sexta-feira, 13 de janeiro de 2006

Figurações do mundo

e
Há episódios da infância que são extraordinários. Lembro-me, há muitos muitos anos, teria talvez uns seis ou sete anos, de chegar à conclusão que os números pares e os números ímpares não deveriam existir em paridade. Ou seja, segundo a minha intuição numerológica da altura, o facto de existirem tantos números ímpares quanto números pares corresponderia, porventura, a algo de muito estranho e enigmático que deveria escapar à harmonia da criação. E movido por uma espécie de confiança leibniziana, lá decidi que o algarismo "5" ficaria para sempre - e apenas para mim - a figurar entre o número dos algarismos "pares". Ainda hoje assim é. Como se vê, há códigos neste mundo que são absolutamente silenciosos e restritivos.

Coisas boas da vida

Ontem visitei um amigo que tem 82 anos e que vai ser pai daqui a dias. Em casa, era visível aquele ambiente que é próprio dos jovens casais. A felicidade pode remover montanhas (a mãe parecia saída de um conto de fadas).

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

Cultura

Raramente vi um ministro tão desarmado, tão fragilmente inconsistente e tão fora do seu papel. A Isabel Pires de Lima, ontem, no Magazine, faltou tudo. A prestação chegou a desencadear aquela empatia piedosa por quem quase não consegue respirar. Nada me move corporativamente contra a senhora - embora discorde de muita coisa da sua actuação -, que conheci numa circunstância bem diferente onde denotou simpatia, elegância e naturalidade e nunca aquele ar de acossadamente indefesa. É por isso que as quotas (por género e região) são a pior invenção do mundo.
De facto, "Lisboa" não basta como motivo político de tiro ao alvo para iludir fraquezas e insuficiências alheias.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

A espuma do apocalipse (actualizado)

Ontem, pela primeira vez - no Politécnico de Abrantes -, Mário Soares abordou a possível inadequação da sua candidatura presidencial. Ter admitido o facto tem, por si só, mais pertinência do que desistir. A realidade poucas vezes terá sido tão clara, goste-se ou não (por mim, não votarei em nenhum dos candidatos): uma parte significativa do eleitorado de Sócrates vai votar Cavaco e Sócrates continuará a viver do inelutável apoio desse eleitorado. Está, pois, traçado o quadro que irá reger a vida política nos próximos três anos. A margem de manobra para uma luta política de jeito só se voltará a colocar já para 2008.
e
Ao contrário do que José Pacheco Pereira hoje afirma, creio que o "enfado" real que estas eleições carregam e o rico quadro de ilações que suscitam e provocam são coisas que correspondem a níveis e naturezas completamente diversos (são factos que nada têm a ver com perspectivas de vitória ou derrota). A primeira decorre da contenda entre um 'não-dito' meio sacrificial que se arrasta há meses e, por outro lado, um conjunto cansativo de práticas de esvaziamento retórico. A segunda está toda ainda em aberto e faz parte do horizonte com que pode já pensar-se a configuração de um novo ciclo político (na parte de cima do post, prefiguro uma coabitação ao centro com atritos muito dissuadidos no curto prazo, já que a base política legitimadora de Sócrates e Cavaco é bastante comum. A prazo, o centro acabará por se tornar sensível ao inevitável tumultuar do termo da legislatura e aí as posturas de Cavaco e Sócrates tenderão a pulverizar novos realinhamentos, hoje apenas latentes).

Casa Fernando Pessoa

No fundo, além do mais, este é um cumprimento de vizinho a vizinho. É que o Miniscente, pelo menos em metade do seu tempo semanal, mora mesmo na rua ao lado.

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

Sexo e outras ocultações

Fui ao site da RTP para tentar saber o que quer dizer o "N" de RTPN. Consultei o "Perfil do canal", entre outros elementos informativos presentes, mas o enigma manteve-se.
e
Lembro-me, quando era pequeno, que os cintos das fardas da mocidade portuguesa tinham um "S" na fivela. O meu avô materno, avisado espírito de tradição republicana, dizia-me - bem alto para e quem o quisesse ouvir - que o tal "S" queria dizer "Sabão". No entanto, sempre percebi que era brincadeira e o enigma manteve-se. Até hoje.
e
Como vêem, não são apenas os escritores portugueses que trocam os lexemas do toma toma. A coisa é mais geral e espalha-se no mundo português de A a Z, para que o coma coma se esconda sempre atrás do toma toma. "Português Suave", diria Raul Lino. A falta que nos faz a Natália!

O sexo e o ar de trovoada

e
A alvenaria branca subitamente imersa pelo céu da trovoada. E o sol, ao de leve, a inclinar-se, ludibriando o cenário e adivinhando a calada fantasmagoria.
e
Dupla moral da história (ou da visão): o sexo e a linguagem que diz o sexo são coisas diferentes. O céu de trovoada e a linguagem que diz o céu de trovoada também são coisas diferentes.
e
Aliás, o Bataille dizia que a literatura era a expressão peculiar do "mal", embora tal concepção acabasse por exigir uma inevitável "hypermorale". Lá está.

S. Boaventura

Gosto da serradura do meu vizinho.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

Venha a nós o vosso reino

Pina Moura disse que a única ética que conhece é a republicana, isto é: a lei. Ora, se a lei e a ética coincidem desta forma irrevogável, para que é que existe uma e outra? Bastaria uma, portanto: ou haveria lei e dispensaríamos a ética, ou haveria ética e dispensaríamos a lei.
Bem sei que, no primeiro caso, Fragateiro viria para o Teatro Nacional e, no segundo caso, já não viria de certeza. Mas a verdade é que um e outro casos são tão absurdos e paradoxais quanto o é a definição de ética advogada por Pina Moura.

Foleirice e sexo na literatura portuguesa

A psicanálise da literatura portuguesa reapareceu como tema na blogosfera. O holofone centrou-se subitamente na “foleirice” do tratamento sexual que é próprio da “generalidade” dos escritores portugueses. Mas há graciosas excepções: e diga-se que, para além do Al berto, do Luís Pacheco, ou do Mello e Castro dos “Caralhamas e Conemas”, entre muitos outros, é de aproveitar a gala para relembrar o soberbo capítulo 17 do, às vezes esquecido, Cavaleiro Andante do Almeida Faria. No fundo, o “cu” e o “rabo” sempre andaram de mãos dadas no dizer literário, sendo o primeiro inevitável motivo de folia e figurão e o segundo uma espécie enevoada de nenúfar poético. Sempre que este tema áureo escala ao tampo da mesa – Al berto relembrava-o constantemente, enquanto Lobo Antunes sempre dele fez tábua rasa –, é realmente de estranhar o leque de subtís matizes que conduzem a literatura portuguesa a não inscrever no seu sacralizado intertexo palavras como “cona”, “caralho” ou “foder” (lexemas normalíssimos, se e quando precisos, num Rubem Fonseca ou numa Patrícia Melo - mas isso é outra história). Contudo, os próprios psicanalistas também não as escrevem na sua prosa, muitas vezes bem mais carregada de apetite de risível do que pelo secreto fio da análise. Geralmente, limitam-se a atirar para a exposta arena do ridículo alguns extractos de textos, cujas bainhas facilmente reflectem o gáudio da paródia. Esta modalidade de tratamento dos traumas portugueses – facilmente contaminável num meio como a blogosfera - é, em tudo, homóloga à do tratamento púdico do sexo que é apanágio da maioria dos escritores portugueses (e que nem um título, aparentemente maldito, como O Amor é fodido chega para disfarçar).