quinta-feira, 18 de maio de 2006

O "tom" dos blogues - 10

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Por que razão se chama micro-causa a uma micro-causa? A que tipo de expressão corresponde aquilo que a blogosfera passou a designar por micro-causa? No fundo, escritas na sua maior parte em maiúsculas (há um efeito de diferença que elas pretendem sublinhar), as micro-causas correspondem a solicitações que sugerem uma possibilidade a instâncias directamente associadas a formas de poder (não é por acaso que se iniciam quase sempre com a fórmula: “Pode a instância X esclarecer ou disponibilizar…Y”). Entre o Verão e o Outono do ano passado, este tipo peculiar de cidadania em rede generalizou-se. Lembro-me de três micro-causas da altura com alvos completamente distintos. Em Agosto, o Abrupto lançava a micro-causa da OTA: “PODE O GOVERNO SFF COLOCAR EM LINHA OS ESTUDOS SOBRE O AEROPORTO DA OTA PARA QUE NA SOCIEDADE PORTUGUESA SE VALORIZE MAIS A “BUSCA DE SOLUÇÕES” EM DETRIMENTO DA “ESPECULAÇÃO”?”. Em Outubro, o Bloguítica avançava com uma outra micro-causa ligada ao caso Fátima Felgueiras: “PODE O JORNAL «PÚBLICO» SFF ESCLARECER COM QUEM É QUE FÁTIMA FELGUEIRAS MANTEVE CONTACTOS NO SECRETARIADO NACIONAL DO PS? QUANDO É QUE ESSES CONTACTOS TIVERAM LUGAR? QUEM É QUE INFORMOU JAIME GAMA PREVIAMENTE DA LIBERTAÇÃO DE FÁTIMA FELGUEIRAS?”. No mês seguinte, em Novembro, o Fumaças fazia eco de uma outra micro-causa acerca dos sistemas de informação da república: “PODE O PRESIDENTE DA REPÚBLICA SFF ESCLARECER O QUE PENSA SOBRE AS MUDANÇAS NO SISTEMA DE INFORMAÇÕES DA REPÚBLICA PORTUGUESA (SIRP), SERVIÇO DE INFORMAÇÕES ESTRATÉGICAS DE DEFESA (SIED), SERVIÇO DE INFORMAÇÕES DE SEGURANÇA (SIS) E DIVISÃO DE INFORMAÇÕES MILITAR (DIMIL), DESDE QUE DEU POSSE AO PRIMEIRO-MINISTRO, JOSÉ SÓCRATES?”. Os alvos considerados por estas três micro-causas eram, ou instituições do sistema político (governo e presidente da república), ou os média. Ou seja, a blogosfera, na sua larga maioria com apenas dois anos e meio de vida, passava, nos idos de 2005, a acenar e a requerer de forma concertada na direcção dos poderes e, quase sempre, directa ou indirectamente (lembro-me da resposta de José Manuel Fernandes no Clube de Jornalistas, na 2), com alguns resultados. Creio que o sentido das micro-causas é, do lado da blogosfera, o de uma tentativa que está para além do comentário dos média (quase sempre solitário, embora sujeito a isotopias conjunturais e a cruzamentos opinativos normais) e aquém do sentido manifestatário de grupo (não necessariamente corporativo, entenda-se). A micro-causa seria, portanto, o resultado de uma procura expressiva que não tende a influenciar de modo vertical e referencial (como acontece com os colunistas mais conhecidos que associam o seu próprio nome a um poder mais ou menos imediato), nem assume, por outro lado, a carga reivindicativa do abaixo-assinado que reflecte um espírito de corpo marcado por denominadores comuns consistentes e dados. As micro-causas da blogosfera atravessam uma e outra destas expressões, que há muito estão consolidadas na história do espaço público moderno, constituindo ambas formas claras, reconhecíveis e tradicionais de cidadania. O que torna diferentes e eficazes as micro-causas são essencialmente quatro ordens de razões, a saber:
1- O seu carácter despojado, na medida em que se enunciam depuradas de “considerandos” ou de contextualizações extemporâneas. A sua fórmula é sucinta e baseia-se numa pergunta ancorada na actualidade, ou seja, num breve segmento hermenêutico que tem a forma, ou de num jogo em que a pergunta-resposta visa revelar um segredo, ou de um enigma mais vasto em que a revelação de alguns dos seus dados clarificaria a própria natureza do jogo.
2- A sua livre apropriação, na medida em que a expansão do mote que faz as micro-causas tem algo de semelhante às mnemotécnicas da oralidade: avança com aparente fragilidade pela rede, mas vai assinalando nos interfaces mais inesperados (on e off-line) a sua real força. Isto acontece devido ao facto de os blogues não se moverem numa relação axial entre auditórios e emissores fixos, acabando antes - tal como uma trepadeira sem fim - por cruzar terrenos muito plurais e sensíveis (políticos, mediáticos, sociais, etc.).
3- A sua imprevisibilidade, na medida em que as micro-causas criam um tipo de agenda que escapa aos verosímeis que têm dominado, quer o espírito de corpo da reivindicação tradicional, quer a lupa dominantemente cirúrgica do colunismo jornalístico. O que as micro-causas da blogosfera têm em vista não é um corpo, nem um sistema e muito menos a exigência de uma mudança. O que as micro-causas visam é sobretudo uma inquirição aparentemente casuística, mas que, ao fim e ao cabo, acaba por criar uma desejada turbulência nas inércias de vários sistemas (por exemplo: inquirir uma situação abjecta, como é o caso do “envelope 9”, ou solicitar a disponibilização de fontes, como aconteceu nos casos OTA e Fátima Felgueiras).
4 – A sua contemporaneidade, na medida em que as micro-causas traduzem um tipo de eficiência que é própria de uma época em que as chamadas “grandes causas” deixaram de mobilizar a sociedade, a favor de outros factores (hiper-reais) que funcionam em fluxo massificado e em rede. As micro-causas integram-se, hoje em dia, num âmbito de causas mais vastas e fragmentárias que está percorrer a abertura dos novos ciberterritórios e das novas cidadanias emergentes no globário. Não deixa de ser curioso, a título de exemplo, que um partido político tradicional tenha usado o meio (os blogues) e esta expressão genuína da blogosfera (as micro-causas) para realizar uma petição (em Novembro de 2005) : “Micro Causa (CDS/PP Beato, Lisboa): Petição para tornar oficial o Idioma Português nas Nações Unidas”. Apesar de escrita em minúsculas, não sei qual terá sido o resultado prático desta petição, mas a verdade é que o uso da expressão da micro-causa – e do “tom” aproximado que se lhe associa – não deixa de ser cristalinamente sintomático.
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P.S. - Devido ao facto de Altino Torres Ferreira ter sentido, com alguma veemência, a ausência da sua micro-causa neste post, passo a transcrevê-la: "Considerando o facto de estarem apuradas para o fase final do Campeonato do Mundo de Futebol do próximo ano, na Alemanha, três selecções de futebol (Portugal, Brasil e Angola) de países cuja língua oficial é a língua Portuguesa, e, como tal, existir um universo de 200 milhões de pessoas que utilizam a dita língua como "língua materna", constituindo-se assim um vasto universo de pessoas interessadas em consultar a página oficial da FIFA, que presumo seja da vossa responsabilidade, solicito tomem as diligencias necessárias para que a referida página web seja também apresentada em Português." (o impacto desta micro-causa, já agora, foi bastante importante).

quarta-feira, 17 de maio de 2006

Aniversários (act.)

Os meus sinceros parabéns ao Almocreve, ao Crítico e ao No Quinto dos Impérios pelo terceiro aniversário e ao Bicho Carpinteiro pelo primeiro. Três anos na blogosfera são três milénios na atmosfera.

Tonalidades & casos - 13

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"O escritor austríaco, de mãe eslovena, Peter Handke, esteve presente no funeral de Milosevic e explicou porquê. Em retaliação, o administrador da Comédie Française, Marcel Bozonnet, resolveu retirar da programação a peça Voyage au pays sonore ou l'art de la question, prevista para 2007 e entretanto em fase de produção, da autoria de Handke. As opiniões políticas de Peter Handke são discutíveis. Ele discute-as. A censura a uma peça de teatro é um acto administrativo, não é um acto de cultura. Que um liberal francês a tome, em nome da indignação, é um sinal inquietante dos tempos."
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Eis o que é uma expressão realmente plástica: a possibilidade de tudo contar e denunciar sem necessitar de mais contextos, nem de dois ou três panos de fundo suplementares. O fundo adere à superfície e faz da única camada que fala um eco para inúmeras vozes. Vantagem dos blogues, pois então (não é apenas no design que a questão dos novos materiais é, hoje em dia, da maior pertinência). Basta depois reentrar pelos links e voltar a entrar, sucessivamente, como o próprio Luís refere noutro post - cito -, entre esse espesso oceano de “claques”, seguindo pelas “maternidades”, pelas verdades “vaginalistas” e pelos pasmos “abdominalistas”. Como um meteorito que não precisa de fôlego: estar em todo o lado ao mesmo tempo, em órbita à própria órbita, disferindo o golpe e ao mesmo tempo areando o risível, comediando o dia a dia, incendiando a ternura escondida, a intimidade próxima, o liberalismo anti-liberal e até as mais do que discutíveis opiniões (políticas) de Peter Handke. Eis o que é uma tonalidade realmente plástica.

Tonalidades & casos - 12

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“Etimologia hebdomadária
A palavra para hoje é nãotenhotemponenhumdesculpem.”
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Poucos blogues, mesmo eclécticos e variados, seriam capazes de viver tendo como base um tão abundante número de rubricas fixas (“Coisas que melhoram algumas vidas”, “Ninho de Cucos”, “Eu hoje acordei assim”, “Metabloggers do it better”, “Porque é que adoro Desperate Housewives”, “Estado em que se encontra este blogue”, etc.). Quando fez um ano de vida, escrevi aqui no Miniscente: “Ela é uma rara mistura de quotidiano subtil e humor voraz com profundidade consistente e sátira afectuosa”. Não sei bem se acertei, mas sempre me pareceu claro que um dos lados mais apolíneos do labirinto blogosférico morava neste cocktail em festa que fazia do limiar – repita-se, do limiar - do ensaismo, dos aforismos, da crítica, da crónica, do excerto, do jogo de sombras e da comédia com fantasmas próprios e alheios… um palco, ao mesmo tempo, maleável e consistente. Ao ter criado e sobreposto vários destes limiares, os géneros puros e duros apenas se iam pressentiam. Mas ao recriar - nas rubricas fixas - novos esboços de géneros, esse pressentimento clássico, já de si apenas uma silhueta ou um coro grego de simples limiares, rapidamente se transfigurou no que a Bomba realmente é: uma inteligência expressiva. Poucos são os blogues, de facto, onde a variedade de registos é menos a procura de um tom do que o exemplo claro do que são as virtualidades (no sentido restrito de ‘trazer à realidade’, mas à sua ‘realidade própria’) de um meio novo como a blogosfera. No post citado, a familiaridade torna presente a rubrica que se ausenta, ao mesmo tempo que a palavra encontrada (encantada) para o dizer faz da cátedra do título uma espécie de design efémero e apetecido. Há poucas paisagens assim: muito mobiliário urbano atraente e ainda mais e mais rostos de personagens que se transfiguram permanentemente (lembram Delvaux, embora com o vazio recheado pelo diletante contágio do tango).

Tonalidades & casos - 11

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“Com todos/ Ontem, uma pessoa conhecida mandou-me um convite para mais um daqueles sites de amigos e conhecidos que permite que estejamos todos em rede. Aceitei o convite, preenchi os dados pedidos e, sem dar conta disso, mandei um convite semelhante a todos os endereços da minha caixa de correio, incluindo pessoas que mal conheço, de quem não sei há anos ou com quem me zanguei. Vamos ver se esse lapso não é interpretado como uma intenção.”
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Um meio tradicional - um jornal - tem sempre uma secção destinada a correcções (por exemplo, “O público enganou-se”). Nos blogues, a prática é desnecessária já que o pragmatismo da rede sempre fez claramente sobrepor o sentido à verdade (ver post sobre o tema). A veracidade torna-se, por isso, de vez, num assunto para a deontologia jornalística ou para as axiologias científicas sempre mediadas pelo inquérito e pela dúvida. Na particularidade da blogosfera, este tipo expressivo confina como nenhum outro com a coloquialidade e é por isso mesmo que, nestes casos, a imagem dos velhos botequins do final de setecentos parece ressuscitar. No post do Pedro – a bordo de um blogue minimalista e económico (ao contrário do Dicionário do Diabo) -, o confessionalismo abre portas à brevidade cinematográfica do gesto, à cristalina exposição do embaraço e até à simulação do sorriso. Parece que estamos agora mesmo a ouvir e a ver os interlocutores sob a arcada a discorrerem acerca da natureza dos lapsos e das "intenções" (em vivo itálico). Sobre a mesa, uma mão cheia de boicoli e golosessi. Uma pianola, dois violinos e a tonalidade das zattere um pouco mais ao longe.

terça-feira, 16 de maio de 2006

Um blogue a visitar

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Para quem gosta de cidades, eis um blogue de cidades com Milton Ribeiro (Porto Alegre / Brasil), Fal Vitiello Azevedo (São Paulo / Brasil), Luiz Ruffato (São Paulo / Brasil), Paulo José Miranda (Rio de Janeiro / Brasil), Nelson Saúte (Maputo / Moçambique), Rui Parada (Macau / China), eu, o próprio Luís Carmelo (Évora / Portugal), Luís Graça (Lisboa / Portugal) e Manuel Jorge Marmelo (Porto / Portugal).

O "tom" dos blogues - 9

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Escreveu Eduardo Pitta num post onde analisou a série que tenho dedicado à expressão na blogosfera (e que tenho traduzido pela palavra “tom”): “São coisas diferentes, escrever para um público virtual, não identificado, só remotamente pressentido — amigos próximos, oficiais do mesmo ofício, um que outro inimigo —, e escrever para uma audiência quantificada, que pode ir de Chicago à Palestina, do Campo Grande à Marechal Gomes da Costa e de São Petersburgo a Maputo (…)”
A questão pode também ser analisada do ponto de vista do leitor: são coisas diferentes ler um blogue com pouca difusão, embora minimamente referenciado (i.e., conhece-se o terreno, “pressentem-se” as clivagens, entende-se a natureza do círculo de leitura criado e domina-se até a possível natureza dos topics), ou ler um blogue de grande difusão sabendo que se partilha uma imensa e variada rede de leitores (é quase certo que as rubricas acabem por ser algo fixas, que os links constituam a remissão de uma main stream, que o impacto exceda o meio – a blogosfera - , que a previsibilidade e a expectativa não conduzam a sobressaltos desmedidos e que o próprio anonimato se torne mais consistente e menos familiar).
Ou seja, de um caso para o outro, o leitor deixa de entender a latitude de um simples claustro expressivo (é esse o esforço de um leitor do Miniscente, julgo eu) para se intrometer numa teia mais ampla onde acaba por rever-se num outro tipo de mobilidade e de compreensão (é esse o esforço do leitor de um Eschaton, ou, a nível mais local, por exemplo, do Abrupto).
As coisas andam associadas e têm, naturalmente, a sua tradição.
De facto, a hermenêutica romântica reduzia a interpretação ao reconhecimento das intenções de um dado autor (considerado do ponto de vista dos seus destinatários na situação original e histórica do discurso). Esta espécie de quase biografismo passou depois a ser entendida como uma variante da compreensão (Schleiermacher, Dilthey, etc.), acabando por centrar-se na expressão e na experiência vividas, sem qualquer necessidade de referência a um autor físico (noções do final do século XX, tais como a “fusão de horizonte” – Jauss - ou de “apropriação” – Ricoeur -, derivam deste turn e deixaram de visar fosse o fosse acerca da intencionalidade de outrem, já que o texto passava a bastar-se a si mesmo). Nesta linha de ideias, o convívio entre relato e leitor adquiriria o sentido de um real sobressalto, através dos qual este último se apropriaria de algo novo, por via de um conjunto de referências não ostensivas, entreabertas, ou desveladas no fruir do próprio relato. Este tipo de sobressaltos (com origem no apelo do texto) alimentariam a súbita compreensão do leitor ao mesmo tempo que lhe concederia uma nova capacidade de se rever a si próprio.
É este o coração do debate hermenêutico.
No caso dos blogues – raramente tenho visto este debate situado ao nível do leitor -, a diferença entre apreender o claustro expressivo de um blogue como o Miniscente e a rede criada pela mobilidade e intensa difusão de um Eschaton, ou de um Abrupto, é, contudo, de uma natureza distinta da que pode ser verificada entre textos clássicos (off-line). Há no mínimo quatro razões para tal.
A primeira situa-se na própria virtualidade do meio que já não pressupõe uma rígida separação de águas entre real e ficção. Mesmo nos blogues mais referenciais – os políticos, por exemplo –, a narrativa tende a criar a sua própria realidade e agenda. É por isso que a paródia, que encena sempre várias realidades ao mesmo tempo, se sobrepõe muitas vezes ao verosímil (ao potencial) que deveria ser trazido à realidade (é também por via desse uso que o virtual se impõe ao potencial).
A segunda tem a ver com o tipo de escrutínio a que se submete a linguagem em tempo real. Eu sou um adepto de que é apenas no uso, no efémero, no ‘cria e esquece’ — da linguagem que se cria o sentido (tal como escrevi aqui noutro post). Sei que o Eduardonão teria tantas certezas”. Seja como for, na perspectiva do leitor, a actualidade da expressão faz a leitura. Ninguém na blogosfera vive da memória temático-simbólica, ou de referências pesadas que legitimassem o sentido do que se escreve. Na blogosfera e na rede em geral, o hoje é já o sentido. A emergência é a lógica. O actual e o actualizado não se contrapõem à potência: são, sim, modos próprios e autónomos de significar (no fundo, isto corresponde à consecução de uma herança pragmática que referenciei igualmente noutro post).
A terceira prende-se com as novas possibilidades da interacção. Num meio tradicional, as possibilidades de afirmar a expressão eram escassas. De um lado havia o auditório e do outro lado existia a (depuradíssima) hierarquia da enunciação. As coisas estavam separadas verticalmente. Na rede, e na blogosfera com alguma singularidade, esses antigos magmas contaminaram-se e geraram horizontalmente novas formas de desinibição e de afirmação (as primeiras aparecem sobretudo na expressão do ressentimento, da desestruturação, do anonimato e de outros signos do desconforto, da paródia, ou do medo; enquanto as segundas aparecem sobretudo como cooperação, partilha, argumentação, complemento ou contraditório).
A quarta, no fundo o sustento de todo este debate e reflexão, diz respeito à própria procura de uma expressão que se adeque ao novo meio (a blogosfera). Tenho traduzido essa procura pela palavra “tom” – não me canso de o repetir - e tenho tentado exemplificá-la através de casos interessantes em posts que a dei o título de “Tonalidades & casos”. Sei que, à partida, a blogosfera é incompatível com gramaticalidades estriadas, embora haja blogues que tenham caído na tentação de explicitar algumas regras (voltarei um dia, talvez muito em breve, a esse interessante tema).
Estas quatro razões desenham cenários completamente novos na relação que o leitor tem com blogues onde se escreve, ou “para um público virtual, não identificado, só remotamente pressentido — amigos próximos, oficiais do mesmo ofício, um que outro inimigo”, ou, em contraponto, “para uma audiência quantificada, que pode ir de Chicago à Palestina, do Campo Grande à Marechal Gomes da Costa e de São Petersburgo a Maputo”, para recorrer aos termos utilizados por Eduarto Pitta no seu estimulante post.
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P.S. - Naturalmente, os meus cúmplices agradecimentos.

O medo do "nada" - 2

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Muitas vezes confunde-se o nada dizer com a compulsão blogosférica do ter que dizer. Pelo meio, a leitura vai-se tornando numa figura de quase ressentimento.

O encanto dos "mortinhos"*

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Não gostei muito do episódio de ontem. Aquele maninho de Brenda está a mudar com rapidez excessiva. Uma metamorfose tão denunciada não colhe realmente bem num argumento HBO. Também a aveludada filha de George, de tequilla para cá de tequilla para lá, mais não faz do que tecer as ainda mais denunciadas graças de Nate. De que servem afinal quarenta anos de idade, se as aves - neste caso apenas uma e logo azul - não voam na direcção certa? Claire, demasiado igual a si própria, sublinha esta tendência que faz do feliz desconcerto das passadas seasons uma mero jogo de cenas, urdido um pouco à pressa e sem a consistência a que a série já nos habituara. Aspectos mais bem conseguidos de ontem: Frederico levanta-se cedo e troca a deriva pela miragem, o incerto corte de cabelo de Keith, o modo como Brenda se torna numa (quase) personagem de Poe, as sequências contrastantes da festa e o discurso elíptico de Ruth. Não gostei muito, não.
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*Dialecto cá da casa.

O medo do "nada" - 1

Queneau
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Para Maria Zambrano, o “nada” foi a última aparição do sagrado. Um fantasma sem rosto. E há indícios de que tenha sido assim:
1) Dias antes da chegada de Gauguin, Van Gogh, a propósito de um estudo que estava a realizar no interior do seu quarto, escreveu: "Diverte-me extraordinariamente o trabalho de tirar do nada esse interior, com uma simplicidade digna de Seurat" (Arles, Outono de 1888).
2) Mallarmé não ficou atrás nesta saga: "Rien, Cette écume. Vierge vers/ A ne désigner que la coupe": ("Nada, Esta espuma. Verso virgem/ que não designa senão o corte"). Eis o nada: mais espuma e fantasma, do que corte preciso e rigoroso.
3) Unamuno, um dia, também acabou por perguntar: “Progresar, para qué ?” E concluiu: "la famosa maladie du siècle, que se anuncia en Rousseau"(...)" no era ni es outra cosa que la pérdida de la fe en la inmortalidad del alma, en la finalidad humana del Universo. Su símbolo, su verdadero símbolo, es un ente de ficción, el Doctor Fausto”. Ouçamo-lo: “Mefistófeles- Acabou-se! Palavra sem sentido!/ Acabou-se porquê? acabou e nada/ É tudo a mesma cousa! Então que vale/ A eterna criação? Cousas criadas/ Ao nada reduzir ! (…)”
4) Na Mensagem, Pessoa identifica o mito com um "nada que é tudo".
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P.S. -1- Ao Googlar, também se encontra - entre outras - a interessante frase de Queneau: "Il y des gens qui trouvent toujours quelque chose à ne rien dire".
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P.S. -2- Devo dizer que, devido às maravilhas do "nada", acabei por visitar de alto a baixo o Cocanha. Ainda que Zazie (talvez por andar sempre de metro) ache isto do "tom" uma parvoíce, a verdade é que o blogue passará a fazer parte das minhas visitas obrigatórias. Só não o escolhi já para o "Tonalidades & casos" por saber que não aprecia esta coisa de se falar da expressão dos blogues. Mas volto a sublinhar (e isto não é um piropo fácil): o Cocanha alia a leveza do leme ao bom gosto. É tudo.