quinta-feira, 3 de março de 2005

UM AMOR CATALÃO
Folhetim à moda clássica
SEXTO EPISÓDIO
(António Romeu revela uma descoberta)


- Eu hoje percebo que tu estavas a desabafar, estavas ali a ver-te de fora da tua história e, ao mesmo tempo, estavas a ouvir-te a ti próprio a contá-la. Como se precisasses de, como é que hei-de dizer... de deixar de confundir a tua imagem contigo mesmo.

António fez então um breve compasso de espera, como que a dar a Edmundo o inesperado fôlego de uma resposta:

- Muitas vezes a paixão traz consigo uma verdadeira deformação óptica. Vemos na amada a nuvem e na nuvem vemos o nosso próprio rosto a rimar com a Atlândida... mas já viste isto? Eu, aqui, no Penta, sem saber ainda porquê, a falar contigo de paixões? Mas isto é o quê?

Em frente, António acendeu o charuto, levantou-se e caminhou até ao pé da janela. Edmundo acompanhou lentamente o amigo com o olhar e depois auscultou o sinal de uma explicação.
Fez-se a primeira longa pausa, desde que o inesperado encontro se iniciara.
António assoprou uma longa e longilínea nuvem de fumo, uma espécie de zepelim a dissipar-se no ar e depois sorriu:

- Esse dia, Edmundo, foi, para mim, um dos mais importantes de toda a minha vida. É que eu percebi, pela primeira vez, que alguém vinha ter comigo, não para me pedir isto ou aquilo, não para combinar uma coisa prática qualquer, não para beber um copo e queixar-se da vida, não para tramar fosse o que fosse, não para lembrar ou esquecer algum louvor ou azar, mas apenas e tão-só para contar e partilhar, a sós, um segredo. Já agora, a Albe chegou, alguma vez, a saber que tu me contaste a história toda, tim-tim por tim-tim ?
- Por acaso... não.
- Eu sabia disso. Pura intuição. E há coisas que um gajo não esquece. É por isso que meti na cabeça, desde ontem à noite, que tu tinhas de ser a primeira pessoa com quem eu havia de falar.
- Mas diz-me lá, pá ! Acerca do quê ? Desembucha !

António voltou a sentar-se, olhou para o relógio e encheu os copos com mais whisky. Como se nada se passasse. Até que.

(No próximo episódio, Edmundo regressa às memórias da sua paixão por Albe, naqueles dias longínquos de 1968. A revelação de António Romeu pode esperar. Assim o solicitam alguns leitores)

Continua

(publicação simultânea da versão matricial em Inglês no blogue Minion)