Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012

Novos cursos EC.ON

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À oferta de 2012 (ver aqui os doze cursos), juntar-se-á, na Primavera que se aproxima, um novo curso de Cultura Contemporânea e um outro designado Literaturas Proféticas / Representações do futuro.

A Luz da Intensidade

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Estará nas bancas em Março: edição da Quetzal e um título cheio de intensidade.

Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012

Escrita Criativa - novos cursos EC.ON

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A oferta de cursos de escrita criativa da EC.ON (EscritaCriativaOnline.com) para este ano de 2012 está a ser muito bem recebida. De salientar a forte redução das propinas (uma média de 20%). Ver tudo aqui.
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Para além dos doze cursos que a EC.ON oferece, abriu já um novo conjunto de cursos leccionado por escritores convidados, nomeadamente por Patrícia Reis, Filipa Melo, Margarida Fonseca Santos e Paulo Querido. Ver tudo aqui.

Sexta-feira, 2 de Setembro de 2011

Mais um poema

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o presente é o cipreste de ouro:
e
rasga o vinco do arado quando avança entre magnólias
e outras espécies menores
e
alonga-se como se fosse um cisne apressado
a fazer a vez do tempo
e
os ramos empurram-se uns aos outros
e o traço de cera arde à luz do sol e assim se desfaz
e se faz ouro

Quinta-feira, 1 de Setembro de 2011

O último poema de hoje

e


estende
o corpo húmido
de báculo
pela escada em caracol
e
o gesto
desenha o nome da água
repartida
e
e assim entra na noite
como um caule
que se entranha no metal
do passadiço
e
penetra a laje e a lentidão
das ameixas
desce por si
como borboleta de granito
e
iça a corda o caudal a escama
e bakardi patrocina
este
programa

Outro poema

o sopro faz do vidro uma penumbra
a crescer entre o nada que já foi e a folhagem alta do socalco
e
leva a palavra com o nome que não se multiplica e por isso
da árvore cai a chama e não a folha
e
o sopro dá ao vento o que a alma dá ao vidro
uma combustão de máscaras
e
talvez um rio

Terça-feira, 30 de Agosto de 2011

Um poema para o fim do meu mês

e

dá por vezes o corpo como a música dá
a fonte
que não tem

e
a siflar anuncia
o secreto patamar
sem escadarias

e
e o vidro lentamente cose a sombra da calçada
escala a rua e verbera
a mansidão do eco

e
a siflar
dá por vezes a refeição do corpo a tangerinas
ávidas e depois esquece

Terça-feira, 23 de Agosto de 2011

A Dobra do Crioulinho

PM


e

Acabei o que virá a ser o meu próximo romance - A Dobra do Crioulinho - no último domingo de Julho. Ontem li-o (quase) todo pela primeira vez.

e

Publico aqui, pela primeira vez, um pequeno excerto:

e

"Fiquei à espera, mas por pouco tempo. Tirei uma segunda cerveja do frigorífico e pela janela vi a polícia de choque a atravessar o largo. Atravessaram a calçada como um rio negro que aparece e logo desaparece. Minutos depois o alarme deixou subitamente de se ouvir, mas sentiu-se ao longe um estranho tumulto de vozes. Silvie acordou, não se mexeu e sorriu na minha direcção.
d r
Francisco era um morto vivo a ver uma série que passava – estava sempre a passar – na televisão. Devia ser a Grey. Médicos a retirarem os órgãos a um homem que acabara de morrer na mesa de operações. O LCD não tinha som. Foi nessa altura que Violeta reentrou na sala. Trazia uma bandeja com três chávenas de café. Francisco e Silvie serviram-se. A noite estava cada vez mais quente e eu pensei que o mundo acabaria quando todas as histórias fossem contadas ao mesmo tempo.
d e
A ventoinha estava no máximo e as heras do alpendre tinham regressado a si: a serenidade das marcas. O vento desaparecera. Afastei com os dedos o cortinado e revi a calçada vazia. A geometria é a repetição de uma ideia simples, apenas isso. Violeta veio colocar-se a meu lado. O tumulto de vozes ao longe impressionava. Olhei para Violeta e senti-me a andar no descapotável. Bastava olhar para ela e estávamos os dois já a andar de carro. O desejo é um ser. Fora do desejo não há tempo. Apenas gravitas. E esta sala era um gravitas perfeito."

Sábado, 2 de Julho de 2011

Finalmente

e

O site do "EC.ON" (EscritaCriativaOnline), de que sou coordenador, acaba de reaparecer após longo 'rebranding'. O renovado espaço contém novas secções, proporciona muita informação e disponibiliza possibilidades técnicas inovadoras. Ler e ver tudo aqui.

Quinta-feira, 23 de Junho de 2011

Conteúdos - cânone - 17 (fé)





e


Quando dou conta do conteúdo fé, digo ou faço o que tenho a dizer ou a fazer. Mas, ao mesmo tempo, sigo o que o guião do conteúdo fé me diz sobre a certeza íntima de que algo irá acontecer.
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A fé: ver acontecer o que ainda não se realizou, como se se prefigurasse como certo aquilo que se desejou. A fé tem a característica expressionista da visão: estar dentro da cena que se imagina, mas estar nela antes ainda de acontecer e com a certeza de que irá realmente acontecer. Na fé há uma conversão espontânea de acontecimentos: entre aquilo que virá e aquilo que já existe na mais íntima determinação. Clube de futebol, lotaria ou deus são – todos eles – objectos de vaticínio da fé. Uns com ironia (ter fé e ver a fé com humor), outros com rigidez (ter fé e ver a fé com estriada seriedade). A fé é partilhável como fenómeno de massas – e aí tem contada toda a sua história pública ao longo de séculos e séculos de manifestações variadas –, mas é sobretudo, na sua auto-especularidade, um fenómeno íntimo. Um jogo egotista de certezas. Uma coerência tão fechada quando silenciosamente monologada. A fé existe como um conteúdo que não deseja ser definido. O senso comum traduz a intraductibilidade justamente nessa medida: “É uma questão de fé!”. Essa longa história do inexplicável e, em certos aspectos, da sujeição de alguém a uma fé partilhável porque impositiva – neste caso, um tabu que não se pode por dogma aflorar – transformou a questão em algo incómodo. Por vezes insuportável. A atitude moderna, por exemplo, sempre se tentou definir contra a fé. Afirmação por contraponto, portanto. Embora, nessa definição, a fé reaja com assimetria devido ao que mais a alimenta: a intimidade. A fé é essencialmente uma forma de resistência: poder ver o que não é dado a ver pelo real mais imediato. Crer nessa possibilidade e realizá-la, tal como a arte se realiza sem necessitar de se referir seja ao que for. É esse o guião da fé: uma visão que se confunde com o ser que a tem.

Sábado, 18 de Junho de 2011

Conteúdos - cânone - 16 (massificação)

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Quando exprimo a ideia de massificação, exprimo o que tenho a exprimir. Mas, ao mesmo tempo, sigo o que o guião do conteúdo “massificação” me diz sobre um corpo decapitado que sorri como se o mundo fosse um ‘reality show’ sem princípio nem fim.
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A massa foi sempre uma preocupação moderna. De Marx a Ortega Y Gasset. Mas a massa moderna era um caudal que ameaçava, perturbava ou se alienava. Tanto faz. A massa era sobretudo um caudal que criava contrastes, porque convivia com entidades que eram o positivo ou o negativo da própria massa. Elite, intelligentsia, classe, nomenclatura e outros termos designaram essas entidades. A massa moderna era um rio poderoso que contrastava com a serenidade das margens. Nas margens fazia-se a política, a literatura e o mito. No rio – e sôbolos rios (grandes revoluções) – fazia-se o resto. As inundações marcaram, por isso mesmo, grande parte da história dos séculos XIX e XX. No nosso tempo, o rio e as margens desapareceram. O rio envolveu as margens e as margens envolveram o rio. Nem um nem outro hoje se reconhecem. O que deles sobrou foi um efeito de massa: um manto em 3D que avança em direcção ao sentido. Como se tudo pudesse acontecer: com a agravante de que os ares de clímax são tão simulados quanto reais. A crise dos mercados representa, no novíssimo palco, o drama da massificação: tudo se comprou, tudo se construiu, tudo se esbateu e tudo se disse. E agora, aberto o abismo, a massa reage como um caudal sem margens. Tal como uma angústia profunda sem objecto preciso. Esse ‘pathos’ é a própria natureza da massificação: um corpo decapitado que sorri, como se fosse para sempre, diante dum ‘reality show’ intemporal.

Conteúdos - cânone - 15 (falha)

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Quando comunico que algo falha, comunico o que tenho a comunicar. Mas, ao mesmo tempo, sigo o que o guião do conteúdo “falha” me diz sobre um mundo em que a falha se tornou na coisa mais comum que se pode imaginar. Puro espectáculo.
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Vivemos num mundo em que a falha se vulgarizou. Sem receituários (baseados na harmonia ou na perfeição) capazes de dar algum sentido aos actos do dia-a-dia, a vida passou a ser recheada por falhas. É por isso que notícias passaram a incidir muito mais na repetição da repetição (nas meta-corrências) do que em falhas, inversões, acidentes e outras anomalias. Torna-se, hoje em dia, muito mais difícil distinguir o que escapa à ordem natural, normal ou previsível das coisas (o “segno” medieval) do que em qualquer outra época. Justamente porque, neste ‘mundo pós’ – deixou de existir uma ordem natural, normal ou previsível para as coisas. A normalidade é, no nosso tempo, um firmamento de falhas: uma curva que religa simultaneidades que disputam e desafiam o código que vão criando. Micro-narrativas, micro-códigos e micro-discursos: um terreno pouco estriado e aberto, mas seguramente fértil para o culto de falhas. Ao ter-se vulgarizado a falha, o alarme deixou de com ela conviver. Antes se exilou e foi deixando em pé de igualdade o pasmo criado diante das torres gémeas – há uma década – ou o pasmo criado diante da morte de Diana – há década e meia (tudo passou a ser encarado como espectáculo e todo o espectáculo foi deixado em pé de igualdade). Os pasmos tornaram-se quase todos iguais e passaram a sintonizar uma mesma frequência. Bits como factos. Os pasmos tornaram-se vórtices sensoriais dos media e passaram a ignorar o alarme que sempre foi gerado pela própria falha. Um circuito vulgarizado pela falha – de que a generalização dos erros ortográficos é uma óptima metáfora – é um circuito que se impõe pela inclusão sem diferenças. Uma inclusão sem diferenças é uma massa informe que tem a falha como identidade.

Sexta-feira, 17 de Junho de 2011

Conteúdos - cânone - 14 (sms)

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Quando envio um/uma sms, exprimo e faço o que tenho a exprimir e a fazer. Mas, ao mesmo tempo, sigo o que o guião do conteúdo “sms” me diz sobre a redescoberta da palavra como desmontagem e elipse ao serviço de uma transfusão da linguagem.
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Um/uma sms molda a linguagem para caber em qualquer lado (ou em qualquer género). Já um toque é apenas a interrupção simples de um tempo em princípio plano. Um toque tenta criar fronteiras entre o antes e o logo que o sucede. Como se um dedo apenas fizesse criações descontinuadas. A interpelação, por seu lado, já é um esboço de narrativa, mas o toque ainda não: simples aceno. O/a sms é também uma espécie de toque, mas com alguma ressonância e amplitude. Mera flutuação que se distende ao longo de vários caracteres, como se um desejo de narrar fosse evocado mas logo fugisse e não passasse de uma sugestão à procura de encantamento. O/a sms dilata o vórtice do toque, dá-lhe águas, esquece fronteiras e acaba por inscrever um desejo como breve traço ao longo do tempo. Se o toque interrompe, o/a sms esvazia o balão da palavra: é essa a sua duração. É esse esvaziar que, ao preencher uns tantos segundos de leitura, acaba por dar perfil e espessura ao/à sms. Moldar a linguagem é fazer do vaivém entre ar e balão um sentido que nunca se esgota. Um sentido sempre em aberto: palavras de fractura, pontos insinuantes, consoantes nuas, parêntesis com rosto, vírgulas risonhas e sufixos com perfil de puras elipses.

Conteúdos - cânone - 13 (tempo real)



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Quando exprimo a ideia de “tempo real”, exprimo o que tenho a exprimir. Mas, ao mesmo tempo, sigo o que o guião do conteúdo “tempo real” me diz sobre a possibilidade de não existir nem futuro nem história.
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Sabe-se que o tempo não é capturável. É isso que o determina, seja ele cronológico (chronos) ou ligado a invariantes (aion). O tempo é um conteúdo que ocupa a percepção de uma passagem. Mesurável ou ético, não mesurável ou émico, o tempo existe para além do código, seja ele qual for. A designação “tempo real” pretende assinalar uma coexistência entre o acontecer (tornado conhecido) e o acontecimento. Trata-se de generalizar a contingência em flagrante. O que não é “tempo real” está fora de jogo. Mas no jogo do “tempo real”, tudo se assinalaria e incorporaria no instante em que emerge. O que torna real o “tempo real” é a sua extrema irrealidade. Esse paradoxo é, afinal de contas, o seu dom e também o lado mais apelativo do seu uso. Ao repetir até à exaustão “tempo real”, o tempo corre até o risco de se tornar capturável. E uma ilusão em era de ilusões é a mais pura das verdades. O guião do conteúdo “tempo real” é, pois, tão assertivo quanto inebriante. Toca os sentidos e invade o domínio das certezas cronológicas. Para além do “tempo real” já não existe história nem futuro. O “tempo real” impõe-se, deste modo, como único momento, ou como uma espécie de clímax exclusivo de uma narrativa que se bastaria ao instante. Uma coexistência e uma intensidade que não deixam – ou que não deixariam – respirar.

Conteúdos - cânone - 12 (património)

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Quando exprimo a ideia de património a alguém, exprimo o que tenho a exprimir. Mas, ao mesmo tempo, sigo o que o guião do conteúdo “património” me diz sobre um culto que vai resistindo com bastante ímpeto nas malhas da cultura dessacralizada.
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Há mais de dois milénios, o conteúdo cultura andou associado à ideia heideggeriana de ‘cuidar de’ – cuidar da terra e dos animais, num sentido relativamente neutro. Um sentido de teor secular (que surge em Plutarco ou Cícero) remeteu, por conotação, para a ideia de cultivo do ‘espírito humano’ e havia de se projectar, até aos nossos dias, em significações como “desenvolvimento intelectual’, ‘saber’, ’estudo’, ’esmero’ ou ‘elegância’. Um terceiro sentido atribuído ao conteúdo cultura, o de Santo Agostinho, transpôs, na Idade Média, o conceito para o modelo divino de ‘culto’. Um quarto sentido surgiu, já no Illuminismo, por via do alemão Herder que estabilizou a noção moderna de cultura enquanto objectivação da totalidade do produto humano realizado, independentemente dos seus autores subjectivos. Nesta perspectiva, a imaterialidade e a materialidade historicamente acumuladas pelas comunidades (língua, terra, tradição, objectos ‘culturais’, etc.) tornaram-se em novos objectos de culto. O património – que tem apenas algumas décadas de vida – descende desta ‘inovação’ já com dois séculos e meio e projecta-se sobretudo no edificado, no meio construído e nos próprios quadros do vivido. No fundo, uma recuperação da ideia de culto no meio de um mundo que se dessacralizou. O conteúdo património redescobre-nos, deste modo, no centro de uma redenção que nos é docemente revelada pela cultura. Algo para levar muito a sério, quando da realidade se apearam já quase todos os altares.

Conteúdos - cânone - 11 (rede)

7 e

Quando comunico a ideia de rede, veiculo o que tenho a veicular. Mas, ao mesmo tempo, sigo o que o guião do conteúdo “rede” me diz sobre o lugar que ocupamos e os lugares onde interagimos numa vastíssima conexão aparentemente sem fim, nem hierarquias.
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A rede é um daqueles conteúdos que tende a surgir em todas as épocas e que serve essencialmente para enquadrar o todo da realidade, para a designar de modo confortável ou até para a tentar explicar de uma maneira económica. No nosso tempo, a simulação de extrema proximidade atravessa, quer o sentido criado pelos dispositivos tecnológicos, quer a interacção – quase corporal e estésica (intensíssima a nível sensorial) – que o ser humano passou a estabelecer com esses dispositivos. A rede decorre desta assunção criada pelos interactores digitais e pelas mediações humanas que com eles concorrem em permanência. Na rede, a diferenciação entre actores e personagens discretos não é relevante, pois o que a significa é o esteio pancomunicacional. Há na rede uma gramática holística – ou totalizante – que se assemelha à visão medieval de deus ‘todo poderoso’, embora o regime vertical (céu-terra) tivesse sido substituído por uma espécie de majestoso e infindo ‘self-service’ (chão a todos os níveis). Este nivelamento da estrutura clássica desestrutura, do mesmo modo que a coerência de todas as relações sistémicas clássicas é, na rede, ‘assistemizada’. A rede é um conteúdo extremamente eficaz, pois reúne, na sua brevidade, a larga maior parte dos mecanismos de significação do nosso dia-a-dia. A rede é efectivamente uma espécie de 'story line' de um guião maior, capaz de colocar em cena a totalidade da nossa vida actual.

Quarta-feira, 15 de Junho de 2011

Conteúdos - cânone - 10 (dever)

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Quando exprimo a ideia de dever a alguém, veiculo o que tenho a veicular. Mas, ao mesmo tempo, sigo o que o guião do conteúdo “dever” me diz – se for ainda possível decifrá-lo – acerca de uma certa determinação íntima para agir.
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O que já foi tracção, contenção e freio auto-impostos passou a corresponder a uma lógica de mãos soltas. O que se faz, faz-se com fôlego de contracultura embora sem qualquer alvo a destronar. Uma liberdade que não quer ter na sua frente qualquer obstáculo que a caracterize, embora Hobbes a tivesse definido, precisamente, como uma força que se expande até ao momento em que encontra um obstáculo. Sem obstáculo, sem tracção e sem alvo, a liberdade passa a ser um corpo sem pele. O dever é a entidade invisível que separa esse corpo dessa pele. O dever é hoje uma efígie ou um enigma sem história e não já uma determinação íntima com consequências reais. Um vórtice de narcisismo, fluxo, consumo e de repetição da repetição passou a habitar a casa do dever. A ordem que no tempo das regras axiais instaurou o dever como algo natural passou da nuvem que lhe dava a natureza a um vazio ainda à procura de nome.

Conteúdos - cânone - 9 (projecto)

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Quando dou conta da ideia de projecto, faço o que tenho a fazer. Mas, ao mesmo tempo, sigo o que o guião do conteúdo “projecto” me diz sobre a quase certeza de que algo, um dia, irá encarnar ainda que sem corpo claro e definitivo.
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Projectar deixou de ser a preparação para algo acabado e orgânico. Projectar passou a ser um estado definido pela preparação inorgânica e ininterrupta. Um projecto confunde-se com um processar que não é maquínico, nem digital e que sobretudo não visa almejar metas, mas antes conter-se na realidade de um ‘work-in-progress’. Projectar significa crer no curso das coisas ou no simples decorrer em ‘media res’, sem dar confiança às ameaças de um acontecimento final. O projecto é uma recusa em sucumbir face ao acontecimento, embora seja este que o justifica. Saltando da arquitectura para o design e daí para todos os modelos projectuais do dia-a-dia, o projecto passou a ser notícia, porque a notícia também vive em estado de projecto: acontecimentos fluidos que se encadeiam na fluidez dos meta-acontecimentos. No projecto, o que avança é a tentação do acto ou, por vezes, a consolidação de uma entidade abstracta que se assume como possível. Um proto-real transitório que prefigura a hipótese plural do acontecimento, mas sem o desejar. O projecto prolonga-se no próprio projecto.

Terça-feira, 14 de Junho de 2011

Conteúdos - cânone - 8 (criação artística)

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Quando faço arte ou comunico algo relacionado com a criação artística, faço/comunico o que tenho a fazer/ a comunicar. Mas, ao mesmo tempo, sigo o que o guião do conteúdo “criação artística” me diz sobre uma certa exclusividade em aceder ao inexplicável através de formas tangíveis e imagináveis.
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A imaginação foi um dos alicerces da modernidade (de Hume a Kant, a ideia evoluiu meteoricamente). A imaginação passou a ser sobretudo um dispositivo de produção ficcional que visa, a partir da tabula rasa (Damásio refere-se à mente como “contadora de histórias”), a possibilidade de tornar real dados sondados pelo sujeito. É este o alicerce do artista – que tem acesso a visões de completude ou de totalidade – sonhado pelos românticos alemães, sobretudo pelo chamado Círculo de Jena. No entanto, a estética no seu devir idealista, só se enuncia, pela primeira vez, ao longo de setecentos, porque antes haviam sido criadas condições para tal. A intemporalidade mitológica deu lugar à transcendência e esta deu lugar ao sujeito moderno criador e questionador. Entre as duas últimas etapas, o gnosticismo foi uma corrente de várias proveniências mas com duas características essenciais: uma dimensão salvífica e a aceitação da gnose como conhecimento dos mistérios reservados a uma elite. Foi sobre esta disposição superadora e de busca do inexplicável que, milénio e meio depois, foi possível teorizar e crer na arte e na estética, tal como as entendemos ainda hoje. Por outro lado, a pressuposição dos sentidos e da imaginação como vias ligadas a faculdades superiores do homem completaram o quadro e legitimaram as funções da arte e da estética no mundo moderno, elevando a dimensão criativa de todo o sujeito e atribuindo-lhe sobretudo o crédito de uma espécie de gnose exclusiva, superior e irrespondível (de que o “génio” de Kant foi apenas o prenúncio).

Conteúdos - cânone - 7 (fim)



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Quando comunico o fim de qualquer coisa a alguém, faço o que tenho a fazer. Mas, ao mesmo tempo, sigo o que o guião do conteúdo “fim” me diz sobre a mais absoluta fatalidade ou – há aqui uma alternativa – sobre o modo de escapar a tal absoluto.
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A dificuldade em objectivar o fim está ligada ao facto de ser impossível objectivar um tempo sem fim. O tempo sem fim que foi sendo imaginado pelo homem, ao longo de milénios e milénios, desliza da experiência à linguagem, como se a força da gravidade empurrasse tais devaneios apenas para dentro da linguagem. Na impossibilidade de clarificar estes dois contrários ‘fim’-‘tempo sem fim’, é um facto que em vez da imagem do negativo fotográfico (de tipo analógico), o que sobra – é mesmo uma questão de sobrevivência – é a ideia de que o fim não pode nunca ser uma ruptura, uma falha, ou uma queda para o abismo, mas sim um espaço derradeiro onde se tornaria possível conter o tempo. Até porque o ‘depois do fim’, tão bem representado pelas muitas teorias ‘pós-qualquer coisa’ – que emergiram nas últimas décadas do século XX –, é sempre uma varanda aprazível de onde se passou a contemplar o próprio fim. Uma varanda larga e solar que representa a continuação sine die do relato que está em vez do fim. Como se os fins se multiplicassem: um fim gerando sempre outro fim, mas todos do ‘lado de cá’ dizendo não – de vez – ao próprio fim.

Conteúdos - cânone - 6 (digitalizar)

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Quando digitalizo, faço e exprimo o que tenho a fazer e a exprimir. Mas, ao mesmo tempo, sigo o que o guião do conteúdo “digitalizar” me diz sobre a mágica superioridade do modelo em relação ao real.
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Os sistemas digitais recorrem a valores e a naturezas discretas e descontínuas para representarem informação. No entanto, essa informação pode ser representada através de letras, números, ícones e signos contínuos, tais como as imagens e os sons. O representado e o representante acabam por ser tão parecidos, ou quase iguais, que a simulação deixa de ser um dado sequer a ter em conta. O uso dominante do digital, nas imagens, na reinvenção de sonoridades e em toda a electrónica em geral decorre da metamorfose sem dor da realidade em sinais de tipo binário. Ao contrário dos sistemas analógicos que recorrem a intervalos contínuos para representarem informação (também contínua), o digital faz suspeitar que um corpo possa ser realmente um corpo. No limite, o digital fará do espectro o corpo verdadeiramente ideal. Como se deus fosse afinal a encarnação do homem.

Conteúdos - cânone - 5 (crise)

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Quando comunico a ideia de crise, faço o que tenho a fazer. Mas, ao mesmo tempo, sigo o que o guião do conteúdo “crise” me diz sobre o entendimento possível do presente, ou doutro qualquer tempo que nos escape, ou que não cheguemos efectivamente a controlar.
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Quando dizemos crise, estamos a dizer o modo como compreendemos a actualidade. Mas quando dizemos “a crise” já estamos a cair na tentação de a compreender. De qualquer modo, nesta etapa em que a crise aparece definida e clarificada (como se fosse algo familiar – “a crise”), sucede, de modo óbvio, o tempo em que a procura nos oráculos e nas entrelinhas das “Escrituras” prenunciava respostas para tudo. A ideia de crise veio substituir todas essas demoras. A crise é, por isso mesmo, um jogo de expectativas que se tenta aproximar da realidade, embora se saiba que esta é sempre mais complexa do que todas as receitas. Um jogo fascinante que, por vezes, se identifica com a solução. O cenário passa assim a ser o real. Por isso se diz “a crise” em vez de “crise”, para que não seja apenas mais uma.

Conteúdos - cânone - 4 (espera)

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Quando espero algo ou alguém (ou comunico uma dada espera), faço o que tenho a fazer. Mas, ao mesmo tempo, sigo o que o guião do conteúdo “espera” me diz sobre o tempo que desagua na ausência de um horizonte.
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As metáforas da espera estão sempre à espreita de Godot e de Penélope: dois modelos baseados na apreensão e no drama que pressupõem a interiorização de um possível e desejado desfecho. Ao preencher-se a duração em função de algo ausente, o presente torna-se presente como nunca. Porque a sua natureza de ‘ainda-não’ vai-se tornando na expectativa de um ‘ainda-nunca’ que ilumina – de um modo oposto à nostalgia – o acontecer do ‘tempo-a-passar’. A espera não é, pois, apenas aguardar. A espera é mais abismada, pois vive sem a leveza que admite uma interpelação ou um corpo regressado em manhã de nevoeiro.

Conteúdos - cânone - 3 (zapping)

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Quando faço zapping, faço/exprimo o que tenho a fazer/a exprimir. Mas, ao mesmo tempo, sigo o que o guião do conteúdo “zapping” me diz sobre a errância como estímulo e forma de vida.
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O zapping é um movimento que suprime enquanto revela. Ao fim e ao cabo, designa um salto ou um gesto em zigue-zague que vai dando sucessivamente a ver, podendo regressar para de novo voltar a derivar. Ao contrário do “upgrade” que apaga para sempre e remove, o “zapping ondula e revela por intermitências e com uma intensidade variável, pois pode revelar na sucessividade de fracção para fracção temporal. A nossa mente está, de qualquer modo, mais próxima do funcionamento por “zapping” do que do funcionamento por “upgrade”.

Conteúdos-cânone - 2 (upgrade)

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Quando faço um "upgrade", faço o que tenho a fazer. Mas, ao mesmo tempo, sigo o que o guião do conteúdo “upgrade” me diz sobre a morte necessária do passado (da memória) e a crença apenas no que se vai tornando actual.
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Fazer ou dizer "upgrade" é levar a cabo a metáfora ideal que significa enterrar o passado e tornar presente qualquer coisa que o substitua. A amnésia colectiva vive à custa de uma centragem absoluta na esfera do presente. E não há conteúdo mais preciso do que “upgrade” para dizer o tudo que quero e devo remover em benefício do sempre-actual que inevitavelmente desejo actualizar. Um tipo de revelação única do ‘hic et nunc’.

Revisitação

Jantar de 22/06/2006 (Alcântara)

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Como já não fazia há mais de três anos, passei hoje por vários blogues. Os mesmos que, entre 2002 e 2008, visitei diariamente (foram estes: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, catorze, quinze e dezasseis – ordem arbitrária, claro). Verifiquei que estão ainda lá todos. E que se recomendam. Tudo se passou como se eu tivesse saído de um mundo – ou de uma cidade – e agora regressasse, hesitante, com aqueles tiques à Pavese que evitam tentações nostálgicas. Mas não as tive, seguramente. Senti na extremidade do olhar – esse estigma que lê e que sabe dar volta às entrelinhas – uma espécie de fio-de-prumo cansado. Algo suspenso no tempo que reataria, por reatar, o que sempre foi. E o que sempre lá esteve. Imaginar agora que a vida nos podia surpreender com mudanças de facto! Como acordar e ver um sol maior, ir dormir e ver duas luas no céu ou blogar e encontrar diamantes em vez de pérolas elementares. Sonhamos, creio eu, porque entendemos a passagem como uma espécie de ‘tempo real’ que miraculosamente substituiria, um dia, o próprio acontecimento final. Enfim, parece que houve eleições em Portugal, não foi? Eu sei, eu sei, disso saberão tudo. Muito mais e melhor do que eu.

Segunda-feira, 13 de Junho de 2011

Conteúdos-cânone - 1 (progresso)

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Quando recorro à noção de progresso, digo e faço o que tenho a fazer e a dizer. Mas, ao mesmo tempo, sigo o que o guião do conteúdo “progresso” me diz sobre a inevitabilidade de o amanhã ser sempre melhor do que o hoje.


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Um fatum que é veiculado como se predicá-lo e referenciá-lo bastassem para que assim fosse. A crença é recente, tem século e meio de vida activa, mas está impregnada em todos os discursos que vão dando vida ao quotidiano.

Literatura e pensamento: um salto, dois devires

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Acaba de sair a público o editorial da semana do site PNETliteratura. Ler tudo aqui.

Segunda-feira, 6 de Junho de 2011

Oferta actualizada dos cursos EC.ON

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Toda a oferta actualizada dos cursos EC.ON (EscritaCriativaOnline) num único PDF. Leia tudo aqui.

Hernán Rivera Letelier

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O editorial do site PNETliteratura desta semana é sobre um escritor chileno que li pela primeira vez: Hernán Rivera Letelier. Poderá entrar no texto aqui mesmo.

Terça-feira, 31 de Maio de 2011

Camilo

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Saiu ontem a público o editorial da semana do site PNETliteratura. Ler tudo aqui.

Quinta-feira, 26 de Maio de 2011

O design como abordagem

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Neste link podem ainda ser lidos todos os editoriais que escrevi - quase durante um ano - para o site PNETdesign. As palavras vão e outras vêm. Fica apenas o que as fez partir para este mundo, um dia. O que terá sido, realmente? (a foto é de uma estante do Ron Arad).

Um alívio


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Finalmente suspiro de alívio. Porquê? Nenhuma razão confessável. O que se poderia confessar não tem lugar na esfera do que se diz. A confissão pertence a uma esfera que herdamos silenciosamente, tal como se pode herdar a forma de uma âncora depositada num cais. Formas que dão ao corpo a sua forma. Seja o corpo da confissão, seja o corpo de um utensílio como é uma âncora. Dizer pertence a outra esfera: acto imediato que molda linguagens que nos são dadas e que reinventamos para separar o que fica do que jamais poderia ficar. Eu não digo um boi, digo o que sugere aquele animal em concreto. Eu não confesso a minha ira, confesso o que a confissão me diz sobre a possibilidade de me libertar de qualquer coisa, proferindo-a.

Segunda-feira, 23 de Maio de 2011

Ignição e leme

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A agradável sessão a que compareci na passada quinta-feira, na Biblioteca Municipal António Botto de Abrantes, fez-me perceber que é injusto relegar para terceiro plano este meu espaço na rede que, ao contrário do que consta no Header, cumprirá oito anos de vida em Julho próximo. Verifiquei que a cuidadíssima apresentação que José Alves Jana fez dos meus livros (sem esquecer os ensaios) teve como fonte, em alguns aspectos, o arquivo vasto que o Miniscente já incorpora. Irei, pois, tentar passar, pelo menos, a registar - tal como faço no Facebook - os editoriais, artigos e conferências com que vou dando ignição e leme aos meus próprios traços. Afinal um blogue é um espaço de inscrição pessoal, de auto-referência e de íntima navegação.

Roth vs. Oliveira

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Já saiu o editorial do site PNETliteratura desta semana. Desta vez a abordagem relaciona o último Roth com um filme de Manoel de Oliveira. Ler tudo aqui.

Quinta-feira, 5 de Maio de 2011

O rumor das regateiras

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Um rumor propaga-se ao longo da rua. Um rumor cresce com os anos. Há nestes rumores uma repetição. O que é dito e redito não deixa de repetir o troar das palavras de ordem. De um lado e do outro do espelho. E o mais difícil é sair do meio dessa simetria insidiosa. A favor ou contra, da direita ou da esquerda, o que se diz é quase sempre o mesmo: a repetição. Uma repetição que escapa ao jogo, ao imponderável, à tentativa de superação. E lá continua sempre o mesmo rumor ao longo da rua, ao longo dos anos, ao longo da cortina estriada dos media. Sejam media clássicos ou destes - ligados à rede - que chegaram a ser aparentemente mais livres e até promissores. Há um niilismo no discurso público que o faz ser cinza antes de arder. Não há labaredas no rumor que cresce com o pasmo dos anos. A aridez veio e chegou para vencer. E para ficar.

Sexta-feira, 8 de Abril de 2011

Repondo o báculo

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Quase deixei de blogar. Ou seja: estar aqui entre bloggers a espreitar os navios em forma de link. Tarefa datada, hoje esvaziada. Onde andarão os bloggers com quem tanto contracenei no início da década passada? Sem querer generalizar, é óbvio que não faço a mínima ideia, nem nada me impele a procurá-los. O acaso há-de reencaminhar-nos uns aos outros, ou não. Os caminhos desvendam-se, segredando. Caminhamos, articulando a chama do presente com os motes que nos fazem o ser despontar na e para a vida. O meu texto é ainda o mesmo, sendo já outro. Move-se como um cisne que levanta o pescoço até aos ramos das árvores onde dorme folhagem e silêncio.

Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011

Novo Logo do EC.ON (EscritaCriativaOnline)


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Eis que o novo logo do EC.ON apareceu. Em breve, os novos sites EC.ON irão também surgir e permitirão inscrições quase instantâneas nos dez cursos online de escrita criativa, nas assessorias literárias e ainda nos seminários presenciais (como o "Escrita em Contexto" anunciado há apenas dois dias aqui.

Segunda-feira, 10 de Janeiro de 2011

ESCRITA EM CONTEXTO

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Vem aí uma vaga de seminários presenciais e intensivos de escrita criativa em regime de turismo cultural (a partir de Março no primeiro fim de semana de cada mês). Esta iniciativa - que reservará para si todo o EvoraInn-ChiadoDesign - corresponde à realização de um desejo expresso amiúde por muitos dos formandos com quem trabalhei online desde o ano de 2005. Ler tudo aqui.

Sexta-feira, 24 de Dezembro de 2010

O Natal


O Natal é uma era que passei a não gostar. Para mim, era ideal saltar de 20 para 27 de Dezembro num balão e, talvez, na companhia de René Clair. No meio do encanto hipnótico das crianças (único Natal que tem sentido), as famílias entram em estado de choque e as estatísticas dizem que os divórcios, as zangas intestinas e as desavenças (expostas ou guardadas a sete chaves) se tornam, de um momento para o outro, em vendaval. Este aspecto carnavalesco, que tanto toca a ilusão das cores como a sangria doméstica, é disfarçado pela música de cravo que ornamenta as nossas praças. Enfim, eu posso refugiar-me e sorrir. Há quem prefira entrar no baile com a devida venda nos olhos. A cada um a sua liberdade. Seja como for, a ironia diz-nos que o Natal sabe bem à lareira, que chegam mensagens cordatas via mail, FB ou sms, que há doces, que há redescobertas do passado (ir de bicicleta ao musgo), que há presentes. Que há surpresas. Tudo isso é verdade, mas tenho a sensação de que seria ainda melhor se nos deixassem realmente em paz. Eu disse "paz"?

Terça-feira, 21 de Dezembro de 2010

A amizade é uma estética

A amizade é uma estética. Na morte de Carlos Pinto Coelho.




A amizade é um culto que se traduz através de uma crença que não tem nome. Um culto que se move e que está nos olhos de quem sabe protagonizar a amizade. Não há um centro na amizade, nem há um programa para a amizade. Ser-se amigo é dizer a intimidade sem filosofia e confidenciar o nome dos deuses sem qualquer deus por perto. Uma espécie de estética profunda, ainda que sem necessidade de arte.



Quando o dizer da amizade joga profundamente na vida, é verdade que se chega a tornar num dizer quase invisível. Tão transparente que mal se deslinda. Passa a ser um dizer oculto. Basta-nos o estar lá. O aparecer, ou tão-só o revelar-se de quando em quando. Mas quando o móbil da amizade desaparece – a morte, sim a morte! –, salta de imediato aos olhos esse dizer espesso de amigo e toda a sua relevância feita de matéria concreta.



O problema é já não poder entrar no escritório para dizer a quem já lá não está: “Mas por que raio é que morreste, meu grande sacana?”. Eu gosto dos verões a escaldar com o Carlos Pinto Coelho a chegar à minha casa de camisola branca e com uma garrafa de JB debaixo do braço. A Clara sorria e sabia perfeitamente que o mundo ali se reiniciava. Sim: como se a máquina do mundo tivesse bloqueado e fosse nossa tarefa, agora, reiniciar tudo de novo. É isso a amizade: um dom que existe para gerar outros dons.



O José M. Rodrigues fotografava os pequenos logros, os grandes acasos e os folhos do cortinado onde esvoaçavam palavras em forma de leque. O Carlos mostrava as suas paisagens de África como se fossem chão a respirar virgindade. A Fátima e a Isabel cantavam. O Alberto dizia o Régio que depois engrenava em uníssono. A Clara abria as papoilas como se o limoeiro do pátio estalasse à procura da sua sombra. E havia muitos outros nomes a fazer coisas que incendiavam o nada: esse planeta onde a poiesis da vida é coisa sagrada.



Era disso que eu gostava e é sobre isso que vale a pena escrever numa morte. Porque morrer é uma casa enorme sem geografia. Um aceno amputado. Um adeus que diz 'vem cá'. Ainda que a viagem literalmente continue: há-de ser verão e a linha de Mora, desalojada e erma, voltará um dia a ser fotografada. E há ainda o Harry´s Bar semeado entre xisto algarvio e umas oliveiras insanes que brotam da terra onde menos se espera. Como o maracujá da Madeira a bordo do gin tónico. Ou a minha trapista a bater o coração.



E pronto. Eu tinha que escrever em Évora por causa da morte de um amigo que ajudei a trazer para cá. Não que eu esteja em paz em Évora. Mas há deveres que são como a chuva. Estão muito para além da intriga menor e do juízo das narrativas de porcelana. Molham e fazem do corpo um mar que se revolta com a extrema mansidão das estatuetas. Eu hoje vou subir ao meu terraço e vou olhar para o fundo. No limiar do continente, vou voltar a segredar-lhe – sou muito chato! – que a amizade é um culto que se traduz através de uma crença que não tem nome.

Quarta-feira, 19 de Maio de 2010

O último romance de António Manuel Venda

O sorriso enigmático do javali é um livro sobre a intimidade. Laços chegados à experiência que torna a vida numa escola de pequenos gestos. O minúsculo toma muitas vezes conta da acção, também ela lida e relida através de um microcosmos caprichoso e ditado pela lei das muitas proximidades. Tudo nesta arena ficcional criada por António Manuel Venda é cúmplice, órgão com órgão, interrogando pistas, processos, revelações, o próprio sentido. O protagonista, um jovem baptizado cripticamente por “pequeno Tukie”, é o elo fundamental do argumento e o núcleo aventuroso a partir de onde a narrativa constantemente se reinicia. O que acontece por uma dúzia de vezes, desde o primeiro dos ‘incipits’ que cruza, de modo meteórico, o movimento de duas perdizes, a memória de uma garça, o olhar atento do protagonista e a terra da “Herdade do Convento” que se anuncia como geografia nevrálgica de todo o relato.

O pequeno Tukie testemunha, ao longo das doze estações deste ciclo ficcional, um conjunto de factos que resvalam, de modo súbito, de uma esfera normal e verosímil para uma outra, cuja identidade nunca se fecha ou declara. Aliás, é esse estado de metamorfose sempre em suspenso, ou de laboratório em contínua efabulação, que liga – repito intimamente – as doze histórias que compõem O sorriso enigmático do javali.

Existe realmente um pasmo de ‘media res’ – um enredo que respira fundo sem que se lhe conheça início ou fim precisos – que atravessa todos estes relatos, cuja simetria assenta mais na alegoria dos propósitos do que na ficção narrativa propriamente dita, enquanto agir que tende para o abismo de um clímax. Um pouco como no Émile de Rousseau, embora elevado ao maravilhoso, o quadro geral desenha, na boca de cena, o pequeno Tukie e o pai e, junto ao pano de fundo, o bebé, a mãe e os cães. Como, aliás, se sintetiza no final da décima história em jeito de concatenação fotográfica.

Mas o que concede a singularidade a este livro de António Manuel Venda é o modo delicado e enraizado (nos elementos puros) com que é posta em prática a metamorfose em suspenso que vai moldando cada uma das doze histórias. Se levarmos a cabo uma visita guiada a estas viragens que nunca desocultam completamente o seu rosto e o seu molde, apercebemo-nos de que são variadas, quer pela natureza dos seus agentes, quer ainda pelo deslumbramento e pelas quase aparições que sugerem.

Tudo se inicia pelo mistério da garça e da fotografia, em “1. Depois das perdizes paradas (pp.14/15), quando o que se vê e o que acontece se digladiam. Depois, é enunciada uma virtude nobre, o riso, que é imputada a um javali. Tal como na visão de Pirandello, a causa do riso parece estar no próprio motivo do riso. Ora leia-se: “Os dentes daquele javali, bem perigosos, parecendo afiados, dentes com restos de terra e ervas, esses dentes o pai do pequeno Tukie não sabia como classificar, mas esses dentes, junto com o focinho de javali, formavam uma espécie de sorriso” (“2. O sorriso enigmático do javali” – p.21). Na terceira história, surge uma gineta que “tinha uma motosserra no estômago” prestes a explodir (“3. Gina Gineta” – p. 31). Logo a seguir, em “4. A águia que subia” (pp. 42/43), aparece no céu uma bola ou bala de canhão que não passa afinal de uma águia. Tal como na quinta história, uma cobra aparece a voar como um gafanhoto ou um zangão (“5. Uma cobra para três corvos” – p. 49). A meio do livro, há espaço para um deputado a quem falta uma parte da cabeça (“6. O deputado das lebres extraterrestres” – pp. 58/59) e, também, para a quase ressurreição da gata Malhas (7. “Talvez a segunda vida” – p.69). Na oitava e nona histórias, as intermitências tomam conta do relato. É a borboleta que se materializa e desmaterializa ao mesmo tempo, em “8. A borboleta do imperador Ming” (p. 71), e era o lagarto que aparece e desaparece e que – já agora - também ri como o javali ( em “9. O lagarto da clave de sol” – p. 77 e p. 82). As duas histórias seguintes oscilam entre a magia e a singularidade. É o caso do ouriço “atrapalhado” que não se enrola diante do pequeno Tukie, em “10. Animal doméstico (p. 87”), e é o caso do texugo gordo que se comporta – imagine-se – como um cão, em “11. O texugo mais gordo do montado (p. 90”). A fechar a décima segunda história, surge ainda a rã que não era rã, mas que podia ter sido rooter ou parceira musical do lagarto que tinha a mania que era importante (12. “Uma rela” – p.100).

Todo o relato coloca face a face o pequeno Tukie – por vezes também a mãe – e o seu pai. É, pois, sobretudo à boca de cena que a interpretação de todo este milagre natural é expiado. Sob o olhar mais presente do que atento das personagens a quem foram confiadas as efígies do pano de fundo. Curiosamente, a figura da iniciação é quase sempre substituída por uma outra que não se confunde nem com a parábola, nem com a passividade de um perceptor à Émile de Rousseau. Em O sorriso enigmático do javali de António Manuel Venda, é a ambiguidade das respostas do pai (ou ocasionalmente da mãe) e, por vezes, a própria aura do irrespondível que tomam conta da cena. Acaba por ser este o modo de a narrativa melhor relevar e até significar uma metamorfose que jamais se aclara e que jamais se consuma. A eficácia da ambiguidade criada é óbvia, já que é por causa dela que se cria, ao longo das doze histórias, um espaço – ininterruptamente aberto (é esse o nome do enigma que dá nome ao livro) – que acaba por ser povoado pelo sortilégio, pelo fascínio e pelo encantamento.

A ambiguidade é gerada de formas díspares. Ou adiando uma resposta clara, o que acontece, por exemplo, em “Gina Gineta” (“Ficaria para depois o esclarecimento daquela dúvida…”) e em “Uma rela” (“O pai do pequeno Tukie achou que não era altura de explicar que não se tratava de uma rã mas sim de uma rela)”. Ou referindo explicitamente o conforto de não ter que clarificar, como acontece em “A borboleta do imperador Ming”: “São mentirosos porque…/ Foi então que parou, decidido a não dar explicações que o mais certo seria originarem perguntas mais difíceis”. Ou ainda admitindo simples possibilidades, veja-se: “O pequeno Tukie insistiu, e o pai acabou por ceder um pouco. Se calhar o lagarto era deficiente, tinha nascido assim…” (O lagarto da clave de sol). Por vezes, a ambiguidade decorre do cariz irrespondível que perpassa as situações, como é o caso de “O texugo mais gordo do montado” (“– É um texugo, não é?!/ – perguntou o pequeno Tukie/ E a mãe disse que sim, hesitante. Ela já nem sabia bem”) e de “A águia que subia”: “Sabes que pássaros são, mãe?/ A mãe disse-lhe que não, que iam tão alto que nem se atrevia a arriscar uma espécie” (A águia que subia). Outras vezes, a ambiguidade resulta do facto de se deixar simplesmente “no ar” o questionamento: “– Ri de quê?! – perguntou o pequeno Tukie./ Nem era uma pergunta para o pai, nem para o javali. Era apenas uma pergunta que deixava no ar” (O sorriso enigmático do javali).

Em todos estes casos, que devolvem abertura intencional ao “’Porquê’ Habitual” referido na penúltima linha do livro, uma certa imobilidade – nada altiva, sublinhe-se – assiste ao galopante vaivém entre o cosmorfismo e o antropmorfismo que constrói toda a malha discursiva. Em “Uma cobra para três corvos”, quando o narrador regista – “E ele, o pai, devia dizer que não, com firmeza, mas tal como não conseguia mexer-se também não conseguia falar” –, mais do que precisar os perigos do hipnotismo de uma cobra, acaba sobretudo por definir o tom que celebra toda a estratégia narrativa de O sorriso enigmático do javali: um ‘ser ou não ser’ terno, aberto à tentação do inverosímil, pautado pela inocência da dúvida e sustentado por um espaço de feitiço que vai entretendo a realidade como se esta tivesse a invisibilidade do mito.

Como se o casulo nunca se abrisse à borboleta e essa permanência extraordinária fosse a matéria de onde se teria extraído toda a ciência telúrica deste livro que, complementarmente, também escapa à definição de géneros. Romance? Contos? Novela fragmentária? Que interessa isso! Ao fim e ao cabo, trata-se da mesmíssima ambiguidade que se esconderá no gáudio – espero – do leitor, demasiado educado ao percorrer o coração das tramas e ao adicionar-lhes desenlaces que adora imaginar (e com os quais dá sentido à vida).

Concluamos com uma opinião pessoal. O sorriso enigmático do javali de António Manuel Venda é um “Livro de Horas” – como se designava na Idade Média o misto de iluminuras, salmos, orações e textos muito variados – , enunciando-se sadiamente liberto de referências pesadas, ungido de simplicidade e acabando por fundir ou confundir o relato com a liturgia da vida, ou não fosse boa parte do narrado, quase de certeza, de teor biográfico… aparecendo o narrador pelo buraco da agulha um pouco mal escondido, aliás em coerência plena com a arquitectura da própria obra.

Quarta-feira, 5 de Maio de 2010

Renovação ou melancolia sebástica?

INET

Alegre apresentou-se em Ponta Delgada como o candidato da renovação. Foi essa palavra - a "renovação" - que melhor tentou traduzir a essência da sua candidatura. Contudo, para o bem ou para o mal, Alegre é um candidato muito pouco renovador.

Em primeiro lugar: o mundo está a mudar muito rapidamente e os valores que eram taxativos, certos, quase imutáveis, atravessando e marcando ideologicamente as sociedades, deixaram de ter influência decisiva. A partir da última década do século XX foi despontando, contra a inércia da geração a que pertenço (nasci em 1954), um mundo muito mais livre que se afastou das cartilhas rígidas. Este novo mundo, apesar das crises que são rostos habituais do nosso tempo, é muito melhor e bem mais sadio do que aquele que fez jus à Guerra Fria.

Vivemos, de facto, num mundo bem menos assente em cartilhas e mais problemático e mais aberto. É um mundo que adoptou o instantanismo tecnológico e que estreitou o espaço e o tempo do planeta. É um mundo talvez demasiado relativador e mediático, mas menos nostálgico e dogmático. É um mundo a que Alegre intimamente nunca pertenceu e a que, no fundo, não pertence. Este mundo, naturalmente, também não é o de Cavaco. Poucos são os políticos com espessura que representam o nosso mundo actual de modo positivo, criativo e estimulante. Crise profunda, a da politica, certamente. E não apenas em Portugal.

Estou convicto de que Alegre não incorpora um mundo aberto à iniciativa sem fim, de que a rede é, afinal, uma excelente metáfora. E é por isso que nos crê a todos como afundados. Ou perto disso. O pensamento sinceramente trágico de Alegre admite que a ausência de valores taxativos, previsíveis e capazes de marcar ideologicamente a sociedade significa, só por si, ausência de ética. E é por isso que se apresenta como campeador da ética. Uma espécie de PRD com gravata e barba anteriana: como se a ética fosse o imaginário de uma coutada própria a verberar-se poeticamente. Uma renovação destas precisava, talvez, o mundo do futebol. Não um país.

Toda a aparição de Alegre é almofadada, afectada, própria de quem ostenta um ceptro invisível. Ao invés de uma imagem política renovada - o PR em Portugal é essencialmente um símbolo que pressupõe capacidade de decisão -, Alegre propõe antes uma efígie política de nobreza sobre um plinto composto pelo mármore poético.

O candidato a PR discursa com um tom declamatório e pausado. Trata a linguagem, não como uma ferramenta para anunciar o verbo político e um leque de mensagens concretas e mobilizadoras, mas como uma linguagem que fala acerca da linguagem. Um registo que se move à volta de si próprio, com óptimo ritmo, boa gradação e uma certa proximidade da rima. Mas, de qualquer modo, um tom proclamatório que pede emprestado ao Parnaso a prosódica para a política. Eficaz para cintilar em corações românticos ou para preencher os vazios de quem não entende - ou não aceita - o mundo em que vivemos.

Um tom exaltante para jovens saudosos, sebásticos de 68 e ideólogos desempregados. Mas uma renovação às avessas, certamente.

Quarta-feira, 7 de Abril de 2010

O anátema da Maria da Fonte

O estado moderno só encontrou a sua "plenitude com a aparição de uma nova religião: o nacionalismo". A frase à Monsieur de La Palice é de um jovem investigador da Complutense, Julio Galán, e encontrei-a, há minutos, numa citação que fiz num texto já com cinco anos de idade.

Não posso estar mais de acordo, até porque nunca fui nacionalista.

Aquilo que a nação veio traduzir, no final de setecentos, não se esvai nem se expande por se ser ou não nacionalista. É irrelevante, até porque o que estava em causa era a percepção e o reconhecimento da existência de uma 'alma colectiva'. O mesmo se poderia dizer das grandes teleologias da esquerda de meados de oitocentos. Ao fim e ao cabo, todas elas visavam a superação de obstáculos que a teoria definia com a clareza e a lógica de um microscópio.

Eis duas religiões da modernidade: uma tradicionalmente mais conotada com a direita, embora originalmente bastante jacobina: a nação; outra tradicionalmente mais conotada com a esquerda, embora originalmente de direita (a avaliar pela matriz do Leviatã de Hobbes, por exemplo).

Confusões interessantes como as que se revelam pela boca do generoso povo dos fóruns radiofónicos da manhã que sabiamente analisa o nosso dia-a-dia. Hoje, as bandeiras vermelhas e amarelas de Valença foram tema. A explosão tomou conta da cena e houve quem visse o fim do mundo nessas duas cores quentes e tauromáquicas, assim como houve brados sindicalistas que registaram a bonomia e a excelência da causa.
É caso para dizer que a racionalidade é uma espécie de lapso no meio do turbilhão. Nem direitas, nem esquerdas, nem muito menos os nacionalismos explicarão seja o que for, se os motivos da luta se confundirem com os de uma religião. Quando a 'alma colectiva' se sente ferida - o pretexto pode ser o centro de saúde ou qualquer outro -, não há voz que se deixe perceber: o grito e o ritual substituem-na sem cessar, dando assim sentido à perda que não se pode nem quer aceitar.
O governo saberá tudo isto. Duvido é que saiba lidar com tudo isto.
A prática já demonstrou que a engenharia social, por mais correcta e lógica que seja, depara sempre com o anátema da "Maria da Fonte", capaz por si só de fazer cair ministros e alimentar crises governamentais ou mesmo de regime.
É uma das muitas fragilidades da democracia, afinal um preço que todos pagamos para vivermos civilizadamente e com alguma decência.

(Hoje no Expresso Online)

Quarta-feira, 31 de Março de 2010

Design: uma revolução em curso

Quando hoje em dia olhamos com atenção à nossa volta, não é difícil percebermos de imediato como o design se entranhou na nossa vida. Tudo, de facto, aparece incorporado e moldado pelo design: os jornais que lemos, as cadeiras em que nos sentamos, as imagens que pululam nos sites e outdoors, os sapatos com que andamos ou as malas e sacos onde guardamos as nossas coisas.
O design resolve problemas, atrai a estética até ao nosso corpo e parece conferir ao mundo que nos rodeia, objecto a objecto, uma espécie de pulsação. Esta omnipresença do design tornou-se tão comum que acaba por misturar um fio de surpresa – quando nos concentramos na sua presença – com a mais elementar constatação do óbvio.
A quase invisibilidade do design é um dos aspectos mais fascinantes do seu triunfo no nosso dia-a-dia. Ao envolver-nos, o design preserva a maior das discrições mas garante um novo tipo de bem-estar. Nos últimos trinta anos, muita coisa aconteceu para que tivéssemos chegado a este vaivém de pulsações entre nós e os objectos que nos vestem, transportam ou acomodam.
Dois breves exemplos. O primeiro, já um clássico, deu pelo nome de “Lateral Thinking” (E. de Bono, 1970) e baseou-se na oposição entre a arrumação “vertical” da mente (sistema de “construção de padrões”) e as mensagens cujos formatos a conseguissem pôr em causa. As imagens “Benetton” dos anos noventa – hoje vulgarizadíssimas – constituíram um bom exemplo deste tipo de desmontagem, na medida em que obrigavam a suspender a padronização habitual da mente. O segundo exemplo tem apenas cinco anos e apareceu por via das ideias de Lindstrom (“Brand Sense”, 2005) que estão agora a invadir o mercado sob o signo dos designs sensoriais: “saborear”, “cheirar”, “tactear”, para além dos mais clássicos “ouvir” e “ver” (Damásio acrescentar-lhes-ia certamente a variante “somatossensorial”).
Estas duas formas visuais de atenção realçam, de modos diversos, a característica mais emblemática do design actual: fazer do presente um território realizável e crível capaz de incorporar as nossas emoções e não um “mero trânsito”, como pretendiam os místicos medievais ou os ideólogos oitocentistas.
Os designs contemporâneos estão, pois, a estimular a migração dos nossos processos mentais e sensoriais, transformando o espaço público num complexo orgânico onde a nossa carne, as nossas pulsões e impulsos se revêem como se agissem no seu espaço mais íntimo.
O design chegou para mudar a nossa vida. Ele é a maior revolução do nosso tempo.
(hoje no PNETdesign)

Terça-feira, 30 de Março de 2010

PNETdesign começa a 31 de Março


PRESS RELEASE

O PNETdesign estará online a 31 de Março.

O novo site da rede PNET, o
PNETdesign, abre as suas portas no último dia de Março. Durante o mês de Abril, a cobertura do Salone de Milão (14/4 a 19/4) está já na agenda. O painel de cronistas é variado e reflecte as várias esferas de produção, criação e gestão do design em Portugal e no mundo, atravessando campos de actividade que articulam o mercado, a educação, os eventos, o branding, o ciberdesign, o design gráfico e, também, a opinião.

Para além do editor, Luís Carmelo, e do administrador da rede, Eng. Vítor Coelho da Silva, colaboram no
PNETdesign, desde o seu primeiro dia, Sara Goldchmit, Mário Anastácio Santos, António Nunes Pereira, Helena Souto, Eduardo Côrte-Real, José Bártolo, Eduarda Margarido, Humberto Moreira, Márcia Novais, João Palla, Maria João Eloy, Martim Lapa, Ana Mestre, Pedro Marques, Sílvia Rosado, Miguel Fernandes e Diego A. Bartolomeu.

Além de desejar dar conta do meio do design, o site
PNETdesign pretende promover um observatório do mercado do design (eventos, feiras, destaques), dar voz aos agentes e protagonistas do meio do design, destacar a actividade do design na rede (blogues e sites), sublinhar o papel das marcas de design em Portugal e acompanhar as modalidades contemporâneas da gestão do design.

As componentes do site
PNETdesign são os seguintes: Ponto de fuga (notas editoriais), Brandestaque (espaço de realce para uma marca, com ênfase para os seus criadores, atributos, posicionamento, representação e oferta no mercado), MicroQues (entrevistas a designers, representantes de marcas, donos de lojas, curadores, críticos, gestores, industriais e estilistas; modelo sucinto e adequado à rede), EDesign (nota sobre casos interessantes ao nível do ensino e investigação projectuais do design), Design do design (Selecção crítica e comentada de sites e publicações sobre design), Breves (rubrica regular de informação), OpCron (espaço privilegiado de opinião e crónica), Ergomanias (relações corpo-design), Criadores (destaque de peças de design no Header do site) e Doodleday (secção projectual destinada à edição de desenhos).

UP (Revista da TAP)/ ESAD (Escola Superior de Design de Matosinhos)/ IADE- Creative University, Lisboa/ Alquimia da Cor (Escola De Design do Porto)/ UAL (Universidade Autónoma de Lisboa)/ SAAL (Alfena, Porto)/ Herdade da Matinha/ EXPONOR-CERANOR/Parli/ Viplanos/ChiadoDesign/EscritaCriativaOnline.com/ PNETliteratura

Segunda-feira, 29 de Março de 2010

Os alarmes do país literário


No dia em que Maria Helena da Rocha Pereira foi anunciada como a – aliás justíssima – vencedora do Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores, a jurada Teresa Martins Marques enalteceu a carreira da ensaísta, sublinhando a importância e a pertinência do prémio, devido, entre outros factores, ao facto de vivermos “…num tempo em que somos marcados pela literatura light”.
O argumento seria secundado, nesse mesmo dia, curiosamente um chuvoso 8 de Março, na rádio, pela voz do próprio presidente da APE, o escritor José Manuel Mendes.
Em Julho do ano passado, Pedro Mexia escreveu uma interessante crónica no Público acerca de um livro de Fátima Lopes e, na circunstância, referiu o grande impacto da literatura light – e das suas derivadas – através de um curioso contraste: “Fátima Lopes, uma apresentadora de televisão, vendeu quase cem mil exemplares; já as obras do mais recente Prémio Camões nem se encontram nas livrarias”. “O mercado editorial é o que é: uma grande biblioteca fútil”.
Já este ano, a propósito do Prémio Universidade de Coimbra 2010, atribuído ao escritor Almeida Faria e ao cineasta Pedro Costa, o reitor da centenária instituição explicou o sentido e o critério das escolhas como tendo a sua origem numa real necessidade de justiça. O objectivo foi, pois, o de “repor alguma justiça quanto à exposição pública dos premiados”, devido ao facto de “a nossa sociedade” ser “muito ingrata com os nossos artistas. Esta é mais uma tentativa que fazemos para aumentar a notoriedade de nomes importantes da nossa cultura”.
A ingratidão da sociedade diante dos seus artistas e escritores de maior qualidade parece aliar-se à “biblioteca fútil” que cada vez mais caracteriza o “nosso mercado editorial”. Uma tal cadeia de factos tem levado os jurados dos nossos prémios mais prestigiados a enfatizarem a urgência de o país culto se demarcar a ferros desta atmosfera crescentemente “marcada” pelas expressões “light”.
Dir-se-ia que o país literário anda alarmado e quase entrincheirado diante de uma terrível ameaça que, na falta de mais adequada designação, é definida pela leveza ligeira do mundo “light”. Ronald Augusto sintetizou, há alguns meses na Sibila**, esta omnipotência da mediania de modo revelador: “O mercado canoniza uma forma média de literatura que pode ser representada por um estilo a meio caminho da fórmula publicitária e do literário em tom pastel. Esta literatura light, que qualquer indivíduo pode “acessar”, é tão canônica quanto à mobilidade social o possa permitir. O escritor canonizado será aquele cujo perfil se revelar mais apto a conquistar a melhor fatia do bolo durante o maior tempo possível. De resto, o mercado dinamizado amplia tanto as chances de sobrevivência, quanto de aniquilamento do nosso grande pequeno literato. Por fim, ao manter o debate “literário” em nível de atacado, o mercado, ele mesmo, é que acaba por se canonizar.”
Dir-se-ia, para não marcar este sucessivo vestígio contemporâneo de nódoas com lições de moral, que ainda um belo se vai acabar por cumprir a profecia de João de Miranda m.. Ora leia-se: “… o meu amigo gameiro ganhou o prémio literário joão de miranda m., vencedor do prémio joão tordo de literatura, que ganhou o prémio josé saramago de literatura, vencedor do prémio nobel de literatura que ganhou o prémio bertha kinsky da literatura. O meu amigo santosilva é candidato ao prémio gameiro de literatura…”.
O humor é, ao fim e ao cabo, a face mais duradoura dos grandes abismos. E a justiça – essa sonhada equidade – será sempre alheia à profundidade da falésia e ao impacto da vertigem. Nada mais resta aos nossos melhores escritores e a todos nós, portanto, do que trabalhar. Trabalhar muito. Para que novos e bons livros apareçam e tranquilizem o mais inexorável dos vícios da existência. Deixem, pois, que as distracções e o entretenimento se distraiam e se entretenham à vontade! Que a redundância viva feliz na casa que é, afinal, a sua.
(no PNETliteratura hoje)

Terça-feira, 23 de Março de 2010

Guia de Conceitos Básicos de Nuno Júdice

Recebi de Nuno Júdice o seu último livro, Guia de conceitos básicos (D. Quixote, Março, 2010). Li-o, no primeiro domingo solar de Março, como se lê qualquer livro de poemas: percorrendo a paisagem que é sempre feita de nós invisíveis, de labirintos (“falta sempre/ alguma coisa que ficou no princípio”), de epifanias (“E o rosto divino apaga-se contra o vidro/ da memória”), de analogias (“a luz do sol escorrer por entre/ as folhas, como se fosse água”), de estações variadas (“para montar armadilhas aos pássaros”) e sobretudo das manhãs que obrigam à “precisão de traço/ que os dedos inscrevem em cada sílaba”.

A leitura desta paisagem acabou por revelar-se chã e cativante: uma linguagem do dia-a-dia que não perde nunca o resplendor do luar. Uma leitura criada pelo ritmo escorreito que procura a sua matéria própria. Uma leitura que se deixa povoar por figuras luminosas: Júpiter, Vénus, várias infantas, Orestes e até o “rosto escondido pela trepadeira/ que (…) ocupa a imaginação”. Uma leitura que sugere e deriva tal como avança: com vagar e com o olhar procurando sempre outro e outro olhar: “Os que vivem devagar desenham/os seus passos no chão para onde não olham”. Um olhar feito da matéria que o fio dos poemas procurará.

Percorrer a paisagem de um livro de poesia – que se lê pela primeira vez – é pressentir a silenciosa redenção que o terá originado. Porque a poesia nasce desse devir que não tem nome, nem forma, nem desígnio. Por vezes, basta o súbito fulgor de uma imagem para acender a razão de ser de toda essa paisagem. É o que acontece, como prefiguração, no final do poema “Ressaca”, quando há ímpetos e sombras que voam “nas paredes, num sopro de gestos, formando uma procissão/ que procura o altar e um desejo sonâmbulo”.

Guia de conceitos básicos de Nuno Júdice fecha com o poema homónimo. Trata-se de uma ininterrupta injunção que descola com ironia e que ancora com cartografia certa: “Use o poema para elaborar uma estratégia/ de sobrevivência no mapa da sua vida”. Trata-se sobretudo de um remate certeiro ou de uma verdadeira cartilha “para que poema/ e vida coincidam”. Citemos duas passagens que, nesse “Guia”, intertextualizam fragmentos de linguagem ‘tech’: “Recorra/ aos dispositivos de imagem, sabendo que/ ela lhe dará um acesso rápido aos recursos/ da alma” e “Se precisar de/ substituir os sentimentos cansados/ da existência, reinstale o desejo/ no painel do corpo”.

Os termos deslizam com súbita intermitência: “dispositivos”, “painel”, “instalar”, programar ou tão-só reiniciar. De facto, a leitura que antes sugeria e derivava, no seu luar de língua viva e chã, acaba por despertar com um brilho que se anuncia paródico, reatando, apesar de tudo, as silhuetas do “desejo sonâmbulo”. E termina assim este interessantíssimo “Guia”, aclarando definitivamente as suas margens: “Escolha uma superfície/ plana: e deslize o seu olhar pelo/ estuário da estrofe” (…) “Verifique/ (…) se todas as opções estão disponíveis: e/ descubra a data e a hora em que o sonho/ se converte em realidade, para que poema/ e vida coincidam.”.

A história de uma conversão, numa palavra. Não necessariamente do sonho para a vida, porque o poema ao dizer “sonho” e ao dizer “vida”, está-nos sobretudo a dar conta da matéria da (sua) poiesis, ou seja: de uma linguagem que se reinventa a si mesma à imagem da (imperscrutável) matéria do olhar.