quarta-feira, 26 de novembro de 2003

Hipers

O Miniscente é caracterizado pelo Blog de Esquerda como "Hiper-activo blogue do escritor Luís Carmelo". É a curiosa perspectiva da esquerda (de quase toda) que insiste muitas vezes em tomar como referencial aquilo que se avizinha da inércia. Agradecemos o elogio.
Sussurro

Chove. As ruas a deslizar em água. Esboços de personagens a enformarem, a ganharem corpo. Espécie de superfície branca sob o amplificador: as figuras submergem e movem-se em câmara lenta, disforme, embalada. Há já alguns dias que persigo meia dúzia de personagens. São dois triângulos (não amorosos), seis movimentos que irradiam e criam destinos diversos. A teia ainda é frágil, é certo, mas prenuncia já mundos interessantes. Falta agora a escrita como argamassa para que esta rede filigrânica venha ao ser. Talvez tenha tempo lá para Fevereiro do próximo ano. Por agora é seguir a chuva, a moleza desordenada do tempo, as sombras esguias dos personagens e o quase imperceptível sussurro da imaginação.
Névoa

Acordo entre as névoas. Em frente, os velhos vizinhos: um limoeiro tímido, a nespereira que se fecha em segredos longínquos e, ao lado, as tangerinas que parecem querer escalar pela invisibilidade do céu. Há paraísos que nos escapam, que se removem na voracidade do quotidiano, que se diluem no imenso ruído do pasmo e do pranto diários. Mas, por um escasso segundo, há que saber detectá-los. Percebê-los. Marcas de uma névoa ainda densa.

terça-feira, 25 de novembro de 2003

Danças com noite



Ao fundo, alguns candeeiros espelhando uma brevíssima luz amarelada, arrastando-se perdidos entre a massa de árvores e o céu negro. É uma penumbra de liquidez muito antiga onde deixo agora pousado o olhar. É assim o cansaço que antecede os fervores da noite.
Brevidades

Hoje estive a falar na aula acerca das secretas e talvez mesmo insuspeitas continuidades que se verificam entre o luso-borgonhês João de S. Tomás e John Locke. A teoria é do americano John Deely e revê na divisão dos conhecimentos de Locke (especulativo, prático e semiótico) uma mãozinha do nosso (até há pouco abandonado) João. Lendo alto os textos, criando diagramas no quadro e estimulando a participação com exemplos simples tudo se torna funcional e mesmo estimulante. Mais uma vez correu bem. Gosto do grupo.
Lá fora o sol veio para nos sorrir. Aceitemos o sorriso. Vou agora subir ao Chiado. É das breves viagens que mais gosto.
Marcas do vento

De novo a surpresa de um dia azul e ameno a prometer um caminho sereno em direcção ao solstício. Passei ontem o serão a escrevinhar em torno dessa abstracção chamada personagens em construção. Uma rima profunda, mas ainda sem aquela face clara que permite agir. Há um momento na escrita em que o presságio é a única pena que se agita e inscreve no horizonte. Entenda-se presságio como um oceano de prenúncios que escreve lendas e marca pontos em todos os lugares possíveis de um mundo que ainda não se sabe como esfera. As marcas do vento.
By By Pacto

Hoje é o dia em que as regras que pressupõem o pacto de estabilidade perderam a seriedade. Por outras palavras, o pacto de estabilidade perdeu o sentido, a razão de ser e todo o tipo de fidelidade partilhada em que se baseava. Não se entende o voto de Portugal (um verdadeiro laissez faire, laissez passer táctico à Alemanha e à França), quando a política seguida por Durão Barroso, desde as últimas eleições, encontrava justamente no cumprimento do pacto a sua legitimidade. A partir de agora, a diminuição do peso do estado terá que passar a ser feita, não de acordo com um pretexto, mas sim tendo em conta uma doutrina bem explícita e a respectiva pedagogia junto à opinião pública. O rei ia nu, mas agora terá que se vestir com roupas que não enganem ninguém.

segunda-feira, 24 de novembro de 2003

Suspiros por Cartier-Bresson


Derrière la Gare de Saint Lazare, Paris, 1932

Na sequência da publicação de uma fotografia de Cartier-Bresson (ver post "Proximidades"), a Alexandra do Torneiras de Freud falou em suspiro. E eu respondi que um suspiro é sempre "uma melopeia da alma, um augúrio sem destino e um aceno sem voz."
A nossa comblogueadora gostou e acrescentou em post scriptum: "entre tantas outras imagens...lembrei-me de the house of mirth... a primeira cena... o vulto da mulher vestida de negro aparecida entre o vapor do comboio... muito bonito... e continuo na divagação... lembro -me de comboios agora... tess, polanskii. a mulher de vermelho, veludo vermelho correndo atrás do comboio..."
o suspirante cinema da blogosfera.
Fecundação



Nos últimos dias, tenho estado a confrontar-me com uma série de personagens que, passo a passo, me têm vindo a aparecer no papel. Mas são personagens ainda fora de qualquer acção. Vivem sem espaço ficcional próprio e apenas se resumem a alguma mobilidade interior e exterior, a um ou outro aceno do que virá a ser o seu caminho e a meros estigmas e tendências do que poderá vir a ser a sua linguagem. A sua voz. Olho para elas e fico à espera de vozes que se manifestem. No fundo, é como se eu lhes dissesse em surdina - talk to me, talk to me!
Vejo-as a delinearem figuras, mas sei que não passam ainda de modelos ou escorços muito abstractos, sem aquela vida própria que, um dia mais tarde, poderá vir a receber todo o fulgor de um destino autonomamente talhado. Por ora, contemplo e limito-me a sentir uma espécie de receio, de compaixão sem corpo, de angústia sem dor.
É como se a montanha se erguesse, sem que eu pudesse sequer ver-lhe os contornos e os picos reflectidos num céu ainda por desenhar. Uma montanha cénica e projectada nas sombras informes de que afinal é feita a sua rocha. Informe, mas fértil.
Frases Felizes - 29

Open Democracy

"Na minha vida tenho uma máxima que é esta: value for money. E não sou escritora. A maioria dos escritores não percebe o mercado (como percebem, por exemplo, a Margarida Rebelo Pinto ou a J. K. Rowling) e assim nunca ganha o correspondente ao trabalho que teve e à felicidade que deu aos seus leitores." (Bomba Inteligente)