terça-feira, 4 de abril de 2006

A fama

Amanhã, inicia-se no Abrupto a pré-publicação do próximo livro de Agustina Bessa-Luís, Fama e Segredo. Não é um facto inédito, mas é interessante enquanto sintoma da pressão que o mundo on-line - e particularmente os blogues - está a exercer sobre a realidade off-line (ver post de baixo sobre os aspectos polémicos destas mútuas pressões).

Liberdade, direitos e rede

e
Que tipo de queixosos poderá denunciar à polícia judiciária os downloads de músicas? Imagino que deverão ser seres ínfimos, ubíquos e imateriais que penetram na cabeça dos dedos de milhões de cibernautas ao mesmo tempo. Não ponho em causa os direitos de autor – também vivo deles! -, mas se a realidade da rede é a de um interface aberto de conteúdos que está a alterar profundamente alguns esquematismos tradicionais (por exemplo, as relações fixas entre emissor/auditório, público/privado, verdade/sentido ou ficção/real), é também normal que a própria concepção de direitos de autor se tenha que ajustar, a pouco e pouco, a essa realidade. E não o contrário. Aliás, há bastantes casos em que a rede acaba por servir de espaço de promoção para a posterior edição tradicional em CD. Nestes casos, quem seria penalizado? Os editores? Os músicos? E no caso dos textos literários ou ensaísticos – onde a questão se põe de modo homológico - quem é que a fúria penalizadora perseguiria? Já estou a imaginar que, qualquer dia, as SPAs (que não conseguem compreender as céleres mudanças da actualidade) vão começar a propor a existência de “Entidades Reguladoras” orwellianas para tentar resolver o problema. A defesa da liberdade é coisa que acontece cada vez mais em caminhos ínvios. Apesar da evidência luminosa dos direitos de autor.

"Complexity and Color"

e
No Senado, a paz parece luzir sobre Roma. Mas o fogo e a “faca sem lâmina” andam no ar. Uma brancura lívida que se espelha nas togas e que acolhe subterfúgios, hinos e traições no amplo anfiteatro de pedra. Neste circo de conversos, César é finalmente declarado imperador ("Let this be an end to division and civil strife"). Seguir-se-ão cinco dias de festas, banquetes e beberetes. Além do triunfo que inclui a imolação do rei gaulês (um Frank Zappa já sem voz).
Enquanto a volátil Átia visita Servília (feras imobilizadas pelo mel), Octaviano dirige o ritual que prepara a grandeza do desfile triunfal: um sacrifício que doa ao rosto de César a mancha de sangue que o liga, ao mesmo tempo, à intimidade de Marte e à intemporalidade. Segue-se a imolação, o colorido da massa e a festa. A devoração, evocação e a carne. Noutros palcos, as clivagens avivam-se: Pulo e Voreno de um lado, Servília, Quintus e Brutus do outro.
Como vêem, mantenho a tendência fugaz e elíptica. Há um crescente resguardo nas palavras à medida que a densidade das imagens faz mundo (mesmo assim, espero corresponder às legítimas exigências do Rui e do Zé Mário). Afinal de contas, esta Roma é como o Guadiana de Pulo do Lobo: faz da lenta erosão o fulgor das suas águas.

Acção!

e
Romance de acção? Ora leia-se a sinopse do livro de que hoje Jacques Steinberg faz eco no The New York Times (Between the Bridge and the River de Craig Ferguson). O romance não faz por menos: envolve na mesma teia Sócrates, Sinatra, mulheres fatais homicidas, Larry King, Carl Jung, evangelistas televisivos, etc.
E
“Its main characters include two old friends from Scotland, one of them a television evangelist whose program is derailed by a sex scandal; a femme fatale who has killed off six husbands; and a pair of half brothers sired by Frank Sinatra and Peter Lawford in their Rat Pack days. ("Ring-a-ding-ding," Mr. Ferguson writes, appropriating one of Sinatra's signature lines). Among the other figures who make cameos, as Mr. Ferguson sends up Las Vegas and Hollywood, to say nothing of Christianity, Scientology, television news and the escort industry, are Carl Jung (wearing a Cossack's uniform in one dream sequence), Larry King and Socrates.”

segunda-feira, 3 de abril de 2006

Fotogenias desguarnecidas

e
Já pode ver aqui (basta carregar no nome) o Miniscente a falar para a emissão televisiva da Universidade Aberta desta semana (Entre Nós). Noutro formato mais doméstico, bastará abrir a televisão no Canal 2, na próxima quinta-feira às 16 horas.

Semblante sério, orelhas navegantes

e
Há uma terra de ninguém, às vezes movediça, entre levar a sério ou cair na tentação de abraçar a coisa como se ela e o risível tivessem o mesmo e insuspeito rosto. Às vezes, olho-o, ausculto-lhe a expressão e pressinto a maresia. Ou há naufrágio, ou andam promissoras musas à solta. É disso que é feita a história.

Ganda Bomba!

Nunca é tarde para agradecer à Carla por viver neste céu, ela que é um dos cometas que mais e melhor brilha ao fim de três anos de redenção diária. E é vê-la sempre remar em variadas marés: divertidas, domésticas, densas, proustianas, mitológicas ou madrugadoras ("eu hoje acordei assim" já há muito que se tornou num incipit fulgurante do início do dia blogosférico). Parabéns Charlotte!

A súbita imobilidade

Estar sem rede desde sábado à noite é qualquer coisa equivalente a um estado de coma comunicacional. O cenário dos blogues anda perto de um estar-já-aí instantâneo, no labirinto onde a intensidade e o prazer da expressão se cruzam: entre palavras, tempestades, ecos, urgências e, por vezes, frases. Sair deste comboio, que tem várias frentes e que navega sobre diversas linhas, é ficar imobilizado a olhar a névoa de uma ausência mais ou menos provocada. Porquê, ó deuses? Seja como for, estou de volta.

sábado, 1 de abril de 2006

A "nota social" de 1 Abril

e
Eis como JPP, repetindo duas vezes o adjectivo "interessante", revê num post de reportagem de Eduardo Pitta o que designa por "nota social":
e
"Numa sala a abarrotar, encontrei Isabel Coutinho, editora do Mil Folhas, Carla Hilário de Almeida Quevedo, do Bomba Inteligente, Gustavo Rubim, João Pereira Coutinho, Isabel Goulão, do Miss Pearls, Miguel Real, Luís Carmelo, do Miniscente, João Rodrigues, editor da Dom Quixote, Ana Madureira, do gabinete da ministra da Cultura, Maria do Rosário Pedreira e Ana Pereirinha, respectivamente editora e editora-adjunta da QuidNovi, o jornalista Rui Lagartinho (facção pró-Margarida), Ana Cláudia Vicente, do Quatro Caminhos, e se me esqueço de alguém é sem intenção. O Francisco, a Anick e o Ricardo, como sempre, anfitriões atentos. O vinho não sei se era bom, não provei."
e
De facto, a Casa Fernando Pessoa tem tido assistências a "abarrotar", mesmo quando os factos em debate não são tão gritantes. Creio que era isso sobretudo o que estava em causa na nota de Eduardo Pitta e não tanto o lado "Caras", enigmaticamente convocado pelo patrono do Abrupto. Haja liberdade nas fantasias!

Kama Sutra

Na Revista que hoje acompanha o DN, o Pedro tem uma crónica deliciosa sobre a Incrível Almadense (sem links).