quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Outro poema

o sopro faz do vidro uma penumbra
a crescer entre o nada que já foi e a folhagem alta do socalco
e
leva a palavra com o nome que não se multiplica e por isso
da árvore cai a chama e não a folha
e
o sopro dá ao vento o que a alma dá ao vidro
uma combustão de máscaras
e
talvez um rio

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Um poema para o fim do meu mês

e

dá por vezes o corpo como a música dá
a fonte
que não tem

e
a siflar anuncia
o secreto patamar
sem escadarias

e
e o vidro lentamente cose a sombra da calçada
escala a rua e verbera
a mansidão do eco

e
a siflar
dá por vezes a refeição do corpo a tangerinas
ávidas e depois esquece

terça-feira, 23 de agosto de 2011

A Dobra do Crioulinho

PM


e

Acabei o que virá a ser o meu próximo romance - A Dobra do Crioulinho - no último domingo de Julho. Ontem li-o (quase) todo pela primeira vez.

e

Publico aqui, pela primeira vez, um pequeno excerto:

e

"Fiquei à espera, mas por pouco tempo. Tirei uma segunda cerveja do frigorífico e pela janela vi a polícia de choque a atravessar o largo. Atravessaram a calçada como um rio negro que aparece e logo desaparece. Minutos depois o alarme deixou subitamente de se ouvir, mas sentiu-se ao longe um estranho tumulto de vozes. Silvie acordou, não se mexeu e sorriu na minha direcção.
d r
Francisco era um morto vivo a ver uma série que passava – estava sempre a passar – na televisão. Devia ser a Grey. Médicos a retirarem os órgãos a um homem que acabara de morrer na mesa de operações. O LCD não tinha som. Foi nessa altura que Violeta reentrou na sala. Trazia uma bandeja com três chávenas de café. Francisco e Silvie serviram-se. A noite estava cada vez mais quente e eu pensei que o mundo acabaria quando todas as histórias fossem contadas ao mesmo tempo.
d e
A ventoinha estava no máximo e as heras do alpendre tinham regressado a si: a serenidade das marcas. O vento desaparecera. Afastei com os dedos o cortinado e revi a calçada vazia. A geometria é a repetição de uma ideia simples, apenas isso. Violeta veio colocar-se a meu lado. O tumulto de vozes ao longe impressionava. Olhei para Violeta e senti-me a andar no descapotável. Bastava olhar para ela e estávamos os dois já a andar de carro. O desejo é um ser. Fora do desejo não há tempo. Apenas gravitas. E esta sala era um gravitas perfeito."

sábado, 2 de julho de 2011

Finalmente

e

O site do "EC.ON" (EscritaCriativaOnline), de que sou coordenador, acaba de reaparecer após longo 'rebranding'. O renovado espaço contém novas secções, proporciona muita informação e disponibiliza possibilidades técnicas inovadoras. Ler e ver tudo aqui.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Conteúdos - cânone - 17 (fé)





e


Quando dou conta do conteúdo fé, digo ou faço o que tenho a dizer ou a fazer. Mas, ao mesmo tempo, sigo o que o guião do conteúdo fé me diz sobre a certeza íntima de que algo irá acontecer.
g
A fé: ver acontecer o que ainda não se realizou, como se se prefigurasse como certo aquilo que se desejou. A fé tem a característica expressionista da visão: estar dentro da cena que se imagina, mas estar nela antes ainda de acontecer e com a certeza de que irá realmente acontecer. Na fé há uma conversão espontânea de acontecimentos: entre aquilo que virá e aquilo que já existe na mais íntima determinação. Clube de futebol, lotaria ou deus são – todos eles – objectos de vaticínio da fé. Uns com ironia (ter fé e ver a fé com humor), outros com rigidez (ter fé e ver a fé com estriada seriedade). A fé é partilhável como fenómeno de massas – e aí tem contada toda a sua história pública ao longo de séculos e séculos de manifestações variadas –, mas é sobretudo, na sua auto-especularidade, um fenómeno íntimo. Um jogo egotista de certezas. Uma coerência tão fechada quando silenciosamente monologada. A fé existe como um conteúdo que não deseja ser definido. O senso comum traduz a intraductibilidade justamente nessa medida: “É uma questão de fé!”. Essa longa história do inexplicável e, em certos aspectos, da sujeição de alguém a uma fé partilhável porque impositiva – neste caso, um tabu que não se pode por dogma aflorar – transformou a questão em algo incómodo. Por vezes insuportável. A atitude moderna, por exemplo, sempre se tentou definir contra a fé. Afirmação por contraponto, portanto. Embora, nessa definição, a fé reaja com assimetria devido ao que mais a alimenta: a intimidade. A fé é essencialmente uma forma de resistência: poder ver o que não é dado a ver pelo real mais imediato. Crer nessa possibilidade e realizá-la, tal como a arte se realiza sem necessitar de se referir seja ao que for. É esse o guião da fé: uma visão que se confunde com o ser que a tem.

sábado, 18 de junho de 2011

Conteúdos - cânone - 16 (massificação)

e

Quando exprimo a ideia de massificação, exprimo o que tenho a exprimir. Mas, ao mesmo tempo, sigo o que o guião do conteúdo “massificação” me diz sobre um corpo decapitado que sorri como se o mundo fosse um ‘reality show’ sem princípio nem fim.
r
A massa foi sempre uma preocupação moderna. De Marx a Ortega Y Gasset. Mas a massa moderna era um caudal que ameaçava, perturbava ou se alienava. Tanto faz. A massa era sobretudo um caudal que criava contrastes, porque convivia com entidades que eram o positivo ou o negativo da própria massa. Elite, intelligentsia, classe, nomenclatura e outros termos designaram essas entidades. A massa moderna era um rio poderoso que contrastava com a serenidade das margens. Nas margens fazia-se a política, a literatura e o mito. No rio – e sôbolos rios (grandes revoluções) – fazia-se o resto. As inundações marcaram, por isso mesmo, grande parte da história dos séculos XIX e XX. No nosso tempo, o rio e as margens desapareceram. O rio envolveu as margens e as margens envolveram o rio. Nem um nem outro hoje se reconhecem. O que deles sobrou foi um efeito de massa: um manto em 3D que avança em direcção ao sentido. Como se tudo pudesse acontecer: com a agravante de que os ares de clímax são tão simulados quanto reais. A crise dos mercados representa, no novíssimo palco, o drama da massificação: tudo se comprou, tudo se construiu, tudo se esbateu e tudo se disse. E agora, aberto o abismo, a massa reage como um caudal sem margens. Tal como uma angústia profunda sem objecto preciso. Esse ‘pathos’ é a própria natureza da massificação: um corpo decapitado que sorri, como se fosse para sempre, diante dum ‘reality show’ intemporal.

Conteúdos - cânone - 15 (falha)

e t

Quando comunico que algo falha, comunico o que tenho a comunicar. Mas, ao mesmo tempo, sigo o que o guião do conteúdo “falha” me diz sobre um mundo em que a falha se tornou na coisa mais comum que se pode imaginar. Puro espectáculo.
r
Vivemos num mundo em que a falha se vulgarizou. Sem receituários (baseados na harmonia ou na perfeição) capazes de dar algum sentido aos actos do dia-a-dia, a vida passou a ser recheada por falhas. É por isso que notícias passaram a incidir muito mais na repetição da repetição (nas meta-corrências) do que em falhas, inversões, acidentes e outras anomalias. Torna-se, hoje em dia, muito mais difícil distinguir o que escapa à ordem natural, normal ou previsível das coisas (o “segno” medieval) do que em qualquer outra época. Justamente porque, neste ‘mundo pós’ – deixou de existir uma ordem natural, normal ou previsível para as coisas. A normalidade é, no nosso tempo, um firmamento de falhas: uma curva que religa simultaneidades que disputam e desafiam o código que vão criando. Micro-narrativas, micro-códigos e micro-discursos: um terreno pouco estriado e aberto, mas seguramente fértil para o culto de falhas. Ao ter-se vulgarizado a falha, o alarme deixou de com ela conviver. Antes se exilou e foi deixando em pé de igualdade o pasmo criado diante das torres gémeas – há uma década – ou o pasmo criado diante da morte de Diana – há década e meia (tudo passou a ser encarado como espectáculo e todo o espectáculo foi deixado em pé de igualdade). Os pasmos tornaram-se quase todos iguais e passaram a sintonizar uma mesma frequência. Bits como factos. Os pasmos tornaram-se vórtices sensoriais dos media e passaram a ignorar o alarme que sempre foi gerado pela própria falha. Um circuito vulgarizado pela falha – de que a generalização dos erros ortográficos é uma óptima metáfora – é um circuito que se impõe pela inclusão sem diferenças. Uma inclusão sem diferenças é uma massa informe que tem a falha como identidade.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Conteúdos - cânone - 14 (sms)

e


Quando envio um/uma sms, exprimo e faço o que tenho a exprimir e a fazer. Mas, ao mesmo tempo, sigo o que o guião do conteúdo “sms” me diz sobre a redescoberta da palavra como desmontagem e elipse ao serviço de uma transfusão da linguagem.
r
Um/uma sms molda a linguagem para caber em qualquer lado (ou em qualquer género). Já um toque é apenas a interrupção simples de um tempo em princípio plano. Um toque tenta criar fronteiras entre o antes e o logo que o sucede. Como se um dedo apenas fizesse criações descontinuadas. A interpelação, por seu lado, já é um esboço de narrativa, mas o toque ainda não: simples aceno. O/a sms é também uma espécie de toque, mas com alguma ressonância e amplitude. Mera flutuação que se distende ao longo de vários caracteres, como se um desejo de narrar fosse evocado mas logo fugisse e não passasse de uma sugestão à procura de encantamento. O/a sms dilata o vórtice do toque, dá-lhe águas, esquece fronteiras e acaba por inscrever um desejo como breve traço ao longo do tempo. Se o toque interrompe, o/a sms esvazia o balão da palavra: é essa a sua duração. É esse esvaziar que, ao preencher uns tantos segundos de leitura, acaba por dar perfil e espessura ao/à sms. Moldar a linguagem é fazer do vaivém entre ar e balão um sentido que nunca se esgota. Um sentido sempre em aberto: palavras de fractura, pontos insinuantes, consoantes nuas, parêntesis com rosto, vírgulas risonhas e sufixos com perfil de puras elipses.

Conteúdos - cânone - 13 (tempo real)



e

Quando exprimo a ideia de “tempo real”, exprimo o que tenho a exprimir. Mas, ao mesmo tempo, sigo o que o guião do conteúdo “tempo real” me diz sobre a possibilidade de não existir nem futuro nem história.
e
Sabe-se que o tempo não é capturável. É isso que o determina, seja ele cronológico (chronos) ou ligado a invariantes (aion). O tempo é um conteúdo que ocupa a percepção de uma passagem. Mesurável ou ético, não mesurável ou émico, o tempo existe para além do código, seja ele qual for. A designação “tempo real” pretende assinalar uma coexistência entre o acontecer (tornado conhecido) e o acontecimento. Trata-se de generalizar a contingência em flagrante. O que não é “tempo real” está fora de jogo. Mas no jogo do “tempo real”, tudo se assinalaria e incorporaria no instante em que emerge. O que torna real o “tempo real” é a sua extrema irrealidade. Esse paradoxo é, afinal de contas, o seu dom e também o lado mais apelativo do seu uso. Ao repetir até à exaustão “tempo real”, o tempo corre até o risco de se tornar capturável. E uma ilusão em era de ilusões é a mais pura das verdades. O guião do conteúdo “tempo real” é, pois, tão assertivo quanto inebriante. Toca os sentidos e invade o domínio das certezas cronológicas. Para além do “tempo real” já não existe história nem futuro. O “tempo real” impõe-se, deste modo, como único momento, ou como uma espécie de clímax exclusivo de uma narrativa que se bastaria ao instante. Uma coexistência e uma intensidade que não deixam – ou que não deixariam – respirar.

Conteúdos - cânone - 12 (património)

r

Quando exprimo a ideia de património a alguém, exprimo o que tenho a exprimir. Mas, ao mesmo tempo, sigo o que o guião do conteúdo “património” me diz sobre um culto que vai resistindo com bastante ímpeto nas malhas da cultura dessacralizada.
y
Há mais de dois milénios, o conteúdo cultura andou associado à ideia heideggeriana de ‘cuidar de’ – cuidar da terra e dos animais, num sentido relativamente neutro. Um sentido de teor secular (que surge em Plutarco ou Cícero) remeteu, por conotação, para a ideia de cultivo do ‘espírito humano’ e havia de se projectar, até aos nossos dias, em significações como “desenvolvimento intelectual’, ‘saber’, ’estudo’, ’esmero’ ou ‘elegância’. Um terceiro sentido atribuído ao conteúdo cultura, o de Santo Agostinho, transpôs, na Idade Média, o conceito para o modelo divino de ‘culto’. Um quarto sentido surgiu, já no Illuminismo, por via do alemão Herder que estabilizou a noção moderna de cultura enquanto objectivação da totalidade do produto humano realizado, independentemente dos seus autores subjectivos. Nesta perspectiva, a imaterialidade e a materialidade historicamente acumuladas pelas comunidades (língua, terra, tradição, objectos ‘culturais’, etc.) tornaram-se em novos objectos de culto. O património – que tem apenas algumas décadas de vida – descende desta ‘inovação’ já com dois séculos e meio e projecta-se sobretudo no edificado, no meio construído e nos próprios quadros do vivido. No fundo, uma recuperação da ideia de culto no meio de um mundo que se dessacralizou. O conteúdo património redescobre-nos, deste modo, no centro de uma redenção que nos é docemente revelada pela cultura. Algo para levar muito a sério, quando da realidade se apearam já quase todos os altares.