Uma noite
a névoa de ouro
a corda a desprender-se
como o fogo
a atear
o navio
polar.
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Raveliana - 1
A respiração crepuscular.
Quando a transparência dos canais era
o olhar
de frente
feito de argila
a respirar
no fundo do rio.
Quando a transparência dos canais era
o olhar
de frente
feito de argila
a respirar
no fundo do rio.
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Férias
De férias, ou melhor, entre dois períodos de férias. A própria ideia de férias é tão recente (e ocidental) quanto confusa: implicaria separar o que se entende por trabalho do que se possa entender por descanso. Na prática, toda a gente interioriza muito bem este tipo de separação, já que ela nasceu numa sociedade que se inventou a si própria atribuindo menos força à iniciativa do que à lógica do por conta de outrem. Mas as férias significam tudo menos inactividade. As férias são uma indústria e, ao mesmo tempo, uma ostensão. É nas férias que o gelo, parecendo derreter, se torna em iceberg: um imenso jogo de espelhos que, embora imaginando-se livre, acaba por encarnar a rotina e o mimo de um formigueiro.
sábado, 2 de agosto de 2008
Volta ao Mundo - 24
eFaz já em Setembro um ano que a Clara Piçarra e o Miguel Sacramento partiram para uma volta ao mundo. Foram para Ocidente e regressarão pelo Oriente. Do último continente percorrido, a África, chega-nos agora, não uma crónica, mas uma "respiração":
e"Primeira Respiração"
e
"Estou em África.
e
O ar é maior, enche-me o peito com uma força que me ultrapassa. Há uns dias, quando menos esperava, senti-me a descalçar. E andei. Andei com os pés dentro da terra, num passo arrastado, demorado, sem forma conhecida. Não sabia que podia entrar assim no mundo. O céu é maior…mas não nos esmaga. Preenche todos os espaços. É mais do que cor, mais do que uma ilusão. Há uns dias, quando menos esperava, deitei-me sem tecto. E ouvi. Cada estrela, cada cheiro. Descobri. Que aqui o céu tem… som.
e
Se eu fosse uma árvore era África. Ou um animal. Ou uma pedra. Era África. Seria o meu próprio início. Acho que é verdade."
eedsegunda-feira, 28 de julho de 2008
Inércias
e
Pois é, este sexto ano de Miniscente tem sido dominado pela inércia. Não é tanto a dificuldade em aqui vir, devido às muitas ocupações; é sobretudo o adiamento a que dou carta branca sempre que sinto inclinação mínima em postar. Não sei, mas deve ser mesmo falta de vontade de continuar a blogar. Ou não serão as férias, essa desejada e longínqua presa que me olha, ainda de longe, como um touro para um forcado?
sexta-feira, 18 de julho de 2008
Volta ao Mundo - 23
eHá dez meses, a Clara Piçarra e o Miguel Sacramento partiram para uma volta ao mundo que o Miniscente tem acompanhado... passo a passo. Embora já se encontrem em África, hoje a crónica chega-nos ainda da Indonésia e fala-nos, entre outras coisas, das consequências de um recente e terrível maremoto:
e"Indonésia – Bali e Sumatra (Pulau Nias)"
e"Há alturas em que ficamos quase sem nada. Não porque perdemos, ou desistimos, ou deixámos de agarrar. Ficamos quase sem nada. Porque vimos. Olho para longe e sinto a onda como se fosse minha. Nos pés. No peito. Na incerteza. Sou água ou sol? Sou vento, azul, quase transparente. Se pudesse chorava. Ou gritava. Ou sorria. Se pudesse. Mas deixei de ser formado por pedaços. Transformei-me em tudo. Desço a onda, sinto, faço parte. Não há nada fora de mim. As vozes são minhas, as cores, o sal, o momento curvo de força pura. Sei que não sou eu. Eu agarro apenas um sonho. Com as duas mãos, debaixo do braço… como se deve agarrar um sonho: com a certeza de que um dia vai ser inteiro.
e
Há alturas em que ficamos quase sem nada. Não porque perdemos, ou desistimos, ou deixámos de agarrar. Ficamos quase sem nada. Porque vimos. O caminho é duro. Não percebo porquê. O verde prolonga-se numa floresta cerrada que só desiste no mar. A estrada vence com calma cada curva. Recebem-nos com fruta e vontade. Por que sinto ser tão difícil? É quando estamos sentados num chão que serve conversa fácil que olho pela primeira vez. Não para o verde, não para o mar… para o vazio. Todas as casas estão vazias. Não há mesas, ou cadeiras, ou quadros. Há apenas vazio fechado entre paredes e tectos. Nias foi destruída por uma onda gigante que vimos na televisão. Nos anos seguintes dois tremores de terra resumiram a destruição. Lentamente, as casas vão crescendo como as pessoas que ali vivem. Num vazio envolvido por pele fina. Mas que guarda uma esperança que não sabia possível.
d
Os desequilíbrios não são a perda da vertical. São os espaços vazios que se criam quando não há justiça. Temos culpa. Porque sabemos que existem."
e
Texto: Clara Faria Piçarra
Fotografia: Miguel Sacramento
terça-feira, 15 de julho de 2008
Hoje é o dia do quinto aniversário do Miniscente

e
Parece que foi hoje, mas a verdade é que as primeiras palavras do Miniscente foram escritas num ambiente muito diferente do que hoje nos respira e envolve.
e
O 09/11 estava ainda fresco, o Iraque fervilhava em pleno, Durão era PM, o caso 'Casa Pia' ainda não existia e uma nova (e pouco compreendida) febre comunicacional estava a arrancar em Portugal.
e
Este desafio ao espaço público, com a tonalidade com que foi singrando há pouco mais de meia década, durou pelo menos três anos. Foi um início de milénio caudaloso! De facto, foi particularmente interessante ter assistido e colaborado na emergência de uma nova área dos media (ainda não absorvida pelas tradicionais) que apostava em ser um pouco de tudo do que já se conhecia - diário, memórias, crónica, botequim, crítica, monólogo, etc. -, embora marcando sempre identidades para fora desses perímetros referenciados e excedendo, sem quaisquer preconceitos, o esquematismo ficção-realidade e/ou verdade/sentido.
e
Foi também um auspicioso e generoso movimento de afirmação personalista, num tempo em que tudo aparentemente parecia condenado ao apagamento autorial. Foi ainda a reocupação de uma área militante, mas sem ideologia a comandar os barcos, os portos, os submarinos e as secretas.
e
A nomes conhecidos da opinião, juntar-se-iam imensos nautas que pretenderam cunhar a sua expressão através de um novo labirinto, de que a figura dourada do "link" foi muitas vezes - por ausência ou presença - protagonista de ouro.
e
Enfim, a primeira década do século XXI teve a sua própria onda expressiva, de algum modo comparável - colocando de lado as auto-descobertas da tecnhé - à do cinema que floresceu cem anos antes.
e
Aliás, o desafio expressivo criado pelo novo meio (e que sempre me encantou enquanto fenómeno) levou-me mesmo a escrever um livro, publicado já este ano, que tentou levar a cabo o balanço compassado e pensado de toda esta euforia.
~e
Não creio que a explosão bloguista - ou blogueadora - tenha já acabado; o que creio é que ela já não existe do modo fulgurante com que se fez significar no tempo da 'grande bolha' (digamos: 2003-2006).
e
O Miniscente, nos últimos cinco anos, atravessou todo este terreno. Um terreno imensamente fértil, mesmo sob o ponto de vista humano. Não sei o que teria feito, se não me tivesse ocupado tantas horas na redacção de perto de 4.000 posts. Mas não me arrependo. Olho para trás e compreendo que foi uma fase virtuosa e arrebatada. Adoraria, em todas as fases da minha vida (passadas ou futuras), poder sempre mergulhar em comunidades tão estimulantes quanto foi a dos blogues no seu período de excelência.
e
Agradeço a todos os que me têm lido e acompanhado nesta saga. Não posso prometer o que já prometi noutros aniversários do meu blogue. Também não acabarei com o Miniscente neste dia de festa! A eutanásia não é quase nunca boa conselheira. Se este meu blogue tiver que acabar, acaba naturalmente. Por ora, prometo uma coisa: o Miniscente vai envelhecer com a mesma serenidade com que o meu cão Ulisses também está a envelhecer. Hoje em dia, no mundo célere em que vivemos, cinco anos são cinco séculos. Quase meio milénio, ou seja: qualquer coisa já muito perto da salvação.
segunda-feira, 14 de julho de 2008
Quinto Aniversário do Miniscente (cont.)
e
Na véspera do quinto aniversário do Miniscente, deixo aqui mais quatro de treze poemas preparados para celebrar o microacontecimento:
eaNa véspera do quinto aniversário do Miniscente, deixo aqui mais quatro de treze poemas preparados para celebrar o microacontecimento:
A árvore
w
Existe um salmo
a invadir o antigo rumor de Boticelli
w
basta olhar para as árvores sem género
que gravitam entre o vazio e a folhagem densa
da Primavera
para entender o modo como as formas
semeiam na consciência
uma poeira fina de argila vermelha
que nos traz
rosto a rosto
dia a dia
o horizonte quase inabitado.
w
A procura
e
Disse que o caminho era longo
uma descida íngreme entre o vestígio dos caules e a
lentidão da voz
e
trouxe o musgo em que imaginámos
os acampamentos e o fulgor das
vias e viadutos à procura do mundo
e
seguiu pela grande estrada e era já
demorada a saudade dos moinhos de vento
escarnecidos pela luz
da cidade.
e
O pólen
e
Subia pela rua que ia dar ao pólen
e
foi nesse dia que reviu
figueiras esvaídas e a luz que as abelhas
consumiram
para ver passar
e
a beleza
que era o nome desse incêndio
ee
A noite
e
Estava reclinada sobre a noite
a entrever as giestas e um desses volumes
de alvenaria que irão dar à alma
e
dizia
e
que Vermeer era
o pintor
que teria gostado de a ver
e
voaria através da luz inclinada
e dessa penumbra inventaria a noite
que o rio já absorveu.
domingo, 13 de julho de 2008
Quinto Aniversário do Miniscente

e
A dois dias do quinto aniversário do Miniscente, deixo os primeiros quatro de treze poemas escritos para celebrar o microacontecimento:
dd
A corrida
w
As luzes ao longe ciciavam
na memória dos muros
entre amores-perfeitos e o ressoar
dos passos com que regressava
no fim do Verão e havia chuva
ee
lembro-me de passar folha a folha
o tempo a correr como se a sombra trouxesse
ao suor aqueles dias já mais curtos em que
falava de bois deslumbrantes a cruzar a nora do quintal
e
havia silêncio ao fundo do corredor
e ciciavam luzes sob a maresia
enquanto olhava para a chuva
que tolhia a voz
w
As luzes ao longe ciciavam
na memória dos muros
entre amores-perfeitos e o ressoar
dos passos com que regressava
no fim do Verão e havia chuva
ee
lembro-me de passar folha a folha
o tempo a correr como se a sombra trouxesse
ao suor aqueles dias já mais curtos em que
falava de bois deslumbrantes a cruzar a nora do quintal
e
havia silêncio ao fundo do corredor
e ciciavam luzes sob a maresia
enquanto olhava para a chuva
que tolhia a voz
e e
quem dera ao luar este amor
este rugido na falésia da memória
e
lembro enquanto caminho
sem idade
na direcção dos plátanos despidos.
e
O boi
d
O tempo serenou junto ao campo de aviação e os olhos do boi
levantaram-se lentamente e
viram o trono de deus
d
naquele tempo
a boa nova não apareceu no traçado dos rolos
mas sim nos relâmpagos
e nos cascos com que o animal avançava
em direcção ao rio,
cheio de farpas galanteios e sangue
d
nas águas viu-se como um deus no fim daquela tarde
e em cor de ouro escalou à arena do paraíso
abraçado ao toureiro aviador que era apóstolo da chuva.
d
O desafogo
d
Havia sangue nas rosas e o regador parecia
um céu
a clarear na memória do pasto
d
e as ovelhas continuavam escondidas sob oliveiras
ali mesmo
ao lado do corpo abandonado
e e d
O Corredor
ed
Era silencioso
longo
e a cortina ao vento
paralisava os sentidos
d
ao fundo
havia um corrupio de pombos a revolver
a escrita com que se respirava
o ar profundo e fresco do poço
d
passava em frente da cortina
bordada pelas viagens e aí permanecia
como se fosse uma deusa
a olhar para a crista das ondas
d
até que um dia a sétima vaga subiu pelo farol
e drenou a imagem com que se apagaou
na lembrança dessa paixão que era
quem dera ao luar este amor
este rugido na falésia da memória
e
lembro enquanto caminho
sem idade
na direcção dos plátanos despidos.
e
O boi
d
O tempo serenou junto ao campo de aviação e os olhos do boi
levantaram-se lentamente e
viram o trono de deus
d
naquele tempo
a boa nova não apareceu no traçado dos rolos
mas sim nos relâmpagos
e nos cascos com que o animal avançava
em direcção ao rio,
cheio de farpas galanteios e sangue
d
nas águas viu-se como um deus no fim daquela tarde
e em cor de ouro escalou à arena do paraíso
abraçado ao toureiro aviador que era apóstolo da chuva.
d
O desafogo
d
Havia sangue nas rosas e o regador parecia
um céu
a clarear na memória do pasto
d
e as ovelhas continuavam escondidas sob oliveiras
ali mesmo
ao lado do corpo abandonado
e e d
O Corredor
ed
Era silencioso
longo
e a cortina ao vento
paralisava os sentidos
d
ao fundo
havia um corrupio de pombos a revolver
a escrita com que se respirava
o ar profundo e fresco do poço
d
passava em frente da cortina
bordada pelas viagens e aí permanecia
como se fosse uma deusa
a olhar para a crista das ondas
d
até que um dia a sétima vaga subiu pelo farol
e drenou a imagem com que se apagaou
na lembrança dessa paixão que era
secretamente
a minha.
sexta-feira, 4 de julho de 2008
O quinto aniversário: rumores íntimos
ew
No próximo dia 15 de Julho, desta terça a oito, o Miniscente fará cinco anos. Um tempo simbólico, mais nada. Relembro sumariamente (com aquele tipo de síntese que não recobre a massa das coisas) o que tem sido esta saga.
e

e
O primeiro ano foi de vício e compulsão sem fim. O segundo ano foi de intensíssima apropriação do meio. O terceiro ano foi o ano que culminou com a evidência do metabloguismo. O quarto ano foi de mini-entrevistas e de aceso debate sobre a dupla ficção-realidade. O quinto ano foi tempo de travagem, de mais inércia e, sobretudo, de contemplação menos deslumbrada.
e

e
Nada sei sobre o sexto ano a vir, porventura o da desmobilização natural (até porque há novos desafios na rede a que vou ser chamado a partir do próximo Outono). Veremos.
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