quinta-feira, 31 de março de 2005

The Turn

Se há coisas que não gosto de fazer é rever provas de livros. Concentrado no mais inadvertido e imponderável, deixo passar tudo. Até mesmo duas palavras iguais e seguidas.
Num momento destes o que vale é ter sentido, pela primeira vez este ano, aquele quase bafo de verão que parece entranhar-se nas pedras de granito.
Coisas da terra

Caro MacGuffin: andamos sempre desencontrados. Fiz desse espírito de abertura do espaço público alguns anos de agenda (vim morar para Évora há mais de uma década e, entre 1997 e 2001, não deixei de intervir, de modo independente, nas páginas dos jornais). Tinha um objectivo: ajudar a fazer sair os comunistas da Câmara local, sinal do subdesenvolvimento da cidade e da região. Depois, até participei nas culturas. Agora saí. Estou noutra. Casa aqui posta, mas a aura muito longe daqui. A milhas. Estou fora dessa nova agenda. Andamos sempre desencontrados!
Revista Brasileira

Antes de pensar em partir de avião, nada melhor do que sobrevoar a letra de alguns dos blogues brasileiros que mais frequento. Há sempre eclectismo e rasgo q.b. que superam a modorra da nostálgica praia lusitana.

O Alexandre Soares Silva começa por nos segredar uma espécie de tratado sobre como melhorar os ventos literários. Por cá, garanto, essas palavras foram lidas com suma atenção:

"(...)a maior parte dos livros, não só da literatura brasileira, mas da literatura mundial, melhoraria muito se tivesse pelo menos um dos seguintes elementos: um crime num quarto fechado, um detetive excêntrico, um gorila, um gigante, um duelo, um fantasma, uma ninfomaníaca – é triste a falta de ninfomaníacas na literatura da catinga – um pirata, um corsário, um chinês malvado, uma batalha naval, um homem atormentado treinado para matar usando objetos do cotidiano (como canudinhos) e, sei lá, diagramas de Go. Eu também gosto muito de romances com mapas de cidades, ou planos de casas ou palácios. Olá."

Já agora, após esta avalhanche meteórica, uma notícia triste: a 27 de Março acabou um grande blogue, o Literatus.
Andrea: como é que foi isso possível? Explique-se lá!

A Prosa Caótica, por seu lado, deu-nos a ver, num dia destes, o outro lado da escrita. Por imagens:

Há inscrições e inscrições. Esta soa a vida, a lisura, a liquidez adiada. Embora a folha branquíssima e marmórea de Mallarmé esteja, neste caso, bem calçada e dobradinha.

O Alfarrábio de Paulo Bicarato dá-nos uma lição de música que bafeja novidade:

"Domingão à noite, depois da reunião de família, tradicional na Páscoa, e eu começo a dar uma zapeada na TV. Gratíssima surpresa dar de cara com o Ensaio, da TV Cultura, que trazia o (até então desconhecido) Grupo Arirê. Quatro moças mais-do-que-simpáticas, com vozes e repertório de primeiríssima linha. Fiquei fã da Gabriela Rossi, Mônica Olivetti, Selma Boragian [foto] e Virgínia Rietmann —o quarteto feminino que se dedica basicamente à execução de Música Popular Brasileira de bom nível, acompanhadas geralmente por violão e percussão. O que caracteriza os arranjos vocais e as interpretações do Arirê são a criatividade e o refinamento."

Agora que a música é uma moda viva da blogosfera portuguesa (A Ursa também já entrou na moda e até esclareceu que o "Raibow Lorikeet é uma espécie de periquito colorido"), nada melhor do que esta actualização.

A Maria, "futucando-me" ontem (obrigado!), "entre as chuvas de Março fechando o Verão", dá evidência ao óptimo (e, já agora, muito galego) Sovaco de Cristo. Travessias felizes. Vejam bem:

"Futucando a lista de blogs recomendados pelo Luís, encontrei o desde o sovaco de cristo. O autor é um galego que conta as vicissitudes de se morar numa cidade como o Rio. Hilárias as histórias. Reproduzo um texto sobre a inesquecível experiência de se andar de ônibus por aqui. Muito bom !

De ônibus e camelôs

O pior de se sujeitar à inércia do conhecido é que aí se fica realmente à mercê do desconhecido. A primeira vez que subi num ônibus no Rio entrei pela porta dianteira, como se estivesse na Corunha, em vez de o fazer pela porta traseira. O motorista olhou para mim, sem se importar muito, sem se importar nada, na realidade. Meteu primeira, fechou a porta e saiu correndo. Enquanto eu, totalmente perdido, desnorteado, comprovava com vergonha que o cobrador estava na parte de atrás, mão sobre mão, meio dormido. Agarrei-me como pude, assumindo com a maior dignidade possível as olhadas dos passageiros, que se perguntavam alguma coisa que eu daquela nem imaginava. Ninguém me reclamou o dinheiro, a viagem saiu de graça. Também não adiantou nada, estava no ônibus errado."

A Sílvia, por seu lado, continua a produzir o seu infindável intertexto poético como se fosse, ela mesma, a força motriz de uma rebentação sem fim:

"e quando a vida nos deixa os minutos/na mão como se os tivéssemos/colhido há pouco/frescos/mas ainda não saboreados?"


Não sei como responder à tua pergunta. Há sempre um lapso no deambular poético que nos concede apenas o lance do que não é dito.


A confissão mais secreta aparece subitamente no Letteri Café:

"Tenho plena consciência de que não sou o melhor dos pais. Falta agora meus filhos terem a mesma clareza em relação a serem os melhores filhos."

Outro não dito. Águas mais profundas do que pluviais. Mas eis que, contrariando o movimento de intimidades, a Adriana Paiva do Periplus ameaça agora mostrar-nos S. Paulo, feericamente e de moto:

"Nos próximos dias , começo a mostrar aqui essa São Paulo "remapeada" sob medida para meu desejo."

Por fim: Barney Martin é evocado no SubRosa, enquanto as insónias da Tabacaria dão, pela certa, muito trabalho à longínqua herança de Pessoa.
UM AMOR CATALÃO
Folhetim à moda clássica
VIGÉSIMO SÉTIMO EPISÓDIO
(A decisão de Edmundo)

Edmundo sobe ao Chiado e traz consigo uma fixação desordenada, uma memória sem eco, um desalinho sem fim.
Nada lhe corre bem na vida.
Nem os negócios, nem as amizades, nem o habitual humor que parece ter trocado a ligeireza do dia a dia pela imagem de uma espera sem fim. Mas espera do quê, pelo quê?
Edmundo alarga o nó da gravata, revê a sua silhueta nas montras e permanece indiferente ao cheiro do chocolate quente que escala pelas montras da pequena leitaria.
Lisboa, neste dia de Janeiro, parece uma cidade admirada com os seus próprios temores e fascínios.
Sem saber bem o que fazer, Edmundo acaba por sentar-se numa mesa do canto da leitaria e toma subitamente uma decisão.

E lembra-se de Veneza como se existisse uma luz ao fundo do túnel nessa memória funérea. Lembra-se daquelas ilhas de cristal e ogivas, miríade de pedra e proporção.
Lembra-se das gôndolas, desses berços que ondulam com suavidade lunar.
Lembra-se da água horizontal a espelhar a maior angústia da vida.
Lembra-se da respiração do desencontro, da tragédia a sós, desse momento único em que Edmundo admitiu que tudo tinha acabado com Albe.

Uma tragédia é sempre uma história pessoal, é verdade.
E agora?
Depois da pulsão de morte veneziana, a decisão estava tomada.

Irremediavelmente.

(No próximo episódio, Albe, no seu apartamento parisiense, acaba também por tomar uma decisão)

Continua

quarta-feira, 30 de março de 2005

A voz ocasional de um poema

A minha editora (de romances) vai editar um pequeno livro com poemas de alguns dos seus autores para Feira do Livro de Lisboa. Tendo-me o convite batido à porta, eis o que saiu:

Vozes

Entram no mar e vêem a lua a dividir-se em vozes,
muitas vozes transparentes.

Era apenas uma flor que se arrastava
avermelhada
entre a força das ondas e a praia quase deserta onde o presente
é um tempo de cisnes que desce do futuro até aos cactos selvagens
das dunas.

Eram vozes, muitas vozes transparentes
quem sabe se apenas traços desaparecidos da areia
talvez perfis ou asas,
simples asas a envolverem esse dom sigiloso que descobriram
na boca calada da magnólia?

Vozes,
muitas vozes transparentes entre as tábuas fechadas
do porão alagado do navio
como se fossem aves alucinadas
a voar sem saída

Da fé espera-se tudo
até o areal nocturno saturado
de estrelas cadentes que entram
no mar e vêem a lua a dividir-se em vozes,
muitas vozes transparentes.
Fantasmas?

Na blogosfera, não são os autores dos blogues quem fala. Involuntariamente, os autores criam personagens diversas que espalham a sua voz, ou as suas vozes, pelos posts. Esses personagens devolvem-nos os traços dos seus criadores que, cada um de nós, interpreta fantasmaticamente.
A maior parte dos autores da blogosfera que eu imagino, em muitos casos amigavelmente, é, portanto, composta por fantasmas. Muitas vezes, esses personagens acabam por ser porta-vozes, muito pouco filtrados, da intimidade dos seus próprios criadores. Mas isso não significa que eles não sejam personagens que sugerem ser a boca e a escrita dos seus encenadores e autores.
E mesmo quando conhecemos um ou outro blogger, ao vivo, o halo fantasmático mistura-se sempre com a carne e osso que nos fala. Esta é uma fotogenia que terá saltado do início da imagem móvel (lanterna mágica, primeiros film makers de Brighton, Feuillade, etc.) e do reinado fotográfico de meados de oitocentos pré-disderiano para o coração destes traços imateriais e quase diariamente biográficos que são os blogues.
As guerras da música

Também desliguei as colunas do computador. Só as abro, e muito muito raramente, quando sei o que vou ouvir.
UM AMOR CATALÃO
Folhetim à moda clássica
VIGÉSIMO SEXTO EPISÓDIO
(A incompleta redenção de Veneza)

Albe regressa a S. Marcos a sós.
Tudo ali se passou. É esse precisamente o nome da ausência. O devaneio do passado transformado em imaginação. Ou em delírio colado à ilusão de uma calma infinita.
Foi Edmundo que não apareceu e foi o violinista que, de viagem, já regressou a Milão.
Albe prepara-se agora para regressar a Paris, mas antes tudo faz por colocar os pés em terra e desvendar a serenidade com que, de vez em quando, os dois mouros se fazem ouvir na torre do relógio, entre S. Marco e a Calle Carppetto Nero.
Como se fosse bruma nocturna em pleno dia, a poderosa Senhoria que se ergue no topo de San Giorgio Maggiore, não só avista a involuntária solidão de Albe como parece anunciar a repentina claridade que desceu sobre a cidade.
E Albe, talvez menos inconsolada, só já pensa no iminente regresso a Paris: é a hora do comboio que se aproxima, são as bagagens, são os passos sem rumo e toda, toda a memória do Verão por remover-se. A esconder-se. A enterrar-se numa dor sem forma.
Ao entrar na Gare, o céu voltou de novo a coar e a chuva apareceu abruptamente.
Tudo na cidade se liquefaz, de um momento para o outro.
Depois o comboio deslizou com suavidade e partiu.
Rejuvenescida de uma perfeição inquieta, Veneza despede-se agora de Albe com os seus fios de ouro, com os seus vidros de jade, com a sua luz disforme e irradiante, com a sua voz de incompleta redenção.


(No próximo episódio, Edmundo, regressado a Lisboa, parece querer tomar uma decisão definitiva sobre o rumo a dar à sua vida)

Continua

terça-feira, 29 de março de 2005

Parabéns
ao desmedido estímulo que nos chega, dia a dia, da Montanha Mágica
UM AMOR CATALÃO
Folhetim à moda clássica
VIGÉSIMO QUINTO EPISÓDIO
(O violinista afogueado)


Depois, o jovem violonista e Albe caminharam demoradamente através do Campo dei Frarí e da Calle Lipoli. E, subitamente, Albe sentiu que podia abrir-se e revelar tudo o que havia acontecido. Como se o destino quisesse provar que a felicidade, às vezes, não passa de um mero acaso com morada certa.
Não sabe o narrador explicar o modo como este desafio se tornou em autenticidade plena. Mas a verdade é que Albe não temeu abrir-se e o jovem estudante de violino, por seu lado, silenciou as suas palavras, ouvindo-as, repondo-as no ritmo próprio, ecoando-as com uma graça inexplicável.
Foi a noite mais imponderável que Albe alguma vez sonhou viver em toda a sua vida.

*

Passaram mais dois dias e duas noites e Albe nem sabe por que razão se terá aventurado daquela maneira. Quando tudo se perde, é o desmoronado brilho da paixão que parece querer incendiar os actos mais inauditos, os rumores mais elementare e simples.
Ficará o pasmo, o reencontro de uma dor antiga que se perpetua na fixidez do olhar, um aceno desiludido, desenganado, mas sobretudo mordaz.
E assim foi: de um momento para o outro, uma serenidade imensa abraçou os gestos de Albe e fê-la enfrentar o arrepio daquelas duas noites sem futuro, sem nada.
Ficou o desmedido calor da carne. A despedida. A dupla despedida.
Para sempre.
Amanhã, Albe voltará a sentar-se em S. Marcos. Já estou a vê-la, de novo a sós, a inventar que nada, abolutamente nada, se passou. No Verão e neste afogueado início de Outono.

(No próximo episódio, ficar-se-á a saber como é que Albe acabou por abandonar Veneza)

Continua