Jogo - 5 (mostrar a vida privada?)
Deus, enquanto foi Deus, foi-o porque não se “mostrava”.
“Mostravam-se”, sim, as suas consequências. As suas marcas. As suas linguagens (cujos alfabetos se espraiavam na natureza ou na sintaxe histórica, pelo menos a partir do epicentro das religiões ditas “axiais”, ou do “Livro”, ou crentes numa dada escatologia).
Na Ética de Bento de Espinosa, pensamento e realidade do ser provêm de uma única substância. Contudo, a “natureza naturante” (ou Deus) é a única realidade substantiva, enquanto que “a natureza naturada” seria entendida como desprovida de substantividade, dispondo de existência meramente “modal”, isto é, ao nível das manifestações que adviriam da produtividade una e divina.
Nesta medida, a realidade seria única, eterna e imutável, embora no plano do acontecer transitório fosse efémera.
Pode esboçar-se uma certa alegoria contemporânea, na relação entre privado e público que, se aproxima desta mecânica espinosista.
O que se "mostra" neste último tem origem ao nível das manifestações que estão diante dos nossos olhos todos os dias.
O que se "mostra" naquele outro, no privado, é um misto de coisas onde há um fundo insondável de “natureza naturante”, mas também fragmentos ou imagens processadas pela “natureza naturada”.
Não há, pois, uma forma exacta e possível para “mostrar” o privado, porque não cabe, porque não se adequa, porque é ambígua a substância ou a natureza a que realmente pertence.
Seria mais fácil um mundo onde taxativa e drasticamente o público e o privado se separassem. Fronteiras rígidas. Mas isso não acontece.
Mais uma vez: trata-se de um dado, de um facto.
Tal como a existência de nuvens incertas em dia de muita chuva.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2005
Jogo - 4 (mostrar a vida privada?)
A imprensa cor de rosa “mostra” encenações que se destinam a evidenciar coisas, mas não a vida privada.
Existirá a “live life”, a não ser na imaginação de Duchamp?
O fim das mediações é talvez a única utopia contemporânea e é própria dos que crêem na “cyborgização” do mundo (o termo original é, creio eu, de Manfred Clynes), i.e., no pós-humano.
Nessa altura, o acto de “mostrar”, na acepção de pôr a nu todas as virtualidades, passará a ser um gesto redundante.
Sem sentido.
Só há sentido, quando é preciso traduzir aquilo que não pode, de modo nenhum, ser “mostrado” através de telepatia. Em ficções como The City and The Stars (Arthur Clark), em filmes como Robocop (Verhoeven), ou no conhecido manifesto de Donna Haraway (Manifesto for Cyborgs), o entendimento do sentido e do “mostrar” alteram-se profundamente.
A grande diferença é que, apesar dos delírios, o nosso tempo hipertecnológico é um tempo muitíssimo mais próximo (e contíguo muitas vezes) destas voragens do que Verne era, por exemplo, de um elementar motor de uma fábrica téxtil.
O grande paradoxo dos nosso dias é funcionarmos como se já não existissem mediações (como se tudo se visse, como se tudo se “mostrasse”), quando, no fundo, a “Darstellung” kantiana, o pôr em cena esquematizado ou simbólico, continua ainda a reger toda a nossa comunicabilidade. E toda a nossa capacidade de significar.
Daí tanta ambiguidade ilusória e sugestiva em torno do simples acto de “mostrar”.
A imprensa cor de rosa “mostra” encenações que se destinam a evidenciar coisas, mas não a vida privada.
Existirá a “live life”, a não ser na imaginação de Duchamp?
O fim das mediações é talvez a única utopia contemporânea e é própria dos que crêem na “cyborgização” do mundo (o termo original é, creio eu, de Manfred Clynes), i.e., no pós-humano.
Nessa altura, o acto de “mostrar”, na acepção de pôr a nu todas as virtualidades, passará a ser um gesto redundante.
Sem sentido.
Só há sentido, quando é preciso traduzir aquilo que não pode, de modo nenhum, ser “mostrado” através de telepatia. Em ficções como The City and The Stars (Arthur Clark), em filmes como Robocop (Verhoeven), ou no conhecido manifesto de Donna Haraway (Manifesto for Cyborgs), o entendimento do sentido e do “mostrar” alteram-se profundamente.
A grande diferença é que, apesar dos delírios, o nosso tempo hipertecnológico é um tempo muitíssimo mais próximo (e contíguo muitas vezes) destas voragens do que Verne era, por exemplo, de um elementar motor de uma fábrica téxtil.
O grande paradoxo dos nosso dias é funcionarmos como se já não existissem mediações (como se tudo se visse, como se tudo se “mostrasse”), quando, no fundo, a “Darstellung” kantiana, o pôr em cena esquematizado ou simbólico, continua ainda a reger toda a nossa comunicabilidade. E toda a nossa capacidade de significar.
Daí tanta ambiguidade ilusória e sugestiva em torno do simples acto de “mostrar”.
Jogo - 2 (mostrar a vida privada?)
O acto de“Mostrar” nem tão-pouco existiria, se todas as virtualidades de “y” que se quisessem “mostrar” alguma vez se imaginassem expostas à luz do dia.
Como disse Vattimo, glosando Gadamer, “o ser que pode ser compreendido é linguagem”. É, pois, natural que, em época de incremento radical de linguagens especializadas e de enunciados fragmentários tipo zapping, o que haja a “mostrar” sejam tão-só imagens de imagens que, por sua vez, se subsumem a vestígios de imagens de imagens. Fluxos ficcionais mundializados ou regionais. A coisa é realmente homóloga ao mundo de imagens da nossa mente que Damásio tão bem explicou em O Sentimento de Si (sobretudo na concatenação dos relatos de imagens que se processam entre os níveis do "proto-si", da "consciência nuclear" e da "consciência alargada"). É por isso que a vida privada, esse conteúdo complexo, essa labiríntica rede de fenómenos de um determinado quotidiano, não pode jamais ser “mostrada” como um absoluto. Pelo menos do modo antinómico - e um pouco preto no branco - que pressupõe a oposição entre “mostrar em público a vida privada” e a necessária implicação de ausência dessa mesma “vida privada” (ainda por cima sob conjectura algo legitimadora de uma dada teodiceia).
O acto de“Mostrar” nem tão-pouco existiria, se todas as virtualidades de “y” que se quisessem “mostrar” alguma vez se imaginassem expostas à luz do dia.
Como disse Vattimo, glosando Gadamer, “o ser que pode ser compreendido é linguagem”. É, pois, natural que, em época de incremento radical de linguagens especializadas e de enunciados fragmentários tipo zapping, o que haja a “mostrar” sejam tão-só imagens de imagens que, por sua vez, se subsumem a vestígios de imagens de imagens. Fluxos ficcionais mundializados ou regionais. A coisa é realmente homóloga ao mundo de imagens da nossa mente que Damásio tão bem explicou em O Sentimento de Si (sobretudo na concatenação dos relatos de imagens que se processam entre os níveis do "proto-si", da "consciência nuclear" e da "consciência alargada"). É por isso que a vida privada, esse conteúdo complexo, essa labiríntica rede de fenómenos de um determinado quotidiano, não pode jamais ser “mostrada” como um absoluto. Pelo menos do modo antinómico - e um pouco preto no branco - que pressupõe a oposição entre “mostrar em público a vida privada” e a necessária implicação de ausência dessa mesma “vida privada” (ainda por cima sob conjectura algo legitimadora de uma dada teodiceia).
Jogo - 1 (mostrar a vida privada?)
Aforismo: “Mostrar em público a própria vida privada é coisa de quem não tem vida privada”.
Comentário: Um instrumento que (no mundo) sirva para "mostrar" já está referido a qualquer coisa antecipadamente.
Esse instrumento e/ou essa ferramenta "mostram" sempre aquilo que um contexto determina que possa e deva ser "mostrado".
Um guia de viagens ou uma lista telefónica funcionam assim. São de certa forma programados.
Mas, por outro lado, não há nenhuma determinação que condicione a "mostrar" o que pode ser "mostrado", quando se fala de “vida privada”. Precisamente porque a vida privada é um amplexo, ou é algo que não pode ser sequer descrito, ou é uma entidade e não propriamente um organismo delimitado que, por isso mesmo, escapa à capacidade redutora de a linguagem o traduzir na plenitude (com a excepção para a incursão de natureza poética, para a qual o comum e o incomum dos políticos, e mesmo quase todos os mortais, convenhamos, não denotam particulares aptidões).
O acto de "mostrar" “y”, entendendo “y” como a complexidade que a vida privada apresenta, corresponde seja ao que for menos a uma propriedade de “y”. Nesta medida, por mais que se tente "mostrar" “y”, este “y” persistirá sendo o que é, ou flutuando na ordem com que flutua.
Neste tipo de casos complexos, como o é o caso da “vida privada”, "mostra-se" sobretudo a linguagem que procuraria "mostrar" “y”, mas é certo e sabido que o determinante de “y” repousará no seu enquadramento, no seu ambiente neonatal e na sua ocultação, afinal.
É por isso que ninguém vê a vida privada de Santana Lopes ou de Sócrates ou de Portas, por mais que os média desenterrem, voluntária ou involuntariamente, partes dessas virtualidades.
É antes o jogo criado em torno dessa “realidade” (criada pelo agregado de N imagens que tentam “mostrar” “y”) que pressupõe a lide que faz aparecer, no quotidiano, a ilusão dos tais “castigos”, prémios, críticas, boatos, denodos, vergonhas, insultos, rumores e outros pandemónios conhecidos e, já agora, muito tristemente em voga.
Aforismo: “Mostrar em público a própria vida privada é coisa de quem não tem vida privada”.
Comentário: Um instrumento que (no mundo) sirva para "mostrar" já está referido a qualquer coisa antecipadamente.
Esse instrumento e/ou essa ferramenta "mostram" sempre aquilo que um contexto determina que possa e deva ser "mostrado".
Um guia de viagens ou uma lista telefónica funcionam assim. São de certa forma programados.
Mas, por outro lado, não há nenhuma determinação que condicione a "mostrar" o que pode ser "mostrado", quando se fala de “vida privada”. Precisamente porque a vida privada é um amplexo, ou é algo que não pode ser sequer descrito, ou é uma entidade e não propriamente um organismo delimitado que, por isso mesmo, escapa à capacidade redutora de a linguagem o traduzir na plenitude (com a excepção para a incursão de natureza poética, para a qual o comum e o incomum dos políticos, e mesmo quase todos os mortais, convenhamos, não denotam particulares aptidões).
O acto de "mostrar" “y”, entendendo “y” como a complexidade que a vida privada apresenta, corresponde seja ao que for menos a uma propriedade de “y”. Nesta medida, por mais que se tente "mostrar" “y”, este “y” persistirá sendo o que é, ou flutuando na ordem com que flutua.
Neste tipo de casos complexos, como o é o caso da “vida privada”, "mostra-se" sobretudo a linguagem que procuraria "mostrar" “y”, mas é certo e sabido que o determinante de “y” repousará no seu enquadramento, no seu ambiente neonatal e na sua ocultação, afinal.
É por isso que ninguém vê a vida privada de Santana Lopes ou de Sócrates ou de Portas, por mais que os média desenterrem, voluntária ou involuntariamente, partes dessas virtualidades.
É antes o jogo criado em torno dessa “realidade” (criada pelo agregado de N imagens que tentam “mostrar” “y”) que pressupõe a lide que faz aparecer, no quotidiano, a ilusão dos tais “castigos”, prémios, críticas, boatos, denodos, vergonhas, insultos, rumores e outros pandemónios conhecidos e, já agora, muito tristemente em voga.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2005
Será?
É rara a vez que vejo os meus amigos escritores que têm blogues a escreverem sobre a sua própria escrita, enquanto escrevem (digo, enquanto se fecham para escrever romance, ensaio, poesia, ou seja o que for).
Às vezes, chego a sentir uma certa timidez em fazê-lo, pois pareço demasiado só nessa aventura. Ou talvez eu funcione ao contrário: reservo dois a três períodos do ano em que o resto tudo, rigorosamente, deixa de existir (partes de Fevereiro, de Junho e de Setembro), em vez de espraiar e misturar as várias escritas num único plano aberto ao tempo.
Mas, que diabo, à noite, ou nos intervalos, há sempre espaço para espreitar e marcar esta caixinha que tem como legenda "Publish Post". Não será?
Bom, vou continuar. Estou em Nova Iorque. Enquanto escrevo. Mas ligado, ligadinho às vezes que estive lá. In fact.
É rara a vez que vejo os meus amigos escritores que têm blogues a escreverem sobre a sua própria escrita, enquanto escrevem (digo, enquanto se fecham para escrever romance, ensaio, poesia, ou seja o que for).
Às vezes, chego a sentir uma certa timidez em fazê-lo, pois pareço demasiado só nessa aventura. Ou talvez eu funcione ao contrário: reservo dois a três períodos do ano em que o resto tudo, rigorosamente, deixa de existir (partes de Fevereiro, de Junho e de Setembro), em vez de espraiar e misturar as várias escritas num único plano aberto ao tempo.
Mas, que diabo, à noite, ou nos intervalos, há sempre espaço para espreitar e marcar esta caixinha que tem como legenda "Publish Post". Não será?
Bom, vou continuar. Estou em Nova Iorque. Enquanto escrevo. Mas ligado, ligadinho às vezes que estive lá. In fact.
Sobre uma frase do dia
Escreveu Luciano Amaral:
"Há na blogosfera um problema a que provavelmente nunca me conseguirei habituar, e que é o registo simultaneamente público e privado do seu conteúdo."
Eu penso que isso, essa flutuação público vs. privado, é sobretudo uma característica da contemporaneidade. É um dado, tal como acontece - num certo nível de flutuação - com os pares real vs. ficção, auditórios vs. públicos, esquerdas vs. direitas, simulação vs. instantaneidade, etc. Tal como acontece com a electricidade ou com as redes globais.
Neste tempo, em que velhas linguagens ainda convivem com os novos tempos, é necessário algum cuidado. Até porque estas são as primeiras legislativas que se cruzam com a blogosfera e a quase inevitável radicalização pode conduzir ao abismo da ofensa. Esperemos, contudo, que o exercício da liberdade - e ser-se livre acarreta responsabilidades - implique respeito e não apenas denegação do outro sob a capa da mais redutora cultura dicotómica. Ser-se frontal não implica elidir, suprimir, anular (ontem, Sócrates, na RTP-1, libertou-se um pouco da amarra do "media training", mas foi preciso sentir na pele a infeliz ofensa santanista traduzida pela palavra "colo". Saliente-se o facto).
Escreveu Luciano Amaral:
"Há na blogosfera um problema a que provavelmente nunca me conseguirei habituar, e que é o registo simultaneamente público e privado do seu conteúdo."
Eu penso que isso, essa flutuação público vs. privado, é sobretudo uma característica da contemporaneidade. É um dado, tal como acontece - num certo nível de flutuação - com os pares real vs. ficção, auditórios vs. públicos, esquerdas vs. direitas, simulação vs. instantaneidade, etc. Tal como acontece com a electricidade ou com as redes globais.
Neste tempo, em que velhas linguagens ainda convivem com os novos tempos, é necessário algum cuidado. Até porque estas são as primeiras legislativas que se cruzam com a blogosfera e a quase inevitável radicalização pode conduzir ao abismo da ofensa. Esperemos, contudo, que o exercício da liberdade - e ser-se livre acarreta responsabilidades - implique respeito e não apenas denegação do outro sob a capa da mais redutora cultura dicotómica. Ser-se frontal não implica elidir, suprimir, anular (ontem, Sócrates, na RTP-1, libertou-se um pouco da amarra do "media training", mas foi preciso sentir na pele a infeliz ofensa santanista traduzida pela palavra "colo". Saliente-se o facto).
terça-feira, 1 de fevereiro de 2005
Inédito
Nunca me tinha acontecido. Até porque já tenho partido de notas, de cruzamento de textos embrionários, ou até de rascunhos sem qualquer sentido. Às vezes, de nada. Mas partir de uma peça de teatro, isso nunca tinha acontecido. Escrevi-a há quase três anos e meio e, até agora, apenas foi motivo de uma leitura em sítio respeitável, embora pouco conhecido (uma possível encenação, aliás muito interessante, chegou a andar em negociações avançadas no início do Verão de 2003). E não é que agora estou a partir desse texto dramático na direcção de uma narrativa!?
O fulgor inicial projecta a coisa em romance. Vamos ver. Para já, as personagens estão a responder, é só simpatia, é só compreensão, diálogo frutuoso e tudo parece encaminhar-se para um desafio maior. A ossatura do texto já está a robustecer, a tonificar, a ampliar-se. Fevereiro é sempre um mês generoso para estas coisas. De um lado, as frequências e, do outro, uma única aula de mestrado; no reverso, fica diante dos meus olhos toda esta maresia muito calma em que o tempo se distende e promete evasões felizes.
Vou reiniciar mais um dia de trabalho. Até logo.
Nunca me tinha acontecido. Até porque já tenho partido de notas, de cruzamento de textos embrionários, ou até de rascunhos sem qualquer sentido. Às vezes, de nada. Mas partir de uma peça de teatro, isso nunca tinha acontecido. Escrevi-a há quase três anos e meio e, até agora, apenas foi motivo de uma leitura em sítio respeitável, embora pouco conhecido (uma possível encenação, aliás muito interessante, chegou a andar em negociações avançadas no início do Verão de 2003). E não é que agora estou a partir desse texto dramático na direcção de uma narrativa!?
O fulgor inicial projecta a coisa em romance. Vamos ver. Para já, as personagens estão a responder, é só simpatia, é só compreensão, diálogo frutuoso e tudo parece encaminhar-se para um desafio maior. A ossatura do texto já está a robustecer, a tonificar, a ampliar-se. Fevereiro é sempre um mês generoso para estas coisas. De um lado, as frequências e, do outro, uma única aula de mestrado; no reverso, fica diante dos meus olhos toda esta maresia muito calma em que o tempo se distende e promete evasões felizes.
Vou reiniciar mais um dia de trabalho. Até logo.
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