sábado, 7 de fevereiro de 2009

A queda de Ferreira Leite

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Não há nada pior do que um mito. Primeiro existe como sonho capaz de domar a vida, depois, tal como Ícaro, pode subitamente ver as asas a derreter. Manuela Ferreira Leite foi durante anos vista como providencial. Antes e depois da sua passagem fugaz pelo governo de Durão. Esquecendo outras viagens e outros tempos (na educação, por exemplo). Mas manteve sempre a imagem de uma ‘dama de ferro’ à portuguesa, capaz de ordem, rigor, frescura política e mobilização. Numa palavra: capaz de enfrentar o abismo com grandeza. Sondagens de lado, o que sobra hoje de tudo isso? O mar como que recua depois da maré alta. Espuma.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Olhar para dentro

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A grande virtude e, ao mesmo tempo, a grande falha da blogosfera foi - e é - o seu teor centrípeto. Desde 2002/2003 que assim tem sido. No início, a inevitável tentação de os bloggers visarem a blogosfera e não a atmosfera na sua comunicação contribuiu para que uma nova cascata surgisse no espaço público (e se tornasse visível de fora). O imponderável assustou então os actores clássicos da área, os mesmos que mais tarde viriam a absorver e incoporporar o meio (basta dar um breve passeio pelos sites dos jornais para o comprovar). Quanto mais a voz do blogger continuar, hoje em dia, 'a falar' para os outros membros das restritas comunidades de bloggers, tanto mais a blogosfera tenderá a ser um nicho cada vez menos incómodo. Até porque as pequenas comunidades são todas iguais: vigilantes, censórias e limitativas (sem que, neste caso, o aceno tal aparente). Esta realidade foi um dos factores que, a certa altura, digamos em finais de 2006, me fez começar a abrandar aquilo que sempre se designou por "participação" (o próprio termo releva a centripeticidade). Esta análise implicaria outros desenvolvimentos e em nada diminui a importância - bem pelo contrário - do círculo de afectos e amizades criado (pelo menos no meu caso) com muitas pessoas que conheci por causa da blogosfera. Trata-se antes de uma questão que valeria a pena objectivar, independentemente dos protagonistas e das comunidades (muitas identificáveis) em cena. Creio que a blogosfera poderia, de algum modo, renascer... se uma suave catarse ao seu teor centrípeto fosse levada a cabo. Bom ano!

sábado, 27 de dezembro de 2008

Ilha no tempo

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Um pasmar que bebe a surpresa como os lábios aspiram a água do coco. É assim o tempo livre, ocioso, liberto dos cortinados do palco que delimitam, no dia-a-dia, a errância dos passos e a loucura natural das nossas gargalhadas alegremente sem sentido.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Boas Festas

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Aqui vos deixo um catecismo para que se sintam acompanhados neste tempo de harmonia fragmentária e de motricidade espiritual.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

A superação de uma natureza


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Sabe bem alimentar um blogue sem qualquer compulsão. Entre Julho de 2003 e o fim de 2007, foi, de facto, com bastante compulsão que tratei este espaço da rede: como uma expedição feérica, ao jeito de quem experimenta um novo instrumento e verifica que 'o que diz' é também - e quase sempre - parte desse instrumento. O uso da blogosfera é e foi, portanto, sempre parte do que haveria a dizer.
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A formação de comunidades com tendência para se fecharem é - e foi - um fenómeno que acompanhou a formação e definição da blogosfera portuguesa. O caso não é apenas lusitano, mas, nos primeiros tempos, terá sido parte de um processo de iniciação, cuja natureza se tem vindo a esvair à medida que a individuação se tem vindo a emacipar dos limites (algo impositivos e criadores de censuras, remissões e implicações próprias) das comunidades antes formadas e à medida, também, que a compulsão se tem vindo a transformar num quase normal 'facto que se comunica'.
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De algum modo, a sensação de fim da blogosfera prende-se com estas duas emancipações: do blogger face às contingências e pressões onde aprendeu a nadar e ainda - segunda emancipação - da 'urgência' do discurso face ao meio e face à inaudita visibilidade/exposição que o foram criando.

sábado, 15 de novembro de 2008

Destilando o fio-de-prumo

Destila-se a bobina do filme, imagem após imagem, e o relógio torna-se num muro. Visto de longe, parece até ter asas. O tempo faz a cor da erva, do mesmo modo que a névoa permite adivinhar a forma incerta do muro. Há dias assim: começam por ser meros delírios e avançam, depois, em direcção ao olhar como se fossem amazonas. Como nos filmes. Murnau filmou o Fausto e emprestou-lhe asas incorruptíveis. Lembro-me que, a certa altura, havia duas estradas que se juntavam num único ponto. Ponto de luz. Havia névoa, é verdade. E estava lá tudo. Menos o fio-de-prumo. E a música. Há dias em que a esperança volta a ser apenas uma palavra; ter saído de lá - da palavra - é que fez com que esperança não passasse da imagem do tal muro que antes tinha sido bobina, Fausto, delírio ou tão-só (perdoem-me as feministas) amazona. Genealogias secretas.

A maior comoção

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Um dia, era criança, caí no mármore. Literalmente. Como acontece em todas as iniciações. Era uma fonte esférica como o mundo e, talvez por isso, tenha percebido que o murmúrio dos deuses era - e é - um feito menor. Deuses de seda que levitavam sem andas. Era uma fonte feita de mármore e estava toda inundada de limões: espécie de nuvem silenciosa, sem densidade, mas de mármore. Compacta. Nasci no meio do mármore e nunca entendi os cemitérios como locais para a derradeira queda. Porque sempre revi nos estilhaços cor-de-rosa que percorrem a pedra a bonomia de uma paixão, cujas figuras se espreguiçariam sob as raízes de oliveiras antigas. Essas, sim, ermas, perdidas, algo deserdadas. Um dia caí dentro deste pranto esbranquiçado e em vez de encarnar, vi o mar. À beira mármore, havia um mar de limões. Do outro lado, havia a compaixão da guerra. Tem sido sempre assim. Até hoje, dia da maior comoção.

Rostos estelares

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Não sei se são recortes, se são guardanapos, se são guerreiros diáfanos. Foram entretecidos por Edgar Mosa, numa cidade onde deixei vários anos de vida e onde os rostos são estelares. E onde o queijo é feito da espuma que não coube no olhar de Sísifo.

Pêndulo

Agarro-me ao pêndulo da Rita Botelho e respiro fundo. O oceano como uma mesa sem fim. A aguarela, por cima, como escalada entre o tampo, o pó e a visão. Sonhei um dia com um fio-de-prumo que terminava num aro a girar sobre si mesmo. Uma bailarina de baquelite com olhos densos, azulados, espumosos. A boneca que está ainda sentada na montra da Palmdwarsstraat. O tricot em vez do oceano e a mesa sem fim em vez do pêndulo. Luzes azuladas, néon, passos apressados, perguntas. Continuo agarrado à trave do carrossel e a vida escoa como o pó ou como aquela visão com que sonhei um dia, era Inverno, e as gabardinas de cor viva (amarelas e vermelhas sobretudo) deslizavam sobre o gelo do canal cheio de príncipes perfeitos. Uma boneca engalanada e de pernas muito abertas. O tricot em vez da liquidez. O desejo como uma respiração profunda. O aro espelhado e a força da gravidade. A rosa feita de pano. As perguntas. O eco. A desesperança. É sábado e ainda bem que assim é.