sexta-feira, 31 de março de 2006

Faltam 19 dias

Aqui fica mais uma vez o desafio (lançado pelo Nuno Guerreiro): "No dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória."
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"Consolaçam ás tribulaçoens de lsrael de Samuel Usque"
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Ver alguns dos posts do Miniscente sobre o tema: Tragédia do esquecimento (I, II e III, Janeiro de 2004) e Os quinhentos anos do Progrom de Lisboa, já deste ano.

Identificações

Janela possível de um Instituto do estado, por Maluda
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Quando um dirigente de um Instituto do estado se pronuncia acerca do instituto que dirige, emprega repetida e invariavelmente o pronome "nós". Aquilo, o instituto, o tecto, as infiltrações, os empregados, os papéis, o hall de entrada, a revista, os concursos, as vitrines, a secretária, as impressoras, o quadro da Maluda, aquilo... é tudo dele. Depois do PRACE - de facto é um primeiro passo -, este modo terno de identificação vai continuar. Faz parte da respiração da terra.

Livros, críticos e desvarios

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De facto, a questão levantada por João P. George sobre "críticos, escritores e amigos" resume-se a nada. Ontem, na Casa Fernando Pessoa, a discussão até foi engraçada, mas, bem vistas as coisas, a tão falada polémica resume-se tão-só a um Frei Luís de Sousa representado na Sociedade Recreativa de Arganil (ou de Olhão, se se preferir). Com uma pequena diferença: quando o Romeiro aparece, tira o manto da cabeça e diz em voz de falsete: "Afinal, eu sou mas é a rameira!". Como diria o ensaiador: "Prontos, foi isso". Ou como diria Aristóteles, na Retórica (ao lado de Homero, por pouco não foi citado na sessão): "Quanto ao jogo de palavras, este exprime não o que o enunciador efectivamente diz, mas o que resulta da mudança de palavra". De resto, foi bom conhecer o Miguel Real assim como a inspiradora musa dos quatro caminhos.

quinta-feira, 30 de março de 2006

Livros, tribunais e desvarios

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Matthew d´Ancona dá conta, no The Spectator desta semana (de 25 de Março), de um encontro que teve há cerca de uma década com o par Michael Baigent e Richard Leigh, autores de vários livros sobre o caso esotérico de Rennes-le-Château que gira em torno do enigmático padre Saunière (o tal que, em 1886, teria descodificado o labirinto do Priorado do Sião). A história tem barbas, correu mundo e até os próprios nazis, durante a guerra, fizeram várias incursões junto à torre de Maria Madalena de Rennes-le-Château, mandada construir por Saunière com fundos de origem duvidosa.
Já se sabe que Dan Brown concebeu o seu Código Da Vinci a partir do fundo deste aquário ficcional, acrescentando-lhe ingredientes adequados a um sucesso que nem sempre sorri a quem os utiliza com conhecimento, conta, peso e medida. Não terá sido sorte, talvez sortilégio, mas o certo é que Brown beneficiou do chamado álibi perfeito: estar no tempo certo com a história e o formato certos. Acontece uma vez, dizem as auras mais avisadas.
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Ora, a crónica de d´Ancona remete-nos para a paródica conspiração de um almoço que teve lugar algures em Westminster, num daqueles restaurantes frequentados por “old-fashioned Tory MPs”, e onde o pão de alho italiano se terá misturado com a intriga mais felina e delirante. No fundo, o par Baigent e Leigh pretendia inquirir acerca das possíveis cabalas que se tramariam na babilónica Bruxelas de então, já que, para os dois detectives à Tintim, nelas se reflectiria, com evidência mitológica, a velha tradição do Graal, de Sião, do padre Saunière, etc.
Se estes dois seres filtraram o mundo desde pequenos a partir de um enredo tão sórdido, próprio de um Joaquim de Flora, imagine-se agora a razão pela qual Dan Brown foi um dia parar a tribunal. Nada mais simples, se colocarmos a questão ao contrário, ou seja: como poderiam Leigh e Baigent suportar a abordagem e sobretudo o tremendo sucesso de Brown? De forma nenhuma. O esforço vital e extravagante de toda uma vida parecia abruptamente morrer na praia diante do bestseller mais ostentado e vendido em qualquer aeroporto dos confins do planeta.
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Não estamos, em Portugal, neste reino de Pop Corn iniciático com sabor a Stout. Margarida Rebelo Pinto preferirá o perfume de um bom open space, os ares condicionados acabadinhos de montar e o ardil que faz dos afectos tudo menos uma conjura às profundezas do destino humano. João Pedro George também parece mais cativado pelo realismo arejado da coisa literária, embora torça com alguma alergia o nariz ao pimba, levado que é pelo horror ao excesso de isotopias.
A moral da história por cá não é tão divertida como o é em terras de Sua Majestade. Se existe algo de comum entre ambas as histórias é o paradoxal e bizarro recurso à justiça. De resto, na terra de ninguém dos comentários e da crítica, sobrará o desvario, o risível e alguma real insignificância (ler o post de baixo e mais este ainda sobre o assunto). Evocar a “liberdade” num caso destes é evocá-la praticamente em vão. Sintomas de uma dança sem par, digo eu. Mais valia, ao fim e ao cabo, dançar a valsa com o padre Saunière! Pasolini teria filmado a cena com santificado apreço.

quarta-feira, 29 de março de 2006

Advogado do diabo

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Já deixei a minha opinião sobre o MargaridaGate no post de baixo (antes da perdição de "Complexity and Color"). Mas agora, qual advogado do diabo, sou também levado a perguntar: qual é o problema de um escritor poder reatar e repetir extractos de texto que são seus nos seus próprios livros? Em romance, pode acontecer. Voluntária e sobretudo involuntariamente. Há um genoma incerto que se atravessa no uso próprio da linguagem. E é esse uso que a significa e dá luz ao que geralmente se chama estilo (destesto a palavra). No meu caso, já reparei nisso muitas vezes. Desenvergonhadamente. No caso dos ensaios, então, a coisa torna-se inevitável. Quem desenvolve um pensamento em várias frentes ao longo de uma dezena de ensaios, é mesmo obrigado a reatar e a repetir pontos de partida, conclusões e relativações presentes em livros anteriores. Se não o fizer, para contento do leitor mais avisado e sociólogo, acabará por cair numa espécie de autismo abjecto em que cada livro se transforma numa mera entidade discreta e mamórea sem um mínimo de fluxo sanguíneo e de vida.

"Complexity and Color"

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Desta vez, senti que se tinha bloqueado aquela reacção intempestiva que é habitual após o visionamento de cada episódio (o luar, creio eu, não deverá ter sido exclusivo). Efeitos estranhos e pouco controláveis. É por isso que inicio o breve trabalho de memória quase quarenta e oito horas depois do repetido fascínio. Foram os suicídios honrosos, o regresso de Octaviano, as ameaças a Voreno, o novo-riquismo reinante, a incontida paixão de Pulo (algo nele está já a mudar…), a carne quente dos maninhos e o chicote pouco hábil de Átia. Depois, clímax vestidinho de branco, César entra no pátio da Reboleira e contrapõe-se às honrosas dúvidas do nosso herói Voreno. “"I have legally taken Dictator's powers. I will return those powers to the people and senate as soon as I am able. No man loves our Republic more than I. I will not rest until it is as it was in the golden age”. Segue-se a glorificação latentemente misturada com um fio de ameaça negra. As confissões, os queixumes e as denúncias conduzirão ao resto: a vingança a frio. Servília é humilhada entre o sangue dos seus escravos (sim, horrível) e o que sobra são letrinhas a escalar pelo ecrã, sob aquela névoa que traz Cleóapatra de volta, mas não ainda no próximo epidósio (segreda o oráculo). Acrescentaria que a carne é fraca como é inadvertido o leme do destino romano: as aves nem sempre voam na boa direcção.
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Já agora, caro Luís, registo o belo post sobre o glorioso e peço mil perdões por só agora dar os parabéns pelo terceiro aniversário da grande Montanha!

Livros & pugilismo

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Escreve-se no Esplanar de João Pedro George:
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"Margarida Rebelo Pinto e Oficina do Livro requerem contra João Pedro George e Objecto Cardíaco uma providência cautelar não especificada com a finalidade de impedir a distribuição e venda da obra Couves & Alforrecas: Os Segredos da Escrita de Margarida Rebelo Pinto. Passa-se isto a um mês das comemorações do 25 de Abril de 1974."
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Eu diria antes: não será óbvio, para quem já andou em publicidade, que quer os encómios, quer as "alforrecas" contribuem, cada um a seu modo, para tornar mais nítido o posicionamento e para estimular e aprofundar o core, o património e, naturalmente, a marca? Eu, pelo meu lado, deixaria as providências cautelares para as brigas com os vizinhos.
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A propósito de brigas, livros, escritores amordaçados, invejas, amizades ínvias entre críticos e escritores, birras, traições, conivências sob o pano da mesa, casos de lençóis, favorecimentos, lobbies, gays, lésbicas, heteros, desconficanças, fianças, percentagens, descontos, cunhas, tricas editoriais, críticas compradas, elogios fáceis, fins de carreira, duelos, escárnios e outras cenas de pancadaria mais ou menos sublimes, vá amanhã à Casa Fernando Pessoa, pois tudo isto vai estar em discussão com a presença dos agentes em carne e osso (escritores, críticos e editores). Também irei e até já comprei as luvas de boxe (ver fotografia). Nestas coisas, não brinco. Quais providências cautelares!

terça-feira, 28 de março de 2006

O glorioso é sempre o glorioso

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Foi tanto e tanto microfone a ligar o metabolismo dos árbitros que a mão de Motta acabou por sair imune. O Humberto Coelho lembra-se melhor ainda: na meia-final com a França, em 2000, foi o fiscal de linha quem assinalou a grande penalidade por causa de uma mão muito menos óbvia. É claro que é uma parvoíce estar aqui a repetir o panegírico mais verosímil: "Tudo agora é possível". Mas eu sou dos que, neste caso, até acredito nessa parvoíce. Tal como contra o Liverpool.

O radioso futuro da demagogia

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Às vezes, ao ouvir Marques Mendes, tenho a sensação de que poderia dar um bom sucessor de Carvalho da Silva na CGTP.

Castro, ou o mito português do amor eterno


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Escreve-se no Público de ontem: “O problema do CDS é africano: o presidente não pode virar as costas que lhe fazem um golpe de estado” (sem linques). Há uma pequena diferença: nas famílias em que todos são primos uns dos outros, um golpe de estado é sempre um triângulo amoroso bem preenchido e não uma chacina desregrada.