segunda-feira, 6 de junho de 2005

Adquirido

Esta é a palavra do mês: "adquirido". Há alguma doce idiotice no fundo lodoso e corporativo da palavra. A vila alentejana de Olivença, o último ornitorrinco e a plumitiva memória do Diário Popular também eram adquiridos. Andaram durante milénios no mapa. E já lá vão. Não me queixo de nenhum, mas lá que é assim, é. Outro dia, o administrador de uma empresa para onde trabalho há quinze anos, telefonou-me e simpaticamente informou-me de que o meu salário seria reduzido em cerca de 70%. Pré-falência técnica. And so what? O meu sindicato chama-se Voltar à Carga. E aqui ando. Mobilidade, iniciativa, skills. Má nada.
A brancura

O calor exacerbado é o meu reino preferido. Adoro descer as cortinas do escritório e trabalhar, muito lentamente, sentindo a delonga, a imobilidade e a quietude de uma história antiga que desconheço. Sou felicíssimo a bordo dessa ignorância singular, que é a minha.
Cadafalsos

A demagogia põe sempre à frente de uma lei abjecta e abstracta o caso singular de alguém. É sabido que a delação tem profundas tradições no país. E o mais engraçado - sem ter graça nenhuma - é que a coisa pega e alastra como um incêndio entre eucaliptos agoniados pela seca.
Rostos bifrontes

Há quem funcione por fixações. Ou detestam Marcelo, ou defendem as espécies do Rio Mira, ou amam como mais nada a voz de Marco Paulo, ou sonham dia e noite com o Belenenses, ou vivem só para a pesca, ou reiteram - segundo a segundo - o seu ódio ao futebol. O mais curioso é que estas apetências são muito vivas entre quem não se acha nada esquemático.
Realmente

Quando um trabalho urgente me afasta temporariamente da blogosfera, mais forte se torna ainda a nitidez da palavra fidelidade.

sábado, 4 de junho de 2005

A arte da descrição no seu melhor
r

Alto e mui grave, vestido de azul e com um colarinho voltado sobre uma gravata escarlate, tinha bem a figura do carácter, e não se podia mirá-lo sem logo lhe ver, na ingénua arrogância, o quer que fosse do ser filtrado misteriosamente por uma estranha e aristocrática selecção. O tipo era seco, com uma ossatura poderosa, a pele de fêmea loira, rosada de bom sangue, a cabeça pequena e grega, com uma testa magnífica e feições redondas, onde os olhos amarelo-pardos de estátua, ligeiramente míopes, tinham a expressão profunda, rectilínea, longínqua, que a gente nota nas dos marítimos acostumados a interrogar o oceano por dilatadas extensões.”
r
(Retrato de Cesário Verde escrito por Fialho de Almeida provavelmente no ano de 1882, Revista Colóquio-Letras, nº93, Lisboa, F.C.B., 09/1986, p.15)

sexta-feira, 3 de junho de 2005

Sinais dos tempos da UE

O Ministro das Finanças da Holanda, o senhor Zalm, declarou ontem que "todas as desvantagens têm também a suas vantagens". E é por isso que a edição de hoje do Volkskrant esclarece tão nitidamente as intenções do governo Balkenende, ou seja: a partir de agora, a Holanda vai utilizar em Bruxelas o "Não" ao Tratado Constitucional para baixar drasticamente os montantes que se habituou a pagar à União Europeia, ao longo das últimas décadas.
Significativo, não é?
O novo Acácio: uma questão de verniz

António José Seguro não gosta dos aumentos do IVA. António José Seguro não gosta de abandonar a direcção da bancada parlamentar do seu partido. António José Seguro não gosta de outra coisa: desde os bancos da escola à JS e daí a funcionário permanente da coisa política. Mas há Antónios Josés Seguros em todos os partidos. Os do PC são cónegos mirrados, os do PSD são Antónios Josés Seguros tal e qual e os do PP são mais betinhos e encaracolados, mas tão Antónios Josés Seguros como o próprio. E há ainda os Antónios Josés Seguros do BE que são quatro ou cinco, sempre os mesmos, a atirar pedras ao ressentimento de quem vive em liberdade. Finalmente: quem é António José Seguro? Um novo Acácio sem Bordalo. Uma questão de verniz e nada mais.

quinta-feira, 2 de junho de 2005

A pausa do peão

O sol regressou e a delonga mantém-se. Passos lentos e breves. Ao fundo, a vista. A imensa vista. Como se fosse uma ânfora sem fundo onde pousar.

quarta-feira, 1 de junho de 2005

Quotidianos - 7

Que ninguém pense em promessa, quando a erva alimenta jarros selvagens e o cão a refresca de olhar desvairado.
A mim basta-me escrever em Junho, neste céu de trovoada a que escapa apenas a pele e a maré calada dos gladíolos quase em flor.