O tom da fotografia (e de alguma elevação) a menos
O tom usado por uma "Chefe do Gabinete do primeiro-ministro de Portugal" é ilustrativo do ressentimento e do espírito de desaire que, sem mais nem menos, acaba por conduzir a generalizações e a práticas quase ofensivas face a quem pratica uma opinião livre, consistente e tradicionalmente fundamentada. Ora leia-se - na primeira pessoa do plural (grupo?, ritual?, liturgia?) - a conclusão do comunicado governamental:
"Custa-nos ler artigos de opinião baseados em mentiras"
E... para além da razão e a desrazão em causa, não haveria mais nada a fazer, tipo servir os portugueses, do que andar a responder aos artigos de Miguel Sousa Tavares?
quarta-feira, 5 de janeiro de 2005
Posição & posições
Caro Jorge: eu não defendi nenhuma "posição", pelo menos no sentido apologético do termo. Limitei-me a interrogar ("E o que dizer das fotocópias... etc.?").
Como já escrevi, entre o acaso, a circunstância e a necessidade, há sempre uns que copiam e outros que perdem. E estes últimos, já agora, são sempre os mesmos. É assim, é parte do vivido. É um dado. Retirar "últimas consequências" daqui? Talvez apenas olhar o mar.
(de resto, Francisco, completamente de acordo: "nas tintas" para essa coisa que dá pelo nome de "progresso cultural" e, claro, corrosivamente alinhado em nome da liberdade, da independência e daquilo que nos é justa e materialmente devido)
Caro Jorge: eu não defendi nenhuma "posição", pelo menos no sentido apologético do termo. Limitei-me a interrogar ("E o que dizer das fotocópias... etc.?").
Como já escrevi, entre o acaso, a circunstância e a necessidade, há sempre uns que copiam e outros que perdem. E estes últimos, já agora, são sempre os mesmos. É assim, é parte do vivido. É um dado. Retirar "últimas consequências" daqui? Talvez apenas olhar o mar.
(de resto, Francisco, completamente de acordo: "nas tintas" para essa coisa que dá pelo nome de "progresso cultural" e, claro, corrosivamente alinhado em nome da liberdade, da independência e daquilo que nos é justa e materialmente devido)
Estado de alma
Luz de fim de tarde, inclinação remota e um único fim em vista: demover por momentos a memória.
Há dias assim, cândidos na sua crueldade.
O que vale é poder adivinhar a frescura sem limites e a própria beleza da intuição (há coisas que só por dentro se podem ver e tocar).
A comoção é o outro nome de um mesmo abismo: a proximidade.
Luz de fim de tarde, inclinação remota e um único fim em vista: demover por momentos a memória.
Há dias assim, cândidos na sua crueldade.
O que vale é poder adivinhar a frescura sem limites e a própria beleza da intuição (há coisas que só por dentro se podem ver e tocar).
A comoção é o outro nome de um mesmo abismo: a proximidade.
Os Juízes inabaláveis
Continua na boca e na cabeça de muita gente a ideia de que a democracia deveria produzir governos e listas de deputados perfeitos.
No fundo, quem assim pensa não entende e não deseja a democracia. Porque se a democracia produz algo é precisamente o esteio que torna - em primeiro lugar - a liberdade possível. E não a perfectibilidade das soluções governativas (o que não quer dizer que não se lute, de acordo com ópticas diferentes, pelos melhores governos e soluções possíveis!).
A verdade é que a democracia é um sistema criado para os homens, com todos os seus vícios e virtudes, públicos ou privados, e não para uma galeria de deuses.
Só o dever-ser de uma ditadura - ou de um concílio divino - é que criaria governos ideais, mas essa idealidade seria sempre a idealidade de algo ou de alguém e não a emergência de opções livres e sobretudo possíveis.
Pode questionar-se a lógica que existe em certas listas que põem lado a lado, no mesmo partido, com todo o respeito, pessoas como Duarte Lima e Pôncio Monteiro (entretanto desconvidado) ou Matilde Sousa Franco e Pita Ameixa. Há mesmo casos, já se vê, em que a lógica perde o seu próprio nome, aliás bastante nobre.
Pode questionar-se o leque de poderes que a direcção de um partido tem à sua disposição para a formação de listas. Pode questionar-se a relação entre o conceito de “indígena”, de “aparelho” e de “notável” na concepção interessada das listas.
Pode questionar-se a norma de certos partidos que têm em conta apenas um desiderato funcional para a escolha dos seus Zé Ninguém (a expressão era do velhíssimo Reich). Pode mesmo questionar-se a crise evidente de representação que há-de, em todos os tempos, fazer ferver os cenários discursivos que se movem em democracia.
O que não se pode sistematicamente fazer é, em nome dessa crise natural e intestina - e que a própria democracia enquanto processo vai aprendendo a superar -, pôr-se em causa aquilo que uma certa contra-cultura designa por “formalismo”, ou por “mera democracia institucional”, ou ainda, na linha da revolução de há trinta anos, pelos “desvarios inúteis da democracia burguesa”.
Quem assim pensa, no fundo, sente-se mal em democracia. Sente-se mal entre o mau cheiro aziago da opinião maioritária e proibiria, por isso mesmo, todos os Big Brothers “burgueses” e “massificados” em nome do seu alto e elevado critério.
Quem assim pensa expande ainda hoje a sua ira furibunda em sentido único, recorre ao privilégio extraordinário da liberdade (geralmente pondo em causa a própria cultura ocidental que, nos últimos três séculos, edificou a democracia tal como a entendemos, respiramos e vivemos hoje) e sobretudo acede facilmente aos média.
Quem assim pensa chega a imaginar, por trás do seu “comércio justo” e palavroso, que tem direitos especiais que estão para além da proporção que é devida aos cidadãos tidos como “mais comuns” (por exemplo, a massa dos não menos palavrosos intervenientes nos fóruns matinais radiofónicos).
É por isso que eu continuo a sorrir face a muitos dos juízos que exigem soluções perfeitas, radicais e inabaláveis, oriundos que são dos autores dos novos Leviatãs, porque tendencialmente intolerantes, porque ressentidos face à queda dos “seus mundos idealizados”, porque, ao fim e ao cabo, involuntariamente alérgicos ao que a democracia tem de mais saudável: a livre escolha.
Continua na boca e na cabeça de muita gente a ideia de que a democracia deveria produzir governos e listas de deputados perfeitos.
No fundo, quem assim pensa não entende e não deseja a democracia. Porque se a democracia produz algo é precisamente o esteio que torna - em primeiro lugar - a liberdade possível. E não a perfectibilidade das soluções governativas (o que não quer dizer que não se lute, de acordo com ópticas diferentes, pelos melhores governos e soluções possíveis!).
A verdade é que a democracia é um sistema criado para os homens, com todos os seus vícios e virtudes, públicos ou privados, e não para uma galeria de deuses.
Só o dever-ser de uma ditadura - ou de um concílio divino - é que criaria governos ideais, mas essa idealidade seria sempre a idealidade de algo ou de alguém e não a emergência de opções livres e sobretudo possíveis.
Pode questionar-se a lógica que existe em certas listas que põem lado a lado, no mesmo partido, com todo o respeito, pessoas como Duarte Lima e Pôncio Monteiro (entretanto desconvidado) ou Matilde Sousa Franco e Pita Ameixa. Há mesmo casos, já se vê, em que a lógica perde o seu próprio nome, aliás bastante nobre.
Pode questionar-se o leque de poderes que a direcção de um partido tem à sua disposição para a formação de listas. Pode questionar-se a relação entre o conceito de “indígena”, de “aparelho” e de “notável” na concepção interessada das listas.
Pode questionar-se a norma de certos partidos que têm em conta apenas um desiderato funcional para a escolha dos seus Zé Ninguém (a expressão era do velhíssimo Reich). Pode mesmo questionar-se a crise evidente de representação que há-de, em todos os tempos, fazer ferver os cenários discursivos que se movem em democracia.
O que não se pode sistematicamente fazer é, em nome dessa crise natural e intestina - e que a própria democracia enquanto processo vai aprendendo a superar -, pôr-se em causa aquilo que uma certa contra-cultura designa por “formalismo”, ou por “mera democracia institucional”, ou ainda, na linha da revolução de há trinta anos, pelos “desvarios inúteis da democracia burguesa”.
Quem assim pensa, no fundo, sente-se mal em democracia. Sente-se mal entre o mau cheiro aziago da opinião maioritária e proibiria, por isso mesmo, todos os Big Brothers “burgueses” e “massificados” em nome do seu alto e elevado critério.
Quem assim pensa expande ainda hoje a sua ira furibunda em sentido único, recorre ao privilégio extraordinário da liberdade (geralmente pondo em causa a própria cultura ocidental que, nos últimos três séculos, edificou a democracia tal como a entendemos, respiramos e vivemos hoje) e sobretudo acede facilmente aos média.
Quem assim pensa chega a imaginar, por trás do seu “comércio justo” e palavroso, que tem direitos especiais que estão para além da proporção que é devida aos cidadãos tidos como “mais comuns” (por exemplo, a massa dos não menos palavrosos intervenientes nos fóruns matinais radiofónicos).
É por isso que eu continuo a sorrir face a muitos dos juízos que exigem soluções perfeitas, radicais e inabaláveis, oriundos que são dos autores dos novos Leviatãs, porque tendencialmente intolerantes, porque ressentidos face à queda dos “seus mundos idealizados”, porque, ao fim e ao cabo, involuntariamente alérgicos ao que a democracia tem de mais saudável: a livre escolha.
terça-feira, 4 de janeiro de 2005
Usos e fugas
Hoje vale a pena citar Isabel Pires de Lima:
"Também eu sou nostálgica da norma, podem ter a certeza, designadamente da norma que distingue a grafia do "porque" de uso causal do "por que" interrogativo (...)"
(uso que anda, de facto, tão mal tratado!)
"Importa-me mais a defesa dessa componente da norma do que da que tenta impedir a integração de neologismos, grafados, é-me indiferente, "blog" ou "blogue", "bloger" ou "bloguista" (...)"
(concordo, mas com a maleabilidade própria das geniais "fugitiv words" criadas pelo estímulo da revista The Atlantic).
Hoje vale a pena citar Isabel Pires de Lima:
"Também eu sou nostálgica da norma, podem ter a certeza, designadamente da norma que distingue a grafia do "porque" de uso causal do "por que" interrogativo (...)"
(uso que anda, de facto, tão mal tratado!)
"Importa-me mais a defesa dessa componente da norma do que da que tenta impedir a integração de neologismos, grafados, é-me indiferente, "blog" ou "blogue", "bloger" ou "bloguista" (...)"
(concordo, mas com a maleabilidade própria das geniais "fugitiv words" criadas pelo estímulo da revista The Atlantic).
segunda-feira, 3 de janeiro de 2005
Pactos?
Não acredito em pactos de regime. Um ou outro com efeitos estruturais e com valências que ultrapassem o fôlego de uma geração ainda vá que não vá. Em democracia e em liberdade, o que esperamos verdadeiramente é diversidade e clareza de propostas e, quando vingadas pelo voto, o que se espera então é inabalável e estóico cumprimento das ditas. Má nada.
Não acredito em pactos de regime. Um ou outro com efeitos estruturais e com valências que ultrapassem o fôlego de uma geração ainda vá que não vá. Em democracia e em liberdade, o que esperamos verdadeiramente é diversidade e clareza de propostas e, quando vingadas pelo voto, o que se espera então é inabalável e estóico cumprimento das ditas. Má nada.
Direitos de autor
E o que dizer, caríssimo, das fotocópias que fazem dos nossos livros (refiro-me aos ensaios e sobretudo àqueles que aparecem permanentemente nas bibliografias em licenciaturas e mestrados)?
E o que dizer, caríssimo, das fotocópias que fazem dos nossos livros (refiro-me aos ensaios e sobretudo àqueles que aparecem permanentemente nas bibliografias em licenciaturas e mestrados)?
O 09/11 escrito em letras pequenas
Na Holanda, desde o passado dia 1 de Janeiro, todas as pessoas com mais de catorze anos passaram a ter que se fazer acompanhar de um cartão comprovativo da respectiva identidade. Nem toda a gente parece ter levado a coisa muito a sério, mas a polícia não deixou o trabalho em mãos alheias.
Cá entre nós? Havia de ser bonito.
Na Holanda, desde o passado dia 1 de Janeiro, todas as pessoas com mais de catorze anos passaram a ter que se fazer acompanhar de um cartão comprovativo da respectiva identidade. Nem toda a gente parece ter levado a coisa muito a sério, mas a polícia não deixou o trabalho em mãos alheias.
Cá entre nós? Havia de ser bonito.
Relendo
Uma amiga viu o último romance de Lobo Antunes, em cima de uma mesa aqui em minha casa, e explicou a razão por que não o tinha comprado: demasiados espaços brancos e letras demasiado grandes (aquilo era espaço de vida a intometer-se no espaço do livro, aquilo era espaço de papel de merceeiro para tomar notas e não literatura, aquilo era um maço artificial para entreter compra e venda, aquilo era produto de marketing com formato ideal para tradução em capa dura sob o pretexto de romance). Engoli em seco, pensei, evoquei, sorri e acabei por decidir escrever este post, não fosse o diabo tecê-las (já agora, do dito livro, consegui ler 27 páginas, em três noites sucessivas, antes de me deitar. Imagens fortes, genialidade inventiva, mas cada vez mais uma certa modorra repetitiva e caótica de vozes e mais vozes sem esquadria e sem horizontes minimamente fixos; fica o vastíssimo prazer das imagens, fica o prazer da antecâmara da escrita, fica uma certa respiração da loucura).
E é assim, palavra a palavra, surpresa a surpresa, istmo a istmo, que um novo ano começa.
Uma amiga viu o último romance de Lobo Antunes, em cima de uma mesa aqui em minha casa, e explicou a razão por que não o tinha comprado: demasiados espaços brancos e letras demasiado grandes (aquilo era espaço de vida a intometer-se no espaço do livro, aquilo era espaço de papel de merceeiro para tomar notas e não literatura, aquilo era um maço artificial para entreter compra e venda, aquilo era produto de marketing com formato ideal para tradução em capa dura sob o pretexto de romance). Engoli em seco, pensei, evoquei, sorri e acabei por decidir escrever este post, não fosse o diabo tecê-las (já agora, do dito livro, consegui ler 27 páginas, em três noites sucessivas, antes de me deitar. Imagens fortes, genialidade inventiva, mas cada vez mais uma certa modorra repetitiva e caótica de vozes e mais vozes sem esquadria e sem horizontes minimamente fixos; fica o vastíssimo prazer das imagens, fica o prazer da antecâmara da escrita, fica uma certa respiração da loucura).
E é assim, palavra a palavra, surpresa a surpresa, istmo a istmo, que um novo ano começa.
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