Conheço pessoalmente a Cátia Guerreiro e gosto dela. Não conheço pessoalmente a Joana Amaral Dias e desconheço as razões que me levam a não apreciar o estilo, a verve e a presença. Mistérios. Também sei que não votarei em nenhum dos candidatos no final da campanha que hoje se inicia. Quem não se identifica com os actores que se encontram no terreno não deve entrar na peça. E muito menos deverá transformar a nobreza do voto numa mero desígnio instrumental (o chamado "voto útil"). Apelar ao "voto útil" é, ao fim e ao cabo, crer na idiotice dos eleitores e subalternizar a relevância da mais importante arma da democracia.
quinta-feira, 20 de outubro de 2005
Folhetim
O Trevo de Abel - Episódio 6
Primeira Parte: O tempo de Adão
Primeira Parte: O tempo de Adão
Folhetim do Miniscente
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Abel repetia-se às vezes. Sempre a repetir que deixara de ver a mulher e a filha. Que se tinha alheado do mundo e abandonava, sem mais, tudo o que até então lhe era habitual e rotineiro. Abel era agora outro. Cantava na Madeira, na Venezuela, em França e na África do Sul para os emigrantes; cantava e animava os serões de sociedades populares, de Vila Real de Santo António a Caminha, do Fundão a Aveiro. Por ordem comercial da agência que produzia os seus espectáculos, acabou por receber um nome para a música pimba, o Ezequiel, e um outro nome para o heterónimo fadista, o Cesário Leme. Com visuais e posturas diferentes, como então se dizia, Abel deixou de vez o nome familiar na gaveta - que não era ainda Abel - e transvertia-se, quando não se travestia, no rosto e no corpo de um destino, cada vez mais, desencontrado.
Abel tinha-se esquecido definitivamente de tudo, mudara sem quase dar por isso e, claro, passava agora o tempo em quartos de hotel de duas, três ou quatro estrelas, entre restaurantes, aviões, autocarros e táxis de província.
Pouco depois, passaram os quatro a pé pela Embaixada de França e desceram depois a sombria Rua do Marquês de Tomar, onde a colina volta a descer para Boqueirões, Poços, Remolares e antigas lembranças de maremotos. Dona Joana, a avó de Júlia, aparecera entretanto na esquina. Tal como os outros, ouvira a deslumbrante frase inicial da história de Abel e já não foi capaz de abandonar o grupo.
Seria isso possível?
A meio caminho da ladeira tomarense, ainda houve tempo para uma paragem, talvez o alento da grande descida:
É uma casa gigante sobrevoando a escuridão e a voz de Abel, ininterrupta, insaciada a dar conta aos quatro rostos dessa memória súbita e fugaz. A parede é toda azul e decresce, em plano inclinado, desde as sebes crepusculares, até cair mais abaixo, amparada e lisa, sobre o nível íngreme e oblíquo da calçada. Por cima, o gradeamento persa, cobalto, queirosiano; misto de memória de Havana e de fumo exótico oriental, num único pátio de intimidade invisível. Abel fica pasmado quando olha e distingue, atrás dos desmedidos jarros de mármore e dos frontões de basalto, a mancha do imenso limoeiro que ascende às varandas cheias de azulejos, de onde pende, para sempre, uma penumbra sonâmbula e plena de histórias ainda caladas, sigilosas. É Lisboa, esquecida já do seu próprio império.
E Dona Joana achou bizarro tudo o que Abel, na altura, descreveu e efabulou.
Que já ali tinha morado, dizia. E que o pátio era então liso, sem grades, sem poço, nem árvores.
Apenas cavalos, três grandes cavalos brancos que um cantor albanês, seu amigo, lhe dera após uma magnífica viagem aos mares do sul. E talvez um imenso violoncelo. E uma mangueira gigante. Nessa altura, continuava Abel, tornei-me num homem muito rico, não estão ainda a ver quem eu era?
Dona Joana continua a levantar os olhos para o topo da rua, equilibrando-se nos ombros da neta, quase submergindo no coração do espanto, a inquirir, de súbito, na direcção do grande narrador - Mas, senhor Abel, você diz que foi o Ezequiel e o Cesário Leme, ao mesmo tempo? Já morreram os dois e eram tão bons cantores! Abel premiu os lábios e, numa mudez antiga, sussurrou, entre dentes, como que a exceder o sorriso de velho nauta indecifrável:
Eu conto-lhe tudo, eu conto-vos tudo isso. Ainda a noite é uma criança. Fui, de facto, todos esses e muitos outros, juro.
Ao fundo, esquecido, de costas para o presente, o Tejo, outra vez e sempre. Entre a maresia dos escaleres e arlequins, à beira do tumulto, dos prantos, das ameaças do dia e uma ansiedade súbita, ameaçadora a crescer, minuto após minuto, no coração de Abel.
A rádio diz que o governo mandou a polícia intervir. Tudo pode agora acontecer. Uma fila ininterrupta de carros do lixo sobe entretanto a D. Carlos e a luz intermitente e cor-de-laranja espalha-se pelos edifícios, cruza-se com sirenes e luminárias e Abel a respirar o ar ainda fresco do serão, encostado ao candeeiro e de retorno à sua história. Enquanto é tempo. O coração a bater, a bater.
Um dia, quando regressava à casa da Bica, um mercedes de janelas baças e escuras pára a meu lado. Como se fosse em banda desenhada, a porta de trás abre-se e uma senhora de vestido curto pede-me que entre e que me sente a seu lado. Assim faço e, em pouco mais de dois minutos, percebo logo que aquilo é coisa da televisão pública, da BTP. Levam-me para o restaurante panorâmico de Monsanto, ao ritmo de clichés mais ou menos estudados, frases entrecortadas e piropos de pivot. Por fim, quando posto à prova do caviar, da vista deslumbrante da capital, do sabor a ostras e de algumas promessas mais arrojadas, ouço subitamente a senhora a contar-me a história toda da sua vida; que era directora de programas da BTP, que às vezes até sentia depressões existenciais, que era do stress, do serviço público, do caraças.
Somos mesmo um país de confissões afectuosas, pensei. Paga a conta e a encorajante gorjeta, sem grandes demoras, a senhora reencaminhou-me até ao carro e clamou ao chauffeur para que se despachasse. De repente, fez-se luz no nosso caminho. Era uma espécie de via láctea a subir-me pela coluna, era um brilho turvo a povoar-me um súbito desejo. Durante a curta viagem, pousámos as mãos no mesmo encosto que era de pele e tocámos um no outro com os joelhos, com os olhares fugidios, com os ombros quase nus, com os lábios entreabertos; era da hora, dizia ela, e, por fim, talvez porque o serviço público a tal aconselhe, lá acabámos juntos na suite do Penta. Juro que a vista não era menos esplendorosa da que havíamos vislumbrado em Monsanto.
Seriam umas cinco da manhã, já a humidade da minha voz se espalhara por aquele ginásio de intimidades furtivas, já os nossos corpos se haviam incendiado em pequenos trevos de bramido e suor, quando, sem mais, com a maior das friezas, a senhora se voltou a munir do seu vestido amarelo e jade, e, de rompante, calculista e marciana como nunca, puxou do contrato que tinha capa de cabedal, folhas de gramagem pesada e montantes muito altos e já definidos. Abriu a maleta, retirou a parker e, por baixo das linhas escritas e revistas, coube-me apenas assinar. E fi-lo até pelo medo de perder qualquer coisa que não conseguia identificar.
E a rádio a dizer que o governo mandou a polícia intervir. E que agora tudo pode acontecer. Ouvem-se sirenes ao longe, a cidade sente-se ameaçada. Abel também.
Mas a história continua.
Abel tinha-se esquecido definitivamente de tudo, mudara sem quase dar por isso e, claro, passava agora o tempo em quartos de hotel de duas, três ou quatro estrelas, entre restaurantes, aviões, autocarros e táxis de província.
Pouco depois, passaram os quatro a pé pela Embaixada de França e desceram depois a sombria Rua do Marquês de Tomar, onde a colina volta a descer para Boqueirões, Poços, Remolares e antigas lembranças de maremotos. Dona Joana, a avó de Júlia, aparecera entretanto na esquina. Tal como os outros, ouvira a deslumbrante frase inicial da história de Abel e já não foi capaz de abandonar o grupo.
Seria isso possível?
A meio caminho da ladeira tomarense, ainda houve tempo para uma paragem, talvez o alento da grande descida:
É uma casa gigante sobrevoando a escuridão e a voz de Abel, ininterrupta, insaciada a dar conta aos quatro rostos dessa memória súbita e fugaz. A parede é toda azul e decresce, em plano inclinado, desde as sebes crepusculares, até cair mais abaixo, amparada e lisa, sobre o nível íngreme e oblíquo da calçada. Por cima, o gradeamento persa, cobalto, queirosiano; misto de memória de Havana e de fumo exótico oriental, num único pátio de intimidade invisível. Abel fica pasmado quando olha e distingue, atrás dos desmedidos jarros de mármore e dos frontões de basalto, a mancha do imenso limoeiro que ascende às varandas cheias de azulejos, de onde pende, para sempre, uma penumbra sonâmbula e plena de histórias ainda caladas, sigilosas. É Lisboa, esquecida já do seu próprio império.
E Dona Joana achou bizarro tudo o que Abel, na altura, descreveu e efabulou.
Que já ali tinha morado, dizia. E que o pátio era então liso, sem grades, sem poço, nem árvores.
Apenas cavalos, três grandes cavalos brancos que um cantor albanês, seu amigo, lhe dera após uma magnífica viagem aos mares do sul. E talvez um imenso violoncelo. E uma mangueira gigante. Nessa altura, continuava Abel, tornei-me num homem muito rico, não estão ainda a ver quem eu era?
Dona Joana continua a levantar os olhos para o topo da rua, equilibrando-se nos ombros da neta, quase submergindo no coração do espanto, a inquirir, de súbito, na direcção do grande narrador - Mas, senhor Abel, você diz que foi o Ezequiel e o Cesário Leme, ao mesmo tempo? Já morreram os dois e eram tão bons cantores! Abel premiu os lábios e, numa mudez antiga, sussurrou, entre dentes, como que a exceder o sorriso de velho nauta indecifrável:
Eu conto-lhe tudo, eu conto-vos tudo isso. Ainda a noite é uma criança. Fui, de facto, todos esses e muitos outros, juro.
Ao fundo, esquecido, de costas para o presente, o Tejo, outra vez e sempre. Entre a maresia dos escaleres e arlequins, à beira do tumulto, dos prantos, das ameaças do dia e uma ansiedade súbita, ameaçadora a crescer, minuto após minuto, no coração de Abel.
A rádio diz que o governo mandou a polícia intervir. Tudo pode agora acontecer. Uma fila ininterrupta de carros do lixo sobe entretanto a D. Carlos e a luz intermitente e cor-de-laranja espalha-se pelos edifícios, cruza-se com sirenes e luminárias e Abel a respirar o ar ainda fresco do serão, encostado ao candeeiro e de retorno à sua história. Enquanto é tempo. O coração a bater, a bater.
Um dia, quando regressava à casa da Bica, um mercedes de janelas baças e escuras pára a meu lado. Como se fosse em banda desenhada, a porta de trás abre-se e uma senhora de vestido curto pede-me que entre e que me sente a seu lado. Assim faço e, em pouco mais de dois minutos, percebo logo que aquilo é coisa da televisão pública, da BTP. Levam-me para o restaurante panorâmico de Monsanto, ao ritmo de clichés mais ou menos estudados, frases entrecortadas e piropos de pivot. Por fim, quando posto à prova do caviar, da vista deslumbrante da capital, do sabor a ostras e de algumas promessas mais arrojadas, ouço subitamente a senhora a contar-me a história toda da sua vida; que era directora de programas da BTP, que às vezes até sentia depressões existenciais, que era do stress, do serviço público, do caraças.
Somos mesmo um país de confissões afectuosas, pensei. Paga a conta e a encorajante gorjeta, sem grandes demoras, a senhora reencaminhou-me até ao carro e clamou ao chauffeur para que se despachasse. De repente, fez-se luz no nosso caminho. Era uma espécie de via láctea a subir-me pela coluna, era um brilho turvo a povoar-me um súbito desejo. Durante a curta viagem, pousámos as mãos no mesmo encosto que era de pele e tocámos um no outro com os joelhos, com os olhares fugidios, com os ombros quase nus, com os lábios entreabertos; era da hora, dizia ela, e, por fim, talvez porque o serviço público a tal aconselhe, lá acabámos juntos na suite do Penta. Juro que a vista não era menos esplendorosa da que havíamos vislumbrado em Monsanto.
Seriam umas cinco da manhã, já a humidade da minha voz se espalhara por aquele ginásio de intimidades furtivas, já os nossos corpos se haviam incendiado em pequenos trevos de bramido e suor, quando, sem mais, com a maior das friezas, a senhora se voltou a munir do seu vestido amarelo e jade, e, de rompante, calculista e marciana como nunca, puxou do contrato que tinha capa de cabedal, folhas de gramagem pesada e montantes muito altos e já definidos. Abriu a maleta, retirou a parker e, por baixo das linhas escritas e revistas, coube-me apenas assinar. E fi-lo até pelo medo de perder qualquer coisa que não conseguia identificar.
E a rádio a dizer que o governo mandou a polícia intervir. E que agora tudo pode acontecer. Ouvem-se sirenes ao longe, a cidade sente-se ameaçada. Abel também.
Mas a história continua.
quarta-feira, 19 de outubro de 2005
Já pode visitar o meu site

Josef Koudelka
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Desde ontem à noite que pode visitar as seguintes secções (com os links já completos): "Agenda/Notícias", "Biografia", "Todos os livros", "Palavra", "Um Conto", "Últimas publicações", "Último romance", "No Prelo", "Oficina/ Laboratório" (trabalhos em curso), para além das "Cidades Imaginárias":

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Alguns campos das secções "Literatura", "Ensaios e pensamento" e "Escrita criativa", para além do próprio "Fórum" e de uma animação em flash no "Header", só ficarão prontos nos próximos dias. Tem sido um trabalho faraónico (que o diga o incansável designer e criativo João Nogueira).
Folhetim
O Trevo de Abel - Episódio 5
Primeira Parte: O tempo de Adão
Primeira Parte: O tempo de Adão
Folhetim do Miniscente
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A rua desce agora entre candeeiros de luz amarela, fosca e quase embaciada. Os pés dos altos candeeiros são do mesmo metal obscuro e esverdeado que se havia espalhado no firmamento do jardim da Cruz Vermelha. Sobre a superfície cilíndrica têm embutidas flores de três trevos que se enrodilham do mesmo modo que a memória traduz extravagâncias e deslumbres. Talvez por isso, de modo abrupto, Isabel pare e diga que vê. De repente. Como se estivesse de facto a ver, ou a visionar, com toda a nitidez do fogo arder por si próprio. O pai sorri outra vez e Abel, comprometido com o enigma criado, parece resgatar noutro rosto o seu próprio e admirado embuste.
É como se estivesse a vê-la, disse Isabel.
Abel continua suspenso e atento aos olhos extraordinários de Isabel:
Sim, imaginem que chove muito, muito. Luísa corre a fechar a janela, empurra-a até que consegue deter o fecho, talvez o ferrolho. Escurece lá fora e a criança corre até à sala, é tarde e a televisão está acesa aos gritos diante do vazio. O duche, o quarto, o telefone a tocar. Luísa prepara a comida para amanhã, vai e vem ao quarto, espreita pela janela e chove. Chove sempre. Do outro lado dos vidros, há apenas casas altas de betão e de cor tão desnatada e desmaiada como a sua; em baixo, são exíguas as ruas; confrangedoras e rodopiadas por contentores a transbordar; mais ao largo, são jovens e bichos e jovens a nadar em cavalo e em pó branco e correm, correm sob impermeáveis amarelos, cor de argila e vertigem. E depois, o quarto; fazer a cama, voltar a arrumar os cobertores, os lençóis, as gavetas, a roupa suja, outra vez o pó; é um dia como outro qualquer, são já onze e meia da noite e Luísa muda de canal sempre que passa pela sala com uma cruzeta na mão. Por fim, é o ferro e a saia para amanhã: camiseira, blusa, meias, roupa interior e o despertador. É preciso não esquecer o talão da luz e do gás; as senhas de almoço e o telefone do especialista dos ouvidos para a gaiata.
No quarto, a luz fecha-se a horas, até porque o comboio, amanhã, é às seis e um quarto. O telefone parou de tocar e Luísa enrola-se na cama como se fosse feto, como se fosse nada e chega mesmo a dissolver-se, a diluir-se no eco de uma morte, mas qual? Ali fica, a sós, no escuro, sem saber onde colocar o corpo, a cabeça, os pés, a pele, a boca, os polegares. Vira-se e não dorme, descobre pequenas dores, delírios, mas é já tarde e a vida, quem havia de dizer, começou ontem, ainda era cedo e havia paixão e flores sobre o sofá. Naquela sala de quinze metros quadrados, entre a aparelhagem do Continente e o reposteiro. Entre a lua nova e o adeus.
E agora Abel ?
Filha, de onde te saiu isso tudo, o que dizes tu ?
Junto ao quiosque de Santos-o-Velho, arrumam-se os últimos jornais que falam ainda do morto vivo, enquanto nas montras deslizam manequins ocos, incorpóreos, despidos, alguns mesmo sem cabeça e sem membros. Nas esquinas do bairro, é de futebol que a imaginação tece pequenos prazeres e augúrios. Entramos na pastelaria e Isabel pede um pastel de carne e uma maçã. Por essas e por outras, fomos todos, um dia, expulsos do paraíso. E como é que se chamava a tua mãe, Abel?
Zorba, depois de ouvir a resposta que tem nome de Marieva, como que ficou aturdido e secretamente mudo; calado e a perder o sorriso do Peloponeso. Talvez tenha entendido quase tudo, mas sempre silencioso, sepulcral.
Um dia telefonaram-me do Big Show Bic, adiantou Abel, já sentado diante do compal também de maçã. Foi o princípio de tudo, ou, talvez, o princípio do fim, porque uma ascensão, sobretudo meteórica, é sempre o espectro, ou o espantalho desfigurado de um fim. Seja qual for.
E foi então que Júlia entrou na pastelaria. Abraçam-se as amigas, retoma-se a história, parece que nos conhecemos há tanto tempo! À mesa, desprevenidos, ficam agora sentados os quatro. E Abel a acrescentar que, a certa altura, tinha deixado de ir a casa, aos Seguros, a tudo. Era como se a sua vida fosse atraída para o centro de um remoinho sem saída. Era como se os seus passos se tivessem tornado nos passos da tentação pura, na mais inexplicável das tentações.
Era o catavento da mudança mais inexplicável da vida.
Parece hipnótico o destino, quando Lisboa se torna num segredar íntimo, longe da vista do estuário e da foz que acede aos sete céus líquidos deste universo parado sobre si mesmo. Nessa ascese, nessa fuga delicada; nessa rudeza, às vezes implacável, reside o próprio fado, como se fosse uma ilha cantada, mas inabitada; percorrida, mas sonhada apenas à distância. Um dom ciciante que o olhar transcreve através de um encanto talvez chamado saudade. Através de um baptismo chamado acaso, ventura, risco ou estrela. Que ventura será a minha, se não posso sequer provar a ninguém o que se passou comigo no Jardim da Estrela, naquele dia!?
E Abel abriu os braços e lembrou o momento em que, de vez, a vida começou a mudar. Sem saber ainda porquê e sobretudo sem antever as consequências.
Júlia escutou e só conseguiu responder uns segundos depois.
Que vinha ter com a avó.
Mas antes ainda, tinha já tido tempo para seguir a descrição detalhada das aventuras de Abel, quando este se tornou num artista residente no Big Show Bic.
Que pena! E eu que na altura não o conheci! Era demasiado nova!
Ou não?
É como se estivesse a vê-la, disse Isabel.
Abel continua suspenso e atento aos olhos extraordinários de Isabel:
Sim, imaginem que chove muito, muito. Luísa corre a fechar a janela, empurra-a até que consegue deter o fecho, talvez o ferrolho. Escurece lá fora e a criança corre até à sala, é tarde e a televisão está acesa aos gritos diante do vazio. O duche, o quarto, o telefone a tocar. Luísa prepara a comida para amanhã, vai e vem ao quarto, espreita pela janela e chove. Chove sempre. Do outro lado dos vidros, há apenas casas altas de betão e de cor tão desnatada e desmaiada como a sua; em baixo, são exíguas as ruas; confrangedoras e rodopiadas por contentores a transbordar; mais ao largo, são jovens e bichos e jovens a nadar em cavalo e em pó branco e correm, correm sob impermeáveis amarelos, cor de argila e vertigem. E depois, o quarto; fazer a cama, voltar a arrumar os cobertores, os lençóis, as gavetas, a roupa suja, outra vez o pó; é um dia como outro qualquer, são já onze e meia da noite e Luísa muda de canal sempre que passa pela sala com uma cruzeta na mão. Por fim, é o ferro e a saia para amanhã: camiseira, blusa, meias, roupa interior e o despertador. É preciso não esquecer o talão da luz e do gás; as senhas de almoço e o telefone do especialista dos ouvidos para a gaiata.
No quarto, a luz fecha-se a horas, até porque o comboio, amanhã, é às seis e um quarto. O telefone parou de tocar e Luísa enrola-se na cama como se fosse feto, como se fosse nada e chega mesmo a dissolver-se, a diluir-se no eco de uma morte, mas qual? Ali fica, a sós, no escuro, sem saber onde colocar o corpo, a cabeça, os pés, a pele, a boca, os polegares. Vira-se e não dorme, descobre pequenas dores, delírios, mas é já tarde e a vida, quem havia de dizer, começou ontem, ainda era cedo e havia paixão e flores sobre o sofá. Naquela sala de quinze metros quadrados, entre a aparelhagem do Continente e o reposteiro. Entre a lua nova e o adeus.
E agora Abel ?
Filha, de onde te saiu isso tudo, o que dizes tu ?
Junto ao quiosque de Santos-o-Velho, arrumam-se os últimos jornais que falam ainda do morto vivo, enquanto nas montras deslizam manequins ocos, incorpóreos, despidos, alguns mesmo sem cabeça e sem membros. Nas esquinas do bairro, é de futebol que a imaginação tece pequenos prazeres e augúrios. Entramos na pastelaria e Isabel pede um pastel de carne e uma maçã. Por essas e por outras, fomos todos, um dia, expulsos do paraíso. E como é que se chamava a tua mãe, Abel?
Zorba, depois de ouvir a resposta que tem nome de Marieva, como que ficou aturdido e secretamente mudo; calado e a perder o sorriso do Peloponeso. Talvez tenha entendido quase tudo, mas sempre silencioso, sepulcral.
Um dia telefonaram-me do Big Show Bic, adiantou Abel, já sentado diante do compal também de maçã. Foi o princípio de tudo, ou, talvez, o princípio do fim, porque uma ascensão, sobretudo meteórica, é sempre o espectro, ou o espantalho desfigurado de um fim. Seja qual for.
E foi então que Júlia entrou na pastelaria. Abraçam-se as amigas, retoma-se a história, parece que nos conhecemos há tanto tempo! À mesa, desprevenidos, ficam agora sentados os quatro. E Abel a acrescentar que, a certa altura, tinha deixado de ir a casa, aos Seguros, a tudo. Era como se a sua vida fosse atraída para o centro de um remoinho sem saída. Era como se os seus passos se tivessem tornado nos passos da tentação pura, na mais inexplicável das tentações.
Era o catavento da mudança mais inexplicável da vida.
Parece hipnótico o destino, quando Lisboa se torna num segredar íntimo, longe da vista do estuário e da foz que acede aos sete céus líquidos deste universo parado sobre si mesmo. Nessa ascese, nessa fuga delicada; nessa rudeza, às vezes implacável, reside o próprio fado, como se fosse uma ilha cantada, mas inabitada; percorrida, mas sonhada apenas à distância. Um dom ciciante que o olhar transcreve através de um encanto talvez chamado saudade. Através de um baptismo chamado acaso, ventura, risco ou estrela. Que ventura será a minha, se não posso sequer provar a ninguém o que se passou comigo no Jardim da Estrela, naquele dia!?
E Abel abriu os braços e lembrou o momento em que, de vez, a vida começou a mudar. Sem saber ainda porquê e sobretudo sem antever as consequências.
Júlia escutou e só conseguiu responder uns segundos depois.
Que vinha ter com a avó.
Mas antes ainda, tinha já tido tempo para seguir a descrição detalhada das aventuras de Abel, quando este se tornou num artista residente no Big Show Bic.
Que pena! E eu que na altura não o conheci! Era demasiado nova!
Ou não?
terça-feira, 18 de outubro de 2005
Atenção caro leitor
Atenção caro leitor
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Durante o dia de hoje, embora ainda com uma ou outra falha nos links, a minha página pessoal estará pronta a ser visitada. Com o tempo, o projecto acabará por ser aperfeiçoado a pouco e pouco:
Durante o dia de hoje, embora ainda com uma ou outra falha nos links, a minha página pessoal estará pronta a ser visitada. Com o tempo, o projecto acabará por ser aperfeiçoado a pouco e pouco:
Nesta minha nova página pessoal, poderá encontrar notícias e um fórum de discussão permanente, para além de um razoável banco de dados de ordem variada (romance, ensaio, projectos, trabalhos em curso, investigação, programas académicos, traduções, escrita criativa, teatro, cinema, poesia, biografia, cidades imaginárias e muitas imagens).
Espero e agradeço, desde já, a sua visita.
Naturalmente, a abertura desta página pessoal não implicará nenhum tipo de mudança na linha que o Miniscente vem mantendo desde Julho de 2003.
O design tem a devida e reconhecida assinatura: João Nogueira.
Naturalmente, a abertura desta página pessoal não implicará nenhum tipo de mudança na linha que o Miniscente vem mantendo desde Julho de 2003.
O design tem a devida e reconhecida assinatura: João Nogueira.
Folhetim
O Trevo de Abel – Episódio 4
Primeira Parte – O tempo de Adão
Folhetim do Miniscente
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Primeira Parte – O tempo de Adão
Folhetim do Miniscente
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A primeira vez que dei a volta ao país, tive que meter baixa nos Seguros e deixei a mulher e a filha por mais de vinte dias. Foi um sucesso. Cheguei a casa uma semana depois do previsto e gozei a vida como nunca. As coisas começavam a mudar. Já não passava o tempo a descer as escadas rolantes da Estação do Rossio, nem corria, todos os dias, pela esquina do Americano para reencontrar a Luísa e, à noite, como é que hei-de dizer, quase até me esquecia de ouvir o choro da miúda, a morgadinha da novela e as discussões acerca da goma para a roupa, dos tapetes cheios de pó, da lixívia entornada no aparador.
Perdi esmero, antevi mudanças, senti no espírito uma espécie de energia quase diabólica, um augúrio de coisas nefastas. Não sei bem explicar, mas era como se já soubesse que caminhava desalmadamente para a frente, não em simples fuga, mas com muito maior velocidade; tinha-me tornado num autêntico rastilho em fogo que me enchia de abismos, como se uma deusa terrível, tentadora e com olhos de fogo me atiçasse a cumprir um destino impossível, improvável, mordaz ou mesmo fáustico.
Abel a dizê-lo de sobrancelhas vincadas, cego de convencimento e talvez até de pânico. Parecia um verdadeiro acossado. Diga-se.
E Isabel perguntou - Mas... o senhor cantava música pimba? Abel colocou as mãos nos bolsos e avançou, na frente do canteiro, até ao caramanchão. Por dentro, é como um alpendre suspenso em hastes metálicas verde escuras, sobre o qual escorre uma tímida trepadeira. E Isabel a tentar reter o riso, o despropósito sem explicação.
Mais atrás, um semicírculo de cadeiras rodeia as quatro mesas de jogo de dominó, sob a armação de heras muito longilíneas e frágeis. Apenas dois homens, quase invisíveis, ainda trocam as peças alvinegras do jogo, à luz da estrela da tarde que é, como se sabe, também a da manhã.
E Isabel acabou mesmo por conter o riso e disse:
Chamaram-lhe o Zorba, porque dançava muito bem, acrescentou. Puseram-lhe o nome na Grécia, quando o filme saiu, não foi pai?
Talvez tivesse acontecido naquela ilha comprida que mais parecia um alfinete, quando vista de avião. Chamavam-lhe a ilha de Idra, essa que fica entre o Pireu e as famosas ilhas de Aegina, Methana e Galatas e que Abel também lembra, porque foi de lá que, um dia, reentrou em Portugal para se vingar de muitos males. Mas isso foi noutra vida, noutro tempo, lá chegaremos.
Foi em frente ao Museu Nacional de Arte Antiga que Abel, interrompendo por momentos a história, acabou por responder. De facto, aquilo que, na altura, cantava era mesmo pimba. Afinal, era música divertida e também agitada como a grega, insistiu com humor. Com os olhos um pouco vermelhos. Com a cara inerte de tanta montanha ainda por desbravar. A vida é, toda ela, feita da mesma escalada, pensou. E o que irá Leonor pensar de mim, depois de tudo isto?
Um dia, perto de Torres Novas, um pouco depois da apoteose, entre palmas e vivas e bravos, subi a uma das barracas onde serviam bifanas, vinho, gritos luarentos, roncos; onde nos agraciavam com garrafas de Sagres, abraços, saudações lancinantes; onde nos saudavam com urros, laivos de tragédia, suores de animal a arder, fatias de corado, febras e muito mais.
Consegui, por momentos, afastar-me das tábuas de madeira que faziam de balcão e, de repente, fiquei ali de pé a um canto, rabiscando autógrafos sobre os guardanapos gordurosos; ali mesmo tinha ficado Abel, talvez luzindo nos olhos aquele mar de lâmpadas ao vento, suspensas no cordel que ia e vinha, como se fosse um destino escrito pelas marés de um logro espartano. Viu então, nesse instante, diante de si, a mulher de saia rasgada até à coxa, divinamente prostrada diante do tampo cheio de garrafas da Vialonga; estava calada, de lábios very rouge, disputada pelos homens gordos e pequeninos de cara vermelha e carótida quente.
Ia e vinha como o fio de prumo da vida; ia e voltava como as marés que se subtraem à vida pela necessidade e pelo ardor de se repetirem à saciedade. Até que, chegada a sua vez, uns dias mais tarde, Abel acabou por lhe pegar na mão e trouxe-a consigo. E jamais a devolveria àquele sítio onde, até então, pertencia.
Trouxe-a comigo para Lisboa e meti-a numa casa pequena, talvez esguia e secreta, nos altos da Bica. Chamava-se Arlete e era tão alta como a menina, quase não falava e foi um brilho que Deus, nessa altura, me deu.
Suite número 2 em D menor, BWV, 1008, prelúdio. Onde é que ouviste dizer tal coisa? - perguntou Zorba, desviando o assunto, sorrindo de lado, imaginando as ancas de Arlete. Foi a Júlia que é minha amiga e anda no Conservatório. Mora aqui perto, costumo encontrá-la às vezes, quando saio da Cruz Vermelha. De certeza que era isso que estavam a tocar. Por que é que te ris, pai?
Saía daquela janela, ali. Daquela, sim.
Zorba aparentemente alheio, com os olhos a demorarem-se na estátua do pequeno largo. A figura branca está grávida e eleva-se da fonte com obstinação. Isabel a descrever a mesma figura feminina, esculpida, ágil, com um dos seios à mostra, o da esquerda, enquanto o menino-anjo, por baixo, apenas dispõe de uma simples asa, a da direita.
Abel, desconcertante, com os olhos ainda vermelhos, a concluir que o menino-anjo é portador de uma seta esverdeada, negra, cheia de veneno na ponta, inundada pelo fogo.
Para que martírio ?
Deixemo-nos de esculturas e voltemos mas é à vida, repetiu.
(Teria muita pena, se a polícia me apanhasse antes de eu contar tudo o que tenho para contar).
Perdi esmero, antevi mudanças, senti no espírito uma espécie de energia quase diabólica, um augúrio de coisas nefastas. Não sei bem explicar, mas era como se já soubesse que caminhava desalmadamente para a frente, não em simples fuga, mas com muito maior velocidade; tinha-me tornado num autêntico rastilho em fogo que me enchia de abismos, como se uma deusa terrível, tentadora e com olhos de fogo me atiçasse a cumprir um destino impossível, improvável, mordaz ou mesmo fáustico.
Abel a dizê-lo de sobrancelhas vincadas, cego de convencimento e talvez até de pânico. Parecia um verdadeiro acossado. Diga-se.
E Isabel perguntou - Mas... o senhor cantava música pimba? Abel colocou as mãos nos bolsos e avançou, na frente do canteiro, até ao caramanchão. Por dentro, é como um alpendre suspenso em hastes metálicas verde escuras, sobre o qual escorre uma tímida trepadeira. E Isabel a tentar reter o riso, o despropósito sem explicação.
Mais atrás, um semicírculo de cadeiras rodeia as quatro mesas de jogo de dominó, sob a armação de heras muito longilíneas e frágeis. Apenas dois homens, quase invisíveis, ainda trocam as peças alvinegras do jogo, à luz da estrela da tarde que é, como se sabe, também a da manhã.
E Isabel acabou mesmo por conter o riso e disse:
Chamaram-lhe o Zorba, porque dançava muito bem, acrescentou. Puseram-lhe o nome na Grécia, quando o filme saiu, não foi pai?
Talvez tivesse acontecido naquela ilha comprida que mais parecia um alfinete, quando vista de avião. Chamavam-lhe a ilha de Idra, essa que fica entre o Pireu e as famosas ilhas de Aegina, Methana e Galatas e que Abel também lembra, porque foi de lá que, um dia, reentrou em Portugal para se vingar de muitos males. Mas isso foi noutra vida, noutro tempo, lá chegaremos.
Foi em frente ao Museu Nacional de Arte Antiga que Abel, interrompendo por momentos a história, acabou por responder. De facto, aquilo que, na altura, cantava era mesmo pimba. Afinal, era música divertida e também agitada como a grega, insistiu com humor. Com os olhos um pouco vermelhos. Com a cara inerte de tanta montanha ainda por desbravar. A vida é, toda ela, feita da mesma escalada, pensou. E o que irá Leonor pensar de mim, depois de tudo isto?
Um dia, perto de Torres Novas, um pouco depois da apoteose, entre palmas e vivas e bravos, subi a uma das barracas onde serviam bifanas, vinho, gritos luarentos, roncos; onde nos agraciavam com garrafas de Sagres, abraços, saudações lancinantes; onde nos saudavam com urros, laivos de tragédia, suores de animal a arder, fatias de corado, febras e muito mais.
Consegui, por momentos, afastar-me das tábuas de madeira que faziam de balcão e, de repente, fiquei ali de pé a um canto, rabiscando autógrafos sobre os guardanapos gordurosos; ali mesmo tinha ficado Abel, talvez luzindo nos olhos aquele mar de lâmpadas ao vento, suspensas no cordel que ia e vinha, como se fosse um destino escrito pelas marés de um logro espartano. Viu então, nesse instante, diante de si, a mulher de saia rasgada até à coxa, divinamente prostrada diante do tampo cheio de garrafas da Vialonga; estava calada, de lábios very rouge, disputada pelos homens gordos e pequeninos de cara vermelha e carótida quente.
Ia e vinha como o fio de prumo da vida; ia e voltava como as marés que se subtraem à vida pela necessidade e pelo ardor de se repetirem à saciedade. Até que, chegada a sua vez, uns dias mais tarde, Abel acabou por lhe pegar na mão e trouxe-a consigo. E jamais a devolveria àquele sítio onde, até então, pertencia.
Trouxe-a comigo para Lisboa e meti-a numa casa pequena, talvez esguia e secreta, nos altos da Bica. Chamava-se Arlete e era tão alta como a menina, quase não falava e foi um brilho que Deus, nessa altura, me deu.
Suite número 2 em D menor, BWV, 1008, prelúdio. Onde é que ouviste dizer tal coisa? - perguntou Zorba, desviando o assunto, sorrindo de lado, imaginando as ancas de Arlete. Foi a Júlia que é minha amiga e anda no Conservatório. Mora aqui perto, costumo encontrá-la às vezes, quando saio da Cruz Vermelha. De certeza que era isso que estavam a tocar. Por que é que te ris, pai?
Saía daquela janela, ali. Daquela, sim.
Zorba aparentemente alheio, com os olhos a demorarem-se na estátua do pequeno largo. A figura branca está grávida e eleva-se da fonte com obstinação. Isabel a descrever a mesma figura feminina, esculpida, ágil, com um dos seios à mostra, o da esquerda, enquanto o menino-anjo, por baixo, apenas dispõe de uma simples asa, a da direita.
Abel, desconcertante, com os olhos ainda vermelhos, a concluir que o menino-anjo é portador de uma seta esverdeada, negra, cheia de veneno na ponta, inundada pelo fogo.
Para que martírio ?
Deixemo-nos de esculturas e voltemos mas é à vida, repetiu.
(Teria muita pena, se a polícia me apanhasse antes de eu contar tudo o que tenho para contar).
segunda-feira, 17 de outubro de 2005
Dar a volta por cima

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Não há como dar a volta por cima. Com ou sem "DEA", com ou sem tribunais, com ou sem "narcotráfico". O senhor presidente é uma pessoa afectuosa e sincera. Sabe falar olhos nos olhos ao povo português e sabe como poucos conquistar o coração da monarquia espanhola. O que não quer dizer que o "clima empresarial" do país vá de vento em popa (mas nem tudo é cem por cento perfeito!):
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Até porque saber ganhar nas corridas de automóveis e no singular leasing de aviões privados (alheios) não é tarefa simples. Seja como for, há sempre nuvens de esperança e horizontes renovados, quando um país é bem dirigido:
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Em Caracas, tal como agora se diz por cá, "Gostamos de fotografias desfocadas e da vida como ela é". Que interessa, pois, tocarmos em pontos sensíveis, em feridas abertas ou em "tráficos" inefáveis? Nada melhor do que ler os matutinos da terra para entender que não há comparação possível, nesta vida terrena, com um belo e bem temperado pernil.
Folhetim
O Trevo de Abel – Episódio 3
Primeira Parte – O tempo de Adão
Folhetim do Miniscente
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Primeira Parte – O tempo de Adão
Folhetim do Miniscente
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Sempre que a vida me corria mal, cantava. Enquanto a Luísa passava a ferro e lá fora se ouviam trovoadas, eu cantava. Abria o peito e os sons saíam, que maravilha que era, acredite.
Sobre a calçada, folhas de plátano, rápidas, leves, a embaterem nas grades, nos painéis de publicidade, nos aros esquecidos pelo tempo corrente. São rostos mudos, anunciando telemóveis, revistas, shoppings de cibernautas. São carros e mais carros, milhares de carros a abafarem a voz e a discrição das ervas, de antigos chorões, gerânios ou vasos de alecrim desnaturado. Depois de Santos, a Avenida 24 de Julho entretém-se com vendas de gasolina e, para além da nuvem de fumo em forma de balão sem fim, para os lados do rio, um imenso cartaz ainda colorido anuncia a velha rota da Expo 98. É uma espécie de tira vermelha e amarelada, extensa como a memória dos maiores grafitos, onde, com humor hip hop, se desenham peixes, naus e aves bruxuleantes, ou seja, precisamente aquilo que o mar abriga, embala e vislumbra.
Eu gostava tanto que acreditassem na minha história! E se o Porfírio me denuncia, o que vai ser de mim?
Contudo, nesse tempo, tudo era ainda muito prosaico e fácil de contar. E Zorba logo a sorrir de tanto desvario e lugar-comum que pareciam, por agora, povoar o excitado discurso de Abel.
Isto sempre foi para mim uma espécie de ascensão ao paraíso, continuava Zorba inesperadamente, como que a interromper a atenção, as palavras e a presumida urgência de Abel. Ao subir as escadas que vão dar ao Largo das Janelas Verdes, a cidade surgia agora por baixo tornando-se ribeirinha, litoral, solitária, uma verdadeira lembrança de cais.
Quantos anos tem a sua filha, a propósito? Sobem-se os degraus que são de basalto puro, ondulados pelas antigas marés. Erosões no limiar da memória possível. A história continua.
É verdade, é. A minha filha é nova de mais para mim, tem só dezoito anos. Tem toda a razão. Para si, não seria nova demais, mas para mim, é uma espécie de neta.
Lá em cima, no Jardim 9 de Abril, já a Isabel estava entretanto debruçada sobre as grades e as alturas. Estava verdadeiramente paralisada ou deslumbrada, entre os jeans em fúria, apertados e bem moldados, e a doçura de um extraordinário sorriso, a Isabel. Uma menina alta, de sardas, de voz muito fina, a Isabel. Zorba mudou de cara, de tom, de cor, de idade.
Ainda nem Abel tinha contado que foi três anos após o casamento que, pela primeira vez, ganhou dinheiro a sério. Sempre a cantar. Foi num festival popular realizado num casino e, a partir dessa data, a vida começou de facto a mudar. A mudar, a mudar. E dizia-o com medo que Zorba o pudesse reconhecer de algum lado.
Até que Lisboa quase se ia fazendo noite e os três se sentavam, por momentos, num dos bancos do jardim. Por baixo, o cais tornou-se numa espécie de reflexo fosco e coado de água verde escura que, nas docas, imóvel, ainda parecia perscrutar o sabor nascente da ferrugem, ou a quilha inesperada das embarcações de ouro. E Abel a pensar que esta é, de certeza, a véspera do último dia da sua estranha vida. Água obscura, sépia, azul para ser cantada pela boca alumbrada dos poetas e pela visão dos lúcidos. Quantas horas de vida me restam ? Pergunta Abel em silêncio. Junto ao rio, a gare é como uma caixa de betão clara, raspada de negrume e sujidade no tecto. Por onde lentamente deslizam sombras noctívagas de meteoritos, estrelas cadentes e helicópteros e onde também se ergue uma antena electrónica que roda sobre si, tal como os sonhos quando desvendam mar, cegueira e fado após a grande ponte. Há que contar tudo, seja a quem for, antes que o pior me bata à porta. Pensou ainda Abel.
Entre concertos e viagens, deixei, quase de repente, de ser um trabalhador escrupuloso e zeloso. Passei a chegar a casa sempre muito tarde, era como se uma nova adolescência me batesse à porta.
Ao longo do cais, a gare perde-se num imenso terraço totalmente vazio que se assemelha aos pontões de Oostende ou de Haia. Luzes de holofote amarelado no lusco-fusco permanente do dia, entre o sol encoberto e as nuvens que ainda decoram a desmaiada saudade do império. Ou o longo fim de tarde da ilusão portuguesa.
Tirando isso, continuava Abel, todos os dias a vida era cada vez mais igual. Um verdadeiro cemitério parado na repetição dos actos. Uma memória despovoada. O que estaria por acontecer, após tanta ilusão de harmonia? E que saudades da Barcelona doutros tempos e das idas a Sintra com a Leonor!
De súbito, muito ao longe, ouviu-se uma campainha insistente. A passagem de nível abriu-se e o comboio da linha esfumou-se, por fim, a grande velocidade, ao lado dos eléctricos e das inúmeras faixas de rodagem apinhadas de criaturas que navegam sobre medos e rodas. Entra mais um barco no Tejo, entretanto. O vento é rápido, calcorreando a colina e o caramanchão do jardim. Um barco que entra na barra e, despercebidamente, Isabel a segui-lo sob a ramagem da árvore mais avançada deste miradouro, onde Ulisses, um dia, talvez tenha escutado as palavras do adivinho Tirésias.
E Abel volta a repetir, em silêncio, que já se sabe há muito que não o poderão reconhecer. Tanto melhor assim. Mas até quando? Tanta plástica, tanta vida sem destino!
Sobre o miradouro, rematando o espaço magnífico de luzes, versos, engenharias e vislumbres, definem-se, ao fundo, sobre o tabuleiro irreal da ponte, os minúsculos e sucessivos faróis e luminárias que se atropelam com a voragem daquilo que são os novos mitos silenciosos. Uma pradaria de espanto para o olhar, diria o herói em tempo de heróis.
Se calhar, o que me aconteceu a mim pode também ter acontecido a toda a gente, não é verdade? Quem sabe, se não anda meio mundo calado, com medo ou até com vergonha de contar precisamente o mesmo. O impossível.
Quem sabe?!
Isabel como que pareceu entender a interrogação silenciosa de Abel e, talvez por isso mesmo, preferiu fixar os olhos na cor violeta, quase bordeaux, da imensa parede. Antes de tornar a encarar o céu com a nuca levemente descaída para trás.
Nesse momento único, levantaram-se os três e dirigiram-se para as grades.
E Isabel e Zorba a lembrarem-se, minuto após minuto, daquela primeira frase de Abel.
Como é que é, de facto, possível uma coisa dessas?
Num dos ramos da imensa árvore, o corvo voltou a bater as asas e voou depois sobre a antiga beira-mar aluvial de Lisboa, sobre o empedrado macio do porto que se desfaz e liquefaz numa multitude de luzes e breu.
Isabel levanta mais uma vez a cabeça e Zorba, atento aos pasmos e peripécias da história de Abel, envolve com muita força os ombros da filha.
Tempo de compaixão.
Sobre a calçada, folhas de plátano, rápidas, leves, a embaterem nas grades, nos painéis de publicidade, nos aros esquecidos pelo tempo corrente. São rostos mudos, anunciando telemóveis, revistas, shoppings de cibernautas. São carros e mais carros, milhares de carros a abafarem a voz e a discrição das ervas, de antigos chorões, gerânios ou vasos de alecrim desnaturado. Depois de Santos, a Avenida 24 de Julho entretém-se com vendas de gasolina e, para além da nuvem de fumo em forma de balão sem fim, para os lados do rio, um imenso cartaz ainda colorido anuncia a velha rota da Expo 98. É uma espécie de tira vermelha e amarelada, extensa como a memória dos maiores grafitos, onde, com humor hip hop, se desenham peixes, naus e aves bruxuleantes, ou seja, precisamente aquilo que o mar abriga, embala e vislumbra.
Eu gostava tanto que acreditassem na minha história! E se o Porfírio me denuncia, o que vai ser de mim?
Contudo, nesse tempo, tudo era ainda muito prosaico e fácil de contar. E Zorba logo a sorrir de tanto desvario e lugar-comum que pareciam, por agora, povoar o excitado discurso de Abel.
Isto sempre foi para mim uma espécie de ascensão ao paraíso, continuava Zorba inesperadamente, como que a interromper a atenção, as palavras e a presumida urgência de Abel. Ao subir as escadas que vão dar ao Largo das Janelas Verdes, a cidade surgia agora por baixo tornando-se ribeirinha, litoral, solitária, uma verdadeira lembrança de cais.
Quantos anos tem a sua filha, a propósito? Sobem-se os degraus que são de basalto puro, ondulados pelas antigas marés. Erosões no limiar da memória possível. A história continua.
É verdade, é. A minha filha é nova de mais para mim, tem só dezoito anos. Tem toda a razão. Para si, não seria nova demais, mas para mim, é uma espécie de neta.
Lá em cima, no Jardim 9 de Abril, já a Isabel estava entretanto debruçada sobre as grades e as alturas. Estava verdadeiramente paralisada ou deslumbrada, entre os jeans em fúria, apertados e bem moldados, e a doçura de um extraordinário sorriso, a Isabel. Uma menina alta, de sardas, de voz muito fina, a Isabel. Zorba mudou de cara, de tom, de cor, de idade.
Ainda nem Abel tinha contado que foi três anos após o casamento que, pela primeira vez, ganhou dinheiro a sério. Sempre a cantar. Foi num festival popular realizado num casino e, a partir dessa data, a vida começou de facto a mudar. A mudar, a mudar. E dizia-o com medo que Zorba o pudesse reconhecer de algum lado.
Até que Lisboa quase se ia fazendo noite e os três se sentavam, por momentos, num dos bancos do jardim. Por baixo, o cais tornou-se numa espécie de reflexo fosco e coado de água verde escura que, nas docas, imóvel, ainda parecia perscrutar o sabor nascente da ferrugem, ou a quilha inesperada das embarcações de ouro. E Abel a pensar que esta é, de certeza, a véspera do último dia da sua estranha vida. Água obscura, sépia, azul para ser cantada pela boca alumbrada dos poetas e pela visão dos lúcidos. Quantas horas de vida me restam ? Pergunta Abel em silêncio. Junto ao rio, a gare é como uma caixa de betão clara, raspada de negrume e sujidade no tecto. Por onde lentamente deslizam sombras noctívagas de meteoritos, estrelas cadentes e helicópteros e onde também se ergue uma antena electrónica que roda sobre si, tal como os sonhos quando desvendam mar, cegueira e fado após a grande ponte. Há que contar tudo, seja a quem for, antes que o pior me bata à porta. Pensou ainda Abel.
Entre concertos e viagens, deixei, quase de repente, de ser um trabalhador escrupuloso e zeloso. Passei a chegar a casa sempre muito tarde, era como se uma nova adolescência me batesse à porta.
Ao longo do cais, a gare perde-se num imenso terraço totalmente vazio que se assemelha aos pontões de Oostende ou de Haia. Luzes de holofote amarelado no lusco-fusco permanente do dia, entre o sol encoberto e as nuvens que ainda decoram a desmaiada saudade do império. Ou o longo fim de tarde da ilusão portuguesa.
Tirando isso, continuava Abel, todos os dias a vida era cada vez mais igual. Um verdadeiro cemitério parado na repetição dos actos. Uma memória despovoada. O que estaria por acontecer, após tanta ilusão de harmonia? E que saudades da Barcelona doutros tempos e das idas a Sintra com a Leonor!
De súbito, muito ao longe, ouviu-se uma campainha insistente. A passagem de nível abriu-se e o comboio da linha esfumou-se, por fim, a grande velocidade, ao lado dos eléctricos e das inúmeras faixas de rodagem apinhadas de criaturas que navegam sobre medos e rodas. Entra mais um barco no Tejo, entretanto. O vento é rápido, calcorreando a colina e o caramanchão do jardim. Um barco que entra na barra e, despercebidamente, Isabel a segui-lo sob a ramagem da árvore mais avançada deste miradouro, onde Ulisses, um dia, talvez tenha escutado as palavras do adivinho Tirésias.
E Abel volta a repetir, em silêncio, que já se sabe há muito que não o poderão reconhecer. Tanto melhor assim. Mas até quando? Tanta plástica, tanta vida sem destino!
Sobre o miradouro, rematando o espaço magnífico de luzes, versos, engenharias e vislumbres, definem-se, ao fundo, sobre o tabuleiro irreal da ponte, os minúsculos e sucessivos faróis e luminárias que se atropelam com a voragem daquilo que são os novos mitos silenciosos. Uma pradaria de espanto para o olhar, diria o herói em tempo de heróis.
Se calhar, o que me aconteceu a mim pode também ter acontecido a toda a gente, não é verdade? Quem sabe, se não anda meio mundo calado, com medo ou até com vergonha de contar precisamente o mesmo. O impossível.
Quem sabe?!
Isabel como que pareceu entender a interrogação silenciosa de Abel e, talvez por isso mesmo, preferiu fixar os olhos na cor violeta, quase bordeaux, da imensa parede. Antes de tornar a encarar o céu com a nuca levemente descaída para trás.
Nesse momento único, levantaram-se os três e dirigiram-se para as grades.
E Isabel e Zorba a lembrarem-se, minuto após minuto, daquela primeira frase de Abel.
Como é que é, de facto, possível uma coisa dessas?
Num dos ramos da imensa árvore, o corvo voltou a bater as asas e voou depois sobre a antiga beira-mar aluvial de Lisboa, sobre o empedrado macio do porto que se desfaz e liquefaz numa multitude de luzes e breu.
Isabel levanta mais uma vez a cabeça e Zorba, atento aos pasmos e peripécias da história de Abel, envolve com muita força os ombros da filha.
Tempo de compaixão.
domingo, 16 de outubro de 2005
Nuclear

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Lula admitiu um acordo com... Chávez, depois de longamente o ter "descartado". À falta do califa Castro em Salamanca, Chávez conseguiu agora estar no centro das atenções por mil razões (Sampaio que o diga).
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