quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Marcador de vidas (act.)

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Relembro, para começar, este breve excerto do prefácio que Luciana Stegagno Picchio escreveu para a segunda edição do meu romance No Princípio era Veneza (1990): “E é assim que o último desencontro de Antonioni e Maria, ele num quarto de hotel, em Milão, e ela numa cama distante, em Tel Aviv, parece simular a união ideal dos dois, embora agora a bordo de um sonho de olhos abertos, como se estivessem de novo juntos "sem sabê-lo, numa navegação ao sabor de uma miragem comum."
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Mas a paixão por Antonioni ganharia novos vínculos, quando vi e revi o Para Além das Nuvens, em 1996, (filme também dirigido por Wenders), tendo, em finais de Setembro desse mesmo ano, assistido a uma sessão com a presença do realizador em Montemor-o-Novo. Antonioni já não falava em público, mas a mulher fez as honras da casa, respondendo a todas as perguntas com muito entusiasmo, antes da projecção de um filme sobre a rodagem e os bastidores (behind the scenes) do Para Além das Nuvens. As quatro pequenas histórias (passadas em Ferrara, Portofino, Aix en Provence e Paris) de Para Além das Nuvens influenciar-me-iam depois na redacção de um conjunto de novelas que fui escrevendo, enquanto a lenta gestação do meu romance As Saudades do Mundo (1999) se ia fazendo. Essas novelas foram publicadas no DN-A ao longo do verão de 2001. Tudo ecos de Antonioni.
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Um grande autor é, portanto, muito mais do que um sábio e longo currículo; ele é sobretudo um activo marcador de vidas. De muitas vidas. Quase sempre incógnitas.
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P.S. - E o mais fascinante é descobrir o modo como o mesmo marcador de vidas se inscreveu um pouco por todo o lado. O caso de João Paulo Sousa é um desses universos que apenas hoje, naturalmente, é revelado.