terça-feira, 9 de maio de 2006

Tonalidades & casos - 2

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“O congresso do CDS/PP revela que o príncipio do "dois em um", ou o de «uma lady na mesa, uma louca na cama», não funciona para os partidos políticos. Ou é só "um em um", como no PCP, ou são vinte em um, dez ladies na mesa e dez loucas na cama, como no PSD e no PS.”
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A ignorânia levou-me ao Google e logo fiquei a saber que o enigmático subtexto de Pacheco Pereira refere afinal um texto cantado por Marco Paulo. Por seu lado, a melodia do objecto museológico “um em um” é particularmente teológica e opõe-se de forma decidida à subtileza da trindade. A concluir, é óbvio que o leque central PS-PSD aparece aqui na versão mais vertiginosa que se poderia imaginar. O país de Casanova não colhe, no entanto, na parábola. Mas será mesmo parábola, ou mera tonalidade em queda livre? Seja o que for, o tom é aqui no mínimo corrosivo (para dizer a verdade, há rostos bem nítidos que saltam à imaginação ao ler-se este texto. Há, não há?).

Tonalidades & casos - 1

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“Sei que blogs de gente quando colectivos servem para menos. Se políticos, agendas e isso, trampolins e aquilo, até ganham. Mas se de gente, coisa séria, ficam meros híbridos, não se reproduzem (e isso está visto). Assim sendo blogoentristeço-me. Até incrédulo. A-linkador (perdão, a-elador), apesar do coro elogiador.”
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Quem assim escreve é alquimista da palavra, mago sorridente, pastor de risíveis, galanteador de deleites. Às vezes não basta saber mexer nos materiais, há que dotá-los, iludi-los e ferrá-los com prestidigitação. É por isso que a ternura vive da amplitude do arco-íris: entre a magia mais inocente e a generosidade feérica. E quando, por vezes, a lua bate no ridículo como se fosse mar noctívago, há uma suprema graça que se ilumina. Esse é o prazer de poucos, de muito poucos, dos que transformam o repto na coisa desafiada: alquimia do “coro elogiador”.
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P.S. - Nem de propósito, caros amigos. Há, pois, que seguir com toda a atenção os vários fascículos de Ao Balcão da Cantina!

O encanto dos "mortinhos"

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Esta é a imagem por que Claire ontem lutou e sonhou, a mais densa e poética figura da estepe castelhana. Qualquer não iberista sucumbe a seus pés, ainda que possa pronunciar o nome de Portugal em vão. Agora, convenhamos, falar assim para a mãe é que já não é bonito de todo: “Don´t be such a controlling bitch and give me my money!”. Depois de ouvir isto, e com o pobre diabo do George a pairar no vazio, como pode Ruth não desejar o seu salvífico crochet? E até quando?
Do lado de Frederico – o único imperador com caminho aberto nesta trama -, nada melhor do que o sumo de qualquer congresso: permuta de quartos e carnes, olhares transviados e carregadinhos de epistemologia transgénica. Já a adopção, a perda e os jantares mais ou menos em família deslizaram ontem em jeito de seca, banalizando o epicentro das angústias e o langor dos muitos sofrimentos em curso (a paródia apenas bateu à porta, aqui e ali, nos inexpressivos remoinhos de Brenda).
Por fim – como ainda sinto saudades de Ápia, Carla! -, uma última palavra para dizer que a série está a deixar de ser aquela busca singular da inverosimilhança, para se conformar com uma espécie de claustrofobia do sentido. Os destinos de todos os personagens encontram-se como que travados e já não embalados por aquela deriva imponderável que antes fazia o gáudio andar de mão dada com a tentação negra do pathos. Não acham?

segunda-feira, 8 de maio de 2006

O "tom" dos blogues - 6

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Ao longo de uma semana discorri aqui em torno da ideia do "tom" da blogosfera. Para além de outras contaminações, que podem ser lidas e recuperadas nos posts de baixo, parece-me claro que a expressão dos blogues é um processo interessante e vivo que está a atravessar a segmentação rígida das expressões e géneros que herdámos dos dois últimos séculos e meio. A maior parte das linguagens, tal como ainda hoje as entendemos (estéticas, sociais, lógicas, etc.), continuam a viver de identidades (e fronteiras) rígidas e abritrariamente codificadas. A blogosfera - e outras formas expressivas que estão a emergir sobretudo na rede - desafia esse fechamento clássico e abre-se à partilha de uma “segunda natureza”, tal como Roy Ascott a caracterizou. Este novo “being-in-common” – a expressão é de Alec McHoul – está a unir e a percorrer o que antes eram fantasmas que se sonhavam uns aos outros em aquários separados. O fenómeno dos blogues está assim a contribuir para um novo sentido de comunidade ‘aterritorial’ e de agenciamento comunicacional. É por isso, também, que a estabilidade do espaço público (incluindo aí a aparente fúria dos média) está, dia a dia, a conhecer novas e, porventura, desejadas turbulências.
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Aproveito a maré para saudar três blogues aniversariantes que sigo atentamente: o Mar Salgado, o Bandeira ao Vento e o Abrupto (acerca do qual repetiria, palavra a palavra, o que aqui escrevi o ano passado). Além disso - Afonso é Afonso desde o século XII -, já percebi que tenho que mudar o link do Bombyx para o Lugar Comum.

sábado, 6 de maio de 2006

O "tom" dos blogues - 5

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O tom dos blogues não é apenas uma procura na amálgama incerta onde antes havia géneros, compartimentos e identidades algo forçadas. Talvez tenha sido por isso que o Pedro escreveu: “Há blogues de que gosto especialmente porque não podiam ser artigos de jornal nem ensaios nem outra coisa que não um blogue”. Existe neste tipo de reconhecimento quase poético aquilo que, entre o mais emblemático Steiner e a omnipresença de Heidegger, terá levado Jorge Gonçalves a caracterizar o "tom" dos blogues: "Penso que aqui, como em grandes momentos das nossas vidas, não fazemos outra coisa senão lidar com "indefinições" e com o "não dito". Heidegger chamava a este pathos "a clara noite do nada". We have no more beginnings". Quando se escreve sistematicamente num blogue, pressente-se de facto que a escrita se torna numa espécie de vaivém fugaz que não é, nem da ordem do prazer, nem da ordem do desprazer. Parece antes submeter-se a um fluxo de actualizações, disperso e inorgânico por natureza, que pode conduzir ao mais imprevisível. A vontade e a liberdade voltam a encontrar-se neste interface público como se o desejo procurasse o seu próprio tabu. Paulo Gorjão exprimiu de modo claro esta curiosa encruzilhada: “A visibilidade leva a que o autor se proteja, se torne mais calculista naquilo que escreve. Em suma, as audiências tornam-nos menos «livres»”. A alteração profunda das relações entre auditórios e emissão, que a rede veio consagrar nos últimos anos, poderia relativar esta preocupação. Até porque o "tom" dos blogues não escapa à provisoriedade (as formas estão em estado de permanente subtracção e adição), à enunciação síncrona e plural, à estesia (simultaneidade entre a sinalização e a poiesis), à meta-contextualidade (as formas criam o seu próprio contexto, deixando de haver um “de fora” e “um de dentro” evidentes - ao contrário do que JPP deixa por vezes a entender), à reversibilidade (multimodalidade e coexistência de registos) e ao incorpóreo (no sentido de um agregado que não é motivado por um centro mas por vários). Seja como for, essa preocupação de fundo hermenêutico que pressente a extrema mobilidade da enunciação e dos públicos permanece. E permanecerá para sempre, provavelmente. Ao lado da procura de um "tom" que atravesse e supere as expressões excessivamente definidas (sujeitas ao império do logos) que marcaram a aventura moderna. Os blogues são uma minúscula embarcação, é verdade. Mas estão a criar um renovado horizonte que está para além da "confiança" tradicional dos e nos média (não deixa de ser sintomática a recente sondagem acerca do tema onde os média tradicionais e os blogues foram colocados lado a lado).

sexta-feira, 5 de maio de 2006

O "tom" dos blogues - 4

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No primeiro dos posts que escrevi sobre o “tom” dos blogues, referi-me à aproximação entre “o que hoje em dia se designa por ”endorsement” publicitário e a clássica pseudonímia “ex eventum” dos velhos textos proféticos”. E concluía: “hoje em dia, há vozes e presenças que se descontextualizaram” e que constituem a “própria pele dos blogues”. Passo a desenvolver e a explicar um pouco melhor a ideia, já que recebi mails que mo solicitaram.
O “endorsement” publicitário consiste no recurso a uma figura pública conhecida que se associa à imagem de um produto. Pretende-se com essa prática majorar e optimizar a marca (a marca é a percepção que o público tem de um produto, de uma organização, de uma pessoa, etc.). Há casos interessantes como o de Fernanda Serrano no BPI, o de Adrien Brody na Ermenegildo Zegna, ou, por exemplo, o de Charlize Theron no famoso “J’adore” da Dior. O “endorsement” é, pois, uma transferência de valor que tem como objectivo avivar uma imagem e adensar uma ilusão.
Já a pseudonímia tipo “vaticinium ex eventum” constituiu uma prática textual muito antiga que atribuía a textos autores muito anteriores à sua enunciação, forjando assim a autoria e atribuindo-lhe uma autoridade e uma legitimação que doutro modo não teriam. Muitos textos proféticos do levante ibérico do século XVI foram atribuídos a Santo Isidoro de Sevilha (por exemplo os da BNP 774), do mesmo modo que os textos de Isaías correspondem a épocas tão diferentes como 740-700 A.C. ou 537-520 a.C., para já não falar, entre outras, da conhecida Profecia de Carlos Magno (reutilizada e forjada durante séculos como a Sibila Tiburtina) que data do século XIV. Este tipo de dissimulação visava igualmente uma transferência de valor e tinha como objectivo específico sedimentar uma vontade e sobretudo consolidar a autenticidade - e a transcendência - de uma ficção.
O que hoje em dia se alterou, no terreno onde os blogues se enunciam, foi a própria ideia de contexto. Aquilo que é o de fora de uma sequência off-line (o de fora de um texto de jornal, de um edifício, de um gesto, ou de um rosto) é, no caso dos blogues, um campo difuso, intermitente e aparentemente ilimitado. Este cibercampo, que é parte da pele dos blogues, veio tornar a significação numa “mise en abîme” que sugere facilmente a ideia de domínio e de óbvia propagação. É por isso que qualquer “blogger” normal releva o “sitemeter” e outros programas de contagem ou ‘lincagem’ (como o "Technorati") para uma transcendência às vezes delirante. A estratégia onanista dos links, a imaginação de partilha de um poder indefinido, assim como a importância da auto-referencialidade inserem-se na silhueta destas tentações.
É por isso que o "blogger" já não precisa do “endorsement” ou do velho “vaticinium ex eventum” para criar a sensação de maior verosimilhança, autoridade, ou refinamento de imagem (veja-se como falhou, há dois anos, a tentativa de imputar um blogue a Anabela Mota Ribeiro, ou de como a pseudonímia na blogosfera se resume quase sempre a um qualquer tipo de medo). Por maior ou menor posicionamento que um blogue tenha, existe sempre uma espécie de simulacro que lhe segreda: “basta-te a simples locução, basta-te o “estares-aí”, basta-te a fantasia do poder e do domínio”, ou seja, bastará tudo aquilo que leva a questionar quem não entende bem o que é a blogosfera: “para que escrevem?, para quê?”. É por isso que, no primeiro post desta série, eu concluía: o “tom” dos blogues é, afinal, um “renovado desígnio apocalíptico, na medida em que traduz a ‘grande visão’ que o blogger tem desta enigmática, ilusória e ilimitada continuidade que é o campo (comunicacional) onde a blogosfera se enuncia”.
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P.S.: Caro Paulo Querido: o primeiro post da série ficou a dever-se à leitura de um post no Bloguítica. O modo aparentementre simples (Paulo Gorjão chamou-lhe ontem “semi-desabafo”) como a questão do tom era aí abordada levou-me a interrogar a sua antecâmara. Sem que o esperasse, a verdade é que não tenho parado desde que aí entrei. É essa a razão das aspas: remeter o lexema para o excerto que foi – e é ainda – o ponto de partida para a ‘divagação em curso’.
Reparo que concordamos ambos com um certo regresso (múltiplo) da individuação e com o facto de os blogues constituírem uma espécie de consecução do “pragmatic turn” (verdade/sentido) e também de algumas epistemologias comunicacionais (para tal, podia ter referido outro canadiano mais jovem, o kerckhove, ou o alemão Sloterdijk). Quanto ao papel da instantaneidade (tema que relaciono com o desejo de perfectibilidade em dois livros meus – Anjos e Meteoros e Órbitas da Modernidade), creio que irá transpor cada vez mais a “referenciação” para jogos de linguagem e não tanto para efectivas redes sociais de confiança (a maior parte dos links agenciam linguagem e não a ‘carne’ dos agentes). A instantaneidade é sobretudo geradora de simulações e de prestidigitações e tende por isso a criar cenografias que sempre foram auguradas nas culturas axiais ou escatológicas (a salvação, a perfeição, a metarmofose imediata, a visão). O on-off dos ‘ciberaparelhamentos’ é, hoje em dia, por isso mesmo, a grande catarse das antigas narrativas salvíficas e a sua superação, de algum modo, também. Daí que o reino do presente esteja a reduzir o passado a uma espessa "amnésia colectiva" (Bertolucci) e se tenha, por outro lado, tornado anfitrião de um futuro que, tradicionalmente, sempre foi o local onde se projectavam idealidades de todo o tipo. Um certo niilismo e cautela que reservo face à “utopia” (as aspas remetem para Breton) da sociedade de informação têm aqui a sua fonte. O que não quer dizer que não olhe para este magnífico presente como se fosse uma ponte criativa que une um mundo ‘catalogável’ que já foi e um outro, seguramente tentador, que virá. Continuaremos a dialogar. O tema é muito estimulante (e com o João Nogueira já na embarcação… a coisa promete mesmo). Abraço, L.C.

quinta-feira, 4 de maio de 2006

O "tom" dos blogues - 3

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Em 1984, o saudoso Fernando Gil definia "conceito empírico" como algo que “significa uma tematização da percepção de feixes estáveis de aparências” (Mimesis e negação). Quer isto dizer que coisas aparentemente parecidas, vistas e revistas ao longo do tempo, acabam por arrumar-se na mente sob a forma de imagens fortes, ou de matrizes que explicam factos (Peirce chamou a isso “lesisignos”). O pastor dirá que a lua envolta por nuvens anuncia mau tempo, a dona da pastelaria dirá que as olheiras da porteira do nº 21 sugerem uma noite mal dormida e o blogueador X explicará ao professor de Latim precocemente reformado o que é um blogue, dizendo que se trata de uma espécie de jornal individualizado que se actualiza todos os dias.
Estas três coisas que o professor de latim precocemente reformado há muito conhece (a tradição da imprensa, a marca autorial e a necessidade quase permanente de preenchimento) acabarão por sugerir-lhe, de modo bastante vago, o que é um blogue. Mas um blogue, como qualquer outra coisa, ultrapassa sempre os esquemas que sumariamente o terão traduzido e caracterizado. E se o professor de Latim precocemente reformado decidir criar um blogue – tem aliás todo o tempo para isso –, chegará um ano depois a novas conclusões. Nomeadamente:
- que a imprensa e os média pretendem dar conta do mundo e que os blogues, ainda que o façam à sua maneira, são sobretudo máquinas de singularidade expressiva (à procura de um “tom”);
- que a questão da individualização que faz dos blogues edições personalizadas (é o blogue do Eduardo Pitta, do Pacheco Pereira, do Paulo Gorjão, etc.) é, ao fim e ao cabo, um retorno a uma longa tradição - do “tom” próprio - que se inicia em John Duns Scot (com a sua “haecceitas”) e na subjectividade do alvor da modernidade e que depois se diluirá, por via das teorias da linguagem que emergem sobretudo na segunda metade do século XX;
- que a necessidade de actualização diária dos blogues está muito para além da angústia da folha em branco de Mallarmé, ou do paradoxo de ter que reinventar todos os dias as mais de cem páginas de um diário, na medida em que reflecte um mundo que se confunde com a rede e com o vaivém instantanista dos pixels.
O "tom" dos blogues não se subsume, pois, a uma matriz pré-definida. No entanto, de algum modo, ele poderá constituir a consecução de uma profecia - permita-se-me o termo - que ficou conhecida por “pragmatic turn” e que resulta de alguns aspectos que surgiram na vasta obra de Wittgenstein, Investigações Filosóficas (congeminada, após o seu famoso Tratado, durante 16 anos, desde o início dos anos 30 até 1949, ano da edição). Há três aspectos que mo permitem afirmar, ou pelo menos sugerir:
- os blogues não perseguem a verdade (esse fantasma é, ainda hoje em dia, o centro da deontologia dos jornalistas e, naturalmente, o fulcro da escrita científica ainda que sempre mediado pelo inquérito e pela dúvida). Perseguirão, sim, o que temos traduzido, devido a mera economia expressiva, por “tom”.
- nos blogues, o uso da linguagem não se submete a qualquer escrutínio (o que não acontece na literatura, nos meios jurídicos, comerciais, económicos, etc.). Quer isto dizer que a blogosfera tipifica como nenhuma outra expressão a ideia de que é no contexto do uso – e apenas no uso, no efémero, no ‘cria e esquece’ - da linguagem que se cria o sentido. A escrita dos blogues brota do fragmento e da desintegração do corpo clássico e enuncia-se para além dos géneros, esboçando, nessa aventura diária, os seus escorços de “tom”.
- Também não me parece existir laboratório mais adequado para exemplificar a máxima dos “jogos de linguagem” do segundo Wittgenstein do que nos blogues: “chamarei ao todo formado pela linguagem com as actividades com as quais ela está entrelaçada o 'jogo da linguagem”. Esta ideia de ligação entre agir e dizer, fazer e enunciar, hábito e situação, por um lado, e o processo autónomo em que a linguagem se inscreve, por outro lado, aproxima-se da amplitude dos ‘links’, da inserção na rede, da auto-referencialidade contagiosa e da compulsão imediatista individidualizada e não presencial (tão própria da ‘quête’ laboratorial da blogosfera).
De facto, o “tom” mais não é do que um tipo de horizonte que vai fazendo a escrita dos blogues adequar-se ao seu jogo, às suas regras, à sua súbita – e algo paradoxal - recuperação da individuação. É por isso que o “tom” dos blogues é, nos tempos que correm, quase tudo (tal como antes Marshall MaChullan dizia que o meio era tudo, secundarizando o que hoje designamos por “conteúdo”).
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P.S.: Caro Paulo Querido: confesso-me ignorante em networking culture, mas não me considero com falta de humor (não me conhece)! A perspectiva que conduz o Paulo no seu texto é a de uma resposta (algo ressentida) a uma pretensa apologia minha. Não era esse o meu excurso. Tinha começado na véspera a escrever sobre o "tom" dos blogues (questão interessante antes aflorada no Bloguítica) e o diálogo a três sugeriu-me a continuação da reflexão (a qual entroncava, ainda por cima, com um recente artigo que tinha apresentado a uma conferência sobre design e as teorias de Hans Blumenberg). O seu texto apareceu, pois, com toda a naturalidade intertextual, no seio desta trama. Apenas isso. E tudo fiz para dissociar a sua opinião em concreto do modelo conceptual que a mesma pareceria indiciar. Quanto à educação, isso é ponto assente. Podia ser de outro modo?

quarta-feira, 3 de maio de 2006

O "tom" dos blogues - 2

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O Paulo Querido citou um post do Miniscente da passada Quarta-feira sobre o que se poderia caracterizar como sendo o “fluxo do link” na blogosfera. No final da citação, o Paulo escrevia: “Luis Carmelo no - irritantemente pesado — Miniscente, via Ma-Shamba)”. Horas depois, no mesmo dia, este blogue reentraria nos bons augúrios do oceano on-line com profundas remodelações. Dir-se-ia que terá sido mesmo refundado pelo engenho e arte do João Nogueira. Também sei que este diálogo se transformou num diálogo a três, tal foi a natureza e a intensidade da coincidência.
No fundo, com toda a legitimidade, para Paulo Querido um blogue deve estar sobretudo preparado para a instantaneidade do ciber-olhar, isto é, deverá comportar-se como aquele bom anfitrião que cede ao visitante uma entrada meteórica e fulminante. Qualquer sobrecarga um tanto esteticizada, para esta concepção, confundir-se-á sempre com o anátema do “peso” e acabará por coincidir com uma espécie de inútil barroco. A questão faz lembrar o contraste entre a limpidez e o imediatismo dos textos proféticos originais (o primeiro Isaías, por exemplo) e a demorada talha dourada dos textos apocalípticos (de Daniel, por exemplo). Esta excessiva (em minha opinião) “poética do código” – a expressão é do João Nogueira – tende naturalmente a recusar a função do design e, por arrasto, a própria “poética da imagem”. Ou seja, sempre que ao lado da euforia transitiva aparece algum design (sobretudo com flash), o visitante saltaria de imediato para outro blogue, tal seria o tormento da demora.
Este tipo de “corrida” a que P. Querido fez clara referência (“irritantemente pesado”) faz parte de um mundo eminentemente instrumental – à neo-Dziga Vertov – que se alimenta da aparente contradição entre a tradição da poética de origem romântica e a tradição da funcionalidade própria da cultura material também moderna (este modo de pensar imagina que a herança do ‘logos’ e do ‘mito’ se excluem mutuamente).
Em minha opinião, o design é justamente um engenhoso interface de ambos os campos (a poética e a funcionalidade, ou, se se preferir, o campo do ‘logos’ e o campo do ‘mito’). E é óbvio que o Webdesign acabe por integrar o legado mais geral de génese oitocentista que foi fazendo do design, com o tempo, um pacto tácito entre a fúria da eficácia material e o desmedido eco da expressão estética. A ideia de que um surfista-modelo da blogosfera é uma espécie de catavento sem norte que vive apenas da instrumentalidade parece-me esquecer este pacto, ou melhor, esta natureza de interface que faz do design uma das virtualidades mais interessantes de toda a memória moderna (e, cada vez mais, da própria actualidade).
Ao fim e ao cabo, neste debate reflectem-se outras realidades bem distintas - e não apenas a da circulação entre blogues –, como por exemplo a dos objectos culturais e a da mobilidade off-line (entre muitas outras). Por mim, prefiro suspender o fluxo ininterrupto e ancorar entre objectos, locais e blogues que me repousem o sentido a entrar na cega catadupa que vive e carbura a partir de uma espécie de ‘não sentido’ muito em voga (os místicos medievais diziam que a vida era um “mero trânsito”: o sentido estava de facto ‘ailleurs’; contudo, para o imediatismo contemporâneo já não existe ‘o Outro lado de cima’ que antes conferia o sentido, mas tão-só o ímpeto instantanista que vive da simulação e das redes de preenchimento).
Ao espelho deste debate reluz ainda um jogo que parece querer reencenar diversas formas de “salvação”. De um lado, uma pulsão de morte que transpõe o antigo pathos veneziano à Visconti para os encantos da instantaneidade tecnológica; do outro lado, a recusa em fazer coincidir o “telos”, ou o fim último, com o presente dando-lhe portanto algum fôlego e alguma fruição. Entre ambos, sobreviverá uma terceira atitude que atravessa ambas e que se revê no compromisso hábil e inteligente do design: usabilidade mais arte qb. E embora haja proximidades conhecidas e mitológicas entre o amor e a morte, eu sempre prefiro a pausa do desejo à metáfora da morte imediata e fulminante, o que não quer dizer que não aprecie uma boa pega de toiros.

terça-feira, 2 de maio de 2006

O "tom" dos blogues - 1

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Questão interessante, a do ”tom” dos blogues. O ”tom” não é o estilo, nem é a modalidade estável de inscrição que se procura (ou procuraria). Não, quando se fala do tom dos blogues como ”indefinição” que normalmente percorre a história de um blogue ao fim de três anos de vida (é o caso da larga maior parte dos compagnons de route do axial 2003), está-se sobretudo a falar de um corpo que vive no botequim da nova S. Marcos global a reinventar o comentário, a crítica, a intriga, a narrativa, a poiesis, a alegoria, a sátira ou a paródia. O que está em causa é a multitude de géneros que nos blogues supera e atravessa a arca expressiva e dividida que involuntariamente herdámos. O que está em causa é a afirmação inorgânica, provisória e instável que é própria dos blogues (há um design efémero, mas fértil, na força elocutória da blogosfera). O que estará em causa é a aproximação entre o que hoje em dia se designa por ”endorsement” publicitário e a clássica pseudonímia “ex eventum” dos velhos textos proféticos: há vozes e presenças que se descontextualizaram e que hoje são a própria pele dos blogues. O “tom” dos blogues é um tema capital para entender esta longa marcha de três anos. Quando dantes se dizia que o “meio” era tudo (que interessavam as mensagens!), hoje, na casa da blogosfera, dir-se-á que o “tom” é quase tudo. O “tom” é, afinal, um renovado desígnio apocalíptico, na medida em que traduz a ‘grande visão’ que o blogger tem desta enigmática, ilusória e ilimitada continuidade que é o campo (comunicacional) onde a blogosfera se enuncia. Voltarei ao tema.

O encanto dos "mortinhos"*

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Esta "Season 5" não está a desabrochar (eis um verbo recheado de fertilidade). Ontem, quando me sentei para ver o segundo episódio, só me consegui lembrar de Rome. Deparo-me ainda com um parapeito nostálgico que separa o brilho de César desta agonia lenta. Brenda: uma chuva de estilhaços, Claire: a reconvertida aduladora da colagem do mundo (a arte como delírio pouco terapêutico); Ruth: a impotência algo revisitada, Frederico: a genialidade da mentira; Keith e David: as ilusões sem porto de abrigo, Nate: o espectador inglório. Não é que não aprecie anti-heróis, mas aqui há também uma questão de mood, de desejo de primavera e de solaridade. Já viram o template novo, a propósito?
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Carla: Eu compreendo muito bem. O meu texto aproxima-se desse tv-spleen. Seja como for, irei continuar a rascunhar (tão-só isso). Aproveito o momento para revelar uma secreta gargalhada dos sábados à noite:
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