Destila-se a bobina do filme, imagem após imagem, e o relógio torna-se num muro. Visto de longe, parece até ter asas. O tempo faz a cor da erva, do mesmo modo que a névoa permite adivinhar a forma incerta do muro. Há dias assim: começam por ser meros delírios e avançam, depois, em direcção ao olhar como se fossem amazonas. Como nos filmes. Murnau filmou o Fausto e emprestou-lhe asas incorruptíveis. Lembro-me que, a certa altura, havia duas estradas que se juntavam num único ponto. Ponto de luz. Havia névoa, é verdade. E estava lá tudo. Menos o fio-de-prumo. E a música. Há dias em que a esperança volta a ser apenas uma palavra; ter saído de lá - da palavra - é que fez com que esperança não passasse da imagem do tal muro que antes tinha sido bobina, Fausto, delírio ou tão-só (perdoem-me as feministas) amazona. Genealogias secretas.sábado, 15 de novembro de 2008
Destilando o fio-de-prumo
Destila-se a bobina do filme, imagem após imagem, e o relógio torna-se num muro. Visto de longe, parece até ter asas. O tempo faz a cor da erva, do mesmo modo que a névoa permite adivinhar a forma incerta do muro. Há dias assim: começam por ser meros delírios e avançam, depois, em direcção ao olhar como se fossem amazonas. Como nos filmes. Murnau filmou o Fausto e emprestou-lhe asas incorruptíveis. Lembro-me que, a certa altura, havia duas estradas que se juntavam num único ponto. Ponto de luz. Havia névoa, é verdade. E estava lá tudo. Menos o fio-de-prumo. E a música. Há dias em que a esperança volta a ser apenas uma palavra; ter saído de lá - da palavra - é que fez com que esperança não passasse da imagem do tal muro que antes tinha sido bobina, Fausto, delírio ou tão-só (perdoem-me as feministas) amazona. Genealogias secretas.A maior comoção
eeUm dia, era criança, caí no mármore. Literalmente. Como acontece em todas as iniciações. Era uma fonte esférica como o mundo e, talvez por isso, tenha percebido que o murmúrio dos deuses era - e é - um feito menor. Deuses de seda que levitavam sem andas. Era uma fonte feita de mármore e estava toda inundada de limões: espécie de nuvem silenciosa, sem densidade, mas de mármore. Compacta. Nasci no meio do mármore e nunca entendi os cemitérios como locais para a derradeira queda. Porque sempre revi nos estilhaços cor-de-rosa que percorrem a pedra a bonomia de uma paixão, cujas figuras se espreguiçariam sob as raízes de oliveiras antigas. Essas, sim, ermas, perdidas, algo deserdadas. Um dia caí dentro deste pranto esbranquiçado e em vez de encarnar, vi o mar. À beira mármore, havia um mar de limões. Do outro lado, havia a compaixão da guerra. Tem sido sempre assim. Até hoje, dia da maior comoção.
Rostos estelares
Pêndulo
Agarro-me ao pêndulo da Rita Botelho e respiro fundo. O oceano como uma mesa sem fim. A aguarela, por cima, como escalada entre o tampo, o pó e a visão. Sonhei um dia com um fio-de-prumo que terminava num aro a girar sobre si mesmo. Uma bailarina de baquelite com olhos densos, azulados, espumosos. A boneca que está ainda sentada na montra da Palmdwarsstraat. O tricot em vez do oceano e a mesa sem fim em vez do pêndulo. Luzes azuladas, néon, passos apressados, perguntas. Continuo agarrado à trave do carrossel e a vida escoa como o pó ou como aquela visão com que sonhei um dia, era Inverno, e as gabardinas de cor viva (amarelas e vermelhas sobretudo) deslizavam sobre o gelo do canal cheio de príncipes perfeitos. Uma boneca engalanada e de pernas muito abertas. O tricot em vez da liquidez. O desejo como uma respiração profunda. O aro espelhado e a força da gravidade. A rosa feita de pano. As perguntas. O eco. A desesperança. É sábado e ainda bem que assim é.terça-feira, 4 de novembro de 2008
Convite
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Nota: Este mesmo livro vai ser apresentado na Livraria Intensidez, em Évora, na quinta-feira dia 20 de Novembro pelas 18,30h.
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Desaparecer, aparecendo
Uma pausa, hoje em dia, tem o nome de morte. É a velha história da impaciência diante do que se imagina ter que ser perfeito. O que antes era a impaciência dos místicos face ao apocalipse ou dos comunistas (de há cem anos) perante a "apoteose da humanidade" é, no nosso tempo, a impaciência diante dos cliques. Mais do que tês cliques é a morte. A pausa, a espera - como estás longe Eurídice! - é agora sinónimo real de desaparecimento. Mas o Miniscente vai passar a ter pausas e grandes esperas. Um novo modo de desaparecer, aparecendo.
Não existir, existindo
Reato a escrita no blogue em pleno comboio. Só sei que quero manter este espaço, embora os territórios, hoje em dia, só existam quando feericamente actualizados. Mas quem sabe se este Miniscente não se vai mesmo transformar num espaço que não existe, existindo?
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
Recuperando tempo

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Por alguma falta de tempo - "alguma" é favor -, nem tenho aqui divulgado as minhas crónicas do Expresso Online. Aproveito, no entanto, para dar conta do que escrevi nas últimas dezasseis semanas (fica o título de cada uma das crónicas e o respectivo link):
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A carne e o ciúme da política
O fascínio ocidental pela China
Chegámos já ao 'pós -11 de Setembro'?
Viva o Benfica!
Faço anos na próxima segunda-feira
Um tratado de filosofia na primeira pessoa
A intimidade da crónica
O feminino ocidental e uma tradição islâmica
De Nietzsche a Gondomar: Vá para fora cá dentro!
Manuela Ferreira Leite e o Marechal Tito
Metamorfoses lusas: o Género, "Aiata" e o Incêndio
O Islão e as minhas heresias
Vergílio Ferreira ou o blogue à Henrique VIII
O Google, Sócrates e a fragilidade do estado
Da selecção à queda em desgraça do FCP
Do paternalismo à liberdade
O fascínio ocidental pela China
Chegámos já ao 'pós -11 de Setembro'?
Viva o Benfica!
Faço anos na próxima segunda-feira
Um tratado de filosofia na primeira pessoa
A intimidade da crónica
O feminino ocidental e uma tradição islâmica
De Nietzsche a Gondomar: Vá para fora cá dentro!
Manuela Ferreira Leite e o Marechal Tito
Metamorfoses lusas: o Género, "Aiata" e o Incêndio
O Islão e as minhas heresias
Vergílio Ferreira ou o blogue à Henrique VIII
O Google, Sócrates e a fragilidade do estado
Da selecção à queda em desgraça do FCP
Do paternalismo à liberdade
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Volta ao Mundo - 25
wPois foi. A Clara e o Miguel acabaram a volta ao mundo e eu demorei três semanas a colocar aqui a última crónica que me enviaram. É a que se segue, escrita ainda na África Austral, depois de terem aventurosamente atravessado o planeta no sentido das Américas-Pacífico-Oceania-Ásia-África e, de novo, Europa. Que me desculpem!
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África do Sul
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Imagino uma nuvem. No meio dos círculos de medo e ódio, loucura e amplitude deste país, aparece na forma de um momento. Dou-lhe um nome. Humanidade.
Imagino uma nuvem. No meio dos círculos de medo e ódio, loucura e amplitude deste país, aparece na forma de um momento. Dou-lhe um nome. Humanidade.
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Têm um ar duro, são quatro ou cinco ou mais homens de um negro aflito a sair-lhes de cada poro. Enfrentam a máquina fotográfica com desprezo de bandido. As mãos são armas e dedos desiludidos. Mas de pose firme para a incerta posteridade. Até que lhes mostro o resultado. Só observo. E tremo. Com medo. Um a um, pegam no seu reflexo. É esse o momento que retenho. De uma nuvem a sair-lhes pelos dentes. Feliz. A violência esquecida por um instante de verdade.
Têm um ar duro, são quatro ou cinco ou mais homens de um negro aflito a sair-lhes de cada poro. Enfrentam a máquina fotográfica com desprezo de bandido. As mãos são armas e dedos desiludidos. Mas de pose firme para a incerta posteridade. Até que lhes mostro o resultado. Só observo. E tremo. Com medo. Um a um, pegam no seu reflexo. É esse o momento que retenho. De uma nuvem a sair-lhes pelos dentes. Feliz. A violência esquecida por um instante de verdade.
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E da maior humanidade.
E da maior humanidade.
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Outra nuvem: no meio de um caminho duro, entre leões, vida e a terra maior do mundo, uma cassete velha canta, em Xhosa, língua de estalos e surpresas. "Com a voz canto a minha África, a minha liberdade".
Outra nuvem: no meio de um caminho duro, entre leões, vida e a terra maior do mundo, uma cassete velha canta, em Xhosa, língua de estalos e surpresas. "Com a voz canto a minha África, a minha liberdade".
e
- Esta é a única frase de toda a canção. – diz o Sam, um homem de sonhos que nos guia por aquele castanho forte. - Não gosto de músicas cheias de letras. As frases verdadeiras precisam de espaço.
- Esta é a única frase de toda a canção. – diz o Sam, um homem de sonhos que nos guia por aquele castanho forte. - Não gosto de músicas cheias de letras. As frases verdadeiras precisam de espaço.
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Imagino mais nuvens. Esmagadas por medos, ódios, loucuras e amplitudes deste país. Tão negro e branco e inicial. O maior país do mundo. Espero que existam.
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Escrevo em casa. Em círculos. Sem saber se cheguei ontem ou não cheguei ainda. Tenho este sul de África na garganta, em pedaços vivos. Como uma música de letra verdadeira e que precisa de espaço. Uma nuvem.
Imagino mais nuvens. Esmagadas por medos, ódios, loucuras e amplitudes deste país. Tão negro e branco e inicial. O maior país do mundo. Espero que existam.
e
Escrevo em casa. Em círculos. Sem saber se cheguei ontem ou não cheguei ainda. Tenho este sul de África na garganta, em pedaços vivos. Como uma música de letra verdadeira e que precisa de espaço. Uma nuvem.
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Texto: Clara Faria Piçarra
Fotografia: Miguel Sacramento
Texto: Clara Faria Piçarra
Fotografia: Miguel Sacramento
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
PNETliteratura
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Começou hoje o site PNETliteratura. O que explica, pelo menos em parte, o silêncio aqui acumulado no Miniscente. Bastará abrir o novo site para perceber porquê.
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