terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Boas Festas

e
Aqui vos deixo um catecismo para que se sintam acompanhados neste tempo de harmonia fragmentária e de motricidade espiritual.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

A superação de uma natureza


e
Sabe bem alimentar um blogue sem qualquer compulsão. Entre Julho de 2003 e o fim de 2007, foi, de facto, com bastante compulsão que tratei este espaço da rede: como uma expedição feérica, ao jeito de quem experimenta um novo instrumento e verifica que 'o que diz' é também - e quase sempre - parte desse instrumento. O uso da blogosfera é e foi, portanto, sempre parte do que haveria a dizer.
e
A formação de comunidades com tendência para se fecharem é - e foi - um fenómeno que acompanhou a formação e definição da blogosfera portuguesa. O caso não é apenas lusitano, mas, nos primeiros tempos, terá sido parte de um processo de iniciação, cuja natureza se tem vindo a esvair à medida que a individuação se tem vindo a emacipar dos limites (algo impositivos e criadores de censuras, remissões e implicações próprias) das comunidades antes formadas e à medida, também, que a compulsão se tem vindo a transformar num quase normal 'facto que se comunica'.
e
De algum modo, a sensação de fim da blogosfera prende-se com estas duas emancipações: do blogger face às contingências e pressões onde aprendeu a nadar e ainda - segunda emancipação - da 'urgência' do discurso face ao meio e face à inaudita visibilidade/exposição que o foram criando.

sábado, 15 de novembro de 2008

Destilando o fio-de-prumo

Destila-se a bobina do filme, imagem após imagem, e o relógio torna-se num muro. Visto de longe, parece até ter asas. O tempo faz a cor da erva, do mesmo modo que a névoa permite adivinhar a forma incerta do muro. Há dias assim: começam por ser meros delírios e avançam, depois, em direcção ao olhar como se fossem amazonas. Como nos filmes. Murnau filmou o Fausto e emprestou-lhe asas incorruptíveis. Lembro-me que, a certa altura, havia duas estradas que se juntavam num único ponto. Ponto de luz. Havia névoa, é verdade. E estava lá tudo. Menos o fio-de-prumo. E a música. Há dias em que a esperança volta a ser apenas uma palavra; ter saído de lá - da palavra - é que fez com que esperança não passasse da imagem do tal muro que antes tinha sido bobina, Fausto, delírio ou tão-só (perdoem-me as feministas) amazona. Genealogias secretas.

A maior comoção

ee
Um dia, era criança, caí no mármore. Literalmente. Como acontece em todas as iniciações. Era uma fonte esférica como o mundo e, talvez por isso, tenha percebido que o murmúrio dos deuses era - e é - um feito menor. Deuses de seda que levitavam sem andas. Era uma fonte feita de mármore e estava toda inundada de limões: espécie de nuvem silenciosa, sem densidade, mas de mármore. Compacta. Nasci no meio do mármore e nunca entendi os cemitérios como locais para a derradeira queda. Porque sempre revi nos estilhaços cor-de-rosa que percorrem a pedra a bonomia de uma paixão, cujas figuras se espreguiçariam sob as raízes de oliveiras antigas. Essas, sim, ermas, perdidas, algo deserdadas. Um dia caí dentro deste pranto esbranquiçado e em vez de encarnar, vi o mar. À beira mármore, havia um mar de limões. Do outro lado, havia a compaixão da guerra. Tem sido sempre assim. Até hoje, dia da maior comoção.

Rostos estelares

r
Não sei se são recortes, se são guardanapos, se são guerreiros diáfanos. Foram entretecidos por Edgar Mosa, numa cidade onde deixei vários anos de vida e onde os rostos são estelares. E onde o queijo é feito da espuma que não coube no olhar de Sísifo.

Pêndulo

Agarro-me ao pêndulo da Rita Botelho e respiro fundo. O oceano como uma mesa sem fim. A aguarela, por cima, como escalada entre o tampo, o pó e a visão. Sonhei um dia com um fio-de-prumo que terminava num aro a girar sobre si mesmo. Uma bailarina de baquelite com olhos densos, azulados, espumosos. A boneca que está ainda sentada na montra da Palmdwarsstraat. O tricot em vez do oceano e a mesa sem fim em vez do pêndulo. Luzes azuladas, néon, passos apressados, perguntas. Continuo agarrado à trave do carrossel e a vida escoa como o pó ou como aquela visão com que sonhei um dia, era Inverno, e as gabardinas de cor viva (amarelas e vermelhas sobretudo) deslizavam sobre o gelo do canal cheio de príncipes perfeitos. Uma boneca engalanada e de pernas muito abertas. O tricot em vez da liquidez. O desejo como uma respiração profunda. O aro espelhado e a força da gravidade. A rosa feita de pano. As perguntas. O eco. A desesperança. É sábado e ainda bem que assim é.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Convite

Clicar para aumentar
e
*
ee
Nota: Este mesmo livro vai ser apresentado na Livraria Intensidez, em Évora, na quinta-feira dia 20 de Novembro pelas 18,30h.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Desaparecer, aparecendo

Uma pausa, hoje em dia, tem o nome de morte. É a velha história da impaciência diante do que se imagina ter que ser perfeito. O que antes era a impaciência dos místicos face ao apocalipse ou dos comunistas (de há cem anos) perante a "apoteose da humanidade" é, no nosso tempo, a impaciência diante dos cliques. Mais do que tês cliques é a morte. A pausa, a espera - como estás longe Eurídice! - é agora sinónimo real de desaparecimento. Mas o Miniscente vai passar a ter pausas e grandes esperas. Um novo modo de desaparecer, aparecendo.

Não existir, existindo

Reato a escrita no blogue em pleno comboio. Só sei que quero manter este espaço, embora os territórios, hoje em dia, só existam quando feericamente actualizados. Mas quem sabe se este Miniscente não se vai mesmo transformar num espaço que não existe, existindo?