quinta-feira, 30 de junho de 2005

Piratas: brevíssima evocação - 2
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O Contra-Indicado descobriu mais umas colecções que eram lançadas pelo Fomento Eborense, a fábrica das antigas e famosíssimas "Pastilhas Élásticas Pirata". Que a pesquisa continue! Elas merecem.
Fugacidade

Que dizer de um dia que se esfuma como uma janela na fachada?
Está sempre lá, mas já ninguém a vê.
Gostoso

Gostei de ver o Carlos Alberto Parreira, o Adriano e o Brasil canarinho. Soube bem ver a equipa em campo a replicar com goleada ao langor apocalíptico que, há três semanas, se ouviu um pouco por todo o lado.

quarta-feira, 29 de junho de 2005

Piratas: brevíssima evocação - 1
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A fábrica das pastilhas elásticas pirata, o Fomento Eborense, faliu nos tempos revolucionários de 1974/75. Para além das pastilhas, publicava álbuns giríssimos como este:

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A minha melancolia adensa-se ao verificar que a rede já quase não tem memória destes objectos maravilhosos. Se houver alguém que coleccione O Pirata, assim como outros artefactos com origem na antiga fábrica de Évora (embora as pastilhas elásticas pirata dessem volta ao país e fossem marcadamente nacionais, no tempo do marcelismo e logo a seguir ao 25 de Abril), diga qualquer coisa!
Mas a verdade, Charlotte, é que já me desabituei há muito tempo de pastilhas elásticas!
Imaginário & adesivos

Acordo, abro o rádio e a voz de um representante do sindicato dos enfermeiros diz que a greve tem tido uma enorme "aderência". Mais do que o discurso do adesivo, o mais intrigante no registo da voz do dirigente sindical foi a gravidade e a solene lentidão com que cada palavra, muito senhora de si, uma após outra, era soletrada. Incluindo a magistral "aderência".

terça-feira, 28 de junho de 2005

Ainda a propósito

do Six Feet Under de ontem, vem mesmo a calhar este poema de Rui Costa (não, não se mudou do Milan para o Famalicão, é mesmo outro, mas não é pior). Retiro a última estrofe de A Matéria do Ar e deixo-a aqui como homenagem à luminosidade do tédio que ontem tomou conta das imagens:

“Ainda tenho pensamentos mas já não os penso.
Falo como o sono nutre a sua teia e o seu
Veneno. Só os bichos da terra e os que andam
no céu são brancos. E digo:
Acende uma fogueira ao que sobrar do
Mundo.”

(A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, Quasi, Famalicão, 2005)
Six Feet Under - 9
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Geralmente escrevo logo que o episódio acaba, mas ontem o cansaço arrastou-me para a cama e revi o comentário ao comentário possível já de olhos bem fechados. O que fica, umas horas depois? A simulada praia mexicana onde os cavalos também se abatem, Brenda omnipresente quase a perder o sentido como personagem, algumas vigílias mamíferas no mais vernáculo estilo da National Geographic, a ridícula saga dos coleccionadores de tufões e as novas tecnologias à “taco de graal” experimentadas por Claire (fez-me lembrar a sensação das velhas pastilhas elásticas “Pirata”; lembram-se?). É tudo.

domingo, 26 de junho de 2005

Fluidos poéticos

Tenho estado a escrever sobre a nova poesia portuguesa, sobretudo da última década e meia (tentando cruzá-la com o modo como reflecte as grandes mudanças da actualidade "pós pós pós", liberta da verticalidade do escháton dos "grandes códigos" clássicos e totalizantes e imersa que está na hipertecnologia instantanista e global). Tenho percorrido caminhos interessantes na análise do regresso ao presente e ao quotidiano desta poesia (é o fim do exílio utópico num recôndito futuro sacrificial), no seu pendor emotivo, imediatista e descritivo, no leque de realismos que repõe em cena, no modo como enuncia próteses de um corpo pós-ético, hedonista e atreito à mobilidade e, ainda, na empatia que estabelece com a expressão plástica contemporânea. Isto para além do revivalismo evocativo, das ciberpráticas hipertextuais e de uma liberdade específica que se manifesta na procura de uma autonomia ficcional própria e afastada de estafadas narrativas tutelares.
Há autores muitos bons que leio, releio e sublinho, sobretudo Vasco Gato, Carlos Bessa, Rui Pires Cabral, José Tolentino Mendonça, Paulo José Miranda, Pedro Mexia, Ana Luísa Amaral, Jorge Melícias, Luís Quintais e muitos, muitos outros. Os pequenos livros desta nova poesia sucedem-se: na Assírio, na Gótica, na Campo das Letras, na interessante Averno, na & etc, para além das antologias da Quasi e da Contador de Histórias.
Há muito que me afastei das perspectiva autista que condiciona um dado corpus literário a dialogar apenas com um metadiscurso especificamente literário. É isso que me afasta do círculo texto-crítico-texto e das muralhas herméticas das faculdades de letras (há muito que saí delas). A nossa contemporaneidade é feita de redes de redes, de interfaces, de discursos fragmentários que se cruzam, de simulações colocadas em jogo sem um esquematismo orgânico dado, de lances transversais entre saberes, expressões e olhares.
Esta nova perspectiva transversal e propensa à ubiquidade dos gestos - que tende a rever as meta-ocorrências em tempo tendencialmente real -não pode deixar de analisar a literatura e revê-la até de um modo que já não corresponderá à ideia que dela temos desde o pós-Iluminismo. O mundo está a mudar e é por isso que a respiração criativa há muito invadiu os objectos culturais do planeta, esteticizando-o, e, nesse movimento, fez também com que a arte deixasse de ser uma caixinha fechada para ser vista apenas em museus, ou na micro-circulação que liga a literatura à sua (legítima) transcendência crítica. Desse tipo de analogias estamos agora a passar para um universo de imagens soltas, livres, abertas ao brilho conotativo do interface.
É com este tipo de leitura de viés, diagonal, transversal e aberta às correntes de ar com as expressões contemporâneas (sobretudo a expressão plástica, o design, a instalação, a inscrição do corpo e as ciberescritas) que estou a confrontar a nova poesia portuguesa.
Para já, o destino deste trabalho irá ser um curso on-line. Mais tarde "avaliarei do seu grau de pureza", tendo em vista outros maneiras de partilhar conclusões, diálogos e pistas de entendimento.

sábado, 25 de junho de 2005

Pausa

Uma avioneta no ar, zumbido de faca em granito. Envolve-a a nuvem de prata e, por baixo, delirante, o casarão alagado pela frescura da relva já cortada. Atrás das persianas caídas, sei que a perdição deste tipo de sábados suplanta a mornidão da carne.

sexta-feira, 24 de junho de 2005

Atracção fatal

Geralmente, à minha volta toda a gente fala do estado do tempo. Geralmente, todos repetem que lá veio, por fim, um pouco de fresquinho. Ficam com os olhos a brilhar com aquele contentamento lunar que sabe a pouco. E eu acho sempre o contrário, mas, ao mesmo tempo, sorrio com (falso) ar condescendente e prefiro não dizer nada. Sinto vontade de me ir embora, de me refugiar no escritório, de contar as páginas ainda em branco do último texto, de ver a água parada a vogar na imperfeita contaminação da memória. Porque eu, sinceramente, prefiro o calor, esse calor mortal de que ninguém gosta, esse calor irrespirável, esse calor da bonomia que, à meia-noite, ou às três da manhã, não deixa dormir nem vegetar vivalma. Sou assim, nasci em Agosto e sinto uma indescritível felicidade com esta dilatação do cosmos.