domingo, 5 de março de 2006

Poema para o Amador e para a Amadora


Tríptico

«Transforma-se o amador na coisa amada», com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas

Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
É o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.

Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.
E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo e do amor.e
e
(Herberto Helder)
e
P.S. - Neste primeiro Domingo de Março, não posso também deixar de endereçar a minha vénia ao grande mestre Gil Vicente, porque tudo o que é Nacional é bom. Afinal, a bola é redonda e a poesia nem tanto.

sexta-feira, 3 de março de 2006

Sobre Renard e Pepys...

O meu amigo - há anos e anos que não nos vemos - J. Rentes de Carvalho no Canhões de Navarone (um excelente blogue que agora mesmo, e por mero acaso, descobri).

Prioridades

e
O artigo do The New York Times mais lido no passado mês de Fevereiro foi "White House Knew of Levee's Failure on Night of Storm" de Eric Lipton, que desenvolveu as possíveis negligências do estado face à tragédia de Nova Orleães. O segundo artigo mais lido no mesmo período obedeceu a idêntica ligação entre as lógicas do poder e o controlo do acidental. Este segundo artigo, publicado a 14 de Fevereiro, "Fellow Hunter Shot by Cheney Suffers Setback" da autoria de Elisabeth Bumiller e Anne E. Kornblut, dá conta do que aconteceu ao advogado Harry M. Whittington. Primeiro foi alvejado por Dick Cheney num acidente de caça no Texas e, dois dias depois, foi vítima de um ataque de coração (sem consequências de maior).
O tema, insidioso e naturalmente aberto a todo o tipo de especulações, tornou-se de imediato numa espécie de clímax de curiosidade. Confrontado com o assunto em conferência de imprensa, o porta-voz do presidente reagiu mal à desmedida insistência dos jornalistas e concluiu com algum embaraço: "If you want to continue to spend time on that, that's fine", mas agora "We're moving on to the priorities of the American people".
As prioridades que motivam o interesse público são muitas vezes indescortináveis e nem sempre se confundem com o desígnio que os média ocupam (os média têm sempre - já não dia a dia, mas momento a momento - um espaço em branco por preencher e por tematizar). No entanto, o olhar do grande público tem a tendência a centrar-se quase sempre no mistério que se intromete entre a ordem do acontecimento (e do acidente) e a esfera dos poderes (esse palco evoluiu nos últimos séculos da imagem do Trono Celeste para os reposteiros das Casas Brancas). Há cinco séculos, a palavra latina "curiositas" retinha ainda significados com origem em fontes patrísticas, quer de S.Agostinho, quer de Cassiano. E. Peters situou-os no campo da “indagação intelectual interdita e dos vícios como a incúria ou o excessivo interesse pelos negócios alheios”. Hoje, a curiosidade já não é aparentemente sinónimo de heresia ou de apostasia. Contudo, o actual e permanente jogo dos briefings políticos, as estatísticas mensais de leitura e o próprio modo como os média derivam dia a dia de foco de interesse acabam por reflectir uma certa permanência de coisas muito antigas.
As pessoas adoram o insondável, o mistério, ou tão-só o que se mostra e oculta ao mesmo tempo. Já o médico hipocrático passava facilmente do visível ao invisível, na medida em que aquilo que "escapava à visão dos olhos era apanhado pela visão do espírito" e aquilo que "era invisível para o olho" era "visível para a razão". Encenações, cenas de caça, inundações, irritações ou interdições, tanto faz: uma permanência ou um poço sem fundo. Hoje em dia, a mitologia do "tempo real" sugere-nos que tudo está à nossa vista a todo o momento, como se não existissem "prioridades". Nada mais falso. Essa simulação global diz-nos antes de mais que as cenas de tiro da corte e os serões de província são uma coisa e a imagem que fabrica a própria simulação é uma outra coisa bem diferente. De outro modo, por que razão o artigo de Kornblut e Bumiller teria sido tão invulgarmente desejado?

quinta-feira, 2 de março de 2006

Saudade

A
A minha avó Carolina morreu há 26 anos. Vivi com ela nos últimos oito da sua vida. E nada cabe nas palavras que pudesse traduzir essa memória. Há coisas que empalidecem o tempo, outras que o rarefazem. Parece que foi hoje, estávamos talvez na Nazaré e ela dizia quase sem falar a forma que essas coisas têm.

O outro lado da neurose

Em crónica do último The Spectator, Brian O´Neill faz eco de uns cartazes que apareceram recentemente nos urinóis londrinos. Colocados de forma estratégica, como acontece em todas as guerras, afirmam de modo ostensivo e ameaçador: "No one knows you´re a wife-beater", mas, se for o caso, "We will track you down and punish you".
No final Brian O´Neill conclui com algum bom senso, não lhe caia um menir ou um totem na cabeça: "These posters show us as volatile, stupid, thoughtless and diseased; women are warned to be wary of men, men to be wary of the police, and all of us to be wary of drinking one too many".
Tem toda a razão.
O apetite pelo excesso de regulação, de controlo e de ameaça é o outro lado da impotência do Ocidente face ao que sempre foi a sua matriz: a liberdade.
No reverso da triste política de culpabilização e compromisso (no caso das caricaturas), este agigantar do estado face ao politicamente correcto, face à expressão livre dos média (a lei Santos Silva fala por si) e face à suspeição generalizada evidencia claros sintomas de desistência e até de neurose.
A polis pós-09/11 revela-se dia a dia. A procissão ainda vai no adro. O problema é que meio mundo não quer ver esta realidade.

quarta-feira, 1 de março de 2006

Insígnias da nação

Mais trinta e três medalhas foram hoje atribuídas. Os condecorados ficam muito contentes e passam depois horas e horas a falar do tema. É o estímulo da República. O Ulisses também quer.

Dois anos!

Muitos parabéns aos blasfemos. Pois é: "A blasfémia é a melhor defesa contra o estado geral de bovinidade".

Dir-te-ei quem morde

e
Esta é a imagem utilizada pelo Diário de Notícias de hoje (edição on-line), para acompanhar a seguinte notícia: "A Alemanha confirmou ontem o primeiro caso de gripe aviária em gatos. O animal, infectado com o H5N1, foi encontrado morto perto da baía de Wittow, na ilha de Ruegen, onde está a maioria das 129 aves selvagens contaminadas com a doença, no país."
Eu bem sei que a Quarta-feira de cinzas ainda é Carnaval. E mesmo que não fosse, os olhos do bichano mereceriam sempre alguma visibilidade. Mas há qualquer coisa a mais ou a menos neste pacto entre texto e imagem, ou não há?
Talvez apenas a paródia da voracidade. Talvez apenas o inesperado casamento entre a memória da Transilvânia e a chacota da catástrofe. Talvez apenas o delírio da doçura e o escárnio sob a forma de duas esmeraldas encantatórias.

Dir-te-ei quem és

e
O noticiário das onze da manhã da TSF abriu com a seguinte notícia: “Israel acaba de assassinar o líder do braço armado da gihad islâmica”. Não é preciso ser muito engenhoso para compreender que existem inúmeras formas de tratar um mesmo facto. Por exemplo: “Na sequência de uma operação militar israelita, morreu hoje de manhã o líder do braço armado da gihad islâmica”. Imaginemos agora que os factos eram inversos: “A gihâd islâmica acaba de assassinar o general israelita Z” e “Na sequência de uma operação militar da gihad islâmica, morreu hoje de manhã o general israelita Z”.
Seja como for, estas simetrias laboratoriais deixariam de ter qualquer razão de ser, no momento em que o editor de notícias da TSF decidisse tratar as coisas pelos seus nomes (a lendária “objectividade”). Ou não é o braço armado da gihad islâmica uma organização terrorista? Há quem pense que não, como se vê. Melhor ainda: há quem prefira fazer passar a ideia muito clara de que Israel é um país homicida. Registe-se o facto.
É assim que muitas vezes se faz opinião. Entre o mar encapelado das notícias.