Vingança cultural
O JN diz hoje, na primeira página, que existe um novo fenómeno cultural em Portugal. Fiquei a saber que se chama Fernando Rocha. Ouçamo-lo:
"Eu conto anedotas. Purinhas. Não faço 'stand up comedy'".
"O 'stand up' é tradicional, mas é tradicional da América. Ora, as anedotas são portuguesas. São uma forma de cultura em Portugal - e são uma forma de o povo se vingar da situação do país".
"Admiiro o Jim Carrey ou o Chris Rock, mas o Vasco Santana é o meu grande herói. É mesmo. Desde pequeno".
Fica-se mais consolado num domingo já tão pouco estival.
domingo, 7 de setembro de 2003
Matemáticas e mânticas
Luís Filipe Pereira, o nosso ministro da saúde, diz que entre o mês de Março de 2004 e o final de 2005 serão levadas a cabo cem mil cirugias. E depois... já não haverá mais listas de esperas.
Foi o mesmo ministro que afirmou há dias no parlamento, com rosto sério e grave, que tinham morrido apenas quatro pessoas em Portugal devido à chamada vaga de calor.
Luís Filipe Pereira, o nosso ministro da saúde, diz que entre o mês de Março de 2004 e o final de 2005 serão levadas a cabo cem mil cirugias. E depois... já não haverá mais listas de esperas.
Foi o mesmo ministro que afirmou há dias no parlamento, com rosto sério e grave, que tinham morrido apenas quatro pessoas em Portugal devido à chamada vaga de calor.
O que dizem os cubanos
Veja-se o que disse o representande do PCB na festa do Avante:
"Eleições como a que outros tem? Não as queremos. O que tem elas de democrático? Não é o presidente dos partidos que escolhe os candidatos? Em Cuba é o povo que elege por voto secreto e directo a totalidade da assembleia regional, que constitui 50 por cento da assembleia nacional."
Comentários ? Só visto.
Veja-se o que disse o representande do PCB na festa do Avante:
"Eleições como a que outros tem? Não as queremos. O que tem elas de democrático? Não é o presidente dos partidos que escolhe os candidatos? Em Cuba é o povo que elege por voto secreto e directo a totalidade da assembleia regional, que constitui 50 por cento da assembleia nacional."
Comentários ? Só visto.
Blogonovela e as levezas da ocultação
E está meia blogosfera à espera da novela (da rata). Um olho a espiar e outro a calar. Com o fresquinho, se não der para ir à praia, nem para ler a novela, sempre se pode ir às compras ao supermercado. A malta adora esperar pela novela e ir às compras e o mais que agora não digo. Vai tudo lá, mas depois tratam é de filosofar. Também gosto da prosa filosófica (e também a faço com prazer), mas não oculto que visito, não estes e o pipi que são óptimos, mas também o outro, o proibido, o pérfido, o maldito. Todos o vêem, todos o lêem, mas ninguém o pronuncia. E eu também não. Verdade, verdadinha, o voiyeurismo é mais pesado do que a força dos valores. Mas a leveza relativa destes ainda consegue equilibrar a balança e ocultar, na larguíssima maioria dos blogues (não todos...), o tal proibido, o pérfido e violador das regras do jogo.
Ainda bem que assim é. Com a liberdade não se brinca.
E está meia blogosfera à espera da novela (da rata). Um olho a espiar e outro a calar. Com o fresquinho, se não der para ir à praia, nem para ler a novela, sempre se pode ir às compras ao supermercado. A malta adora esperar pela novela e ir às compras e o mais que agora não digo. Vai tudo lá, mas depois tratam é de filosofar. Também gosto da prosa filosófica (e também a faço com prazer), mas não oculto que visito, não estes e o pipi que são óptimos, mas também o outro, o proibido, o pérfido, o maldito. Todos o vêem, todos o lêem, mas ninguém o pronuncia. E eu também não. Verdade, verdadinha, o voiyeurismo é mais pesado do que a força dos valores. Mas a leveza relativa destes ainda consegue equilibrar a balança e ocultar, na larguíssima maioria dos blogues (não todos...), o tal proibido, o pérfido e violador das regras do jogo.
Ainda bem que assim é. Com a liberdade não se brinca.
sábado, 6 de setembro de 2003
O 11 de Setembro revisitado - 2
Escrevia eu, em crónica, a 14 de Setembro de 2001:
(deixo aqui parte do texto para aclarar a memória de alguma correspondência entretanto recebida)
"Subitamente, todas as notícias, pequenas e grandes, se esvaíram. Toda a realidade, de repente, passou a fundir-se e a diluir-se naquela notícia das notícias que, com diversas vozes e tentáculos, tentava dar conta do acto impensável e dificilmente adjectivável que a nova barbárie havia praticado. Mas desta vez, a notícia das notícias não conseguia sequer traduzir a escala em que o novo evento noticiado se situava. Aquilo não era luta de libertação, não era obra de terror canónica, não era violência apenas gratuita, nem era arremesso anti-global da autoria de revoltados puristas. Aquilo era outra coisa: era uma outra arma, um novíssima arma - de que o povo civil, isto é, as pessoas eram parte compulsiva - e aquilo era, por outro lado, a ultrapassagem das cadeias de inteligência e informação internacionais.
No meio deste novo tipo de evento - e de notícia, ainda à procura de uma nova natureza para o traduzir - surgem agora alguns solidários que choram com lágrimas de crocodilo e, pior, surgem também aqueles que, por falta de reflexão ou por perda total de leme, vêm agora dar a entender que a coisa não foi assim tão má. Dizem eles que os americanos “aprenderam que não são invencíveis” e que “(os americanos) já fizeram muito pior a outros povos”. Essa gente que quer regar com imunidade a nova barbárie e que pratica um primitivo e primário anti-americanismo (semelhante a um pró-americanismo fundamentalista) não consegue entender o ciclo que o 11 de Setembro de 2001 abriu. Deixámos de habitar o quase pacífico corredor pós-muro de Berlim, dominado pelo colapso dos grandes códigos ideológicos rígidos e centrados, e, por outra parte, pelo novo advento de diversas realidades hipertecnológicas. Entramos agora na nova ruptura que irá opor inimigos globais, dispersos e acentrados, sob o pano de fundo de valores que dificilmente dialogarão entre si e com a escalada tecnológica a reatar o imaginário que, no fim da guerra fria, em plenos anos oitenta, ficou simbolizado pela ficcionalidade terminal do The day after."
O tempo, entretanto, veio dar razão a este pequeno texto: o novo ciclo passou a recolocar radicalmente as peças em jogo, embora continue a haver meio mundo que confunde essa realidade com o objecto de uma atitude protestatária que, ao fim e ao cabo, acaba por enfraquecer a própria defesa das democracias. E quando a opinião pública desarma face ao terrorismo, ou quando a opinião pública tem a tentação de encontrar nos erros intrínsecos e processuais das democracias o alvo principal da seu descontentamento, então, nessa altura, correremos todos perigo.
É esse, porventura, um dos maiores riscos que as nossas sociedades ocidentais estão neste momento a correr.
Escrevia eu, em crónica, a 14 de Setembro de 2001:
(deixo aqui parte do texto para aclarar a memória de alguma correspondência entretanto recebida)
"Subitamente, todas as notícias, pequenas e grandes, se esvaíram. Toda a realidade, de repente, passou a fundir-se e a diluir-se naquela notícia das notícias que, com diversas vozes e tentáculos, tentava dar conta do acto impensável e dificilmente adjectivável que a nova barbárie havia praticado. Mas desta vez, a notícia das notícias não conseguia sequer traduzir a escala em que o novo evento noticiado se situava. Aquilo não era luta de libertação, não era obra de terror canónica, não era violência apenas gratuita, nem era arremesso anti-global da autoria de revoltados puristas. Aquilo era outra coisa: era uma outra arma, um novíssima arma - de que o povo civil, isto é, as pessoas eram parte compulsiva - e aquilo era, por outro lado, a ultrapassagem das cadeias de inteligência e informação internacionais.
No meio deste novo tipo de evento - e de notícia, ainda à procura de uma nova natureza para o traduzir - surgem agora alguns solidários que choram com lágrimas de crocodilo e, pior, surgem também aqueles que, por falta de reflexão ou por perda total de leme, vêm agora dar a entender que a coisa não foi assim tão má. Dizem eles que os americanos “aprenderam que não são invencíveis” e que “(os americanos) já fizeram muito pior a outros povos”. Essa gente que quer regar com imunidade a nova barbárie e que pratica um primitivo e primário anti-americanismo (semelhante a um pró-americanismo fundamentalista) não consegue entender o ciclo que o 11 de Setembro de 2001 abriu. Deixámos de habitar o quase pacífico corredor pós-muro de Berlim, dominado pelo colapso dos grandes códigos ideológicos rígidos e centrados, e, por outra parte, pelo novo advento de diversas realidades hipertecnológicas. Entramos agora na nova ruptura que irá opor inimigos globais, dispersos e acentrados, sob o pano de fundo de valores que dificilmente dialogarão entre si e com a escalada tecnológica a reatar o imaginário que, no fim da guerra fria, em plenos anos oitenta, ficou simbolizado pela ficcionalidade terminal do The day after."
O tempo, entretanto, veio dar razão a este pequeno texto: o novo ciclo passou a recolocar radicalmente as peças em jogo, embora continue a haver meio mundo que confunde essa realidade com o objecto de uma atitude protestatária que, ao fim e ao cabo, acaba por enfraquecer a própria defesa das democracias. E quando a opinião pública desarma face ao terrorismo, ou quando a opinião pública tem a tentação de encontrar nos erros intrínsecos e processuais das democracias o alvo principal da seu descontentamento, então, nessa altura, correremos todos perigo.
É esse, porventura, um dos maiores riscos que as nossas sociedades ocidentais estão neste momento a correr.
Contador
Faz hoje um mês que o contador trabalha. Conclusão: um pouco mais de sessenta visitas por dia. Imaginar uma tertúlia com esse número diário de pessoas é imaginar um botequim razoavelmente povoado, ou um bom anfiteatro quase cheio, ou o regresso a casa a meio da tarde numa bela carruagem de metro.
Faz hoje um mês que o contador trabalha. Conclusão: um pouco mais de sessenta visitas por dia. Imaginar uma tertúlia com esse número diário de pessoas é imaginar um botequim razoavelmente povoado, ou um bom anfiteatro quase cheio, ou o regresso a casa a meio da tarde numa bela carruagem de metro.
sexta-feira, 5 de setembro de 2003
O 11 de Setembro revisitado - 1
Portugal é parte integrante da NATO há muito tempo. Esta vertente Atlântica da defesa faz sempre mal a muita gente. Para muitos é uma alergia ainda dos tempos da guerra fria, para outros é um vírus anti-americano que prefere ver na Europa uma grande Suíça sem compromissos e submete a sua defesa e a da democracia a uma retórica sobretudo autofágica. Ter o privilégio de viver em democracia é, para esses pacifistas de conveniência, um dado adquirido e acabado, como se a defesa da democracia e a sua permanente construção não fosse um processo e um percurso complexos, tantas vezes reversível. Não aceitar uma defesa efectiva da liberdade e da democracia, cedendo aos que ao diálogo preferem a cultura do terror e da morte, pode ser trágico. O prenúncio criado pelo 11 de Setembro de 2001 demonstra-o cabalmente. Viver em democracia para a denunciar permanentemente, recorrendo aos expedientes anti-americanos, aos truques hipocritamente legalistas e à apologia de uma neutralidade suicidária, continua a ser o apanágio de muitos. Entendo-o como um luxo que o Ocidente se dá a si próprio. Um luxo que é próprio da liberdade e das democracias criadas nesta área do globo em que nos encontramos, isto é, neste intercontinente Euro-americano. No mundo de hoje, baseado na logotecnia, no instantanismo tecnológico e na actualidade global, a democracia está, no dia a dia, a inventar-se a si própria com uma celeridade sem predecentes nos últimos dois séculos e meio. E vai ter que fazê-lo, cada vez mais, não só contra a cultura do terror e da morte que grassa no planeta, mas também contra todo o tipo de apaniguados da desconstrução democrática que habitam e respiram no privilégio da própria democracia. Essa é, em última análse, a maior lição que o 11 de Setembro nos lega, passados que são já três anos do seu prenúncio. Até porque o 11 de Setembro não foi apenas um facto, uma ocorrência, um evento. Ele foi e é um o encetar de um novo quadro em que estamos compelidos a viver. Nele se esbatem tipos de vida, modos de agir, definições de valores e parâmetros civilizacionais. Esquerda e direita são tradições que já não se bastam para traduzir este novo arquétipo de separação de águas. Porque, ou se sentiu o 11 de Setembro como um fait-divers localizado e contextualizado historicamente, ou se viu nele um ataque corrosivo a uma forma de vida com que nos identificamos: a democracia. Confesso que estou claramente deste último lado. Ao contrário do que ocorreu na dácada de noventa (pós-dicotomias USA-URSS), altura em que as posições se relativavam com amplitudes significativas, dando corpo a teorias pós-modernas e descontrutoras dominantes na época, hoje em dia tornou-se insuportável não tomar claramente uma posição e ocupar um campo. Não de forma rígida, estriada ou emocional; mas Sim de forma convicta, decidida e argumentada. Continuar a assobiar ao sabor do vento, procurando na brisa o confortável e dominantemente correcto é posição que, no dia a dia, mais desvalorizo. Infelizmente, basta abrir muitos jornais para ler e reler esse intertexto sem fim de tipo LeMondeano que bloqueia o pensamento, que anestesia o perigo e que abre espaço à ligeireza mais reaccionária (a conotação das palavras está sempre a mudar como explicou, há quase sessenta anos, Louis Hjelmslev).
Portugal é parte integrante da NATO há muito tempo. Esta vertente Atlântica da defesa faz sempre mal a muita gente. Para muitos é uma alergia ainda dos tempos da guerra fria, para outros é um vírus anti-americano que prefere ver na Europa uma grande Suíça sem compromissos e submete a sua defesa e a da democracia a uma retórica sobretudo autofágica. Ter o privilégio de viver em democracia é, para esses pacifistas de conveniência, um dado adquirido e acabado, como se a defesa da democracia e a sua permanente construção não fosse um processo e um percurso complexos, tantas vezes reversível. Não aceitar uma defesa efectiva da liberdade e da democracia, cedendo aos que ao diálogo preferem a cultura do terror e da morte, pode ser trágico. O prenúncio criado pelo 11 de Setembro de 2001 demonstra-o cabalmente. Viver em democracia para a denunciar permanentemente, recorrendo aos expedientes anti-americanos, aos truques hipocritamente legalistas e à apologia de uma neutralidade suicidária, continua a ser o apanágio de muitos. Entendo-o como um luxo que o Ocidente se dá a si próprio. Um luxo que é próprio da liberdade e das democracias criadas nesta área do globo em que nos encontramos, isto é, neste intercontinente Euro-americano. No mundo de hoje, baseado na logotecnia, no instantanismo tecnológico e na actualidade global, a democracia está, no dia a dia, a inventar-se a si própria com uma celeridade sem predecentes nos últimos dois séculos e meio. E vai ter que fazê-lo, cada vez mais, não só contra a cultura do terror e da morte que grassa no planeta, mas também contra todo o tipo de apaniguados da desconstrução democrática que habitam e respiram no privilégio da própria democracia. Essa é, em última análse, a maior lição que o 11 de Setembro nos lega, passados que são já três anos do seu prenúncio. Até porque o 11 de Setembro não foi apenas um facto, uma ocorrência, um evento. Ele foi e é um o encetar de um novo quadro em que estamos compelidos a viver. Nele se esbatem tipos de vida, modos de agir, definições de valores e parâmetros civilizacionais. Esquerda e direita são tradições que já não se bastam para traduzir este novo arquétipo de separação de águas. Porque, ou se sentiu o 11 de Setembro como um fait-divers localizado e contextualizado historicamente, ou se viu nele um ataque corrosivo a uma forma de vida com que nos identificamos: a democracia. Confesso que estou claramente deste último lado. Ao contrário do que ocorreu na dácada de noventa (pós-dicotomias USA-URSS), altura em que as posições se relativavam com amplitudes significativas, dando corpo a teorias pós-modernas e descontrutoras dominantes na época, hoje em dia tornou-se insuportável não tomar claramente uma posição e ocupar um campo. Não de forma rígida, estriada ou emocional; mas Sim de forma convicta, decidida e argumentada. Continuar a assobiar ao sabor do vento, procurando na brisa o confortável e dominantemente correcto é posição que, no dia a dia, mais desvalorizo. Infelizmente, basta abrir muitos jornais para ler e reler esse intertexto sem fim de tipo LeMondeano que bloqueia o pensamento, que anestesia o perigo e que abre espaço à ligeireza mais reaccionária (a conotação das palavras está sempre a mudar como explicou, há quase sessenta anos, Louis Hjelmslev).
quinta-feira, 4 de setembro de 2003
Géneros televisivos
O canal dois ia acabar e a sociedade civil ia patrocinar um outro novinho. Seria o Canal Conhecimento, embora esse nome fosse apenas um requisito técnico. Mas agora a grande novidade surgiu: acaba O Canal Dois e vem aí A Dois. Sim: A DOIS. Mudança de género, pois claro. Ou então, é outra possibilidade, o novo canal passará a andar a dois. Mas com quem ?
Faz lembrar o tempo em que Moniz, ainda na RTP, decidiu um dia criar um novo canal. Inventou na altura um berço para o marketing (piroso !) e tudo. E depois o que fez foi mudar o nome do canal. Deixou na altura, se bem me lembro, de se chamar Canal 2 para passar a ser a TV2.
E no cimo das árvores, as gralhas a darem-lhe.
O caos nem sempre é a mesma coisa.
Ou será ?
O canal dois ia acabar e a sociedade civil ia patrocinar um outro novinho. Seria o Canal Conhecimento, embora esse nome fosse apenas um requisito técnico. Mas agora a grande novidade surgiu: acaba O Canal Dois e vem aí A Dois. Sim: A DOIS. Mudança de género, pois claro. Ou então, é outra possibilidade, o novo canal passará a andar a dois. Mas com quem ?
Faz lembrar o tempo em que Moniz, ainda na RTP, decidiu um dia criar um novo canal. Inventou na altura um berço para o marketing (piroso !) e tudo. E depois o que fez foi mudar o nome do canal. Deixou na altura, se bem me lembro, de se chamar Canal 2 para passar a ser a TV2.
E no cimo das árvores, as gralhas a darem-lhe.
O caos nem sempre é a mesma coisa.
Ou será ?
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