sábado, 13 de março de 2010

Quando o risível procura bigode

Chega a ser delicioso auscultar os filósofos que se entretêm com a filosofia do futebol, de que Rui Santos é Wittgenstein e de que Rui Moreira é uma espécie de pragmático William James.

A discussão em torno do desporto, em Portugal, é matéria que mereceria mais estudos. O futebol, por exemplo, foi criando ao longo dos anos um verdadeiro 'establishment' (paralelo ao da classe política) que se manifesta com grande impacto nos media, para além de desenvolver alteridades e rituais necessários à sua conservação e de municiar um abundante mercado (de que nunca se separa bem o que é invisível do que o não é).

O peso deste 'establishment' é hoje muito maior do que era há um quarto de século e é muitíssimo maior do que era no 'tempo da outra senhora'. A tendência é claramente crescente. Repita-se: não do espectáculo, do peso das camisolas ou dos afectos espontâneos pelo génio da bola, mas do 'establishment': essa amálgama de dirigentes, estruturas e vozes cruzadas que contracenam com um mercado (aparentemente) sem fundo e com uma aparição omnipresente nos media.

O modo como estes factos se revelam noutros países europeus não será muito diferente, mas creio que há especificidades portuguesas. Uma delas é o número de jornais e de programas de televisão por habitante (a contrastar com o esvaziamento da larga maioria dos estádios); outra é a proporção com que as abordagens do futebol - à imagem da Grécia, de alguma Espanha ou Itália - se propagam no espaço público. Haverá neste gáudio que as pessoas adoram (bem sentadinhas nos seus sofás) alguma psicanálise que 'serve' de modo profícuo a filosofia pátria.

Não gosto de dar lições de 'dever ser' ou de "ética", como agora se diz nas "Comissões" de redundância parlamentar, e não sou admirador das doutrinas políticas que o fazem. As pessoas devem ter o que gostam, desde que não ameacem as liberdades de terceiros. E por vezes chega a ser delicioso auscultar os filósofos que se entretêm com a filosofia do futebol, de que Rui Santos é Wittgenstein e de que Rui Moreira é uma espécie de pragmático William James.

De todos os programas de televisão que se dedicam ao "fenómeno do futebol" há um que se destaca em meu entender: o "Mais Futebol" que vai para o ar no serão das sextas-feiras na TVI24. É o único que carbura o tema com humor - desde logo pela apresentação cativante de Cláudia Lopes -, é o único que não faz esquematicamente coincidir o painel com partidos/clubes e é ainda o único que tem rubricas de sadia dessacralização da coisa futebolística (a "Bola na barra", por exemplo). Além do mais, foi apenas neste programa que ouvi argumentos de compreensão do que se passou no recente Portugal-China, realizado em Coimbra.

Este jogo de treino da selecção teve ingredientes novos a que o 'establishment' reagiu do mesmo modo que os políticos reagem a contratempos terríveis (estilo... "Afinal o PM não falou verdade no parlamento!"). O facto de parte razoável da assistência ter proposto uma interacção menos estadista/clubista com o desenrolar do jogo feriu realmente grande parte do 'establishment' (os dirigentes lamentaram-se ao nível de uma quase 'traição nacional'). No fundo, os cartazes pediam uma selecção com bigode e os Olés celebravam, ao modo dos dadaístas, uma castiça China que atrapalhava os heróis nacionais (ainda sem bigode). Este modo irónico e sadio de ver futebol e de apelar à diversão com o futebol constituiu um sintoma novo.

A Coimbra que filtrou, em 1969, o Maio de 68 parecia ter voltado a acordar da sua letargia. Não para o velho Tomás, mas para a nova carcaça da nossa vida pública: o 'establishment' do futebol. É bom que haja um "Mais Futebol" e é bom que haja a Coimbra que soube tirar partido do que, também, deve ser a performance do futebol!
e
Hoje no Expresso

quinta-feira, 11 de março de 2010

Mau hálito político ou má sina?

O país da Expo foi um país frondoso, pelo menos por cima do tapete. Toda a década de noventa, a primeira que vivi em Portugal depois de um longa estada no estrangeiro, significou crescimento, recuperação e sobretudo mentalidade positiva. A "geração rasca", a crise da ponte 25 Abril, já no final do cavaquismo, e as diversões em torno do Padre Frederico em nada se comparam com o que realmente havia de ficar para a história: a Expo, a descoberta das TVs privadas (e de um novo tipo de pluralismo) e a importância crescente da tecnologia no dia-a-dia.

O nosso 09/11 foi prenunciado pelo pântano de Guterres que, depois, mergulharia nas águas paradas do Caso Casa Pia. Era a primeira vez que o país se via (massificada e mediaticamente) ao espelho, como se o precipício se abrisse e concordasse em género e número com a governação. Um apocalipse lento. Em 2004, Sampaio cortou a direito e, fora da formatação dos media clássicos, os blogues desenhavam uma nova contracorrente da afirmação pública. Provavelmente, foi esse o esteio mais sadio e livre da década.

A segunda metade destes últimos dez anos trouxe até nós o hábito socrático. A "História" tornou-se repentinamente num dia-a-dia conhecido, a que não faltou a maioria absoluta de 2005 - em muito esculpida pela deserção de Durão e pelo animatógrafo de Santana - e a psicanálise tecnológica. Mas o "Subprime" e a crise dos mercados acabariam por fragilizar e fazer ruir o trabalho de casa desse governo (em 2007, o défice descera realmente abaixo dos 3%). Os muitos falsetes e sombras da personalidade de Sócrates (licenciatura, projectos, Freeport, etc.) contracenaram, de repente, com casos como os do BCP e BPN. À esquerda e à direita, passe a ligeireza do esquematismo, o dedo acusador cruzou direcções e sulcou destinos pouco saudáveis. Era a entrada em cena da fase em que estamos a viver e que é caracterizada pelo profundo "mau hálito político".

E assim chegámos, no ano passado, a um novo parlamento a clamar por equilíbrio num país que o havia, entretanto, perdido. De repente, aquilo que o caso Casa Pia significara para o pasmo dos portugueses passou a ser revestido pelo tom judicioso (e de alguma vingança mútua) das comissões de inquérito do nosso Parlamento. Ética, TVI e outros tópicos congregam hoje grande parte do que se diz e do que se fala. Tal como aconteceu em 2003-2004, regressámos agora às águas paradas dos novos casos Casa Pia e às governações liofilizadas que folgam - fazem questão disso! - em acompanhá-las. Será esta a nossa sina?
(hoje no Expresso)

terça-feira, 9 de março de 2010

Benfica: a marca, o mito e o mais

O Benfica é, em Portugal, muito mais do que um simples clube. E é-o, em muita medida também, fora de portas. Basta ter vivido uns anos fora do país para o compreender.

Sem que necessite de saudosismos ou de um ininterrupto apelo da história, a identidade do Benfica reactualiza-se no dia-a-dia de modo perene, mesmo durante os ciclos desportivamente menos rentáveis. Ao fim e ao cabo, o Benfica corresponde - como dirão os teóricos da publicidade e do "branding" - a um caso singularíssimo de marca, edificado entre o imaginário comunitário do "core" e a autenticidade do património. Um caso em que a marca e o mito confluem.

Creio que a especificidade deste factor dita um outro que acaba por marcar, de modo indelével, o desporto entre nós: em Portugal, existe o Benfica de um lado e, do outro lado, todos os outros clubes. Mesmo os outros grandes clubes. Esta é uma realidade muitas vezes metaforizada (ou parodiada) pela famosa galáxia dos "seis milhões". Mas as metáforas, até no campo dos provérbios e dos ditados populares, falam sempre verdade. Daí as fricções, os afectos, as emoções superlativas, as euforias e os muitos contrapontos que a marca e o mito Benfica inelutavelmente criam. No seu território e nos alheios.

Vejamos: o Sporting é um grande clube e o Porto um clube grande. O segundo mais circunscrito do que o primeiro. Sociologicamente, o SCP tem uma índole bem mais nacional do que o FCP, apesar de, nas últimas décadas, os sucessos desportivos terem sido mais azuis do que verdes.

Mas o que diferencia estes dois clubes do Benfica é que o Benfica, sendo um clube, não é, de facto, apenas um clube. Aliás o SCP e o FCP são - e foram sempre - os primeiros a confirmarem esse facto, mesmo durante os tempos em que o devir desportivo do Benfica não foi o melhor. E isso porque as identidades do SCP e do FCP, sobretudo deste último, se têm construído, ao longo dos anos, como referência ao Benfica. Uma referência essencialmente antinómica.

Pinto da Costa inventou, desde os anos setenta, esse registo que passa pela afirmação da identidade através de um discurso "Contra". Não uma afirmação genuína e positiva, mas antes a enunciação de um processo de crescimento feito a pensar no Benfica e nele obsessivamente referenciado. Também o SCP não tem conseguido, ao longo dos anos, dissociar-se do chamado princípio dos vasos comunicantes da Segunda Circular. Daí que as crises verde e brancas contenham sempre algo que poderíamos designar por 'imagem contrastante'. O discurso do cirurgião Eduardo Barroso é das melhores psicanálises a este respeito.

FCP e SCP sempre enfatizaram e valorizaram, a seu modo, o Benfica. E assim o fizeram e fazem, porque a realidade a tal os condiciona. Um pouco como a luta centenária da Pepsi contra a Coca.

O Benfica tem com o país um pacto profundo. Uma panóplia vastíssima de reconhecimento, uma dimensão - rara entre nós até pela escala - que une o pragmatismo da marca à transparência do mito. Para o melhor e para o pior assim é. Benfiquistas e não benfiquistas partilham esta espécie de "coração independente" a que apenas os artistas e os poetas - eventualmente - saberão dar forma.
(Hoje no Expresso)

segunda-feira, 8 de março de 2010

Marcelo conventual

Marcelo é um doce. Há anos e anos que tem a melhor comunicação à sua disposição. Há anos e anos que marca, em boa medida, o tempo político em Portugal.

Filomena Mónica tem toda a razão nesta 'Questão Marcelo'. Com efeito, mesmo para quem vive afastado da televisão, o "professor" é uma verdadeira ilha nas condicionadas e previsíveis verves da nossa praça.

Marcelo conhece a capoeira toda e, ainda que não seja totalmente livre, sabe que palavras suas a mais ou a menos não lhe causarão aquelas feridas que são próprias de um pequeno mundo onde tudo e todos se conhecem.

Há quem diga que o Marcelo segrega maldade com tons amenos de baunilha. Há quem diga que Marcelo concatena ideias e imagens com mais chama do que um processador Fujitsu.

E o que dizer da intensidade das suas leituras e das associações rápidas de nomes, atributos e notas? ~

as eleições para a liderança do PSD, há, neste momento, uma evidência geral: todos os três candidatos parecem integrar o argumento de O Homem Invisível. Não o original de H. G. Wells, mas um outro que possibilita que o público consiga ver, através da invisibilidade de Aguiar Branco, Passos Coelho e Rangel, o único protagonista real na eleição: Marcelo Rebelo de Sousa.

Se Marcelo avança ou não avança, ninguém sabe.

Ao longo desta semana, ir-se-á desvendar o clímax do novo argumento do O Homem Invisível. Jardim e Menezes - olha quem! - já anteviram uma parte significativa das filmagens. Mas a rodagem de um filme é sempre um caminho tortuoso e cheio de potenciais contratempos.

Marcelo é um doce. Um típico doce português, algo conventual. Há anos e anos que respira nas nossas casas. Há anos e anos que sopra a lenta fogueira da nossa labareda política. Há anos e anos que todos lhe auguram o altar maior do poder.

Mas ninguém se esquece que Marcelo conta já duas derrotas políticas de fundo no seu CV: já claudicou como líder do PSD e já claudicou como candidato à mais importante autarquia do país. A penumbra convive com a luz, mas também convive - e de que modo - com a sombra.

Hoje no Expresso

sábado, 6 de março de 2010

Sacralização do livro

A imprensa de ontem tratou com carinho da destruição em massa de livros. O caso surgiu associado a uma editora que não carece de publicidade. A ministra da cultura recorreu ao termo "massacre" para descrever a situação e um dos senadores do nosso espírito mais ou menos desprevenido, Manuel Alegre, confessou-se "triste". O cenário não deixa de ser patético. Com todo o respeito pelos estados de alma próprios e alheios.

O clímax ressoou nas quase mitológicas palavras de Gabriela Canavilhas, quando referiu que a "importância do livro ultrapassa a noção de mercadoria". É um facto que herdamos culturalmente uma visão sagrada do livro. A ministra terá, pois, toda a razão. Confessemo-lo.

Em Ezequiel (3,1), o profeta ingere um rolo escrito que é imune aos sentidos e à impureza dos humanos e recebe depois ordens para comunicar o sentido dessas letras junto à "Casa de Israel" (3,4). O Apocalipse canónico do Novo Testamento apresenta-se como o duplo terreno de um Livro celeste, recebido por João através de um anjo intermediário (Ap 5,1). Na variante islâmica, a revelação é traduzida pelo "Tanzíl" (5,52) que remete para a ideia de 'descida do céu' do Livro eterno e único (a raiz do verbo "descer" é precisamente /NZL/).

Enfim, uma mercadoria não tem alma mas o livro, esse, seguramente tem. Aliás, basta ir ao grande banco do estado para aferirmos dos resultados de uma recente campanha de recuperação de livros usados. Eles ali estão a dormir nos seus escaparates, entregues ao desinteresse e à impaciência dos clientes e aforradores, muitas vezes carregadinhos e pó e de irremediável solidão. Não era melhor fazer aquilo por que, hoje em dia, mais se clama que é... a reciclagem? Sim, ser-se íntimo das causas do ambiente. E ser-se, em primeiro lugar, racional.

Num mercado em que a produção de livro é a todos os títulos irracional, quase um livro por hora, o que se poderia esperar? Que as empresas se endividassem com milhares de metros quadrados de armazéns apenas por causa de Ezequiel, João ou Maomé? Creio que não. Quem tem uma empresa sabe o que significa a palavra despesa. O que acontece bem menos nos corredores do estado e sobretudo na arejada brisa das mentes que herdam, desde finais de setecentos, o impoluto selo de "intelectual".

As pessoas lêem se lhes apetece, quando precisam e se gostam. A liberdade vive por cima e nos antípodas das cinzas das inquisições. De qualquer modo, o consumo de livros é, hoje em dia, desproporcionado face aos níveis de leitura. Ao mercado cabe resolver os desajustes e irracionalidades por si criados. De paternalismo e 'descidas do céu' - sem força da gravidade a animar a parada - está o inferno cheio.

(hoje no Expresso)

sexta-feira, 5 de março de 2010

Variantes portuguesas do kitsch

Sempre que tento escutar o verbo e a linha política de Passos Coelho, há algo de anómalo que me atropela a compreensão. É que não consigo reter absolutamente nada.

Desde meados dos anos oitenta que retenho o que Kundera escreveu acerca do kitsch. Há coisas que a memória guarda, outras não. O primeiro de Maio soviético ou a música de fundo de um restaurante de luxo (suíço) eram exemplos romanescos que o autor dava para explicar essas simetrias açucaradas, onde tudo aparecia arrumadinho, sem pó, nem grandes distracções.

Um dia destes, vi um episódio do CSI Miami e não consegui deixar de estranhar a fisionomia das agentes policiais. E logo me lembrei de Kundera. São realmente esbeltas, bonitas e portadoras daquele appeal que é mais comum nas modelos pré-anoréxicas ou nas divas que não se entretêm em excesso com nicotina, coca e outros explosivos. De facto, as polícias e investigadoras do CSI Miami são umas ninfas dos mares dos trópicos, mas, convenhamos, totalmente irreais em qualquer esquadra do planeta.

Kundera tê-las-ia colocado de bandeira com foice e martelo na mão a atravessar as ditosas sombras do Kremlin. Kundera tê-las-ia colocado a levitar sob os estuques de um restaurante suíço de eleição, onde o sussurrar da sedução contracena com o langor de uns violinos em tons rosa.

Mas não se pense que este espectro perfectível e envernizado é coisa apenas de encenação revolucionária, de time out ou de filmes policiais. Não, nada disso. O nosso Sócrates adora esse ambiente de brilhos bem cerzidos. Desde que nos governa, há já cinco anos, que não esconde o seu amor por salas onde a penumbra se harmoniza com um power point, devidamente enquadrado com figurações tecnológicas e uma plateia sentadinha, silenciosa e sagaz na sua nata capacidade de escutar a voz - diz-se sedosa - do PM.

Kundera tê-lo-ia, muito provavelmente, sentado num dos Labs do CSI e teria colocado a bandeira vermelha na bandeja de um restaurante de Genebra para rever o sorriso do cordato comensal. Quem sabe? Saberá, talvez, Passos Coelho que parece enveredar pela mesma saga. Com efeito, sempre que tento escutar o verbo e a linha política de Passos Coelho, há algo de anómalo que me atropela a compreensão. É que não consigo reter absolutamente nada. De Rangel, ainda capto algo sobre educação e de Aguiar Branco ainda capto algo ligado à prosódica, ou seja, ao tom de voz. Mas em Passos Coelho o que se capta é essencialmente uma variante (talvez regional) do kitsch.

Trata-se de uma concordância em género e número entre a pose, o recorte da frase, o listar do casaco e o fio mais ou menos ritmado de cada período. É o que fica: uma disposição em que a imagem aparece sempre muito centrada, nada desfocada, sem perturbações ou redundâncias. Passos Coelho não tem os dotes oratórios de Nemésio, mas consegue, sem power points, tecnologias e verves sedosas, quase o mesmo efeito a que Sócrates sofisticadamente nos habituou. Quando Passos Coelho fala, a compreensão aloja-se num sótão vizinho, exila-se, dissipa-se. Fica à mostra apenas aquilo que Kundera mais gostaria de ter visto: o peso e a leveza apaixonados um pelo outro, anulando-se um ao outro, numa alquimia da qual não restaria mais nada. Nadinha.
(hoje no Expresso)

quinta-feira, 4 de março de 2010

O futebol e a nação das quinas

Quando era criança, era comum ler ou ouvir dizer "Tudo pela Nação". O pregão era levado muito a sério. O que eu, na altura, não sabia é que o conceito - de Nação - vinha do século XVIII e tinha traduzido, de início, a alma vivida por uma comunidade e reflectida na língua, nas tradições e sobretudo numa espécie de voz partilhada de modo quase místico. Certos apaniguados de Salazar, ele nem tanto, adoravam encenar um certo misticismo milenar. Como se Portugal fosse a esperança do mundo.

Na segunda metade do século XX a cultura foi-se emancipando da era das civilizações e a Nação foi sendo silenciada ou referida com novos sentidos bem mais prosaicos. O 25 de Abril redescobriu por cá a República - porventura de modo excessivo, quando o que necessitámos era de democracia e liberdade - e quase remeteu a Nação (bem menos o atributo "nacional") a epíteto reaccionário. Recentemente, o ciclone global gerou novas tensões e a Nação, já tão desmobilizada e desacreditada, passou a reaparecer em actividades que simulam a épica sem o ser. É o caso do futebol.

A nossa senhora de Scolari e a euforia verde e vermelha de 2004 corresponderam a um novo tipo de Nação: um frémito colectivo sem grandes precedentes, ou tão-só uma espécie de uníssono expressionista pronto a ser galvanizado pelos fantasmas da bola. Pouco depois do 11 de Setembro, acreditou-se, de facto, em terras lusitanas, na Renascença de Scolari e na sua novíssima Nação como alternativas possíveis ao desaire (o pântano guterrista, a Casa Pia, a fuga de Durão, a epifania Santana Lopes, os eufemismos da justiça e os muitos casos Sócrates). O fenómeno floresceu até acabar, como tudo na vida, por esvaziar.

O jogo de ontem contra a China foi a grande prova disso mesmo. O público deleitou-se a assobiar a "Nação das Quinas", enquanto ia gritando "Olés" aos tímidos avanços da grande fábrica do mundo. Ainda por cima com duas grandes penalidades que ficaram por marcar. O carisma salvífico de Queiroz, mais propício a lances de aeroporto do que a ecos proféticos à Frederico Barbarossa, dissolveu-se no frio coimbrão. E nesse esvair dos heróis, a bola parecia um meteorito perdido e sem direcção. Um verdadeiro peso.

Confesso que raramente vibrei com a selecção "nacional". Talvez por isso tenha achado graça, ontem, à Questão Coimbrã.

(hoje no Expresso)

quarta-feira, 3 de março de 2010

Christopher Hitchens e o Oceano Atlântico

Vivemos ao sabor da contingência. Se Christopher Hitchens não tivesse estado em Portugal, não teríamos falado de ateísmo. Trata-se de um procedimento mais geral e bem português: somos anfitriões com dons especulares. E, neste caso, a primeira pessoa do plural apenas refere uma mão cheia de pessoas, porque as demais têm mais que fazer a atravessar a ponte, a ir ao hiper ou a atrair a si um oceano qualquer de calorias.

Mas o ateísmo tem que se lhe diga, porque postula um mundo sem deus (ou sem deuses), quando deus (ou os deuses) corresponde a uma das imagens fulcrais com que o homem soube, um dia, traduzir a sua experiência, os seus medos - como tão bem explicou Blumenberg - a sua inquietação e sobretudo o fruto da sua impotência no planeta. É fácil ser saramaguês (a expressão é literária e tem origem em Eugénio Lisboa) e profundamente matérico e repetir o que os semióticos soletram de cátedra, ou seja: que tudo o que se passa na crença dos humanos é fruto da cultura que incorporam e das imagens que, ao longo do tempo, nela se acamam.

Somos falados através de imagens, ritos, ruminações e repetições prosaicas. Mais do que falar, somos falados - e pensados - através de linguagens e mil e uma regras, a maior parte delas voláteis e pouco eficazes (tal como a miríade de imagens que compõe o "proto-si", explicado por Damásio em O Sentimento de Si).
O ser humano habita uma espécie de voz passiva, pretensamente amiga do ambiente (das leis da natureza), mas propensa a equívocos e a solavancos do espírito. Negar deus (ou os deuses) é o mesmo que negar o Oceano Atlântico: ele está lá, no flagrante do olhar de cada um de nós, Tal como está deus (ou os deuses) na impiedosa sucessão de marés vivas com que sempre catapultou o olhar profundo dos humanos. Confesso-o eu que nem sou crente.

Hoje no Expresso

terça-feira, 2 de março de 2010

Accionistas da nossa preguiça?

Daniel Oliveira , com o generoso empenho que se lhe conhece de querer desinflamar os males do mundo através de uma justiça quase pura e sem remoques, tem tendência a criar um adversário que simboliza a fonte de todos os males e um conjunto tácito de razões que explicam os aromas do inferno. Nada de mal neste modo de criar diagnósticos. A melhor ficção passeia-se por oposições fixas, guerras entre mundos antagónicos, efabulações carregadas de névoa e redenção. Nada a dizer, pois então.

No seu mais recente texto "Segurança é desemprego, trabalhador é explorador", Daniel Oliveira refere um estudo da OCDE que aponta Portugal como "o país com menor mobilidade social" e conclui, no final do segundo parágrafo, que, segundo os maus da fita ("os nossos liberais de algibeira"), o facto se fica a dever à "sobrevivência de alguns trabalhadores "privilegiados" que ainda têm direitos". Como se em Portugal existisse uma tentação liberal com poder, importância e tradição e como se alguém desejasse com afinco, determinação e sentido último de vida retirar os direitos a quem trabalha.

Não creio que esta fasquia pressuponha um critério sereno (o adjectivo é cordato!). Pressuporá um ambiente manifestatário e alegórico, cheio de curiosos "hossanas" ao norte da Europa (hoje uma sombra do que era, quando vivi na Holanda... nos anos oitenta) e de 'unhas de fora' face a tudo o que seja anglo-saxónico. O sul da Europa, coitado, esse, cheio de maus exemplos, é que estraga tudo. E se ligarmos a Grécia a Portugal a coisa dá choque. De qualquer modo, à parte alguns esquematismos, creio que a falta de mobilidade é muito mais uma questão "cultural" (explicação francesa, dir-se-á) que se poderia sintetizar através do facto de termos sempre sido (secularmente) accionistas da nossa própria preguiça e da nossa falta de iniciativa.

Explico melhor: para um bom português, interessa muito menos o risco de criar uma pequena empresa que proponha um serviço inovador e útil (só criei a minha depois dos cinquenta anos...) do que tentar entrar - através de uma suave e ancestral 'dança com lobos' - em algum lado que "dê segurança" (numa repartição, num politécnico, numa câmara municipal ou num esquema familiarmente assistido). Modos de sobrevivência particularmente estáveis que tanto valem para a filha de um ministro (o que disse eu?) como para o mais incauto morador da Madragoa ou do concelho de Góis. Era verdadeiro o axioma de Vico que referia, na sua Scienza Nuova de 1725, terem as "ideias uniformes, nascidas entre povos que não se conhecem, um fundo comum de verdade".
(publicado hoje no Expresso)

segunda-feira, 1 de março de 2010

Jardim vs. jardins

Todos sabemos que a catarse das antigas tragédias gregas corresponde hoje à função dos media, do mesmo modo que o discurso épico corresponde hoje à função dos discursos persuasivos, seja o publicitário, o das omnipresentes RPs e sobretudo os registos políticos do poder. Ora, quando vemos lado a lado Jardim e Sócrates, o que estamos a ver é o súbito casamento entre estes dois universos aparentemente irreconciliáveis. Um abismo que apenas se tornou possível, devido ao modo como a tragédia da natureza (sem coro nem libertação) acabou por atrair o 'ter que ser' sorridente da reconstrução. Da avassaladora torrente de lama à quase utópica Festa da Flor; da noite em que as ruas do Funchal conheceram o inferno às asas de anjo agora partilhadas por Sócrates e Jardim. Quem diria? Qualquer mortal, desde que não banhado pela ilusão que hoje constrói, de lés a lés, a própria natureza do mundo em que vivemos.