sábado, 18 de março de 2006

Monty Côa

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António Martinho Baptista, apresentado no DN de hoje como "o maior especialista português em arte rupestre", deixou para a posteridade a seguinte frase:
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"Ninguém sabe exactamente para que servem estas placas a que chamamos 'arte móvel'. Já eram conhecidas em locais de grutas. Tínhamos em Portugal duas ou três. Mas aqui achámos imensas, umas 65, todas no mesmo sítio. Porque estavam ali tantas acumuladas? Ou era um pequeno santuário onde se depositariam tipo 'ex-votos', ou seria uma pequena escola de belas artes do Paleolítico Superior, onde os artistas ensaiariam."
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Acho admirável a imaginação que é própria da conjectura científica. Às vezes, chega a ter o suave odor de Monty Python.

Memórias de ouro - 1



Faz hoje vinte anos, chegava a Ben Gurion. Parece que foi hoje. Escrevia eu na altura: "Ao entrar na cidade velha, foi a surpreendente desmistificação do exótico e o visionamento do admirável."

O luar da guilhotina

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Em França há certas agonias, pálidas angústias, alguns males de coeur. Consequência: trinta e uma noites a incendiar carros e agora já lá vão umas três ou quatro a partir lojas. Faltam baladas, faltam gestas, faltam causas rubras e poesia. Ficam ecos insaciados de Ferré, alumínios vergados, luares desencantados. O certo é que as coisas, depois, lá se vão compondo.

Vizinhança entre congressos

Bem me parecia que Fernando Pessoa pronunciava "como" e não "cumo".

A solidão do Mar Aral

Depois dos problemas com o Blogger, chego a Évora e é o sufoco da sapo. Nada de rede. Uma adsl vergonhosa que passa o tempo a navegar em vestígio de antigo mar. Que fazer?

sexta-feira, 17 de março de 2006

Invisibilidade

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Está lá, está lá? Conseguem visionar os blogues? Eu não. E se um dia o blogger se fechasse para sempre - será hoje o caso? -, o que aconteceria a quase três anos de textos? Era caso para dizer que o apocalipse quereria dizer tudo menos visão.

quinta-feira, 16 de março de 2006

Mitos Climáticos

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Mitos Climáticos de Rui G. Moura é um excelente blogue, bem documentado e nada bajulador do main stream eco-politicamente-correcto (informação do meu amigo Alberto Magalhães, mais uma vez). O último post põe em causa a escola que no jornal Público insiste em fazer dogma do chamado "aquecimento global". Vale a pena passar por lá, ler e lincar.

Os gafanhotos espirituais

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Fui almoçar a um restaurante que era um misto de rede natura e design. Enquanto me deslocava à casa de banho, deparei com uma menina-senhora que se dirigia à empregada com ar peremptório: "Estes pastéis são realmente biológicos?". E eu logo pensei que há locais sagrados onde os gafanhotos se transformam em Santa Teresa de Ávila.

quarta-feira, 15 de março de 2006

De olhos bem abertos

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Nos Estados Unidos, a já legalizada colocação de "chips" subcutâneos (que contêm a história clínica de pacientes) começa agora a ser motivo de polémica. Liz McIntyre é um dos autores de um livro recente acerca dos múltiplos perigos que a "radio-frequency identification (RFID) technology" encerra: "It may seem innocuous, but the government and private corporations could use these devices to track people's movements". O cartão único de Sócrates passeia-se nestes limbos onde a utilidade e a funcionalidade se cruzam com as sempre conjecturáveis ameaças à liberdade. Fechamos os olhos face à tentação deste novo absoluto que é a instantaneidade tecnológica?

O gafanhoto espiritual

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Vicente Jorge Silva escreve hoje uma carta aberta a Augusto Santos Silva no DN. Depois de muito rodriguinho e da expressão do repetido apreço pessoal (uma lusitana 'concordância parcial' a ressoar a tédio), vem o anúncio das discordâncias que contrapõe uma regulação dos média "acima de toda a suspeita" a uma regulação onde abundam adjectivos como "opaco", "dúbio" e "obscuro". No fundo, não é a regulação que separa ambos os contendores mas tão-só o cozinhado, a culinária e a maior ou menor vivacidade dos ingredientes. Termina do seguinte modo esta carta aberta:
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"Recordar-te-ás que, quando estive contigo no parlamento, tentei promover sem sucesso um amplo debate no PS sobre as relações entre o poder político e o poder mediático. A incompreensão e o cinismo acabaram por prevalecer, confortando as velhas convicções de que os "bons jornalistas" são aqueles que são politicamente dóceis para nós e agressivos para os demais."
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Mais valia Vicente Jorge Silva ter respirado fundo ao fim de uma destas tardes solares em vez de ter perdido o seu tempo a escrever este trecho de inspiração tão ingénua. Mesmo que a sua passagem pela política partidária tivesse sido meteórica, não era já tempo para ter compreendido o funcionamento da feira? Creio sinceramente que sim.
Umberto Eco disse um dia que um dos modos de comunicação a que mais habitualmente recorremos é a ostensão ("amostra"): estou na esplanada, levanto a garrafa, ostento-a e o empregado já sabe o que eu quero. Este pequeno espaço do DN de hoje é mais uma ostensão. Gesto parecido com aquele que os cozinheiros da actual "ERC" andam a repetir há semanas, desde que passaram a acenar única e exclusivamente na direcção do segredo, do recato e - sejamos sinceros - da idiotice. Afinal, todos entendemos o jogo que a si próprio exageradamente se denuncia.
Amplo debate entre poder político e mediático no nosso tempo? Seria mais fácil um gafanhoto transformar-se em Santa Teresa de Ávila.