quarta-feira, 22 de março de 2006

Breves momentos vazam a memória

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Quando agora republico o meu diário de há vinte anos (o tal Miniscente off-line antes ainda de o ser), verifico que aquela linguagem é já a linguagem de outra pessoa. No entanto, sinto uma certa ternura pelo modo como as coisas se relatam e enunciam. A identidade anda por esses limbos incertos: ela é não tanto a ternura, mas talvez sobretudo o seu reconhecimento. É por isso que a autenticidade vale pelo modo como a nuvem permanece no céu: como se fosse imutável. Ainda que o seja apenas por breves, brevíssimos momentos.

Memórias de ouro - 4

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Lê-se no meu blogue off-line, há precisamente vinte anos (22/03/1986): "Estou no Mar Morto, em frente da Jordânia. A terra chama-se Ein Gedi: arribas abruptas, pedras cansadas pela longa erosão, o mar momentaneamente verde e o sol a ecoar todo este silêncio."

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(Como ontem se falou em romances, volto-me agora para dentro da memória das páginas: repus "Ein Gedi" no meu As Saudades do Mundo que saiu a público em 1999, embora tenha sido escrito entre Junho de 1997 - lembro-me tão bem do momento! - e o Outono de 1998)

terça-feira, 21 de março de 2006

Ainda as fotos dos livros

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Uma vez, um amigo fotógrafo, Gérard Castello-Lopes, depois de ter lido um livro meu, disse-me: "A fotografia é que é própria da Polícia Judicária, não desfazendo a instituição". Um outro amigo meu, também fotógrafo, de seu nome José M. Rodrigues, fotografou-me dezenas de vezes pelo menos desde 1980 (que me lembre). E no meio de tanta obra ímpar, jamais conseguiu tirar-me um retrato que se diga. Que fotogenia fantasmática engalanará a escuridão de uma tal aura, José?

Dez por cento a menos

O Technorati dá-me conta que alguém escreveu isto:
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"Pego num livro de Luís Carmelo. Folheio. Compro. Não Compro. Dou uma vista de olhos pela capa. Segue-se a contracapa. Choque: Uma fotografia de um homem de meia-idade. Não tenho nada contra fotografias, nem contra homens de meia-idade e muito menos contra o Luís Carmelo. Só contra fotografias, de homens de meia-idade, em contracapas."
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Homem de "meia-idade", mal digitalizado e apanhado de surpresa*
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Ainda bem que o miúdo não comprou o livro. Oxalá ainda venha quando chegar à "meia-idade" (esta frase era para ser reflexiva). É verdade, só mais uma coisa: o miúdo compara-me com o Sousa Tavares. Não desdenharia a hipótese, até porque deixava as aulas, a investigação, os ensaios e, se calhar, os romances e essa coisa toda de uma vez só. Afinal o Technorati dá-nos bons assessores. Graciosamente.
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*Bem digitalizadinho ninguém lhe dá a idade que tem. Tem fama disso em muitos e bons lugares, dizem os críticos e as outras.

A poesia a bordo do seu dia

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Hoje, Dia Mundial da Poesia, há festa ali na Casa Fernando Pessoa. Lá estarei. Há programa ao fim da tarde (18.30h) e mais à noite (21.30h). A minha pequena homenagem pessoal a este dia número um da Primavera faz-se pedindo licença ao Luís Quintais para que autorize a publicação no Miniscente do seu belíssimo poema “Azagaia, árvore, sombra” (já agora, devo dizer que há novidades sobre Roma no post de baixo):
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"Há objectos que perseguem a nossa infância,
depois, vida fora, esquecem-se os seus mágicos nomes,
a sonhada utilidade que os anima.
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Poderíamos pressenti-los dentro de nós,
e isso sucede, por instantes, quando o fundo que os obscurece/
se ilumina de repente
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e os distinguimos a contra-luz.
Silhuetas animam-se na memória. Uma breve,
quase acessória, viagem no tempo começa.
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Em África, na casa onde nasci, e depois de casa em casa
- eram frequentes as mudanças -
o meu pai pendurava uma azagaia na parede.
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Sempre a mesma azagaia. Era um objecto nobre.
Marcava um hábito guerreiro: imaginar que a sustinha sobre a/
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cabeça, que a arremessava longe, trespassando a sombra
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da árvore que se erguia no quintal,
Trespassava a sombra e não a árvore, repare-se.
E então a sombra, sob o sortilégio do imaginado arremesso,
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começava a retrair-se e a afilar-se, desaparecia.
Com o desaparecimento da sombra
ficava apenas a árvore e a longa azagaia presa ao solo.
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A sombra de uma árvore visita-me agora.
Vem nos meus sonhos recentes dizer-me que há um livro
nos sonhos, e que esse livro se escreve
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com a linguagem crepuscular da memória.
Sei que se trata de uma sombra órfã.
Que se soltou das contingências de lugar e luz
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para viajar no eterno. Sei agora que a substância da árvore
se aliou à substância da azagaia. Que ambas vibraram,
continuam a vibrar, juntas.”
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(De A Imprecisa Melancolia em Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, Org. P. Mexia, O Contador de Histórias, C.M.T., 1997, Tomar)

"Complexity and color"

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Que mulher não gostaria de ter sido Cleópatra, nem que fosse por um dia? Que homem não gostaria de ter sido Pulo, nem que fosse por um dia?
Esta Cleópatra é um tanto diferente da que Hollyhood encenou no início dos anos sessenta (lembro-me da Elizabeth Taylor de 1963): misto de flor luarenta e branca tão untada de divino quanto da carne que a sonhou.
No final do óptimo episódio de ontem – já o oitavo, “Time goes by so slowly” –, Júlio César ostenta o bebé aos soldados e o afectado grito de Pulo apenas é dissuadido pelo olhar prudente de Voreno.
De resto, as cabeças espetadas no grande palácio egípcio valeriam pelo Al-Ahram de hoje. À iminência das notícias reagiriam então as lanças e os uivos nocturnos que a montagem alternada aproximou dos amores de Servilia e Octavia, ou dos mais puros lençóis de seda: a César o que é de César.
Em Roma, Marco António continua a ser um James Dean mal disposto que falta às aulas do seu liceu. Na cena, não há carros dos fifties, mas existe um desmedido Senado ainda a sós, à procura de sentido, ou, quem sabe, se apenas à espera do seu dramático desígnio ("O corpo é que paga", praguejaria Cícero entre lábios).
A cor do Mediterrâneo tem a imprecisão com que se augura a eternidade, mas em Roma ela transforma-se em loba terrena e chã, apesar da lei, dos novos estóicos que calcorreiam a leveza dos seus mamilos e da memória – ainda que involuntária - da República. A César o que é de César.
Este texto começou com uma picada de “gender” e termina agora com uma picadela mais ou menos mediática: os senhores que tiveram a insanidade de dar corpo a esta série deviam ser obrigados a continuá-la até aos nossos dias. Pesquisassem, trabalhassem arduamente, mas fizessem-no! E nós estaríamos aqui, como Cleópatra com o seu cachimbo, apenas para o prazer, para o sumo deleite e para o Júbilo. Qb.

Bem-vinda!

Imensa empatia

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Revejo uma entrevista a Fernando Gil e pergunto-me aqui em silêncio: por que é que um pessoa destas morre?

segunda-feira, 20 de março de 2006

Memórias de ouro - 3

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Consulto o meu blogue off-line, escrito precisamente há vinte anos em Jerusalém: "Chego a casa, fecho os olhos e retenho a cor creme, parda, vaga, iluminada, acidental e rude da cidade."

Quando o centrão é uma hipérbole

Os temas foram os do dia: a França, o Iraque e a agricultura. Luís Fazenda e Ângelo Correia concordaram em tudo. Estranho frente a frente, este da Sic-Notícias.