domingo, 31 de outubro de 2004

Horas mortas

Preferia que a hora se tivesse mantido. Detesto ver a luz do dia a eclipsar-se a meio da tarde. Já gostei, mas isso era noutros tempos. Quando morava no norte da Europa e tinha sentido ver a noite crescer no corpo do dia sobre uma bicicleta e em luta contra a glacialidade do horizonte.
Campeonato da língua portuguesa

"Tit Con 24 FixoQua Nondaciene Macte,

Este é o título do artigo, hoje publicado na edição on-line do Público, que dá conta do protocolo ontem assinado entre a Câmara Municipal da Azambuja e a Companhia de Dança Contemporânea de Sintra.
Literatura com molho espesso

Um texto de João Pedro George que vale a pena ler.
A Aparição (actualizado a 31/10/2004)



Vivemos num mundo subitamente reordenado, cujas ocorrências-chave se foram avolumando, com uma celeridade e uma novidade espantosas, nos últimos três anos. É neste contexto que a figura tutelar do novo terrorismo global - essa efígie desaparecida e aparentemente sempre perseguida - reapareceu de corpo inteiro no ecrã da al-Jazeera. Na telecracia global, são as imagens que definem as imagens e, quando se vota, é também, em grande parte, em imagens que se vota.
Nesta voragem mediática que funciona como uma bola de neve gigante, o grande protagonista do mandato narrado por George W. Bush, Osama bin Laden, passou não só a dominar de ponta a ponta o debate entre democratas e republicanos, como passou também a ser a imagem de marca de todo o ambiente de real crispação eleitoral norte-americana.
Para além desse facto, já de si assinalável num panorama de sufrágio democrático, a aparição - e é de uma aparição que se trata - de Osama bin Laden foi ainda claramente calculada e calculista, já que foi feita a algumas dezenas de horas das eleições norte-americanas e, ao contrário do habitual, foi menos panfletária e apontou sobretudo para alvos políticos, dir-se-ia cirúrgicos.
Creio, nesta medida, que a intervenção do terrorista saudita serviu quatro objectivos principais muito bem pensados, a saber:
1 - assumir-se como a referência e o agente principal a que grande superpotência mundial jamais poderá escapar, reatando assim o tema do medo e da insegurança;
2 - afirmar que o 11 de Setembro não foi um evento, mas antes uma guerra que está e estará ainda em curso durante muito tempo;
3 - sublinhar o desrespeito pelo efeito democrático da eleição, tentando desmoralizar o ânimo do eleitorado norte-americano;
4 - misturar a perversão do confronto religioso com uma ideia casuística de “liberdade”, tentando deste modo criar confusão deliberada nos momentos vitais anteriores à votação (e cujas expectativas, como se sabe, estão em aberto).
De qualquer modo, fica por determinar - no dia em que escrevo este post e mesmo após a difusão dos resultados - qual terá sido o impacto real nas urnas desta inesperada aparição.
Certo é que, independentemente do vencedor das eleições norte-americanas, não se deverão verificar mudanças significativas no plano da política externa, tendo em conta os factos com que os EUA e o Ocidente em geral se defrontam.
Já no plano interno, ponderando o cenário de alguma retoma a curto prazo, é bem possível que uma ou outra reorientação, sobretudo de natureza simbólica e pontual (relativa à fiscalidade ou à saúde, por exemplo), possa vir a ter lugar.
Para além destas previsões algo prospectivas, penso que, longe da paixão dos eleitores norte-americanos e com alguma racionalidade, a eventual saída de cena de George W. Bush poderia somar pontos positivos. Por três razões principais:
1 - os EUA ganhariam em marketing o que perderam com Bush durante estes longos quatro anos (a expressão “marketing” releva aqui uma economia metafórica que vale pela inadequação e até falência de uma dada entourage política de Bush);
2 - sem Bush, as esquerdas mais cristalizadas do planeta e certas direitas europeias de feição continental deixariam de ter o desejado bode expiatório que lhes permite exorcizar as contra-culturas que hoje já não têm grande razão de ser. Kerry, não por méritos próprios, contribuiria assim para uma espaço público mundial mais aberto e menos mono-dirigido a alvos, por vezes, fantasmáticos.
3 - sem Bush, os EUA e o Ocidente em geral estariam em condições de reconfigurar um cenário mais sereno visando redefinir uma visão e uma actuação mais centradas na nova realidade criada há três anos, depois do evento nodal que foi o 09/11. A visão a quente, compreensivelmente imediatista, alarmista, reactiva (e excessivamente unilateralista) poderia vir, a pouco e pouco, a ser substituída por uma gestão política mais concertada e, portanto, adequada à nova guerra mundial que, de facto, está em curso.

Acrescentando (31/10/2004):

Independentemente do que acabo de escrever, devo acrescentar que não partilho das visões turvas e algo neuróticas que vêem numa possível vitória de George W. Bush a entrada da humanidade num temível túnel negro.
A realidade norte-americana situa-se entre a síndrome pós-09/11 e a necessidade de um vínculo que associe confiança a autoridade. Neste âmbito, Kerry tem demonstrado uma tendência excessivamente relativista e tem sentido, por outro lado, uma deficiente margem de manobra para afirmar um espaço próprio que fosse capaz de ligar um devir positivo na política interna à necessária determinação na política externa.
Creio mesmo que o impacto da aparição de Osama bin Laden pode ter radicalizado a síndrome do terrorismo apocalíptico que se disseminou nos EUA com uma natureza muito própria e, na maioria dos casos, bastante estranha aos sentimentos europeus, sobretudo às esquerdas menos lúcidas e a certas direitas fechadas e nacionalistas. Esta radicalização, embora de consequências imprevisíveis, com acima já fiz notar, acaba, em última instância, por reverter mais para o lado de Bush tendo em conta a ênfase dada à ameaça, ao temor e à violência gratuita.
Mas tudo pode acontecer.

sábado, 30 de outubro de 2004

Six feet under

Soube via Hugo que a nova vaga da grande série já se iniciou nos EUA. Por cá, a RTP2 que temos parece ter-se desinteressado. Uma lástima, embora, num destes Domingos à noite, passassem vários episódios dos inícios. Devaneios.
A palavra da semana

E… a palavra desta semana é assapar: “agora já podes assapar por todo o lado” (mensagem de correio electrónico da sapo, 26/10/2004, 16.52 h). Nas passadas semanas, relembro, as palavras premiadas foram, respectivamente, “bilhética” e “domótica”. Esta chancela do Miniscente ainda vai ficar famosa entre a equipa que vier a reelaborar, no Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Academia das Ciências de Lisboa, a próxima edição do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (já lá vão três anos sobre a primeira edição).

sexta-feira, 29 de outubro de 2004

De Roma para o espaço público

Para o que der e vier, a Constituição Europeia está, a partir de hoje, on-line. É clicar e ler. E dizer de sua justiça. O caminho até 2007, presumível data de entrada em vigor da Constituição, passa ainda pela ratificação democrática - referendária no nosso caso - dos vinte e cinco países que hoje (historicamente) a assinaram.
Sorriso da noite

A cor do fogo e os vidros quase embaciados. O livro a meio e a macieira a perder as folhas no pátio. Restam castanhas, tâmaras e a lua tão distante, apenas pressentida. Dir-se-ia que a realidade é, neste momento, algo exterior e anterior ao que descrevo, mas, também, motivo singular de tudo o que entrevejo.
Muitos parabéns!



E o Rua da Judiaria fez um ano!
Da Judiaria de Évora envio um imenso abraço (com um dia de atraso por ter estado em viagem).

quinta-feira, 28 de outubro de 2004

Dia de eclipses

Eclipsou-se a comissão de Barroso. Eclipsou-se a cabala pela voz de Marcelo. Eclipsou-se Gomes da Silva quando viu os jornalistas. E eclipsou-se ainda o FCP. Às 4 da manhã eclipsa-se a própria lua, mas a meteorologia vai, por sua vez, eclipsar o fenómeno.