terça-feira, 15 de março de 2005

UM AMOR CATALÃO
Folhetim à moda clássica
DÉCIMO OITAVO EPISÓDIO
(A caminho de S. Marcos)

E quando, no dia seguinte, voltávamos da tourada, pela noite, e as estradas eram muito compridas, mal iluminadas e sem fim; nesse dia seguinte, indo à frente o pai da Albe a conduzir e a mãe no lugar do morto, salvo seja, com a música que era de persistente paso doble muito alto e vibrante; nesse dia, à noite, de regresso de Girona e, ao passarmos por La Bisbal, Parlavà e Torrebella de Montgrí - embora, nesses tempos, todas estas terras só se pronunciassem em Catalão e pela calada da noite; nessa noite de luar infindo, repita-se, estando eu preenchido pela selecta memória dos passos dos cavalos, das pegas acrobáticas e ainda dos mil motores de combustão que me iam arrebatando a alma; nessa noite, volto a repetir, pela calada serena do banco de trás, onde abundava uma clara penumbra de desejo e de tentação, acabei por empurrar a minha mão pelas tiras do banco e assim alcancei a mão de Albe.

E como Albe me apertou os dedos, as linhas da vida, as vias do destino e até os próprios pulsos; e com que tenacidade eu contracenei a tal deslumbramento ! E como parecia a felicidade ser apenas aquele momento ímpar, prestes a resumir-se, depois, à sua peregrinação vivida e celebrada ! E como foi decisivo o grande toureio a cavalo de Samuel Lupi e a maravilhosa pan do meu ford escort !
Estava escrito.
Foi então que em segredo nós dois combinámos: encontramo-nos em Veneza no primeiro dia de Outono em frente da Catedral de S. Marcos.
Estava escrito.


(No próximo episódio, ir-se-á entender por que razão o destino nem sempre prescreve o que o desejo entende ser sua constelação)

Continua
*
(publicação da versão Inglesa no blogue Minion)