sexta-feira, 8 de outubro de 2004

Redenção portuguesa


E hoje... chegou o mau tempo

Na rentrée política, vários foram os temas e anátemas que percorreram a nossa dispersa atenção. Falou-se de tudo: professores, raptos, feiras, calor, para além das inimagináveis tramas terroristas. Mas sobressaiu a isso tudo, na nossa pequena terra paroquial, esse estigma quase divinal que dá pelo nome de teleponto. Lembro-me de me apavorar face a esse travelling letrado a estibordo que me acompanhou em algumas gravações televisivas.
Seja como for, não é o teleponto que me apavora, já que ele é um mero substituto do papel escrito que os políticos dos sixties liam escorridos em suor, expostos que estavam às luzes intensas dos estúdios. O que me perturba profundamente é a vontade de que tudo tenha que sair perfeito, harmonioso, integral, absoluto e sem quaisquer falhas. A vida não é assim; a vida não é ilesa aos envolvimentos de um certo caos. E a política também não pode ser uma coisa estriada, forçada e dissimuladamente perfectível.
É verdade que rodopiar a realidade, ficcionalizar e simular são coisas normais no globário tecnológico em que vivemos hoje em dia. Mas querer pintar de cor-de-rosa e cobrir com verniz o inapelável é tarefa para o supremo altar do kitsch. E esse é o padrão que Sócrates, feliz ou infelizmente, se prepara para trazer à cena política portuguesa.
Guterres era um católico de crença, tinha um discurso que se modelava às adversidades e projectava, sobretudo nos primeiros anos, um certo querer reformador. Sócrates não é um homem de crença; é antes um simulacro de autoridade e um apontador de causas, mas é-o sob o manto de uma redenção sorridente, açucarada e a extravasar de coerência compulsiva.
De resto, era ele o único homem que o PS tinha para o poder. Um verdadeiro mal menor. Alegre e o filho de Soares seriam sempre estigmas políticos muito fáceis para a direita. E por isso limitaram-se a repetir palavras de ordem e pregões batidos que agradavam ao calvário de outros tempos. Por isso limitaram-se a ser a espuma esbranquiçada de um tempo excessivamente demorado e quase estival que foi o das primeiras primárias portuguesas.
Faça-se, de qualquer maneira, justiça à discussão aberta e plural que o PS desenvolveu nesta rentrée política. Pois, por contraste, já todos sabemos o que vão ser os congressos que se avizinham: no PSD, uma consagração maioritária com vozes de Basto a emprestar dissonância à sinfonia e, no PCP, a via dolorosa de uma Jerusalém celeste já sem salvador, nem profeta, nem missal. Do PP nada sei, embora creia que os casaquinhos azuis e as gravatas coloridas deverão, também, ouvir-se uns aos outros, algures, em data incerta.
É provável que as eleições legislativas consigam esperar por nós até 2006. De resto, o calendário das autárquicas aperta o cerco a outras possibilidades. Mas o bizarro esquema do Ministério da Educação, o expediente Marcelo, assim como a resistência a algumas medidas, com desideratos legítimos aqui e ali, caso das taxas moderadoras, lei do arrendamento e do pagador-utilizador nas auto-estradas, podem inflectir o ciclo mais cedo do que afinal se esperava. E a música dos socráticos pode, por implosão alheia, ter que entrar em palco de modo porventura prematuro.
Não sei se é essa a redenção que o país precisa. Gosto de duvidar. Mas todos sabemos que há mudanças urgentes que Portugal necessita há décadas. Há séculos. E sabemos muito bem quais são. Administração pública, domínio fiscal, educação e saúde. Não sou grande entusiasta dos processos de regionalização, nem particularmente nacionalista à moda republicana. E creio mesmo que todos temos a ganhar cada vez mais com uma progressiva e decisiva integração no magma político, social e económico da Europa.
A nossa afirmação na globalização passa pelo diálogo a esse macro-nível e não pela triste perpetuação da retórica intestina e umbilical que tem dado aos portugueses, geração após geração, uma auto-imagem frágil, cândida e às vezes até liliputiana. Hoje em dia, a soberania não tem fronteiras terrestres; tem sim fronteiras mundializadas onde agem causas e meios capazes de fazer recuar o terrorismo, as terríveis desigualdades económicas e as ameaças à liberdade.
Sem esta compreensão não há teleponto que resista.

quinta-feira, 7 de outubro de 2004

Bondades e doidades

No meio desta panóplia tão portuguesa, no meio desta melopeia lusa tão alface com tomate, tão viscosa e manjeriqueira, tão desgarradamente camiliana com um dedinho inocente do Frei Luís de Sousa desaparecido, tão à Cavaleiro de Oliveira com acenos de balaustradas novas ricas das terras de Basto, tão ao jeito da sopa de pedra paroquial e arrufadamente calculista, pergunto eu (que sou ingénuo e prolixo no fundo insaciado da minha curiosidade): quem é, afinal, esse senhor Rui Gomes da Silva?
Será também "professor", ou apenas "Silva"? Ou as duas coisas? Ou nenhuma ? Ou nada? Ou o quê em vez de nada?
Fica a pergunta para uma resposta simples, imediata e inteligente.
Analistas, comentaristas, papistas

Dizia Carlos Magno (é esse o seu nome?) lá nos altos do Monte da Virgem: "Até eu achava imensa piada ao professor Marcelo. E acho que o homem comum também devia achar" (mais ou menos assim, no comments).
Count down

Começou o fim da coligação. O caso Marcelo abre a grande fissura na maioria e tem, de um lado, a desprevenida e irresponsável arrogância populista e, do outro lado, o malabarismo inteligente e requintado. Pelo meio, há interesses; só não vê quem não quer. O resto é demagogia e o habitual rol de augúrios, muitos deles legítimos. As causas, essas, já andam ao vento há um tempão. Seja como for, tenho pena de deixar de ver o Marcelo aos Domingos.

terça-feira, 5 de outubro de 2004

O Inventor de Lágrimas: alguns comentários

Com as primeiras reacções ao meu novo romance, começo, eu também, como sempre, a construir o meu mapa de comentários interpretativos. É esta a segunda vida de um livro, já que a primeira, no seu silêncio construtivo, se encerra na surda luta entre o plano, a agenda, ou o modelo abstracto da trama e a mais brusca e incontrolável imprevisibilidade. É claro que os motivos plásticos e poéticos se apagam na maioria dos comentários, embora, sejam eles, para mim, o que de mais fundamental luz na arte (ainda que esta arte em particular, a literária, seja uma arte que fala e,portanto, uma arte que nasce da enunciação de relatos e da narração memorial e mítica). Vamos aos três comentários que hoje me ocorrem:

Um boomerang de tentações. Depois de algumas leituras que me foram dadas a conhecer, concluí que o romance tem como tema fundamental a tentação. Primeiro, o protagonista é tentado e, depois, é ele mesmo quem tenta os que lhe são mais próximos. O sistema criado por esta rede de tentações, que todos aceitam e acatam, acaba por se virar contra o protagonista. Nessa altura, ele é levado a praticar o inimaginável e foge, desaparece, escapa radicalmente ao mundo. No entanto, este puro acossado há-de acabar por receber do destino um generoso presente sob a forma de happy-end. Não como se espera, mas como se deseja.

Vidas mundivivendes ou cosmopolitas e vidas correntes ou comuns: as riquezas e as pobrezas de ambas. Numa sociedade pré-moderna ambas coincidiam, já que as aspirações humanas tinham que caber apenas numa vida muito simples, encarada como mero trânsito divino e destinada a negar qualquer curiosidade humana. No tempo em que o romance se move, o tempo actual, sabe-se que tudo, em teoria, pode acontecer na vida, incluindo ser-se herói. A ilusão deixa de ser a redenção divina para passar a ser a própria possibilidade de ser herói. Mas ser-se herói, hoje em dia, não é o mesmo que ter sido herói romântico ou anti-herói contracultural na modernidade do século XX. Ser-se herói, hoje em dia, passa pela partilha dos fluxos que a euforia global propõe, i.e., ter a sensação de que se está em todo o lado ao mesmo tempo, devorar os acontecimentos que resultam da euforia dos média, hipnotizar-se com a aceleração das imagens (ter que ver sem ver) e consumir mais objectos culturais do que aqueles que se pode ter. Mas muito mais herói se é, se se conseguir inventar factos que alterem a realidade no meio desta partilha geral que é, ela própria, extremamente inventiva, ilusória e sobretudo compulsiva. É essa a tarefa primordial de Júlio Caldas, o protagonista deste meu novo romance.

A espera. Lutar pela felicidade e pelo cumprimento de desejos e augúrios implica uma certa dose de fé. Mas, muitas vezes, este tipo de expectativas paga-se caro. Foi assim que se passou com a espera (oitocentista e novecentista) pelo paraíso ou pelas sociedades perfeitas. O tempo de espera é, em muitos casos, um tempo de preenchimento em que a loucura acaba por tomar a palavra da forma mais normal e bizarra. O que acontece a Júlio Caldas, o protagonista do romance, entre o fim da adolescência e o culminar das aventuras relatadas no romance, é, no fundo, uma longa espera. Ele espera sempre por alguém, ainda que irreflectida e involuntariamente. E é a espera que o há-de conduzir ao delírio e à mais desprevenida surpresa já no final.

segunda-feira, 4 de outubro de 2004

Notas avulsas



Ontem deixei Mértola de barco antes do pôr do sol. O maior enigma que me acompanhou foi o ritmo da paisagem e não tanto o deslumbramento que apenas existe para não ser nomeado, já que ele é, digamo-lo por palavras simples, pura comoção.

Em Guimarães, o melhor discurso foi o de Jaime Gama e o melhor golo o de Geovanni. Sem ironia.

A atitude das pontes "S.L." é em tudo o oposto da gravidade cavaquista e do anti-tanguismo barrosista. A malta gosta, a malta tem. Hoje, passei com o cão à porta de uma Escola Preparatória que tinha a porta fechada e um escrito nela colado que aludia à ponte. E pergunteí ao Ulisses (é o nome do cão): - a república tem dois dias de feriado? - E o bicho respondeu-me que Sim. Claro!

Às vezes, é horrível cair dentro de um noticiário em directo e ter que falar da intriga do meu último romance em escassos segundos. Como se se esperasse de mim a função de relator. Apenas sei que a anatomia de um romance transcende radicalmente o argumento que nele se passeia. Mas um escritor tem que... aparecer e falar. Mesmo que só diga Blá Blá Blu Blu! Ossos do ofício. Aparecer para ser.

Qual é a diferença entre uma ponte S.L. e uma greve da Inter? São ambas como as SCUTs. e ambas representam o que não são. A malta gosta, a malta tem.

Outubro nasceu como o seu antecedente Setembro. Em beleza, cheio de sol e a prometer o Verão perpétuo. Assim seja!

sábado, 2 de outubro de 2004

País dos recadinhos



Uns fazem do sigilo matéria de facto e conjectura, outros colocam os holofotes na fechadura dos gabinetes. Espreitam, deleitam e transformam a água em vinho e o vinho em água. E o indígena gosta.
País provinciano. Ponto final.



Eles dão a notícia (logo no Expresso da meia noite) e, nos telejornais que se seguem, a dita transforma-se de imediato na categoria de facto. Sem mais nem menos, um "pacto secretíssimo" chega assim desprevenidamente ao conhecimento público. Depois, ascende, de modo meteórico, a coisa real comprovada por trezentas e duas fontes. Por fim, passadas umas horas - o sono de Sexta para Sábado é redentor -, essa coisa já real converte-se em material de eleição para conjecturas e discursatas. País paroquial. País de recadinhos lulus. País da perpétua Corte na Aldeia. Prefiro o meu pátio, sinceramente.
Feminino vs. Masculino

O Japão ensina como é.

sexta-feira, 1 de outubro de 2004

Ele já aí anda



É o nono, é bom ir comprando. Mas dizem que o décimo vai ser uma bomba, um dirigível, um terramoto.