sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Pré-publicações - 13

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Ken Follett, A Ameaça, Presença, Lisboa.
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Pré-publicação:
"1:00
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Os dois homens, cansados, olharam para Antonia Gallo com os olhos carregados de ressentimento e hostilidade. Queriam ir para casa, mas ela não deixava. E sabiam que ela tinha razão, o que tornava as coisas ainda piores.
Estavam os três no departamento de pessoal da Oxenford Medical. Antonia, a quem toda a gente tratava por Toni, era directora das instalações, e a sua principal responsabilidade era a segurança. A Oxenford era uma pequena empresa farmacêutica — uma boutique, no jargão do mercado bolsista — que fazia investigação sobre vírus potencialmente fatais. A segurança era, por isso, de importância vital.
Toni tinha organizado um inventário de stocks e tinha descoberto que faltavam duas doses de um fármaco experimental. E isso já era suficientemente mau: o produto, um agente antiviral, era um segredo bem guardado, pelo que a sua fórmula tinha um valor incalculável. Podia ter sido roubado para ser vendido a uma empresa da concorrência. Mas havia uma outra possibilidade ainda mais assustadora, que estava a causar aquela expressão de ansiedade no rosto sardento de Toni e a desenhar-lhe aqueles círculos escuros por baixo dos olhos verdes: a de o produto ter sido roubado por um ladrão para uso pessoal. E só havia uma razão que podia levar alguém a fazer isso: ter sido infectado por um dos vírus letais utilizados nos laboratórios da Oxenford.
Os laboratórios estavam localizados num enorme edifício do século xix, que tinha sido construído na Escócia para servir de casa de férias a um milionário vitoriano. Tinha a alcunha de Kremlin por causa da vedação com duas fileiras de grades, arame farpado, guardas à paisana, e do sofisticado sistema de segurança electrónico. Porém, na realidade, parecia mais uma igreja, com arcos em ogiva, uma torre e uma fila de gárgulas a contornar o telhado.
O departamento de pessoal ficava num dos quartos mais grandiosos. Ainda tinha janelas góticas e lambrins de linho, mas agora com armários de arquivo onde outrora tinham existido guarda-fatos e secretárias com computadores e telefones onde dantes havia toucadores repletos de frascos de cristal e escovas de prata.
Toni e os dois homens estavam a telefonar, a contactar todas as pessoas com acesso ao laboratório de segurança máxima. Havia quatro níveis de biossegurança. No mais elevado, o BSN4, os cientistas, equipados com fatos espaciais, manuseavam vírus para os quais não havia vacina ou antídoto. Como era o local mais seguro do edifício, era aí que estavam guardadas as amostras do fármaco experimental.
Nem toda a gente tinha acesso ao BSN4. A formação em riscos biológicos era obrigatória, até mesmo para os funcionários do serviço de manutenção que iam mudar os filtros de ar ou reparar as autoclaves. Toni também tinha frequentado as sessões de formação para poder entrar no laboratório a fim de verificar o sistema de segurança.
Dos oitenta funcionários da empresa, só vinte e sete tinham esse nível de acesso. No entanto, muitos deles tinham partido para as férias de Natal. Já era terça-feira, e os três responsáveis continuavam infatigavelmente a tentar apanhá-los.
Toni acabara de ligar para um resort em Barbados, o Le Club Resort, e depois de muita insistência tinha conseguido convencer o subdirector a ir à procura de uma jovem técnica do laboratório chamada Jenny Crawford.
Enquanto esperava, Toni olhou para a sua imagem reflectida na janela. Considerando o adiantado da hora, estava a aguentar-se bem. O seu fato castanho-chocolate com riscas brancas mantinha o mesmo aspecto de fato de negócios, o cabelo espesso continuava bem arranjado, e o seu rosto não mostrava sinais de fadiga. O pai era espanhol, mas Toni tinha herdado a pele clara e o cabelo ruivo da mãe, que era escocesa. Era alta e elegante. Não estava nada mal para uma mulher de trinta e oito anos, pensou.
— Devem ser altas horas da noite aí! — disse Jenny, quando finalmente veio ao telefone.
— Descobrimos uma discrepância nos registos do BSN4 — explicou Toni.
Jenny estava um pouco embriagada.
— Já não é a primeira vez que acontece — disse, num tom despreocupado. — E nunca ninguém fez um drama por causa disso.
— Mas nessa altura eu ainda não trabalhava cá — retorquiu Toni com brusquidão. — Quando foi a última vez que acedeste ao BSN4?
— Terça-feira, acho eu. O computador não dá essa indicação?
Dava, de facto, mas Toni queria confirmar se a versão de Jenny coincidia com os registos do computador.
— E quando foi a última vez que acedeste ao cofre?
O cofre era um frigorífico seguro com o nível BSN4.
Jenny estava a ficar mal-humorada."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Guerra e Paz, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença e Vercial.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

A discussão de ontem na "Dois"

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Segui ontem a discussão no Clube de Jornalistas. O grande pecado destes debates – sobretudo quando são organizados no meio jornalístico – é a imediata colagem referencial dos media tradicionais à lógica expressiva que está a hoje a vingar na rede. Como se esta projecção do jornalismo sobre os actuais mecanismos de rede não constituísse em si uma rotunda falácia e pudesse, portanto, aceitar-se como ponto de partida para uma discussão eficaz.
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Neste tipo de diálogo, tende a esquecer-se que os códigos construídos em dois séculos para tutelar a actividade jornalística pouco ou nada têm que ver com a invenção de regras que hoje tentam ajustar os novíssimos e variados dispositivos da rede às linguagens que chegaram até aos nossos dias (e que foram, nos últimos cinco milénios, moldadas para finalidades ‘verticais’ – religando emissores inacessíveis e poderosos a auditórios passivos – e não para a súbita horizontalidade da rede).
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A fusão emissor/editor é, nesse contexto, um factor decisivo mas não único. O fundamental situa-se na natureza expressiva completamente nova que está a superar géneros milenarmente herdados, amalgamando-os e dando origem a novos tipos de comunicabilidade, de interacção e de reposição e efabulação do real. As “deontologias”, a natureza da “notícia” e da “informação” – dados que ‘fizeram academia’ no meio jornalístico dos últimos dois séculos – constituem entidades de outra galáxia (com excepção para as extensões online dos media tradicionais) quando confrontadas com o espaço comunicacional que as múltiplas expressões em rede estão a gerar e a problematizar na actualidade.
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Não me parece, pois, aconselhável esta assunção quase universal que acata a tradição do jornalismo como ponto de partida para discutir a força elocutória do universo hipertecnológico (é interessante como as próprias designações – é o caso da “Web 2” – também acabam por denotar a impaciência desse novíssimo e difícil ajuste entre a linguagem disponível e a lógica das novas interacções).
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Curiosamente, noto – neste tipo de debates – um certo azedume e até ressentimento por parte de alguns jornalistas (postura ontem tão bem encarnada pelo director adjunto do DN) face à nova realidade da rede, como se ela constituísse um subversão ou um desvirtuar de uma certa legitimação do poder (profissional, deontológico e social) e não uma autónoma e novíssima esfera da comunicação e da expressão globais (ainda à procura de si própria) de natureza completamente diferente.
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P.S. - 1 - Seria injusto omitir o óbvio: gostei da prestação do Paulo Querido e de Rogério Santos. Mas creio que João Morgado Fernandes devia ter sido confrontado - deste ou doutro modo - com o que acima desenvolvi.
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P.S. - 2 - E... devia ter lido esta avisada nota do Paulo, antes de ter exposto os meus humildes argumentos: "O programa não é recomendado aos bloggers portugueses, por causa das apoplexias, crises de fígado e corações susceptíveis, mas os leitores em geral podem acompanhar."

Mini-entrevistas/Série II – 103


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O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é “Mostrengo Adamastor”, jornalista (http://substrato.weblog.com.pt/)
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- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
Associo a palavra blogosfera ao conjunto dos blogues que costumo ler, aos bloggers que costumo hiper-ligar [linkar] e vice-versa e às pessoas que visitam e comentam os posts, (mesmo as que não publicam em blogue próprio). Essa interactividade, a actualização constante, a provocação e a reacção, distinguem os blogues dos outros meios, a blogosfera dos mass media.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Nunca segui nenhum assunto exclusivamente através de blogues. Acompanho as opiniões sobre os assuntos nos blogues que leio, mas também sigo a actualidade pelos meios de comunicação gerais, principalmente publicações on-line nacionais e estrangeiras.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Perdi algum tempo, mas ganhei amigos [e fama e fortuna].
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Acredito que alguns blogues o são, mas apenas os que são publicados sob pseudónimo(s) [não confundir com anonimato]. Temo que muitos bloggers se auto-censuram porque temem perder um amigo, sair de um determinado grupo de opinião, perder o emprego, etc.. Até porque já aconteceu mais que uma vez.
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Entrevistas anteriores (apenas a Série II): Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira, Leandro Gejfinbein, Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca, Tiago Mendes, Nuno Miguel Guedes, Miguel Vale de Almeida, Pedro Magalhães, Eduardo Nogueira Pinto, Teresa Castro (Tati), Rogério Santos, Lauro António, Isabela, Luis Mourão, bloggers do Escola de Lavores, Bernardo Pires de Lima, Pedro Fonseca, Luís Novaes Tito e Carlos Manuel Castro, João Aldeia, João Paulo Meneses, Américo de Sousa, Carlota, João Morgado Fernandes, José Pacheco Pereira, Pedro Sette Câmara, Rui Bebiano, António Balbino Caldeira, Madalena Palma, Carla Quevedo, Pedro Lomba, Luís Miguel Dias, Leonel Vicente, José Manuel Fonseca e Patrícia Gomes da Silva. Agenda para esta semana (15 a 20 de Janeiro): Carlos do Carmo Carapinha, Ricardo Gross, Maria do Rosário Fardilha, Mostrengo Adamastor, Sérgio Lavos e a Batukada

Pré-publicações - 12


Jeremy Nicholas, Chopin, Vida e Obra, Bizâncio, Lisboa.
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Pré-publicação:
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"Capítulo 1
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Da Quinta ao Palácio, 1810-1822
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Ninguém sabe ao certo em que data nasceu Fryderyk Franciszek Chopin. O ano não oferece dúvida: 1810. O local também é certo: uma casa rural térrea com paredes caiadas e chão de terra batida na propriedade do Conde Skarbek em Zelazowa Wola, pequena aldeia na margem do Rio Utrata, a cerca de trinta quilómetros para oeste de Varsóvia. O registo de baptismo na vizinha igreja de Brochow dá o nascimento como ocorrido em 22 de Fevereiro, mas, como frequentemente acontecia com tais registos, a data pode muito bem ser aquela em que foi participado o nascimento, muitas vezes semanas depois do acontecido. A incerteza surgiu porque a família de Chopin e o próprio compositor sempre afirmaram que ele tinha nascido no dia 1 de Março. Os estudiosos de Chopin inclinam-se para esta data, em detrimento da de 22 de Fevereiro, na proporção aproximada de dois para um, se bem que não existam provas concretas que corroborem nenhuma delas.
Chopin era franco-polaco de nascimento. O pai, Nicolas, tinha ido parar àquela propriedade agrícola por um caminho tortuoso e durante muito tempo houve incerteza quanto às suas exactas origens. Frederick Niecks, naquela que foi durante muitos anos a autoridade de referência sobre Chopin, afirmava que Nicolas Chopin tinha nascido em 1770 em Nancy, Lorena, e rejeitava as alegações de que ele fosse “filho natural de um nobre polaco que foi para a Lorena com o Rei Estanislau Leszcinski”. Hoje, porém, restam poucas dúvidas de que Nicolas Chopin nasceu no seio de uma família de camponeses, em 15 de Abril de 1771, em Marainville, aldeia da região dos Vosges, no nordeste de França. O jovem Nicolas despertou a atenção de um polaco, Jan Weydlich, administrador da propriedade agrícola de um nobre polaco, o Conde Michal Pac. É possível que a família Pac se tenha mudado para a região quando, em 1735, o Rei Estanislau recebeu o título de Duque da Lorena. Fosse como fosse, Nicholas Chopin conviveu com os polacos desde tenra idade e quando, em 1787, Weydlich resolveu voltar ao seu país de origem, Nicolas acompanhou-o, segundo alguns para fugir ao recrutamento para o exército francês. Nos cinco anos seguintes Nicolas trabalhou como empregado de escritório na fábrica de tabaco de Weydlich, em Varsóvia.
A cidade deve ter surpreendido pela sua grandiosidade o jovem camponês de França. Um tal Sr. Coxe, que visitou Varsóvia pouco antes de Nicolas Chopin lá ter chegado, deixou-nos as suas impressões:
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As ruas são espaçosas, mas mal calcetadas; as igrejas e os edifícios públicos são grandes e imponentes, os palácios da nobreza são numerosos e magníficos; mas na sua maioria as casas, em especial nos subúrbios, são choupanas de madeira, minúsculas e mal construídas.
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O que mais deve ter impressionado Nicolas Chopin terão sido as movimentadas ruas e praças de Varsóvia, animadas por uma mescla de polacos, lituanos, russos, alemães, moscovitas, judeus e wallachianos. J.E. Hitzig, biógrafo de E.T.A. Hoffmann que conhecia bem Varsóvia, pinta um retrato expressivo do local:
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As ruas de largura imponente, formadas por palácios ao melhor gosto italiano e por barracas de madeira que ameaçavam ruir a qualquer momento em cima das cabeças dos moradores… Judeus de longas barbas, e monges vestindo todo o tipo de hábito, freiras da mais rigorosa disciplina, completamente veladas e entrapadas, em meditação; e nas grandes praças bandos de jovens polacas com xailes de cores garridas, a conversar; veneráveis anciãos polacos de bigodes, cafetã, cinto, espada, e botas amarelas e vermelhas; e a nova geração vestida à mais inacreditável moda parisiense. Turcos, gregos, russos, italianos e franceses numa multidão em mutação constante; ainda por cima, uma polícia extremamente tolerante que não interferia minimamente com os divertimentos populares, pelo que pelas praças e ruas circulavam constantemente teatros de Polichinelo, ursos bailarinos, camelos e macacos, diante dos quais as mais elegantes carruagens e os moços de recados paravam a olhar embasbacados.
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Em 1792, a Polónia foi dividida entre a Rússia, a Prússia e a Áustria, o que levou ao encerramento da fábrica de tabaco. Mais uma vez o destino deu uma ajuda. Talvez Nicolas Chopin tivesse regressado a França em busca de trabalho se não tivesse adoecido. Quando se recompôs, já estava em marcha a insurreição de Março de 1794 – uma reacção à Segunda Partilha da Polónia. Alistou-se na Guarda Nacional de Varsóvia, chegando ao posto de capitão, mas foi ferido. Na sequência da derrota das forças polacas, seis meses depois, pela Rússia e pela Prússia, viu-se mais uma vez desempregado. Iria ser salvo pela sua língua materna. O francês era na altura a lingua franca da aristocracia e da sociedade culta, na Rússia e na Polónia. Era moda essas famílias terem um preceptor de língua francesa para os filhos, e em 1794 Nicolas Chopin teve a sorte de conseguir esse lugar junto da rica família Laczynski, nos arredores de Varsóvia. Aí estava pois um francês que, apesar de ter virado as costas à sua França natal, ganhava a vida a ensinar francês aos polacos. À semelhança de muitos outros imigrantes, Nicolas adoptou os hábitos, a cultura e a língua da sua nova pátria com maior fervor do que os cidadãos nativos, tornando-se mais pró-polaco do que os próprios polacos. Até mudou o nome, de Nicolas para Mikolaj. Cortados os últimos laços com a terra natal, viria mais tarde a manter os filhos na ignorância quanto à sua nacionalidade francesa e às suas origens humildes."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Guerra e Paz, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença e Vercial.

Pré-publicações - 11


Faïza Guène, A Noiva Assassina, Presença, Lisboa
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Pré-publicação:
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Nora sentia Connor a observá-la.
Ele fazia sempre a mesma coisa enquanto ela arranjava as malas para uma das suas viagens. Encostava o seu corpo de um metro e noventa de altura à ombreira da porta do quarto, as mãos enterradas nos bolsos dos seus calções Dockers, o rosto torcido numa carranca. Detestava a simples ideia de não estarem juntos.
Contudo, normalmente não dizia nada. Limitava-se a ficar ali, em silêncio, enquanto Nora ia enchendo a mala, parando de vez em quando para um gole de água Evian, a sua favorita. Mas, nessa tarde, Connor não conseguiu conter-se.
— Não vás — pediu, na sua voz grave.
Nora voltou-se para ele com um sorriso afectuoso.
— Sabes que tenho de ir. Sabes que também detesto isto.
— Mas já estou com saudades tuas. Diz que não, Nora; não vás. Manda-os para o diabo.
Nora deixara-se cativar desde o primeiro dia pela vulnerabilidade que Connor se permitia mostrar ao lado dela. Formava um contraste tão intenso com a sua imagem pública de duro e rico gestor de fundos de investimento aberto, com a sua própria companhia sediada em Greenwich e um escritório em Londres! Os seus olhos de cachorrinho desmentiam o facto de ter uma constituição de leão. Poderoso e orgulhoso.
Era verdade que, com a relativamente jovem idade de quarenta anos, Connor era essencialmente rei de tudo quanto o seu olhar abrangia. Encontrara em Nora, de trinta e três, a sua rainha, a companheira perfeita para a sua vida.
— Sabes, podia amarrar-te e impedir-te de partires — comentou ele, em tom de brincadeira.
— Isso parece divertido — retorquiu Nora, no mesmo tom. Levantou a tampa da mala, que jazia aberta sobre a cama. Procurava alguma coisa.
— Mas primeiro talvez pudesses ajudar-me a encontrar o meu casaco de malha verde?
Connor soltou uma gargalhadinha. Ela divertia-o tanto! Piadas boas ou más, não tinha importância.
— Referes-te ao que tem os botões de pérola? Está no guarda-fatos principal.
Nora riu:
— Andaste outra vez a vestir as minhas roupas, não foi?
Dirigiu-se para o cavernoso compartimento que servia de guarda‑fatos. Quando regressou, com uma camisola verde na mão, Connor deslocara-se até aos pés da cama. Brindou-a com um sorriso e um brilho travesso nos olhos.
— Ai, ai! — exclamou ela. — Conheço esse olhar.
— Que olhar? — inquiriu ele.
— O olhar que diz que queres um presente de despedida.
Nora reflectiu por um instante, antes de sorrir por sua vez. Deixou cair a camisola numa cadeira e avançou para Connor com passos lentos, detendo-se deliberadamente a poucos centímetros do corpo dele. Vestia apenas sutiã e cuecas.
— De mim para ti — sussurrou-lhe ao ouvido, encostando-se a ele.
O presente não vinha muito embrulhado, mas Connor nem por isso deixou de levar o seu tempo. Beijou suavemente o pescoço de Nora, depois os ombros, traçando com os lábios uma linha imaginária até às curvas dos seus seios, pequenos e empinados. Permaneceu aí um bocado, afagando-lhe o braço com uma mão, enquanto lhe desapertava o sutiã com a outra.
Nora estremeceu, com o corpo a vibrar. Engraçado, divertido e muito bom na cama. Que mais pode uma mulher desejar?
Connor ajoelhou-se e beijou a barriga dela, traçando círculos com a língua em torno do seu minúsculo umbigo. Depois, apoiando os polegares nas suas ancas, começou a puxar-lhe as cuecas para baixo. Acompanhava o percurso da peça de vestuário com beijo atrás de beijo.
— Isso… é… muito… bom — sussurrou Nora.
Era a vez dela. Quando o corpo alto e musculoso de Connor se endireitou à sua frente, começou a despi-lo. Com rapidez e destreza, mas sensualmente.
Permaneceram imóveis por alguns segundos. Completamente nus. Olhando um para o outro, absorvendo cada detalhe um do outro. Meu Deus, o que poderia ser melhor do que isto?
De súbito, Nora riu-se. Deu um rápido empurrão a Connor, que se deixou cair sobre a cama. Estava inteiramente excitado. Um prodigioso relógio de sol humano estendido sobre o edredão.
Nora estendeu o braço para a mala aberta e pegou num cinto Ferragamo preto, esticando-o entre as mãos.
O cinto estalou."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Guerra e Paz, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença e Vercial.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

Segredos de edição

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Olavo Aragão do Freelance dá conta de dez conselhos que Steve Outing dirigiu recentemente às chamadas pequenas publicações ("Small Newspapers"). Embora o que esteja causa seja um determinado leque dos media tradicionais, não deixa de ser relevante ler e interpretar esses conselhos ao sabor da comunicação em rede (nomeadamente os pontos 2, 3, 8, 9 e 10). Voltarei ao tema.

Mini-entrevistas/Série II – 102


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O Miniscente está a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje a convidada é Maria do Rosário Fardilha (http://divasecontrabaixos.blogspot.com/).
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1 – O que lhe diz a palavra “blogosfera”?
É um admirável mundo novo, mesmo se fica nos antípodas da fábula criada por Aldous Axley. É um mundo pouco organizado, onde impera a vontade livre individual, quase sem condicionamentos de estilo, forma ou conteúdo. Tem as suas castas, mas o sistema que as cria nada tem de científico. Se me ocorre esta associação, é apenas pela rapidez com que a inovação “blogosfera” se impôs.
Em 2004, quando me sugeriram que criasse um blogue, resisti. Acho que associava a blogosfera” a um ambiente frequentado por informáticos e adolescentes (alguns tardios). Nos jornais, teria lido qualquer boa referência à escrita de um ou outro blogger, mas mantinha a desconfiança. Criaram-me o blogue, ainda me lembro do email com as instruções, “blogger.com/start, por agora não mexas no template”, etc..
Talvez por causa dessa iniciação, persisto em olhar a blogosfera com um conjunto de indivíduos isolados, movidos pelas mais diversas motivações. Existem empresas, associações, embaixadas, várias entidades colectivas a gerir blogues, mas nas leituras que faço procuro sempre a “reason-why” do indivíduo. Cada um cria depois uma teia de relações virtuais, uma pequena “comunidade”. A blogosfera, hoje, é um conjunto infindável de pequenas comunidades e, quando passeio por lá, viaja comigo um sentimento de pertença ou de estranheza. Sei quando estou dentro da “minha” comunidade e quando entro em território desconhecido. Fascina-me, é claro, o visto Schengen comum que dá acesso a toda área. Nenhum outro meio permitirá maior e mais rápida liberdade de acesso e circulação.
A “blogosfera”, por permitir uma nova forma de expressão, massiva e mais livre; por oferecer entretenimento e informação à la carte tem ainda o mérito de ser uma das raras inovações de pendor tecnológico que não desumaniza. Ela serve de facto o Homem.
Penso nas motivações base que nos movem: hedónicas, oblativas e de projecção pessoal. Que outra actividade ou serviço é tão cabal na sua satisfação?
2 - Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Acho que nenhum. Os blogues têm servido sobretudo para me “avisar” da ocorrência de qualquer acontecimento e para perceber os diferentes estados de espírito ou sensibilidades que um mesmo acontecimento pode gerar.
3 - Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
O Divas & Contrabaixos aconteceu quando comecei a colaborar com um jornal regional. O blogue tem o nome da rubrica do jornal. Mas logo percebi que o jornal e o blogue tinham ritmos próprios. O D&C descolou-se da sua origem e passou a ser um espaço (para uma experiência) pessoal. Mas continuo a associar o blogue à minha inserção na cidade, Aveiro. Acabava de chegar e foi também através dele, ou por causa dele, que passei a viver com mais intensidade a cidade. Fotografei, pesquisei, conheci pessoas ligadas ao “fazer a cidade” e o blogue permitiu-me espalhar essa energia.
Com a minha entrada na blogosfera, descobri também “o zapping blogosférico”. É um entretenimento delicioso e que vicia. Nos primeiros tempos, era capaz de ficar horas em frente do computador, a navegar e a “blogar”; depois tornou-se um hábito mais moderado, mas ainda um hábito.
4 - Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Talvez alguns blogues tenham um editor-chefe na penumbra mas, por princípio, a blogosfera é editorialmente livre.
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Entrevistas anteriores (apenas a Série II): Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira, Leandro Gejfinbein, Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca, Tiago Mendes, Nuno Miguel Guedes, Miguel Vale de Almeida, Pedro Magalhães, Eduardo Nogueira Pinto, Teresa Castro (Tati), Rogério Santos, Lauro António, Isabela, Luis Mourão, bloggers do Escola de Lavores, Bernardo Pires de Lima, Pedro Fonseca, Luís Novaes Tito e Carlos Manuel Castro, João Aldeia, João Paulo Meneses, Américo de Sousa, Carlota, João Morgado Fernandes, José Pacheco Pereira, Pedro Sette Câmara, Rui Bebiano, António Balbino Caldeira, Madalena Palma, Carla Quevedo, Pedro Lomba, Luís Miguel Dias, Leonel Vicente, José Manuel Fonseca e Patrícia Gomes da Silva. Agenda para esta semana (15 a 20 de Janeiro): Carlos do Carmo Carapinha, Ricardo Gross, Maria do Rosário Fardilha, Mostrengo Adamastor, Sérgio Lavos e a Batukada.

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Travessias sem margens

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Quando se escreve um post, há qualquer coisa que nos diz que o texto parece correr para fora de si, excerto de excerto de um outro texto sempre maior que neste se pressente ou prefigura (indução narrativa, “frame interpolation”?). É este pressentimento que faz de um post o misto de clímax e de simples apresentação de dados: as figuras sobrepõem-se, adensam-se como se ocultassem todo um plot e só se tornam presentes em efígie, de modo fugidio, e não em tratado ou em jeito de fôlego. A enunciação faz assim dos posts entidades interinas, passageiras, fugazes, como se cada um fosse afinal o nome de uma travessia entre margens que não existem.

Contra as engenharias sem sentido

Mini-entrevistas/Série II – 101


LC
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O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Ricardo Gross, 36 anos, Casa Fernando Pessoa (comunicação).
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- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
A possibilidade de escrever para mim e para outros sempre que quero, necessito e/ou posso.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
A postagem, quando regular, de blogues como o Contra a Corrente e o Homem a Dias.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Conhecer pessoalmente os autores dos meus blogues favoritos. Tornar-me amigo de alguns deles.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Na blogosfera só existe um tipo de censura. A que impomos a nós próprios.
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Entrevistas anteriores (apenas a Série II): Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira, Leandro Gejfinbein, Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca, Tiago Mendes, Nuno Miguel Guedes, Miguel Vale de Almeida, Pedro Magalhães, Eduardo Nogueira Pinto, Teresa Castro (Tati), Rogério Santos, Lauro António, Isabela, Luis Mourão, bloggers do Escola de Lavores, Bernardo Pires de Lima, Pedro Fonseca, Luís Novaes Tito e Carlos Manuel Castro, João Aldeia, João Paulo Meneses, Américo de Sousa, Carlota, João Morgado Fernandes, José Pacheco Pereira, Pedro Sette Câmara, Rui Bebiano, António Balbino Caldeira, Madalena Palma, Carla Quevedo, Pedro Lomba, Luís Miguel Dias, Leonel Vicente, José Manuel Fonseca e Patrícia Gomes da Silva. Agenda para esta semana (15 a 20 de Janeiro): Carlos do Carmo Carapinha, Ricardo Gross, Maria do Rosário Fardilha, Mostrengo Adamastor, Sérgio Lavos e a Batukada.