segunda-feira, 8 de março de 2010

Marcelo conventual

Marcelo é um doce. Há anos e anos que tem a melhor comunicação à sua disposição. Há anos e anos que marca, em boa medida, o tempo político em Portugal.

Filomena Mónica tem toda a razão nesta 'Questão Marcelo'. Com efeito, mesmo para quem vive afastado da televisão, o "professor" é uma verdadeira ilha nas condicionadas e previsíveis verves da nossa praça.

Marcelo conhece a capoeira toda e, ainda que não seja totalmente livre, sabe que palavras suas a mais ou a menos não lhe causarão aquelas feridas que são próprias de um pequeno mundo onde tudo e todos se conhecem.

Há quem diga que o Marcelo segrega maldade com tons amenos de baunilha. Há quem diga que Marcelo concatena ideias e imagens com mais chama do que um processador Fujitsu.

E o que dizer da intensidade das suas leituras e das associações rápidas de nomes, atributos e notas? ~

as eleições para a liderança do PSD, há, neste momento, uma evidência geral: todos os três candidatos parecem integrar o argumento de O Homem Invisível. Não o original de H. G. Wells, mas um outro que possibilita que o público consiga ver, através da invisibilidade de Aguiar Branco, Passos Coelho e Rangel, o único protagonista real na eleição: Marcelo Rebelo de Sousa.

Se Marcelo avança ou não avança, ninguém sabe.

Ao longo desta semana, ir-se-á desvendar o clímax do novo argumento do O Homem Invisível. Jardim e Menezes - olha quem! - já anteviram uma parte significativa das filmagens. Mas a rodagem de um filme é sempre um caminho tortuoso e cheio de potenciais contratempos.

Marcelo é um doce. Um típico doce português, algo conventual. Há anos e anos que respira nas nossas casas. Há anos e anos que sopra a lenta fogueira da nossa labareda política. Há anos e anos que todos lhe auguram o altar maior do poder.

Mas ninguém se esquece que Marcelo conta já duas derrotas políticas de fundo no seu CV: já claudicou como líder do PSD e já claudicou como candidato à mais importante autarquia do país. A penumbra convive com a luz, mas também convive - e de que modo - com a sombra.

Hoje no Expresso

sábado, 6 de março de 2010

Sacralização do livro

A imprensa de ontem tratou com carinho da destruição em massa de livros. O caso surgiu associado a uma editora que não carece de publicidade. A ministra da cultura recorreu ao termo "massacre" para descrever a situação e um dos senadores do nosso espírito mais ou menos desprevenido, Manuel Alegre, confessou-se "triste". O cenário não deixa de ser patético. Com todo o respeito pelos estados de alma próprios e alheios.

O clímax ressoou nas quase mitológicas palavras de Gabriela Canavilhas, quando referiu que a "importância do livro ultrapassa a noção de mercadoria". É um facto que herdamos culturalmente uma visão sagrada do livro. A ministra terá, pois, toda a razão. Confessemo-lo.

Em Ezequiel (3,1), o profeta ingere um rolo escrito que é imune aos sentidos e à impureza dos humanos e recebe depois ordens para comunicar o sentido dessas letras junto à "Casa de Israel" (3,4). O Apocalipse canónico do Novo Testamento apresenta-se como o duplo terreno de um Livro celeste, recebido por João através de um anjo intermediário (Ap 5,1). Na variante islâmica, a revelação é traduzida pelo "Tanzíl" (5,52) que remete para a ideia de 'descida do céu' do Livro eterno e único (a raiz do verbo "descer" é precisamente /NZL/).

Enfim, uma mercadoria não tem alma mas o livro, esse, seguramente tem. Aliás, basta ir ao grande banco do estado para aferirmos dos resultados de uma recente campanha de recuperação de livros usados. Eles ali estão a dormir nos seus escaparates, entregues ao desinteresse e à impaciência dos clientes e aforradores, muitas vezes carregadinhos e pó e de irremediável solidão. Não era melhor fazer aquilo por que, hoje em dia, mais se clama que é... a reciclagem? Sim, ser-se íntimo das causas do ambiente. E ser-se, em primeiro lugar, racional.

Num mercado em que a produção de livro é a todos os títulos irracional, quase um livro por hora, o que se poderia esperar? Que as empresas se endividassem com milhares de metros quadrados de armazéns apenas por causa de Ezequiel, João ou Maomé? Creio que não. Quem tem uma empresa sabe o que significa a palavra despesa. O que acontece bem menos nos corredores do estado e sobretudo na arejada brisa das mentes que herdam, desde finais de setecentos, o impoluto selo de "intelectual".

As pessoas lêem se lhes apetece, quando precisam e se gostam. A liberdade vive por cima e nos antípodas das cinzas das inquisições. De qualquer modo, o consumo de livros é, hoje em dia, desproporcionado face aos níveis de leitura. Ao mercado cabe resolver os desajustes e irracionalidades por si criados. De paternalismo e 'descidas do céu' - sem força da gravidade a animar a parada - está o inferno cheio.

(hoje no Expresso)

sexta-feira, 5 de março de 2010

Variantes portuguesas do kitsch

Sempre que tento escutar o verbo e a linha política de Passos Coelho, há algo de anómalo que me atropela a compreensão. É que não consigo reter absolutamente nada.

Desde meados dos anos oitenta que retenho o que Kundera escreveu acerca do kitsch. Há coisas que a memória guarda, outras não. O primeiro de Maio soviético ou a música de fundo de um restaurante de luxo (suíço) eram exemplos romanescos que o autor dava para explicar essas simetrias açucaradas, onde tudo aparecia arrumadinho, sem pó, nem grandes distracções.

Um dia destes, vi um episódio do CSI Miami e não consegui deixar de estranhar a fisionomia das agentes policiais. E logo me lembrei de Kundera. São realmente esbeltas, bonitas e portadoras daquele appeal que é mais comum nas modelos pré-anoréxicas ou nas divas que não se entretêm em excesso com nicotina, coca e outros explosivos. De facto, as polícias e investigadoras do CSI Miami são umas ninfas dos mares dos trópicos, mas, convenhamos, totalmente irreais em qualquer esquadra do planeta.

Kundera tê-las-ia colocado de bandeira com foice e martelo na mão a atravessar as ditosas sombras do Kremlin. Kundera tê-las-ia colocado a levitar sob os estuques de um restaurante suíço de eleição, onde o sussurrar da sedução contracena com o langor de uns violinos em tons rosa.

Mas não se pense que este espectro perfectível e envernizado é coisa apenas de encenação revolucionária, de time out ou de filmes policiais. Não, nada disso. O nosso Sócrates adora esse ambiente de brilhos bem cerzidos. Desde que nos governa, há já cinco anos, que não esconde o seu amor por salas onde a penumbra se harmoniza com um power point, devidamente enquadrado com figurações tecnológicas e uma plateia sentadinha, silenciosa e sagaz na sua nata capacidade de escutar a voz - diz-se sedosa - do PM.

Kundera tê-lo-ia, muito provavelmente, sentado num dos Labs do CSI e teria colocado a bandeira vermelha na bandeja de um restaurante de Genebra para rever o sorriso do cordato comensal. Quem sabe? Saberá, talvez, Passos Coelho que parece enveredar pela mesma saga. Com efeito, sempre que tento escutar o verbo e a linha política de Passos Coelho, há algo de anómalo que me atropela a compreensão. É que não consigo reter absolutamente nada. De Rangel, ainda capto algo sobre educação e de Aguiar Branco ainda capto algo ligado à prosódica, ou seja, ao tom de voz. Mas em Passos Coelho o que se capta é essencialmente uma variante (talvez regional) do kitsch.

Trata-se de uma concordância em género e número entre a pose, o recorte da frase, o listar do casaco e o fio mais ou menos ritmado de cada período. É o que fica: uma disposição em que a imagem aparece sempre muito centrada, nada desfocada, sem perturbações ou redundâncias. Passos Coelho não tem os dotes oratórios de Nemésio, mas consegue, sem power points, tecnologias e verves sedosas, quase o mesmo efeito a que Sócrates sofisticadamente nos habituou. Quando Passos Coelho fala, a compreensão aloja-se num sótão vizinho, exila-se, dissipa-se. Fica à mostra apenas aquilo que Kundera mais gostaria de ter visto: o peso e a leveza apaixonados um pelo outro, anulando-se um ao outro, numa alquimia da qual não restaria mais nada. Nadinha.
(hoje no Expresso)

quinta-feira, 4 de março de 2010

O futebol e a nação das quinas

Quando era criança, era comum ler ou ouvir dizer "Tudo pela Nação". O pregão era levado muito a sério. O que eu, na altura, não sabia é que o conceito - de Nação - vinha do século XVIII e tinha traduzido, de início, a alma vivida por uma comunidade e reflectida na língua, nas tradições e sobretudo numa espécie de voz partilhada de modo quase místico. Certos apaniguados de Salazar, ele nem tanto, adoravam encenar um certo misticismo milenar. Como se Portugal fosse a esperança do mundo.

Na segunda metade do século XX a cultura foi-se emancipando da era das civilizações e a Nação foi sendo silenciada ou referida com novos sentidos bem mais prosaicos. O 25 de Abril redescobriu por cá a República - porventura de modo excessivo, quando o que necessitámos era de democracia e liberdade - e quase remeteu a Nação (bem menos o atributo "nacional") a epíteto reaccionário. Recentemente, o ciclone global gerou novas tensões e a Nação, já tão desmobilizada e desacreditada, passou a reaparecer em actividades que simulam a épica sem o ser. É o caso do futebol.

A nossa senhora de Scolari e a euforia verde e vermelha de 2004 corresponderam a um novo tipo de Nação: um frémito colectivo sem grandes precedentes, ou tão-só uma espécie de uníssono expressionista pronto a ser galvanizado pelos fantasmas da bola. Pouco depois do 11 de Setembro, acreditou-se, de facto, em terras lusitanas, na Renascença de Scolari e na sua novíssima Nação como alternativas possíveis ao desaire (o pântano guterrista, a Casa Pia, a fuga de Durão, a epifania Santana Lopes, os eufemismos da justiça e os muitos casos Sócrates). O fenómeno floresceu até acabar, como tudo na vida, por esvaziar.

O jogo de ontem contra a China foi a grande prova disso mesmo. O público deleitou-se a assobiar a "Nação das Quinas", enquanto ia gritando "Olés" aos tímidos avanços da grande fábrica do mundo. Ainda por cima com duas grandes penalidades que ficaram por marcar. O carisma salvífico de Queiroz, mais propício a lances de aeroporto do que a ecos proféticos à Frederico Barbarossa, dissolveu-se no frio coimbrão. E nesse esvair dos heróis, a bola parecia um meteorito perdido e sem direcção. Um verdadeiro peso.

Confesso que raramente vibrei com a selecção "nacional". Talvez por isso tenha achado graça, ontem, à Questão Coimbrã.

(hoje no Expresso)

quarta-feira, 3 de março de 2010

Christopher Hitchens e o Oceano Atlântico

Vivemos ao sabor da contingência. Se Christopher Hitchens não tivesse estado em Portugal, não teríamos falado de ateísmo. Trata-se de um procedimento mais geral e bem português: somos anfitriões com dons especulares. E, neste caso, a primeira pessoa do plural apenas refere uma mão cheia de pessoas, porque as demais têm mais que fazer a atravessar a ponte, a ir ao hiper ou a atrair a si um oceano qualquer de calorias.

Mas o ateísmo tem que se lhe diga, porque postula um mundo sem deus (ou sem deuses), quando deus (ou os deuses) corresponde a uma das imagens fulcrais com que o homem soube, um dia, traduzir a sua experiência, os seus medos - como tão bem explicou Blumenberg - a sua inquietação e sobretudo o fruto da sua impotência no planeta. É fácil ser saramaguês (a expressão é literária e tem origem em Eugénio Lisboa) e profundamente matérico e repetir o que os semióticos soletram de cátedra, ou seja: que tudo o que se passa na crença dos humanos é fruto da cultura que incorporam e das imagens que, ao longo do tempo, nela se acamam.

Somos falados através de imagens, ritos, ruminações e repetições prosaicas. Mais do que falar, somos falados - e pensados - através de linguagens e mil e uma regras, a maior parte delas voláteis e pouco eficazes (tal como a miríade de imagens que compõe o "proto-si", explicado por Damásio em O Sentimento de Si).
O ser humano habita uma espécie de voz passiva, pretensamente amiga do ambiente (das leis da natureza), mas propensa a equívocos e a solavancos do espírito. Negar deus (ou os deuses) é o mesmo que negar o Oceano Atlântico: ele está lá, no flagrante do olhar de cada um de nós, Tal como está deus (ou os deuses) na impiedosa sucessão de marés vivas com que sempre catapultou o olhar profundo dos humanos. Confesso-o eu que nem sou crente.

Hoje no Expresso

terça-feira, 2 de março de 2010

Accionistas da nossa preguiça?

Daniel Oliveira , com o generoso empenho que se lhe conhece de querer desinflamar os males do mundo através de uma justiça quase pura e sem remoques, tem tendência a criar um adversário que simboliza a fonte de todos os males e um conjunto tácito de razões que explicam os aromas do inferno. Nada de mal neste modo de criar diagnósticos. A melhor ficção passeia-se por oposições fixas, guerras entre mundos antagónicos, efabulações carregadas de névoa e redenção. Nada a dizer, pois então.

No seu mais recente texto "Segurança é desemprego, trabalhador é explorador", Daniel Oliveira refere um estudo da OCDE que aponta Portugal como "o país com menor mobilidade social" e conclui, no final do segundo parágrafo, que, segundo os maus da fita ("os nossos liberais de algibeira"), o facto se fica a dever à "sobrevivência de alguns trabalhadores "privilegiados" que ainda têm direitos". Como se em Portugal existisse uma tentação liberal com poder, importância e tradição e como se alguém desejasse com afinco, determinação e sentido último de vida retirar os direitos a quem trabalha.

Não creio que esta fasquia pressuponha um critério sereno (o adjectivo é cordato!). Pressuporá um ambiente manifestatário e alegórico, cheio de curiosos "hossanas" ao norte da Europa (hoje uma sombra do que era, quando vivi na Holanda... nos anos oitenta) e de 'unhas de fora' face a tudo o que seja anglo-saxónico. O sul da Europa, coitado, esse, cheio de maus exemplos, é que estraga tudo. E se ligarmos a Grécia a Portugal a coisa dá choque. De qualquer modo, à parte alguns esquematismos, creio que a falta de mobilidade é muito mais uma questão "cultural" (explicação francesa, dir-se-á) que se poderia sintetizar através do facto de termos sempre sido (secularmente) accionistas da nossa própria preguiça e da nossa falta de iniciativa.

Explico melhor: para um bom português, interessa muito menos o risco de criar uma pequena empresa que proponha um serviço inovador e útil (só criei a minha depois dos cinquenta anos...) do que tentar entrar - através de uma suave e ancestral 'dança com lobos' - em algum lado que "dê segurança" (numa repartição, num politécnico, numa câmara municipal ou num esquema familiarmente assistido). Modos de sobrevivência particularmente estáveis que tanto valem para a filha de um ministro (o que disse eu?) como para o mais incauto morador da Madragoa ou do concelho de Góis. Era verdadeiro o axioma de Vico que referia, na sua Scienza Nuova de 1725, terem as "ideias uniformes, nascidas entre povos que não se conhecem, um fundo comum de verdade".
(publicado hoje no Expresso)

segunda-feira, 1 de março de 2010

Jardim vs. jardins

Todos sabemos que a catarse das antigas tragédias gregas corresponde hoje à função dos media, do mesmo modo que o discurso épico corresponde hoje à função dos discursos persuasivos, seja o publicitário, o das omnipresentes RPs e sobretudo os registos políticos do poder. Ora, quando vemos lado a lado Jardim e Sócrates, o que estamos a ver é o súbito casamento entre estes dois universos aparentemente irreconciliáveis. Um abismo que apenas se tornou possível, devido ao modo como a tragédia da natureza (sem coro nem libertação) acabou por atrair o 'ter que ser' sorridente da reconstrução. Da avassaladora torrente de lama à quase utópica Festa da Flor; da noite em que as ruas do Funchal conheceram o inferno às asas de anjo agora partilhadas por Sócrates e Jardim. Quem diria? Qualquer mortal, desde que não banhado pela ilusão que hoje constrói, de lés a lés, a própria natureza do mundo em que vivemos.

Corrente

Atmosfera quente na Póvoa. O calor de Inverno, temperado pela ameaça iminente de temporal. Nesta maresia de afectos se reencontram escritores há onze anos. Outros há menos tempo. Pelos corredores e passos perdidos passeiam-se jornalistas, editores, farejadores e olheiros da coisa literária. Diz que disse, ambiente cordial, conhecimentos rápidos. Um tempo quase fora do tempo. Bastante público, muitos lançamentos, alardes sigilosos. As mesas herdaram o prazer da palavra. E a névoa do que não se disse invadiu outras constelações. Por isso, houve – e há – sempre muito bar, muita confissão e muita noite. Elevadores de sonho. Foi assim na minha fugaz passagem pelo Corrente d´Escritas.
ee
P.S. - Já tenho um blogue com entrevistas (sobretudo) acerca de escrita criativa: aqui.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A cultura da alarvice papal

O segundo golo do FCP contra o Arsenal, na passada quarta-feira, dia 17 de Fevereiro, é a imagem nítida do estilo que, décadas após décadas, se foi desenvolvendo no clube. Não é apenas uma questão do clube, nem da inocência do árbitro que – circunstancialmente – validou a jogada (Wenger, na altura, foi civilizado e limitou-se a dizer que a cena foi “risível”). O lance implica a esperteza, o ‘ver-se-dá’, a tentação do truquezinho, ou seja: uma espécie de ‘vale tudo’ que funciona como tufão sempre a tentar escapar às regras (sejam elas quais forem: éticas ou as outras). Nem sempre bate certo, mas, dentro das nossas cândidas fronteiras, tem dado um resultadão. Há várias décadas. E o curioso é que há empresas, políticos populistas e até alguns media que adoram este tipo de alarvice papal. É uma parte do nosso país a carburar no seu melhor.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Um cenário lavado

Luís Amado é uma boa solução. Qualquer alma equilibrada o imaginará, mesmo antes de saber do jantar pré-carnavalesco que envolveu o presidenciável Gama, o próprio Amado e o ministro das finanças, Teixeira dos Santos. Todos os calendários e todo o juízo do mundo aconselham à não realização de eleições. Sócrates, ao sair, levará consigo várias imagens. Dar-nos-á, portanto, a imagem de uma procissão com outros santos, com outros andores, com outras preces e com outras promessas. Dar-nos-á quase uma nova religião, numa palavra. O cenário ficará subitamente lavado. Amado tem silhueta de príncipe discreto e pouco terá que mexer na composição do governo. Trata-se de manter um bom técnico nas finanças – é o topo a que Teixeira dos Santos pode aspirar – e de cortar os vestígios da “calhandrice” (os nomes têm algo de comum: Silva Pereira e Augusto Santos Silva). Trata-se de desligar as conexões e os holofotes virados para jornalistas conhecidos, para Alcochete e para a intriga das escutas. Trata-se de repor a palavra liberdade que o velho PS anunciava em 1974. Trata-se de pôr em marcha o PEC. E trata-se sobretudo de respirar fundo e de tentar falar para além do horizonte da perpétua crise. Não é, pois, preciso qualquer moção de censura; o que é preciso é cortar a direito o cenário do circo a que se chegou. A solução parece óbvia. E razoável.