano, mais nada. Mas da tua vida... o amigo é que sabe, como se costuma dizer para aí na gíria...
- Isso, ó Correia, é uma longa história. Nem posso contar tudo, nem quero. - De acordo, pá... pois, cada um sabe de si, já dizia o meu velhote que Deus tem! - É verdade, mas há coisas que um gajo não consegue dar a volta só porque vê que é mesmo assim! Um gajo também tem que ser inteligente, puxar pela cachimónia, perceber as linhas com que o seu caminho se cose. Vocês já cá estavam todos a trabalhar quando aqui apareci. Se calhar, se não fosse português ou o caraças, já nem estava neste mundo. Já estava para além de Bagdad. Mas agora, que tenho o negócio instalado e reformado como deve ser, tenho que olhar em frente e não posso estar a mudar o mundo à minha vontade e maneira. Como a minha avó dizia, ‘hoje há seca e não há peixe miúdo, amanhã há chuva e já não há graúdo’! - Estou a ver o que queres dizer, estou a ver. Bom vamos até ali ao Montijo comer umas enguias, não? - Vamos lá, porque, daqui a umas duas horitas, tenho que ir ter com a patroa ao nosso Porto Bello.

Porto Brandão é, de facto, uma dessas terras que poderiam estar resguardadas numa baía seca e calma de Cabo Verde. Daqui olha-se para o vasto rio das descobertas com a lenta consolação da saudade e com a confiada perdição do encantamento. Até altas horas, nos três quartos do primeiro andar, as últimas louras dos Urais recebem, já não a estirpe dos negócios, mas uma classe média meio perdida, com BMWs a leasing e whiskies e bagaceiras, de manhã à noite, sobretudo para enganarem o vazio, as mulheres com que há muito casaram e a inutilidade que os fustiga. Às vezes, armam escândalo nas subidas para Almada, ou a bordo dos cacilheiros. Com fachada de pub/boite, coisa reservada e bastante cara no preçário, as Tágides de Ulisses estão protegidas pelos trinta por cento de lucro, mais ou menos avaliados nos encontros mensais com os Garcias e Coimbras, o que abrange legalização, polícia e livre contrabando de mulheres. Sem o dito imposto, toda a máquina pode desmoronar a qualquer momento. A utilização apenas da casa de Porto Brandão acabou com as dificuldades que existiam em pagar a dita taxa, mas, de qualquer modo, a decisão de ir ao Oriente buscar sangue novo acabaria por ser tomada já a meio do Outono, numa noite de muita clientela e pouca menina. A própria Sara teve então que entrar em cena nos quartos e Caim, ao contrário do que acontecera até então, sentiu-se vexado, traído, cornudo (vá-se lá saber porquê!). Após a normal função, e até quase ao nascer do sol, Sara riu-se da meninice de Caim e este disse e redisse que queria uma coisa a sério e não, como passou a noite toda a repetir,
- ...Esta bandalhice em que as Tágides estão a cair... estás a perceber? É que não te quero ver mais a trabalhar! Faço o que for necessário, vou a Singapura, a Banguecoque ou a Hong-Kong, pá! Em Barcelona, no início, a coisa percebia-se, estávamos no início e conhecíamo-nos mal. Agora, porra, estamos ligados; estamos a fazer uma vida juntos. Nem sempre tudo pode correr da melhor forma, mas temos que ter o que eu chamo a lealdade mínima! - E o que é isso, ó Caim? - É isso mesmo, o mínimo, percebes? O mínimo dos mínimos e chega, pá, prontos! - Ouve-me lá agora a mim. Eu chego a adorar esse teu ciúme de fadista... mas tens que entender que não se trata de te humilhar ou de te trair; que diabo! Então, estamos a trabalhar no ramo e tu ainda te pões com pieguices de merda? Se estava ali um gajo que é um cliente do caraças e apenas queria o que tu sabes - coitado, não é capaz de mais -, é evidente que tive que o segurar, senão daqui a pouco não temos vivalma! - É pá, tens razão, mas tinha que desabafar. Há coisas assim que um gajo sente e, pronto, tem que as dizer; já não se fala mais no assunto, já não se bate mais no ceguinho. - E como é que é isso do Oriente? A quem pagamos os contactos, ao Correia? Não confio lá muito nele, mas se tu até sais com ele... tu lá sabes. Eu não o chupo, não o topo, não gosto do olhar dele. - Isso é treta. O gajo já me disse que nos havia de fornecer os contactos. Do que trouxer... vai um terço para o gajo e apenas teremos que pagar em cash o equivalente a um mês e mais uns dias... para além disso, o gajo só conta metade ao chefe dos Coimbras. E, já agora, também te pergunto: que outras soluções temos nós? Metermo-nos outra vez em Barcelona? Olha, para lá... já não poderás voltar, pelo menos durante bastante tempo. Servirmo-nos do material local, sem a chama do exótico? Nem pensar. Conquistámos uma posição e temos que a manter, haja o que houver. Com o status não se brinca! -Então pronto, arrisco contigo e assino por baixo.
Nessa manhã, quando tentaram manter o jus aos recatos de Afrodite, a coisa voltou a falhar. Desta feita, Sara já não correu quilómetros e Caim, por sua vez, não se sentiu descorado e pálido. Aliás, já não era a segunda, nem a terceira vez. A vida, apesar de tudo, continuava; rotineira, sim, muito rotineira; mais empalidecida, demasiado normal; sempre aberta aos bancos de nevoeiro do Tejo: assim era... mesmo quando, de manhã, Caim se prostrava sentado no cais e se punha a imaginar, do outro lado do rio, na doca do Porto de abrigo, o majestoso corpo de ovareira da sua avó Maria Alba. - Como era bom que ela, desejada, aparecesse entre os mil nevoeiros, no coração desocultado desta mesma manhã, para me indicar o caminho, o destino, a direcção, a estrada, a estrelinha certa da minha sorte agora ausente!


sábado, 5 de Novembro de 2005

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Tive uma visão

No estádio de Alvalade, as balizas têm maré alta e maré baixa. O Politécnico de Leiria está neste momento a desenvolver um projecto de investigação, apoiado pela FCT, que tem como objectivo definir a entropia processada pela singular morfogénese das marés. Um caso nacional a seguir com toda a atenção. Não digam que o Miniscente não avisou!


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Risível - 3

Para quem não tenha paciência suficiente para ler tudo, já bastam as agruras do dia a dia, devo esclarecer que, hoje mesmo, o folhetim acaba do seguinte modo:

Jan van Steen

"(...) quem me apareceu a bater à porta foi um senhor de batina negra que, depois de sorrir por compaixão, logo abriu a portinhola e me mostrou um pepino gratinado em vez de pixa, um papo-seco sem miolos em vez de pau, um ramo de esteva e pó em vez de verga, um rol de papiro cilíndrico em vez do sardo, um manso fole de plástico insuflado em vez de tronco, um feixe de centelhas chispas e ginjas em vez do gargalo de aço, um arrumo de argila estilo zepelim em vez da rija vara, um jornal enrolado em vez do bolo finto de carne tesa, um pendura mole e débil em vez de um caralho de jeito, um ratinho puído e domesticado em vez de uma estaca robusta e de gume, enfim, uma amostra de sexo em vez do menir estriado e duro que o felino tinha dependurado sobre os céus e a terra, ámen."


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Risível - 2

Jan van Steen
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"O deleite (por mais que a sua causa possa encontrar-se também em ideias) parece consistir sempre num sentimento de promoção da vida inteira do homem, por conseguinte também do bem-estar corporal, isto é da saúde; de modo que Epicuro, que fazia todo o deleite passar basicamente por sensação corporal, sob este aspecto talvez não deixasse de ter razão e se equivocasse apenas quando considerava o comprazimento intelectual e mesmo o prático como deleite."
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(Kant, CFJ, &54)


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Folhetim

O Trevo de Abel – Episódio 22
Segunda Parte – O tempo de Adão
Folhetim do Miniscente
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Até que no início de uma noite de Verão, em Cascais, num dos paredões que as antigas falésias espalharam entre o que é hoje memória de limos e alguma poluição ao vivo; até que nessa noite, antes de um jantar combinado para mais tarde entre gente do ofício e algumas meninas, Caim e Sara entraram entre as ondas da baixa maré e não resistiram a nadar durante alguns minutos. O mar do Verão é esse fogo do nascimento revisto e pressentido a bordo da pele, do corpo livre, hábil e leve, entre a espuma das ondas e o flanquear dos membros; é assim, quando Caim se deixa boiar arrastada e lentamente e é também assim, com o mesmo repouso e ânimo, no momento em que Sara, mais ao longe e de bruços, agora avança entre a impulsão das águas e a sombra das constelações que cobrem o ar morno e denso dessa noite. Até que Sara deu algumas braçadas e fez lembrar a Luísa dos namoros antigos, talvez isso, talvez não; mas a verdade é que, quando surgiu face a Caim, ela, de pestanas e olhos molhados e muito abertos, era como o fetiche da sua Sharon Stone num esplendor acrescido e luminoso; bela, sensual, retirando com vagar as calcinhas com as pontas dos dedos e, por zombaria lasciva, atirando-as para cima da cabeça de Caim.
Ouviam-se risos por sob a agitação das águas, restos de algas entre o borbotar dos lábios; ouvia-se o distante gorgolejar dos braços presos às mãos, o marulhar dos seios descendo pelo peito até à coxa lisa e frondosa por onde penetraram pontas de dedos, línguas e bolhas e mais bolhas que fervilharam à superfície do mar sempre quente e agitado entre vaivéns e balanços repentinos, suspiros e sussurros que pululavam e formigavam entre as peles de Caim e de Sara. Parecia o eterno fim de um jejum que nunca existira, o record premente e perpétuo da entrega entre os dois nesta noite de Verão, sonhada apenas para o repentino despertar da carne. A água enxameada, mexida pelos corpos; a mão de Sara aberta nos ombros de Caim agitando-se entre água vai e água vem, à tona e por baixo, anfíbia e larga como as convulsivas plantas dos pés aos saltos; até que, nessa mesma noite de Verão, aconteceu o nunca visto entre Caim e Sara. O primeiro chegara prematuramente ao fim da viagem e o secreto líquido espelhara-se, branco e espesso, na noite das águas breves, transparentes, estivais. E o tédio quase invisível a pairar no olhar parado e estático de Sara, subitamente apeada da sua ascese; e o arrebatadamente perdido, revoltado, a pairar no olhar de Sara que agora brindava agressiva o pálido e descorado Caim.
Passados segundos, Sara dizia a Caim que a deixasse, que queria estar só. E Caim, silencioso, convicto de ser aquela a primeira vez em que não fora homem de jeito, perdido na mácula máscula do seu porte, diminuído face à rainha insaciada das sereias, a olhar para o pendente, limitando-se a exprimir um sim gestual, rápido, conciso. Assim ficou com a água pela cintura, recolocando os calções no seu sítio, perdendo a vista nas candeias ondulantes das traineiras e, por trás, até agora ocultado, o ruído da Marginal cheia de carros e luas navegantes; cheia de calor, langor e dessa festa irreal que é feita do delírio das noites de Verão. No areal mal iluminado, Sara vestiu o vestido longo sobre o corpo nu, fechou alguns botões e correu, correu, correu. Terá corrido quilómetros na senda disso mesmo, dos quilómetros. E depois? Depois, às dez da noite, apareceu no restaurante de olhos sempre muito abertos, cabelos atados e a testa talvez mais franzida, porosa, distante. A noite passou e a ela não mais voltámos, até porque as margens do Tejo separaram Stone e Caim, nessa distante calenda de eclipses e infortúnios passageiros, até ao nascer do dia seguinte. É o que vale, quando se mora em Lisboa e em Porto Brandão ao mesmo tempo.
E Sara sonhou, nessa noite de Verão, na Rua das Flores:
Era de lenho de sândalo, cuniforme e muito claro; e só se estreitava na poderosa glande por onde desflorava nuvens até suspender-se em frente das águas-furtadas, diante das luzes foscas em que me revi de boca aberta. Era a chuva do mundo que me batia à porta e com ela, sob uma algema de ferro e fuligem negra, vi-o todo atado pela cintura com cabedais do exército russo e, mais abaixo, artelhos e canelas presos com fios férreos e escuros. Pelo traseiro entrava o báculo e o binóculo do bispo que, em plena clínica, colou os restos da orelha à pele da perna e depois me levou ao Vaticano para que eu aprendesse o que eram as meias roxas que no kamasutra se atam até à raiz das coxas, sob águas quentes, em Cascais, ou talvez em Numancía. Não sei, esqueço tudo e continuo a olhar pela janela, de onde sempre esteve suspenso o imenso falo de prumo feito de madeira de sândalo e, comigo, pondo-me os braços em volta do ventre e da cintura estreita, vieram dois bielorrussos negociantes de cera e de miúdas baratas, porque já apanhadas pelo clima e pelos males de pele e dos planetas, mas que servem para fazer dinheiro no lado de lá do rio português de Lisboa, onde existem tartarugas, comboios voadores e correctores de seguros, para não falar já do chefe do sistema. Sobre a máquina azul da Rua das Flores, mandei então as miúdas tomar os comprimidos e, sobre o avantajado selim de cetim, sentaram-se, uma a uma, sobre o membro de plástico rijo, fazendo o motor de roldanas andar o dito volume cilíndrico até às profundezas do gomo líquido, que é a janela do corpo das putas como eu que Deus pariu. E assim me olhava o rei e os próprios meninos de Java que tinham, todos eles, largos montículos, fortes cômoros e tufos descomunais por cima dos tomates, para que eu me deitasse e depois fugisse no caso de ele - aquele masmajão, aquele estrajacão, aquele biberlão - se vir à pressa, a correr, como não aconselham e ditam as leis dos santos mandamentos que vi escritas na glande que paira em frente da minha janela catalã. Era o Gaudí, era o gato selvagem e gordo, eram as pedras redondinhas, molhadas em caldo de galinha e em água do mar coberta de leite, ou do secreto líquido da lava incolor e quente, quem seria então? Era a glande pendurada das nuvens, feita de sândalo e por que não de cânhamo, tanto faz, desde que entre e prima até ao fim a doce flor líquida de Marte, a combatente, a resistente, a desejada até pelos paneleiros da Rambla. Quando os via de olhos quase verdes e pele macerada, eu fugia em camisa de dormir e corria, corria, corria. Quilómetros e quilómetros. Contra tudo e contra nada, pois apenas queria vir-me e até nem é por acaso que me chamam Stone, a bela, a luzidia, a maior de todas; a rainha das putas, das luzes e das sereias. E agora, será que ele aguenta?, Perguntei ao meu espelho da glande suspensa face à janela catalã; e ele, o dito espelho fálico e amigo respondeu: são ursinhos, são ursinhos com o dedo no cu.
E Caim sonhou, nessa noite de Verão, na ruela de Porto Brandão:
A cauda do imenso felino deu a volta ao corredor do Hotel Oriente e eu, a sós, depois de sair da tumba, levantando voo com óculos espelhados, enormes, cheios de alergia aos bichos verdes escuros semeados no pelo da cauda desmedida do felino que, ao colo, do mordomo viril e déspota, me impunha silêncio e complacência diante da grande fada Luísa com cara de baleeira azulada; no momento em que, por trás dos óculos espelhados, ela surgiu toda nua para me tramar a cirurgia, o sexo, a noite e as putas que me pôs à volta e por dentro do frasco de tinta-da-china onde passei a viver, perto de Almada, entre cacilheiros e cheiros a estorvo, grelos e espinhos do Mercado da Ribeira, lugar aliás preferido da minha avó Alba que era a chefa e da minha mãe desconhecida que era a sereia desejada e agora irreconhecível no fim da manhã deserta; qual céu suave e largo sobre a pradaria do sul, cheia de cactos e coqueiros, onde a aurora boreal, um dia, reflectiu sangue da guerra do Kosovo e, por isso mesmo, os pássaros cantaram durante horas na gaiola de Barcelona. E se eu voltar a morrer, será que vivo sempre e sempre outra vez, como Deus? E se eu entrar na minha mulher Baleeira Luísa e Arlete será que já não me venho sempre e sempre outra vez como aconteceu agora na Califórnia divina onde os Deuses, de tanga e sem calcinhas, tomam banho depois de fazer surf sobre as caudas dos felinos majestosos que pertencem ao médico-chefe da PSP? E se em Monsanto me mataram como vou eu sonhar o mar, após o espanto da vida vivida pela segunda vez em segredo estreito, tabu, ou não será que, um dia, eu não terei de contar isto tudo, sem papas na língua, a um auditório inteiro via CNN? E o que é que vai acontecer dentro da banca de cabeceira, quando a cabeça das russas me aparecerem, ainda frescas, dentro do bacio, apenas porque eu não paguei os impostos ao sistema? E se eu fugir de comboio até Madrid para mudar de cara dentro de um graal de ouro, parecido ao do broche da Sharon Stone que adoptei com os boxeurs, o que é que acontecerá ao punk do Maremagnum e ao uruguaio desdentado do Peñarol, digam lá? Eu não sei responder, mas quando pensei terrivelmente acordado que não sabia responder, quem me apareceu a bater à porta foi um senhor de batina negra que, depois de sorrir por compaixão, logo abriu a portinhola e me mostrou um pepino gratinado em vez de pixa, um papo-seco sem miolos em vez de pau, um ramo de esteva e pó em vez de verga, um rol de papiro cilíndrico em vez do sardo, um manso fole de plástico insuflado em vez de tronco, um feixe de centelhas chispas e ginjas em vez do gargalo de aço, um arrumo de argila estilo zepelim em vez da rija vara, um jornal enrolado em vez do bolo finto de carne tesa, um pendura mole e débil em vez de um caralho de jeito, um ratinho puído e domesticado em vez de uma estaca robusta e de gume, enfim, uma amostra de sexo em vez do menir estriado e duro que o felino tinha dependurado sobre os céus e a terra, ámen.


sexta-feira, 4 de Novembro de 2005

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Risível

Jan van Steen
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Não há nada que possa escapar ao epíteto de risível. A começar pelo que nos transcende (por isso é que a percepção do inesperado está na base da literatura apocalíptica) e a acabar no micro-cosmos (por isso é que as fábulas põem em cena seres minúsculos – a rã e o besouro - a protagonizarem precisamente o inesperado). O inesperado move montanhas. Foi por isso que Laurent Joubert escreveu no seu tempo (Traité du ris suivi d´un dialogue sur la cacographie française, 1579): "Não há nada mais maravilhoso do que o riso, o qual Deus deu apenas ao homem, entre todos os animais, por ser o mais admirável".
O que Joubert nunca viu foi um gato a rir, coisa mais do que normal no furacão que preenche, de ponta a ponta, as telas do grande Jan van Steen. Hei-de voltar à carga com este nome e sobretudo com estas pinturas, minha paixão de longa, longuíssima data.


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Folhetim

O Trevo de Abel – Episódio 21
Segunda Parte – O tempo de Adão
Folhetim do Miniscente
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Porto Brandão parece uma daquelas terras de Cabo Verde que olham para o mar com a lenta consolação da saudade e com a esperançada perdição do encanto. Contudo, o pequeno porto belo, situado ente ravinas, canaviais e petiscagens clandestinas, olha de frente para Lisboa, cabisbaixo e lento na sua arrumação, mas com o tédio e a delonga de quem assentou praça para conter ou até parar o tempo. Eis, pois, o local mais indicado para uma pequena casa alugada, numas das ruelas que vão dar à praça e de onde se avistam apenas, ou barcos cacilheiros que vêm e vão para Belém ou para a Trafaria, ou as tais esplanadas improvisadas para casais extemporâneos e ocasionais. Durante a noite, o rio tem a cor da tinta-da-china e nem a proximidade dos silos gigantes, dos galeões do petróleo e da própria ponte alada por fios de aço retiram a Porto Brandão a docilidade e a paz de espírito, condimentos ideais para dar livre pousada a duas polacas e uma russa que, bem alimentadas e tratadinhas, foram, desde o primeiro momento, o furão perfeito para o debutar do mais antigo e fértil negócio do planeta.
Quando, após um mês de labor e contactos discretos, Sara aportou em Lisboa, uma segunda casa filial acabava de ser estreada e alugada nos baixos da Rua das Flores. Passado mais um mês e três dias, pode dizer-se que a rotação entre Tejo e Catalunha se tornou perfeita, rotineira e sobretudo muito lucrativa. Caim recolhia o dinheiro e marcava os sucessivos voos para as meninas, fosse da Portela, Faro ou Sevilha, enquanto Sara, ou fazia lobby clássico e prático no Fenta, Capa e Fitz, ou marcava agenda para renovados contactos e encontros no estrangeiro. Às Segundas-feiras, patrões e empregadas descansam à japonesa, ou seja no estado da mais pura colegialidade, e passavam fins-de-semana em Sintra, Évora, Covilhã, Galiza e até uma vez nos Açores. Durante quase um ano, os dinheiros nunca faltaram, Sara e Caim mantiveram o seu fôlego sexual record e, por fim, as promessas de ouro sobre azul tinham-se concretizado perante uma certa admiração das meninas. Lisboa era um mercado por explorar, aparentemente sem concorrências à altura, pensava Caim.
Durante o dia, o antigo Adão atravessava a zona do Cais do Sodré até ao Campo das Cebolas, perto aliás da casa do reservado contabilista, e ostentava óculos escuros de grande porte, sempre de marca, para além de camisas razoavelmente abertas que permitissem avistar um rabisco por mais pequeno que fosse da tatuagem lilás. Caim familiarizara-se também com as figuras típicas da zona - vendedores de jornais, o dono da loja de animais do Mercado da Ribeira; marginais-poetas como o famoso Isaías, sapateiros ou arrumadores bósnios; quando não do próprio vale da Avenida de Ceuta e de Alcântara -, mas prezava sempre em não misturar, de forma nenhuma, aquilo que era com o trato normal de rua. Até porque a clientela das meio secretas Tágides de Ulisses era gente de nomeada, pelo menos na carteira, não tanto no nome. Portugal já não é - nem nunca foi - o que era. De qualquer modo, país adiado, suspenso na foz suave do Tejo - abismada e amaldiçoada pelas colinas da capital - Portugal parecia ser, no entanto, a terra ideal para este filão empresarial sem par.
Até que numa bela Quinta-feira, durante a noite, quando regressava de Porto Brandão a Lisboa, dois carros impediram a passagem a Caim na descida para a Rotunda de Alcântara. Depois de se identificar como polícia, um dos homens obrigou Caim a entrar na maior das viaturas que bloqueavam a via, enquanto outro, com destreza, derramou gasolina debaixo do carro assaltado. Após o arranque a toda a velocidade, sentado entre desconhecidos que deveriam ser tudo menos polícias, Caim ainda conseguiu ver o clarão do portentoso incêndio que atrás se levantou. De seguida, as duas viaturas seguiram apressadamente para Monsanto e só viriam a parar atrás de um morro de difícil acesso. Aí, mãos rápidas despiram Caim dos pés à cabeça e, depois de um festival de socos e de pontapés sem pré-aviso, encostaram o pobre do antigo Adão ao tronco de um pinheiro. Foi então que por trás apareceu alguém que não se deixou ver e disse:
- Olha lá, ó chulo dum cabrão, vim no outro carro e é por isso que não puseste a vista em mim (risos). Nem me vais ver agora, ou quem pensas tu que és? (ao aceno feito pela cabeça, mais três murros e um ponta pé lhe foram dados, no rosto e no baço). Bom, agora já mais constipado que outra coisa (risos, gargalhadas) e, portanto, como se fosse uma aspirina, ó meu, vais ouvir o que eu te tenho a dizer e... é assim: ou cumpres, ou, na próxima, és um homem morto (simulou que ia ordenar nova revoada de murros, mas a ordem acabou por não ter efeito; Caim, de costas, desfeito em sangue, cabeça caída, esperou pelo pior, mas, desta feita, foi poupado; passada a ostensiva simulação, o chefe-mor continuou). Bem, a gente sabe tudo, como podes imaginar. Sou um dos chefes da polícia, meu grande cabrão, e, por isso mesmo, estou ligado aos Garcias e sobretudo aos Coimbras; nunca ouviste falar? Responde? (Ao silêncio de Caim, o dito chefe ordenou com um simples aceno de testa e, desta vez, Caim quase caiu ao chão, tal foi a pancadaria que sobre ele se abateu) - Não sabes, não é? Mas olha, os Coimbras e os Garcias dominam as putas finas e se quiseres trabalhar à vontade tens que passar a pagar uns trinta por cento com retroactivos, mais a licença que são três mil contos só aqui para mim. Até Quarta-feira que vem. Antes de partirem, o chefe deu um imenso pontapé nas costas de Caim e advertiu: - Aqui não se deu nada, entendes? Passas a pagar na Rua da Misericórdia. Tens aí nesse envelope o resto. Ciao bambino! Se eu soubesse dizer em Russo também te dizia adeus em Russo, ou em Búlgaro ou o caralho que te foda! Mas nunca em Espanhol, estás-me a ouvir ó idiota de merda? (Risos). Com uma rapidez lancinante, as duas viaturas desapareceram.

Foi dos piores dias da minha vida, podem crer, disse Abel revendo e revivendo o que, na altura, se havia passado. Ainda parece que sinto dores no baço e nas pernas, só de me lembrar disto tudo. Isabel, com um ar de desencanto e piedade quase infantil, inquiriu: - Mas como é que conseguiu voltar para casa? - Foi só no dia seguinte. Há momentos na vida de inexplicável resistência, sabes? Eu tinha umas costelas partidas, um osso deslocado no braço esquerdo e estava ainda empapado em feridas e manchas por todo o lado. No entanto, após umas horas, lá consegui disfarçar o mínimo possível e arrastei-me até à Avenida de Ceuta onde convenci um taxista que tinha dado uma enorme queda em casa de um amigo meu. Levou-me logo para a Rua das Flores e foram até as meninas quem chamou o médico que, por sua vez, me atou o tronco e me compôs o resto. Nada do outro mundo, com vês. Contudo, a partir desse dia passámos a pagar ao sistema. - E...o que é o sistema?, ouviu-se dizer na voz musical e fina de Júlia, encostada que estava a Lopamudra de Vidarbha sob o caramanchão metálico do Jardim do Príncipe Real. - O sistema é a mafia; são os que mandam e organizam os negócios à parte de tudo e de todos. Mas, como vêem, a minha segunda vida tinha começado à margem de tudo e de todos e só nesse lugar poderia funcionar. De facto, esta espera, levada a cabo por bandidos e polícias juntos, era, ao fim e ao cabo, a minha própria legalização e aceitação no mundo do risco.
- Sim, é verdade que a Sara se quis ir embora, mas sentiu medo só de pensar em recomeçar o negócio em Barcelona. Passámos, portanto, a pagar e, passado algum tempo, até fui obrigado a confraternizar com os próprios que me tinham batido, quase abatido. Forçado... é o termo, já que, como eles diziam, levavam muito a mal se alguém como eu, após o adequado baptizado - como lhe chamavam - não comparecesse a um almoço de fidelidade e confraternização, até porque agora eu pagava e, portanto, perante eles, cumpria legalmente com os meus deveres. Era uma espécie de vassalagem, mais ou menos isso. O jantar foi em Palmela e pediram-me para levar a minha Stone, nome com que foi logo alcunhada pelo próprio chefe que não apareceu ao jantar, embora fosse o mais citado e omnipresente dos convivas.
A partir desse dia, ainda que aumentássemos os preços e tentássemos todos os expedientes para manter o nosso modo de vida, a verdade é que tivemos que diminuir o número de voos para o estrangeiro e passámos mesmo, às vezes, a ter medo de futuras dificuldades. Por trás da suavidade e brandura portuguesas, a boca aberta do lobo mau tinha-se mostrado e, para além dos guarda-costas que contratámos (ex-polícias e seguranças ainda no activo) e de alguma expectativa mais aziaga, persistimos e continuámos a contar apenas com as nossas próprias forças.
Nessa altura, o senhor Gouveia largou mais uma gargalhada sem sentido, enquanto o deputado de pêra eriçada, o Dr. Altino de Mendonça, deu um breve passo em frente e disse com ar áureo e pretensamente ligeiro: - É tal e qual como na cena bíblica: tomai e comei. Dona Joana, apoiada no corpo da neta, percebeu que a coisa era mais litúrgica do que bíblica, mas nada disse a um tão destacado e incauto representante do povo. Assim são as noites nesse ermo alto das colinas lisboetas, onde desaguam histórias sobre Adão, Caim e Abel.


quinta-feira, 3 de Novembro de 2005

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Marketing para um livro sobre futebol

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Vem aí um livro bastante genuíno sobre futebol. Terá um capítulo inicial sobre o que é o jogo (mas sem grande carácter orgânico, regrado ou silogístico), um outro de cariz épico (onde cada um dos dois autores se centrará narcisicamente no seu clube) e uma conclusão para repescar e condensar o material desassombradamente avançado (e sem grande programa à partida). Poderá sair daqui a oito meses, um ano, ou três anos, não se sabe. Mas que vai sair, vai. Parece que já há alguma escrita redigida, outra a recuperar e outra ainda - a maioria - a gerar.
Os autores são: o Bruno Martins e o Luís Carmelo. Um e outro, diz-se, são um tanto ferrenhos pela causa. Um pelo SLB, o outro pelo FCP.
Vai ser bonito, vai! (mas acreditem que vai mesmo...)


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Depois não digam que não sabiam

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Quem avisa bom amigo é. A notícia é de anteontem e veio directamente de Ponta Delgada.


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Folhetim

O Trevo de Abel - Episódio 20
Segunda Parte: O tempo de Adão
Folhetim do Miniscente
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Acordava de noite e era invadido por calores, tinha mesmo dificuldade em dormir; sentia os pulsos apertados e o sangue, cheio de bravura e sem qualquer tédio, percorria todos os membros e extremidades do corpo. Nos braços, barrigas das pernas, junto às coxas, nas virilhas, tudo parecia ir explodir como se cabos de aço, vindos de dentro, quisessem crescer, dilatar-se, opor-se ao fechamento da pele, à crisálida do próprio corpo. Abria muita a boca e os dentes premiam sobre gengivas, sobre o céu-da-boca inquieto e, nessa altura, advinha-me uma incontrolada vontade de rugir, de bramir; abria então ainda mais os braços e desesperava por arrebatar ou agarrar qualquer coisa, fossem travesseiros, lençóis amarfanhados, a cabeceira almofadada da cama. Levantava-me, espreitava pela janela as garrafas partidas ao longo da calçada, a movida, as pálidas fachadas, os nevoeiros rasteiros, os cortejos ruidosos de gente muito jovem e, por trás, o sol querendo levantar-se, lento, para os lados do mar diante da Montanha de Montjuic. Algo, de facto, despertava fisicamente em mim que não conhecia.
Quando, escorrido em suor, reentrava com vagar na cama e via aquela cara ou ventura de uma Sharon Stone deslumbrada e respirando de modo cadenciado, lábios ligeiramente abertos, ou, às vezes, a ressonar com cálida avidez, juro que não conseguia parar. Sara sabia como acordar, reconhecia o delírio da húmida estrela matinal, pois, logo que a minha língua pousava num dos altos do calcanhar e, minutos depois, perto do joelho, já ela sorria com a ondulação integral do corpo até que, em segundos, subitamente, sentia as margens ou as veias do pescoço mordido, os cabelos suspensos, os dedos percorrendo o ânus ou o ouvido, a boca perfilhando o espantoso membro; os dentes descendo ao longo da coluna, vértebra a vértebra e, já a luz raiaria pelos vidros foscos até ao tal tapete que tem desenhado um dragão com língua de sangue, quando entrávamos um no outro e aí ficávamos a dançar até ao fim da manhã, até ao fim do mundo; no zénite de muitas águas profundas, vezes e vezes seguidas, rumorejantes, ofegantes, perante o pasmo mútuo, deleitoso e os gemidos fantásticos de Sara e a admiração de Caim que, calado e sem cessar, revia nos olhos da Stone o admirável frémito que era o seu e a potência e longevidade que nunca conhecera até hoje.
Sara adorava entregar-se aos deuses mais recônditos do mistério de Afrodite e toda a sua estimação mais impenetrável aqui se apagava, através do puro gozo, das delícias que lhe alteravam até a cor da pele, o brilho insaciado da carne, o incrível rubor dos lábios. Sara transfigurava em fogo os longos braços e colocava Caim à frente, atrás, por baixo ou ao leme das suas belas coxas que eram como uma nuvem de quadris ágeis, liquefeitos e leais à magnífica contenda, deixando sob os braços tatuados e trémulos os dois mamilos em rosa, dilatados como botões onde a mácula valia por regozijo e pela mais antiga das volúpias. Depois levantavam-se e avançavam, pé ante pé, até ao vão da janela, deixavam cair a mesa das revistas, enrolavam o dragão com língua de sangue que o tapete embalaria e, num novo frenesi ou auge ou pico, o grito de Sara ecoava pelo topo do prédio, pelas estrelas e céus catalães, e os seus cabelos muito louros colavam-se espalmados aos vidros foscos das águas-furtadas, enquanto o peito, a proa e a cabeça viscosa e sólida de Caim ia e vinha, insistente e sem fim. E quando chegavam à mesa da cozinha, exaustos e com olhos sanguíneos, pele com manchas de carmesim e rufo e alagados pelo consolo mágico do derradeiro suor, Sara interpunha o cortinado de renda entre ela e Caim e agarrava com as mãos, sôfregas e cúpidas, o ainda desmedido falo do tatuado e entregava depois a delicada boca ao clímax decisivo da já longa manhã de magos e desejos cadentes.
Até que, sem forças e após horas de abnegada entrega, caíam lado a lado sobre a corticite circular da exígua dispensa, debaixo de alguns enchidos dependurados e de prateleiras com latas de tomate, massa e conservas, iluminados pelo reflexo difuso do esplêndido Jesus insuflado em plástico laranja. Que outra coisa podia unir uma mulher como Sara e um homem reencontrado como Caim, senão este ritual que ambos agora descobriam por excessivo e novo? Que interessava o que um ou outro pudessem fazer na vida, se ambos agora sabiam que, em qualquer momento, toda esta deleitação podia sempre voltar a acontecer? Sara e Caim olhavam e inventavam um riso profundo, comovido, mas sempre algo enigmático. Como se o jogo, porventura, ficasse por ganhar e não, como se esperaria, em absoluto e mútuo banquete de júbilos mútuos. Por isso, sempre lado a lado e após tanto verdor e aventura, chupavam com longa palheta dois sumos de pêssego até ao fim e mantinham-se depois em silêncio, a tentarem talvez descortinar o fundo cavado de tanta inspiração, fúria e claro arrebatamento. Quando a geleia já se arrastava sobre o pão de calo, Sara levava rapidamente o dedo à boca e, de imediato, surpreendia o ressuscitado português com um alento novo que se virava sobretudo para as coisas práticas. Que era preciso ir buscar duas ucranianas que chegavam hoje de Saragoça à estação, - Que é preciso, Caim, que vás à frente para Lisboa e até podes levar alguma plata, mas tens que te desenrascar também e arranjar uma casa mais no centro e outra mais recolhida. Podias levar duas ou três chavalas contigo e algum avanço, enquanto eu acabava aqui de preparar o terreno com muito cuidado, não haja ainda quem descubra tudo e nos limpe o sebo de uma única assentada, estás a ver?
Caim, por seu lado, vestia uma camisola de alças, desportista e larga, deixando à vista o longo zepelim tatuado com duplas barbatanas na ponta, fazendo lembrar o sinal que o seu incógnito pai teria nas costas, tal como lho havia dito em petiz a avó Maria Alba; vestia calças de ganga e ostentava relógio transparente da swatch, quando não suspirava por narinas largas, estranhando ao espelho, durante o ofício da barba, os lábios espessos, a face mais estreita, o olhar saliente, a testa mais ovóide, larga e, sempre, sempre, a sua recentíssima e devoradora explosão sexual. Depois dizia que sim, que estava a ver muito bem; respondia assim descontraído à voz demorada de Sara e não parecia importar-se com nada, abruptamente liberto e até aliviado, como se a fortuna e a sua estreita roda o tivessem finalmente recolhido em barca sobre águas calmas e já não errantes. Assobiava e recorria ao gel que a Stone lhe oferecera durante a curta estada em Lisboa; comiam tapas na rua, chapaditas e bocadillos com cerveja ou vinho, arrastavam-se deste modo até às três da tarde e depois, mais cigarro menos cigarilha, separavam-se, iam à vida, porque a nova via combinada urgia planos, acção, contratos.
Caim ia ver os treinos do Barça, subia e descia avenidas e escadas de prédios; falava sozinho, telefonava, congeminava e sorria; entrava no Maremagnum ou na Doca olímpica para espreitar o ambiente, comprava revistas e lotarias, visitava lojas de animais ou então passava pelo bar do uruguaio que tinha dois dentes de ferrão e que era adepto férreo dos amarelos e negros do Peñarol; às vezes, ia mesmo até à estação dos caminhos de ferro buscar umas meninas louras e jovens, cujas fotografias guardava no bolso de trás das calças, e ainda lhes arranjava quarto, comida e prometia-lhes quase sempre barras de ouro sobre azul na foz do Tejo; quando não as testava logo, às vezes pela calada, outras vezes não, em plenas traseiras do Hotel Oriente, tal era afinal a repleção e a saciedade do antigo Adão.
Algo, de facto, despertava em mim que antes não conhecia, pensava. Como é que isto iria acabar, de que modo? A pouco e pouco deixou de ter quaisquer saudades da gente que conhecera na outra vida; família, amigos, colegas da televisão que há dias ainda lembrava com intensidade. A própria voz de galo cantor parecia ter-se quase eclipsado de um momento para o outro, tal era a secura vocal que experimentava sempre que, a sós, face às cascatas do Parque da Ciutadella, ensaiava o início de um fado ou de uma canção de embalar.
Duas semanas depois da segunda chegada a Barcelona, Sara foi ao aeroporto despedir-se de Caim que, com mais duas polacas e uma russa um pouco magra, agora seguia para Lisboa com o intuito de preparar a futura casa de repouso (ou discoteca) das Tágides de Ulisses. Sara parecia estar a realizar um desejo seu, já que, ao homem que nunca tivera e que sempre sonhara - dócil, másculo e sôfrego sexualmente -, se aliava a possibilidade de independência, a mudança de lugar e até de vida. Caim, à sua maneira, parecia estar antes a realizar um acto de auto-hipnotismo, já que aliava ao esquecimento do seu maior tabu - a segunda vida após a insondável morte - uma metamorfose real, a que não faltava ímpeto, mulher, desejo, dinheiro e sobretudo a redescoberta de facetas radicalmente novas em si, incluindo as físicas.


quarta-feira, 2 de Novembro de 2005

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Porto apocalíptico

Rui Rio vai passar a dar entrevistas às televisões através de textos escritos. Reata-se assim o espírito do género literário apocalíptico: voar através de textos, céu após céu, cobiçando soberbas imagens e visões.


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Music vs. gordura (act.)

O Inglês de Adriaanse tem o sabor das batatas fritas com maionese à venda na Kalverstraat de Amesterdão. O Castelhano de Koeman tem o seu quê dos prémios MTV. Mas esperemos até logo à noite. MTV. Vamos ver logo à noite.
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P.S. - O pior, o pior... foi o franganão do infante Rui Nereu.


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Taxas da banca central

Com a subida da taxa de juros veio também a subida de idade legal para praticar sexo (18 anos). Que fazer?


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Folhetim

O Trevo de Abel - Episódio 19
Segunda Parte: O tempo de Adão
Folhetim do Miniscente
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Caim acordou tarde, sentou-se na cama e fumou um cigarro. Pelos vidros meio foscos das águas-furtadas, a luz espalha-se pelo quarto até à franja do tapete que tem desenhado um dragão de língua em sangue. Por cima, os veludos tapam o resto de uma antiga porta e iludem os ruídos pungentes que vêm, paredes meias, da vizinhança. Depois da preguiça e da evocação involuntária da sua filha, Caim levantou-se, esticou os braços, bocejou e entrou na casa de banho, dominada por prateleiras de vidro meio vazias, por cima de mil e um frascos de perfume alinhados numa mesinha de mogno escuro. Foi há duas semanas que tudo me aconteceu. Quem haveria de dizer que, depois disso, eu viveria! Como explicar a mim próprio que tive frieza e reflexos suficientes para vir a Barcelona mudar de rosto, depois de procurar meios e fôlego interior para o fazer? Como compreender o modo como Sara me apareceu, depois da sorte que tive com o mordomo do Hotel Oriental e até com a venda dos pequenos boxeurs? A casa é curta, estreita, atarracada, mas está preenchida com memórias fotográficas, logo à entrada da cozinha. Por trás da mesa, surge o Cristo de plástico insuflado, postais de Kama Sutra, retratos tirados em congressos de medicina, moinhos flamengos para café e muitos tabuleiros, grandes e pequenos, com motivos da cidade de Gaudí. Após a breve lavagem dos dentes, Caim leu as instruções de Sara e bateu com a porta, antes de descer os quatro andares das escadarias até à exígua Calle Escudellers que une o início da Rambla dos Caputxins à Praça de S. Miquel.
E assim se viu Caim a vaguear, com inesperada calma, por uma Barcelona de céu azul, benévola, boa anfitriã, e, talvez por isso, o nosso homem não pare de perguntar a si próprio se te