quinta-feira, 19 de junho de 2008

Reportagem do Portugal - Alemanha (act.)

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Dez minutos antes do jogo
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O futebol consegue colocar-se acima das irritações, das euforias e dos alheamentos de quem o detesta. E isso acontece porque o futebol vive justamente de irritações, de euforias e de tudo o mais com excepção para a indiferença. Um excêntrico do nosso tempo passeia-se num carrinho de choque com som de motorizada, veste-se de papagaio com um chapéu em forma de bacalhau e ostenta uma bandeira com haste de dez metros. Toda a 24 de Julho apita. Tudo e todos o contracenam. Há um arrepio que assola o asfalto. As pessoas acenam, conjecturam e rogam ditos e vaticínios nos cafés e nas pastelarias. Confessam coisas sobre os jogadores: que não têm pernas, que são gigantes, que não têm guelras, mas que são - de certeza - pequenos faustos ao sabor da maré alta. Há um uníssono a percorrer o país. Estranho e bárbaro uníssono. Estranho e belíssimo uníssono. Misterioso, no mínimo. Faltam dez minutos para o Portugal-Alemanha (eu penso mais em derrota...).
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Ao intervalo
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Ao intervalo, para já, confirmam-se os prognósticos. A Alemanha foi mais física, mais decidida, mais empenhada. Portugal entrou com passividade, mostrou algum engenho no lado direito (Simão e Bozíngua) e nada de golpe de génio. E depois acontece sempre a mesma coisa: por que é que o Nuno Gomes só faz disto na selecção e não no meu - e seu - clube?). Para a segunda parte, não acredito em grandes mudanças. Vê-se que Ronaldo está fora do seu aquário e que não é, na selecção, nem um Figo, nem muito menos um Eusébio. E sinto que, cada vez que a Alemanha ataca, tudo pode acontecer: muita corrida, boa troca de bola e rapidez concertada. No lado português, parece haver menos crença e o labirinto de passos e toques sugere que não há ousadia que chegue para dar a volta. Oxalá me engane.
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No final do jogo
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E, pronto, tal como previra, ganhou a melhor equipa em campo. Diga-se a verdade. O assombro final de Portugal não bastou para encobrir as fragilidades gerais. Mesmo tendo em conta o truque do terceiro golo alemão.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Volta ao Mundo - 22

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Foi há dez meses que a Clara Piçarra e o Miguel Sacramento partiram para uma volta ao mundo que o Miniscente tem acompanhado... passo a passo. Hoje, a crónica chega-nos da Tailândia. Mas fala - e de que forma - da tragédia da Birmânia:
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"A Norte. Tailândia"
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"Desfaço as minhas guerras com as mãos. Com a fragilidade de um pensamento, separo cada fio como se fosse a minha vida. Tenho cinco anos e estou sozinha. Tenho apenas nada e o mundo pela frente. Sem rumo e numa terra vazia, estou entre a tempestade. De pessoas que matam sem duvidar. Separo esse fio e cresço. Fujo de mim, do meu país. Deixo as memórias sem fronteira e o espaço sem ilusão. Tenho quinze anos e estou sozinha. Não tenho vozes que me dêem a mão. Separo o calor. O medo. E as minhas coisas simples. Deixo-os passar nos meus dedos com a suavidade de cada importância. E cresço. Para um lugar que me torne em futuro, em vontade. Separo o último fio. Estou aqui. Sozinha. E sem idade.
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As "Long Neck" são refugiadas Birmanesas numa Tailândia que as aceita de braços fechados. A cada gesto cresce-nos o dilema de uma vida. Se não as visitarmos, se não olharmos para os seus anéis de tradição fechada, são obrigadas a voltar ao mundo dos medos mais básicos. Regressam ao que fugiram, às suas guerras, ao país que as matou. Mas, quando as conhecemos, há outro lado. Sem desculpa, sem palavra: não é o retrato que aparece em cada fotografia que lhes tiramos. É a alma a diluir-se sem esperança.
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Com a fragilidade de um pensamento, pego nuns fios. E desfaço as minhas guerras."
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Texto e Fotografia Clara Faria Piçarra

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Bloomsday aziago

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Hoje, dia 16 de Junho, é o Bloomsday. E imagine-se que a cisão tomou conta de um dos mais habituais eventos do dia.

domingo, 15 de junho de 2008

Bluff & Bluff

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Na língua árabe, há uma série de palavras para designar falcão. É normal que uma língua reflicta o meio ambiente em que nasceu e se desenvolveu. Por exemplo, em Português, bluff diz-se de inúmeras formas, embora quase todas rimem com ‘Pomposo’. Veja-se o metro de Mirandela que toda a gente sabe que é o rebaptizar (caro) de linhas-férreas pré-existentes. Veja-se o aeroporto de Beja que toda a gente sabe que é o rebaptizar (caro) de uma base aérea da NATO. Veja-se o ‘património mundial’ que toda a gente sabe que é um rebaptizar cerimonial (e caro) das ‘cidades-museu’. Isto para já não falar do contentamento que dá às populações ver um edifício na terra onde apareça escrita a palavra “Universidade”, mesmo que lá dentro apenas se jogue bridge ou se façam reuniões para discutir o peso de um frango. Isto para já não falar dos clubes de futebol que, à custa dos contribuintes, inflamam a praça pública para mera satisfação tribal ou regional.
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Versão completa no Expresso Online (próxima quinta-feira)

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Eu também!

A vitimização é uma peça indispensável nestes arraiais
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Eu também quero portagens mais baratas à noite. Eu também quero a majoração em 20 por cento dos custos com o gasóleo. Eu também tenho uma empresa. Eu também vivo no planeta onde houve subprime e onde o petróleo sobe como um balão incontrolado. Eu também gostava de ser um piquete com botas cardadas em todo o asfalto do país, de Norte a Sul. Eu também. E você? (não, eu nunca gostei de dizer "você"; salvo com amigos brasileiros).

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Morte

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A morte quando chega é sempre inesperada. Um mail, um nome, um. E depois segue a rememoração do que tinha acontecido 'antes'. A última vez que a vi. A última vez que com ela falei. A última vez que sorri para ela ou a última vez que me arreliei com ela. De repente, como numa cascata, tudo. Por dizer. Tão inadvertido como a mais elementar das nuvens que se eleva no céu, que ganha corpo e que, num abismado relance, já não é. Volta a não ser. E não há palavra que chegue a ter tempo para dizer que não entende. Nem tempo, nem sentido. Quando chega, já foi. Um sentimento não esboça o que poderia sentir: dilui-se logo na nuvem que o faz. E agora, daqui a uma hora, é a República Checa ou é a BP que é mais barata do que a Galp?

segunda-feira, 9 de junho de 2008

As pontes de Portugal

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Um dia de novo invadido pelo pranto que se esconde nos reversos do espanto solar. Ambiente generalizado de férias: é essa a aura da função muito pública que faz Portugal ser um país matreiro. Fintar no relvado e fintar na vida. Circular, conjecturar e conjurar com pequenos truques, breves devaneios. Também é assim na poesia: enredada e nem sempre clara, embora, quando parece sê-lo, se torne tão transparente quanto a trave da baliza nos antípodas luminosos dos pés de Cristiano.

domingo, 8 de junho de 2008

Curiosidades do Europeu - 1

BKC
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Até agora, as selecções mais toscas foram, curiosamente, as dos países mais organizados. Onde tudo já está feito: do canteiro à música no coração. Áustria e Suíça espelham esse desprazer de conviver com uma bola e de a ver brilhar. Já o caso alemão é bem diferente. Note-se que a Alemanha nunca espanta. O que fica é a imagem dum exército quase monótomo, duma abertura operática ou dum aforismo de Nietzsche onde o que bate certo é o alinhamento poderoso e a eficácia do ritmo. É o quanto basta. Talvez por isso, a Polónia - que nunca venceu o marciano vizinho e ocidental - tenha hoje preferido hibernar a jogar. Neste concerto dos deuses chamados nações, a Croácia apareceu em cena como a silhueta de um litoral cansado, exausto e saciado de tanto peso recente: a história de um país não é, de facto, a história de uma intermitência. E isso acaba por notar-se, mais cedo ou mais tarde. Cristalinamente. Por fim, a questão nacional. Seja como for, só se pode falar de Pessoa, Crsistiano, António Nobre, Nuno Gomes ou Garrett, se nos referirmos ao colapso Otomano. Já lá vai o tempo em que o lago mediterrânico, de Argel a Istambul, era o lago do grande Levante imperial. Em Genebra, os turcos não atacaram, nem fizeram eco da sua épica. Pareciam segredar que os deixassem em paz. O excelente labirinto do passe lusitano ajudou, e de que forma, a uma Lepanto serena, suave e sem sangue. Como se fosse pura predestinação. A diáspora portuguesa ajudou (Pepe, Deco, etc.) e soube encontrar no canto coral da crise a receita certa para um Verão tranquilo. Um samba de santos populares com campinos bamboleando entre silvas, canaviais e casas suíças com leões e aguiazinhas de latão. Um brinde tauromático e tão repentinamente descontraído que fez lembrar Vilarett à solta no encanto da sua Procissão.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Pobre humor

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Grassa hoje em Portugal um humor que diz a si próprio que tem que ser humor. 'Ter que': eis o leitmotiv de uma arbitrariedade cega que leva a palavra a forçar, a impingir e a bater na parede como um autocarro sem travões. O que sobra da fuga para a frente é sobretudo piedade pelo esforço destes novos nómadas da expressão. Um vazio feito de imperativo é bem pior do que um vazio feito de inocência.