terça-feira, 14 de março de 2006

"Complexity and color"

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Voreno era muito claro: "This is where we die". Da estranha ilha onde chegam após o naufrágio, Pulo e Voreno voltam a partir numa jangada feita de cadáveres de soldados da famosa 13ª Legião para depois aportarem quase junto à tenda do foragido Pompeu.
O mundo é pequeno: milagres do Mare Nostrum.
Saber-se-á mais tarde que a misericórdia de César tem o dom da exclusividade e, por ignorar esse facto, o grande seguidor dos princípios morais, Voreno, quase vê ameaçada a própria vida, no momento em que iliba Pompeu do seu destino mais do que inevitável. Perto de Alexandria, em plena praia, à vista da mulher e dos filhos, os planetas acabariam por cumprir-se e sem qualquer piedade.
No lado norte do Mediterrâneo, em Roma, o exímio relator – a CNN de então - enuncia permanentemente o enredo em curso, mas a reviravolta é iminente. Servilia e Octavia trocam por isso mesmo de papéis e acabam, a certa altura, por ver bem juntinhas o animado “Brokeback Mountain”, entre lágrimas, compaixão, desesperança e os – presume-se - destemidos arrepios de Átia.
Octaviano, o distinto ausente-presente, aguarda na Academia a sua entrada na história com maiúscula (não sei se a série chegará tão longe). Por agora, César decidiu partir para o Egipto. E não deveremos esperar muito até que o regresso a Roma se torne numa das raras apoteoses da memória do Ocidente.
O campo de batalha na Grécia foi - para já - a separação das águas, seguir-se-á a separação dos céus.

Os abismos do Ocidente

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O meu amigo Alberto Magalhães enviou-me a sua crónica que vai para o ar na Rádio Diana hoje mesmo. Trata-se de um texto no mínimo bastante oportuno. Passo a publicá-lo (quando é que fazes um blogue e te deixas de preguiças, Alberto?):
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"O senhor Abdul Jabar Al-Kubasy é o fundador e líder da Aliança Patriótica Iraquiana, formada por antigos elementos do partido Baas (o de Saddam Hussein, sim senhor), de outros partidos pan-arábicos e de diversos outros grupos. A Aliança Patriótica foi fundada em 1992, depois da primeira guerra do Golfo e organizou uma campanha contra o embargo da ONU aos produtos iraquianos.
O senhor Abdul Jabar deixou o Iraque em 1976 e regressou em 2003, tendo estado prisioneiro das forças americanas até ao Natal de 2005. Afirma que a resistência no Iraque contra as forças estrangeiras não vai parar. Afirma que se orgulham de estar na linha da frente dessa luta. Que são fortes com os apoios que recebem. Acusa ainda os americanos de tudo fazerem para criar uma guerra civil entre sunitas e xiitas.
Tudo isto disse no sábado, na Casa do Alentejo, em Lisboa, o senhor Abdul Jabar, a convite de “54 organizações ligadas à esquerda”, como as descreve o jornal Público adiantando: “No fim do discurso as cerca de cento e cinquenta pessoas que o ouviam, aplaudiram de pé e com gritos de: “O Iraque vencerá”. Portanto, pelas minhas contas, uma média de presenças por organização inferior a três pessoas, nesta iniciativa tão significativa que ocupa meia página do matutino.
Das 54 organizações presentes, o jornal destaca uma coisa chamada Tribunal Mundial sobre o Iraque, representada por um tal Manuel Barroso, o Bloco de Esquerda, o Partido Comunista Português e alguns dos seus satélites habituais, a saber: o Conselho para a Paz e a Cooperação, representado por Domingos Lopes, o Partido Ecologista os Verdes, o Movimento Democrático das Mulheres, a CGTP-Intersindical e, ainda, a Associação 25 de Abril.
A iniciativa chamou-se “três anos de ocupação, três anos de resistência”. Para que conste, quando se vêem as imagens de destruição e morte provocadas por bombistas, suicidas ou não, contra os homens, mulheres e crianças do Iraque, estamos agora autorizados a pensar nas “54 organizações ligadas à esquerda” que apoiam a Aliança Patriótica Iraquiana, que se vangloria de estar na linha da frente dessa luta."

segunda-feira, 13 de março de 2006

A grande gargalhada

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Há qualquer coisa de comum entre Mário Soares a sair da Assembleia da República no dia da tomada de posse de Cavaco e a fúria com que Silvio Berlusconi abandonou uma entrevista que estava a dar à RAI. Assim como há qualquer coisa de comum entre o “Portugal dos Pequeninos” de Salazar e o “Mundo dos Pequeninos” dos arredores de Pequim (espaço representado no recente filme “O Mundo” de Jia Zhang-ke).
Antecipamo-nos em muitas coisas, é verdade.
No primeiro caso, cada um dos figurões parece exceder e até transcender o que os rodeia (embora o caso concreto de cada um não se possa confundir com um mesmo horizonte: justiça seja feita). No segundo caso, é como se fôssemos invadidos por uma espécie de representação própria, abandonada a si mesma, tão terna quanto recheada de onanismo estético e político. Os chineses já se deram ao trabalho de alargar a nostálgica escala coimbrã para a dimensão do “orgulhosamente sós” global.
No fundo, as ilusões comandam o devir e o generalizado jogo de imagens que gostaria de nos processar.
Houve ainda uma outra prova desse facto neste fim-de-semana: a morte de Milosevic foi a quase morte de um tipo de justiça que os eufóricos nineties julgaram possível. Afinal, começa a desconfiar-se de tão fantasmático quanto enigmático bluff.

domingo, 12 de março de 2006

A justiça e as afeições da alma

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Bem sei que o princípio da causalidade é um princípio eminentemente básico. Mas a verdade é que, depois de lida a última página (do caderno principal) do Expresso desta semana - sem links - e a inesperada “Despedida” do Espectro (assinada por “VPV” e “CCS”), nada parece querer fazer desmobilizar a pertinência de tal princípio. Nesta altura triste, ficaria bem alinhar aqui uma ou duas citações de Dostoievski para explicar o afectado balancear da sensibilidade de Clara Ferreira Alves. Sendo certo que as mesmas não bastariam para explicar a “pena” com que se assinala e partilha o lamentável fim do Espectro (de que irei realmente sentir a falta). A força que a sensibilidade pode ter neste nosso incauto mundo! Pela minha parte, já tinha pensado muitas vezes que existem coisas bem piores do que lavar a louça.

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Anexo:

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Este é o texto de “VPV" que terá causado algum mau tempo no canal, ou seja, um recurso à justiça por parte de C.F.A. (post de há uma semana):
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“A hipotética "dra." Clara Ferreira Alves (chegou com dificuldade ao actual 12º ano), crítica literária que leu (jura ela) "os clássicos", especialista do último escritor inglês com quem almoçou, autora de um romance anunciado em 1984 e nunca até agora publicado, dona de uma coluna ilegível (e bem escondida) na "revista" do Expresso, foi um dia arvorada directora da "Casa-Museu Fernando Pessoa" pela conhecida irresponsabilidade de Pedro Santana Lopes, de quem ela tinha sido uma entusiástica partidária. Daí em diante, a importantíssima Ferreira Alves e o "Pedro", como ela dizia, ficaram muito amigos. Tão amigos que a "dra." Clara apareceu um dia presuntiva directora do "Diário de Notícias", coisa que me levou a sair antes que ela entrasse. Felizmente, não entrou, porque teve medo de cair na rua entre o "Expresso" e o DN, com a reputação de uma "santanete" obediente. Agora, morto o seu patrono, não perde uma para o maltratar, supondo que demonstra "independência". Ontem, a propósito de um "Audi", que o homem comprou, despejou em cima da cabeça dele todo o lixo do mundo. Santana não aprendeu que a certa espécie de pessoas não se fazem favores.Se a "dra." Clara me quiser responder, sugiro que me responda em inglês e não meta na conversa a sua célebre descrição do pôr-do-sol no Cairo. Muito obrigado.”

Como é que se usa a contemplação?

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Sento-me, olho em frente e pergunto ao adormecido coração do Domingo: o que fazer a este tempo imobilizado? O que fazer a estas formas extraordinárias (a curvatura dos muros, a brancura da ameixoeira, o brilho da relva), o que fazer a este sopro vital às vezes sem qualidades? O problema é apenas ter que perguntá-lo. Socorro-me do mais nobre nome que provavelmente o MEC-2006 citaria para fazer rimar “Uíge” com “sanduíche” e Peniche com parvoíce: Wittgenstein. O uso das coisas é, no fundo, o que elas significam. Assim sendo, está-se sempre aquém do sagrado e sempre para além da tentação artificiosa de rimar coisa com coisa. O tempo permanecerá, a axeixoeira manter-se-á e o tal sopro vital continuará. Indiferenciadamente. Nesse caso, mais vale levantar-me e ir fazer café. Foi o que fiz: é óptimo e veio directamente do Brasil.

sábado, 11 de março de 2006

Quase Primavera

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Chegar, olhar e ver a ameixoeira do pátio carregadinha de flores brancas. Numa semana, o mundo pode de facto transformar-se numa galáxia. Camilo Pessanha, falecido há oitenta anos e dez dias, deverá andar por perto.

sexta-feira, 10 de março de 2006

"Acontece a qualquer um"

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“Efetue saques no cartão de crédito e pague em até 24 vezes.”
(Banco Santander: sítio português)
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"Chegou o novo Guia Repsol Portugal 2004-2005" (...) "Antes de empreender a viajem, terá acesso a todos os detalhes..."
(Repsol: sítio português)
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"Mensalmente receberá a informação das suas compras que serão debitadas na sua conta bancária, segundo a modalidade de pagamento escolhida, no último dia do mês seguinte aquele em que realizou as suas compras."
(El Corte Inglés: sítio português)
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Dados ao ar

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No sorteio dos oitavos de final, os comentadores disseram: "Não podia ter saído pior ao Benfica". No sorteio dos quartos de final, os comentadores disseram: Não podia ter saído pior ao Benfica". A resolução deste tipo de silogismos, já nas meias finais, terá o nome de Lyon ou de Milan. Nada mau. Depois, Paris, goste-se ou não, é sempre a Cidade Luz. O que estava eu a dizer?
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Benfica- Barcelona (1961): lembram-se?

Chama-lhe um Vico

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Se alguém se der ao trabalho de comparar pacientemente estas regras com estas, chegará a conclusões interessantes acerca da blogosfera. Sobretudo numa fase em que ela já começa a falar (mais ou menos três anos de idade). Haverá, algum dia, uma idade adulta na blogosfera (qualquer coisa do género de uma Idade da Razão à Giambattista Vico)?

quinta-feira, 9 de março de 2006

A bola de neve do 8 de Março

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Nos comentários ao post de ontem, "O Gender e o Abismo", o leitor "amfm " descobriu que o Ma-Schamba era um blogue feito e escrito no feminino. Em dia de celebração tudo se compreende. O JPT já evocou o facto (ainda por cima em pleno 8 de Março!).
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P.S: Já que falamos em comentários, vale a pena ir ao Espectro ler a sucessão de 187 comentários a um texto de Constanha Cunha e Sá sobre Paulo Portas ("Direita"). É o desvario. Já agora, reatando as questões delicadas do "gender", eis um bom exemplo de um blogue (refiro-me ao Espectro pré-V.P.V.) que não parece ter nunca caído nas malhas identitárias da enunciação no feminino. Ou estarei enganado, tal como o comentador "amfm" que fez do JPT um travesti involuntário?