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sexta-feira, 31 de Março de 2006

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Faltam 19 dias

Aqui fica mais uma vez o desafio (lançado pelo Nuno Guerreiro): "No dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória."
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"Consolaçam ás tribulaçoens de lsrael de Samuel Usque"
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Ver alguns dos posts do Miniscente sobre o tema: Tragédia do esquecimento (I, II e III, Janeiro de 2004) e Os quinhentos anos do Progrom de Lisboa, já deste ano.


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Identificações

Janela possível de um Instituto do estado, por Maluda
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Quando um dirigente de um Instituto do estado se pronuncia acerca do instituto que dirige, emprega repetida e invariavelmente o pronome "nós". Aquilo, o instituto, o tecto, as infiltrações, os empregados, os papéis, o hall de entrada, a revista, os concursos, as vitrines, a secretária, as impressoras, o quadro da Maluda, aquilo... é tudo dele. Depois do PRACE - de facto é um primeiro passo -, este modo terno de identificação vai continuar. Faz parte da respiração da terra.


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Livros, críticos e desvarios

Farol de Letras
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De facto, a questão levantada por João P. George sobre "críticos, escritores e amigos" resume-se a nada. Ontem, na Casa Fernando Pessoa, a discussão até foi engraçada, mas, bem vistas as coisas, a tão falada polémica resume-se tão-só a um Frei Luís de Sousa representado na Sociedade Recreativa de Arganil (ou de Olhão, se se preferir). Com uma pequena diferença: quando o Romeiro aparece, tira o manto da cabeça e diz em voz de falsete: "Afinal, eu sou mas é a rameira!". Como diria o ensaiador: "Prontos, foi isso". Ou como diria Aristóteles, na Retórica (ao lado de Homero, por pouco não foi citado na sessão): "Quanto ao jogo de palavras, este exprime não o que o enunciador efectivamente diz, mas o que resulta da mudança de palavra". De resto, foi bom conhecer o Miguel Real assim como a inspiradora musa dos quatro caminhos.


quinta-feira, 30 de Março de 2006

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Livros, tribunais e desvarios

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Matthew d´Ancona dá conta, no The Spectator desta semana (de 25 de Março), de um encontro que teve há cerca de uma década com o par Michael Baigent e Richard Leigh, autores de vários livros sobre o caso esotérico de Rennes-le-Château que gira em torno do enigmático padre Saunière (o tal que, em 1886, teria descodificado o labirinto do Priorado do Sião). A história tem barbas, correu mundo e até os próprios nazis, durante a guerra, fizeram várias incursões junto à torre de Maria Madalena de Rennes-le-Château, mandada construir por Saunière com fundos de origem duvidosa.
Já se sabe que Dan Brown concebeu o seu Código Da Vinci a partir do fundo deste aquário ficcional, acrescentando-lhe ingredientes adequados a um sucesso que nem sempre sorri a quem os utiliza com conhecimento, conta, peso e medida. Não terá sido sorte, talvez sortilégio, mas o certo é que Brown beneficiou do chamado álibi perfeito: estar no tempo certo com a história e o formato certos. Acontece uma vez, dizem as auras mais avisadas.
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Ora, a crónica de d´Ancona remete-nos para a paródica conspiração de um almoço que teve lugar algures em Westminster, num daqueles restaurantes frequentados por “old-fashioned Tory MPs”, e onde o pão de alho italiano se terá misturado com a intriga mais felina e delirante. No fundo, o par Baigent e Leigh pretendia inquirir acerca das possíveis cabalas que se tramariam na babilónica Bruxelas de então, já que, para os dois detectives à Tintim, nelas se reflectiria, com evidência mitológica, a velha tradição do Graal, de Sião, do padre Saunière, etc.
Se estes dois seres filtraram o mundo desde pequenos a partir de um enredo tão sórdido, próprio de um Joaquim de Flora, imagine-se agora a razão pela qual Dan Brown foi um dia parar a tribunal. Nada mais simples, se colocarmos a questão ao contrário, ou seja: como poderiam Leigh e Baigent suportar a abordagem e sobretudo o tremendo sucesso de Brown? De forma nenhuma. O esforço vital e extravagante de toda uma vida parecia abruptamente morrer na praia diante do bestseller mais ostentado e vendido em qualquer aeroporto dos confins do planeta.
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Não estamos, em Portugal, neste reino de Pop Corn iniciático com sabor a Stout. Margarida Rebelo Pinto preferirá o perfume de um bom open space, os ares condicionados acabadinhos de montar e o ardil que faz dos afectos tudo menos uma conjura às profundezas do destino humano. João Pedro George também parece mais cativado pelo realismo arejado da coisa literária, embora torça com alguma alergia o nariz ao pimba, levado que é pelo horror ao excesso de isotopias.
A moral da história por cá não é tão divertida como o é em terras de Sua Majestade. Se existe algo de comum entre ambas as histórias é o paradoxal e bizarro recurso à justiça. De resto, na terra de ninguém dos comentários e da crítica, sobrará o desvario, o risível e alguma real insignificância (ler o post de baixo e mais este ainda sobre o assunto). Evocar a “liberdade” num caso destes é evocá-la praticamente em vão. Sintomas de uma dança sem par, digo eu. Mais valia, ao fim e ao cabo, dançar a valsa com o padre Saunière! Pasolini teria filmado a cena com santificado apreço.


quarta-feira, 29 de Março de 2006

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Advogado do diabo

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Já deixei a minha opinião sobre o MargaridaGate no post de baixo (antes da perdição de "Complexity and Color"). Mas agora, qual advogado do diabo, sou também levado a perguntar: qual é o problema de um escritor poder reatar e repetir extractos de texto que são seus nos seus próprios livros? Em romance, pode acontecer. Voluntária e sobretudo involuntariamente. Há um genoma incerto que se atravessa no uso próprio da linguagem. E é esse uso que a significa e dá luz ao que geralmente se chama estilo (destesto a palavra). No meu caso, já reparei nisso muitas vezes. Desenvergonhadamente. No caso dos ensaios, então, a coisa torna-se inevitável. Quem desenvolve um pensamento em várias frentes ao longo de uma dezena de ensaios, é mesmo obrigado a reatar e a repetir pontos de partida, conclusões e relativações presentes em livros anteriores. Se não o fizer, para contento do leitor mais avisado e sociólogo, acabará por cair numa espécie de autismo abjecto em que cada livro se transforma numa mera entidade discreta e mamórea sem um mínimo de fluxo sanguíneo e de vida.


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"Complexity and Color"

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Desta vez, senti que se tinha bloqueado aquela reacção intempestiva que é habitual após o visionamento de cada episódio (o luar, creio eu, não deverá ter sido exclusivo). Efeitos estranhos e pouco controláveis. É por isso que inicio o breve trabalho de memória quase quarenta e oito horas depois do repetido fascínio. Foram os suicídios honrosos, o regresso de Octaviano, as ameaças a Voreno, o novo-riquismo reinante, a incontida paixão de Pulo (algo nele está já a mudar…), a carne quente dos maninhos e o chicote pouco hábil de Átia. Depois, clímax vestidinho de branco, César entra no pátio da Reboleira e contrapõe-se às honrosas dúvidas do nosso herói Voreno. “"I have legally taken Dictator's powers. I will return those powers to the people and senate as soon as I am able. No man loves our Republic more than I. I will not rest until it is as it was in the golden age”. Segue-se a glorificação latentemente misturada com um fio de ameaça negra. As confissões, os queixumes e as denúncias conduzirão ao resto: a vingança a frio. Servília é humilhada entre o sangue dos seus escravos (sim, horrível) e o que sobra são letrinhas a escalar pelo ecrã, sob aquela névoa que traz Cleóapatra de volta, mas não ainda no próximo epidósio (segreda o oráculo). Acrescentaria que a carne é fraca como é inadvertido o leme do destino romano: as aves nem sempre voam na boa direcção.
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Já agora, caro Luís, registo o belo post sobre o glorioso e peço mil perdões por só agora dar os parabéns pelo terceiro aniversário da grande Montanha!


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Livros & pugilismo

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Escreve-se no Esplanar de João Pedro George:
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"Margarida Rebelo Pinto e Oficina do Livro requerem contra João Pedro George e Objecto Cardíaco uma providência cautelar não especificada com a finalidade de impedir a distribuição e venda da obra Couves & Alforrecas: Os Segredos da Escrita de Margarida Rebelo Pinto. Passa-se isto a um mês das comemorações do 25 de Abril de 1974."
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Eu diria antes: não será óbvio, para quem já andou em publicidade, que quer os encómios, quer as "alforrecas" contribuem, cada um a seu modo, para tornar mais nítido o posicionamento e para estimular e aprofundar o core, o património e, naturalmente, a marca? Eu, pelo meu lado, deixaria as providências cautelares para as brigas com os vizinhos.
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A propósito de brigas, livros, escritores amordaçados, invejas, amizades ínvias entre críticos e escritores, birras, traições, conivências sob o pano da mesa, casos de lençóis, favorecimentos, lobbies, gays, lésbicas, heteros, desconficanças, fianças, percentagens, descontos, cunhas, tricas editoriais, críticas compradas, elogios fáceis, fins de carreira, duelos, escárnios e outras cenas de pancadaria mais ou menos sublimes, vá amanhã à Casa Fernando Pessoa, pois tudo isto vai estar em discussão com a presença dos agentes em carne e osso (escritores, críticos e editores). Também irei e até já comprei as luvas de boxe (ver fotografia). Nestas coisas, não brinco. Quais providências cautelares!


terça-feira, 28 de Março de 2006

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O glorioso é sempre o glorioso

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Foi tanto e tanto microfone a ligar o metabolismo dos árbitros que a mão de Motta acabou por sair imune. O Humberto Coelho lembra-se melhor ainda: na meia-final com a França, em 2000, foi o fiscal de linha quem assinalou a grande penalidade por causa de uma mão muito menos óbvia. É claro que é uma parvoíce estar aqui a repetir o panegírico mais verosímil: "Tudo agora é possível". Mas eu sou dos que, neste caso, até acredito nessa parvoíce. Tal como contra o Liverpool.


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O radioso futuro da demagogia

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Às vezes, ao ouvir Marques Mendes, tenho a sensação de que poderia dar um bom sucessor de Carvalho da Silva na CGTP.


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Castro, ou o mito português do amor eterno


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Escreve-se no Público de ontem: “O problema do CDS é africano: o presidente não pode virar as costas que lhe fazem um golpe de estado” (sem linques). Há uma pequena diferença: nas famílias em que todos são primos uns dos outros, um golpe de estado é sempre um triângulo amoroso bem preenchido e não uma chacina desregrada.


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Apocalipse ou visão na era pós-socrática

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Apoio o Simplex 2006, ponto final.
Seja como for, quando leio na literatura de género apocalíptico o número 666, eu sei muito bem o que isso significa. Mas quando leio ou vejo nos média actuais o número 333, eu não sei muito bem o que isso significa.
Caro Sócrates: apoio o Simplex 2006, ponto final. Apoio incondicionalmente a voragem e a coragem anti-burocráticas, mas desconfio da anunciada latitude aritmética.
Por exemplo, quem fica responsável por aplicar cada uma das trezentas e trinta e três medidas? Como vai o público aferir o seu cumprimento efectivo? Se estivéssemos a falar de uma dezena de medidas, tal tarefa seria minimamente possível. Mas “333” cheira a algarismo que pretende impressionar, ou pior, reflecte um daqueles métodos enviesados e baseados no puro exagero e por isso mesmo pouco funcionais (e de carácter burocrático, já agora).
Digo-o, mas não há nada a fazer: apoio o Simplex 2006, ponto final.
Os sindicatos e outras corporações já gritam? Mas eu apoio o Simplex 2006, ponto final.


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Sem polémica nem perfume

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É verdade que o paraíso do Miguel é de veraneio (vaga, devaneio, coxa rubra e boas como o milho). No entanto, as três meninas clássicas não são menos ideais: do que seriam capazes, não sei.
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Mas a inteligência, esse poço estriado de águas calmas, faz-nos esquecer quase sempre os amparos da carne mais viva. Encaminha-me por fim a rede – a ondulação tem a cor das cerejas - para a suave solução que tem como nome Lotte Lenya.
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Aí, estou com o Afonso Bívar. Apesar de Lotte Jacobi, o fotógrafo, há em Lotte alguma assimetria felina, dulçor rouge, penumbras e desvario, desordens finas, liquidez de sulcos, o brilho mordaz e ainda um oráculo cativante que lhe humidifica o olhar. Numa palavra: uma mulher que pressagia ao longe a sua própria beleza.
Estará, de facto, muito longe de ser apenas “interessante”.
Mas se querem poesia a sério acerca da beleza delas - numa perspectiva do “gender” -, passem mas é por aqui. Eu bem avisei.


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A absoluta normalidade da deportação


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O título é meu, mas o texto a ler é de Helena Matos. No Blasfémias.


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Apito de que cor?

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Luís: e… quem é que dava a “fruta” para que a “paixão” vingasse? Eu, tal como o bom São Tomás, também não sei.


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"Mordês"


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Oxalá os jogadores do Barça hoje não mordam. Exemplos destes andam por aí demasiado à solta.


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Quá-Quá

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Caríssimo “Maradona com minúscula”, o que é que quer dizer “Kiki”?


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Caricaturas

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Se alguém publicasse este caricatura num recôndito diário dinamarquês, acham que daria origem a manifestações violentas por aí fora?


segunda-feira, 27 de Março de 2006

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Celebrando o teatro

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Os gregos inventaram o teatro para recuperar a identidade que tinha sido estilhaçada pelo alfabeto”. Já citei várias vezes esta frase de D. de Kerckhove para tentar caracterizar uma das sinas mais originais do teatro. E volto hoje a repeti-la. Creio que diz quase tudo acerca deste dia que se quer generoso.


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Subiu aos "Settings" hoje mesmo!

Grande afirmação, esta: “O baú dos reminiscentes é a Internet”. Leia o resto aqui e atente, já agora, à nova inscrição que paira no cabeçalho (que ‘palavrão’ comparado com Header!) do Miniscente.


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Falta um dia

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Começa o nervoso miudinho. Mas sempre há notícias que consolam as raízes do pranto.


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Caderno de corda

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Hoje, no Valenciana (às 20h.), comemora-se o primeiro aniversário do Caderno de Corda. Não poderei lá estar fisicamente, mas estarei em orações. Que contes muitos anos mais, Davi Reis! (seja como for, após longa e aventurada pesquisa policial, o Miniscente está em condições de revelar que Davi Reis é Hugo Simões, poeta mais ou menos clandestino, libertino estelar e jornalista afinado). Que grande banquete! Parabéns.


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Ó Nésimo - 2

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Agora, nas universidades, utiliza-se uma palavra de muito mau gosto: "lembrete". Cá vai ele: hoje, lançamento do último livro de Onésimo Teotónio de Almeida, Livro-me do Desassossego, às 18.30h na Casa Fernando Pessoa. Lá estarei.


domingo, 26 de Março de 2006

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Os 500 anos do Progrom de Lisboa

Consolaçam ás tribulaçoens de lsrael de Samuel Usque*
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"Vi qe em Lixboa se alçaram
Pouo baixo & villãos
Contra os nouos Christãos
Mais de quatro mil matarã
Dos qe ouuerão nas mãos (...)"
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Garcia de Resende (1470 - 1536)
Miscellania & Variedades de Histórias, costumes, casos & cousas que em seu tempo aconteceram
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Faltam 24 dias para que se cupram 500 anos sobre o Progrom* (as matanças) de Lisboa. Apelo aqui à mobilização da blogosfera em torno da evocação do próximo 19 de Abril. Apoio, nesse sentido, a oportuna proposta do Nuno Guerreiro:
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"No dia 19 de Abril, vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória".
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Como escrevi aqui na passada quinta-feira, um país não se pode mutilar e continuar incólume e em silêncio face a si mesmo. Este blogue tem feito eco desta causa (não creio, de facto, que se trate de uma "micro-causa") há já mais de dois anos.
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A 15 de Janeiro de 2004, escrevia-se aqui no Miniscente:
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Um certo mutismo português adora esquecer os labirintos judaicos de Amesterdão, de Antuérpia, de Istambul ou do Recife que, afinal, lhe saíram da sua própria carne. Por que razão será muda a história oficial portuguesa acerca da implosão judaica de finais de século XV e inícios do século XVI? Independentemente de tal mudez, a verdade é que não há português que não traga consigo um pouco de Israel e, no entanto, parece disfarçá-lo com uma leviana saudade da escuridão, com uma timidez pessoana e quase mitológica, com uma ignorância tétrica e, às vezes, com uma apaixonada tentação pela erradicação memorial (tantas vezes pressionada pelos fluxos ideológicos de conjuntura). É como se, na frente de um Portugal marmóreo e cristalizado, apenas ficasse o mar e as suas lendas a sós, apenas ficasse a imagem passada de um século de ouro, apenas ficasse a euforia das Europálias, das Expos, das Décimas sétimas, das N Capitais da cultura e das várias Exposições do mundo português. É como se, em todas estas cenografias da exaltação lusa, nada sobrasse do vestígio da alma judaica arrancada à nossa própria alma. Que auto-imagem celebrará tal amputação, ou tal compaixão desprovida de rosto?
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A 30 de Janeiro, também de 2004, voltava-se a escrever aqui no Miniscente:
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Oxalá, daqui a dois anos, em 2006, o estado português saiba homenagear a parte mais esquecida do seu corpo nacional. Fazê-lo seria, para além de uma questão de justiça, sobretudo uma desafio vital para a nossa própria auto-imagem e orgulho próprio. Vamos, então, aos factos históricos (fonde Rua da Judiaria):
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"O número de mortos resultantes do progrom de Lisboa, ocorrido em Abril de 1506, embora não seja certo, aponta para cerca de quatro mil pessoas (cripto-judeus / cristãos-novos) chacinadas na sequência de motins antijudaicos incitados por frades dominicanos. No Rossio, contam Samuel Usque e Damião de Góis, o chão ficou “tapado com montanhas de corpos mutilados”.
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“Mais de quatro mil almas morreram(...)”, escreveu Samuel Usque em “Consolação às Tribulações de Israel” (1553).“Von dem Christeliche / Streyt, kürtzlich geschehe / jm. M.CCCCC.vj Jar zu Lissbona / ein haubt stat in Portigal zwischen en christen und newen chri / sten oder juden , von wegen des gecreutzigisten [sic] got"; reprodução a partir de cópia publicada pelo Hebrew Union College, Cincinnati, OH. O original, bastante raro, encontra-se na Houghton Library, Harvard University. Panfleto anónimo, impresso na Alemanha (presumivelmente poucos meses depois do massacre de Lisboa).
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Nesta imagem, o “progrom” de 1506 contra os judeus de Lisboa é descrito em detalhe e as matanças são contadas ao pormenor. A gravura do frontispício mostra os corpos mutilados e envoltos em chamas de dois judeus portugueses, dois irmãos, os primeiros a morrer num massacre que vitimou mais de 4 mil pessoas. Numa época de vocação ecuménica em que a Igeja Católica demonstra uma certa apetência em pedir perdão pelo passado, a oportunidade de 2006 tornar-se-ia no mínimo adequada. Mas o desafio seria - e creio que virá a ser - bem mais profundo: olharmo-nos de frente e encararmos finalmente o que somos, como fomos, em todas as suas facetas. Na multiplicidade histórica e mítica ainda por preencher e entender. Não há Idade de Ouro que não tenha reversos feridos. Mas tapar as feridas e ocultar o incómodo não é, nem pode ser próprio de uma cultura que fez da ‘saudade’ e do ‘amor eterno’ santuários de remissão vaga e quase mística. Que o sonho e a lenda não sirvam para encobrir a dor. Encobrir não é viver; é mitificar e calar.Fica, para já, o desafio proposto para 2006.
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No Rua da Judiaria, estão a ser publicados diariamente documentos históricos acerca desta parte escondida da história portuguesa.
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*"A palavra de origem russa Pogrom ("погром") denomina um ataque violento massivo a pessoas, com a destruição simultânea do seu ambiente (casas, negócios, centros religiosos). Historicamente, o termo tem sido usado para denominar actos massivos de violência, espontânea ou premeditada, contra Judeus e outras minorias étnicas da Europa".
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*O autor de Consolaçam ás tribulaçoens de lsrael , Samuel Usque, confirma que as matanças de Lisboa tiveram lugar em 5266 (calendário hebraico), ou seja, em 1506 da era cristã.


sábado, 25 de Março de 2006

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Revolution (act.)

Os blogues invadem já hoje os Mainstream Media
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Sabia que se escrevem cerca de 50.000 posts por hora, num mundo onde aparecem cerca de 70.000 novos blogues por dia? Dave Sifry dá os dados e contextualiza-os. Ou seja: estamos a viver uma revolução serena, mas profunda. Os blogues estão, não apenas a afectar a natureza do espaço público tradicional, como estão cada vez mais a reflectir um novo sentido de comunidade ‘aterritorial’ e de agenciamento comunicacional.
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Não terão estes números algo a dizer à críptica e fascinante revelação de PPM? (vale a pena lê-la:)
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"Agora que O Acidental já quase tem dois anos e está a ficar velhinho, começo a sentir que isto já deu o que tinha a dar. E quando digo isto, digo esta blogosfera, tal como é, cheia de opiniões sobre as opiniões alheias. Parece-me que está para nascer um upgrade qualquer, talvez chegue com o filho do Rodrigo, quem sabe."
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A propósito - sei que tudo correu bem! -, os meus parabéns ao RMD, à mulher e, claro, ao Rodriguinho.


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Ó Venâncio!


Gentilmente cedido pelo meu amigo de Nijmegen
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Fernando, sabias que um dos meus bisavós, apenas um por causa da pureza do sangue, não era alentejano como nós os dois somos? E sabes de onde era natural, sabes? Precisamente de "Cabanas de Viriato". Sim, fixa bem o nome da terra: "Cabanas de Viriato". Fica ali para as bandas de Lamego, mais para sul do que para norte. De facto, só o teu apego pela filatelia me podia ter hoje arrepiado os cabelos. Ainda por cima, está um dia tão sereno e tão propício ao memorialismo bucólico!

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Já viu, mãe, como os espanhóis estão a roubar o prestígio ao seu avô (é melhor não contar aqui que depois fugiu para o Brasil, desapareceu e...)? Já viu, pai, como qualquer dia o Zapatero manda inscrever em selo o Nuno Álvares Pereira naquela garrida série da "Historia de España"?

eClicar aqui para seguir a polémica sobre Viriato: a quem pertence Viriato, afinal? Talvez a todos um bocadinho. Ou não?


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Ó Nésimo!

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Amigo Onésimo: na próxima segunda-feira, dia 27, lá estarei na Casa Fernando Pessoa para o lançamento do teu livro (Livro-me do Desassossego). A última vez que nos vimos foi (sabem ainda os deuses como) em Washington DC. Depois, houve outras coisas síncronas pelo meio, a melhor das quais teve como cenário o antigo Acontece. lembras-te? Até lá. Fica aqui o aviso à navegação: às 18.30h!
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Já agora - continuando a falar de livros -, se hoje estivesse no Porto, passaria, às 17 horas, pela Galeria Sargadelos (Rua Mouzinho da Silveira, 294). Bem sei que depois me refugiaria algures para roer as unhas diante da Sport-TV. É que o meu clube vê "missões impossíveis" diante do Portugal dos pequeninos e missões à Gardel diante dos so called globalizados.


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Memórias de ouro - 5

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Faz hoje precisamente vinte anos, estava eu sentado na Manger Square em Belém (Bethlehem). Dizia o Miniscente off-line da época: “Olho para esta arquitectura incaracterística e pouco mais me apetece escrever. Ficarão na memória as alas bizantinas da Natividade, a impaciência kitsch da mesquita que lhe faz contraponto, as velas dos monges ortodoxos, o sabor acre do sumo de laranja, a palmeira raquítica a meu lado e ainda as alergias”.


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Walking around

Edward Steichen
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Registe-se a situação: o Flatiron era nesta altura um sereno solitário (a foto é de 1904, embora tenha sido impressa em 1909). Um século depois o que é que esta imagem respira? Um tédio que apetece sonhar ao sabor do ócio sem fim. Lembro-me de ter ido comprar, numa livraria das redondezas, dois livros sobre G. Vico. Estão agora ali em minha frente na estante. Não havia ninguém nos passeios, era um sábado à tarde como hoje, embora o calor do início de Junho estivesse mais do lado do ócio profundo do que de qualquer brilho entediado. Depois, terá vindo a noite e com ela a redenção mais involuntária que é própria do olhar de Edward Steichen.


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Fim de linha

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Durante vários anos, entre o início de 1984 e algures em 1989, dava aulas e via ao mesmo tempo este cenário. Era um estrado de madeira de cerejeira, as vidraças enormes e o lago do Oosterpark. Não sei o que diria - sintagmas, conjuntivos, ficções faladas -, mas sei perfeitamente o que via. Onde pairará o leme que divide a memória em acordes simultâneos?


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A saudade não existe

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Lembro-me das famosas entrevistas de Adriaan van Dis na VPRO, geralmente no canal 2 holandês. Nos anos oitenta, as noites de Domingo eram sagradas por causa dessas emissões e sobretudo devido às entrevistas que eram transmitidas a partir do pequeno teatro do café Ijsbreker. Fui vizinho desse café, no início da década, e escrevi aí por sinal uma boa parte do meu primeiro romance. Mudei-me depois para o centro (para o Jordaan) e foi aí, a partir de 1985, que Adriaan van Dis passou a galvanizar audiências.
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Lembro-me de uma demolidora entrevista a Rentes de Carvalho, de uma outra (bastante cáustica) à Isabel Allende e ainda de uma outra em que o entrevistado – um escritor holandês mal disposto de que não me lembro o nome – abandonou Adriann van Dis em directo por jurar que ele não tinha lido o seu romance de mais de mil páginas e que era, afinal, o motivo da entrevista.


sexta-feira, 24 de Março de 2006

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Eu não fui

"Los malditos amantes de Carolina* is a series of chronicles kept by different characters in a book concerning a particularly fascinating and captivating woman. The chroniclers start out with Federico Solis Ampudio, but after much trouble and internal conflict, he passes the writings along to his intimate friend, Carmelo. But not even Carmelo can cope with the stories and, after he disappears, they are found and continued by Carmelo’s daughter, Eugenia. In the end the publisher is confused as to whether or not he should allow new additions to the already published chronicles, because so many people have meddled with them."
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* Romance do escritor Vicente Cabrera Funes.


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Afrodisíacas e verbais

Por que é que há química entre certas pessoas e não entre outras? Quererá "química" dizer alguma coisa? Sempre ouvi dizer "química" nesta acepção à Quim Barreiros secundário. No entanto, há quem prefira a imagem mística "à primeira vista" (foi tudo "à primeira vista"). Convenhamos que é mais económica, não implica esforços laboratoriais e, sobretudo, atinge o mesmo fim sem esgotar grandes meios.


quinta-feira, 23 de Março de 2006

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500 anos do Progrom de Lisboa

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Faltam 27 dias. Vamos seguir a proposta do Nuno Guerreiro. Um país não se pode mutilar e continuar incólume e em silêncio face a si mesmo.


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"O ponto alto da cerimónia"


Gosto da expressão "ponto alto" (com a fotografia a concordar em género e número). Antes de haver auto-estradas, havia o "Porto Alto". Entre o "porto" e "ponto", também não prefiro o Sporting... mas lá que foi injustiçado foi. Quem mais se julga injustiçada nesta história do "ponto alto", quem é?


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Ventanias (act.)

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Parece que sim: diz o Oráculo que, no próximo Sábado, há bons ventos no suplemento das artes do DN. Vou mesmo comprá-lo. And you? Parece que as nuvens moldaram no céu a forma daquelas letras.
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Afinal, por causa das fotos, só sai para a semana!


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Três reflexões sobre design

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Confesso que foi a primeira vez que escrevi sobre design. É um texto já com destino marcado e, apesar de não ser adequado à blogosfera, publico-o aqui (trata-se de um conceito: o 'design do design').
Vantagem fantástica da blogosfera: cada um publica o que quer e adequa num ápice o que normalmente seria inadequado. Moral da história: sobre este, outros posts hão-de vir. Perdoe-se-me a dimensão. Mas apetece-me publicá-lo. É tudo:
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1 - Diferente do diferente, monadologia do quotidiano, atomização.
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A contemporaneidade cumpriu a antiga profecia de G. Deleuze (já quase com quatro décadas[1]) segundo a qual os simulacros seriam “sistemas em que o diferente se refere ao diferente pela própria diferença”. Nestes sistemas não há fundamento, nem identidade prévia nem semelhança interior. Estaríamos num mundo composto por uma espécie de monadologia leibniziana, mas desprovido de um Deus que nos enunciasse o “melhor dos mundos”. Na nova teodiceia indiferente e laica, a matéria e a “notícias” (as meta-ocorrências) aparecem no mesmo plano e na mesma omniurbe global, sem que nos apercebamos tendencialmente das oscilações de valor. A gripe das aves, a guerra entre significados de imagens, uma famosa OPA ou um anúncio de Maradona aparecem nos ecrãs como peças individualizadas que criam sentido por si sós, sem contextos precisos e projectando no que resta da relação clássica emissor-auditórios “linhas de fuga” demasiado abertas.
Existe uma dimensão plástica curiosa nessa “banalidade” virtualizante, ou melhor, uma espécie de minimalismo “clean” que reflecte o estado activo de media res em que vivemos. Tudo está em curso em jeito de fluxo num grande espectáculo hiper-real (onde, por natureza, a antinomia real-ficcional perde sentido dia a dia). O registo baudrillardiano da América, que já havia remetido para uma tal “repetição sem sentido”, condiz com o novo parapeito metafórico (o oposto ao acontecimento irrepetível, próprio do rito religioso ou da ‘ir-reproductibilidade’). Tal como a notícia, o design dispõe-se neste estado estésico avassalador através da simplificação e do recurso a uma racionalidade comunicativa essencialista. Por essa via, a moldagem da matéria convoca o simulacro e sobrepõe, sempre que possível, a singularidade da “pureza emocional” a contextos particulares.
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Estes factos também se estão a processar no mundo das redes (a “segunda natureza”, segundo Roy Ascott) onde sistemas complexos como a prototipagem rápida (RP) ou a litografia estereo tridimensional têm originado o fabrico de séries de produtos adaptados a necessidades individuais. Esta personificação em massa aliada à miniaturização determina que as novas tecnologias, mais do que desígnios instrumentais, tenderão a ser incluídas e entendidas no campo do design como qualquer outro material indiferenciado (o diferente do diferente). Será a consecução de uma utopia comunicacional clássica (de Marshall McLuhan). E será ainda a maior vitória da atomização e da teoria dos simulacros, se não for mesmo a antevisão de uma futura ciberantropologia.
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2 - Indiferença dos planos nos fluxos, coordenação, tudo ao mesmo nível. e e
Os fluxos são preenchimentos, mais automatizados do que autonomizados, no seio dos quais a liberdade é quase anulada por uma vontade prévia que é objectivada pelo instantanismo[2]. Há fluxo quando se consome, há fluxo quando se viaja, há fluxo quando se fala (é por isso que a subordinação está a desaparecer dos discursos), há fluxo quando se lê o mundo nos média e na rede, e há ainda fluxo nas imagens que percorrem o mundo. O domínio omnipresente dos fluxos traduz o termo de uma época em que a autenticidade era ainda uma medida central e referencial (W. Benjamin bem dizia que, pelo facto de a reproductibilidade não ser reprodutível, o “desenvolvimento intensivo de determinados processos de reprodução” tinha fornecido o meio para a “diferenciação e graduação da autenticidade”).
Se o fluxo se tornou na própria reprodução da reprodução, logo a matriz clássica da autenticidade se transpôs para o campo da diferenciação, para o plural e acentrado, dissolvendo-se horizontalmente no que antes foi a ordem vertical do mundo. Um mundo de fluxos é pois um mundo de excesso e de comunicação pela comunicação onde as peças da cultura material estão em trânsito como diferentes e, portanto, sem o requisito clássico da matriz. Ou seja, a matriz é concebida para que a peça entre no trânsito global e a remova (como acontece naqueles códigos genéticos em que os progenitores se suicidam para gerar).
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Não é por acaso que está hoje em voga um hibridismo que integra, embora sem uma ordem central e referencial dada, o que antes eram identidades fixas agregadas. Ao holismo estático da representação, a actual circulação de individualidades discretas impõe o seu novo reino. No design, esse movimento também está em curso através da emergência dos novos materiais que se estão a apresentar à funcionalidade e emoção globais como as novas próteses da nossa cultura material. São simulacros tácteis que podemos fruir com o corpo e com a percepção (cerâmicas flexíveis, espumas metálicas, plásticos condutores, emissores de luz capazes de memorizar as formas, fibras de carbono, etc.). O caso dos polímetros sintéticos é interessante, já que remete directamente para a mimese das propriedades naturais, preservando os atributos tácteis e alterando se necessário “o potencial formal dos produtos”.
É deste modo que os produtos se encaram como esteios que estão para além da forma e função para que foram desenhados. O desenho da matéria satisfaz assim o fluxo dos fluxos - o desejo instantanista -, liofilizando-o e contribuindo decisivamente para a generalizada esteticização do mundo (ou não há hoje um inesperado museu de arte contemporânea a crescer em todo o espaço à nossa volta, para fora do ‘sagrado’ que se institucionalizou após as várias mortes de Deus?)
Esta última ‘aparição’ conduz-nos à mitologia contemporânea da “marca”, definida por Al Ries e Laura Ries[3] – e por outros gurus da epistemologia publicitária – como a “percepção que o público tem de um serviço, produto, pessoa, etc.”. Nada nem ninguém controlará a marca – a percepção geral é um “universal” actuante – e, portanto, ela vive da transcendência que é diariamente reposta por imagens difusas e “lateralizadas” (E. de Bono). Mas a marca acaba sempre por deslizar para além dos sentidos que a condicionam e fá-lo como se fosse a nova “Ideia” platónica, composta por “património”, o que é tangível, e pelo essencial “core”, o que o não é. O planeta está assim hipnoticamente preso em torno desta operação de codificação/ descodificação do “core”. A conotação é filha do design, mas a conotação da conotação conduz à marca como tão bem defendeu o semiótico U. Volli[4]. É o design do design, mas neste caso ideal e não material.
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3 – O design do design material.
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Quando se entra num hipermercado ou no site da “Amazon.com”, verifica-se que o espaço é composto pelo fluxo das formas. O design vive em fluxo, auto-reproduzindo-se, esgotando a capacidade de uma individualização que se adequasse a uma solução geral e universal. Está lá tudo (um "dasein" que agencia todos os agenciamentos que estão em curso). A inscrição de qualquer forma na forma desses espaços (hipermercados e sites muito visitados) é sempre um acto de passagem ou uma notação do diferente no diferente. As matrizes iniciais, ao modo dos “pixels”, parecem dissolver-se e ao mesmo tempo corporizar-se nesta nova concepção que pode ser baptizada como ‘design do design’.
Caracterizá-la-íamos como a moldagem do moldado onde cada inscrição, tal como no hipertexto[5], se submete à provisoriedade (as formas estão em estado de permanente subtracção e adição), à des-subjectividade (enunciação síncrona e plural), à estesia (simultaneidade entre a sinalização e a poiesis), à meta-contextualidade (as formas criam o seu próprio contexto, deixando de haver um “de fora” e “um de dentro” evidentes), à reversibilidade (multimodalidade e coexistência de registos) e ao incorpóreo (no sentido de um agregado inorgânico e descentrado).
Não existindo, felizmente, teorias filosófica ou semióticas unificadas do design, parece-nos que esta caracterização do ‘design do design’ poderá pelo menos complementar a noção de C. e P. Fiell, avançada no recente Designing The 21st Century[6], segundo a qual a “prática do design deve responder a necessidade técnicas, funcionais e culturais e criar soluções que comuniquem significado e emoção que transcendam idealmente as suas formas, estrutura e fabrico” (2005, pp.11-21). Creio sinceramente que o design já está há algum tempo a flutuar nas águas dessa transcendência, embora essa transcendência não nos deixe de tocar devido ao seu especioso rosto de Janus: entre o simulacro e a solução, e entre a saturação e o desejo.
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[1]Deleuze, G., 1968, Différence et Répétition, PUF, Paris.
[2] Carmelo, L., 2003, Órbitas da Modernidade, Editorial Mareantes, Lisboa.
[3]Ries, A./L., (2002) 2003, A Queda da publicidade e a ascensão das relações públicas, Editorial Notícias, Lisboa.
[4]Volli, U., (2003) 2004, Semiótica da Publicidade – A criação do texto publicitário, Edições 70, Lisboa.
[5] Carmelo, L., 2006, A Novíssima Poesia Portuguesa e a Experiência Estética Contemporânea, Publicações Europa-América, Mem Martins.
[6]Fieel, C. & P. 2005, Designing The 21st Century, Tachen, Koln.


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Designs

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Faço subir as persianas do escritório de par a par (geralmente só o faço com uma das quatro secções). É verdade que os hábitos se entregam a si mesmos e acabam por abrir-se a conformidades que quase não falam. Apenas se repetem. Mas quando um gesto súbito e imprevisível toma conta das névoas, é como se o destino adquirisse uma forma. É esse o design deste momento.


quarta-feira, 22 de Março de 2006

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Gente rica é outra coisa

Seria este?
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Escreve o José Pimentel (ver comentários aqui): “Um dia também encontrei um livro de LC em Maputo, ia para os 500 contos (25 USD na altura)”. Parece que a concorrência na altura foi arrasadora, de tal modo que o JPT não conseguiu mesmo comprar o valioso livro. Alguém bastante habituado a leilões da Christie's, segundo se segreda nos meios, adiantou-se a tal genuína e amiga intenção. Conclusão moral: sempre é melhor ostentar olhos de gato e não os próprios nas capas dos livros: vende-se mais e rentabiliza-se também mais o produto. OPA por OPA, é mesmo assim. Não concordam?


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Sena & fear

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Ontem, na Casa Fernando Pessoa, comemorou-se o Dia Mundial da Poesia. Na sessão da tarde, os poetas convidados disseram dois poemas próprios e dois alheios. Três dos quatro poetas (Pedro Tamen, Gastão Cruz e Pinto do Amaral) escolheram Jorge de Sena. Por que terá sido?
Na sessão da noite, o Pedro anunciou um tornado e a bonança quase ao mesmo tempo, seguindo sempre a sombra e a palavra de Philip Larkin. De facto, nem sempre “Life is first boredom, then fear.” ('Dockery and Son', 28 March, 1963). Ao contrário de Miss Pearls que estava na fila da frente, mal consegui ouvir António Osório e a inédita figueira recitada por Nuno Júdice. Adília Lopes esteve sereníssima: a marca dita sempre a surpresa ou a desgustação. Acenou desta vez a primeira.


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Breves momentos vazam a memória

daqui
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Quando agora republico o meu diário de há vinte anos (o tal Miniscente off-line antes ainda de o ser), verifico que aquela linguagem é já a linguagem de outra pessoa. No entanto, sinto uma certa ternura pelo modo como as coisas se relatam e enunciam. A identidade anda por esses limbos incertos: ela é não tanto a ternura, mas talvez sobretudo o seu reconhecimento. É por isso que a autenticidade vale pelo modo como a nuvem permanece no céu: como se fosse imutável. Ainda que o seja apenas por breves, brevíssimos momentos.


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Memórias de ouro - 4

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Lê-se no meu blogue off-line, há precisamente vinte anos (22/03/1986): "Estou no Mar Morto, em frente da Jordânia. A terra chama-se Ein Gedi: arribas abruptas, pedras cansadas pela longa erosão, o mar momentaneamente verde e o sol a ecoar todo este silêncio."

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(Como ontem se falou em romances, volto-me agora para dentro da memória das páginas: repus "Ein Gedi" no meu As Saudades do Mundo que saiu a público em 1999, embora tenha sido escrito entre Junho de 1997 - lembro-me tão bem do momento! - e o Outono de 1998)


terça-feira, 21 de Março de 2006

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Ainda as fotos dos livros

O meu amigo José M. Rodrigues por ele mesmo
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Uma vez, um amigo fotógrafo, Gérard Castello-Lopes, depois de ter lido um livro meu, disse-me: "A fotografia é que é própria da Polícia Judicária, não desfazendo a instituição". Um outro amigo meu, também fotógrafo, de seu nome José M. Rodrigues, fotografou-me dezenas de vezes pelo menos desde 1980 (que me lembre). E no meio de tanta obra ímpar, jamais conseguiu tirar-me um retrato que se diga. Que fotogenia fantasmática engalanará a escuridão de uma tal aura, José?


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Dez por cento a menos

O Technorati dá-me conta que alguém escreveu isto:
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"Pego num livro de Luís Carmelo. Folheio. Compro. Não Compro. Dou uma vista de olhos pela capa. Segue-se a contracapa. Choque: Uma fotografia de um homem de meia-idade. Não tenho nada contra fotografias, nem contra homens de meia-idade e muito menos contra o Luís Carmelo. Só contra fotografias, de homens de meia-idade, em contracapas."
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Homem de "meia-idade", mal digitalizado e apanhado de surpresa*
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Ainda bem que o miúdo não comprou o livro. Oxalá ainda venha quando chegar à "meia-idade" (esta frase era para ser reflexiva). É verdade, só mais uma coisa: o miúdo compara-me com o Sousa Tavares. Não desdenharia a hipótese, até porque deixava as aulas, a investigação, os ensaios e, se calhar, os romances e essa coisa toda de uma vez só. Afinal o Technorati dá-nos bons assessores. Graciosamente.
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*Bem digitalizadinho ninguém lhe dá a idade que tem. Tem fama disso em muitos e bons lugares, dizem os críticos e as outras.


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A poesia a bordo do seu dia

António Sena
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Hoje, Dia Mundial da Poesia, há festa ali na Casa Fernando Pessoa. Lá estarei. Há programa ao fim da tarde (18.30h) e mais à noite (21.30h). A minha pequena homenagem pessoal a este dia número um da Primavera faz-se pedindo licença ao Luís Quintais para que autorize a publicação no Miniscente do seu belíssimo poema “Azagaia, árvore, sombra” (já agora, devo dizer que há novidades sobre Roma no post de baixo):
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"Há objectos que perseguem a nossa infância,
depois, vida fora, esquecem-se os seus mágicos nomes,
a sonhada utilidade que os anima.
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Poderíamos pressenti-los dentro de nós,
e isso sucede, por instantes, quando o fundo que os obscurece/
se ilumina de repente
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e os distinguimos a contra-luz.
Silhuetas animam-se na memória. Uma breve,
quase acessória, viagem no tempo começa.
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Em África, na casa onde nasci, e depois de casa em casa
- eram frequentes as mudanças -
o meu pai pendurava uma azagaia na parede.
e
Sempre a mesma azagaia. Era um objecto nobre.
Marcava um hábito guerreiro: imaginar que a sustinha sobre a/
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cabeça, que a arremessava longe, trespassando a sombra
e
da árvore que se erguia no quintal,
Trespassava a sombra e não a árvore, repare-se.
E então a sombra, sob o sortilégio do imaginado arremesso,
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começava a retrair-se e a afilar-se, desaparecia.
Com o desaparecimento da sombra
ficava apenas a árvore e a longa azagaia presa ao solo.
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A sombra de uma árvore visita-me agora.
Vem nos meus sonhos recentes dizer-me que há um livro
nos sonhos, e que esse livro se escreve
e
com a linguagem crepuscular da memória.
Sei que se trata de uma sombra órfã.
Que se soltou das contingências de lugar e luz
r
para viajar no eterno. Sei agora que a substância da árvore
se aliou à substância da azagaia. Que ambas vibraram,
continuam a vibrar, juntas.”
e
(De A Imprecisa Melancolia em Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, Org. P. Mexia, O Contador de Histórias, C.M.T., 1997, Tomar)


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"Complexity and color"

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Que mulher não gostaria de ter sido Cleópatra, nem que fosse por um dia? Que homem não gostaria de ter sido Pulo, nem que fosse por um dia?
Esta Cleópatra é um tanto diferente da que Hollyhood encenou no início dos anos sessenta (lembro-me da Elizabeth Taylor de 1963): misto de flor luarenta e branca tão untada de divino quanto da carne que a sonhou.
No final do óptimo episódio de ontem – já o oitavo, “Time goes by so slowly” –, Júlio César ostenta o bebé aos soldados e o afectado grito de Pulo apenas é dissuadido pelo olhar prudente de Voreno.
De resto, as cabeças espetadas no grande palácio egípcio valeriam pelo Al-Ahram de hoje. À iminência das notícias reagiriam então as lanças e os uivos nocturnos que a montagem alternada aproximou dos amores de Servilia e Octavia, ou dos mais puros lençóis de seda: a César o que é de César.
Em Roma, Marco António continua a ser um James Dean mal disposto que falta às aulas do seu liceu. Na cena, não há carros dos fifties, mas existe um desmedido Senado ainda a sós, à procura de sentido, ou, quem sabe, se apenas à espera do seu dramático desígnio ("O corpo é que paga", praguejaria Cícero entre lábios).
A cor do Mediterrâneo tem a imprecisão com que se augura a eternidade, mas em Roma ela transforma-se em loba terrena e chã, apesar da lei, dos novos estóicos que calcorreiam a leveza dos seus mamilos e da memória – ainda que involuntária - da República. A César o que é de César.
Este texto começou com uma picada de “gender” e termina agora com uma picadela mais ou menos mediática: os senhores que tiveram a insanidade de dar corpo a esta série deviam ser obrigados a continuá-la até aos nossos dias. Pesquisassem, trabalhassem arduamente, mas fizessem-no! E nós estaríamos aqui, como Cleópatra com o seu cachimbo, apenas para o prazer, para o sumo deleite e para o Júbilo. Qb.
Não concordam?


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Bem-vinda!


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Imensa empatia

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Revejo uma entrevista a Fernando Gil e pergunto-me aqui em silêncio: por que é que um pessoa destas morre?


segunda-feira, 20 de Março de 2006

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Memórias de ouro - 3

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Consulto o meu blogue off-line, escrito precisamente há vinte anos em Jerusalém: "Chego a casa, fecho os olhos e retenho a cor creme, parda, vaga, iluminada, acidental e rude da cidade."


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Quando o centrão é uma hipérbole

Os temas foram os do dia: a França, o Iraque e a agricultura. Luís Fazenda e Ângelo Correia concordaram em tudo. Estranho frente a frente, este da Sic-Notícias.


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O café do bairro

"O que eu penei no meu tempo para ter uma farda de oficial! E agora... um gajo vai ali à Feira da Ladra e elas estão lá à venda!"


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Parabéns a ele que é do contra!

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Confirma-se: o MacGuffin faz três anos de escrita e prefere continuar a sondar o destino da rede a meter-se na bolsa de valores. Eu, para dizer a verdade, ainda hesitei. Muitos parabéns!


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Memórias de ouro - 2

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Faz hoje vinte anos, deambulava pela actual esplanada das mesquitas e, quase involuntariamente, acabei por entrar calçado e com demasiada ligeireza na Mesquita de al-Aqsa. O protesto fez de mim um acossado, por breves momentos. Depois, saí a correr e, segundo se escreve no diário, fui comer com amigos perto do Kiriat Haiowel. Há coisas que, assim contadas, mais parecem aventuras do Tim-Tim. E de algum modo, tê-lo-ão sido.


domingo, 19 de Março de 2006

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Uma história da Colecção Berardo

António Palolo (do Catálogo)
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Fui ver a exposição da Colecção Berardo que está neste momento na Galeria do DN, na Av. da Liberdade. Gostei de rever os sinais da Pop e as fotos do Andy Warhol (sobretudo a de Truman Capote e a de Kissinger abraçado a Elisabeth Taylor). Mas houve um trabalho que me tocou de modo muito particular. Trata-se de uma obra do João Palolo (o nome artístico era "António Palolo") do ano de 1969, sem título, e que resulta de uma "técnica mista" sobre papel, tal como é referido na sinalética da exposição e no próprio catálogo. De facto, essa enigmática "técnica mista" é-me, neste caso, muito familiar.
Eu explico: lembro-me de no Verão de 1972 - tinha eu quase dezoito anos - aparecer no ateliê do João com vários amigos, entre eles outro futuro pintor e performer: o José de Carvalho (hoje, infelizmente, tal como o Palolo, já falecido). O ambiente naquele espaço era então no mínimo exuberante. Um dia, o João chegou ao pé de mim e perguntou-me: "Queres aprender uma coisa?" e eu, na minha timidez explosiva da época, terei dito que sim. Depois, ele limitou-se a ilustrar o modo como o éter fazia e faz milagres sempre que o espalhamos com força (com um algodão) sobre uma página de revista colorida - lembro-me que era francesa - sobreposta, por sua vez, a uma cartolina branca. O resultado é a passagem das imagens para a cartolina com um efeito de alguma sugestiva diluição. Esta técnica abria-se, portanto, a muitas possibilidades e, naquele tempo, tornava-se permeável à ideia de colagem e também de puzzle imediato com os objectos do quotidiano. Lembro-me de ter vendido na estação do Metro do Rossio (em frente à Suíça), nesse Verão de 1972, alguns desenhos desse género (e creio ainda ter algum cá em casa).
Ora, a obra agora exposta da autoria de António Palolo, e que consta da Colecção Berardo, é precisamente desse tipo, embora nela convivam outros elementos, tais como a imagem de um urinol sobre fundo vermelho e ainda um leve horizonte tricolor, ambos na parte de cima.


sábado, 18 de Março de 2006

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Monty Côa

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António Martinho Baptista, apresentado no DN de hoje como "o maior especialista português em arte rupestre", deixou para a posteridade a seguinte frase:
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"Ninguém sabe exactamente para que servem estas placas a que chamamos 'arte móvel'. Já eram conhecidas em locais de grutas. Tínhamos em Portugal duas ou três. Mas aqui achámos imensas, umas 65, todas no mesmo sítio. Porque estavam ali tantas acumuladas? Ou era um pequeno santuário onde se depositariam tipo 'ex-votos', ou seria uma pequena escola de belas artes do Paleolítico Superior, onde os artistas ensaiariam."
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Acho admirável a imaginação que é própria da conjectura científica. Às vezes, chega a ter o suave odor de Monty Python.


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Memórias de ouro - 1



Faz hoje vinte anos, chegava a Ben Gurion. Parece que foi hoje. Escrevia eu na altura: "Ao entrar na cidade velha, foi a surpreendente desmistificação do exótico e o visionamento do admirável."


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O luar da guilhotina

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Em França há certas agonias, pálidas angústias, alguns males de coeur. Consequência: trinta e uma noites a incendiar carros e agora já lá vão umas três ou quatro a partir lojas. Faltam baladas, faltam gestas, faltam causas rubras e poesia. Ficam ecos insaciados de Ferré, alumínios vergados, luares desencantados. O certo é que as coisas, depois, lá se vão compondo.


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Vizinhança entre congressos

Bem me parecia que Fernando Pessoa pronunciava "como" e não "cumo".


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A solidão do Mar Aral

Depois dos problemas com o Blogger, chego a Évora e é o sufoco da sapo. Nada de rede. Uma adsl vergonhosa que passa o tempo a navegar em vestígio de antigo mar. Que fazer?


sexta-feira, 17 de Março de 2006

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Invisibilidade

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Está lá, está lá? Conseguem visionar os blogues? Eu não. E se um dia o blogger se fechasse para sempre - será hoje o caso? -, o que aconteceria a quase três anos de textos? Era caso para dizer que o apocalipse quereria dizer tudo menos visão.


quinta-feira, 16 de Março de 2006

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Mitos Climáticos

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Mitos Climáticos de Rui G. Moura é um excelente blogue, bem documentado e nada bajulador do main stream eco-politicamente-correcto (informação do meu amigo Alberto Magalhães, mais uma vez). O último post põe em causa a escola que no jornal Público insiste em fazer dogma do chamado "aquecimento global". Vale a pena passar por lá, ler e lincar.


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Os gafanhotos espirituais

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Fui almoçar a um restaurante que era um misto de rede natura e design. Enquanto me deslocava à casa de banho, deparei com uma menina-senhora que se dirigia à empregada com ar peremptório: "Estes pastéis são realmente biológicos?". E eu logo pensei que há locais sagrados onde os gafanhotos se transformam em Santa Teresa de Ávila.


quarta-feira, 15 de Março de 2006

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De olhos bem abertos

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Nos Estados Unidos, a já legalizada colocação de "chips" subcutâneos (que contêm a história clínica de pacientes) começa agora a ser motivo de polémica. Liz McIntyre é um dos autores de um livro recente acerca dos múltiplos perigos que a "radio-frequency identification (RFID) technology" encerra: "It may seem innocuous, but the government and private corporations could use these devices to track people's movements". O cartão único de Sócrates passeia-se nestes limbos onde a utilidade e a funcionalidade se cruzam com as sempre conjecturáveis ameaças à liberdade. Fechamos os olhos face à tentação deste novo absoluto que é a instantaneidade tecnológica?


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O gafanhoto espiritual

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Vicente Jorge Silva escreve hoje uma carta aberta a Augusto Santos Silva no DN. Depois de muito rodriguinho e da expressão do repetido apreço pessoal (uma lusitana 'concordância parcial' a ressoar a tédio), vem o anúncio das discordâncias que contrapõe uma regulação dos média "acima de toda a suspeita" a uma regulação onde abundam adjectivos como "opaco", "dúbio" e "obscuro". No fundo, não é a regulação que separa ambos os contendores mas tão-só o cozinhado, a culinária e a maior ou menor vivacidade dos ingredientes. Termina do seguinte modo esta carta aberta:
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"Recordar-te-ás que, quando estive contigo no parlamento, tentei promover sem sucesso um amplo debate no PS sobre as relações entre o poder político e o poder mediático. A incompreensão e o cinismo acabaram por prevalecer, confortando as velhas convicções de que os "bons jornalistas" são aqueles que são politicamente dóceis para nós e agressivos para os demais."
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Mais valia Vicente Jorge Silva ter respirado fundo ao fim de uma destas tardes solares em vez de ter perdido o seu tempo a escrever este trecho de inspiração tão ingénua. Mesmo que a sua passagem pela política partidária tivesse sido meteórica, não era já tempo para ter compreendido o funcionamento da feira? Creio sinceramente que sim.
Umberto Eco disse um dia que um dos modos de comunicação a que mais habitualmente recorremos é a ostensão ("amostra"): estou na esplanada, levanto a garrafa, ostento-a e o empregado já sabe o que eu quero. Este pequeno espaço do DN de hoje é mais uma ostensão. Gesto parecido com aquele que os cozinheiros da actual "ERC" andam a repetir há semanas, desde que passaram a acenar única e exclusivamente na direcção do segredo, do recato e - sejamos sinceros - da idiotice. Afinal, todos entendemos o jogo que a si próprio exageradamente se denuncia.
Amplo debate entre poder político e mediático no nosso tempo? Seria mais fácil um gafanhoto transformar-se em Santa Teresa de Ávila.


terça-feira, 14 de Março de 2006

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"Complexity and color"

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Voreno era muito claro: "This is where we die". Da estranha ilha onde chegam após o naufrágio, Pulo e Voreno voltam a partir numa jangada feita de cadáveres de soldados da famosa 13ª Legião para depois aportarem quase junto à tenda do foragido Pompeu.
O mundo é pequeno: milagres do Mare Nostrum.
Saber-se-á mais tarde que a misericórdia de César tem o dom da exclusividade e, por ignorar esse facto, o grande seguidor dos princípios morais, Voreno, quase vê ameaçada a própria vida, no momento em que iliba Pompeu do seu destino mais do que inevitável. Perto de Alexandria, em plena praia, à vista da mulher e dos filhos, os planetas acabariam por cumprir-se e sem qualquer piedade.
No lado norte do Mediterrâneo, em Roma, o exímio relator – a CNN de então - enuncia permanentemente o enredo em curso, mas a reviravolta é iminente. Servilia e Octavia trocam por isso mesmo de papéis e acabam, a certa altura, por ver bem juntinhas o animado “Brokeback Mountain”, entre lágrimas, compaixão, desesperança e os – presume-se - destemidos arrepios de Átia.
Octaviano, o distinto ausente-presente, aguarda na Academia a sua entrada na história com maiúscula (não sei se a série chegará tão longe). Por agora, César decidiu partir para o Egipto. E não deveremos esperar muito até que o regresso a Roma se torne numa das raras apoteoses da memória do Ocidente.
O campo de batalha na Grécia foi - para já - a separação das águas, seguir-se-á a separação dos céus.


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Os abismos do Ocidente

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O meu amigo Alberto Magalhães enviou-me a sua crónica que vai para o ar na Rádio Diana hoje mesmo. Trata-se de um texto no mínimo bastante oportuno. Passo a publicá-lo (quando é que fazes um blogue e te deixas de preguiças, Alberto?):
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"O senhor Abdul Jabar Al-Kubasy é o fundador e líder da Aliança Patriótica Iraquiana, formada por antigos elementos do partido Baas (o de Saddam Hussein, sim senhor), de outros partidos pan-arábicos e de diversos outros grupos. A Aliança Patriótica foi fundada em 1992, depois da primeira guerra do Golfo e organizou uma campanha contra o embargo da ONU aos produtos iraquianos.
O senhor Abdul Jabar deixou o Iraque em 1976 e regressou em 2003, tendo estado prisioneiro das forças americanas até ao Natal de 2005. Afirma que a resistência no Iraque contra as forças estrangeiras não vai parar. Afirma que se orgulham de estar na linha da frente dessa luta. Que são fortes com os apoios que recebem. Acusa ainda os americanos de tudo fazerem para criar uma guerra civil entre sunitas e xiitas.
Tudo isto disse no sábado, na Casa do Alentejo, em Lisboa, o senhor Abdul Jabar, a convite de “54 organizações ligadas à esquerda”, como as descreve o jornal Público adiantando: “No fim do discurso as cerca de cento e cinquenta pessoas que o ouviam, aplaudiram de pé e com gritos de: “O Iraque vencerá”. Portanto, pelas minhas contas, uma média de presenças por organização inferior a três pessoas, nesta iniciativa tão significativa que ocupa meia página do matutino.
Das 54 organizações presentes, o jornal destaca uma coisa chamada Tribunal Mundial sobre o Iraque, representada por um tal Manuel Barroso, o Bloco de Esquerda, o Partido Comunista Português e alguns dos seus satélites habituais, a saber: o Conselho para a Paz e a Cooperação, representado por Domingos Lopes, o Partido Ecologista os Verdes, o Movimento Democrático das Mulheres, a CGTP-Intersindical e, ainda, a Associação 25 de Abril.
A iniciativa chamou-se “três anos de ocupação, três anos de resistência”. Para que conste, quando se vêem as imagens de destruição e morte provocadas por bombistas, suicidas ou não, contra os homens, mulheres e crianças do Iraque, estamos agora autorizados a pensar nas “54 organizações ligadas à esquerda” que apoiam a Aliança Patriótica Iraquiana, que se vangloria de estar na linha da frente dessa luta."


segunda-feira, 13 de Março de 2006

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A grande gargalhada

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Há qualquer coisa de comum entre Mário Soares a sair da Assembleia da República no dia da tomada de posse de Cavaco e a fúria com que Silvio Berlusconi abandonou uma entrevista que estava a dar à RAI. Assim como há qualquer coisa de comum entre o “Portugal dos Pequeninos” de Salazar e o “Mundo dos Pequeninos” dos arredores de Pequim (espaço representado no recente filme “O Mundo” de Jia Zhang-ke).
Antecipamo-nos em muitas coisas, é verdade.
No primeiro caso, cada um dos figurões parece exceder e até transcender o que os rodeia (embora o caso concreto de cada um não se possa confundir com um mesmo horizonte: justiça seja feita). No segundo caso, é como se fôssemos invadidos por uma espécie de representação própria, abandonada a si mesma, tão terna quanto recheada de onanismo estético e político. Os chineses já se deram ao trabalho de alargar a nostálgica escala coimbrã para a dimensão do “orgulhosamente sós” global.
No fundo, as ilusões comandam o devir e o generalizado jogo de imagens que gostaria de nos processar.
Houve ainda uma outra prova desse facto neste fim-de-semana: a morte de Milosevic foi a quase morte de um tipo de justiça que os eufóricos nineties julgaram possível. Afinal, começa a desconfiar-se de tão fantasmático quanto enigmático bluff.


domingo, 12 de Março de 2006

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A justiça e as afeições da alma

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Bem sei que o princípio da causalidade é um princípio eminentemente básico. Mas a verdade é que, depois de lida a última página (do caderno principal) do Expresso desta semana - sem links - e a inesperada “Despedida” do Espectro (assinada por “VPV” e “CCS”), nada parece querer fazer desmobilizar a pertinência de tal princípio. Nesta altura triste, ficaria bem alinhar aqui uma ou duas citações de Dostoievski para explicar o afectado balancear da sensibilidade de Clara Ferreira Alves. Sendo certo que as mesmas não bastariam para explicar a “pena” com que se assinala e partilha o lamentável fim do Espectro (de que irei realmente sentir a falta). A força que a sensibilidade pode ter neste nosso incauto mundo! Pela minha parte, já tinha pensado muitas vezes que existem coisas bem piores do que lavar a louça.

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Anexo:

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Este é o texto de “VPV" que terá causado algum mau tempo no canal, ou seja, um recurso à justiça por parte de C.F.A. (post de há uma semana):
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“A hipotética "dra." Clara Ferreira Alves (chegou com dificuldade ao actual 12º ano), crítica literária que leu (jura ela) "os clássicos", especialista do último escritor inglês com quem almoçou, autora de um romance anunciado em 1984 e nunca até agora publicado, dona de uma coluna ilegível (e bem escondida) na "revista" do Expresso, foi um dia arvorada directora da "Casa-Museu Fernando Pessoa" pela conhecida irresponsabilidade de Pedro Santana Lopes, de quem ela tinha sido uma entusiástica partidária. Daí em diante, a importantíssima Ferreira Alves e o "Pedro", como ela dizia, ficaram muito amigos. Tão amigos que a "dra." Clara apareceu um dia presuntiva directora do "Diário de Notícias", coisa que me levou a sair antes que ela entrasse. Felizmente, não entrou, porque teve medo de cair na rua entre o "Expresso" e o DN, com a reputação de uma "santanete" obediente. Agora, morto o seu patrono, não perde uma para o maltratar, supondo que demonstra "independência". Ontem, a propósito de um "Audi", que o homem comprou, despejou em cima da cabeça dele todo o lixo do mundo. Santana não aprendeu que a certa espécie de pessoas não se fazem favores.Se a "dra." Clara me quiser responder, sugiro que me responda em inglês e não meta na conversa a sua célebre descrição do pôr-do-sol no Cairo. Muito obrigado.”


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Como é que se usa a contemplação?

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Sento-me, olho em frente e pergunto ao adormecido coração do Domingo: o que fazer a este tempo imobilizado? O que fazer a estas formas extraordinárias (a curvatura dos muros, a brancura da ameixoeira, o brilho da relva), o que fazer a este sopro vital às vezes sem qualidades? O problema é apenas ter que perguntá-lo. Socorro-me do mais nobre nome que provavelmente o MEC-2006 citaria para fazer rimar “Uíge” com “sanduíche” e Peniche com parvoíce: Wittgenstein. O uso das coisas é, no fundo, o que elas significam. Assim sendo, está-se sempre aquém do sagrado e sempre para além da tentação artificiosa de rimar coisa com coisa. O tempo permanecerá, a axeixoeira manter-se-á e o tal sopro vital continuará. Indiferenciadamente. Nesse caso, mais vale levantar-me e ir fazer café. Foi o que fiz: é óptimo e veio directamente do Brasil.


sábado, 11 de Março de 2006

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Quase Primavera

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Chegar, olhar e ver a ameixoeira do pátio carregadinha de flores brancas. Numa semana, o mundo pode de facto transformar-se numa galáxia. Camilo Pessanha, falecido há oitenta anos e dez dias, deverá andar por perto.


sexta-feira, 10 de Março de 2006

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"Acontece a qualquer um"

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Efetue saques no cartão de crédito e pague em até 24 vezes.”
(Banco Santander: sítio português)
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"Chegou o novo Guia Repsol Portugal 2004-2005" (...) "Antes de empreender a viajem, terá acesso a todos os detalhes..."
(Repsol: sítio português)
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"Mensalmente receberá a informação das suas compras que serão debitadas na sua conta bancária, segundo a modalidade de pagamento escolhida, no último dia do mês seguinte aquele em que realizou as suas compras."
(El Corte Inglés: sítio português)
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Pensavam que era só na Toys 'R' Us?


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Dados ao ar

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No sorteio dos oitavos de final, os comentadores disseram: "Não podia ter saído pior ao Benfica". No sorteio dos quartos de final, os comentadores disseram: Não podia ter saído pior ao Benfica". A resolução deste tipo de silogismos, já nas meias finais, terá o nome de Lyon ou de Milan. Nada mau. Depois, Paris, goste-se ou não, é sempre a Cidade Luz. O que estava eu a dizer?
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Benfica- Barcelona (1961): lembram-se?


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Chama-lhe um Vico

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Se alguém se der ao trabalho de comparar pacientemente estas regras com estas, chegará a conclusões interessantes acerca da blogosfera. Sobretudo numa fase em que ela já começa a falar (mais ou menos três anos de idade). Haverá, algum dia, uma idade adulta na blogosfera (qualquer coisa do género de uma Idade da Razão à Giambattista Vico)?


quinta-feira, 9 de Março de 2006

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A bola de neve do 8 de Março

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Nos comentários ao post de ontem, "O Gender e o Abismo", o leitor "amfm " descobriu que o Ma-Schamba era um blogue feito e escrito no feminino. Em dia de celebração tudo se compreende. O JPT já evocou o facto (ainda por cima em pleno 8 de Março!).
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P.S: Já que falamos em comentários, vale a pena ir ao Espectro ler a sucessão de 187 comentários a um texto de Constanha Cunha e Sá sobre Paulo Portas ("Direita"). É o desvario. Já agora, reatando as questões delicadas do "gender", eis um bom exemplo de um blogue (refiro-me ao Espectro pré-V.P.V.) que não parece ter nunca caído nas malhas identitárias da enunciação no feminino. Ou estarei enganado, tal como o comentador "amfm" que fez do JPT um travesti involuntário?


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Mover o que há a mover

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Às vezes faltam palavras, mas ficam os factos. Todos os factos: os grandes e os pequenos.

Confirmou-se o que aqui ontem escrevi, apesar das "três pancadas" no ecrã que o JPT - e bem - aconselhou.

Lembro-me das profecias (ou eram atoardas?) que o Maradona escreveu e que o Francisco na altura secundou com alguma euforia.

Ficam os factos, alguns menores certamente. Outros - os que interessam - passaram-se ontem no relvado de Anfield.


quarta-feira, 8 de Março de 2006

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O "gender" e o abismo

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Sobrepor a "paridade" à qualidade não só menoriza as mulheres como sobretudo estupidifica a sociedade. Mas parece ser esse o intuito de um projecto de lei do PS - com o apoio missionário do BE - que pretende obrigar as listas eleitorais a um "limite mínimo de representação por sexos de 33,3 por cento" (ver Público: sem links).
Se a medida fosse aplicada à composição das turmas nas universidades, grande parte das actuais alunas ficaria à porta, enquanto esse novo tipo de delinquente que dá pelo nome de "homem" preencheria uma boa parte dos lugares (de que anda misteriosamente arredado há anos e anos).
Misturar o "gender" com decisões administrativas e políticas conduz as sociedades ao paternalismo absurdo. O "gender" é giro, sim senhor, mas é para mesas redondas, para este tipo de polémicas e para os novos entertainments que dão emprego e motivo de tese a "investigadores" e a professores de mestrado especializadíssimos. Mas misturar a lógica do "gender" com engenharias socias perfectíveis e sobretudo impostas é entrar no limiar da intolerância.
Pelos vistos, há muito boa gente que insiste em não ter aprendido as lições do século passado. E ainda por cima - estou quase certo disso -acreditam ingenuamente que este tipo de despotismo celebratório irá resolver as "desigualdades" entre sexos.


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Ninguém tira a esperança ao Benfica

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Tal como os fãs do Everton por lá, também alguns pardos azuis de cá anseiam pela via perversa (a vida não teria tanta graça se assim não fosse). A ameaça de incêndio - e de bomba - e a lesão de Petit já ninguém lhes tira: um e outro factos terão sido uma espécie de aperitivo matinal para gaúdio próprio. No entanto, confesso que não sendo o Liverpool de hoje um Mónaco ou uma Lazio de ontem, sei que tudo pode acontecer. O que já não é nada mau.
Depois da frenética travessia do deserto - esse "fantasma" de boa parte dos nineties (e que teve o seu assumido clímax em Vigo) -, aprendi que uma grande equipa se caracteriza por saber lidar com a expectativa da derrota como se fosse sempre a de uma vitória, ou seja: sem aquela euforia nova-rica de quem começou a vencer há pouco tempo, sem disforia também, mas sobretudo sem a aparente máscara carnavalesca da invencibilidade (o antigo e paroquial "Complexo de Meirim" - os mais velhos lembram-se).
O grande Clube (com "C" grande) será sempre uma questão de arrojo e de mito, é certo. Mas de nada valerá a história e a marca, se a crença e o trabalho árduo sobre o relvado forem a sombra do "fantasma" e não o reflexo do risco e das expectativas em aberto. Curiosamente, os jogadores do Liverpool já mudaram o tom das suas declarações: antes do jogo da Luz, viam no Benfica a mera sombra do "fantasma", mas agora passaram subitamente a respeitar o Benfica e a entrever na sua atitude sinais de risco. Por outras palavras: reconhecem que está tudo em aberto.
Sinceramente, gostaria apenas que Benitez dissesse no final da eliminatória o que Adriaanse foi levado a dizer - com franqueza - na última vez que foi derrotado pelo Benfica: "Mais agressividade, mais organização, mais...". Vai ser muito difícil. Mas estamos cá para acreditar. Seja qual for o desfecho. Aliás, a luta romântica "pela camisola", que era própria do discurso do futebol há trinta ou quarenta anos, equivale hoje essencialmente à partilha do factor surpresa (saber surpreender os poderes do futebol: as grandes empresas, os passes caros e galácticos, a conjura instalada, as arbitragens em certos estádios e as apostas irrefutáveis).


terça-feira, 7 de Março de 2006

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Irmãos Unidos

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Soube agora pelos amigos do bairro que este famoso Pessoa do Almada vai regressar à Casa Fernando Pessoa (onde vive há uma dúzia de anos). Mas eu que sou mais velhinho do que a média da malta da blogosfera - embora não pareça -, lembro-me como se fosse hoje de o ver no local para que foi originalmente encomendado em 1954 (data, afinal, do meu nascimento): o restaurante "Irmãos Unidos".
Era uma vasta sala, um belo volume cheio de vidraças que ligava, ao lado da Suíça, o Rossio à Praça da Figueira (não há registos na rede). Devia ter cinco ou seis anos, quando os meus pais ali me levaram por mais do que uma vez (e ao meu irmão, claro). Aquelas formas e aquela luminosidade solar ficaram-me na lenta austeridade da alma. Lembro que, quer o meu pai, quer a minha mãe sublinharam na altura o carácter ímpar da obra. Já não sei como, nem com que palavras. Mas a mensagem - como se diz agora - ficou.
Por essa razão, à época, o "Irmãos Unidos" não era apenas aquele salão sem fim que o olhar de uma criança ajudava a expandir; o "Irmãos Unidos" era sobretudo aquele estranho quadro que persistia em dar forma ao poeta sibilino. Obrigado, pois, por ter ficado a saber que ele está vivo. Mais um motivo para voltar a subir a rua...


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As novas naus

Ontem a imprensa referiu-se aos perigos potenciais dos aeródromos que abundam por esse país fora. Hoje, em brevíssima pesquisa, verifiquei que só a cidade de Évora é servida por quatro. O principal é quase uma OTA (ei-lo aí em baixo, tem uma academia aeronáutica e tudo). Mas os outros são interessantíssimos. Um fica na (para mim familiar) Nossa Senhora de Machede (a 13 Km da cidade), outro em S. Manços (a uns 14 Km) e o outro fica situado na Herdade da Amendoeira (perto de Montemor-o-Novo, a cerca de 20 Km de Évora).
Nos fins-de-semana já sei onde receber os amigos.
Agora imagine-se uma “pesquisa avançada” cidade a cidade, vila a vila, ao longo de todo o rectângulo. A conclusão havia de ser espantosa.
Portugal é afinal um país de aventurosos Ícaros em chamas (ou de cosmonautas "desempregados")!
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Aeródromo de Évora.

Aeródromo de Nossa Senhora de Machede.

Aeródromo de Fortunato (S. Manços).

Aeródromo da Herdade da Amendoeira.


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"Complexity and color"


r
Uma das escravas estaria a sós no mundo, a outra de faca na mão e um último – não sei se acabado de desembarcar - de alfaias douradas no penderucalho. Aliás, segundo rezam as crónicas, Octaviano portou-se “como um boi”, Marco António como uma espécie de harpa indignada ("I did not realize until now what a wicked old harpy you are") e Vergília - vestida por Versage - limitou-se a espelhar o lusco-fusco das ligações perigosas.
Belo episódio, o de ontem (foi o sexto num total de doze: não há virtudes a meio).
No outro lado do cosmos, Átia falhou para já o desafio dos duques, embora saiba que o futuro lhe pertence. Bastará vaticinar outros barcos vitoriosos que trarão um dia a Alexandria o brilho do império. Nos arrabaldes da ciosa, bela e putrificada Roma, dias antes da partida da Décima Terceira, Voreno desesperou nas longas barbas de Baco e ouviu a seu tempo o som idílico do cravo (ou terá sido gongue?). Um golo de sumo entre princípios morais, pelo menos. A julgar pelas ondas do mar, que parecem ter feito das suas, foi devoração merecida.
Acrescenta o oráculo, no entanto, que existe uma ilha salvadora em pleno Adriático que espera pelas luas desavindas. Talvez por lá se encontrem noutros trânsitos Tadzio, Durell, ou quem sabe se Ulisses. Todos à espreita do espesso “Pompeian blood”.


segunda-feira, 6 de Março de 2006

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Cultura nas colinas

Nos eléctricos de Lisboa, aprendem-se línguas. Mas sobretudo a língua de Dumas, Gautier e Proust:
d
"Beware of pickpockets
Attention aux pickpockets
Atenção aos carteiristas".


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Os poentes de Unamuno

É uma daquelas cenas habituais em Portugal: um pequeno grupo, umas quatro ou cinco pessoas vestidas de preto e a falar dos males da saúde. Quando passei pela mancha comiserada que interrompia o passeio, ouvi esta máxima: “Era para morrer, mas fiquei ainda pior”.


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Óscares

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Não adivinhei, mas quase (como aqui escrevi há pouco tempo, existe um outro Crash que eu creio ter outra consistência). Seja como for, mais valeu este Crash do que a esponjosa avalanche do tematicamente correcto. Hollyhood diz-nos, ano a ano, para não nos cansarmos. Devagar devagarinho se vai ao outro lado da rua.


domingo, 5 de Março de 2006

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Estas coisas da RTP1

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Mas quando é que o "senhor Zola do século XXI"* deixa de piscar o olho no fim do telejornal? Eu bem sei que é uma questão de gosto, mas se desvalorizarmos o gosto em demasia o que vai ser feito daquele relógio de pulso?
e
*A expressão é de um carniceiro meu amigo.


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Poema para o Amador e para a Amadora


Tríptico

«Transforma-se o amador na coisa amada», com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas

Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
É o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.

Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.
E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo e do amor.e
e
(Herberto Helder)
e
P.S. - Neste primeiro Domingo de Março, não posso também deixar de endereçar a minha vénia ao grande mestre Gil Vicente, porque tudo o que é Nacional é bom. Afinal, a bola é redonda e a poesia nem tanto.


sábado, 4 de Março de 2006

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Pensar como quem morde a maçã



sexta-feira, 3 de Março de 2006

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Sobre Renard e Pepys...

O meu amigo - há anos e anos que não nos vemos - J. Rentes de Carvalho no Canhões de Navarone (um excelente blogue que agora mesmo, e por mero acaso, descobri).


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Prioridades

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O artigo do The New York Times mais lido no passado mês de Fevereiro foi "White House Knew of Levee's Failure on Night of Storm" de Eric Lipton, que desenvolveu as possíveis negligências do estado face à tragédia de Nova Orleães. O segundo artigo mais lido no mesmo período obedeceu a idêntica ligação entre as lógicas do poder e o controlo do acidental. Este segundo artigo, publicado a 14 de Fevereiro, "Fellow Hunter Shot by Cheney Suffers Setback" da autoria de Elisabeth Bumiller e Anne E. Kornblut, dá conta do que aconteceu ao advogado Harry M. Whittington. Primeiro foi alvejado por Dick Cheney num acidente de caça no Texas e, dois dias depois, foi vítima de um ataque de coração (sem consequências de maior).
O tema, insidioso e naturalmente aberto a todo o tipo de especulações, tornou-se de imediato numa espécie de clímax de curiosidade. Confrontado com o assunto em conferência de imprensa, o porta-voz do presidente reagiu mal à desmedida insistência dos jornalistas e concluiu com algum embaraço: "If you want to continue to spend time on that, that's fine", mas agora "We're moving on to the priorities of the American people".
As prioridades que motivam o interesse público são muitas vezes indescortináveis e nem sempre se confundem com o desígnio que os média ocupam (os média têm sempre - já não dia a dia, mas momento a momento - um espaço em branco por preencher e por tematizar). No entanto, o olhar do grande público tem a tendência a centrar-se quase sempre no mistério que se intromete entre a ordem do acontecimento (e do acidente) e a esfera dos poderes (esse palco evoluiu nos últimos séculos da imagem do Trono Celeste para os reposteiros das Casas Brancas). Há cinco séculos, a palavra latina "curiositas" retinha ainda significados com origem em fontes patrísticas, quer de S.Agostinho, quer de Cassiano. E. Peters situou-os no campo da “indagação intelectual interdita e dos vícios como a incúria ou o excessivo interesse pelos negócios alheios”. Hoje, a curiosidade já não é aparentemente sinónimo de heresia ou de apostasia. Contudo, o actual e permanente jogo dos briefings políticos, as estatísticas mensais de leitura e o próprio modo como os média derivam dia a dia de foco de interesse acabam por reflectir uma certa permanência de coisas muito antigas.
As pessoas adoram o insondável, o mistério, ou tão-só o que se mostra e oculta ao mesmo tempo. Já o médico hipocrático passava facilmente do visível ao invisível, na medida em que aquilo que "escapava à visão dos olhos era apanhado pela visão do espírito" e aquilo que "era invisível para o olho" era "visível para a razão". Encenações, cenas de caça, inundações, irritações ou interdições, tanto faz: uma permanência ou um poço sem fundo. Hoje em dia, a mitologia do "tempo real" sugere-nos que tudo está à nossa vista a todo o momento, como se não existissem "prioridades". Nada mais falso. Essa simulação global diz-nos antes de mais que as cenas de tiro da corte e os serões de província são uma coisa e a imagem que fabrica a própria simulação é uma outra coisa bem diferente. De outro modo, por que razão o artigo de Kornblut e Bumiller teria sido tão invulgarmente desejado?


quinta-feira, 2 de Março de 2006

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Saudade

A
A minha avó Carolina morreu há 26 anos. Vivi com ela nos últimos oito da sua vida. E nada cabe nas palavras que pudesse traduzir essa memória. Há coisas que empalidecem o tempo, outras que o rarefazem. Parece que foi hoje, estávamos talvez na Nazaré e ela dizia quase sem falar a forma que essas coisas têm.


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O outro lado da neurose

Em crónica do último The Spectator, Brian O´Neill faz eco de uns cartazes que apareceram recentemente nos urinóis londrinos. Colocados de forma estratégica, como acontece em todas as guerras, afirmam de modo ostensivo e ameaçador: "No one knows you´re a wife-beater", mas, se for o caso, "We will track you down and punish you".
No final Brian O´Neill conclui com algum bom senso, não lhe caia um menir ou um totem na cabeça: "These posters show us as volatile, stupid, thoughtless and diseased; women are warned to be wary of men, men to be wary of the police, and all of us to be wary of drinking one too many".
Tem toda a razão.
O apetite pelo excesso de regulação, de controlo e de ameaça é o outro lado da impotência do Ocidente face ao que sempre foi a sua matriz: a liberdade.
No reverso da triste política de culpabilização e compromisso (no caso das caricaturas), este agigantar do estado face ao politicamente correcto, face à expressão livre dos média (a lei Santos Silva fala por si) e face à suspeição generalizada evidencia claros sintomas de desistência e até de neurose.
A polis pós-09/11 revela-se dia a dia. A procissão ainda vai no adro. O problema é que meio mundo não quer ver esta realidade.


quarta-feira, 1 de Março de 2006

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Insígnias da nação

Mais trinta e três medalhas foram hoje atribuídas. Os condecorados ficam muito contentes e passam depois horas e horas a falar do tema. É o estímulo da República. O Ulisses também quer.


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Dois anos!

Muitos parabéns aos blasfemos. Pois é: "A blasfémia é a melhor defesa contra o estado geral de bovinidade".


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Dir-te-ei quem morde

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Esta é a imagem utilizada pelo Diário de Notícias de hoje (edição on-line), para acompanhar a seguinte notícia: "A Alemanha confirmou ontem o primeiro caso de gripe aviária em gatos. O animal, infectado com o H5N1, foi encontrado morto perto da baía de Wittow, na ilha de Ruegen, onde está a maioria das 129 aves selvagens contaminadas com a doença, no país."
Eu bem sei que a Quarta-feira de cinzas ainda é Carnaval. E mesmo que não fosse, os olhos do bichano mereceriam sempre alguma visibilidade. Mas há qualquer coisa a mais ou a menos neste pacto entre texto e imagem, ou não há?
Talvez apenas a paródia da voracidade. Talvez apenas o inesperado casamento entre a memória da Transilvânia e a chacota da catástrofe. Talvez apenas o delírio da doçura e o escárnio sob a forma de duas esmeraldas encantatórias.


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Dir-te-ei quem és

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O noticiário das onze da manhã da TSF abriu com a seguinte notícia: “Israel acaba de assassinar o líder do braço armado da gihad islâmica”. Não é preciso ser muito engenhoso para compreender que existem inúmeras formas de tratar um mesmo facto. Por exemplo: “Na sequência de uma operação militar israelita, morreu hoje de manhã o líder do braço armado da gihad islâmica”. Imaginemos agora que os factos eram inversos: “A gihâd islâmica acaba de assassinar o general israelita Z” e “Na sequência de uma operação militar da gihad islâmica, morreu hoje de manhã o general israelita Z”.
Seja como for, estas simetrias laboratoriais deixariam de ter qualquer razão de ser, no momento em que o editor de notícias da TSF decidisse tratar as coisas pelos seus nomes (a lendária “objectividade”). Ou não é o braço armado da gihad islâmica uma organização terrorista? Há quem pense que não, como se vê. Melhor ainda: há quem prefira fazer passar a ideia muito clara de que Israel é um país homicida. Registe-se o facto.
É assim que muitas vezes se faz opinião. Entre o mar encapelado das notícias.