sexta-feira, 5 de março de 2004

Nova proximidade

Temos novo Template, todo ele obra do João Nogueira. Peço desculpa pelos desarranjos dos últimos dias. Caprichos e descaminhos da rede. É assim a Primavera: súbita, desconcertante mas eficaz. Espero que a navegação frutifique, seja ela costeira ou ao largo. Obrigado, João!
Proximidade



O sol de novo. Aproxima-se vivamente a estação que parece não deixar nada escondido. Num mesmo plano, na mesma cena tudo desponta. Em excesso. E é devido à profusão e à abundância que a Primavera é o esteio poético das grandes paixões. A fartura e a opulência conduzem à ausência de montagem. E as imagens aparecem de todo o lado, sem direcção, disputando o sentido e o caos, o olhar e a carne. Imaginação fértil, corpo aéreo, navegação turbulenta.

quarta-feira, 3 de março de 2004

Resposta breve ao Cruzes Canhoto e ao Glória Fácil

Não criei o Miniscente para poder dizer o que não conseguiria dizer noutro lado, nomeadamente nos média. Era o que mais me faltava! Não partilho, pois, essa vitimização da voz não publicada ou não difundida como ponto de partida irradiador e criador dos weblogs. Quando há coisas a dizer e uma voz ou várias vozes a enunciar, aparece sempre o momento e o suporte em que essas coisas se dizem e em que essas vozes se enunciam. Agora, tenho a liberdade de poder escolher o tipo de blogues que mais aprecio (os vossos estão, curiosamente, nesse lote). E esses são os que não andam, por sistema e como regra reiterada, atrás da obsessão do fluxo noticioso. Não quer dizer que não me fascine um aceno inteligente, um ripostar paródico ou um comentar mais consistente sobre os factos do quotidiano. O que me cansa é sobretudo o estilo páginas amarelas, a indexicalização permanente (há certos blogues que podiam ser telemóveis ligados entre blogueadores) e a subserviência radical e corrosiva face ao exclusivo padrão da agência noticiosa. Mas não se pense que há no que digo algum propósito ou intenção subliminar de censura. Pelo contrário, creio que a rede é a grande panóplia e a grande expansão aventurosa da liberdade. Como nunca houve. Que se frua! Mas não impeçam, caros amigos, seja quem for de discorrer sobre os vários estilos e discursos que por aí pululam.
P.S. - Quando disse "carcaça ideológica" referia-me às discussões entre pseudo-bancadas políticas estriadas e aparentemente antagónicas que pensam ainda viver no tempo em que a carga ideológica mobilizava hostes guerreiras. Referia-me aos Sanchos Panças das blogosfera. Mas a esses, juro, acho-os giros, porreiros e divertidos. São uma espécie de televendas aqui do circuito. Sem eles, a acidez seria com toda a certeza mais cinzenta.
Um jogo circular

Num conhecido fragmento - o nº93 - atribuído a Heraclito por Plutarco, pode ler-se: "O senhor, cujo oráculo está em Delfos, nem fala, nem oculta, mas manifesta-se por sinais". Esta postura releva uma interpretação reversível entre o conhecido e o desconhecido e entre o visível e o invisível, como se navegássemos num só plano onde a simulação e a verdade há muito teriam pactuado. Por que razão lês tu, Nuno Gomes, estes livros tão antigos durante as viagens para a Noruega?

terça-feira, 2 de março de 2004

Os perversos torcedores de causas

Uma imagem aparece na mente, não porque alguém o determina ou exige, mas porque ela mesma - a imagem - o decide, ao aparecer (e, como se sabe, uma imagem é sempre a selecção de uma selecção operada entre os vários níveis da consciência: o proto-si, a consciência nuclear e a alargada). Certas mentes, porém, excessivamente rígidas e crispadamente sabedoras, ainda entendem que o único modo de funcionarem é o controlado e o pseudo-voluntário como se receassem que a inteligência se pudesse entregar aos seus próprois caminhos e caprichos. Eis como o entendimento mais cabal da liberdade acaba afinal por pertencer aos crentes na “memória involuntária” (a expressão é de Walter Benjamin). Há muitos teóricos da liberdade - e, entre eles, muitos arautos actuais do mais puro liberalismo - que se inserem, a meu ver, e ainda que não o saibam, na horda das mentes rígidas e, portanto, no campo dos verdadeiros adversários potenciais da liberdade. Contradições interessantes.
By By, génio!

A esteticização generalizada do mundo, ou seja, o modo extremo como a arte se propagou no quotidiano (publicidade, design e ciberdesign, arquitectura, moda, genéricos televisivos, todo o tipo de objectos culturais, etc.), é um dos aspectos mais interesantes da vida dos últimas duas décadas. E foi por causa dessa brusca e quase inapecebida inovação que a noção de génio - que vinha de Kant - se foi diluindo e ridicularizando naquilo que é hoje a voz mediana e hipermassificada do bardo que nos rege a construção de mundos. Vejamos o que era o génio em Kant e pensemos três vezes:

“(o Génio) é um talento para produzir aquilo para o qual não se pode fornecer nenhuma regra determinada, e não uma disposição de habilidade para o que possa ser apreendido segundo qualquer regra; consequentemente que a originalidade tem que ser a sua primeira propriedade (...)” – “2) os seus produtos têm que ser ao mesmo tempo modelos, isto é exemplares; por conseguinte eles próprios não surgiram por imitação e, têm que servir a outros como padrão de medida ou regra de julgamento; 3) que ele próprio não pode descrever ou indicar cientificamente como realiza o seu produto, mas que, como natureza, fornece a regra; e por isso o próprio autor de um produto, que ele deve ao seu génio, não sabe como para isso as ideias se encontram nele e tão pouco tem em seu poder imaginá-las arbitrária ou planeadamente e comunicá-las a outros em tais prescrições, que as põem em condição de produzir produtos homogéneos.” (C.F.J.,182;1787,1998,p.212)

Ou seja, génio é aqui entendido como uma mediação especial e superior da natureza que cria modalidades exemplares e sobretudo originais. Mitos que os últimos dois séculos foram desfazendo. Hoje cada vez menos se crê em antinomias tais como natural/articicial ou ficção /realidade. Hoje sabe-se que a paródia e todo o tipo de procedimentos intertextuais conferem à exemplaridade e à originalidade um lugar arqueológico. Hoje descrê-se de toda a agregação ou construção. A regra passou a ser a conformação com um descrer que apenas é desdito, dia a dia, diante da simulação das imagens com que fazemos os nossos mundos.

segunda-feira, 1 de março de 2004

Not to be or not to be

Acho que foi Gide quem escreveu que a estratégia central do diabo é levar-nos a acreditar que (ele mesmo) não existe. Hoje diríamos que a estratégia vital do nosso tempo é fazer crer que (todos nós) existimos. Como? Através de dissimulações, de imagens, de anamorfoses, de encantos televisionados e de projecções pouco discretas em fétiches globais. Se não andarmos por essas paragens narcísicas e massificadas, corremos o risco de nos desviver. Ou simplesmente de não ser.
Estar aqui


New York Movie

Estar já em Março e ainda ontem ter cruzado os meses habituais do Inverno e do Outono. Olho para trás e vejo formas ainda indefinidas e velozes com as quais o tempo concerta a sua radical invisibilidade. É verdade, do tempo apenas se desvenda a miragem da quilha. O resto avançará em movimentos diferentes. O resto é material diferido. O resto é uma sombra a conceder-nos ilusões de preenchimento. O resto é a voz sigilosa da inocência. O resto é estar aqui.
Blogdog

E depois da quarta noite em claro (a sério, das sete da tarde às oito da manhã), o meu cão - o Ulisses - lá se cansou do cio. E agora só quer é dormir. Ele há modos e modos de blogar.
And... The Winner is



Tudo aqui.